Fim da moratória da soja ameaça aumentar o desmatamento no Brasil

Os comerciantes de soja veem a moratória como um obstáculo ao crescimento. Organizações ambientais estão protestando. As relações com a Europa e a China podem ser tensas

O cultivo de soja ameaça a floresta amazônica brasileira
O cultivo de soja ameaça a floresta amazônica brasileira. Fonte:Conselho Unido de Soja.  Licença:CC BY 2.0
 Por Ulricke Bickel para “Amerika21” 

 A Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (ABIOVE), que inclui os principais comerciantes de soja do mundo ADM, Bunge, Cargill, Cofco e Louis Dreyfus, retirou-se da moratória da soja em 15 de fevereiro. Isso pode aumentar o desmatamento na Amazônia em até 30% até 2045 e emitir milhões de toneladas de carbono, além disso, colocar em risco o alcance das metas climáticas do Brasil.

Em 2006, quase todos os grandes produtores e exportadores brasileiros haviam se comprometido a parar o comércio de soja cultivada nas áreas recém-desmatadas da floresta tropical. Essa chamada moratória da soja da Amazon veio após uma intensa campanha internacional do Greenpeace e de outras organizações ambientais apoiadas por compradores europeus.

A ABIOVE justificou a medida dizendo que a moratória não está sendo aplicada com a mesma severidade em outros biomas, como a savana do Cerrado, onde a expansão do cultivo de soja também está destruindo milhões de hectares. Os controles aumentaram os custos e limitaram a expansão da competição global.

As organizações ambientais Greenpeace, WWF e Imaflora, por outro lado, descreveram a retirada das empresas em uma declaração conjunta como um “passo sério para trás para o meio ambiente” e apontaram que isso poderia levar à destruição de 9,2 milhões de hectares de floresta.

O cultivo de soja é um dos setores econômicos mais importantes do Brasil, representando 15% de todas as exportações. As grandes empresas comerciais, por sua vez, controlam cerca de 70% do comércio global de grãos. A decisão deles de abandonar os compromissos ambientais é um sinal para os mercados financeiros, fundos de investimento e produtores agrícolas.

Além de milhões de hectares de floresta tropical, bilhões de dólares americanos em comércio exterior, investimentos e financiamentos de acordo com os chamados critérios ESG (Governança Ambiental, Social e Corporativa) para a consideração de questões ambientais, de sustentabilidade e sociais na governança corporativa e investimentos públicos também estão em risco.

A moratória mostrou que as condições podem levar a melhorias na proteção ambiental. Em 2004, o Brasil viveu um pico de destruição florestal; a Amazônia perdeu quase 27.700 km². Como resultado dos controles governamentais e da pressão do mercado, o desmatamento caiu drasticamente nos dez anos seguintes, atingindo um nível historicamente baixo de cerca de 4.500 km² por ano. O monitoramento da região amazônica com a ajuda de satélites desempenhou um papel fundamental nisso. Segundo o Greenpeace, a destruição florestal nas regiões monitoradas caiu quase 70%.

Nos últimos 20 anos, entretanto, a área de cultivo de soja no Brasil aumentou de cerca de 22 milhões para mais de 44 milhões de hectares. Isso se deve, por um lado, à conversão de áreas já desmatadas na floresta tropical, por exemplo pastagens, e por outro lado à expansão das áreas de cultivo fora da floresta amazônica, em detrimento de savanas biodiversas como o Cerrado. Cada hectare de soja produz entre $1.000 e $1.500 por ciclo; O incentivo econômico é enorme. A soja é particularmente procurada como ração para a indústria da carne.

A Amazônia brasileira cobre mais de quatro milhões de km² e (ainda) armazena cerca de 100 bilhões de toneladas de carbono. Cada área desmatada não só destrói a biodiversidade, como também libera enormes quantidades de CO₂. A Amazon funciona como uma bomba que recicla a umidade. O aumento do desmatamento também piora o regime de precipitação na América do Sul. O cultivo de soja, que impulsiona o desmatamento, depende paradoxalmente do equilíbrio climático que a floresta garante.

A Amazônia está em um “ponto crítico sem retorno” (relatado pelo amerika21). Segundo a ciência, o ecossistema pode se transformar em uma savana degradada se o desmatamento ultrapassar 20 a 25% do bioma. Cerca de 17% da área florestal original já foi perdida.


Fonte: Amerika21

A crescente crise hídrica do Brasil

Cientistas alertam o Brasil entrando em uma crise oculta da água com consequências globais

Em frente ao Mercado Municipal Adolpho Lisboa está o Rio Negro, que é o maior afluente esquerdo do rio Amazonas, que por sua vez é o maior rio de águas negras do mundo. Imagem: Dennis Jarvis / Creative Commons 2.0. 

Por Monica Piccinini para “The Ecologist” 

Ao nascer do sol ao longo do Rio Negro, os pescadores frequentemente falam da água como se ela estivesse viva. Eles leem os humores do rio, medem o tempo pelos níveis e marcam as estações pelas correntes.

Por gerações, os cursos d’água em toda a Amazônia moldaram a vida cotidiana. Agora, esses ritmos familiares estão se tornando mais difíceis de ler e confiar.

As florestas brasileiras fazem mais do que armazenar carbono, elas regulam os sistemas hídricos que sustentam rios, agricultura e cidades em toda a América do Sul.

Alimentação

À medida que o desmatamento e a degradação aceleram, cientistas alertam que o país está entrando em uma crise oculta da água com consequências globais.

O Brasil é frequentemente descrito como uma nação moldada pela água. Ela possui cerca de 12% das reservas mundiais de água doce, enquanto a bacia amazônica forma o maior sistema de água doce do planeta.

O Cerrado, a vasta savana tropical do país, alimenta rios que abastecem cidades e agricultura por toda a América do Sul.

No papel, o Brasil parece seguro em termos de água. No entanto, cientistas alertam que essa segurança depende fortemente dos ecossistemas que estão gradualmente perdendo a capacidade de regular a precipitação e o fluxo dos rios.

Augusto Getirana, pesquisador do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA, no Laboratório de Ciências Hidrológicas, falando em caráter pessoal, explicou como os sistemas hídricos do Brasil influenciam o fornecimento global de alimentos.

Riqueza

“O Brasil é o maior produtor mundial de café, soja e carne bovina, entre outras commodities dependentes de água”, disse ele ao The Ecologist.

“Uma crise da água no Brasil que resulta em interrupção na produção doméstica de alimentos rapidamente se torna uma crise global. Vimos isso em 2021, quando os preços dessas commodities aumentaram substancialmente em todo o mundo.”

Luciana Gatti, pesquisadora sênior do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial do Brasil (INPE), argumentou que o desmatamento e a degradação na Amazônia, impulsionados pela expansão agrícola impulsionada pelas exportações do Brasil, estão diretamente ligados à crise hídrica.

“Houve um enorme aumento nas exportações de madeira, carne bovina, soja, milho e minerais. Este é um projeto baseado na destruição da natureza para vender commodities primárias.

“Os sistemas hídricos são prejudicados por esses modelos de desenvolvimento, com consequências severas para os ecossistemas e a população brasileira, enquanto concentram riqueza e poder entre grandes proprietários de terras.”

Uma rede de água

O sistema hídrico do Brasil depende de uma parceria delicada entre a floresta amazônica e o Cerrado. Juntos, formam uma vasta rede hidrológica que move a umidade pela atmosfera, armazena água subterrânea e estabiliza bacias hidroelétricas em grande parte da América do Sul.

Reduzir o tamanho do rebanho de gado ajudaria a diminuir a pressão ambiental e a instabilidade hídrica. 

A insegurança hídrica no Brasil não é apenas sobre a queda das chuvas. Pesquisadores descrevem isso como o enfraquecimento dos processos naturais de regulação climática, uma mudança gradual com consequências potencialmente de longo alcance.

Pesquisas da Universidade de São Paulo estimam que o desmatamento amazônico representa cerca de 74,5% da redução das precipitações e aumento de 16,5% da temperatura durante a estação seca.

A Amazônia desempenha um papel central no ciclo da água da América do Sul. As árvores extraem umidade do solo e a liberam para a atmosfera, gerando correntes de ar úmido frequentemente descritas como “rios voadores”.

Essas correntes de ar invisíveis transportam a chuva muito além da floresta, sustentando regiões agrícolas, reservatórios e grandes centros urbanos. Por exemplo, uma grande porcentagem das chuvas que abastecem o sistema hídrico de Cantareira em São Paulo depende da umidade originária da Amazônia.

Para muitos brasileiros, essas correntes de água atmosférica são invisíveis, mas seus efeitos influenciam quando as culturas crescem, os reservatórios se enchem e se os rios permanecem navegáveis.

Segundo a Agência Nacional de Água e Saneamento Básico (ANA) do Brasil, em 30 de janeiro, o sistema Cantareira estava em operação com 22%.

À medida que as florestas encolhem, os cientistas alertam que esse processo de reciclagem de umidade enfraquece. A redução da cobertura arbórea significa menos umidade no ar, a precipitação se torna mais irregular e os fluxos dos rios se tornam cada vez mais instáveis. Algumas regiões enfrentam secas prolongadas, enquanto outras apresentam chuvas intensas em períodos mais curtos.

