Contaminação por plásticos é uma preocupação “negligenciada” em programas de gestão de resíduos alimentares, dizem especialista

Pesquisadores descobriram que os microplásticos podem persistir na compostagem, infiltrando-se nos solos agrícolas

Um caminhão descarrega resíduos orgânicos como parte de um projeto de compostagem na Califórnia. Cerca de um terço dos alimentos produzidos no mundo é desperdiçado a cada ano, segundo dados da ONU. Fotografia: Rich Pedroncelli/AP 

Por Ushika Kidd para “The Guardian”

A contaminação por plástico deve ser uma preocupação central nos esforços para lidar com o desperdício de alimentos, que ativistas consideram um dos problemas mais negligenciados da crise climática, afirmaram pesquisadores.

Isso apesar de, como afirma o chef, escritor e ativista Max La Manna, a gestão do desperdício alimentar ser “um dos poucos problemas climáticos em que todos saem ganhando”.

Segundo dados da ONU, cerca de um terço de todos os alimentos produzidos no mundo é desperdiçado anualmente. Nos EUA, 40% do desperdício alimentar vai para aterros sanitários, onde gera 30 milhões de toneladas métricas de CO₂ equivalente por ano – mais do queas emissões totais anuais de CO₂ de Cuba em 2024, que totalizaram 24,4 milhões de toneladas.

Um novo estudo, publicado na Nature Food , utilizou a modelagem de análise do ciclo de vida para comparar os impactos – em termos de clima, poluição por nutrientes e contaminação por plástico – de diferentes cenários de gestão de resíduos alimentares.

Os autores, da Universidade de Vermont, compararam os impactos climáticos anuais do descarte de resíduos alimentares em aterros sanitários com o impacto climático de métodos alternativos de reciclagem e descobriram que desviar os resíduos alimentares dos aterros sanitários reduziria os impactos climáticos entre 89% e 99%.

Esses cenários que não envolvem aterros sanitários também podem reduzir a poluição por nutrientes em corpos d’água – um processo chamado eutrofização que ocorre quando o excesso de nutrientes resulta na proliferação de algas.

Mas os pesquisadores também afirmaram que os microplásticos podem persistir na compostagem, o que poderia levar à contaminação de 20.000 toneladas de solos agrícolas nos EUA a cada ano. Até o momento, nenhum estudo analisou a “pegada da poluição plástica” de diferentes estratégias de gestão de resíduos alimentares em escala nacional.

Kate Porterfield, a autora principal, disse que o método era comparável a calcular a “pegada de carbono de um produto ou processo”. Essencialmente, os pesquisadores analisaram o processo de gestão do desperdício alimentar e “somaram as emissões de carbono em todas as etapas do ciclo de vida”, explicou ela.

Porterfield afirmou que a grande maioria dos alimentos desperdiçados que ainda estão embalados “estragam antes mesmo de chegar ao consumidor”. Uma das abordagens para a reciclagem de resíduos alimentares é o uso de um “desembalador” mecânico; as embalagens são então descartadas em aterros sanitários, enquanto os resíduos alimentares são destinados a “reutilização benéfica, como compostagem ou digestão anaeróbica”.

No entanto, eles descobriram que, mesmo que as tecnologias de separação de plástico fossem 99% eficientes, o desvio de resíduos alimentares dos aterros sanitários ainda poderia aumentar a poluição por microplásticos no solo em uma ordem de magnitude. “Sempre que você desvia resíduos alimentares, existe o risco de poluição por microplásticos”, porque “as pessoas não são perfeitas, as máquinas não são perfeitas e todos os nossos alimentos hoje em dia são embalados em plástico”.

Segundo o coautor Eric Roy, o estado americano de Vermont possui um dos mandatos estaduais de desvio de resíduos orgânicos mais ambiciosos dos EUA.

A Lei de Reciclagem Universal do estado está em pleno vigor desde 2020 e exige que os resíduos alimentares sejam desviados dos aterros sanitários. Isso se aplica a todas as residências e significa que restos de comida estão proibidos no lixo comum.

Os autores afirmaram que suas descobertas forneceram uma avaliação eficaz da possível ampliação dessas regulamentações em todo o país e apontaram para a necessidade de “mais atenção à questão dos plásticos” desde o início da criação dessas políticas.

Phil Holtam, cofundador e diretor da empresa social de combate ao desperdício alimentar Sussex Surplus, afirmou que existe “um certo equívoco de que [as embalagens de plástico] são desnecessárias” e que se trata de uma “troca necessária”, essencial para prolongar a vida útil dos produtos frescos, especialmente para os pequenos agricultores.

“É aí que reside a tensão, porque, como ambientalistas, queremos reduzir o desperdício alimentar, mas também queremos evitar o uso desnecessário de plásticos.”

La Manna, que trabalhou com agricultores no Reino Unido e também testemunhou o desperdício de alimentos enquanto trabalhava em um restaurante com estrela Michelin em Nova York, disse que as expectativas dos consumidores por alimentos com aparência perfeita estavam moldando quais produtos chegavam às prateleiras dos supermercados e agravando o problema do desperdício. “Alguns podem ser deformados, tortos, ligeiramente imperfeitos esteticamente… [o que é] um desafio para os supermercados, porque eles acreditam que os consumidores querem um pepino perfeito.”

“Estamos permitindo que o ‘perfeito’ se torne esse inimigo do bom.”

Roy sublinhou que em instituições como as escolas, “pode haver algumas regras bem-intencionadas que, na verdade, criam desafios à transição para longe dos alimentos altamente embalados”, porque “a segurança alimentar será sempre uma preocupação primordial”.

Porterfield afirmou que, em última análise, para reduzir a contaminação por plástico, os sistemas de gestão de resíduos alimentares precisam ser “o mais fáceis possível, para que as pessoas separem os materiais de forma eficiente e automática”.

Isso incluía abordar o fenômeno da “reciclagem por desejo”, disse Roy, em que as pessoas colocam itens não recicláveis ​​na reciclagem na esperança de que sejam reciclados.

Ele aconselhou o “ambientalismo à moda antiga” para reduzir o lixo em geral: “compre a granel”, “faça todo o possível para separar” e “na dúvida, coloque no aterro sanitário”.


Fonte: The Guardian

Dossiê reúne uma década de evidências científicas sobre a relação entre agrotóxicos e câncer

Produzido pela Naturaleza de Derechos, documento sistematiza estudos publicados entre 2015 e 2026 e reforça a urgência de rever a regulação dos agrotóxicos diante da exposição ambiental e alimentar das populações 

A organização argentina Naturaleza de Derechos acaba de apresentar o Dossiê de Evidências Científicas 2015-2026 — Agrotóxicos & Câncer, publicação que reúne e sistematiza as evidências produzidas ao longo da última década sobre a relação entre a exposição a agrotóxicos e diferentes processos carcinogênicos.

