Especialista internacional em segurança de barragens reprova projeto técnico apresentado pela Belo Sun para a mineração de ouro em Belo Monte

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A pedida da Rede Xingu +, o especialista em segurança de barragens, Steven Emerman, preparou um relatório sobre os possíveis impactos do rompimento da barragem de rejeitos que a mineradora canadense Belo Sun pretende construir para conduzir a mineração de ouro em Volta Grande na região de Belo Monte (ver figura abaixo).

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O convite a Steven Emerman se justifica pelo fato dele ser um especialista com alta experiência internacional,possuindo um PhD em Geofísica pela Universidade Cornell, e 31 anos de experiência no ensino de hidrologia e geofísica, com 66 publicações revisadas por pares nessas áreas. O Dr. Emerman é atualmente o proprietário da Malach Consulting, especializada em avaliar os impactos ambientais da mineração para empresas de mineração, bem como organizações governamentais e não-governamentais.”

Em seu relatório, o Dr. Emerman aponta que a Belo Sun Mining  está propondo que o armazenamento permanente de 35,43 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minas e água seja realizado em uma barragem de rejeitos de 44 metros de altura às margens do Rio Xingu.

Mas após avaliação criteriosa da proposta da Belo Sun,  o Dr. Emerman conclui que “a reciclagem do lixiviado de cianeto entre o reservatório de rejeitos e a planta de processamento de minério tem o potencial de enriquecer a água de rejeitos em antimônio, arsênico e mercúrio“. Além disso, Steven Emerman concluiu que a “barragem não foi desenhada com nenhum critério de segurança sísmica e sem estudo de sismicidade local ou regional. No provável cenário de falha, o fluxo inicial de rejeitos cobriria 41 km com impacto significativo na terra indígena Arara de Volta Grande do Xingu“.

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Um dos fatores considerados pelo Dr. Emerman em suas análises sobre a viabilidade técnica do projeto técnico apresentada pela Belo Sun se refere à análise da estrutura geológica na região próxima ao empreendimento, onde ficou demonstrada a presença de falhas geológicas que poderiam ter influência na ruptura da barragem de rejeitos (ver figura abaixo).

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Com base em suas análises acerca da proposta apresentada pela Belo Sun, o Dr. Emerman concluiu que:

  • 1) O uso do reservatório de rejeitos para captura do escoamento superficial é contrário à  tendência do setor de mineração de reduzir a água armazenada nos reservatórios de rejeitos, a fim de reduzir tanto a probabilidade e quanto as consequências da falha da barragem.
  • 2) A barragem de rejeitos não foi desenhada para nenhum critério de segurança sísmica, violando os regulamentos brasileiros das barragens de rejeitos.
  • 3) Não houve estudo da sismicidade local ou regional, embora falhas geológicas cruzadas tenham sido mapeadas no local da barragem de rejeitos proposta, o que também viola os regulamentos brasileiros das barragens de rejeitos.
  • 4) A reciclagem do lixiviado de cianeto pode resultar em água de rejeitos altamente enriquecida em antimônio, arsênico e mercúrio.
  • 5) No cenário mais provável da falha de barragem (liberação de 28% dos rejeitos armazenados), o fluxo inicial de rejeitos cobriria 41 quilômetros ao longo do rio Xingu, com impacto significativo na terra indígena Arara de Volta Grande do Xingu. No pior cenário (liberação de 100% dos rejeitos armazenados), o fluxo inicial cobriria 98 quilômetros ao longo do rio Xingu. Após o evento inicial, processos fluviais normais transportariam os rejeitos para o rio Amazonas e para o oceano Atlântico.
  • 6) Não há planos para o fechamento seguro da barragem de rejeitos, exceto a drenagem da água livre para um lago de contenção de água.
  • 7) A probabilidade anual de falha da barragem de rejeitos seria de pelo menos 0,5%, o que é inaceitavelmente alta.
    8) Embora a Belo Sun tenha declarado aos investidores que abandonarão o plano atual de armazenamento de rejeitos úmidos em favor de rejeitos filtrados, ainda existem desafios técnicos significativos para o armazenamento de rejeitos filtrados em áreas com alta precipitação.
  • 9) É inquietante que a  Belo Sun tenha fornecido as informações contraditórias  sobre seu plano de armazenamento de rejeitos aos investidores e às autoridades reguladoras brasileiras.