Pesquisadores afirmam que esses extremos não são anomalias isoladas, mas sinais de crescente estresse ecológico. Solos mais secos reduzem a recarga do lençol freático, enquanto os rios respondem de forma mais acentuada tanto à seca quanto às chuvas intensas.

Eventos climáticos em grande escala, como El Niño, La Niña e condições quentes no Atlântico Tropical Norte (NTA), só aumentam a pressão, desencadeando enchentes ou secas que se espalham por sistemas fluviais e aquíferos.

Ao longo das vias navegáveis da Amazônia, as comunidades já estão sentindo as consequências. Os estoques de peixes estão diminuindo, a água potável é menos instável e as rotas de transporte fluvial são interrompidas durante as estações secas, isolando vilarejos e restringindo o acesso a alimentos e suprimentos essenciais.

A fonte de água negligenciada do Brasil

Embora a Amazônia frequentemente domine as manchetes, os cientistas enfatizam que o Cerrado desempenha um papel igualmente crítico na manutenção do equilíbrio hídrico do Brasil. Cobrindo aproximadamente um quarto do país, o bioma alimenta grandes sistemas fluviais, incluindo São Francisco, Paraná e Tocantins.

Gatti ressaltou que o bioma do Cerrado é fundamental para a sustentação dos sistemas hídricos e bacias hidrográficas do Brasil: “O Cerrado contém cerca de 80% das bacias hidrográficas do Brasil. Funciona como uma floresta invertida, concentrada em sistemas radiculares profundos. Essas raízes permitem que a chuva se infiltre gradualmente e recarregue as reservas de água subterrânea.

“Quando ocorre o desmatamento, o sistema natural de amortecimento desaparece. A água da chuva não é mais absorvida corretamente. O solo fica exposto e a água escorre em vez de penetrar o solo.”

Por gerações, comunidades rurais e indígenas dependem desses riachos alimentados por águas subterrâneas para agricultura, pesca e práticas culturais ligadas aos ciclos sazonais da água.

Mas o Cerrado está desaparecendo rápido. O cultivo de soja, a criação de gado e a monocultura em grande escala substituíram vastas áreas de vegetação nativa. Culturas de raízes rasas captam menos água, reduzem a recarga de água subterrânea e aceleram a erosão do solo. Os riachos que antes sustentavam comunidades rurais agrícolas estão diminuindo ou desaparecendo completamente.

Expansão da pressão industrial

O setor agrícola do Brasil tornou-se um pilar do crescimento econômico, mas também intensificou a pressão sobre os recursos hídricos.

A demanda por irrigação está aumentando, enquanto fertilizantes e pesticidas frequentemente escorrem para sistemas fluviais, poluindo a água, o solo e a vida selvagem. Globalmente, a agricultura responde por 70% do uso de água doce, um padrão refletido na expansão do agronegócio no Brasil.

Gatti enfatizou o papel da demanda internacional por commodities no sustento do desmatamento: “É hipócrita culpar apenas o Brasil por não combater o desmatamento, enquanto países como os Estados Unidos, a Europa, a China, o Reino Unido e outros continuam a comprar produtos ligados ao desmatamento.

“Se parassem de comprar madeira, carne, soja, milho e minerais produzidos em áreas desmatadas, o desmatamento poderia acabar muito rapidamente.”

Incêndios introduzem outra camada de risco. Paisagens queimadas absorvem e liberam água de forma desigual, aumentando o risco de enchentes durante períodos chuvosos e piorando as condições de seca durante meses secos. Incêndios recorrentes estão alterando a composição das florestas em partes da Amazônia, potencialmente enfraquecendo a geração de chuvas ao longo do tempo.

Gatti disse: “Em 2024, a Amazônia registrou suas maiores emissões de carbono já registradas, principalmente devido a incêndios. O ministério da ciência, tecnologia e inovação (MCTI) do Brasil considera as emissões dos incêndios da Amazônia como zero líquidas em sua metodologia oficial. No entanto, os incêndios representam a maior fonte de emissões de carbono da Amazônia.”

Em 2024, incêndios atingiram 3,3 milhões de hectares da Amazônia, liberando cerca de 791 milhões de toneladas de CO₂, aproximadamente o que a Alemanha emite em um ano. Pela primeira vez, a degradação florestal causada por incêndios foi superada pelo desmatamento como principal responsável por carbono na Amazônia.

As operações de mineração sobrecarregam ainda mais os sistemas de água. Os cursos dos rios às vezes são desviados, florestas desmatadas e cursos d’água contaminados com produtos químicos, reduzindo a quantidade de água doce segura disponível para consumo, pesca, agricultura, transporte e ecossistemas.

Cientistas alertam que, se o desmatamento e a degradação dos ecossistemas continuarem, os fluxos de rios e os padrões de chuva podem se tornar progressivamente menos previsíveis, ameaçando a agricultura e o abastecimento de água urbana.

O Instituto das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde (UNU-INWEH) descreve esse desafio emergente como “falência de água”, uma situação em que a água doce é consumida mais rapidamente do que a natureza pode reabastecê-la.

Especialistas alertam que o acesso desigual à água pode aprofundar a desigualdade social, impulsionar a migração e aumentar o risco de conflitos em regiões vulneráveis.

Política

Apesar das crescentes evidências científicas, a escassez de água ainda é amplamente percebida como um problema distante ou regional em um país historicamente definido pela abundância.

Ao mesmo tempo, as decisões políticas estão remodelando os próprios rios. Assinado pelo presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, em agosto de 2025, o Decreto 12.600/2025 adicionou os rios Tapajós e Tocantins (estado do Pará), bem como o rio Madeira (estado do Amazonas), ao gasoduto de privatização do Brasil para expandir o transporte marítimo ao longo do Arco Norte.

Hidrólogos e comunidades ribeirinhas alertam que dragar leitos de rios e remover rochas para manter essas rotas abertas para navios cargueiros maiores pode interromper o movimento de sedimentos e os padrões sazonais de enchentes.

Em uma bacia já sobrecarregada por secas crescentes, essas mudanças podem enfraquecer ainda mais a segurança hídrica dos ecossistemas e das pessoas que dependem deles.

Getirana destacou que a emergente crise hídrica do Brasil está enraizada em práticas políticas e culturais de longa data: “Muitas das decisões políticas e econômicas do Brasil se basearam na ideia de que é um país rico em água.

“Decisões políticas ruins que resultaram em impactos negativos no meio ambiente e na disponibilidade de água não têm relação com partidos ou ideologias. É a cultura do país. Isso vem acontecendo há décadas, talvez séculos, independentemente de quem esteja no poder. A má gestão da água está enraizada na cultura brasileira.

“Uma mudança política precisa, primeiro, de uma mudança de mentalidade na população brasileira. Talvez uma forma de mudar essa mentalidade seja demonstrando como a má gestão está impactando seus meios de subsistência e finanças.”

Gatti também alertou que, no Brasil, a pesquisa científica é frequentemente negligenciada no desenvolvimento de políticas: “As evidências científicas não estão chegando aos tomadores de decisão. Promessas de desmatamento zero até 2030 correm o risco de chegar tarde demais porque partes da Amazônia já podem estar se aproximando de pontos de inflexão ecológica.

“Embora o Brasil tenha passado por mudanças políticas na liderança, políticas estruturais de uso da terra que impulsionam o desmatamento permaneceram em grande parte inalteradas.”

Recuperação

Apesar da crescente preocupação, alguns cientistas enfatizam que a recuperação ainda é possível.

Gatti explicou que várias medidas podem fazer uma diferença considerável na segurança hídrica do Brasil: “Zero desmatamento em todo o país até 2027, não apenas na Amazônia, é essencial para estabilizar os sistemas de chuva e água.

“Reduzir o tamanho do rebanho de gado, estabelecer limites para a agricultura em monocultura em grande escala e exigir restauração florestal em paisagens agrícolas ajudaria a diminuir a pressão ambiental e a instabilidade hídrica.

“Expandir os sistemas agroflorestais em grande escala poderia ajudar a restaurar o equilíbrio ecológico enquanto mantém a produtividade agrícola.”

Getirana argumentou que reformar a governança hídrica deveria ser o primeiro passo para restaurar a estabilidade hídrica do Brasil: “Acredito que reformar a governança hídrica seria a base para outras medidas, como restaurar terras degradadas e enfrentar a mitigação climática. Além disso, políticas que previnam a poluição da água podem ter impactos quase imediatos.”

Alguns pesquisadores estão examinando se o reconhecimento dos rios como seres vivos poderia proporcionar uma proteção ambiental mais forte. Um projeto liderado pela Universidade de Leeds está explorando como tais estruturas legais podem ajudar a prevenir a poluição, o desmatamento e a superexploração industrial.

Para as comunidades ao longo do Rio Negro e por todo o interior do Brasil, a crise já é profundamente pessoal. Os rios são menos previsíveis, os padrões de chuva estão mudando e a qualidade da água está em declínio. Suas experiências diárias refletem uma realidade mais ampla: o futuro hídrico do Brasil depende da sobrevivência dos ecossistemas que o sustentam.

Proteger as florestas brasileiras pode, em última análise, determinar não apenas o futuro ambiental do país, mas também a estabilidade dos sistemas hídricos dos quais milhões de pessoas dependem diariamente.

