Águas subterrâneas do Brasil sob pressão

Sob as florestas, fazendas e cidades do Brasil, uma reserva hídrica vital está mostrando sinais de sobrecarga
Projeções visuais impactantes na Madison Avenue, em Nova York, EUA, convocam os bancos de Wall Street a tomarem medidas urgentes para proteger a floresta amazônica. Abril de 2026. Imagem: Michael Nigro / The Illuminator Project / Creative Commons 4.0.
Por Monica Piccinini para “The Ecologist” 

Um novo estudo alerta que os níveis de água subterrânea em algumas regiões do Brasil estão diminuindo a taxas comparáveis ​​às observadas em alguns dos sistemas aquíferos mais explorados do mundo  .

A água sempre foi fundamental para a identidade do Brasil, moldando suas paisagens, economia e ecossistemas. 

Dos rios da Amazônia às cheias sazonais que transformam o Pantanal em uma das maiores áreas úmidas do mundo, a água ajudou a definir tanto a geografia do país quanto seu desenvolvimento.

Observado

Durante gerações, essa abundância criou a crença de que o Brasil jamais enfrentaria uma grave escassez de água. 

No entanto, as evidências que emergem do subsolo sugerem que algumas reservas de água subterrânea estão se tornando cada vez mais vulneráveis ​​às pressões ambientais e humanas.

Um estudo liderado por Augusto Getirana, cientista do Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA, no Laboratório de Ciências Hidrológicas, examinou mais de duas décadas da dinâmica das águas subterrâneas no Brasil, utilizando observações de satélite, ferramentas de inteligência artificial e sistemas de monitoramento de águas subterrâneas.

Os resultados revelam um panorama misto. Enquanto alguns aquíferos continuam a se recuperar naturalmente após períodos de seca, outros apresentam declínios persistentes ligados à expansão agrícola, à atividade de mineração, à variabilidade climática e à crescente demanda por água.

De acordo com os pesquisadores, o declínio das águas subterrâneas observado em alguns aquíferos brasileiros assemelha-se a padrões documentados em sistemas de águas subterrâneas altamente sobrecarregados em Bangladesh, Índia, Irã e Estados Unidos.

Pressupostos

O estudo avaliou as condições das águas subterrâneas nas 12 principais bacias hidrográficas do Brasil e examinou vários sistemas aquíferos importantes, incluindo Alter do Chão, Urucuia, Bauru-Caiuá, Guarani, Pantanal, Solimões e Parecis. 

As águas subterrâneas suprem aproximadamente 55% da demanda hídrica do Brasil e abastecem mais da metade dos municípios do país. Em muitas regiões, elas representam uma importante reserva durante períodos de seca e ajudam a manter o abastecimento de água quando os reservatórios superficiais estão em níveis baixos.  

Apesar de sua importância, o monitoramento de águas subterrâneas permanece limitado. Em um território de aproximadamente 8,5 milhões de quilômetros quadrados, o Brasil opera apenas cerca de 500 poços federais de monitoramento de águas subterrâneas, deixando grandes áreas insuficientemente observadas.

“Eu não diria que o Brasil confundiu abundância com segurança”, disse Getirana em resposta à pergunta sobre se a abundância histórica de água no Brasil pode ter fomentado a complacência.

“O que mudou é que as premissas que funcionavam no passado podem não ser suficientes para o futuro.” 

Agrícola

“Nas últimas décadas, o Brasil passou por uma série de grandes crises hídricas, incluindo a crise de racionamento de energia elétrica de 2001, as severas secas de 2014-2015 e a escassez de água que afetou diversas regiões em 2021. 

As hipóteses que funcionaram no passado podem não ser suficientes para o futuro. 

“Ao mesmo tempo, o crescimento populacional e a expansão econômica aumentaram a demanda por água. As águas subterrâneas têm se tornado cada vez mais parte da solução.” 

Ele acrescentou: “O que me surpreendeu neste estudo foi ver evidências de que o uso de água subterrânea para irrigação e abastecimento público de água se expandiu o suficiente para deixar uma marca detectável no armazenamento de água subterrânea.” 

“O Brasil não enfrenta hoje uma insegurança hídrica em âmbito nacional, mas esses resultados sugerem que a confiança tradicional do país na abundância de recursos hídricos pode precisar ser repensada em um contexto de mudanças climáticas e demanda crescente.”

Alguns dos sinais mais fortes de declínio das águas subterrâneas estão ocorrendo no centro do Brasil, particularmente em partes do Cerrado e nas bacias dos rios São Francisco e Paraná. Essas regiões também passaram por uma extensa expansão agrícola. 

Enfraquecer

Frequentemente ofuscado pela Amazônia, o Cerrado é considerado pelos hidrólogos como uma das paisagens mais importantes da América do Sul em termos de produção de água. Grandes sistemas fluviais nascem ali, incluindo rios que contribuem para as bacias do Amazonas, Paraná e São Francisco. 

A vegetação nativa desempenha um papel crucial na regulação do movimento da água, permitindo que a chuva se infiltre gradualmente no solo, reabastecendo os aquíferos e sustentando o fluxo dos rios além da estação chuvosa.

Nas últimas décadas, milhões de hectares de vegetação nativa foram convertidos em plantações de soja, pastagens para gado e agricultura irrigada. 

O estudo encontrou evidências de que alguns aquíferos sofreram anos com pouca ou nenhuma recarga de água subterrânea. Nesses anos, a precipitação não conseguiu repor as reservas subterrâneas nas taxas históricas. Os pesquisadores identificaram esses padrões em partes do Aquífero Urucuia, na zona de recarga do Aquífero Guarani e em outros sistemas de água subterrânea intensamente utilizados. 

Muitas dessas áreas sustentam a economia agrícola do Brasil. Se as taxas de recarga continuarem a diminuir, a extração de água subterrânea poderá se tornar cada vez mais difícil de manter durante períodos prolongados de seca. 

Variável

A bacia do São Francisco emergiu como uma das regiões que sofrem as perdas mais severas de água subterrânea no Brasil, impulsionadas pelo uso intensivo da água, seca, mudanças na cobertura do solo e alterações nos padrões de chuva. 

Conforme observado por Getirana, as águas subterrâneas podem mitigar os impactos da seca, embora sua confiabilidade esteja diminuindo em muitas regiões. “Durante secas prolongadas, rios, lagos e reservatórios são normalmente as primeiras fontes de água a diminuir”, disse ele.

“As florestas ajudam a manter os recursos hídricos, promovendo a infiltração no solo e nos aquíferos, além de influenciarem a circulação atmosférica regional e os padrões de precipitação. Os aquíferos, por sua vez, frequentemente funcionam como reserva de longo prazo, a poupança do sistema hidrológico.”

“Nossos resultados sugerem que os sistemas de águas subterrâneas estão se tornando menos confiáveis ​​em regiões onde a demanda por água é maior. Os maiores declínios nos estoques ocorrem em regiões densamente povoadas e economicamente ativas, indicando que algumas dessas redes de segurança naturais estão sob crescente pressão.”

A Amazônia abriga algumas das maiores reservas de água doce do mundo. Embora pesquisadores tenham encontrado evidências de que os sistemas de água subterrânea em partes da região estão se tornando mais variáveis , as mudanças não são uniformes em toda a bacia. 

Saturado

Getirana e seus colegas descobriram que grandes porções da Amazônia mantiveram condições estáveis ​​de água subterrânea durante o período do estudo, e algumas regiões até apresentaram aumento no armazenamento de água subterrânea. Essas descobertas sugerem que certos sistemas de água subterrânea permanecem resilientes em condições ambientais favoráveis.

Próximo a Manaus, os níveis de água subterrânea flutuam em resposta à subida e descida sazonal dos rios Negro e Solimões. No entanto, eventos climáticos extremos parecem estar afetando esses ciclos naturais. 

