Logística de garimpo ilegal destruída por forças federais envolvia bens avaliados em R$ 902 milhões

Policiais federais durante operação contra o garimpo ilegal no Amazonas: destruição de dragas (Foto: Divulgação/PF) 

Do ATUAL, com Agência Gov

MANAUS – Operações da Polícia Federal em parceria com o Ibama (Instituto Nacional de Defesa do Meio Ambiente), ICMBio (Instituto Chico Mendes da Biodiversidade) e Funai (Fundação Nacional do Índio) em cinco Terras Indígenas na Amazônia Legal resultaram na destruição de material de garimpo e de desmatamento ilegal avaliado em R$ 902 milhões entre 2023 e 2025.

Também participam das ações a Polícia Rodoviária Federal, a Força Nacional de Segurança Pública e as Forças Armadas.

Sessenta mil indígenas das etnias Yanomami, Munduruku, Arariboia, Kayapó e Uru-Eu-Wau-Wau vivem nessas áreas. O valor é referente a material que serve de apoio à logística criminosa. Entre os bens apreendidos estão: 250 quilos de ouro; 2.537 motores de garimpo, 355 mil litros de óleo diesel, 948 acampamentos, 1.700 edificações, 138 maquinários pesados, 320 embarcações, e 44 aeronaves.

Também foram apreendidos 236 quilos de mercúrio, além de 187 mil quilos de cassiterita e 205 armamentos. Foram fiscalizados 40 mil veículos e 545 aeródromos que resultaram em quatro mil autuações.

As operações cumprem determinação do STF (Supremo Tribunal Federal) na Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 709. Foram 12 mil ações de controle, combate e fiscalização, coordenadas pela Casa Civil da Presidência da República.

Estaleiro clandestino construía e reformava balsas para o garimpo (Foto: PF/Divulgação)
Estaleiro clandestino construía e reformava balsas para o garimpo em Manaus (Foto: PF/Divulgação)

TI Apyterewa

Na terra indígena Apyterewa, a ação federal reduziu em 100% os alertas de novas áreas de desmatamento no mês de dezembro de 2023, comparado a setembro do mesmo ano – período em que ocorreu a desintrusão. Resultado semelhante foi registrado na TI Kayapó, onde houve queda de 98% dos alertas de novas áreas de garimpo, entre março e julho deste ano.

TI Yanomami

Na Terra Indígena Yanomami, onde a Casa de Governo mantém operações diárias desde março de 2024, houve 98% de queda da área de garimpo ativo, e redução de 97% na abertura de novos garimpos. As operações no território Yanomami estão ativas e integradas.

No âmbito da ADPF 709, foram realizadas operações nas terras indígenas Apyterewa (PA), Trincheira Bacajá (PA), Karipuna (RO), Munduruku (PA), Arariboia (MA), Kayapó (PA), Uru-Eu-Wau-Wau (RO) e Yanomami (RR e AM). Embora não esteja no escopo da ADPF, a Terra Indígena Alto Rio Guamá (PA) era objeto de outra ação judicial e também passou por desintrusão em 2023.

A secretária-adjunta de Articulação e Monitoramento da Casa Civil, Janini Ginani, ressaltou a integração entre os diferentes órgãos para o sucesso das ações. “Nós temos agora um acúmulo suficiente para que possamos conduzir esse aprendizado como uma política de Estado, uma política pública que atue dentro e fora das terras indígenas, tendo como premissa a prevenção de novas invasões e garantindo que esses avanços apontados aqui permaneçam”.

“Um grande legado desse trabalho foi o envolvimento de todos os órgãos nessa agenda indigenista, de forma a expandir a atuação para uma responsabilidade do Estado brasileiro”, acrescentou.

O coordenador-geral das desintrusões, Nilton Tubino, apresentou o histórico das desintrusões. “Pelas próprias dificuldades e dinâmicas dos territórios, ninguém consegue fazer nada sozinho”, disse.

A coordenadora de Fiscalização do ICMBio, Nidia Reis de Paiva, destacou a importância das operações em terras indígenas para a queda ou redução a zero nos registros de desmatamento em unidades de conservação próximas ou sobrepostas a esses territórios.

O diretor-geral do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), Richard Fernandez Nunes, ressaltou o “trabalho magnífico” de integração entre as agências do governo. “Cada órgão tem seus próprios procedimentos que vão sendo aprimorados com esse enriquecimento mútuo. Eu não vejo dificuldade que a gente avance na direção de consolidar essa metodologia [utilizada nas desintrusões]. E que possamos seguir neste caminho para que o Poder Executivo possa conduzir as políticas públicas que sejam capazes de dar respostas. O Censipam está disponível para isso”, disse.


Fonte: Amazônia Atual

As águas da Amazônia atingem temperaturas recordes

Lagos da Amazônia 1

Um estudo recente liderado pelo Instituto Mamirauá para o Desenvolvimento Sustentável, no Brasil, revelou que os lagos da Amazônia estão aquecendo até 0,8°C por década, ultrapassando a média global. Crédito da imagem: Miguel Monteiro / Instituto Mamirauá. 

“Estava muito calor, o sol estava quente, a água estava quente, a lama estava quente, tudo estava quente. Nunca tinha visto nada igual”, recorda Silas Rodrigues, presidente da comunidade Bom Jesus, às margens do Lago Tefé.

Agora, um estudo científico confirma que o lago onde Rodríguez vive há quase quarenta anos atingiu 41°C no auge da seca. A pesquisa, liderada pelo Instituto Mamirauá de Desenvolvimento Sustentável, no Brasil, e publicada na revista Science Advances , revela também que as águas da Amazônia estão aquecendo a uma taxa sem precedentes: cerca de 0,8°C por década, bem acima da média global.

A morte de peixes e botos no Lago Tefé, na Amazônia brasileira, chamou a atenção para o aumento das temperaturas nos rios e lagos da região. Crédito da imagem: Miguel Monteiro / Instituto Mamirauá.

“Até agora, a maioria dos estudos havia sido feita em lagos temperados nos Estados Unidos ou na Europa. Mas aqui [na Amazônia] estamos falando de um processo diferente, tropical. Antes, havia apenas projeções, mas em 2023 confirmamos que se trata de um fenômeno em larga escala com muitos impactos socioecológicos”, disse Ayan Fleischmann, autor do estudo e pesquisador do Instituto Mamirauá, à SciDev.Net .

A pesquisa, que contou com a participação de especialistas internacionais, combinou observações de campo para registrar o que estava acontecendo durante a seca de 2023 com análises de imagens de satélite para compreender as mudanças ocorridas nas últimas três décadas. Além disso, utilizando modelos matemáticos, a equipe identificou as razões pelas quais as águas da Amazônia estão aquecendo tão rapidamente.

Os resultados revelaram que cinco dos dez lagos monitorados na Amazônia central registraram temperaturas diurnas superiores a 37°C. O Lago Tefé registrou o valor mais alto observado até o momento, 41°C, temperatura considerada acima do limite de tolerância para a vida aquática. “Esses valores são muito superiores às temperaturas típicas desses ecossistemas: a temperatura média da água superficial durante o dia em lagos tropicais geralmente varia entre 29°C e 30°C”, indica o estudo.