Esta Autora

Monica Piccinini é colaboradora regular do The Ecologist e escritora freelancer focada em questões ambientais, de saúde e direitos humanos.


Fonte: The Ecologist

Hyatt e Marriott: estudo liga hotéis de luxo a extração ilegal de madeira na Amazônia

Relatório da organização Environmental Investigation Agency (EIA) mostra como a madeira extraída ilegalmente no Pará pode ‘contaminar’ a cadeia produtiva de importadores na Europa e Estados Unidos; Um dos exportadores brasileiros citados no estudo já comprou de madeireiras abastecidas por fazendas flagradas com trabalho escravo, revela a Repórter Brasil

 

Por Poliana Dallabrida/ Edição Juliano Barros para “Repórter Brasil” 

Importadores de madeira brasileira na Europa e Estados Unidos compram produto com “alto risco de ilegalidade”, aponta novo estudo da EIA (Environmental Investigation Agency), organização especializada na investigação de crimes ambientais. 

O relatório “Contrabandistas, Corretores e Compradores” (disponível apenas em inglês), publicado na última terça-feira (20), revela como toras extraídas ilegalmente de áreas protegidas no Pará, como territórios indígenas e reservas ambientais, podem ter virado decks em hotéis de luxo nos EUA e calçadões em praias da Riviera Francesa. 

A investigação reuniu documentos de transporte de mais de 25 mil metros cúbicos de madeira – o suficiente para encher 830 contêineres – extraídos de três áreas do Pará que até tinham autorização para retirada de madeira, mas apresentaram indícios de ilegalidade, segundo a organização. 

A EIA mapeou 11 serrarias que forneceram madeira para oito exportadores. Estes, por sua vez, forneceram decks de madeiras Ipê e Cumaru para outros 11 importadores nos Estados Unidos, Portugal, França e Alemanha. 

Uma das citadas pela EIA é a Global Forest Lumber Company, importadora dos Estados Unidos. Segundo registros de redes sociais listados no relatório, uma das empresas do grupo forneceu madeira de Ipê a empreiteiros americanos que realizaram reformas em unidades das redes de hotéis Marriott e Hyatt, ambos na Flórida, e na área VIP do Grand Prix da Fórmula 1 em Miami em 2023 e 2025. 

“No entanto, como já foi documentado em múltiplos relatórios da EIA, nenhuma das grandes marcas ou clientes pode garantir que toda a madeira tenha vindo de uma área legal”, aponta a EIA no estudo. 

A Repórter Brasil entrou em contato com os hotéis Marriott e Hyatt e com a assessoria de imprensa da Fórmula 1, mas não obteve respostas até o fechamento deste texto. A reportagem não localizou o contato da Global Forest Lumber Company. O espaço segue aberto para manifestações futuras. 

Madeira da Terra Indígena Munduruku

O relatório da EIA destaca a devastação ilegal para extração de madeira na Terra Indígena Munduruku, localizada na borda oeste do chamado Arco do Desmatamento na Amazônia. 

A EIA, em parceria com a organização Munduruku Associação de Mulheres Wakoborũn, identificou uma operação ilegal de extração de madeira dentro do território entre 2023 e 2024. 

Com base em imagens de satélite, a EIA mapeou cerca de 60 km de estradas abertas no período, conectadas a uma área de garimpo e a uma pista clandestina no Parque Nacional do Rio Novo, unidade de conversação vizinha à TI. As imagens (ver abaixo) indicam centenas de toras estocadas ao longo das vias e em pontos de carga – a EIA estima a carga em 1,2 mil metros cúbicos de madeira. 

Via imagens de satélite, a EIA identificou uma operação de extração ilegal de madeira em grande escala no Território Indígena Munduruku entre 2023 e 2024. (Reprodução/Imagens de satélite fornecidas por CNES; mapa e localizações identificados pela EIA)
Via imagens de satélite, a EIA identificou uma operação de extração ilegal de madeira em grande escala no Território Indígena Munduruku entre 2023 e 2024. (Reprodução/Imagens de satélite fornecidas por CNES; mapa e localizações identificados pela EIA)

“A atividade teria cessado em novembro de 2024, quando o governo intensificou a repressão ao garimpo, mas já havia afetado cerca de 5 mil hectares de floresta intacta”, aponta a organização. “Há suspeitas de que madeira de alto valor, como Ipê e Cumaru, tenha sido ‘lavada’ na cadeia produtiva e possivelmente exportada para mercados como EUA e União Europeia”, complementa o relatório.

Verniz de legalidade

Para a EIA, a madeira extraída em áreas não autorizadas pode ser facilmente “lavada” e inserida no comércio nacional e internacional usando documentos oficiais de áreas formalmente licenciadas. No Pará, aponta a organização, grandes volumes de madeira não são originários das áreas declaradas nas licenças de exploração madeireira. 

Um dos casos detalhados no relatório é o da Fazenda Odila, localizada no município paraense de Óbidos, próximo à TI Munduruku. 

Entre junho de 2021 e junho de 2022, a propriedade obteve a autorização da Semas-PA (Secretaria do Meio Ambiente do Pará) para a extração de 16,9 mil metros cúbicos de madeira – volume que poderia encher um trem de carga de 3 km. A autorização foi concedida mesmo após multa do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente), registrada em 2018 em nome do dono declarado da propriedade por apresentar informações falsas em documentos de exploração madeireira. 

Guias de transporte de madeira acessadas pela EIA indicam que, entre novembro de 2021 e junho de 2022, 16,3 mil metros cúbicos de madeira teriam saído do local. No entanto, ao analisar imagens de satélite, a organização não identificou sinais de exploração madeireira em escala industrial. “Apenas uma pequena estrada de acesso surgiu em outubro de 2021, insuficiente para justificar esse volume”, diz trecho do relatório. 

A madeira da Fazenda Odila alcançou mercados globais. A produção da área foi adquirida por 11 serrarias – dez delas com multas registradas pelo Ibama ou pela Semas-PA. 

“Entre 2022 e 2025, dez dessas serrarias revenderam para seis exportadoras brasileiras – todas também multadas pelo Ibama em casos diferentes – que, por sua vez, embarcaram para quatro importadoras nos EUA e três na União Europeia”, detalha a EIA.

Repórter Brasil não localizou contatos de representantes da Fazenda Odila. O espaço segue aberto para manifestações futuras.

Fornecedor flagrado com trabalho escravo

Uma das exportadoras brasileiras citadas no caso da Fazenda Odila é a Amazon Comércio Atacadista e Exportação de Madeira. Uma investigação adicional realizada pela Repórter Brasil identificou que a empresa já foi abastecida, em 2023, por duas madeireiras que compraram o produto de fazendas flagradas com trabalho escravo. 

A primeira é a Fazenda Sipasa, onde 16 trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão em junho de 2023 em Moju (PA). Os trabalhadores haviam sido contratados para realizar a derrubada de 477 hectares de vegetação nativa dentro de uma área da fazenda, como mostrou a Repórter Brasil em reportagem publicada em fevereiro de 2024. Pelo flagrante, a dona da propriedade, Sipasa Seringa Industrial do Pará S/A, entrou em abril de 2025 na chamada Lista Suja do trabalho escravo, cadastro oficial do governo federal com os dados dos empregadores responsabilizados pelo crime.

Dias após o flagrante de trabalho escravo, a Sipasa forneceu toras de Ipê para a DAB Madeiras e Empreendimentos Florestais, em Tailândia (PA), segundo guias de transporte de madeira acessadas pela reportagem. Dois meses depois, a DAB forneceu toras da mesma espécie de madeira para a Amazon.

A exportadora brasileira também foi abastecida por outra madeireira que comprou o produto de uma fazenda flagrada com trabalho escravo. No mesmo período da fiscalização na Fazenda Sipasa, auditores fiscais do Trabalho resgataram outros 17 trabalhadores na Fazenda Citag, em Moju (PA).

A propriedade está registrada em nome de Wilson Fabricio Campos de Sá, conforme descrito pela Repórter Brasil em matéria publicada em outubro do ano passado. A empresa terceirizada que contratou os trabalhadores é quem foi responsabilizada pela prática de trabalho escravo e entrou na Lista Suja em abril de 2025.

Guias de transporte de madeira acessadas pela reportagem mostram que Wilson de Sá forneceu, em setembro de 2023, toras de Ipê-amarelo para a Madeireira Barreto, de Tailândia (PA). Dias depois, a madeireira forneceu o mesmo produto para a exportadora Amazon.

Estudo identificou que áreas no Pará com autorização para retirada de madeira apresentaram indícios de ilegalidade (Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace)
Estudo identificou que áreas no Pará com autorização para retirada de madeira apresentaram indícios de ilegalidade (Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace)

“O trabalho escravo é outra faceta da convergência de crimes associados ao desmatamento ilegal e destaca a importância das leis da UE e dos EUA que exigem que as empresas que compram commodities de alto risco, como madeira da floresta amazônica, realizem a devida diligência na cadeia de abastecimento”, avalia Rick Jacobsen, Gerente sênior de Política de Commodities da EIA.