Com base em todas essas observações, o Dr. Emerman recomendou que “com base na alta probabilidade de falha da barragem de rejeitos proposta, o Projeto de Ouro Volta Grande deve ser rejeitado pelas autoridades reguladoras brasileiras sem consideração
adicional” E adicionou ainda que o simples “fornecimento de informações conflitantes aos investidores e às autoridades reguladoras brasileiras deve ser motivo suficiente para rejeição“.

Quem desejar ler a íntegra do relatório do Dr. Emerman em inglês pode clicar [Aqui!] ou em português [Aqui!].

Em Nova York para vender seu projeto de destruição, Ricardo Salles é surpreendido por manifestação em frente ao JP Morgan Chase

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O ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, esteve na última segunda-feira (09/03) na sede do banco JP Morgan Chase, em Nova York para se reunir com dirigentes da instituição financeira.

O que Salles não esperava é que ativistas sociais o esperavam na frente do prédio para denunciar as políticas anti-ambientais que o governo Bolsonaro está implantando sob pretexto do “desenvolvimento”, mas que estão levando à destruição do meio ambiente e das comunidades que subsistem e protegem as florestas,  tais como os indígenas e quilombolas (ver imagens abaixo).

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É sempre bom lembrar que o JP Morgan Chase é considerado uma das ‘Dirty Dozen‘, que é um grupo de empresas que mais impulsionam o desmatamento na floresta amazônica, de acordo com um relatório da Amazon Watch.

Participaram da manifestação, entre outras organizações:

APIB – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil
Coalizão pelo Clima
Comitê de Defesa da Democracia no Brasil, NY,
Reverendo Billy & The Stop Shopping Choir,
Extinction Rebellion NYC
Rise and Resist
Party for Socialism and Liberation – NY,
Seeding Sovereignty
Greenpeace Brasil
Amazon Watch
Rainforest Foundation

ONG liga empresas da Europa e EUA a desmatamento na Amazônia

Relatório lista empresas que compram produtos, como carne e madeira, de fornecedores multados por desmatamento no Brasil, em meio a temores de retrocesso ambiental no governo Bolsonaro.

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Desmatamento ilegal no sul do estado do Amazonas, em 2017

“Estamos vivendo os primeiros estágios de um apocalipse”, declarou este mês uma aliança de povos indígenas ao diário francês Le Monde. A origem dessa preocupação está no desmantelamento acelerado dos direitos de posse de terras indígenas na Amazônia, um tema que domina o debate político-ambiental no Brasil desde que o presidente Jair Bolsonaro chegou ao poder.

Mas, ao escreverem num jornal que é publicado na Europa, os 13 autores – que representam povos nativos de vários países, incluindo o Brasil e a Nova Zelândia – miravam um público importante e nem sempre levado em conta. A França, assim como outros países ocidentais, é a sede de empresas cuja cadeia produtiva é manchada pelo desmatamento ilegal na Amazônia.

Nos últimos dois anos, a empresa brasileira Benevides Madeiras exportou, respectivamente, 266 e 125 toneladas de madeira para as empresas francesas Guillemette & Cie e Groupe Rougier, segundo um relatório publicado nesta quinta-feira (25/04) pela ONG Amazon Watch. E isso apesar de o proprietário, Arnaldo Betzel, ter sido multado em R$ 2,2 milhões por desmatamento ilegal.

O relatório afirma ainda que empresas da Bélgica, da Holanda e da Dinamarca também receberam carregamentos de madeira da Benevides Madeiras. Uma empresa alemã que produz bebidas, a Acai GmbH, importou 9 toneladas de polpa de fruta em 2018 de outra empresa de Betzel, a Argus, acrescenta o levantamento da Amazon Watch.

Essas empresas fazem parte de um grupo de 27 empresas europeias e norte-americanas cuja cadeia produtiva foi ligada ao desmatamento ilegal pela Amazon Watch, basicamente por meio da importação de produtos como carne bovina, couro, soja e madeira.

O relatório levanta questões sobre a responsabilidade de nações ricas – e das suas empresas – no desmatamento da Amazônia brasileira. “Nós cultivamos a terra para alimentar a nossa gente e não para alimentar animais no outro lado do mundo”, escreveram os representantes da Aliança dos Guardiães da Mãe Natureza no Le Monde.

A destruição da Amazônia para a produção de carne, grãos e madeira tem causado perda de biodiversidade e elevadas emissões de gases do efeito estufa. Especialistas consideram que o desmatamento da Amazônia é um dos principais empecilhos para se chegar às metas climáticas globais.