“Até agora, a maioria dos estudos havia sido feita em lagos temperados nos Estados Unidos ou na Europa. Mas aqui [na Amazônia] estamos falando de um processo diferente, um processo tropical. Antes, havia apenas projeções, mas em 2023 confirmamos que se trata de um fenômeno em larga escala com muitos impactos socioecológicos.”

Ayan Fleischmann, pesquisador do Instituto Mamirauá

Entre outras descobertas, o estudo revela que a área da superfície do Lago Tefé diminuiu 75%, e no Lago Badajós, a redução chegou a 92%. Essa diminuição significativa da área da superfície da água se deveu à queda dos níveis dos rios, e a pouca profundidade coincidiu com um aquecimento excepcional dos corpos d’água.

Além disso, dados de satélite de 24 lagos brasileiros mostraram que o aquecimento registrado em 2023 não foi um evento isolado. Desde 1990, as temperaturas da água superficial na Amazônia aumentaram em média 0,6°C por década, com tendências que chegam a 0,8°C em alguns lagos, como Tapajós, Amanã e Janauacá.

Fleischmann enfatiza que esses dados demonstram uma tendência contínua de aquecimento nos lagos amazônicos, onde ainda há muito pouco monitoramento. Andrea Encalada, pesquisadora do Painel Científico para a Amazônia, que não participou do estudo, concorda.

O cientista equatoriano especializado em ecologia de rios tropicais disse à SciDev.Net que essas descobertas mostram claramente como as mudanças climáticas estão alterando os sistemas de água doce na região tropical.

“As descobertas de Fleischmann e seus colegas são profundamente reveladoras e alarmantes. O que está acontecendo nos lagos da Amazônia não é um incidente isolado, mas um sinal claro de que os sistemas aquáticos tropicais estão atingindo limites críticos diante das mudanças climáticas”, conclui ele.

Um chamado da Amazonia

A seca de 2023 deixou cicatrizes profundas. “Muitos peixes morreram e havia um cheiro horrível. A água estava muito poluída”, conta Rodrigues. Fleischmann, por sua vez, lembra-se de quando, em setembro, os pescadores de Tefé foram ao Instituto Mamirauá para relatar a morte de botos no lago. Esse incidente marcou o início de sua pesquisa.

“Quando um rio ou lago amazônico seca, a vida das pessoas que tanto dependem dele para seu transporte , sua vida e sua cultura também seca”, reflete ele.

Os efeitos nos lagos amazônicos são um sinal claro de que os sistemas aquáticos tropicais estão atingindo limites críticos diante das mudanças climáticas. Crédito da imagem: Miguel Monteiro / Instituto Mamirauá.

Portanto, os especialistas enfatizam a importância de fortalecer a cooperação entre a ciência e as comunidades locais para lidar com os futuros eventos climáticos. Rodrigues insiste que os estudos técnicos devem ser conduzidos “em conjunto com as comunidades ribeirinhas, para evitar danos ao meio ambiente ou às pessoas”.

Fleischmann compartilha dessa visão e a levará consigo para a COP30, que está sendo realizada em Belém, no Brasil. “Precisamos investir em ciência, tecnologia e monitoramento em conjunto com as comunidades locais; não se trata de uma campanha de um ou dois anos, mas de um esforço contínuo”, alerta ele.

Para Encalada, a prioridade é fortalecer as redes de monitoramento. “A Amazônia é um sistema sentinela para o planeta. Se até mesmo seus ecossistemas aquáticos estão atingindo seus limites de resiliência, significa que já estamos perto de pontos de inflexão ecológicos”, enfatiza.


Fonte: SciDev 

Bancos vs. Amazônia: Novos dados revelam US$ 2 bilhões em financiamento a novos projetos de petróleo e gás na Amazônia

Às vésperas da COP30, nova pesquisa apresenta uma oportunidade e um prazo para que os grandes bancos deixem de financiar petróleo e gás na Amazônia
How European banks are financing the trade of controversial Amazon oil to  the U.S. | by Stand.earth | Medium´———
Por Stand.earth

Explore a base de dados completa Amazon Banks Database e o scorecard Bancos vs. Amazônia.

GLOBAL – Às vésperas da COP30 em Belém, a primeira Conferência do Clima realizada na Amazônia, novos dados mostram que bancos adicionaram US$ 2 bilhões em financiamento direto ao setor de petróleo e gás na região, desde o início de 2024. Itaú Unibanco, JP Morgan Chase e Bank of America apresentam os piores desempenhos, enquanto BNP Paribas e HSBC implementaram políticas que resultaram em melhorias mensuráveis. Os dados financeiros detalhados são divulgados junto com o primeiro scorecard Bancos vs. Amazônia.

Com base na análise de 843 operações envolvendo 330 bancos, a pesquisa revela que bancos proporcionaram mais de US$ 15 bilhões em financiamento direto a atividades de petróleo e gás na Amazônia desde que o Acordo de Paris foi adotado, em 2016. Apenas 10 bancos, incluindo JP Morgan, Itaú, Citi, Bank of America e HSBC, são responsáveis por quase 75% desse financiamento.

Martyna Dominiak, coordenadora de campanhas sênior de finanças climáticas da Stand.earth, afirma: “O scorecard Bancos vs. Amazônia e a atualização da base de dados Amazon Banks Database oferecem, antes da COP30, não apenas uma oportunidade clara, mas também um prazo urgente para que os bancos parem de financiar combustíveis fósseis na Amazônia. Para os povos indígenas que resistem ao extrativismo — e seus aliados —, a primeira COP climática da região é um momento decisivo que exige uma Amazônia livre de combustíveis fósseis.”

A expansão de petróleo e gás na Amazônia ameaça um dos ecossistemas mais vitais do planeta e os povos indígenas que o protegem há milênios. Além de o uso de combustíveis fósseis ser a principal causa das emissões globais de gases de efeito estufa, na Amazônia sua extração também acelera o desmatamento e polui rios e comunidades.

Apesar disso e da proximidade da COP30, países como Brasil, Equador e Peru seguem na direção errada, leiloando dezenas de novos blocos de petróleo na floresta tropical. Ao financiar esses projetos, os bancos agravam a crise climática e a destruição da Amazônia, em vez de apoiar a transição energética justa e urgente de que o planeta precisa.

Os dados mais recentes (de janeiro de 2024 a junho de 2025, totalizando US$ 2 bilhões) mostram que vários bancos aumentaram significativamente seu financiamento direto, incluindo Itaú, Scotiabank, Credicorp, Banco Interamericano de Finanzas e Bank of America. Em contraste, HSBC, Santander e BNP Paribas apresentam níveis estáveis ou decrescentes de financiamento.