À época da publicação da reportagem sobre o caso de trabalho escravo, a defesa da Sipasa Seringa Industrial do Pará afirmou que os trabalhadores foram contratados por uma empresa terceirizada, responsável pela contratação de mão de obra, que não foram submetidos à jornada excessiva de trabalho e que os alojamentos eram “condizentes com as condições de abrigo e de vida dos habitantes da própria Região Norte”. 

Procurado pela Repórter Brasil, o advogado de defesa de Wilson de Sá, da Fazenda Citag, disse que as vendas de madeira da propriedade foram realizadas “ao rigor da lei, com todas as licenças emitidas à época”, e que não tem nada mais a declarar sobre o caso.

As madeireiras DAB e Barreto e a exportadora Amazon também foram procuradas, mas não responderam aos questionamentos enviados pela reportagem até o fechamento deste texto. O espaço segue aberto para manifestações futuras.

Regras mais rígidas

Para a EIA, o setor madeireiro brasileiro apresenta um “padrão contínuo de crimes e impunidade”. A organização também ressalta limitações atuais do sistema de rastreabilidade da madeira e dos esforços de fiscalização no país, “que ainda permitem a circulação de grandes volumes de madeira ilegal nas cadeias de suprimentos nacionais e internacionais, causando danos irreparáveis aos povos indígenas e à Amazônia”. 

A Semas-PA foi procurada pela Repórter Brasil para comentar o relatório e as informações sobre o caso da Fazenda Odila, mas não respondeu até o fechamento deste texto. O espaço segue aberto para manifestações futuras.

A EIA sugere rastreabilidade em tempo real, com validação em campo, combinada com maior transparência de dados públicos. “O Ministério Público do Pará já começou a enfrentar a situação ao recomendar uma série de medidas que melhorariam significativamente o sistema – e que deveriam ser apoiadas e implementadas em nível nacional”, diz o relatório.

A organização sustenta ainda que os casos apresentados no estudo indicam um “descumprimento generalizado” do EUTR (Regulamento da União Europeia sobre a Madeira) e da Lei Lacey, que proíbe a importação de madeira ilegal para os EUA. “Para compradores dos EUA e da UE, os casos apresentados nos dois relatórios da EIA levantam sérias questões sobre suas práticas de devida diligência”, aponta a organização.

Para a EIA, requisitos mais rigorosos de devida diligência do Regulamento da UE sobre Desmatamento (EUDR), que substituirá o EUTR, são “urgentemente necessários” para interromper o fluxo de madeira ilegal da Amazônia para o mercado da União Europeia. No caso americano, a organização espera que os EUA “façam sua parte para aplicar de forma efetiva o Lacey Act”.

“Em conjunto, essas soluções podem ajudar a reduzir de maneira eficaz o crime florestal e proteger uma das últimas florestas tropicais remanescentes do mundo”, afirmam.


Fonte: Repórter Brasil

Destruição disfarçada de sustentabilidade: Desenvolvimento sustentável na Amazônia é conversa para boi dormir

Para analistas críticos, o termo “desenvolvimento sustentável” foi cunhado para desviar o debate sobre os malefícios do capitalismo sobre os sistemas naturais da Terra. E já se vão quase quase 4 décadas desde que o termo foi usado originalmente no famoso Relatório Bruntdland. E desde então o que se vê é o avanço desmensurado da destruição de ecossistemas naturais em todo o planeta. A Amazônia brasileira é talvez um das regiões em que já se injetou muito dinheiro em projetos que prometem a concretização desse modelo que promete formas menos destrutivas de utilização das riquezas naturais ali existentes.

Mas o que não se fala de forma minimamenrte clara é que para cada centavo gasto com projetos ‘sustentáveis”, milhares de reais são aplicados em outros projetos que claramente não têm nada de sustentáveis.  E isso acaba sendo obscurecido pela máquina publicitária do governo federal e de seus aliados dentro do que venho chamando de sistema “agroquímico mineral” que é composto por uma amálgama de latifundiários, corporações multinacionais que controlam o sistema alimentar global e grandes mineradoras. 

Hoje recebi uma coletânea de matérias do jornal “Folha de São Paulo” dentro de uma série intitulada “Grandes na Amazônia” que foi publicada entre julho/2025 e janeiro/2026. As matérias apresentam e analisam seis grandes projetos de investimento que incluem a construção ou ampliação de ferrovias, hidrovias, estradas e exploração de rochas destinadas a aumentar a produção nacional de fertilizantes (Aqui!, Aqui!, Aqui! Aqui! Aqui! Aqui!).  As matérias mostram claramente que esses projetos causarão não apenas problemas ambientais, mas servirão para deslocar e impor situações de grande violência sobre povos indígenas e comunidades tradicionais. E como as matérias jornalíticas mostram, os riscos sociais e ambientais são plenamente conhecidos pelos ocupantes do governo federal, no caso a frente amplíssima construída pelo presidente Luís Inácio.

Conversando hoje com um parceiro científico de longa data, ouvi algo que me parece irrefutável. Ele, um pesquisador com décadas de experiência de pesquisas amazônicas, me disse que lamentavelmente há um grau muito grande de acordo sobre como usar a Amazônia entre as distintas forças politicas que têm ocupado historicamente o governo federal, apesar das distinções pontuais na hora de sustentar a lógica do uso dos recursos ali existentes. Na prática, segundo esse pesquisador,  fica tudo muito parecido quando se trata de definir as linhas de investimento em grandes projetos que nada têm de sustentáveis.

Desta forma, o chamado “desenvolvimento sustentável” tem operado, no caso da Amazônia, mais como discurso legitimador do que como alternativa real ao modelo predatório vigente. Apesar da retórica ambiental, os investimentos públicos e privados continuam priorizando grandes obras de infraestrutura, mineração e agronegócio, aprofundando o desmatamento, os conflitos sociais e a violência contra povos indígenas e comunidades tradicionais. Esse padrão revela um amplo consenso político em torno de um projeto de uso da Amazônia subordinado ao sistema agroquímico-mineral, incompatível com uma sustentabilidade efetiva.

Como estamos entrando em um ano eleitoral em que certamente teremos novamente campanhas eleitorais que vão reduzir o debate a um combate entre “bem” e “mal” com vistas a impedir um debate mais amplo sobre quais são efetivamente as propostas de uso das riquezas nacionais, pois o debate aberto acaba mostrando que no caso da Amazônia as propostas são essencialmente as mesmas, qual seja, mais desmatamento e degradação florestal para alimentar a expansão do modelo agroquímico mineral.

Soja e agrotóxicos sufocam comunidades tradicionais da Amazônia

Pesquisa documenta dificuldades respiratórias e alimentares de indígenas e quilombolas causadas pelo uso de glifosato em terras griladas no Baixo Tapajós

A foto mostra uma grande área agrícola já colhida ou preparada para plantio, com o solo exposto e restos de palha seca. Próximo à borda da plantação há uma floresta densa, com árvores altas e vegetação tropical fechada. No canto esquerdo da imagem, uma máquina agrícola vermelha, equipada com uma barra pulverizadora longa, está trabalhando no campo.Pequenos fragmentos florestais mascaram dimensão da devastação ocasionada por platações de soja no Baixo Tapajós – Foto: Bruno Kelly

Por Jean Silva, com arte de  Gustavo Radaelli, para o Jornal da USP 

Plantações de soja, agrotóxicos e grilagem de terras na Amazônia brasileira: esse é o cenário. Em meio ao vasto território, existe um mito de a região florestal estar vazia, apesar de os povos tradicionais tentarem manter suas formas de vida. Por 18 meses de estudo etnográfico, Fabio Zuker, pesquisador da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP investigou a expulsão por sufocamento no Baixo Tapajós devido ao uso de glifosato em plantações de soja de terras griladas. Os casos ilustram dificuldades respiratórias, alimentares e econômicas como formas de expulsar indígenas, quilombolas e ribeirinhos de suas terras.

O artigo intitulado Expulsion by suffocation: Soybean plantations, toxicity, and land grabbing in the Brazilian Amazon foi publicado na revista Environment and Planning E: Nature and Space.

“O sufocamento acontece de forma literal e metafórica. Literalmente, as pessoas não conseguem respirar devido à intensa aplicação de agrotóxicos. Elas se trancam em suas casas, relatando dificuldade para respirar”, conta Zuker. Em metáfora, é uma alusão à supressão da capacidade dessas comunidades manterem sua produção, seu modo de vida, manterem-se junto a esse território e às relações com outras espécies das quais dependem para viver. No trabalho, o pesquisador evidencia como um imaginário colonial-militar de vazio é produzido através de danos químicos lentos.

“A ideia é que o vazio na Amazônia é produzido, e não natural. Foi criado ao longo da história, desde a Marcha para o Oeste no governo Vargas até o Plano de Integração Nacional da ditadura militar”, contextualiza. 

No trabalho de antropologia, o pesquisador quis dar um tratamento reflexivo e crítico ao processo de expulsão por sufocamento. Por isso, encarou a “farsa” do vazio como uma categoria que permite compreender o processo de fabricação da paisagem, na qual pequenos pedaços de floresta e comunidades escondem a dimensão da devastação ambiental.