O evento El Niño de 2015-2016 pode ter representado uma mudança significativa no comportamento das águas subterrâneas em diversas áreas, com alguns aquíferos passando de condições relativamente estáveis ​​para declínios mais persistentes.

As secas recentes levaram os rios da Amazônia a níveis historicamente baixos, interrompendo o transporte, isolando comunidades e afetando ecossistemas em toda a bacia.

Ao mesmo tempo, o sul do Brasil sofreu graves inundações. Os pesquisadores observam que as condições das águas subterrâneas podem influenciar o risco de inundações, pois os sistemas subterrâneos saturados perdem a capacidade de absorver chuvas adicionais, aumentando o escoamento superficial.

Fogo

Em conjunto, esses resultados sugerem que os desafios hídricos do Brasil envolvem cada vez mais variabilidade e extremos, em vez de simples questões de abundância ou escassez de água.

Getirana afirmou: “Acho que uma das lições mais importantes é que abundância e sustentabilidade não são a mesma coisa. O Brasil possui alguns dos maiores recursos de água doce do planeta, mas nossos resultados mostram que os sistemas de águas subterrâneas ainda podem sofrer perdas persistentes quando a variabilidade climática, as mudanças no uso da terra e a crescente demanda por água atuam em conjunto.

“Historicamente, muitas sociedades trataram os recursos naturais como praticamente inesgotáveis, por parecerem abundantes em relação às necessidades humanas. O que as observações modernas e os registros de satélite mostram cada vez mais é que mesmo sistemas muito grandes têm limites.”

“As águas subterrâneas são particularmente importantes porque são em grande parte invisíveis. Ao contrário dos rios ou reservatórios, as mudanças subterrâneas podem passar despercebidas durante anos ou mesmo décadas. Estudos como este ajudam a tornar visíveis essas mudanças ocultas antes que se tornem problemas maiores.”

O Pantanal, a maior área úmida tropical do mundo, também está sofrendo pressão crescente. Os pesquisadores identificaram a diminuição da recarga de água subterrânea em partes da região, uma tendência associada à seca, mudanças no uso da terra e temporadas de incêndios cada vez mais severas.

Água doce

Os incêndios podem ter efeitos duradouros nos sistemas hídricos, destruindo a vegetação, alterando a estrutura do solo, reduzindo a infiltração e dificultando a recarga dos aquíferos após períodos de seca.

A atividade de mineração também contribui para o aumento da pressão em algumas áreas. Em partes do estado de Minas Gerais, a água subterrânea é bombeada de sistemas subterrâneos para abastecer as operações de mineração. Isso pode reduzir os níveis dos lençóis freáticos, alterar o fluxo dos rios e afetar as comunidades vizinhas.

Exemplos de outras partes do mundo demonstram como pode ser difícil reverter as mudanças depois que a extração em larga escala altera os sistemas hídricos. 

Ao redor do Mar Morto , décadas de desvio de rios, extração mineral e superexploração de águas subterrâneas contribuíram para uma queda drástica nos níveis de água, acelerando o recuo da linha costeira e a formação de milhares de dolinas. 

Preocupações semelhantes estão surgindo na Amazônia brasileira. Em Autazes, um grande projeto de potássio desenvolvido pela empresa canadense Potássio do Brasil gerou alertas de pesquisadores, organizações indígenas e comunidades locais sobre possíveis impactos nas águas subterrâneas, áreas úmidas e sistemas hídricos interligados. 

Escassez

Avaliações ambientais e revisões independentes destacaram riscos como o aumento do escoamento de sedimentos, maior turbidez da água e pressão sobre os ecossistemas ligados ao rio Madeira, uma das vias navegáveis ​​mais importantes da bacia amazônica. 

Embora as consequências a longo prazo permaneçam incertas, esses casos ilustram como a mineração pode alterar os sistemas hídricos muito além dos limites do próprio local de extração.

O Brasil não está ficando sem água, mas a abundância de recursos não elimina a vulnerabilidade.

O estudo constatou que apenas uma fração da precipitação atinge e reabastece os aquíferos. Em algumas regiões, a recarga permanece robusta, mas em outras, parece estar diminuindo. 

O Brasil enfrentou grandes crises hídricas em 2000-2001, 2014-2017 e 2021. Esses eventos foram frequentemente vistos principalmente como consequência da escassez de chuvas. 

Secas

As novas descobertas sugerem que mudanças mais profundas também podem estar afetando os sistemas hídricos do país. À medida que as mudanças climáticas se aceleram e a pressão sobre os recursos hídricos e terrestres aumenta, as águas subterrâneas provavelmente se tornarão um componente cada vez mais importante da segurança hídrica de longo prazo do Brasil. 

Apesar dos desafios identificados no estudo, Getirana permanece otimista quanto à crescente conscientização pública sobre as questões de segurança hídrica.

Ele disse: “Estudos sobre disponibilidade de água, seca, águas subterrâneas e impactos climáticos estão cada vez mais presentes na mídia convencional e no debate público. O conhecimento científico por si só não muda políticas ou práticas de gestão. A verdadeira mudança acontece quando governos, instituições e a sociedade reconhecem o problema e agem com base nas evidências.”

“O fato de as águas subterrâneas e a segurança hídrica estarem se tornando temas de debate nacional no Brasil é encorajador. Quando a ciência chega ao público e influencia a tomada de decisões, cria oportunidades para aprimorar o monitoramento, o planejamento e a gestão hídrica a longo prazo.”

Ele acrescentou: “Na última década, um número crescente de estudos documentou o declínio das águas subterrâneas e do armazenamento de água em partes do Brasil, particularmente durante grandes secas.

Salvaguarda

“O desafio hoje não é a ausência de sinais de alerta. O desafio é garantir que essa informação faça parte do processo de tomada de decisão.” 

“Daqui a cinquenta anos, suspeito que as pessoas olharão para trás e dirão que os primeiros sinais de alerta surgiram da combinação de observações por satélite, estudos científicos e crises hídricas recorrentes que revelaram vulnerabilidades que antes passavam despercebidas.”

Durante décadas, o Brasil confiou na premissa de que os abundantes recursos hídricos compensariam a crescente demanda e as pressões ambientais. 

As evidências apresentadas neste estudo sugerem que a proteção das águas subterrâneas poderá se tornar tão importante quanto a proteção de rios, florestas e zonas úmidas nas próximas décadas.

Este autor

Monica Piccinini é uma jornalista brasileira-britânica e membro do Sindicato Nacional dos Jornalistas. Ela contribui regularmente para o The Ecologist e publica no Substack, Medium e em sua própria plataforma,  YourVoiz.org .


Fonte: The Ecologist

O asfalto contra a maré

O mangue como fonte de vida (Ismael Machado)

Por Ismael Machado para “Medium”

A Marcha dos Manguezais Amazônicos, realizada em Belém semana passada, foi apresentada como um ato em defesa do meio ambiente. É uma leitura confortável, mas insuficiente. O que caminhou entre o Cais do Porto e o Ver-o-Peso foi a contestação de uma forma de produzir território que, há décadas, orienta principalmente o nordeste paraense, mas que ainda continua quase invisível aos olhares menos atentos.

O cimento e o asfalto são nossos deuses. Não, não estou exagerando. Existe uma ideia persistente de desenvolvimento segundo a qual rios devem ser canalizados, áreas alagáveis precisam ser aterradas e manguezais representam um vazio econômico à espera de investimentos. Essa lógica não nasceu agora. Ela acompanha a urbanização da Amazônia desde o século XX e continua orientando decisões públicas e privadas em municípios costeiros como Bragança, Salinópolis, Curuçá, Marapanim, Vigia, São Caetano de Odivelas, Augusto Corrêa e Quatipuru, para ficar apenas nesses. Nenhum desses lugares existe apesar da água. Eles existem por causa dela. E não paramos um segundo sequer pensando nisso. Seja quando brincamos carnaval nos cobrindo de lama do mangue de Curuçá ou fazendo campeonatos de pesca em São Caetano de Odivelas.