Financiamento recente (de janeiro de 2024 a junho de 2025) e variação no ranking em comparação ao financiamento direto total desde 2016
Posição em financiamento recente Banco Mudança no ranking Financiamento

(em milhões de dólares)

1 Itaú Unibanco ↑ 3 $378
2 JPMorgan Chase ↓ 1 $326
3 Bank of America 0 $317
4 Citi ↓ 2 $283
5 Credicorp ↑ 3 $154
6 Scotiabank ↑ 4 $108
7 Banco de Nordeste 0 $107
8 Trafigura Pte ↑ 27 $42
9 Banco Santander ↓ 3 $37
10 Banco Interamericano de Finanzas ↑ 30 $33
17 HSBC ↓ 12 $12
35 BNP Paribas ↓ 12 $4

Mais de 80% dos financiamentos recentes foram destinados a apenas seis empresas: a canadense Gran Tierraas brasileiras Petrobras Eneva, a comerciante de petróleo Gunvor, bem como as empresas por trás do polêmico projeto de gás Camisea: Hunt Oil Peru Pluspetrol Camisea. Essas empresas geralmente são associadas a casos de violações dos direitos humanos, acusações de corrupção, litígios e resistência por parte dos povos indígenas.

O banco brasileiro Itaú ocupa a primeira posição entre os maiores financiadores de petróleo e gás na Amazônia para o período compreendido entre 2024 e 2025, principalmente devido ao financiamento concedido à Eneva, apesar de suas declarações de apoio ao “desenvolvimento socioeconômico e à conservação ambiental da região”, junto com Santander e Bradesco. Ao mesmo tempo, o Itaú continua promovendo sua imagem de sustentabilidade no Brasil, um claro exemplo de greenwashing.

Devyani Singh, pesquisadora-chefe da base de dados e do scorecardafirma: “Nossa pesquisa revela que, embora bancos europeus como BNP Paribas e HSBC tenham aplicado políticas mais robustas para proteger a floresta amazônica em comparação com seus pares — resultando em uma queda significativa nos volumes de financiamento —, nenhum banco ainda reduziu esse financiamento a zero. Todos precisam fechar as brechas existentes e sair completamente do financiamento ao petróleo e gás na Amazônia sem demora.”

Scorecard Bancos vs. Amazônia 

  • O scorecard Bancos vs. a Amazônia é a primeira ferramenta a classificar 18 grandes bancos: os 10 maiores financiadores de petróleo e gás nos últimos 10 anos, bem como os bancos que adotaram políticas específicas relacionadas à Amazônia, oferecendo recomendações específicas para cada banco.
  • A análise conclui que somente políticas robustas e efetivamente implementadas em nível corporativo podem acabar com o financiamento destrutivo ao setor de combustíveis fósseis.
Referência BNP Paribas 
Atores com avanços moderados  ING, Societe Generale, HSBC e Barclays
Seguidores de tendências Citibank, Santander, BBVA, Intesa Sanpaolo e Standard Chartered
Retardatários Bank of America, JP MorganChase, Itaú, Scotiabank, Royal Bank of Canada, Goldman Sachs, Credicorp Banco do Nordeste

Líderes indígenas da Amazônia, cujos territórios estão sendo afetados pela exploração de petróleo e gás, ofereceram os seguintes comentários:

Olivia Bisa, presidente do Governo Territorial Autônomo da Nação Chapra (Peru), disse: “É revoltante que o Bank of America, o Scotiabank, o Credicorp e o Itaú estejam aumentando seu financiamento a petróleo e gás na Amazônia justamente em um momento em que a floresta está sob grave ameaça. Há décadas, os povos indígenas sofrem os impactos mais severos dessa destruição. Estamos pedindo que os bancos mudem de rumo agora: ao encerrar o apoio às indústrias extrativas na Amazônia, eles podem ajudar a proteger a floresta que sustenta nossas vidas e o futuro do planeta.”

Ingry Mojanajinsoy, Presidente da Associação dos Cabildos Inga do Município de Villagarzón Putumayo (ACIMVIP) (Colombia):“Empresas petrolíferas como a Gran Tierra trouxeram conflito, deslocamento e perda cultural para o nosso território. Apesar de anos de resistência, a Gran Tierra continua se expandindo, ameaçando nosso modo de vida. Os bancos que financiam a Gran Tierra devem parar imediatamente. Nunca demos consentimento para que o petróleo fosse extraído de nossas terras.”

Jonas Mura, cacique do Território Indígena Gavião Real (Brasil): “A Eneva tem causado muitos prejuízos no nosso território. O barulho, o tráfego constante de caminhões e as explosões têm afugentado os animais e afetado nossas caças. Pior ainda: estão entrando sem o nosso consentimento. Nosso território se sente ameaçado, e nossas famílias estão sendo diretamente prejudicadas. Vivem aqui cerca de 1700 indígenas, e a nossa sobrevivência depende da floresta. Pedimos que bancos como Itaú, Santander e Banco do Nordeste parem de financiar empresas que exploram combustíveis fósseis em territórios Indígenas. Essas empresas não têm compromisso com o meio ambiente, nem com os povos originários e tradicionais, nem com o futuro do planeta. Esses investimentos são cúmplices de um genocídio: estão matando nossa cultura, nossa história e destruindo a biodiversidade da Amazônia.”

O caminho a seguir é claro: os bancos devem deixar de financiar petróleo e gás na Amazônia e implementar políticas de exclusão de financiamento ao setor, para ajudar a evitar o iminente ponto de não retorno na Amazônia.

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NOTAS PARA OS EDITORES: 

Especialistas e porta-vozes estão disponíveis para entrevistas.

Explore a base de dados completa Amazon Banks Database e o scorecard Bancos vs. Amazônia.

Metodologia: a base de dados e o scorecard utilizam o banco de dados do London Stock Exchange Group (LSEG), com referências cruzadas com o banco de dados IJGlobal. Alguns tomadores de decisão dos bancos apresentados no scorecard tiveram a oportunidade de analisar os resultados, bem como de se reunir diretamente com os pesquisadores para consultas.


Fonte: Stand.earth

Grandes árvores na Amazônia são mais resistentes às mudanças no clima do que se pensava

A floresta é “notavelmente resiliente às mudanças climáticas”, mas continua ameaçada por incêndios e desmatamento

Uma vista aérea da floresta amazônica, repleta de árvores, e do rio Curuá serpenteando por ela

O estudo mostrou que a vegetação tropical intocada continua a atuar como um sumidouro eficaz de carbono, apesar do aumento das temperaturas e das fortes secas. Fotografia: Jorge Sáenz/AP

Por Jonathan Watts para o “The Guardian” 

As maiores árvores da Amazônia estão crescendo e se tornando mais numerosas, de acordo com um novo estudo que mostra como uma floresta tropical intacta pode ajudar a extrair dióxido de carbono da atmosfera e sequestrá-lo na casca, tronco, galho e raiz.

Cientistas disseram que o artigo, publicado na Nature Plants ontem, foi uma confirmação bem-vinda de que as grandes árvores estão se mostrando mais resistentes ao clima do que se acreditava anteriormente, e a vegetação tropical intocada continua a agir como um sumidouro de carbono eficaz, apesar do aumento das temperaturas e das fortes secas.