“O vazio é produzido pelas próprias atividades [violentas] que o ocupam, como o uso de agrotóxicos. Uma produção intencional desse espaço esvaziado” – Fabio Zuker

Violência e resistência

No contexto da pesquisa, a expansão do agro é colocada como uma forma de morte induzida quimicamente pelo uso de agrotóxicos no Baixo Tapajós. Em conversa com lideranças das comunidades, o pesquisador constatou também a existência de uma floresta que é quase uma maquiagem. “Pequenos trechos de floresta na beira de estrada. São as bolhas que sobram aqui e ali”, indica Zuker. 

Em diálogo com Beto, morador e trabalhador rural da região, o pesquisador chama essas bolhas de “farsa das comunidades”. “Só tem umas casinhas ali, na beira da estrada. E nada mais. Antes havia uma comunidade grande aqui. Só umas árvores ali. É tudo soja atrás”, relata o morador.

 A farsa indicada é criada pelas comunidades remanescentes e pelos fragmentos de mata que, da beira da estrada, escondem os vastos campos de soja que invadem a paisagem. De outro lado, o pesquisador destaca os processos de resistência para impedir toda essa lógica de “vazio”.

“Tem um problema grande nas ciências sociais, que é focar exclusivamente numa narrativa da violência, da destruição, uma narrativa do apagamento. O que está colocado em jogo é uma tensão, é uma força que leva para a violência, para o apagamento, para o processo de sufocamento. Por outro lado, há uma resistência constante de coletivos indígenas, quilombolas, ribeirinhos que se contrapõe a essa expulsão”, continua. Ele alega que essa é uma forma de contra plantation ao se colocarem contra a incorporação de seus territórios numa lógica de violência do sistema de produção global de grãos e proteínas vegetais.

Uma casa antiga de madeira parcialmente escondida pela vegetação densa de tábuas claras já desgastadas tem um telhado simples e uma pequena abertura frontal da porta — tomada pela sombra e por plantas que cresceram para dentro do espaço. Arbustos, cipós e árvores envolvem quase toda a fachada, cobrindo paredes e avançando pelo telhado.

No território, existem múltiplos seres, não humanos ou humanos, defendendo o território para que ali se multipliquem outras formas de vida – Foto: Bruno Kelly

Junto com os tupinambás do Baixo Tapajós, a pesquisa resgatou a ideia de um território vivo em contraposição ao vazio. E em um lugar onde coexistem múltiplos seres: não humanos que têm um papel fundamental na defesa do território e defendem junto com os humanos a integridade dele para que ali se multipliquem outras formas de vida. “Todos esses encantados, esses outros seres que compõem esse território de múltiplas formas de vida, não somem. Eles têm a possibilidade de reaparecer e voltar esse léxico. Um processo de retomadas, de mobilizações contra o avanço do agronegócio”, explica o pesquisador.

Soluções

O esforço de documentar esse fenômeno da região amazônica vem de campos diferentes do saber, que buscam evidenciar a dimensão de danos causados por agrotóxicos. “Junto com análises de ciências sociais, conseguimos demonstrar também a partir de narrativas, de histórias de vida, de casos, um padrão de violência local”, explica Zuker. Essa complementaridade é necessária devido à dificuldade de produzir conhecimento sobre os efeitos de uma substância invisível que age no longo prazo. 

“Além de ser difícil traçar os resultados por um período extenso, [a pesquisa nesse assunto] é também reprimida por conta de pessoas poderosas com muitos interesses e muita entrada na política local”, alerta. Ainda assim, ele defende que os índices de desenvolvimento humano das comunidades amazônicas devem acontecer com a floresta viva e em pé. “Nada indica que o desmatamento seja um caminho importante para que exista uma melhoria na vida dessas pessoas”, afirma. Pelo contrário, a floresta e os ecossistemas são partes fundamentais para essas populações de acordo com sua pesquisa. 

Sobre o uso de agrotóxicos, Zuker defende melhores práticas regulatórias e de fiscalização para evitar a lógica de expulsão. “Um elemento fundamental é a não comercialização no Brasil de agrotóxicos que são proibidos nos seus países de origem”, indica. Contudo, ele ressalta a importância do diálogo de diferentes setores para promoção do respeito à existência ecológica e do conhecimento local nessas e em outras regiões que são ameaçadas pela monocultura e pela mineração.

O artigo intitulado Expulsion by suffocation: Soybean plantations, toxicity, and land grabbing in the Brazilian Amazon pode ser acessado clicando aqui.

Para mais informações: fabiozuker@gmail.com, com Fabio Zuker

*Estagiário sob orientação de Tabita Said

**Estagiário sob orientação de Moisés Dorado


Fonte: Jornal da USP

Logística de garimpo ilegal destruída por forças federais envolvia bens avaliados em R$ 902 milhões

Policiais federais durante operação contra o garimpo ilegal no Amazonas: destruição de dragas (Foto: Divulgação/PF) 

Do ATUAL, com Agência Gov

MANAUS – Operações da Polícia Federal em parceria com o Ibama (Instituto Nacional de Defesa do Meio Ambiente), ICMBio (Instituto Chico Mendes da Biodiversidade) e Funai (Fundação Nacional do Índio) em cinco Terras Indígenas na Amazônia Legal resultaram na destruição de material de garimpo e de desmatamento ilegal avaliado em R$ 902 milhões entre 2023 e 2025.

Também participam das ações a Polícia Rodoviária Federal, a Força Nacional de Segurança Pública e as Forças Armadas.

Sessenta mil indígenas das etnias Yanomami, Munduruku, Arariboia, Kayapó e Uru-Eu-Wau-Wau vivem nessas áreas. O valor é referente a material que serve de apoio à logística criminosa. Entre os bens apreendidos estão: 250 quilos de ouro; 2.537 motores de garimpo, 355 mil litros de óleo diesel, 948 acampamentos, 1.700 edificações, 138 maquinários pesados, 320 embarcações, e 44 aeronaves.

Também foram apreendidos 236 quilos de mercúrio, além de 187 mil quilos de cassiterita e 205 armamentos. Foram fiscalizados 40 mil veículos e 545 aeródromos que resultaram em quatro mil autuações.

As operações cumprem determinação do STF (Supremo Tribunal Federal) na Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 709. Foram 12 mil ações de controle, combate e fiscalização, coordenadas pela Casa Civil da Presidência da República.

Estaleiro clandestino construía e reformava balsas para o garimpo (Foto: PF/Divulgação)
Estaleiro clandestino construía e reformava balsas para o garimpo em Manaus (Foto: PF/Divulgação)

TI Apyterewa

Na terra indígena Apyterewa, a ação federal reduziu em 100% os alertas de novas áreas de desmatamento no mês de dezembro de 2023, comparado a setembro do mesmo ano – período em que ocorreu a desintrusão. Resultado semelhante foi registrado na TI Kayapó, onde houve queda de 98% dos alertas de novas áreas de garimpo, entre março e julho deste ano.

TI Yanomami

Na Terra Indígena Yanomami, onde a Casa de Governo mantém operações diárias desde março de 2024, houve 98% de queda da área de garimpo ativo, e redução de 97% na abertura de novos garimpos. As operações no território Yanomami estão ativas e integradas.

No âmbito da ADPF 709, foram realizadas operações nas terras indígenas Apyterewa (PA), Trincheira Bacajá (PA), Karipuna (RO), Munduruku (PA), Arariboia (MA), Kayapó (PA), Uru-Eu-Wau-Wau (RO) e Yanomami (RR e AM). Embora não esteja no escopo da ADPF, a Terra Indígena Alto Rio Guamá (PA) era objeto de outra ação judicial e também passou por desintrusão em 2023.

A secretária-adjunta de Articulação e Monitoramento da Casa Civil, Janini Ginani, ressaltou a integração entre os diferentes órgãos para o sucesso das ações. “Nós temos agora um acúmulo suficiente para que possamos conduzir esse aprendizado como uma política de Estado, uma política pública que atue dentro e fora das terras indígenas, tendo como premissa a prevenção de novas invasões e garantindo que esses avanços apontados aqui permaneçam”.

“Um grande legado desse trabalho foi o envolvimento de todos os órgãos nessa agenda indigenista, de forma a expandir a atuação para uma responsabilidade do Estado brasileiro”, acrescentou.

O coordenador-geral das desintrusões, Nilton Tubino, apresentou o histórico das desintrusões. “Pelas próprias dificuldades e dinâmicas dos territórios, ninguém consegue fazer nada sozinho”, disse.

A coordenadora de Fiscalização do ICMBio, Nidia Reis de Paiva, destacou a importância das operações em terras indígenas para a queda ou redução a zero nos registros de desmatamento em unidades de conservação próximas ou sobrepostas a esses territórios.

O diretor-geral do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), Richard Fernandez Nunes, ressaltou o “trabalho magnífico” de integração entre as agências do governo. “Cada órgão tem seus próprios procedimentos que vão sendo aprimorados com esse enriquecimento mútuo. Eu não vejo dificuldade que a gente avance na direção de consolidar essa metodologia [utilizada nas desintrusões]. E que possamos seguir neste caminho para que o Poder Executivo possa conduzir as políticas públicas que sejam capazes de dar respostas. O Censipam está disponível para isso”, disse.


Fonte: Amazônia Atual

As águas da Amazônia atingem temperaturas recordes

Lagos da Amazônia 1

Um estudo recente liderado pelo Instituto Mamirauá para o Desenvolvimento Sustentável, no Brasil, revelou que os lagos da Amazônia estão aquecendo até 0,8°C por década, ultrapassando a média global. Crédito da imagem: Miguel Monteiro / Instituto Mamirauá. 