A economia pesqueira, a circulação entre comunidades, os ciclos do extrativismo, a fertilidade dos estuários e até a configuração das cidades dependem de uma dinâmica que nunca foi estática. A costa amazônica não oferece terreno firme como condição permanente. Ela oferece movimento. A maré altera margens, redistribui sedimentos, redefine canais. O manguezal é parte desse mecanismo, não um acidente geográfico esperando correção ou um progresso urbano calcado em empreendimentos imobiliários para poucos. Recentemente fui a Outeiro, uma ilha que habita minhas memórias infantis e constatei essa questão de condomínios que privatizam a área costeira de forma implacável. Li recentemente que pretendem fazer algo assim nos Lençóis Maranhenses.

Insistimos em aplicar à região um modelo de urbanização concebido para territórios onde a água deve permanecer confinada. Quando essa lógica chega ao litoral amazônico, ela produz um paradoxo, pois tenta estabilizar um ambiente cuja principal característica é justamente a transformação contínua. Os efeitos aparecem rapidamente. Aterros interrompem a circulação das águas, loteamentos ocupam áreas naturalmente inundáveis, obras de contenção deslocam processos erosivos para outras localidades e bairros inteiros passam a depender de soluções de drenagem cada vez mais caras e menos eficientes. Depois, quando a maré invade ruas ou a chuva encontra caminhos bloqueados, o fenômeno recebe o nome de desastre natural. A única coisa natural aqui, porém, é a maré. E artificial é a expectativa de que ela respeite projetos elaborados sem considerar o funcionamento do território.

Essa insistência não decorre de desconhecimento técnico. Há décadas nossas principais universidades e centros de pesquisa descrevem o papel dos manguezais na proteção costeira, na estabilidade dos estuários, na manutenção da biodiversidade e no armazenamento de carbono. O problema, portanto, não é ausência de informação. É a escolha política sobre quais conhecimentos merecem orientar o planejamento urbano.

Essa escolha costuma privilegiar indicadores de curto prazo. Um aterro amplia a oferta de terrenos. Um condomínio eleva o valor imobiliário da vizinhança. Uma avenida construída sobre áreas úmidas produz a sensação imediata de progresso. Os custos, entretanto, não aparecem na mesma planilha. Eles surgem anos depois, distribuídos entre pescadores que perdem áreas de captura, comunidades que convivem com inundações mais frequentes e administrações municipais obrigadas a investir continuamente em obras para corrigir problemas que elas próprias ajudaram a criar.

No nordeste paraense, essa conta tende a se tornar ainda mais elevada. A elevação do nível do mar, as alterações no regime de chuvas e o aumento da intensidade de eventos extremos ampliam a importância dos manguezais como infraestrutura natural. Destruí-los significa reduzir justamente a capacidade de adaptação de uma região cuja relação com a água sempre definiu sua existência. E fico sempre a refletir o quanto a Amazônia urbana de águas e marés não cabe nos gabinetes de planejamento que tratam o ecossistema costeiro como mero espaço vazio à espera de concreto, onde o manguezal tratado como um estorvo geográfico que precisa ser drenado, aterrado e loteado.

Essa ânsia por transformar ‘lama’ em metro quadrado ignora a física mais básica do território. O solo do mangue é esponjoso, dinâmico e cumpre uma função estrutural de escoamento e amortecimento das marés. Quando o capital imobiliário avança sobre essas áreas com o aval de um zoneamento urbano míope, o resultado é a supressão de braços de rio e a impermeabilização forçada do solo.

O preço dessa conta não demora a chegar, mas nunca é pago pelos idealizadores dos loteamentos. Ele recai sobre as comunidades tradicionais que são escorraçadas de seus territórios ancestrais e sobre os bairros periféricos que submergem a cada temporal ou oscilação forte da maré. A especulação imobiliária em áreas de mangue vende uma falsa segurança que se desmancha na primeira chuva forte combinada com a lua cheia.

Não custa lembrar que o manguezal é a primeira e mais sólida linha de defesa contra eventos climáticos extremos, como a elevação do nível do mar e a intensificação das ressacas. Destruir o mangue é um contrassenso econômico e ecológico catastrófico. É cavar a própria ruína sob a justificativa de “desenvolvimento”. O problema é que acumulamos erros e erros e nunca aprendemos. E quando se fala de erros, não é uma prerrogativa paraense. É uma democrática distribuição de sandices na Amazônia inteira.


Fonte: Medium

O outro jogo da Noruega na Amazônia

Foto:  Pedrosa Neto

Por Ismael MachaDo*

A eliminação do Brasil diante da Noruega ficará registrada como mais um capítulo das surpresas (dessa feita não tão surpresa assim) que só o futebol é capaz de produzir. Noventa minutos, um placar a ser ruminado, discutido, debatido profundamente, uma despedida precoce dos gramados estadunidenses. Mas, para quem vive na Amazônia, especialmente em Barcarena, a Noruega representa uma peleja muito mais antiga e muito mais difícil de reverter o placar adverso.

No futebol, adversários se enfrentam sob as mesmas regras. Na economia global, as disputas obedecem a outra lógica. E essa lógica é perversa. Muitas vezes silenciosa, em outras, estridente.

Enquanto milhões de brasileiros acompanhavam a seleção em campo, poucos lembravam (ou sabem) que o Estado norueguês é o principal acionista da empresa Norsk Hydro, por meio do governo da Noruega. Não, não estou aqui escrevendo bobagens do tipo ‘o futebol aliena e coisas mais importantes estão acontecendo’. Não é nada disso. apenas estou tentando contar outra história também relevante. Sigamos. A companhia controla, em Barcarena, um dos maiores complexos industriais de produção de alumina e alumínio do mundo, formado principalmente pela refinaria Alunorte e pela fábrica Albras. A refinaria tem capacidade para produzir mais de 6 milhões de toneladas de alumina por ano, matéria-prima essencial para a fabricação do alumínio, abastecendo cadeias produtivas espalhadas por diversos continentes.

O alumínio que sai de Barcarena está presente em automóveis, aviões, embalagens, equipamentos eletrônicos, painéis solares e turbinas eólicas. Em outras palavras, uma parte da chamada economia verde (e não ‘verde’) mundial passa inevitavelmente pela exploração mineral da Amazônia.

O paradoxo é evidente. Internacionalmente, a Noruega construiu a imagem de uma potência ambiental. Tornou-se o maior financiador do Fundo Amazônia, destinando cerca de R$ 3,4 bilhões ao mecanismo desde sua criação, como parte de sua política de combate ao desmatamento e às mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, por intermédio de uma empresa da qual é o principal acionista, mantém um dos maiores empreendimentos minerometalúrgicos da região amazônica.

Não há ilegalidade nessa condição. O que existe é uma contradição política e ética que merece ser debatida. O mesmo Estado que financia a conservação da floresta também participa economicamente de uma atividade industrial que produz impactos ambientais significativos sobre essa mesma Amazônia.

Barcarena tornou-se um dos símbolos dessa tensão. Desde 1977, quando as primeiras famílias começaram a ser ‘visitadas’ em suas casas, sendo alertadas de que viriam futuros empreendimentos, passando pela década de 1980, quando o complexo industrial começou a ser implantado, o município experimentou crescimento econômico acelerado, mas também sucessivos conflitos fundiários, deslocamentos de comunidades tradicionais, pressão sobre rios, igarapés e áreas de uso coletivo.

A instalação de refinarias de alumina, terminais portuários e grandes obras de infraestrutura modificou profundamente o território. Ao mesmo tempo em que a região passou a ocupar posição estratégica na exportação de minérios e outras commodities, comunidades quilombolas, ribeirinhas, indígenas e agricultores familiares passaram a conviver com mudanças drásticas em seu modo de vida.