O mérito do trabalho está justamente em reunir diferentes linhas de investigação que, consideradas em conjunto, permitem observar a dimensão do problema. O dossiê incorpora estudos epidemiológicos em seres humanos, estudos de coorte e de caso-controle, bioensaios experimentais e pesquisas sobre genotoxicidade, alterações epigenéticas, estresse oxidativo, imunotoxicidade e biomarcadores, além de trabalhos sobre os efeitos da exposição simultânea a diferentes substâncias.

É preciso tratar esse debate sem eufemismos. Quando se fala em câncer, está em questão um dos mais graves problemas de saúde pública. E quando as evidências científicas apontam para substâncias associadas a processos carcinogênicos presentes no ambiente, na água, nos territórios onde as pessoas vivem e nos alimentos que consomem, o problema deixa de ser apenas ambiental ou ocupacional para envolver diretamente a saúde coletiva e a segurança alimentar.

Segundo a sistematização apresentada no dossiê, a literatura científica aponta associações entre a exposição a determinados agrotóxicos e diferentes tipos de câncer, incluindo neoplasias hematológicas, câncer colorretal, câncer de mama, câncer de tireoide e tumores do sistema nervoso central. Ao mesmo tempo, estudos experimentais e mecanísticos vêm identificando processos biológicos relacionados à carcinogênese, ampliando a compreensão sobre as diferentes maneiras pelas quais essas substâncias podem produzir danos celulares.

Outro aspecto importante destacado pela publicação é que a exposição humana não ocorre de maneira isolada. Na vida real, as pessoas entram em contato com diferentes princípios ativos, formulações comerciais, metabólitos e coformulantes, por múltiplas vias e muitas vezes simultaneamente. Por isso, pesquisas mais recentes têm avançado na avaliação das misturas e de cenários de exposição mais próximos daqueles efetivamente experimentados pelas populações.

A questão ganha ainda maior relevância quando se considera a alimentação. O dossiê dedica um capítulo específico à exposição alimentar, relacionando as evidências científicas sobre câncer aos resultados de El Plato Fumigado 2024, também produzido pela Naturaleza de Derechos a partir de dados oficiais de monitoramento de resíduos do Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentar da Argentina (SENASA).

Os resultados de El Plato Fumigado 2024 tornam o problema bastante concreto: substâncias que despertam preocupação científica por seus possíveis efeitos sobre a saúde também aparecem como resíduos em alimentos comercializados e consumidos pela população argentina. Portanto, não estamos diante apenas de uma discussão abstrata sobre toxicologia, mas de uma questão diretamente relacionada ao funcionamento cotidiano do sistema alimentar.

Nesse contexto, o novo dossiê reforça a necessidade de uma reavaliação regulatória abrangente e periódica dos agrotóxicos pelo SENASA, incorporando as evidências científicas mais recentes. Essa revisão deveria considerar não apenas os princípios ativos isoladamente, mas também as formulações comerciais, metabólitos, coformulantes, misturas e as diferentes vias pelas quais ocorre a exposição humana.

A discussão ultrapassa o caso argentino. Para um país como o Brasil, que possui extensas áreas agrícolas submetidas ao uso intensivo de agrotóxicos, as questões levantadas pela Naturaleza de Derechos deveriam receber atenção especial. Afinal, os possíveis impactos não se restringem aos trabalhadores que aplicam essas substâncias, alcançando também populações rurais, comunidades próximas às áreas agrícolas, recursos hídricos potencialmente contaminados e consumidores expostos por meio dos alimentos.

O Dossiê de Evidências Científicas 2015-2026 — Agrotóxicos & Câncer oferece, assim, uma contribuição importante para um debate que não pode continuar sendo tratado como secundário. Quando diferentes linhas de investigação acumulam evidências sobre possíveis relações entre determinadas exposições e processos carcinogênicos, a prevenção precisa ocupar posição central nas políticas de saúde pública e nos sistemas regulatórios.

A verdade é que esperar que todas as dúvidas científicas desapareçam antes de adotar medidas preventivas, significa de forma objetiva, transferir para a população os riscos decorrentes da incerteza. Quando a exposição ocorre pelo ambiente, pela água, pelo trabalho e pelos alimentos, cabe aos órgãos reguladores acompanhar o avanço do conhecimento científico e adotar medidas capazes de proteger efetivamente a saúde humana.

A mensagem que emerge do trabalho produzido pela Naturaleza de Derechos é clara: diante do acúmulo de evidências científicas e da exposição cotidiana das populações, a prevenção não pode ser tratada como uma alternativa facultativa. Ela deve constituir uma obrigação sanitária e regulatória, na qual a proteção da saúde humana prevaleça sobre os interesses econômicos associados à manutenção do uso de substâncias sobre as quais pesam evidências relevantes de risco.

Super El Niño pode causar um choque global nos preços dos alimentos que durará até 2028, afirmam especialistas

Há três anos, o Banco Central Europeu estimou que um El Niño forte poderia elevar os preços das commodities alimentares em até 9%, com a soja entre as mais afetadas. Fotografia: Bloomberg/Getty Images  

Por Richard Partington, correspondente sênior de economia, para “The Guardian”

Economistas alertam que um ciclo climático “super” El Niño este ano pode causar um choque severo nos preços globais dos alimentos, com efeitos que podem se estender até 2028.

Com a guerra no Irã elevando os preços mundiais dos alimentos ao nível mais alto em três anos, economistas afirmaram que as cadeias de suprimentos enfrentam “dois choques simultâneos”, provocados por eventos climáticos extremos ligados ao aquecimento global.

Cientistas afirmaram que o El Niño de 2026-27 – que se forma quando mudanças nos padrões de vento permitem que águas mais quentes se espalhem pelo Pacífico equatorial central e oriental – tem uma chance historicamente sem precedentes de se tornar um evento “muito forte”, provocando ondas de calor, inundações e tempestades.

Informalmente descrito como um El Niño “super” ou “Godzilla”, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) confirmou no mês passado que as condições de aquecimento estavam se instalando no Pacífico e que havia 63% de chance de as temperaturas da superfície do mar ultrapassarem 2°C acima do normal ainda este ano.

Num momento em que as famílias em todo o mundo já sentem o impacto do aumento vertiginoso do custo de vida, especialistas afirmam que um El Niño extremo poderia agravar ainda mais a situação. A perspectiva de um novo choque inflacionário também preocupa os bancos centrais, aumentando o receio de que as taxas de juro possam ser mantidas em níveis elevados.