“Estava muito calor, o sol estava quente, a água estava quente, a lama estava quente, tudo estava quente. Nunca tinha visto nada igual”, recorda Silas Rodrigues, presidente da comunidade Bom Jesus, às margens do Lago Tefé.

Agora, um estudo científico confirma que o lago onde Rodríguez vive há quase quarenta anos atingiu 41°C no auge da seca. A pesquisa, liderada pelo Instituto Mamirauá de Desenvolvimento Sustentável, no Brasil, e publicada na revista Science Advances , revela também que as águas da Amazônia estão aquecendo a uma taxa sem precedentes: cerca de 0,8°C por década, bem acima da média global.

A morte de peixes e botos no Lago Tefé, na Amazônia brasileira, chamou a atenção para o aumento das temperaturas nos rios e lagos da região. Crédito da imagem: Miguel Monteiro / Instituto Mamirauá.

“Até agora, a maioria dos estudos havia sido feita em lagos temperados nos Estados Unidos ou na Europa. Mas aqui [na Amazônia] estamos falando de um processo diferente, tropical. Antes, havia apenas projeções, mas em 2023 confirmamos que se trata de um fenômeno em larga escala com muitos impactos socioecológicos”, disse Ayan Fleischmann, autor do estudo e pesquisador do Instituto Mamirauá, à SciDev.Net .

A pesquisa, que contou com a participação de especialistas internacionais, combinou observações de campo para registrar o que estava acontecendo durante a seca de 2023 com análises de imagens de satélite para compreender as mudanças ocorridas nas últimas três décadas. Além disso, utilizando modelos matemáticos, a equipe identificou as razões pelas quais as águas da Amazônia estão aquecendo tão rapidamente.

Os resultados revelaram que cinco dos dez lagos monitorados na Amazônia central registraram temperaturas diurnas superiores a 37°C. O Lago Tefé registrou o valor mais alto observado até o momento, 41°C, temperatura considerada acima do limite de tolerância para a vida aquática. “Esses valores são muito superiores às temperaturas típicas desses ecossistemas: a temperatura média da água superficial durante o dia em lagos tropicais geralmente varia entre 29°C e 30°C”, indica o estudo.

“Até agora, a maioria dos estudos havia sido feita em lagos temperados nos Estados Unidos ou na Europa. Mas aqui [na Amazônia] estamos falando de um processo diferente, um processo tropical. Antes, havia apenas projeções, mas em 2023 confirmamos que se trata de um fenômeno em larga escala com muitos impactos socioecológicos.”

Ayan Fleischmann, pesquisador do Instituto Mamirauá

Entre outras descobertas, o estudo revela que a área da superfície do Lago Tefé diminuiu 75%, e no Lago Badajós, a redução chegou a 92%. Essa diminuição significativa da área da superfície da água se deveu à queda dos níveis dos rios, e a pouca profundidade coincidiu com um aquecimento excepcional dos corpos d’água.

Além disso, dados de satélite de 24 lagos brasileiros mostraram que o aquecimento registrado em 2023 não foi um evento isolado. Desde 1990, as temperaturas da água superficial na Amazônia aumentaram em média 0,6°C por década, com tendências que chegam a 0,8°C em alguns lagos, como Tapajós, Amanã e Janauacá.

Fleischmann enfatiza que esses dados demonstram uma tendência contínua de aquecimento nos lagos amazônicos, onde ainda há muito pouco monitoramento. Andrea Encalada, pesquisadora do Painel Científico para a Amazônia, que não participou do estudo, concorda.

O cientista equatoriano especializado em ecologia de rios tropicais disse à SciDev.Net que essas descobertas mostram claramente como as mudanças climáticas estão alterando os sistemas de água doce na região tropical.

“As descobertas de Fleischmann e seus colegas são profundamente reveladoras e alarmantes. O que está acontecendo nos lagos da Amazônia não é um incidente isolado, mas um sinal claro de que os sistemas aquáticos tropicais estão atingindo limites críticos diante das mudanças climáticas”, conclui ele.

Um chamado da Amazonia

A seca de 2023 deixou cicatrizes profundas. “Muitos peixes morreram e havia um cheiro horrível. A água estava muito poluída”, conta Rodrigues. Fleischmann, por sua vez, lembra-se de quando, em setembro, os pescadores de Tefé foram ao Instituto Mamirauá para relatar a morte de botos no lago. Esse incidente marcou o início de sua pesquisa.

“Quando um rio ou lago amazônico seca, a vida das pessoas que tanto dependem dele para seu transporte , sua vida e sua cultura também seca”, reflete ele.

Os efeitos nos lagos amazônicos são um sinal claro de que os sistemas aquáticos tropicais estão atingindo limites críticos diante das mudanças climáticas. Crédito da imagem: Miguel Monteiro / Instituto Mamirauá.

Portanto, os especialistas enfatizam a importância de fortalecer a cooperação entre a ciência e as comunidades locais para lidar com os futuros eventos climáticos. Rodrigues insiste que os estudos técnicos devem ser conduzidos “em conjunto com as comunidades ribeirinhas, para evitar danos ao meio ambiente ou às pessoas”.

Fleischmann compartilha dessa visão e a levará consigo para a COP30, que está sendo realizada em Belém, no Brasil. “Precisamos investir em ciência, tecnologia e monitoramento em conjunto com as comunidades locais; não se trata de uma campanha de um ou dois anos, mas de um esforço contínuo”, alerta ele.

Para Encalada, a prioridade é fortalecer as redes de monitoramento. “A Amazônia é um sistema sentinela para o planeta. Se até mesmo seus ecossistemas aquáticos estão atingindo seus limites de resiliência, significa que já estamos perto de pontos de inflexão ecológicos”, enfatiza.


Fonte: SciDev 

Bancos vs. Amazônia: Novos dados revelam US$ 2 bilhões em financiamento a novos projetos de petróleo e gás na Amazônia

Às vésperas da COP30, nova pesquisa apresenta uma oportunidade e um prazo para que os grandes bancos deixem de financiar petróleo e gás na Amazônia
How European banks are financing the trade of controversial Amazon oil to  the U.S. | by Stand.earth | Medium´———
Por Stand.earth

Explore a base de dados completa Amazon Banks Database e o scorecard Bancos vs. Amazônia.

GLOBAL – Às vésperas da COP30 em Belém, a primeira Conferência do Clima realizada na Amazônia, novos dados mostram que bancos adicionaram US$ 2 bilhões em financiamento direto ao setor de petróleo e gás na região, desde o início de 2024. Itaú Unibanco, JP Morgan Chase e Bank of America apresentam os piores desempenhos, enquanto BNP Paribas e HSBC implementaram políticas que resultaram em melhorias mensuráveis. Os dados financeiros detalhados são divulgados junto com o primeiro scorecard Bancos vs. Amazônia.

Com base na análise de 843 operações envolvendo 330 bancos, a pesquisa revela que bancos proporcionaram mais de US$ 15 bilhões em financiamento direto a atividades de petróleo e gás na Amazônia desde que o Acordo de Paris foi adotado, em 2016. Apenas 10 bancos, incluindo JP Morgan, Itaú, Citi, Bank of America e HSBC, são responsáveis por quase 75% desse financiamento.

Martyna Dominiak, coordenadora de campanhas sênior de finanças climáticas da Stand.earth, afirma: “O scorecard Bancos vs. Amazônia e a atualização da base de dados Amazon Banks Database oferecem, antes da COP30, não apenas uma oportunidade clara, mas também um prazo urgente para que os bancos parem de financiar combustíveis fósseis na Amazônia. Para os povos indígenas que resistem ao extrativismo — e seus aliados —, a primeira COP climática da região é um momento decisivo que exige uma Amazônia livre de combustíveis fósseis.”

A expansão de petróleo e gás na Amazônia ameaça um dos ecossistemas mais vitais do planeta e os povos indígenas que o protegem há milênios. Além de o uso de combustíveis fósseis ser a principal causa das emissões globais de gases de efeito estufa, na Amazônia sua extração também acelera o desmatamento e polui rios e comunidades.

Apesar disso e da proximidade da COP30, países como Brasil, Equador e Peru seguem na direção errada, leiloando dezenas de novos blocos de petróleo na floresta tropical. Ao financiar esses projetos, os bancos agravam a crise climática e a destruição da Amazônia, em vez de apoiar a transição energética justa e urgente de que o planeta precisa.

Os dados mais recentes (de janeiro de 2024 a junho de 2025, totalizando US$ 2 bilhões) mostram que vários bancos aumentaram significativamente seu financiamento direto, incluindo Itaú, Scotiabank, Credicorp, Banco Interamericano de Finanzas e Bank of America. Em contraste, HSBC, Santander e BNP Paribas apresentam níveis estáveis ou decrescentes de financiamento.