A expansão industrial trouxe consigo processos de desapropriação, redução de áreas tradicionalmente ocupadas, pressão sobre os recursos naturais e alterações na dinâmica dos rios, fundamentais para a pesca, o transporte e a subsistência das populações locais. Ao longo dos anos, moradores denunciaram dificuldades crescentes para manter atividades tradicionais, além do aumento dos conflitos fundiários e da insegurança em relação aos seus territórios.

Barcarena também se tornou conhecida nacionalmente por sucessivos acidentes ambientais. Vazamentos de resíduos industriais, denúncias de contaminação de rios e igarapés e questionamentos sobre a segurança das operações reforçaram a percepção de que os custos ambientais do desenvolvimento recaíam, sobretudo, sobre as comunidades mais vulneráveis. Diversas investigações conduzidas por órgãos públicos, universidades e organizações da sociedade civil apontaram a necessidade de fortalecer os mecanismos de fiscalização e de ampliar a participação das populações atingidas nos processos de licenciamento.

O episódio mais emblemático ocorreu em 2018. Após fortes chuvas, moradores denunciaram o transbordamento de bacias e o lançamento irregular de efluentes. Estudos produzidos por órgãos públicos identificaram alterações na qualidade da água em diferentes pontos do município. A empresa contestou parte das conclusões, afirmou que seus sistemas eram seguros e celebrou posteriormente acordos com autoridades ambientais e o Ministério Público para ampliar investimentos, monitoramento e programas de compensação. Ainda assim, o episódio permanece como uma referência do conflito entre desenvolvimento industrial e direitos socioambientais.

Os números ajudam a compreender a dimensão dessa relação. A mineração responde por parcela expressiva das exportações do Pará, e Barcarena figura entre os maiores municípios exportadores do Brasil. Bilhões de dólares deixam anualmente seus portos na forma de alumina, alumínio e outros produtos minerais. Um levantamento recente mostra que pelo menos 36% do minério exportado pelo Brasil sai do Pará. Entretanto, comunidades quilombolas, ribeirinhas e agricultores familiares continuam reivindicando acesso à água de qualidade, segurança ambiental, regularização de seus territórios e participação efetiva nas decisões que afetam suas vidas.

Já há algum tempo, como repórter, acompanho essas histórias. Desde 2009, pelo menos, quando visitei a comunidade de Burajuba a primeira vez até esses dias atuais, quando estou envolvido em uma edição especial para uma Organização Não Governamental sobre a situação dessas comunidades e sua luta pelo território.

Essa é talvez a maior contradição da relação entre Noruega e Amazônia. O país europeu tornou-se uma referência internacional na agenda climática, financiando projetos de conservação florestal e defendendo metas globais de redução de emissões. Porém, uma parte importante da riqueza administrada por seu Estado também depende da extração intensiva de recursos naturais em regiões ambientalmente sensíveis como a Amazônia.

Não se trata de demonizar a Noruega nem de ignorar os benefícios econômicos gerados pela atividade mineral. A mineração produz empregos, arrecada impostos, movimenta cadeias produtivas e possui papel estratégico para a transição energética mundial. Mas justamente por isso precisa ser permanentemente confrontada com perguntas que continuam sem resposta satisfatória. Quem suporta os custos ambientais dessa riqueza? Quem assume os riscos? Quem decide o destino dos territórios?

Por isso, talvez a maior derrota para a Noruega não tenha acontecido com os gols decisivos de Haaland. Ela vem sendo disputada há décadas, longe dos estádios, às margens dos rios de Barcarena. É uma partida cujo placar não se mede por quantidade de bolas na rede, mas pela qualidade da água, pela preservação das florestas, e sobrevivência dos territórios tradicionais, além da capacidade de transformar o desenvolvimento econômico em justiça ambiental.

No futebol, sempre haverá outra Copa, outras emoções, uma nova chance. Para a Amazônia, porém, algumas derrotas podem deixar marcas que atravessam gerações.

*Ismael Machado é jornalista


Fonte:  Medium

Girinos da Amazônia já carregam microplásticos, revela estudo

Perereca-de-banheiro. Imagem: Taucce et al., 2022, via Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

Por David Brown para “Mongabay Brasil” 

Pela primeira vez, pesquisadores encontraram microplásticos em girinos e nos corpos d’água que lhes servem de habitat na Amazônia, segundo um novo estudo. A descoberta reforça evidências de contaminação por microplásticos na floresta amazônica, afirmam os pesquisadores.

Estudos anteriores realizados na região já haviam detectado contaminação por microplásticos em peixes, invertebrados, amostras de solo e de água.

No estudo mais recente, a ecologista Fabrielle Barbosa de Araújo, da Universidade Federal do Pará, e seus colegas coletaram amostras de água de cinco poças temporárias no solo do Parque Ecológico do Gunma, na Região Metropolitana de Belém. Essas poças, formadas pelo acúmulo de água da chuva, são importantes áreas de reprodução e desenvolvimento de girinos de várias espécies de anfíbios na Amazônia.

Em cada um dos cinco corpos d’água, os pesquisadores também coletaram cem girinos da perereca-de-banheiro (Scinax x-signatus), espécie encontrada tanto em áreas florestais quanto urbanas com ampla distribuição na América do Sul.

Microplásticos foram encontrados em todas as poças e em todos os girinos analisados. A maioria das partículas era composta por fibras plásticas, como poliéster, principalmente transparentes, azuis e pretas. Estudos anteriores também identificaram fibras semelhantes em diferentes partes da Amazônia, possivelmente oriundas de esgoto sanitário e atividades pesqueiras.

Em entrevista por e-mail à Mongabay, Araújo disse que não ficou surpresa ao encontrar microplásticos nos girinos e em seus habitats. “O que realmente chamou nossa atenção foi a grande quantidade encontrada, principalmente porque esta é uma área com baixa densidade populacional humana e considerada relativamente bem preservada”, afirmou.

Araújo disse estar especialmente preocupada com a presença de microplásticos nos girinos porque “a contaminação pode afetar negativamente a saúde dos anfíbios, causando danos genéticos e morfológicos, como alterações nas células sanguíneas e no próprio DNA”. Segundo ela, as partículas também podem se acumular nos tecidos e provocar alterações fisiológicas nos anfíbios.

Os autores observam que os girinos da perereca-de-banheiro se alimentam de algas, fungos e ovos presentes na água, o que pode ajudar a explicar a ingestão dos microplásticos.

“As pesquisas sobre a presença de microplásticos na Amazônia se intensificaram nos últimos anos, e o nosso objetivo é continuar monitorando essa contaminação, principalmente em girinos de anuros, a fim de entender melhor como esse poluente está afetando a biodiversidade da nossa região”, disse Araújo.

“Este estudo apresenta as primeiras evidências de que microplásticos estão alcançando girinos na Amazônia, uma região sobre a qual temos muito poucos dados”, disse à Mongabay Jess Hua, pesquisadora de ecologia de água doce e de anfíbios que não participou do estudo.

“Isso é importante porque os anfíbios representam o grupo de vertebrados mais ameaçado e, para sua conservação, é fundamental entender as ameaças potenciais, incluindo os microplásticos.”

Hua acrescentou que a contaminação por microplásticos em ecossistemas de água doce ainda é muito menos estudada do que em ambientes marinhos.

Por mais informação informação sobre o problema da contaminação de microplásticos na Amazônia, clicar [ Aqui!].