Algumas regiões da Índia receberam apenas metade da precipitação normal, o que pode afetar o abastecimento de trigo, arroz e cana-de-açúcar. Fotografia: Charlie Riedel/AP

“O El Niño recoloca a ‘climaflação’ na agenda”, escreveram analistas do banco italiano UniCredit em uma nota de pesquisa. “As recentes ondas de calor na Europa são um lembrete de que a linha de base climática já está mudando. O El Niño pode adicionar uma nova camada de pressão ainda este ano, à medida que amplifica os efeitos do aquecimento global.”

O fenômeno natural tem um histórico de impacto nas colheitas e na rede de abastecimento alimentar. Há mais de um século, um El Niño, provavelmente o mais severo já registrado, provocou secas catastróficas na China, no sul da África, no Brasil, no Egito e na Índia. Causando condições de fome em uma situação agravada pelo domínio colonial, milhões morreram, incluindo mais de 6 milhões de pessoas na Índia entre 1876 e 1878.

Os eventos El Niño de 1981-82, 1996-97, 2015-16 e 2023-24 foram alguns dos mais intensos já registrados. No entanto, as projeções da NOAA indicam que o ciclo de 2026-27 poderá ser ainda mais severo, aumentando o risco de secas e inundações que afetarão as colheitas e o abastecimento de alimentos em todo o mundo.

 

Segundo analistas do Goldman Sachs, a intensidade deste El Niño poderá causar um aumento de 15,8% nos preços globais das commodities alimentares. Isso teria um efeito cascata em todo o mundo, inclusive para os consumidores na Europa, onde a previsão é de um aumento de 1,3% nos preços dos alimentos em toda a zona do euro.

No entanto, o impacto total levará tempo para ser sentido, devido à forma como o custo das mudanças climáticas se propaga pela cadeia alimentar global. Consequentemente, o Goldman Sachs afirmou que as consequências podem levar até o segundo semestre de 2028 para serem “totalmente percebidas”.

A maior parte do atraso se deve ao momento em que eventos climáticos extremos afetam a produção de alimentos, considerando os diferentes ciclos de plantio, crescimento e colheita para os diversos tipos de culturas. Desafios logísticos – incluindo os níveis de água em canais e rios utilizados para importantes remessas – também terão impacto.

“O El Niño não afeta a agricultura de forma uniforme. Ele remodela os padrões globais de chuva e temperatura, criando regiões vencedoras e perdedoras”, afirmaram analistas do UBS. Algumas regiões podem se beneficiar de condições climáticas mais quentes. 

Um trabalhador segura uma amostra de grãos de soja. Fotografia: Fred Scheiber/AFP/Getty

Analistas afirmam que o El Niño agravaria os problemas causados ​​pela guerra com o Irã, adicionando dificuldades na cadeia de suprimentos de alimentos aos preços já elevados e à escassez de fertilizantes e energia. “Mesmo pequenas interrupções no fornecimento poderiam desencadear oscilações de preços muito maiores do que as previstas pelos padrões históricos”, disseram os analistas do UBS.

Normalmente, o El Niño acarreta riscos elevados de seca no sul da África e no norte da América do Sul, mas também de inundações no sul do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Analistas afirmam que os países de baixa renda – já os mais afetados pelo conflito com o Irã – provavelmente sofrerão mais.

“O El Niño já começou a afetar as colheitas, provocando uma estação das monções mais seca na Índia, com algumas regiões registrando apenas 25% da precipitação normal e partes da Índia central recebendo apenas 50%, o que pode afetar o abastecimento de trigo, arroz e cana-de-açúcar”, escreveram os analistas do Goldman Sachs.

O impacto provavelmente será sentido em todo o mundo.

Analistas afirmam que a seca no sudeste asiático pode afetar o fornecimento de óleo de palma – um ingrediente importante em alimentos processados ​​– enquanto as colheitas de café e cacau também podem ser prejudicadas. Condições climáticas mais quentes e úmidas podem agravar a disseminação de doenças, afetando a produtividade agrícola nos próximos anos.

Na América do Norte, o impacto do El Niño é mais forte no inverno, e embora as condições na Europa possam ser influenciadas pelo fenômeno climático, analistas afirmam que outros fatores – como o efeito sobre os preços globais dos alimentos – serão onde ele será sentido.

Há três anos, o Banco Central Europeu estimou que um El Niño forte poderia elevar os preços globais das commodities alimentares em até 9%, com a soja, o milho e o arroz apresentando os maiores aumentos.

Pêssegos à venda em um mercado ao ar livre em Chauvigny, França.

O impacto mais profundo do El Niño na Europa provavelmente virá do aumento dos preços, e não de eventos climáticos extremos. Fotografia: lucentius/Getty Images/iStockphoto

A forma como os preços se refletem nas prateleiras depende das estratégias de mitigação e das políticas nacionais. Fatores como a demanda do consumidor e os preços no varejo também desempenham um papel importante.

Segundo o UniCredit, a possibilidade de um cenário extremo de El Niño permanece alta. Isso poderia levar a uma queda de 14,3% na produção agrícola global – o equivalente a US$ 342 bilhões (R$ 254 bilhões) em perdas de produção, afirmou a instituição.

“Os choques de preços podem atingir de 10% a 50% nas principais commodities, enquanto as culturas mais expostas – incluindo arroz, óleo de palma, açúcar e café – podem subir de 50% a 100% ou mais”, afirmou o banco. “O sistema alimentar entra no segundo semestre de 2026 com reservas, mas com pouca margem para erros.”


Fonte: The Guardian

El Niño está de volta e o planeta pode estar às portas de um novo período de extremos climáticos

Análise publicada por Marshall Shepherd na Forbes alerta que o aquecimento do Pacífico poderá evoluir para um evento intenso, agravando secas, enchentes, incêndios florestais e a insegurança alimentar em um planeta já superaquecido pelas mudanças climática

A confirmação oficial da formação de um novo El Niño no Oceano Pacífico não representa apenas uma mudança cíclica do sistema climático. Segundo análise do climatologista Marshall Shepherd, publicada na revista Forbes, os indicadores atuais sugerem que o fenômeno pode evoluir para um evento de grande intensidade, com potencial para alterar profundamente padrões de chuva, temperatura e ocorrência de eventos extremos em diferentes regiões do planeta.