Financiamento recente (de janeiro de 2024 a junho de 2025) e variação no ranking em comparação ao financiamento direto total desde 2016
Posição em financiamento recente Banco Mudança no ranking Financiamento

(em milhões de dólares)

1 Itaú Unibanco ↑ 3 $378
2 JPMorgan Chase ↓ 1 $326
3 Bank of America 0 $317
4 Citi ↓ 2 $283
5 Credicorp ↑ 3 $154
6 Scotiabank ↑ 4 $108
7 Banco de Nordeste 0 $107
8 Trafigura Pte ↑ 27 $42
9 Banco Santander ↓ 3 $37
10 Banco Interamericano de Finanzas ↑ 30 $33
17 HSBC ↓ 12 $12
35 BNP Paribas ↓ 12 $4

Mais de 80% dos financiamentos recentes foram destinados a apenas seis empresas: a canadense Gran Tierraas brasileiras Petrobras Eneva, a comerciante de petróleo Gunvor, bem como as empresas por trás do polêmico projeto de gás Camisea: Hunt Oil Peru Pluspetrol Camisea. Essas empresas geralmente são associadas a casos de violações dos direitos humanos, acusações de corrupção, litígios e resistência por parte dos povos indígenas.

O banco brasileiro Itaú ocupa a primeira posição entre os maiores financiadores de petróleo e gás na Amazônia para o período compreendido entre 2024 e 2025, principalmente devido ao financiamento concedido à Eneva, apesar de suas declarações de apoio ao “desenvolvimento socioeconômico e à conservação ambiental da região”, junto com Santander e Bradesco. Ao mesmo tempo, o Itaú continua promovendo sua imagem de sustentabilidade no Brasil, um claro exemplo de greenwashing.

Devyani Singh, pesquisadora-chefe da base de dados e do scorecardafirma: “Nossa pesquisa revela que, embora bancos europeus como BNP Paribas e HSBC tenham aplicado políticas mais robustas para proteger a floresta amazônica em comparação com seus pares — resultando em uma queda significativa nos volumes de financiamento —, nenhum banco ainda reduziu esse financiamento a zero. Todos precisam fechar as brechas existentes e sair completamente do financiamento ao petróleo e gás na Amazônia sem demora.”

Scorecard Bancos vs. Amazônia 

  • O scorecard Bancos vs. a Amazônia é a primeira ferramenta a classificar 18 grandes bancos: os 10 maiores financiadores de petróleo e gás nos últimos 10 anos, bem como os bancos que adotaram políticas específicas relacionadas à Amazônia, oferecendo recomendações específicas para cada banco.
  • A análise conclui que somente políticas robustas e efetivamente implementadas em nível corporativo podem acabar com o financiamento destrutivo ao setor de combustíveis fósseis.
Referência BNP Paribas 
Atores com avanços moderados  ING, Societe Generale, HSBC e Barclays
Seguidores de tendências Citibank, Santander, BBVA, Intesa Sanpaolo e Standard Chartered
Retardatários Bank of America, JP MorganChase, Itaú, Scotiabank, Royal Bank of Canada, Goldman Sachs, Credicorp Banco do Nordeste

Líderes indígenas da Amazônia, cujos territórios estão sendo afetados pela exploração de petróleo e gás, ofereceram os seguintes comentários:

Olivia Bisa, presidente do Governo Territorial Autônomo da Nação Chapra (Peru), disse: “É revoltante que o Bank of America, o Scotiabank, o Credicorp e o Itaú estejam aumentando seu financiamento a petróleo e gás na Amazônia justamente em um momento em que a floresta está sob grave ameaça. Há décadas, os povos indígenas sofrem os impactos mais severos dessa destruição. Estamos pedindo que os bancos mudem de rumo agora: ao encerrar o apoio às indústrias extrativas na Amazônia, eles podem ajudar a proteger a floresta que sustenta nossas vidas e o futuro do planeta.”

Ingry Mojanajinsoy, Presidente da Associação dos Cabildos Inga do Município de Villagarzón Putumayo (ACIMVIP) (Colombia):“Empresas petrolíferas como a Gran Tierra trouxeram conflito, deslocamento e perda cultural para o nosso território. Apesar de anos de resistência, a Gran Tierra continua se expandindo, ameaçando nosso modo de vida. Os bancos que financiam a Gran Tierra devem parar imediatamente. Nunca demos consentimento para que o petróleo fosse extraído de nossas terras.”

Jonas Mura, cacique do Território Indígena Gavião Real (Brasil): “A Eneva tem causado muitos prejuízos no nosso território. O barulho, o tráfego constante de caminhões e as explosões têm afugentado os animais e afetado nossas caças. Pior ainda: estão entrando sem o nosso consentimento. Nosso território se sente ameaçado, e nossas famílias estão sendo diretamente prejudicadas. Vivem aqui cerca de 1700 indígenas, e a nossa sobrevivência depende da floresta. Pedimos que bancos como Itaú, Santander e Banco do Nordeste parem de financiar empresas que exploram combustíveis fósseis em territórios Indígenas. Essas empresas não têm compromisso com o meio ambiente, nem com os povos originários e tradicionais, nem com o futuro do planeta. Esses investimentos são cúmplices de um genocídio: estão matando nossa cultura, nossa história e destruindo a biodiversidade da Amazônia.”

O caminho a seguir é claro: os bancos devem deixar de financiar petróleo e gás na Amazônia e implementar políticas de exclusão de financiamento ao setor, para ajudar a evitar o iminente ponto de não retorno na Amazônia.

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NOTAS PARA OS EDITORES: 

Especialistas e porta-vozes estão disponíveis para entrevistas.

Explore a base de dados completa Amazon Banks Database e o scorecard Bancos vs. Amazônia.

Metodologia: a base de dados e o scorecard utilizam o banco de dados do London Stock Exchange Group (LSEG), com referências cruzadas com o banco de dados IJGlobal. Alguns tomadores de decisão dos bancos apresentados no scorecard tiveram a oportunidade de analisar os resultados, bem como de se reunir diretamente com os pesquisadores para consultas.


Fonte: Stand.earth

Grandes árvores na Amazônia são mais resistentes às mudanças no clima do que se pensava

A floresta é “notavelmente resiliente às mudanças climáticas”, mas continua ameaçada por incêndios e desmatamento

Uma vista aérea da floresta amazônica, repleta de árvores, e do rio Curuá serpenteando por ela

O estudo mostrou que a vegetação tropical intocada continua a atuar como um sumidouro eficaz de carbono, apesar do aumento das temperaturas e das fortes secas. Fotografia: Jorge Sáenz/AP

Por Jonathan Watts para o “The Guardian” 

As maiores árvores da Amazônia estão crescendo e se tornando mais numerosas, de acordo com um novo estudo que mostra como uma floresta tropical intacta pode ajudar a extrair dióxido de carbono da atmosfera e sequestrá-lo na casca, tronco, galho e raiz.

Cientistas disseram que o artigo, publicado na Nature Plants ontem, foi uma confirmação bem-vinda de que as grandes árvores estão se mostrando mais resistentes ao clima do que se acreditava anteriormente, e a vegetação tropical intocada continua a agir como um sumidouro de carbono eficaz, apesar do aumento das temperaturas e das fortes secas.

No entanto, os autores alertaram que essa função vital está cada vez mais em risco devido a incêndios, fragmentação e desmatamento causados ​​pela expansão de estradas e fazendas.

“São boas notícias, mas são boas notícias com reservas”, disse o professor Oliver Phillips, da Universidade de Leeds. “Nossos resultados se aplicam apenas a florestas intactas e maduras, que é onde estamos monitorando de perto. Eles sugerem que a floresta amazônica é notavelmente resiliente às mudanças climáticas. Meu receio é que isso possa ter pouca importância, a menos que consigamos deter o desmatamento em si.”

Essa cautela ocorre em um momento em que o Brasil planeja pavimentar uma importante rodovia – a BR-319 – através da Amazônia central, próxima a uma das últimas regiões que ainda possuem grandes áreas de floresta intocada. A Bolívia também continua a desmatar árvores a um ritmo alarmante para plantações de soja e criação de gado.

O estudo foi conduzido por quase 100 pesquisadores de 60 universidades no Brasil, Reino Unido e outros lugares, que examinaram mudanças na floresta em 188 áreas na Amazônia nos últimos 30 anos.

Eles constataram que a seção transversal média dos troncos engrossou 3,3% por década, com o maior aumento observado em árvores maiores. Essa expansão foi atribuída ao aumento da quantidade de CO2 na atmosfera, resultante da queima de gás, petróleo e carvão causada pelo homem.

Árvores grandes como castanheiras , sumaúmas e angelim vermelho podem atingir mais de 30 metros de altura, dominando a copa e liderando a competição entre as plantas pela luz, água e nutrientes necessários para a fotossíntese de CO2 .

Os resultados destacam como as áreas mais bem protegidas da floresta continuam sendo aliadas importantes na luta para estabilizar o clima, embora sozinhas estejam longe de ser suficientes para lidar com todo o dióxido de carbono extra lançado no ar globalmente por carros, fábricas e usinas de energia.

Eles também demonstram a importância de prevenir o desmatamento. As áreas da Amazônia que foram fortemente fragmentadas pelo agronegócio e pela infraestrutura – principalmente no sudeste – já passaram de sumidouros de carbono a fontes de carbono .

Árvores grandes são mais vulneráveis ​​a ventos fortes, incêndios e secas se forem isoladas ou deixadas na borda de uma divisa entre floresta e terras agrícolas ou pastagens.