Fonte: Mongabay Brasil

Reino Unido endurece regras contra o desmatamento ilegal: um sinal de alerta para o modelo agroexportador brasileiro

O anúncio do governo  do Reino Unido de que irá fortalecer a legislação para impedir a entrada de produtos associados ao desmatamento ilegal representa mais um passo na consolidação de um novo padrão de governança ambiental no comércio internacional. A proposta prevê que empresas que comercializam commodities como soja, óleo de palma, cacau, borracha e, potencialmente, café comprovem que suas cadeias de suprimento não estão vinculadas à supressão ilegal de florestas. O governo britânico também pretende reforçar os mecanismos de diligência das empresas e ampliar a rastreabilidade dos produtos importados.

Embora a medida tenha como foco imediato o combate ao desmatamento ilegal, suas implicações vão muito além do mercado britânico. Ela reforça uma tendência já iniciada pela União Europeia de exigir cadeias produtivas livres de desmatamento, deslocando o debate ambiental para o centro das relações comerciais internacionais. Em outras palavras, preservar florestas deixa de ser apenas uma questão ambiental para se tornar uma exigência crescente de acesso aos principais mercados consumidores.

Para o Brasil, esse movimento do Reino Unido deveria soar como um alerta estratégico. Afinal, a expansão recente da produção de commodities agrícolas continua exercendo enorme pressão sobre dois dos principais biomas do país: a Amazônia e o Cerrado. A abertura de novas áreas para o cultivo de soja, milho, algodão e, em determinadas regiões, também de cana-de-açúcar, permanece como um dos principais vetores da conversão de vegetação nativa em áreas cultivadas com commodities agrícolas de xportação. Ainda que parte dessa expansão ocorra em áreas anteriormente ocupadas por pastagens, numerosos estudos demonstram que esse processo frequentemente desencadeia um efeito indireto de deslocamento da pecuária para novas fronteiras agrícolas, alimentando novos ciclos de desmatamento, como foi o caso da soja em Rondônia.

Outro aspecto que merece atenção diz respeito ao café. Embora tradicionalmente associado a regiões consolidadas do Sudeste, a cafeicultura poderá enfrentar exigências muito mais rigorosas de rastreabilidade, sobretudo porque o próprio governo britânico já cita o café entre os produtos sujeitos às novas regras. Isso significa que produtores e exportadores brasileiros poderão ter de demonstrar, com documentação robusta e sistemas georreferenciados, que suas lavouras não resultaram da conversão recente de áreas florestais.

Entretanto, talvez o efeito menos discutido dessas novas exigências recaia justamente sobre a agricultura familiar. A implantação de sistemas de rastreabilidade, certificação e comprovação documental envolve custos financeiros, assistência técnica e acesso a tecnologias que grandes grupos do agronegócio tendem a absorver com relativa facilidade. Pequenos produtores, por outro lado, podem encontrar dificuldades muito maiores para atender a esses requisitos.

Um paradoxo me parece evidente evidente. Uma política concebida para proteger as florestas poderá, caso não seja acompanhada de políticas públicas específicas por parte do Brasil, aumentar a concentração econômica das cadeias produtivas, favorecendo empresas altamente capitalizadas e dificultando o acesso de agricultores familiares aos mercados internacionais.

Essa possibilidade exige uma resposta que vá além do discurso oficial de defesa do agronegócio.  Parece mais do que evidente que será necessário ampliar significativamente a assistência técnica pública, fortalecer sistemas nacionais de rastreabilidade, investir em regularização fundiária e ambiental e criar mecanismos que permitam aos pequenos produtores cumprir as novas exigências sem serem excluídos do mercado.

Mais importante ainda, o Brasil precisa compreender que a crescente preocupação internacional com o desmatamento não constitui uma tendência passageira nem uma simples barreira comercial disfarçada.  Esta é uma transformação estrutural na forma como os mercados globais avaliam risco ambiental, climático e reputacional.

Persistir na expansão desordenada da fronteira agrícola sobre a Amazônia e o Cerrado pode gerar ganhos de curto prazo para os latifundiários, mas tende a ampliar custos econômicos, comerciais e diplomáticos no médio e longo prazo.  Desta forma, o verdadeiro desafio consiste em aumentar a produtividade agrícola sem converter novos ecossistemas naturais — um objetivo que depende muito mais de inovação tecnológica, recuperação de áreas degradadas e planejamento territorial do que da contínua incorporação de novas terras. E de mecanismos de distribuição de crédito que não sejam formas veladas de impulsionamento do desmatamento na Amazônia e no Cerrado.

É importante frisar que este movimento do Reino Unido apenas reforça uma tendência que já se consolidava na União Europeia: daqui em diante, preservar florestas não será apenas uma responsabilidade ambiental, mas uma condição cada vez mais indispensável para permanecer competitivo nos mercados internacionais. O problema é que, se o Brasil insistir em apostar na expansão horizontal da produção agrícola, os custos dessa escolha poderão recair não apenas sobre as florestas brasileiras, mas também sobre milhares de pequenos produtores que dificilmente conseguirão atender, sem apoio estatal, às novas exigências impostas pelo comércio global.

Da Amazônia para os jardins da Europa: como a madeira ilegal brasileira continua atravessando oceanos sob o selo da “sustentabilidade”

Investigação da Earthsight revela que madeira oriunda de uma empresa multada, condenada criminalmente e alvo de sucessivas suspensões chegou ao mercado holandês com o respaldo de sistemas de certificação que deveriam impedir justamente esse tipo de fraude

No último Dia Mundial das Florestas Tropicais, a organização investigativa Earthsight publicou uma reportagem que deveria causar constrangimento tanto em Brasília quanto em Bruxelas. O trabalho mostra como milhares de metros cúbicos de madeira extraída na Amazônia brasileira chegaram ao mercado holandês apesar de um histórico de infrações ambientais, multas milionárias, condenações criminais e suspensões administrativas envolvendo a empresa fornecedora. Mais uma vez, a realidade expõe a enorme distância entre os discursos corporativos sobre sustentabilidade e o funcionamento concreto das cadeias globais de commodities.

O foco da investigação é a empresa Samise Indústria, Comércio e Exportação Ltda., uma das maiores exploradoras de madeira da Amazônia brasileira. Segundo a Earthsight, análises de imagens de satélite, documentos oficiais, processos judiciais e registros de transporte revelaram uma longa lista de irregularidades associadas às operações da empresa na Floresta Nacional Saracá-Taquera, no Pará. Entre elas aparecem acusações de fraude, manipulação de identificação de toras, descumprimento de embargos e transporte de madeira durante períodos em que suas atividades estavam oficialmente suspensas pelos órgãos de fiscalização.

O aspecto mais revelador da investigação não é apenas a existência das irregularidades. Afinal, quem acompanha a história recente da Amazônia sabe que a extração ilegal de madeira continua sendo uma das principais portas de entrada para processos mais amplos de degradação ambiental, grilagem de terras públicas e desmatamento. O mais perturbador é que essa madeira conseguiu percorrer toda a cadeia de comercialização internacional e chegar a consumidores europeus ostentando certificados ambientais que, em tese, deveriam funcionar como garantias de legalidade.

Segundo a Earthsight, empresas holandesas adquiriram grandes volumes de angelim-vermelho provenientes da cadeia de fornecimento da Samise. Essa madeira acabou sendo utilizada em decks, passarelas e outras estruturas urbanas na Holanda. Em alguns casos, os compradores declaravam comercializar apenas produtos certificados, reforçando a crença de que a certificação seria suficiente para afastar riscos de ilegalidade. A investigação mostra exatamente o contrário. Mesmo após sucessivas suspensões do certificado FSC da empresa amazônica, a madeira continuou circulando normalmente pelos canais comerciais internacionais.