No entanto, os autores alertaram que essa função vital está cada vez mais em risco devido a incêndios, fragmentação e desmatamento causados ​​pela expansão de estradas e fazendas.

“São boas notícias, mas são boas notícias com reservas”, disse o professor Oliver Phillips, da Universidade de Leeds. “Nossos resultados se aplicam apenas a florestas intactas e maduras, que é onde estamos monitorando de perto. Eles sugerem que a floresta amazônica é notavelmente resiliente às mudanças climáticas. Meu receio é que isso possa ter pouca importância, a menos que consigamos deter o desmatamento em si.”

Essa cautela ocorre em um momento em que o Brasil planeja pavimentar uma importante rodovia – a BR-319 – através da Amazônia central, próxima a uma das últimas regiões que ainda possuem grandes áreas de floresta intocada. A Bolívia também continua a desmatar árvores a um ritmo alarmante para plantações de soja e criação de gado.

O estudo foi conduzido por quase 100 pesquisadores de 60 universidades no Brasil, Reino Unido e outros lugares, que examinaram mudanças na floresta em 188 áreas na Amazônia nos últimos 30 anos.

Eles constataram que a seção transversal média dos troncos engrossou 3,3% por década, com o maior aumento observado em árvores maiores. Essa expansão foi atribuída ao aumento da quantidade de CO2 na atmosfera, resultante da queima de gás, petróleo e carvão causada pelo homem.

Árvores grandes como castanheiras , sumaúmas e angelim vermelho podem atingir mais de 30 metros de altura, dominando a copa e liderando a competição entre as plantas pela luz, água e nutrientes necessários para a fotossíntese de CO2 .

Os resultados destacam como as áreas mais bem protegidas da floresta continuam sendo aliadas importantes na luta para estabilizar o clima, embora sozinhas estejam longe de ser suficientes para lidar com todo o dióxido de carbono extra lançado no ar globalmente por carros, fábricas e usinas de energia.

Eles também demonstram a importância de prevenir o desmatamento. As áreas da Amazônia que foram fortemente fragmentadas pelo agronegócio e pela infraestrutura – principalmente no sudeste – já passaram de sumidouros de carbono a fontes de carbono .

Árvores grandes são mais vulneráveis ​​a ventos fortes, incêndios e secas se forem isoladas ou deixadas na borda de uma divisa entre floresta e terras agrícolas ou pastagens.

Durante décadas, presumiu-se que árvores maiores– mesmo em florestas densas – morreriam mais rapidamente com o aumento das temperaturas, pois acreditava-se que tinham raízes relativamente rasas em comparação com seu tamanho. Mas estudos recentes mostram que muitas têm raízes muito finas, capazes de sugar água de profundidades muito maiores.

Ainda não está claro como as tendências de mortalidade podem ter sido afetadas pela seca severa dos últimos anos em grande parte da Amazônia.

Uma das principais autoras do novo artigo, Adriane Esquivel-Muelbert, da Universidade de Cambridge, afirmou que as árvores de grande porte são desproporcionalmente importantes para o funcionamento do bioma. Embora representem apenas 1% das árvores da floresta, são responsáveis ​​por 50% do ciclo e armazenamento de carbono, e provavelmente por uma proporção semelhante do ciclo da água.

“As florestas ficam muito mais secas depois que as árvores grandes morrem. Isso altera a estrutura da floresta e ela demora muito para se recuperar, porque as árvores grandes demoram muito para crescer”, disse Esquivel-Muelbert. “Portanto, é um pouco promissor que as vejamos aumentando em tamanho e número em toda a Amazônia. Há alguma resiliência aí.”


Fonte: The Guardian

Circulação de águas do Atlântico pode enfraquecer de modo inédito até 2100 e impactar chuva na Amazônia

Combinando dados de pesquisa de campo com projeções de modelos climáticos, estudo reconstituiu a atividade da Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico – um dos principais motores do clima terrestre – ao longo de todo o Holoceno. Cenários projetados para o futuro não têm precedentes nos últimos 6.500 anos

Equipe reuniu cientistas da Alemanha, da Suíça e do Brasil: efeitos mais graves podem ocorrer no norte da Amazônia, com redução drástica do regime de chuvas (imagem: CEN/Universität Hamburg)

Por José Tadeu Arantes | Agência FAPESP  

A Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico – conhecida pela sigla em inglês Amoc (Atlantic Meridional Overturning Circulation) – é um dos principais “motores” do clima terrestre. Ela funciona como uma esteira oceânica que transporta calor e nutrientes, conectando águas superficiais da porção tropical com águas profundas da região norte. Alterações nesse sistema sempre estiveram associadas a mudanças abruptas do clima global, como as que marcaram a última era glacial.

Um novo estudo mostra que, nos últimos 6.500 anos, a Amoc se manteve estável, após um período de oscilações durante o início do Holoceno. Mas que essa estabilidade se encontra agora ameaçada. Combinando dados de pesquisa de campo com projeções dos melhores modelos climáticos, o trabalho indica que as mudanças causadas pela ação humana podem levar a um enfraquecimento da circulação sem precedentes no período recente da história da Terra. O norte da Amazônia, justamente a parte mais preservada da floresta, pode ser fortemente afetado, com uma drástica redução do regime de chuvas.

Os resultados foram publicados no periódico Nature Communications.

A equipe internacional que realizou o estudo reuniu cientistas da Alemanha, da Suíça e do Brasil. Utilizando testemunhos de sedimentos marinhos coletados em diferentes pontos do Atlântico Norte e análises de elementos radioativos – tório-230 e protactínio-231 –, os pesquisadores reconstruíram quantitativamente a intensidade da Amoc ao longo de todo o Holoceno – os últimos 12 mil anos.

“Esses elementos radioativos são produzidos de forma constante na coluna d’água a partir do urânio. Como o tório se fixa rapidamente em partículas, enquanto o protactínio permanece mais tempo em circulação, a razão protactínio-tório registrada nos sedimentos fornece um ‘proxy’ da intensidade da circulação oceânica. Valores mais altos indicam enfraquecimento, e valores mais baixos, intensificação”, explica Cristiano Mazur Chiessi, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) e coautor do estudo.


Representação esquemática da Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico (seta em azul claro e vermelho), que transporta, perto da superfície, águas quentes do sul para o norte; e, em profundidades intermediárias, águas frias do norte para o sul. O desenho também mostra uma outra célula (seta em azul escuro), que transporta águas em grande profundidade (imagem: croqui de Cristiano Mazur Chiessi a partir de informações de Voigt et al., 2017)

Para transformar os dados de campo da razão protactínio-tório em valores de fluxo de água, a equipe utilizou o Bern3D, um modelo do sistema terrestre desenvolvido na Universidade de Berna, na Suíça, que simula oceanos, atmosfera e ciclos biogeoquímicos, permitindo converter registros de sedimentos em estimativas quantitativas da circulação oceânica. Isso permitiu estimar a intensidade da circulação em Sverdrups (Sv) – 1 Sv equivalente a 1 bilhão de litros por segundo.