Mas a responsabilidade não é apenas brasileira. “Comerciantes internacionais, instituições financeiras e empresas importadoras desempenham um papel extremamente importante”, diz um dos autores do relatório, Christian Poirier, da Amazon Watch. “Nossas conclusões mostram que eles são cúmplices na crescente destruição da Amazônia brasileira e de suas comunidades e povos indígenas.”

O relatório, que analisou remessas de 56 empresas brasileiras envolvidas no desmatamento ilegal para as empresas de nações ricas que compram delas, não afirma que um determinado carregamento continha produtos obtidos do desmatamento ilegal, mas mostra que importadores da Europa e da América do Norte compraram de fornecedores brasileiros que recentemente receberam multas das autoridades ambientais.

Num dos casos, a maior exportadora brasileira de carne bovina, a JBS, teria abatido animais da AgroSB, empresa que recebeu as maiores multas por desmatamento ilegal do país em 2017. Os maiores acionistas ocidentais da JBS incluem a Blackrock, maior empresa mundial de gestão de ativos, e a Capital Group e detêm quase 2 bilhões de dólares em ações, afirma o relatório.

Em outro caso, uma subsidiária do Grupo Bihl, uma empresa de produção de carne bovina, exportou couro para cinco curtumes italianos em 2017. Naquele ano, uma outra empresa do Grupo Bihl, a Agropecuária MALP, foi multada em R$ 3,8 milhões por desmatamento ilegal, afirma o relatório.

A JBS afirmou que “não adquire animais de fazendas envolvidas com desmatamento de florestas nativas, invasão de áreas indígenas e áreas de conservação ambiental” e que auditorias mostraram que, nos últimos três anos, mais de 99,9% dos animais adquiridos pela empresa estão em conformidade com os seus critérios sociais e ambientais.

Todas as demais empresas mencionadas se recusaram a comentar o relatório ou não responderam a pedidos para se posicionarem.

Ambientalistas afirmam que o setor privado tem um papel importante a desempenhar na prevenção de um retrocesso na situação ambiental do Brasil sob Bolsonaro. Desde que assumiu o poder, em janeiro, o militar da reserva seguidamente defendeu a expansão do agronegócio na Amazônia, mesmo às custas dos direitos dos povos indígenas e do meio ambiente.

“Este relatório é um convite para pedir [a essas empresas] que repensem, e para agir como vigilante sobre os piores atores no Brasil e, em último caso, sobre o regime Bolsonaro”, diz Poirier. “Isto não é um ataque, mas um alerta – as empresas precisam melhorar suas cadeias de fornecimento e seus portfólios financeiros.”

Décadas de ativismo fizeram as taxas de desmatamento no Brasil caírem, mas analistas temem que elas possam voltar a crescer. Em 2018, o Brasil registrou sua maior taxa de desmatamento em uma década, segundo dados do governo, em parte devido a pessoas que se sentiram encorajadas a desmatar sob o novo governo. Em todo o mundo, o desmatamento é a segunda maior fonte de emissões de gases do efeito estufa.

O Ministério do Meio Ambiente brasileiro não retornou os contatos feitos pela DW.

Informar o consumidor

A presença de produtos obtidos a partir do desmatamento ilegal em lojas de cidades europeias e norte-americanas – de bolsas de luxo a smoothies orgânicos – levanta questões éticas para consumidores e governos ocidentais, assim como para as empresas responsáveis.

“Muitas das florestas sendo destruídas estão sendo destruídas ilegalmente”, diz David Kaimowitz, diretor de recursos naturais de mudanças climáticas da Fundação Ford. “De uma perspectiva de políticas, isso é importante porque governos têm o direito de impedir produtos produzidos de forma ilegal de entrar em seus países.”

Especialistas dizem que o problema é ainda pior porque consumidores muitas vezes não sabem que efeitos os produtos que eles compram deixaram em florestas tropicais. “Acho que consumidor típico não sabe quando está comprando carne ou biscoitos cujos ingredientes estão entre as maiores causas de desmatamento”, diz Kaimowitz.

Se os produtos tivessem mais informações nas suas embalagens, os consumidores poderiam tomaram uma decisão de forma mais consciente. “Se o consumidor sabe, pode decidir ele mesmo”, diz a economista Ruth Delzeit, do instituto econômico alemão IFW.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!]. A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.