Esse ponto merece atenção especial porque desmonta uma narrativa que vem sendo repetida há décadas. A certificação florestal foi apresentada como uma solução de mercado capaz de resolver problemas ambientais complexos sem necessidade de ampliar significativamente a capacidade de fiscalização do Estado. A lógica era simples: consumidores conscientes comprariam produtos certificados, empresas seriam recompensadas por boas práticas e o mercado eliminaria gradualmente os infratores. O problema é que essa lógica depende de sistemas de auditoria extremamente rigorosos, independentes e transparentes. Quando esses sistemas falham, a certificação deixa de ser um instrumento de proteção ambiental e passa a funcionar como uma ferramenta de legitimação.

A investigação da Earthsight sugere justamente isso. O FSC, considerado o principal selo de certificação florestal do mundo, manteve válida a certificação da Samise durante grande parte do período em que as acusações e sanções administrativas se acumulavam. O certificado só foi definitivamente cancelado em março de 2026, exatamente quando a Earthsight compartilhava suas conclusões com as entidades responsáveis. A coincidência é, no mínimo, desconfortável.

Mas há uma dimensão ainda mais ampla nessa história. O caso evidencia as limitações da própria governança ambiental internacional. Durante anos, a União Europeia apresentou sua legislação sobre madeira como um modelo global de combate à importação de produtos associados à ilegalidade. Entretanto, a investigação demonstra que a excessiva dependência de certificações privadas abriu brechas significativas para a entrada de madeira de origem duvidosa no mercado europeu. A própria Earthsight argumenta que a nova legislação europeia contra o desmatamento (EUDR) só terá alguma efetividade se as autoridades abandonarem a confiança quase automática nos selos ambientais e realizarem verificações independentes e aprofundadas.

Para nós, brasileiros, o caso oferece uma reflexão adicional. Em um momento em que o governo federal discute a ampliação das concessões florestais na Amazônia, a investigação mostra que a mera existência de planos de manejo e certificações não elimina riscos de fraude, captura institucional e exploração predatória. Pelo contrário. Quando interesses econômicos poderosos se combinam com capacidades limitadas de fiscalização, até mesmo mecanismos concebidos para proteger a floresta podem ser convertidos em instrumentos de sua degradação.

Existe ainda uma ironia difícil de ignorar. Muitos dos países que cobram do Brasil maior responsabilidade ambiental continuam consumindo madeira, minérios, carne e outras commodities oriundas de regiões marcadas por conflitos fundiários, desmatamento e fragilidade institucional. O problema não está apenas na produção. Está também na demanda. Enquanto houver consumidores dispostos a aceitar certificados como substitutos da verificação efetiva da origem dos produtos, o mercado continuará premiando cadeias produtivas que operam nas zonas cinzentas da legalidade.

No final das contas, a investigação da Earthsight reforça uma velha lição da Amazônia: a floresta não é destruída apenas por motosserras. Ela também é destruída por formulários preenchidos de forma conveniente, auditorias complacentes, certificações frágeis e cadeias globais de comércio que transformam a ilegalidade em mercadoria aparentemente legítima. A madeira que hoje compõe elegantes decks e passarelas na Holanda carrega consigo não apenas fibras vegetais amazônicas, mas também as marcas profundas de um sistema internacional que continua encontrando maneiras de lucrar com a destruição da maior floresta tropical do planeta.

Guerra na Amazônia

O candidato presidencial Luiz Inácio Lula da Silva se reúne com pesquisadores, cientistas e lideranças indígenas no Museu da Amazônia (MUSA), em Manaus. Imagem: Alberto César Araújo/Amazônia Real/Creative Commons 2.0. 

Por Angela Mendes e  Pricila Cardoso de Aquino para “The Ecologist”

A Amazônia responde por mais da metade de todos os conflitos rurais no Brasil atualmente. Regiões como o Amacró – que engloba partes do Acre, Amazonas e Rondônia – estão emergindo como novos focos de violência, onde a expansão econômica avança lado a lado com a grilagem de terras, o desmatamento e os assassinatos.

LEITURA ADICIONAL: UM ACERTO DE CONTAS NA AMAZÔNIA

No debate público internacional, a guerra e o meio ambiente ainda são tratados, em grande parte, como questões separadas. De um lado, estão os conflitos armados, as crises humanitárias e as disputas geopolíticas. Do outro, o desmatamento, as mudanças climáticas e as ameaças contra os defensores do meio ambiente. 

Essa separação, contudo, já não reflete a realidade. Na Amazônia, essas dimensões se sobrepõem. A destruição ambiental não é mera consequência — faz parte de um processo ativo de disputa territorial, controle econômico e exercício do poder. 

Histórico

Embora alguns territórios não estejam oficialmente em guerra, seus habitantes vivem em condições mais comumente associadas à guerra. A Amazônia é um dos exemplos mais claros desse fenômeno. 

Na região, a violência raramente é isolada: ela é estrutural. A grilagem de terras, o desmatamento, a mineração ilegal, a extração de ouro em larga escala, o tráfico de drogas, a exploração madeireira ilegal e a lavagem de dinheiro não operam em compartimentos separados. 

Pelo contrário, funcionam de forma coordenada, como engrenagens dentro do mesmo sistema que transforma a floresta em um ativo econômico e o território em uma arena de disputa. Nesse contexto, a floresta deixa de ser meramente um patrimônio ambiental e se torna um sítio estratégico.

Controlar a terra significa controlar os recursos naturais, as rotas logísticas, as cadeias produtivas e o poder político local. Os rios tornam-se corredores para o crime. As áreas desmatadas são convertidas em ocupações irregulares. Os territórios fragilizados pela ausência do Estado transformam-se em zonas de vulnerabilidade institucional.

Os dados mais recentes da Comissão Pastoral da Terra (CPT) do Brasil ajudam a ilustrar a dimensão desse cenário. 

Em seu relatório anual mais recente, a organização registrou mais de 2.000 conflitos rurais no Brasil — o segundo maior número em sua série histórica — com aumentos significativos em práticas como queimadas criminosas (aumento de 113%) e desmatamento ilegal (aumento de 39%). 

Conflitos

A Amazônia concentra a maioria desses casos (1.180 de um total de 2.185 conflitos), consolidando sua posição como o centro da violência relacionada à terra no país.

Esse cenário não é abstrato. Ele se materializa em pessoas, territórios e histórias. Foi na Amazônia que Chico Mendes foi assassinado por defender a floresta e os povos que nela vivem. Sua morte não foi um episódio isolado — fez parte de um processo que continua em curso.

Foi essa guerra que matou Chico Mendes. E é essa mesma guerra que continua matando hoje. 

Décadas depois, líderes continuam sendo ameaçados, criminalizados e assassinados por protegerem seus territórios. Povos indígenas, comunidades quilombolas, populações ribeirinhas, extrativistas e outras comunidades tradicionais frequentemente estão na linha de frente da proteção. 

Esses grupos conscientizam a população sobre invasões, monitoram o desmatamento, preservam modos de vida sustentáveis ​​e mantêm barreiras reais contra a expansão predatória. Por esse motivo, tornam-se alvos de ameaças, intimidação, criminalização e violência letal.

O aumento da violência na região do Amacró ilustra dramaticamente a continuidade desse conflito. A região representa uma das novas fronteiras da expansão econômica na Amazônia, onde o avanço do agronegócio e da ocupação irregular é acompanhado por conflitos fundiários, violência e assassinatos. Somente em 2023, foram registrados oito homicídios ligados a essas disputas. 

Multiplicador

Esses não são casos excepcionais — são indícios de um padrão que acompanha o avanço desordenado pela floresta.

O Acre, estado onde Chico Mendes viveu e morreu, voltou a ganhar destaque, figurando entre os dez estados brasileiros com o maior número de conflitos fundiários. Em 2024, foram registrados 59 conflitos relacionados à terra, envolvendo despejos, destruição de casas, ameaças e ataques contra comunidades. A violência não desapareceu. Ela se reorganizou.