Os resultados mostraram que, após o fim da última glaciação, a Amoc levou cerca de 2 mil anos para se recuperar do estado enfraquecido. Entre 9,2 mil e 8 mil anos atrás, sofreu novo declínio, associado ao aporte de água doce no Atlântico Norte decorrente do derretimento de geleiras e lagos glaciais, como o Lago Agassiz, no Canadá e nos EUA. Esse período incluiu o chamado “evento 8,2 ka”, registrado em testemunhos de gelo da Groenlândia como um dos episódios de resfriamento mais intensos do Holoceno. A partir de 6,5 mil anos atrás, no entanto, a circulação se estabilizou em torno de 18 Sv. E manteve essa intensidade até o presente.

“Reconstituímos o avanço das águas profundas do Atlântico Norte rumo ao Atlântico Sul ao longo de 11.500 anos. E, nos últimos 6.500 anos, não detectamos nenhuma oscilação maior, minimamente próxima daquilo que está projetado para 2100”, afirma Chiessi. “O cenário futuro é muito preocupante. E deve ser levado a sério tanto pelos governos quanto pela sociedade civil, incluída a comunidade científica.”

Segundo o pesquisador, o enfraquecimento projetado vai causar mudanças nas chuvas de todo o cinturão tropical do planeta, especialmente na América do Sul e na África, mas também afetando o sistema de monções da Índia e do Sudeste Asiático.

Impacto sobre a Amazônia

Um dos impactos mais importantes deverá ocorrer na Amazônia. “Projetamos uma marcante diminuição das chuvas no norte da Amazônia, justamente a região mais preservada da floresta. Esse efeito poderá ocorrer porque as chuvas equatoriais tenderão a se deslocar para o sul com o enfraquecimento da circulação do Atlântico. Com isso, o norte da Amazônia, abrangendo áreas do Brasil, da Colômbia, da Venezuela e das Guianas, poderá enfrentar reduções significativas na pluviosidade”, projeta Chiessi.

O pesquisador enfatiza que a gravidade desse cenário é ainda maior porque se trata da porção mais preservada da floresta. Diferentemente do sul e do leste amazônicos, onde o desmatamento e a degradação já avançaram fortemente, o norte tem funcionado como um “porto seguro” de biodiversidade. “É justamente nessa região, até agora menos impactada, que a mudança climática poderá impor uma vulnerabilidade nova e dramática”, observa.


Coleta de coluna sedimentar do fundo do Mar de Labrador, no Atlântico Norte, entre o Canadá e a Groenlândia. A coluna sedimentar coletada nesse local serviu como base para o artigo científico (foto: Stefan Mulitza)

Estudo anterior, publicado em 2024 por Thomas Kenji Akabane e colaboradores, entre eles o próprio Chiessi, já havia alertado para essa possibilidade. Por meio de registros de pólen e carvão microscópico em sedimentos marinhos, os cientistas mostraram nesse trabalho que enfraquecimentos passados da Amoc levaram à expansão de vegetação sazonal em detrimento das florestas úmidas do norte amazônico. E os modelos indicam que um enfraquecimento semelhante no futuro produziria impactos ainda maiores, uma vez que seriam agravados pelo desmatamento e pelas queimadas em outras partes da bacia.

Ponto de não retorno?O arrefecimento da Amoc poderá configurar um ponto de não retorno no sistema climático global. Se confirmadas as projeções, ocorrerá uma ruptura sem precedentes na circulação oceânica que sustenta o equilíbrio do clima do planeta. Há consenso entre os pesquisadores especializados de que o enfraquecimento constitui uma clara tendência. Mas os dados ainda não permitem saber se já está ocorrendo ou não. “Os monitoramentos diretos começaram apenas em 2004 e o oceano responde mais lentamente do que a atmosfera. Por isso, os registros são ainda insuficientes para uma resposta conclusiva. Porém, apesar dessa incerteza, a urgência de agir é inegociável. Ainda existe tempo, mas nossas ações precisam ser robustas, rápidas e conectadas, envolvendo governos e sociedade civil”, alerta Chiessi.

Como já foi dito em evento realizado na FAPESP, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), que ocorrerá em novembro deste ano em Belém, no Pará, constitui uma janela de oportunidade que não pode ser desperdiçada (leia mais em: agencia.fapesp.br/54611 e agencia.fapesp.br/55727).

Os dois estudos contaram com apoio da FAPESP por meio dos projetos 18/15123-419/19948-0 21/13129-8.

O artigo Low variability of the Atlantic Meridional Overturning Circulation throughout the Holocene pode ser lido em: www.nature.com/articles/s41467-025-61793-z.


Fonte: Agência Fapesp

Amazônia colombiana perde US$ 400 milhões devido ao desmatamento todos os anos

desmatamento da Amazônia colombiana

Esta é a conclusão do estudo “O valor econômico da perda anual de florestas na Amazônia colombiana”, que será publicado na edição de outubro da revista Ecosystem Services e desenvolvido por pesquisadores do Instituto Amazônico de Pesquisas Científicas (SINCHI).

O objetivo da pesquisa era estabelecer o custo social da perda florestal quantificando os fatores associados à degradação de seis serviços ecossistêmicos principais: armazenamento de carbono, vida selvagem para consumo, lenha, produtos florestais não madeireiros (PFNMs), recursos pesqueiros e conhecimento indígena tradicional de plantas para uso medicinal.

“O estudo buscou fornecer uma base sólida e espacialmente explícita para a tomada de decisões visando deter o desmatamento e salvaguardar os benefícios multifuncionais da Amazônia”, disse Mauro Reyes, coautor do estudo, ao SciDev.Net .

“Ao destacar o valor econômico dos serviços ecossistêmicos de importância direta para as comunidades locais, e outros de impacto mais amplo, como captura e armazenamento de carbono, informações relevantes são fornecidas para a tomada de decisões que apoiam a conservação e o uso sustentável dessas florestas.”

Andrés Vargas, Diretor do Departamento de Economia da Universidad del Norte, Barranquilla, Colômbia

De acordo com a pesquisa, o serviço mais valioso em termos monetários é o armazenamento de carbono (81% do valor total perdido), com uma variação de aproximadamente US$ 1.220 a 2.650 por hectare (ha).

Outros serviços apresentaram valores menores, mas cruciais, por hectare para as comunidades: lenha (US$ 179–269/ha); PFNMs (US$ 19,5–89,2/ha); conhecimento medicinal (US$ 14,76–77,47/ha); pesca (US$ 10,60–23,40/ha); e caça (US$ 4,3–7,9/ha).

Para chegar a esses dados, os autores empregaram uma metodologia em fases sob a estrutura do Valor Econômico Total (VET), que incluiu a definição dos serviços ecossistêmicos a serem estudados e a coleta de dados , como redes de parcelas para carbono, lenha e PFNMs, etc., bem como o monitoramento da comunidade na bacia do rio Vaupés, desembarques pesqueiros e consumo de peixes para a pesca, além da consulta a bancos de dados etnobotânicos e censos nacionais para conhecimento medicinal.