As projeções mais recentes da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) apontam uma probabilidade elevada de que o episódio de 2026-2027 figure entre os mais fortes desde o início dos registros sistemáticos, em 1950. Essa possibilidade é especialmente preocupante porque o El Niño se desenvolve sobre um planeta que já apresenta temperaturas médias recordes devido ao aquecimento global provocado pelas emissões de gases de efeito estufa. Em outras palavras, a variabilidade natural do clima passa a atuar sobre uma nova linha de base muito mais quente, potencializando seus efeitos.

Marshall Shepherd destaca que o fenômeno não deve ser visto como uma simples curiosidade meteorológica. O aquecimento anormal das águas do Pacífico modifica a circulação atmosférica global e desencadeia uma cascata de impactos: secas severas em algumas regiões, chuvas torrenciais em outras, ondas de calor mais intensas, incêndios florestais, perdas agrícolas e alterações importantes nos ecossistemas marinhos.

Para o Brasil, os sinais merecem atenção redobrada. Historicamente, episódios fortes de El Niño estão associados à redução das chuvas na Amazônia e no Nordeste, ao aumento do risco de queimadas e ao comprometimento dos recursos hídricos, enquanto a região Sul pode experimentar precipitações muito acima da média e enchentes de grandes proporções. Essas mudanças afetam diretamente a produção agrícola, a geração de energia hidrelétrica, o abastecimento urbano e a biodiversidade.

O aspecto talvez mais importante da análise de Shepherd é o reconhecimento de que o El Niño não atua isoladamente. Seus efeitos são amplificados pelo aquecimento global antropogênico, criando uma combinação particularmente perigosa. A energia adicional acumulada nos oceanos e na atmosfera funciona como combustível para eventos extremos mais frequentes e intensos, tornando mais vulneráveis justamente as populações que dispõem de menos recursos para adaptação.

Esse cenário também lança luz sobre a fragilidade dos sistemas alimentares globais. Alterações simultâneas nos regimes de chuva de grandes regiões produtoras de grãos, associadas a ondas de calor persistentes e incêndios florestais, podem provocar perdas significativas de produção e aumentar a volatilidade dos preços internacionais dos alimentos. Países em desenvolvimento e populações de baixa renda tendem a suportar o maior peso dessas transformações, ampliando desigualdades já existentes.

Há ainda um aspecto político que merece destaque. Embora a ciência venha alertando há décadas sobre o aumento da frequência e da intensidade dos eventos climáticos extremos, grande parte dos governos continua investindo pesadamente na expansão da exploração de petróleo, gás e carvão, aprofundando justamente o problema que torna fenômenos como o El Niño cada vez mais destrutivos. O resultado é um círculo vicioso em que a sociedade paga duas vezes: primeiro pelos impactos da crise climática e depois pelos elevados custos econômicos e sociais da adaptação e da reconstrução.

Assim, mais do que acompanhar a evolução das temperaturas do Pacífico, é fundamental compreender que o possível fortalecimento do El Niño constitui um alerta sobre os limites do atual modelo de desenvolvimento. Se as previsões se confirmarem, o planeta poderá enfrentar, nos próximos meses, uma combinação particularmente perigosa de extremos climáticos, insegurança alimentar, perdas econômicas e agravamento das injustiças ambientais. Ignorar esses sinais significará aceitar que eventos cada vez mais severos deixem de ser exceções para se tornarem parte permanente da nossa realidade.

Países da UE não chegam a um acordo sobre novas regras para regular agrotóxicos

Provavelmente caberá à Irlanda, que assumirá a Presidência do Conselho, encontrar um consensoBrasil – Agricultura – Plantações de soja pulverizadas com pesticida

Plantações de soja são pulverizadas com agrotóxicos em uma fazenda no Brasil. (Foto de Paulo Fridman/Corbis via Getty Images) 

Por Euractiv 

A proposta de Chipre sobre novas regras para agrotóxicos não obteve a aprovação dos embaixadores da UE na sexta-feira.

O pacote, apresentado pela Comissão em dezembro, inclui medidas para acelerar a adoção de agrotóxicos biológicos pelos agricultores e conceder aprovações ilimitadas para substâncias  sintéticas. Inclui também medidas rigorosas contra resíduos de produtos químicos proibidos na  União Europeia (UE) em alimentos importados.

Após semanas de negociações técnicas, Chipre, que detém a presidência rotativa do Conselho, acreditava ter chegado a uma versão final de compromisso equilibrada . No entanto, não conseguiu alcançar a maioria necessária para iniciar as negociações com o Parlamento.

Uma dúzia de países, incluindo Alemanha, Itália e Espanha, não endossaram o texto, disseram dois diplomatas à Euractiv .

A proposta de restringir as importações que contenham vestígios de certos agrotóxicos proibidos na UE, para proteger os agricultores europeus da concorrência desleal de países terceiros, tem sido um dos pontos mais controversos desde o início das negociações.

A medida gerou críticas dos parceiros comerciais da UE, bem como de Estados-membros como a Dinamarca e a Alemanha, devido ao seu potencial impacto no comércio.

Em contrapartida, países como a França e a Polônia, que estão em conflito com o acordo UE-Mercosul devido a supostos padrões mais baixos nas importações provenientes dos países do Mercosul, defenderam a inclusão da disposição. Ambos os governos também tomaram medidas para propor uma proibição nacional de certos resíduos de agrotóxicos nas importações, a fim de pressionar Bruxelas.

O texto de compromisso tentou conciliar ambos os lados, introduzindo a exigência de avaliações de impacto caso a caso da proibição de resíduos para cada substância, com foco nas implicações comerciais. Embora tenha conseguido convencer alguns países que inicialmente se opunham, como a Finlândia, isso não foi suficiente.

Mas não convenceu a Dinamarca, por exemplo, disse um diplomata dinamarquês. O país também se opôs ao apoio do texto à proposta da Comissão de duplicar o período de tolerância para substâncias proibidas.

As organizações de agricultores também se opuseram ao texto. “O texto de compromisso mais recente da Presidência continua insuficiente para proporcionar o nível de melhoria regulamentar necessário aos agricultores europeus”, afirmou a Copa-Cogeca, sindicato agrícola da UE , após a reunião dos embaixadores.

O processo voltará agora às negociações em nível técnico no grupo Antici, e muito provavelmente caberá à Irlanda, como futura Presidência do Conselho, encontrar um consenso.

Sofia Sanchez Manzanaro contribuiu para a reportagem.


Fonte: Euractiv

Procurador-Geral do Texas está investigando a Bayer e a PepsiCo por contaminação de produtos alimentícios por glifosato

Por Sustainable Pulse 

O procurador-geral do Texas, Ken Paxton, anunciou uma investigação abrangente para combater o grave problema dos resíduos de glifosato nos alimentos, que, segundo seu gabinete, “coloca a saúde dos americanos e das crianças em risco”.