Quando um líder comunitário é assassinado, a reação pública muitas vezes trata o caso como um incidente isolado. Não é. Em muitos contextos, esses assassinatos representam a eliminação de um “obstáculo” à expansão econômica ilegal ou abusiva. O assassinato de defensores do meio ambiente também deve ser compreendido como um mecanismo de controle territorial.

A crise climática intensifica esse processo. A escassez de água, a pressão sobre a terra, a competição por minerais estratégicos, a expansão das fronteiras agrícolas e o crescente valor dos recursos naturais aumentam as disputas locais e regionais. 

O clima deixou de ser apenas um pano de fundo: tornou-se um multiplicador de tensões. Falar de política climática, portanto, é também falar de segurança pública, governança democrática e prevenção de conflitos.

Proteção

Ainda assim, as respostas institucionais permanecem fragmentadas. Crimes ambientais são frequentemente tratados como infrações administrativas ou delitos menores. Violações de direitos humanos seguem vias institucionais distintas. Corrupção, lavagem de dinheiro e crime organizado são tratados em instâncias isoladas. O resultado é previsível: esses problemas, inerentemente interligados, enfrentam respostas compartimentadas.

Existe também uma grave lacuna de responsabilização. Em muitos casos, a lei atinge o operador local: o invasor, o intermediário, o perpetrador direto. Mas raramente atinge os financiadores, os beneficiários econômicos, as cadeias de suprimentos globais e as estruturas corporativas que lucram com a destruição. Os responsabilizados são a periferia visível do problema; o núcleo econômico permanece protegido.

Esse fracasso não é apenas brasileiro. É global. Os mercados internacionais consomem commodities ligadas ao desmatamento. Investidores financiam atividades com alto risco socioambiental. 

As empresas terceirizam os impactos ao longo de toda a cadeia de suprimentos. As instituições financeiras operam longe dos territórios onde os danos se materializam. Enquanto isso, as comunidades locais arcam com os custos humanos, culturais, sociais e ecológicos.

Por essa razão, o direito internacional e os sistemas jurídicos nacionais devem avançar em três caminhos.

A primeira é reconhecer os defensores do meio ambiente como agentes centrais da proteção climática e da democracia territorial. Isso exige mecanismos de proteção reais e uma investigação rápida das ameaças, visto que o Estado prioriza a prevenção da violência. Homenagens póstumas e declarações de condenação não bastam.

Biodiversidade

A segunda medida é o fortalecimento da capacidade forense e da cooperação internacional. O monitoramento por satélite, a rastreabilidade da cadeia de suprimentos, a perícia financeira, a inteligência territorial e a cooperação transnacional são agora ferramentas indispensáveis. Sem provas robustas, a impunidade continuará sendo o combustível mais barato para a destruição.

A terceira é a ampliação da responsabilidade econômica. Isso inclui obrigações de diligência prévia corporativa, transparência na cadeia de suprimentos, controle dos fluxos financeiros e sanções eficazes contra aqueles que se beneficiam de violações socioambientais. 

O crescente debate internacional em torno do ecocídio — embora ainda em desenvolvimento — reflete uma compreensão cada vez maior de que danos ambientais massivos não podem permanecer sem uma resposta proporcional.

No caso do Brasil, a Amazônia deve ocupar um lugar central em qualquer estratégia séria de desenvolvimento, segurança e posicionamento internacional. Não apenas por sua biodiversidade, mas porque concentra alguns dos desafios mais complexos do século XXI: clima, soberania, crime organizado, desigualdade, direitos territoriais e socioambientais e governança institucional.

Destruição

Persistir na ideia de que isso é meramente uma “agenda ambiental” é um erro estratégico. A Amazônia também representa uma agenda econômica, uma agenda democrática e uma agenda de segurança.

O Brasil possui capacidade técnica, instituições e sociedade civil capazes de liderar respostas inovadoras. O que muitas vezes falta é a disposição para abandonar o pensamento setorial e reconhecer a dimensão sistêmica do problema.

A guerra que o mundo imagina é aquela que aparece nas manchetes acompanhada de tanques, fronteiras militarizadas e declarações formais. A guerra que se desenrola em partes da Amazônia é silenciosa, difusa e persistente. Ela se manifesta por meio de motosserras, dragas, pistas de pouso clandestinas, ameaças não relatadas e corpos caídos longe das câmeras.

Foi essa guerra que matou Chico Mendes. E é essa mesma guerra que continua matando hoje. Pode não ter o mesmo nome. Mas ela produz medo, invasão, morte e destruição territorial. E ignorá-la é uma escolha política muito custosa para o Brasil e para o mundo.

Autoras

Angela Mendes é ativista socioambiental e especialista em gestão ambiental. Atualmente, preside o Comitê Chico Mendes, um movimento criado para preservar e disseminar a memória e os ideais do seringueiro Chico Mendes, assassinado em 1988 enquanto lutava pela conservação da Amazônia e das florestas tropicais do mundo. O Comitê Chico Mendes também integra a Conexão Cipó, uma rede formada por dez organizações da sociedade civil do Acre que atuam na defesa dos direitos socioambientais.

Pricila Cardoso de Aquino é doutoranda em direito socioambiental pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e mestre em meio ambiente e desenvolvimento pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Ela é coordenadora de clima e América Latina no Centro de Defesa do Direito Ambiental (EDLC), que integra a Conexão Cipó, rede formada por dez organizações da sociedade civil do Acre que atuam na defesa dos direitos socioambientais.


Fonte: The Ecologist

Isolamento e desigualdade travam transição energética na Amazônia

Na Amazônia, a energia limpa das hidrelétricas contrasta com comunidades ainda dependentes do diesel. 

Um novo estudo brasileiro, publicado na urbe. Revista Brasileira de Gestão Urbana, revela que a transição energética na Amazônia Legal enfrenta realidades muito distintas, que variam da extrema dependência de fontes fósseis a matrizes altamente diversificadas. A pesquisa foi conduzida por pesquisadores da Universidade do Estado do Pará (UEPA).

A região, que concentra uma imensa riqueza de recursos naturais e abriga mais de 30 milhões de pessoas, vive um cenário de contrastes diários na forma como consome energia. Enquanto grandes usinas hidrelétricas instaladas ali exportam eletricidade renovável para o restante do país, milhares de famílias em comunidades isoladas amazônicas ainda dependem da queima rotineira de óleo diesel para iluminar suas casas. Essa limitação estrutural encarece o custo de vida e eleva as emissões de carbono em um bioma vital para o clima global.

Para entender essa assimetria, a equipe analisou indicadores ao longo de duas décadas, unindo dados ambientais, sociais e econômicos. A abundância de rios, ventos e sol não se mostrou suficiente para resolver o problema automaticamente. O grande gargalo regional é a falta de tecnologia acessível, a ausência de infraestrutura de distribuição e a gestão desigual dos recursos gerados.

“Muita gente pensa que a Amazônia é tudo igual, mas cada estado é diferente. Por mais que existam grandes hidrelétricas, como no estado do Pará, a maioria dessa oferta de energia não vai para a Amazônia Legal, mas, sim, para os outros estados. Além disso, as tecnologias de energia renovável ainda são caras para serem custeadas, principalmente pela nossa população”, explica Lucas Nunes, autor principal do estudo.

O mapeamento também expôs o impacto direto do rápido crescimento urbano sobre o meio ambiente amazônico. Municípios que atraem mais habitantes demandam mais transporte, bens e serviços. Sem um planejamento ágil, essa pressão esgota recursos naturais, eleva o consumo energético e multiplica rapidamente a poluição atmosférica regional.

“Quanto mais pessoas crescem em um estado ou num município, mais recursos são necessários para sustentá-las. O problema não é a urbanização em si, mas a urbanização em excesso. É preciso obter tecnologia para ter uma matriz mais diversa, incluindo a eólica, a solar e a biomassa, para minimizar esses impactos”, destaca o pesquisador.