Os cientistas integraram dados espaciais e ecológicos e os avaliaram economicamente, aplicando métodos de avaliação direta, como precificação de mercado e custos evitados. No caso do conhecimento medicinal, por exemplo, calcularam os custos de saúde evitados pelo uso da medicina tradicional em vez da medicina institucional.

Eles também realizaram análises probabilísticas, com 10.000 simulações, para quantificar a incerteza e obter uma faixa provável de perdas econômicas.

“Uma das descobertas mais impressionantes é a enorme disparidade entre o valor do carbono e o dos serviços locais de subsistência (caça, pesca, lenha, etc.). Enquanto o carbono vale mais de US$ 1.200/ha, a caça, essencial para a segurança alimentar e cultural das comunidades indígenas, é avaliada em menos de US$ 8/ha”, afirma Reyes.

“Isso é impressionante porque ilustra perfeitamente uma limitação fundamental da valoração econômica: os preços do mercado global (carbono) capturam valores que são altos no mercado internacional, mas podem subestimar enormemente a importância crítica dos serviços que sustentam a vida e a cultura em nível local”, reconhece o cientista.

“Outra descoberta que me chamou a atenção foi a possibilidade de monetizar o serviço sociocultural do conhecimento tradicional indígena sobre plantas medicinais, que dá valor tangível ao intangível e consegue quantificar economicamente um serviço aparentemente abstrato, como a sabedoria ancestral, transformando-o em uma métrica concreta que pode ser entendida na linguagem das políticas públicas e da economia”, acrescenta.

Contatado pelo SciDev.Net , Andrés Vargas, diretor do Departamento de Economia da Universidade do Norte em Barranquilla, Colômbia, disse que o estudo é relevante, “porque contribui para o conhecimento sobre a importância da Amazônia colombiana”.

“Ao destacar o valor econômico dos serviços ecossistêmicos de importância direta para as comunidades locais, e outros de impacto mais amplo, como captura e armazenamento de carbono, informações relevantes são fornecidas para a tomada de decisões que apoiam a conservação e o uso sustentável dessas florestas.”

Na mesma linha, Reyes afirma que os resultados são relevantes porque transcendem a esfera acadêmica e se tornam uma ferramenta prática e poderosa para a gestão ambiental e a tomada de decisões . “Sua relevância”, afirma, “é demonstrada pela geração de uma base quantitativa para políticas públicas e pela evidenciação do alto custo do desmatamento”.

Em sua opinião, a pesquisa também ajuda a tornar visíveis valores ocultos ao trazer para o radar econômico serviços que muitas vezes são ignorados por não terem um mercado formal, como o conhecimento medicinal indígena ou o fornecimento de lenha, “revelando sua contribuição crucial para o bem-estar social e as finanças públicas por meio de custos evitados”.

Sobre se essa metodologia pode ser aplicada a outras florestas e ecossistemas, Reyes responde afirmativamente, mas com nuances:

Para outras florestas, por exemplo, as andinas, boreais e tropicais secas, o princípio é o mesmo: identificar os principais serviços ecossistêmicos, medir seu fluxo por unidade de área (ha) e atribuir um valor usando preços de mercado ou custos evitados. O que mudaria seriam as espécies avaliadas, os dados de biomassa, os produtos não madeireiros relevantes e o contexto cultural local.

“Para outros ecossistemas, a lógica permanece a mesma, mas os serviços e métodos de medição biofísica seriam completamente diferentes. Em um recife de coral, por exemplo, turismo, pesca e proteção contra tempestades, entre outros, seriam valorizados”, ressalta Reyes.


Fonte: SciDev

Adaptação climática na Amazônia deve priorizar segurança alimentar da população com espécies resilientes

A adaptação à nova realidade deve incluir a valorização da natureza e dos conhecimentos tradicionais

Na Amazônia, impactos das mudanças climáticas como alterações na temperatura e no regime de chuvas, comprometem a biodiversidade e, por consequência, a vida das populações que dependem diretamente da floresta para sua sobrevivência. A adaptação à nova realidade deve incluir a valorização da natureza e dos conhecimentos tradicionais, a restauração florestal em larga escala e a proteção das águas – essenciais tanto para a produção agrícola como para o transporte na região, dependente das rotas fluviais. Também estão entre as medidas necessárias a proteção e restauração de serviços ecossistêmicos como a polinização e a dispersão de sementes, com a formação de bancos de sementes e redes de coletores, por exemplo, além da identificação de espécies alimentares resilientes às mudanças climáticas – e de sua diversidade genética.

É o que propõe o policy brief “Estratégias de Adaptação Climática Visando o Bem-Estar das Populações Amazônidas”lançado na sexta (29) e elaborado por pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável (ITV) em parceria com autores de instituições como Universidade de São Paulo (USP) e Instituto Brasileiro de Pesquisas Espaciais (INPE). A partir da literatura científica, o material reúne um conjunto de recomendações e ações para políticas públicas que garantam segurança alimentar e hídrica especialmente a povos indígenas, comunidades ribeirinhas e quilombolas, além de moradores das áreas rurais e urbanas.

A pesquisadora do ITV Tereza Cristina Giannini, coordenadora da publicação, explica que a iniciativa multidisciplinar reúne cientistas que trabalham com bioeconomia e sustentabilidade de cadeias alimentares na Amazônia e faz parte de projetos em andamento vinculados ao ITV e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A principal motivação foi a constatação, em estudos prévios da equipe, de cenários negativos do impacto das mudanças climáticas sobre cerca de 200 espécies de plantas consumidas por povos nativos da Amazônia, como a castanha-do-pará.

A equipe também busca responder à indicação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) de priorizar a adaptação às mudanças climáticas, já que alguns impactos ambientais são irreversíveis, indo além de esforços voltados somente à mitigação – ou seja, à tentativa de redução dos efeitos das mudanças climáticas. “Às vezes, acredita-se que a mudança climática é unidirecional, mas não é. É um mosaico de impactos muito amplos e que envolve as comunidades humanas de um jeito complexo”, pontua Giannini.

Os projetos de pesquisa seguem adiante e têm como próximos passos a criação de uma cartilha sobre “plantas do futuro”, com foco em espécies potencialmente resilientes e pouco conhecidas; análise do impacto das mudanças climáticas em polinizadores agrícolas, especialmente os envolvidos na produção de cacau, açaí e castanha-do-pará; o mapeamento da vulnerabilidade alimentar de povos indígenas, identificando áreas onde essas populações podem ser mais afetadas por mudança de clima e vulnerabilidade alimentar; e a finalização de um trabalho sobre o genoma do cacau, buscando adaptações às mudanças climáticas para indicar possíveis melhorias genéticas e áreas de preservação.