Este anúncio surge após o gabinete do Procurador-Geral Ken Paxton ter emitido Mandados de Investigação Civil (“CIDs”) a importantes fabricantes de agrotóxicos e alimentos, incluindo a Bayer e a PepsiCo.

O glifosato é o principal ingrediente do herbicida Roundup. É um herbicida amplamente utilizado em culturas geneticamente modificadas. Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer determinou que o glifosato é um provável carcinógeno humano. Desde então, extensas pesquisas em humanos e animais demonstraram que o glifosato contribui para disfunções endócrinas, infertilidade, doenças renais e doenças autoimunes, além de suas propriedades cancerígenas.

Mais de 250 milhões de libras de glifosato são pulverizadas nos Estados Unidos a cada ano. Pesquisas constataram que mais de 70% dos adultos americanos apresentam traços detectáveis ​​de glifosato em seus corpos, em comparação com apenas 12% em 1993.

Os cientistas atribuem grande parte desse aumento drástico ao uso generalizado do glifosato como dessecante. A dessecação é a prática de aplicar herbicidas como o Roundup nas plantações pouco antes da colheita, para que sequem uniformemente. Essa prática contribui com mais de 90% do glifosato encontrado nos alimentos, principalmente em produtos alimentícios que contêm aveia, trigo, girassol e leguminosas.

Embora a EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) proíba o uso de glifosato como dessecante em aveia nos Estados Unidos, o uso não autorizado ocorre e grandes empresas alimentícias também obtêm seus ingredientes de países estrangeiros onde essa prática é amplamente difundida.

A aveia é um alimento comum em cereais, barras de cereais e biscoitos, o que torna as crianças particularmente vulneráveis ​​aos malefícios do glifosato. De fato, estudos mostram que certos produtos alimentícios comercializados para crianças estão entre os mais contaminados por glifosato nos Estados Unidos. Outros produtos são comercializados como “saudáveis” quando os fabricantes sabem que estão contaminados com níveis perigosamente altos de glifosato. Pesquisas indicam ainda que crianças entre um e dois anos de idade têm a maior exposição alimentar ao glifosato em comparação com qualquer outra faixa etária.

“Se alguma empresa estiver usando brechas na legislação para envenenar nossas crianças com glifosato, nós descobriremos e buscaremos justiça”, disse Paxton.

“Meu gabinete também está investigando se as principais empresas alimentícias estão cumprindo a lei do Texas e se os consumidores, especialmente os pais, foram enganados sobre os benefícios para a saúde de produtos alimentícios comuns comercializados para suas famílias. Nenhuma corporação está acima da lei e nenhuma ação ilegal ficará impune”, concluiu ele.


Fonte: Sustainable Pulse

Brasil, a “lixeira química” do agronegócio global

Em palestra no 1º Congresso de Agroecologia, realizada em 25 de maio em Florianópolis (SC), a professora Sonia Hess expôs como o avanço do agronegócio exportador aprofundou o consumo de agrotóxicos banidos na União Europeia, contaminando águas, alimentos e populações inteiras enquanto amplia a insegurança alimentar e a dependência econômica brasileira

A palestra ministrada pela professora Sonia Corina Hess no 1º Congresso de Agroecologia, realizado ontem, 25 de maio, apresentou um retrato contundente do papel que o Brasil vem desempenhando na expansão global do uso de agrotóxicos, evidenciando não apenas a dimensão quantitativa do problema, mas também suas implicações econômicas, sanitárias e ambientais. A apresentação mostrou que o país comercializou mais de 907 mil toneladas de agrotóxicos em 2024, o equivalente a 4,3 kg por habitante, consolidando sua posição como maior consumidor mundial desses produtos. O dado se torna ainda mais grave quando comparado ao crescimento relativamente modesto da área plantada no mesmo período, indicando uma intensificação da dependência química do modelo agrícola dominante.

Um dos pontos centrais da exposição foi a demonstração de que boa parte dos ingredientes ativos utilizados em larga escala no Brasil já foi banida na União Europeia devido aos seus impactos sobre a saúde humana e os ecossistemas. Substâncias como mancozebe, clorotalonil, atrazina e glufosinato de amônio continuam sendo aplicadas massivamente em lavouras brasileiras, mesmo associadas a câncer, infertilidade, desregulação endócrina, doenças neurodegenerativas e danos reprodutivos. Hess argumenta que o Brasil vem se convertendo em uma verdadeira “lixeira química”, absorvendo compostos rejeitados por países centrais, enquanto multinacionais como Bayer, BASF, Syngenta e Corteva seguem acumulando lucros bilionários com a continuidade desse modelo.

A palestra também desmonta a narrativa de que o uso crescente de agrotóxicos estaria associado à produção de alimentos para a população brasileira. Segundo os dados apresentados, 79% dos agrotóxicos aplicados no país concentram-se em apenas quatro culturas — soja, milho, cana-de-açúcar e algodão — fortemente vinculadas ao agronegócio exportador. Além disso, 93% da soja e 80% do milho produzidos no Brasil são destinados à alimentação animal, dentro e fora do país. Enquanto isso, culturas essenciais para a segurança alimentar, como feijão, arroz e trigo, enfrentam retração de área plantada e aumento da dependência de importações. O contraste revela uma política agrícola orientada prioritariamente para commodities e para os interesses do comércio internacional, especialmente da China, em detrimento da soberania alimentar brasileira.

Outro aspecto particularmente alarmante abordado por Sonia Hess foi a contaminação das águas de abastecimento público. Dados do Programa Qualidade da Água do Ministério Público de Santa Catarina mostraram a presença de resíduos de agrotóxicos em mais da metade dos municípios avaliados. Em muitos casos, a água considerada “potável” pela legislação brasileira ultrapassaria amplamente os limites permitidos na União Europeia. A situação evidencia o abismo regulatório existente entre o Brasil e países que adotam critérios mais protetivos à saúde pública, além de revelar a fragilidade das normas nacionais sobre potabilidade e monitoramento ambiental.

A professora Sonia Hess também relacionou a expansão do uso de agrotóxicos ao agravamento de problemas de saúde pública, destacando o crescimento contínuo dos óbitos por neoplasias e suicídios no Brasil. Embora a relação causal entre exposição química e adoecimento coletivo exija análises epidemiológicas complexas, a literatura científica apresentada na palestra reforça a existência de fortes evidências sobre os efeitos genotóxicos da exposição crônica aos agrotóxicos em trabalhadores rurais e populações residentes em áreas agrícolas.