Durante décadas, presumiu-se que árvores maiores– mesmo em florestas densas – morreriam mais rapidamente com o aumento das temperaturas, pois acreditava-se que tinham raízes relativamente rasas em comparação com seu tamanho. Mas estudos recentes mostram que muitas têm raízes muito finas, capazes de sugar água de profundidades muito maiores.

Ainda não está claro como as tendências de mortalidade podem ter sido afetadas pela seca severa dos últimos anos em grande parte da Amazônia.

Uma das principais autoras do novo artigo, Adriane Esquivel-Muelbert, da Universidade de Cambridge, afirmou que as árvores de grande porte são desproporcionalmente importantes para o funcionamento do bioma. Embora representem apenas 1% das árvores da floresta, são responsáveis ​​por 50% do ciclo e armazenamento de carbono, e provavelmente por uma proporção semelhante do ciclo da água.

“As florestas ficam muito mais secas depois que as árvores grandes morrem. Isso altera a estrutura da floresta e ela demora muito para se recuperar, porque as árvores grandes demoram muito para crescer”, disse Esquivel-Muelbert. “Portanto, é um pouco promissor que as vejamos aumentando em tamanho e número em toda a Amazônia. Há alguma resiliência aí.”


Fonte: The Guardian

Circulação de águas do Atlântico pode enfraquecer de modo inédito até 2100 e impactar chuva na Amazônia

Combinando dados de pesquisa de campo com projeções de modelos climáticos, estudo reconstituiu a atividade da Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico – um dos principais motores do clima terrestre – ao longo de todo o Holoceno. Cenários projetados para o futuro não têm precedentes nos últimos 6.500 anos

Equipe reuniu cientistas da Alemanha, da Suíça e do Brasil: efeitos mais graves podem ocorrer no norte da Amazônia, com redução drástica do regime de chuvas (imagem: CEN/Universität Hamburg)

Por José Tadeu Arantes | Agência FAPESP  

A Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico – conhecida pela sigla em inglês Amoc (Atlantic Meridional Overturning Circulation) – é um dos principais “motores” do clima terrestre. Ela funciona como uma esteira oceânica que transporta calor e nutrientes, conectando águas superficiais da porção tropical com águas profundas da região norte. Alterações nesse sistema sempre estiveram associadas a mudanças abruptas do clima global, como as que marcaram a última era glacial.

Um novo estudo mostra que, nos últimos 6.500 anos, a Amoc se manteve estável, após um período de oscilações durante o início do Holoceno. Mas que essa estabilidade se encontra agora ameaçada. Combinando dados de pesquisa de campo com projeções dos melhores modelos climáticos, o trabalho indica que as mudanças causadas pela ação humana podem levar a um enfraquecimento da circulação sem precedentes no período recente da história da Terra. O norte da Amazônia, justamente a parte mais preservada da floresta, pode ser fortemente afetado, com uma drástica redução do regime de chuvas.

Os resultados foram publicados no periódico Nature Communications.

A equipe internacional que realizou o estudo reuniu cientistas da Alemanha, da Suíça e do Brasil. Utilizando testemunhos de sedimentos marinhos coletados em diferentes pontos do Atlântico Norte e análises de elementos radioativos – tório-230 e protactínio-231 –, os pesquisadores reconstruíram quantitativamente a intensidade da Amoc ao longo de todo o Holoceno – os últimos 12 mil anos.

“Esses elementos radioativos são produzidos de forma constante na coluna d’água a partir do urânio. Como o tório se fixa rapidamente em partículas, enquanto o protactínio permanece mais tempo em circulação, a razão protactínio-tório registrada nos sedimentos fornece um ‘proxy’ da intensidade da circulação oceânica. Valores mais altos indicam enfraquecimento, e valores mais baixos, intensificação”, explica Cristiano Mazur Chiessi, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) e coautor do estudo.


Representação esquemática da Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico (seta em azul claro e vermelho), que transporta, perto da superfície, águas quentes do sul para o norte; e, em profundidades intermediárias, águas frias do norte para o sul. O desenho também mostra uma outra célula (seta em azul escuro), que transporta águas em grande profundidade (imagem: croqui de Cristiano Mazur Chiessi a partir de informações de Voigt et al., 2017)

Para transformar os dados de campo da razão protactínio-tório em valores de fluxo de água, a equipe utilizou o Bern3D, um modelo do sistema terrestre desenvolvido na Universidade de Berna, na Suíça, que simula oceanos, atmosfera e ciclos biogeoquímicos, permitindo converter registros de sedimentos em estimativas quantitativas da circulação oceânica. Isso permitiu estimar a intensidade da circulação em Sverdrups (Sv) – 1 Sv equivalente a 1 bilhão de litros por segundo.

Os resultados mostraram que, após o fim da última glaciação, a Amoc levou cerca de 2 mil anos para se recuperar do estado enfraquecido. Entre 9,2 mil e 8 mil anos atrás, sofreu novo declínio, associado ao aporte de água doce no Atlântico Norte decorrente do derretimento de geleiras e lagos glaciais, como o Lago Agassiz, no Canadá e nos EUA. Esse período incluiu o chamado “evento 8,2 ka”, registrado em testemunhos de gelo da Groenlândia como um dos episódios de resfriamento mais intensos do Holoceno. A partir de 6,5 mil anos atrás, no entanto, a circulação se estabilizou em torno de 18 Sv. E manteve essa intensidade até o presente.

“Reconstituímos o avanço das águas profundas do Atlântico Norte rumo ao Atlântico Sul ao longo de 11.500 anos. E, nos últimos 6.500 anos, não detectamos nenhuma oscilação maior, minimamente próxima daquilo que está projetado para 2100”, afirma Chiessi. “O cenário futuro é muito preocupante. E deve ser levado a sério tanto pelos governos quanto pela sociedade civil, incluída a comunidade científica.”

Segundo o pesquisador, o enfraquecimento projetado vai causar mudanças nas chuvas de todo o cinturão tropical do planeta, especialmente na América do Sul e na África, mas também afetando o sistema de monções da Índia e do Sudeste Asiático.

Impacto sobre a Amazônia

Um dos impactos mais importantes deverá ocorrer na Amazônia. “Projetamos uma marcante diminuição das chuvas no norte da Amazônia, justamente a região mais preservada da floresta. Esse efeito poderá ocorrer porque as chuvas equatoriais tenderão a se deslocar para o sul com o enfraquecimento da circulação do Atlântico. Com isso, o norte da Amazônia, abrangendo áreas do Brasil, da Colômbia, da Venezuela e das Guianas, poderá enfrentar reduções significativas na pluviosidade”, projeta Chiessi.

O pesquisador enfatiza que a gravidade desse cenário é ainda maior porque se trata da porção mais preservada da floresta. Diferentemente do sul e do leste amazônicos, onde o desmatamento e a degradação já avançaram fortemente, o norte tem funcionado como um “porto seguro” de biodiversidade. “É justamente nessa região, até agora menos impactada, que a mudança climática poderá impor uma vulnerabilidade nova e dramática”, observa.


Coleta de coluna sedimentar do fundo do Mar de Labrador, no Atlântico Norte, entre o Canadá e a Groenlândia. A coluna sedimentar coletada nesse local serviu como base para o artigo científico (foto: Stefan Mulitza)

Estudo anterior, publicado em 2024 por Thomas Kenji Akabane e colaboradores, entre eles o próprio Chiessi, já havia alertado para essa possibilidade. Por meio de registros de pólen e carvão microscópico em sedimentos marinhos, os cientistas mostraram nesse trabalho que enfraquecimentos passados da Amoc levaram à expansão de vegetação sazonal em detrimento das florestas úmidas do norte amazônico. E os modelos indicam que um enfraquecimento semelhante no futuro produziria impactos ainda maiores, uma vez que seriam agravados pelo desmatamento e pelas queimadas em outras partes da bacia.

Ponto de não retorno?O arrefecimento da Amoc poderá configurar um ponto de não retorno no sistema climático global. Se confirmadas as projeções, ocorrerá uma ruptura sem precedentes na circulação oceânica que sustenta o equilíbrio do clima do planeta. Há consenso entre os pesquisadores especializados de que o enfraquecimento constitui uma clara tendência. Mas os dados ainda não permitem saber se já está ocorrendo ou não. “Os monitoramentos diretos começaram apenas em 2004 e o oceano responde mais lentamente do que a atmosfera. Por isso, os registros são ainda insuficientes para uma resposta conclusiva. Porém, apesar dessa incerteza, a urgência de agir é inegociável. Ainda existe tempo, mas nossas ações precisam ser robustas, rápidas e conectadas, envolvendo governos e sociedade civil”, alerta Chiessi.

Como já foi dito em evento realizado na FAPESP, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), que ocorrerá em novembro deste ano em Belém, no Pará, constitui uma janela de oportunidade que não pode ser desperdiçada (leia mais em: agencia.fapesp.br/54611 e agencia.fapesp.br/55727).

Os dois estudos contaram com apoio da FAPESP por meio dos projetos 18/15123-419/19948-0 21/13129-8.

O artigo Low variability of the Atlantic Meridional Overturning Circulation throughout the Holocene pode ser lido em: www.nature.com/articles/s41467-025-61793-z.


Fonte: Agência Fapesp