“O policy brief foi uma grande síntese do conhecimento multifacetário que existe sobre impacto da mudança climática no que diz respeito à alimentação. Essa talvez tenha sido a maior contribuição: ter tantos pontos de vista diferentes e igualmente capacitados, engajados em expor a complexidade do tema e traçar caminhos possíveis”, conclui Giannini.


Fonte: Agência Bori

Dados de desmatamento branqueados: relatos de redução da perda de floresta tropical no Brasil são enganosos

.A degradação florestal explodiu na Amazônia em 2024 

Serraria clandestina na região de Porto Velho, no estado brasileiro de Rondônia, em 6 de fevereiro

Por Norbert Suchanek para o “JungeWelt”

A história de sucesso “Menos Desmatamento no Brasil!” recebeu ampla cobertura da mídia em maio passado, inclusive na Alemanha. Tanto o governo brasileiro quanto a Mapbiomas, rede de pesquisa que monitora os ecossistemas do país, confirmaram uma queda significativa no desmatamento na Amazônia no ano passado. De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), 30,6% menos floresta tropical foi destruída em 2024 do que em 2023, enquanto a Mapbiomas calculou uma redução de 16,8% em seu relatório anual de desmatamento (RAD). No entanto, dados sobre perda florestal do renomado World Resources Institute (WRI), também publicados em maio, indicam exatamente o oposto: a floresta amazônica brasileira registrou sua maior perda florestal em 2024 desde o recorde de 2016. Cerca de 110% a mais de desmatamento do que em 2023. A região amazônica perdeu 2,82 milhões de hectares de floresta tropical primária no ano passado, em comparação com “apenas” 1,14 milhão de hectares perdidos em 2023, de acordo com o WRI.

O INPE, por outro lado, estima 628.800 hectares de destruição da floresta tropical em 2024, em comparação com 906.400 hectares no ano anterior. Os menores números de desmatamento foram calculados pelo Mapbiomas, uma rede não governamental de universidades, organizações ambientais e empresas de tecnologia. Segundo o relatório, a área desmatada na Amazônia caiu de 454.230 hectares em 2023 para 377.708 hectares no ano passado.

Então, quem está certo? Os números do WRI são do Laboratório Global de Análise e Descoberta de Terras da Universidade de Maryland (UMD). Tanto o INPE quanto o Mapbiomas, assim como a UMD, coletaram os dados de desmatamento usando imagens de satélite, mas com diferentes métodos de análise e limitações do sistema.

A base de dados varia

O INPE avalia os dados usando seu sistema de monitoramento florestal Prodes. Este sistema registra cortes rasos maiores que 6,25 hectares. Os pesquisadores da UMD, por outro lado, consideram o desmatamento tão pequeno quanto 0,09 hectares e também registram perdas devido ao fogo , que o Prodes não inclui. No ano passado, de acordo com o WRI, 60% da destruição florestal foi causada pelo fogo. Devido a uma seca intensa e prolongada na Amazônia, os incêndios, que geralmente são iniciados por humanos, destruíram mais área florestal do que em outros anos. E quando mais área queima, menos floresta tem que ser desmatada com motosserras para expandir pastagens de gado ou campos de soja.

Outra diferença importante é o período de avaliação. Enquanto o Prodes considera os doze meses entre agosto e julho, os dados da UMD referem-se ao ano civil, ou seja, de janeiro a dezembro de 2024.

Por fim, o Mapbiomas combina dados de desmatamento de sistemas independentes de monitoramento, como o SAD (Sistema de Alerta de Desmatamento) do Instituto Amazonas para a Humanidade e o Meio Ambiente (Imazon), com dados de sistemas do INPE, como o Prodes, e se concentra exclusivamente no corte raso e na remoção completa da vegetação natural. O Mapbiomas não inclui perdas devido a incêndios florestais ou exploração madeireira seletiva em suas estatísticas de desmatamento, razão pela qual os números são significativamente menores. “Como o Mapbiomas não contabiliza a crescente perda florestal devido a incêndios no Brasil, uma proporção crescente da mudança florestal geral não é adequadamente representada”, resume a plataforma online do WRI, Global Forest Watch (GFW).

Os danos florestais são maiores

Para avaliar se a proteção florestal na região amazônica está de fato melhorando ou piorando, precisamos de dados sobre degradação florestal, além de estatísticas de desmatamento. Florestas danificadas, por exemplo, devido à exploração madeireira seletiva e estradas florestais, têm uma cobertura vegetal mais rala, são mais suscetíveis à seca e pegam fogo com mais facilidade. Por outro lado, iniciar incêndios em florestas tropicais intactas e úmidas não é uma tarefa fácil.

De acordo com o instituto de pesquisa Imazon em Belém do Pará, houve um aumento explosivo na degradação florestal na região amazônica em 2024. Segundo o relatório, 3,64 milhões de hectares de floresta tropical foram degradados, cerca de seis vezes mais do que em 2023. De acordo com o Imazon, os danos florestais registrados no ano passado pelo sistema de monitoramento do SAD foram os maiores desde que o instituto começou a monitorar florestas em 2009, superando em muito o recorde anterior estabelecido em 2017, quando 1,15 milhão de hectares de floresta amazônica foram degradados.

Segundo o Imazon, o aumento da degradação florestal na região amazônica está diretamente ligado ao aumento dos incêndios florestais no ano passado. A seca e a exploração madeireira também contribuíram para esse processo de degradação.


Fonte: JungeWelt

Florestas queimadas da Amazônia permanecem quentes e estressadas por décadas, descobre novo estudo apoiado pela NASA

A autora principal, Savannah Cooley, está em um pedaço de floresta intacta diante de uma das maiores árvores medidas no sul da Amazônia — uma magnífica Ceiba pentandra com 61 metros de altura.

A autora principal, Savannah Cooley, em pé em um trecho de floresta intacta diante de uma das maiores árvores já registradas no sul da Amazônia — uma magnífica Ceiba pentandra, com 61 metros de altura. Foto: Vinicius Silguero, Instituto Centro de Vida

Por Rebecca Fowler para o “State of the Planet” 

As florestas da Amazônia brasileira danificadas pelo fogo permanecem cerca de 2,6 °C (4,7 °F) mais quentes do que as florestas intactas ou exploradas seletivamente, e o calor extra pode persistir por pelo menos 30 anos. As descobertas sugerem que o fogo altera as florestas tropicais de forma a retardar sua recuperação e pode enfraquecer sua capacidade de tolerar o estresse climático e armazenar carbono — um papel crucial que essas florestas desempenham na mitigação do clima global.

O estudo foi publicado hoje na revista Environmental Research Letters.

“Estamos descobrindo que as queimadas têm grandes impactos ecológicos em larga escala e que a regeneração está muito mais em risco — é mais lenta ou nem acontece”, disse a autora principal, Savannah S. Cooley, pesquisadora do  Centro de Pesquisa Ames da NASA  e recém-graduada em doutorado pelo  programa de Ecologia, Evolução e Biologia Ambiental  (E3B) da Universidade Columbia. (Cooley foi coorientada por Duncan Menge e Ruth DeFries , professora e reitora cofundadora da Escola de Clima da Universidade Columbia.)