Ao final, a professora Sonia Hess defendeu um conjunto de medidas estruturais para reverter o atual quadro. Entre elas, destacou a necessidade de rever o Plano Safra, reduzindo os incentivos direcionados ao agronegócio exportador e fortalecendo a agricultura familiar e agroecológica; eliminar benefícios fiscais concedidos a agrotóxicos proibidos na União Europeia; endurecer os parâmetros de qualidade da água e dos alimentos; e excluir da legislação brasileira ingredientes ativos já considerados inseguros em outros países. A agroecologia aparece, assim, não como um nicho alternativo de produção, mas como uma necessidade estratégica para a proteção da saúde coletiva, da biodiversidade e da soberania alimentar do país

Supermercados brasileiros na mira: quem está protegendo a população de comida contaminada por agrotóxicos?

Transparência, responsabilidade e segurança alimentar: é hora de cobrar das grandes redes varejistas brasileiras os mesmos padrões ambientais e sanitários exigidos na Europa

O recente ranking produzido pela Pesticide Action Network UK (PAN UK) expôs algo que deveria envergonhar profundamente o setor supermercadista brasileiro: enquanto redes britânicas vêm sendo pressionadas a reduzir resíduos de agrotóxicos, eliminar agrotóxicos altamente perigosos e criar mecanismos públicos de transparência alimentar, no Brasil praticamente inexiste qualquer iniciativa robusta de monitoramento independente conduzida pelas grandes cadeias varejistas.

Mais grave ainda é o fato de que parte das empresas que operam no Brasil pertence justamente a conglomerados europeus que, em seus países de origem, são obrigados a responder a consumidores, ONGs e regulações muito mais rigorosas. O caso específico do Carrefour Brasil é emblemático. Enquanto a matriz europeia do grupo busca associar sua imagem a compromissos ambientais e cadeias sustentáveis, sua operação brasileira limita-se a protocolos vagos de rastreabilidade e conformidade formal, sem estabelecer metas transparentes de redução de resíduos de agrotóxicos, publicação periódica de resultados laboratoriais independentes ou exclusão sistemática de agrotóxicos altamente perigosos. O grupo afirma aderir ao programa RAMA da ABRAS e realizar análises de resíduos, mas os dados permanecem fragmentados, pouco inteligíveis ao consumidor comum e muito distantes do padrão de transparência exigido por organizações independentes europeias.

Essa duplicidade de padrões revela uma forma particularmente perversa de colonialismo ambiental corporativo. Em seus países-sede, essas empresas precisam aparentar responsabilidade socioambiental para atender consumidores mais organizados e regulações mais rigorosas. No Brasil, porém, operam em um ambiente político dominado pelo lobby do agronegócio e por uma fiscalização sanitária estruturalmente fragilizada, permitindo que vendam alimentos produzidos sob padrões que dificilmente seriam tolerados no mercado europeu.

O contraste torna-se ainda mais chocante quando se observa que algumas redes britânicas e europeias já adotaram medidas concretas há anos. O caso da The Co-operative Group é particularmente ilustrativo: a rede implementou políticas restritivas contra agrotóxicos desde o início dos anos 2000, proibiu neonicotinoides antes mesmo de muitos governos europeus e passou a divulgar resultados públicos de monitoramento de resíduos químicos em alimentos. Enquanto isso, supermercados brasileiros continuam tratando o tema da contaminação alimentar como assunto marginal, apesar do crescente número de estudos associando agrotóxicos a cânceres, distúrbios endócrinos, problemas neurológicos e degradação ambiental em larga escala.

O mais revelador é que os supermercados brasileiros não são apenas intermediários passivos nessa cadeia tóxica. Ao privilegiarem fornecedores vinculados ao modelo agrícola altamente dependente de monoculturas químico-intensivas, essas redes ajudam a consolidar uma lógica de produção baseada em contaminação ambiental, degradação dos solos, intoxicação ocupacional e insegurança alimentar crônica. A ausência de rankings independentes, auditorias públicas acessíveis e metas verificáveis de redução de resíduos acaba funcionando como uma blindagem reputacional para um sistema alimentar estruturalmente contaminado.

Se existe hoje um debate público consistente na Europa sobre resíduos de agrotóxicos nos alimentos, isso se deve à pressão contínua de organizações independentes e consumidores organizados. No Brasil, a criação de um ranking nacional de supermercados baseado em critérios de transparência, rastreabilidade, redução de resíduos, exclusão de agrotóxicos altamente perigosos e monitoramento independente seria um passo decisivo para expor quais redes realmente se preocupam com a saúde pública — e quais apenas praticam greenwashing tropicalizado enquanto lucram sobre uma cadeia alimentar profundamente intoxicada.

Agricultura por algoritmo e seus muitos riscos

À medida que a inteligência artificial e as plataformas de nuvem avançam para os campos, uma nova aliança entre as grandes empresas de tecnologia e o agronegócio está transformando quem controla os alimentos e quem assume os riscos.

Por Monica Piccinini para “YourVoiz” 

O IPES-Food, o Painel Internacional de Especialistas em Sistemas Alimentares Sustentáveis, divulgou o seu relatório

As conclusões do relatório são preocupantes. A rápida implantação de inteligência artificial, computação em nuvem e plataformas de agricultura de precisão não está focada nas prioridades dos agricultores. Em vez disso, a tecnologia agrícola está aumentando o controle corporativo sobre a produção de alimentos, aprofundando a dependência dos agricultores e acelerando os danos ambientais.

Uma nova aliança

Em várias regiões, grandes empresas de tecnologia, incluindo Amazon, Microsoft, Google e Alibaba, uniram forças com gigantes do agronegócio nas indústrias de sementes, agroquímicos e máquinas agrícolas. O resultado é uma infraestrutura digital cada vez mais integrada que alcança todas as camadas da agricultura industrial.

Esta figura ilustra algumas das principais colaborações entre empresas líderes de tecnologia e corporações agroindustriais e/ou instituições públicas importantes. A lista não é exaustiva, pois atores das grandes tecnológicas também estão atuando com uma gama mais ampla de organizações públicas, privadas e sem fins lucrativos. Imagem: IPES-Food.

Satélites escaneiam os campos, sensores remotos medem os níveis de umidade e nutrientes do solo, e tratores automáticos coletam dados à medida que se movem. Essas informações são enviadas para plataformas baseadas em nuvem onde algoritmos proprietários produzem recomendações, como qual variedade de sementes plantar, quando pulverizar as culturas e quanto fertilizante usar. Esses dados são usados para refinar produtos, influenciar mercados e gerar lucro.

Decisões sobre o que se qualifica como “inovação” e quais tecnologias recebem apoio do governo são frequentemente políticas. Essas decisões influenciam quem detém o poder no sistema alimentar.

Lim Li Ching, co-presidente da IPES-Food, descreve essa mudança em termos contundentes. Ela disse:

Estamos testemunhando uma tomada silenciosa da agricultura pelas Big Techs. Mas a agricultura por algoritmo não é o futuro que os agricultores pediram.

Sob a bandeira da inovação, gigantes da tecnologia estão consolidando o controle sobre a agricultura e o patrimônio biológico, deixando de lado os agricultores que já cultivam nossos alimentos de forma sustentável e resiliente.

Podemos escolher um caminho diferente. Precisamos reinventar e governar a inovação de forma diferente. É hora de resgatar a inovação para as pessoas e para o planeta.

Desigualdade

Sistemas digitais de agricultura são caros. Tecnologias de precisão exigem máquinas especializadas, software por assinatura, internet confiável de alta velocidade, treinamento técnico e contratos contínuos de suporte técnico. Para grandes operações industriais, essas despesas podem ser absorvidas como investimento de capital, mas para pequenos e médios agricultores, isso significa novos empréstimos e dívidas.

O relatório mostra como essas tecnologias criam dependência, descrita como lock-in tecnológico. Uma vez que um agricultor investe em uma máquina específica ou sistema digital, a troca se torna complexa e cara.

Maquinários, sementes e insumos químicos são frequentemente projetados para funcionar juntos dentro de plataformas proprietárias. Os dados podem ser armazenados em formatos não transferíveis, vinculando os agricultores a um único fornecedor e pressionando por atualizações contínuas para permanecerem competitivos comercialmente.

Pat Mooney, especialista em IPES-Food, alertou que essa concentração de poder ocorre em um momento perigoso. Ele disse:

A segurança alimentar mundial está mais incerta do que em décadas, em meio a crises globais crescentes.

Ainda assim, Big Tech e Big Ag estão avançando conjuntamente IA proprietária, plataformas de dados e biotecnologias que reduzem a diversidade quando precisamos de mais delas, alongam cadeias de suprimentos que deveriam ser encurtadas e concentram informações que deveriam ser compartilhadas entre os agricultores.

Mas nosso estudo mostra que inovações de baixo para cima, baseadas no ecossistema e lideradas pelos agricultores já estão respondendo às crises alimentares atuais – apesar das barreiras políticas e do investimento público limitado.

Em vez de mudar os problemas de raiz da agricultura industrial, as plataformas digitais frequentemente os fortalecem. Eles aumentam o uso de produtos químicos em grandes fazendas de monocultura em vez de reduzi-los. E, em vez de apoiar os sistemas alimentares locais, eles tornam as cadeias de suprimentos globais ainda maiores.

É como ficar preso na esteira. Os agricultores podem ver melhorias de curto prazo em eficiência ou produtividade, mas os preços logo caem e eles sentem pressão para investir novamente em novas tecnologias. Aqueles que não conseguem acompanhar, muitas vezes pequenos agricultores, são expulsos, levando a menos fazendas e ao declínio das comunidades rurais.

Em vez de tornar a agricultura mais igualitária, a agricultura digital poderia aumentar ainda mais a diferença entre grandes fazendas industriais e pequenos produtores comunitários.

Dados de 2002-2023 obtidos de Strömberg, L. & Howard, P., 2023. Imagem: IPES-Food.

Controle

Se a terra foi a fonte definidora dos antigos impérios agrícolas, os dados estão rapidamente se tornando a nova fronteira.

Os agricultores não possuem os dados gerados em suas próprias terras e, em muitos casos, não conseguem acessar os algoritmos que os transformam em orientação. Eles têm supervisão limitada sobre como seus dados são usados.

Nettie Wiebe, agricultora e especialista em IPES-Food, reflete sobre o que isso significa na prática. Ele disse:

Estamos recebendo uma visão de agricultura conduzida por IA e robôs. Mas a agricultura é construída com base no julgamento desenvolvido ao longo dos anos no campo. Quando os agricultores perdem o controle sobre nossos dados e decisões, perdemos o controle sobre nossas fazendas. Esse é um caminho perigoso.

A verdadeira inovação não vem do Vale do Silício – vem de agricultores, trabalhadores rurais e povos indígenas trabalhando com a terra e entre si.

Ao redor do mundo, agricultores estão desenvolvendo ferramentas, restaurando a fertilidade do solo, melhorando culturas para um clima em mudança e gerenciando pragas de forma ecológica. Isso é inovação de verdade. Isso constrói resiliência sem nos prender a dívidas ou dependências.

As ferramentas digitais focam mais em números e dados do que em experiências vividas. Povos indígenas e comunidades locais, cujo conhecimento agrícola protege a biodiversidade há séculos, muitas vezes são deixados de fora desses sistemas.

A pegada escondida

A agricultura digital é frequentemente apresentada como ambientalmente progressista, mas a infraestrutura por trás dela é intensiva em materiais e energia.

Os data centers consomem grandes quantidades de eletricidade e água. Servidores e dispositivos dependem de minerais extraídos de paisagens já sob estresse. Tecnologias de precisão podem reduzir ligeiramente o uso de produtos químicos, mas geralmente reforçam métodos agrícolas que prejudicam o solo e a biodiversidade ao longo do tempo.

A “nuvem” não é invisível, ela deixa uma pegada ambiental real.

Enquanto isso, alternativas lideradas pelos agricultores, melhoramento participativo, agroecologia e conservação comunitária de sementes recebem pouco apoio. Esses métodos constroem resiliência por meio da diversidade, conhecimento compartilhado e gestão de ecossistemas naturais, em vez de depender de tecnologia proprietária e cara.

Yiching Song, especialista em IPES-Food, destaca sua importância. Ela disse:

Nossa pesquisa mostra que sistemas de sementes liderados pelo agricultor e melhoramento participativo estão entre as respostas mais eficazes às mudanças climáticas e à perda de biodiversidade.

Essas inovações integram o conhecimento científico e dos agricultores, fortalecendo tanto os ecossistemas quanto os meios de subsistência. Se levamos a sério a ação climática, políticas e investimentos devem reconhecer e apoiar ativamente esses sistemas, não deixá-los de lado.

Política

O debate sobre a agricultura digital é, em última análise, sobre governança e poder.

Quem decide quais tecnologias são desenvolvidas e escaladas? Quem é o dono dos dados? Quem assume os riscos e quem se beneficia?

Em um momento de múltiplas crises, incluindo colapso climático, colapso da biodiversidade e instabilidade geopolítica, a segurança alimentar já é frágil. Concentrar o controle sobre seeds, dados e tomada de decisão em um punhado de corporações só adiciona mais uma camada de vulnerabilidade.