Ao contrário de ecossistemas adaptados ao fogo, como savanas ou florestas de pinheiros, as florestas tropicais da Amazônia evoluíram em condições úmidas, onde incêndios naturais eram raros. Como resultado, muitas espécies de árvores tropicais não desenvolveram características para tolerar ou se recuperar dos danos causados pelo fogo.

Além de serem, em média, mais quentes, as florestas queimadas na área de estudo apresentaram maior instabilidade térmica. Em comparação com florestas exploradas seletivamente ou intactas, elas apresentaram maiores flutuações diárias de temperatura e maior probabilidade de ultrapassar limites fisiológicos que prejudicam a função das árvores. Durante o pico de calor da estação seca, quase 87% das folhas expostas à luz solar em florestas queimadas perdem mais energia pela respiração do que ganham pela fotossíntese, em comparação com 72-74% em florestas exploradas seletivamente ou intactas.

Florestas queimadas também tiveram 10 vezes mais probabilidade de ultrapassar o limite de danos duradouros.

Distribuições modeladas de temperatura foliar no dossel superior com base em observações térmicas do ECOSTRESS de fragmentos florestais (intactos, explorados e queimados) na observação mais quente e sem nuvens em um registro de estação seca de 2 anos (31-08-2018). Os resultados para os fragmentos mais quentes (quartil superior) são apresentados.
Distribuições modeladas de temperatura foliar no dossel superior com base em observações térmicas do ECOSTRESS de fragmentos florestais (intactos, explorados e queimados) na observação mais quente e sem nuvens em um registro de estação seca de 2 anos (31-08-2018). Os resultados
para os fragmentos mais quentes (quartil superior) são apresentados.

Essas diferenças de temperatura refletem mudanças fundamentais na estrutura da floresta, que deixam as áreas queimadas mais vulneráveis ao calor. Os incêndios afinam o dossel superior, removem a vegetação de nível médio e inferior e reduzem a área foliar, diminuindo a sombra e a transpiração que normalmente resfriam uma floresta. A redução da quantidade de folhas permite que a luz solar aqueça as superfícies expostas e o ar próximo ao dossel. As queimadas também criam bordas próximas à terra desmatada, permitindo que o ar mais quente se mova para dentro. A floresta retém esse calor extra até que suas camadas de vegetação se reconstruam, um processo que pode levar décadas.

O estudo sugere que o fogo é o principal fator de estresse térmico prolongado em florestas amazônicas degradadas. Em áreas onde a exploração madeireira seletiva deixou o dossel praticamente intacto, as temperaturas foram semelhantes às de florestas intocadas. O contraste destaca a prevenção de incêndios e a exploração madeireira de baixo impacto como estratégias essenciais para manter a saúde das florestas tropicais.

Insights do Espaço

O estudo baseia-se em imagens de satélite do município de Feliz Natal, no Arco do Desmatamento brasileiro, região no sudeste da Amazônia onde incêndios e exploração madeireira têm se intensificado desde a década de 1980. Os pesquisadores realizaram a primeira comparação térmica sistemática entre florestas queimadas, exploradas seletivamente e intactas na região, utilizando observações integradas de satélite. Eles combinaram três anos de dados de temperatura da superfície terrestre do instrumento ECOSTRESS da NASA com dados 3D da estrutura do dossel da missão lidar GEDI , uma análise que se baseou em mais de 6.700 observações correspondentes coletadas durante a estação seca na Amazônia.

Utilizando um modelo hierárquico, a equipe integrou dados de temperatura e estrutura para rastrear a frequência com que as folhas iluminadas pelo sol excediam os limites de desaceleração da fotossíntese ou danos aos tecidos. Considerando a altura do dossel e o tempo desde a perturbação, eles reconstruíram a recuperação térmica a longo prazo em todas as camadas da floresta. O resultado é uma visão única, em nível foliar, de quanto tempo o estresse térmico persiste após a perturbação e como a estrutura da floresta influencia a vulnerabilidade térmica ao longo do tempo.

Calor oculto revela novos riscos para restauração e resiliência

Os resultados fornecem nuances para a compreensão de como as políticas climáticas abordam a degradação das florestas tropicais. As estratégias de mitigação de carbono e restauração florestal frequentemente tratam as florestas degradadas como uma única categoria. No entanto, o estudo revela que o fogo tem impactos térmicos mais duradouros, que não são detectáveis apenas por imagens ópticas de satélite convencionais. Em imagens ópticas de satélite, as florestas danificadas pelo fogo podem parecer ter regenerado, mas muitas ainda sofrem estresse térmico elevado.

A distinção é importante porque as florestas tropicais removem grandes quantidades de dióxido de carbono da atmosfera a cada ano e são um componente essencial dos programas globais de restauração e compensação. Se as florestas danificadas pelo fogo permanecerem sob estresse térmico por décadas, os benefícios de carbono da regeneração passiva podem ser superestimados. A incorporação de dados fisiológicos de calor pode fornecer uma avaliação mais realista da função florestal em estratégias climáticas.

Embora as descobertas destaquem desafios, Cooley disse que ações significativas são possíveis.

“Ecossistemas tropicais degradados, especialmente florestas queimadas, estão sofrendo estresse térmico”, disse ela. “Mas há muito que podemos fazer para minimizar os danos à biodiversidade e às espécies que estão sofrendo esse estresse — tanto em termos de manejo florestal, ajudando a reduzir os incêndios na Amazônia, quanto em termos de mitigação de carbono, continuando a reduzir as emissões de forma agressiva e rápida, e fazendo a transição para uma economia de energia sustentável e limpa.”

Os co-autores do estudo são Duncan NL Menge, da Universidade de Columbia; Michael Keller, Serviço Florestal do USDA e Laboratório de Propulsão a Jato da NASA; Kerry Cawse-Nicholson, Laboratório de Propulsão a Jato da NASA; Marcos Longo, Laboratório Nacional Lawrence Berkeley; André P. Dias, Secretaria de Estado de Meio Ambiente; Vinicius Silgueiro e Raquel Carvalho, Instituto Centro de Vida; Ovidiu Csillik, Universidade Wake Forest; Doug Anderson, Micah Gilbreath e Paul Duffy, Neptune and Company, Inc.; e Marcos Adami, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.


Fonte: State of the Planet

PL da Devastação: entrevista no SBT News sobre a aprovação do fim do licenciamento ambiental no Brasil

Na tarde desta 5a. feira (17/7) concedi uma entrevista no programa Poder Expresso do SBT News de Brasília sobre os impactos mais graves que decorrerão da aprovação do PL da Devastação na madrugada de hoje pela Câmara de Deputados (ver vídeo abaixo).

Além de reforçar os problemas mais óbvios que decorrerão da implementação da nova legislação sobre a proteção do ambiente no Brasil, reforcei a necessidade de que o presidente Lula vete integralmente o PL da Devastação.  Também abordei a importância da mobilização popular para fazer com que o presidente Lula faça o que tem de ser feito que vetar integralmente essa legislação esdrúxula.