A IPES-Food está pedindo a governos e financiadores que criem regras mais rigorosas para que novas ideias e tecnologias sejam justas e responsáveis. Eles também querem que mais recursos sejam destinados a projetos locais, liderados pela comunidade, que focam na sustentabilidade. Além disso, estão defendendo limites ao poder das grandes empresas de tecnologia e agricultura, e uma mudança na forma como as pessoas pensam e falam sobre inovação.

Como o relatório Head in the Cloud aponta, a questão não é se a agricultura deve inovar, mas se a inovação servirá às grandes empresas ou às pessoas e ecossistemas dos quais os sistemas alimentares dependem.

Imagem em destaque: IPES-Food.


Fonte: YourVoiz

Estudo independente mostra que alimentos servidos às Forças Armadas dos EUA estão contaminados com agrotóxicos, medicamentos veterinários e metais pesados

Testes laboratoriais independentes encomendados pela Moms Across America , com o apoio do Children’s Health Defense Military Chapter e da Centner Academy , revelam que a comida das forças armadas americanas, incluindo as refeições prontas para consumo (MREs) e outros itens racionados e de refeitório, têm baixos níveis de nutrientes e estão contaminadas com uma mistura de agrotóxicos, medicamentos veterinários proibidos, metais pesados ​​e glifosato em níveis que representam sérias ameaças à saúde humana. 

Por Sustainable Pulse 

Testes laboratoriais independentes encomendados pela Moms Across America, com o apoio do Children’s Health Defense Military Chapter e da Centner Academy, revelaram na quarta-feira que os alimentos das forças armadas dos EUA, incluindo as refeições prontas para consumo (MREs) e outros itens racionados e de refeitório, estão contaminados com uma mistura de agrotóxicos, medicamentos veterinários proibidos, beta-agonistas e esteroides amplamente utilizados na produção de carne bovina e suína nos EUA para promover o crescimento, metais pesados ​​e glifosato em níveis que representam sérias ameaças à saúde humana.

A cada ano, mais de 1,5 bilhão de refeições militares e 37 milhões de refeições prontas para consumo (MREs) são servidas aos militares da ativa dos EUA, tornando as Forças Armadas americanas uma das compradoras e influenciadoras mais poderosas no abastecimento alimentar, tanto nos EUA quanto globalmente. A saúde, o preparo e a segurança das tropas americanas dependem dessas refeições para manter o desempenho físico, a função cognitiva e o bem-estar a longo prazo.

As forças armadas dos EUA parecem estar ficando para trás na área de alimentos limpos e seguros, visto que, em 2014, o exército chinês ordenou que todos os postos de abastecimento militar permitissem apenas a compra de grãos e óleo alimentar não transgênicos, devido a preocupações com a segurança sanitária relacionadas aos transgênicos e aos pesticidas associados, que agora se comprovou estarem contaminando os suprimentos alimentares das forças armadas americanas.

“Apoiamos o compromisso do Presidente Trump em aumentar o orçamento das Forças Armadas para garantir a segurança dos americanos e criar as Forças Armadas mais poderosas do mundo”, disse Zen Honeycutt, Diretora Executiva Fundadora da Moms Across America. 

“Como Comandante-em-Chefe da nossa nação, apelamos para que ele seja um verdadeiro herói, garantindo o nosso poder global ao fornecer as refeições mais seguras e saudáveis ​​de todas as forças armadas do mundo. Apelamos para que as tropas americanas tenham acesso a comida americana – carne orgânica de criação regenerativa e produtos orgânicos, ricos em nutrientes e não tóxicos”, concluiu Honeycutt.

Os testes laboratoriais independentes incluíram um total de 40 amostras, sendo 16 amostras provenientes de 6 refeitórios de bases militares e 24 rações MRE (Medidas de Refeição Prontas para Consumo) analisadas para detectar substâncias químicas e nutrientes tóxicos. As amostras continham ingredientes como trigo, milho transgênico, soja transgênica e carne. Os resultados incluíram:

  • Agrotóxicos – 100% das amostras de alimentos militares testadas continham resíduos nocivos de pesticidas. Mais de 70% das amostras continham múltiplos  agrotóxicos (variando de 2 a 26) e até 15 a 26 resíduos diferentes de agrotóxicos em um único item. Um total de 62 agrotóxicos e misturas químicas estavam presentes, sem avaliação dos efeitos cumulativos ou sinérgicos na saúde.
  • Glifosato – 95% das amostras de alimentos militares continham níveis detectáveis ​​de glifosato/AMPA.
  • Medicamentos veterinários – Foram detectados 5 medicamentos veterinários, incluindo ractopamina e acetato de trembolona, ​​substâncias promotoras de crescimento amplamente utilizadas na produção de carne bovina e suína nos EUA, mas proibidas em outros 160 países, incluindo China, União Europeia e Rússia; outros 3 medicamentos encontrados são proibidos na maioria dos países ou não aprovados para uso humano – indicando provável contaminação por carne importada.
  • Metais pesados ​​– 100% das amostras testadas continham arsênio, cádmio, chumbo, mercúrio e alumínio. Em algumas amostras, os níveis de arsênio, cádmio e alumínio encontrados foram de 430% a 17.300% superiores às diretrizes da EPA para água potável. 

“Como uma veterana orgulhosa do Exército dos Estados Unidos, entendo em primeira mão as exigências físicas e mentais extremas impostas aos nossos militares para que se mantenham prontos para a missão. Treinamento, foco e resiliência são essenciais, e a alimentação desempenha um papel fundamental no apoio a todos os três. É preocupante que muitos militares estejam atuando em ambientes alimentares que não apoiam consistentemente sua saúde ou bem-estar a longo prazo. A orientação nutricional limitada e a forte dependência de alimentos ultraprocessados ​​refletem desafios mais amplos em nosso sistema alimentar — desafios que afetam tanto as comunidades militares quanto as civis”, declarou Charlene Guzman, Líder de Comunicação Estratégica e Relações Públicas do Projeto Não-OGM, ex-contratada do USDA e veterana do Exército, em reação aos resultados dos testes.

“Nossos militares e suas famílias fazem sacrifícios diários a serviço deste país. Em troca, temos a responsabilidade de garantir que estejam adequadamente nutridos com alimentos que promovam força, recuperação e bem-estar a longo prazo. Proporcionar acesso a alimentos limpos e ricos em nutrientes não é um luxo — é uma medida básica de cuidado, dignidade e respeito por aqueles que servem”, concluiu Guzman.


Fonte: Sustainable Pulse