Muitas famílias ficam reféns das opções mais poluentes simplesmente porque o acesso a alternativas seguras depende de redes logísticas complexas. Regiões remotas da bacia amazônica sofrem ainda mais com essa dependência porque não estão conectadas à rede nacional de distribuição de energia elétrica, o que requer soluções de transporte custosas para garantir o básico diário.

“A região amazônica tem uma composição florestal bem densa, e isso dificulta o acesso à energia. Para suprir essa limitação, é preciso investir na geração de energia descentralizada ou distribuída, que está mais próxima de nós e não precisa de grandes áreas, sendo atrelada ao convívio daquela comunidade”, ressalta Nunes.

Para mudar esse quadro, os governos estaduais e o Governo Federal precisam integrar as dimensões econômica, social e ambiental em seus atos normativos. Ferramentas recentes de monitoramento de dados, como o Atlas Brasileiro da Transição Energética, lançado de forma inédita pelo Ministério de Minas e Energia (MME) no primeiro semestre de 2025, auxiliam na coordenação das políticas e no mapeamento de vocações locais. O futuro socioeconômico da Amazônia depende de estratégias descentralizadas que transformem resíduos, luz solar e ventos locais em energia acessível para quem realmente vive no território.


Fonte: Agência Bori

Amazônia e bolsonarismo: um encontro marcado pela contradição

Por IsmaeL machado*

Toda visita de um representante da família Bolsonaro à Amazônia produz uma cena política peculiar. Seus discursos costumam evocar desenvolvimento, soberania nacional e liberdade econômica. Arrastam seguidores vestidos com as cores da seleção brasileira de futebol, a quem inclusive Flavio Bolsonaro teve o desplante de chamar de ‘camisa de meu pai’. À primeira vista, trata-se de conceitos legítimos e desejáveis. Mas basta observar com atenção a história da região para perceber que, muitas vezes, essas palavras carregam significados profundamente distintos daqueles defendidos por quem vive, pesquisa e luta pela Amazônia. É como se fossem o chamado ‘ouro de tolo’. A presença de Flávio Bolsonaro no Pará inevitavelmente reacende um debate que ultrapassa a disputa eleitoral. Trata-se de uma discussão sobre projetos de país e, sobretudo, sobre visões radicalmente distintas a respeito da Amazônia.

A contradição não está apenas em medidas específicas ou em governos determinados. Ela é mais profunda. Trata-se do choque entre duas formas de imaginar a própria existência da Amazônia. E como a família Bolsonaro atende mais a uma chamada necropolítica que a uma política de vida, com o zero alguma coisa, a Amazônia corre mais riscos que nunca. Não que esteja atualmente em boas condições de um olhar maduro sobre si, já que há um desenvolvimentismo latente em Lula que não condiz com o que, pelo menos eu, gostaria que fosse o futuro dessa região.

Historicamente, a região foi tratada pelo Estado brasileiro como uma fronteira a ser conquistada. Nunca como uma sociedade complexa. Desde o ciclo da borracha, passando pelos grandes projetos de integração nacional da ditadura militar, a floresta foi frequentemente percebida como um vazio demográfico e econômico à espera de ocupação. A famosa expressão “integrar para não entregar” sintetizou essa visão.

foto ismael machado

O problema é que a Amazônia nunca foi um vazio. Antes da chegada dos colonizadores, milhões de pessoas habitavam a região. Povos indígenas desenvolveram sistemas sofisticados de manejo ambiental, construíram redes comerciais, produziram conhecimento sobre biodiversidade e transformaram a floresta sem destruí-la. Mesmo após séculos de violência colonial, essas populações continuam presentes e continuam reivindicando seu direito de existir.

O bolsonarismo, entretanto, herda em grande medida uma tradição política que vê esses grupos como obstáculos ao desenvolvimento. Quando lideranças indígenas são acusadas de impedir o progresso ou quando a demarcação de terras é apresentada como um entrave econômico, o que está sendo questionado? No fundo, o próprio direito dessas populações de definir seus modos de vida.

Por trás dessa disputa existe uma questão filosófica fundamental sobre quem tem o direito de decidir o futuro da Amazônia. A visão bolsonarista costuma responder que esse futuro deve ser definido prioritariamente pelo mercado, pela propriedade privada e pelos grandes investimentos econômicos, mas entregando tudo de mão beijada, tirando da frente qualquer sistema regulatório e fiscalizatório. A floresta aparece como recurso. A terra aparece como ativo econômico. Os rios aparecem como potencial energético. A biodiversidade aparece como matéria-prima. Que sejam disponibilizadas a quem tem dinheiro. Outro dia, o Ministério Público interveio para impedir o leilão de uma área de praia em Santarém, que seria privatizada.

Mas existe outra perspectiva, cada vez mais defendida por pesquisadores, movimentos sociais e comunidades tradicionais. Nela, a Amazônia não é apenas um estoque de recursos. É uma rede complexa de relações entre seres humanos, territórios, culturas e ecossistemas. Essa diferença parece abstrata, mas produz consequências concretas. Claro, precisamos achar soluções econômicas para a região, mas não de forma predatória como frequentemente se vê.

Quando a floresta é vista simplesmente como recurso econômico, a destruição pode ser justificada em nome do crescimento. O desmatamento torna-se um efeito colateral aceitável para o desenvolvimento. Os conflitos fundiários passam a ser tratados como inevitáveis. A expulsão de comunidades tradicionais é apresentada como custo do progresso. É essa a promessa dos bolsonaros a monocultores latifundiários, ao garimpo ilegal, aos acusados de trabalho escravo. Vimos isso entre 2019 e 2022.

As políticas defendidas pelo bolsonarismo foram frequentemente criticadas por enfraquecer mecanismos de fiscalização ambiental, questionar demarcações de terras indígenas e estimular uma narrativa segundo a qual a proteção ambiental seria um obstáculo ao desenvolvimento. Essa visão ignora um dado fundamental. A destruição da floresta não representa desenvolvimento sustentável para a Amazônia. Ao contrário, tende a aprofundar conflitos fundiários, ampliar a concentração de renda e acelerar processos de degradação ambiental que atingem diretamente as populações locais.

Quando a floresta é compreendida como condição de existência, porém, a lógica muda completamente. Preservar deixa de ser obstáculo ao desenvolvimento e passa a ser requisito para qualquer projeto econômico duradouro. A própria crise climática mundial tornou essa questão incontornável. Há alguns anos as pautas discursivas sobre a Amazônia passaram a incluir a justiça climática, que basicamente significa compreender que a crise climática não afeta todas as pessoas da mesma forma. Embora o aquecimento global seja um fenômeno planetário, seus impactos recaem de maneira desproporcional sobre populações que historicamente contribuíram muito pouco para a destruição ambiental. Essa é uma das grandes contradições amazônicas.

Os povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, extrativistas e agricultores familiares da região estão entre aqueles que menos emitem gases de efeito estufa. Seus modos de vida, em muitos casos, são baseados justamente na conservação da floresta, no manejo sustentável dos recursos naturais e em formas de ocupação de baixo impacto ambiental. No entanto, são essas populações que frequentemente enfrentam primeiro os efeitos das mudanças climáticas, como as secas extremas, alterações no ciclo dos rios, perda de biodiversidade, insegurança alimentar, aumento das queimadas e eventos climáticos cada vez mais imprevisíveis.

Hoje sabemos que a Amazônia desempenha papel decisivo na regulação climática do continente sul-americano. Seus rios voadores influenciam o regime de chuvas que sustenta a agricultura em diversas regiões do Brasil. Sua biodiversidade abriga conhecimentos ainda desconhecidos pela ciência. Sua destruição afeta o país inteiro.

O que a ideologia bolsonarista defende? Políticas que flexibilizam controles ambientais ou enfraquecem órgãos de fiscalização. Isso significa apostar num modelo de desenvolvimento cada vez mais questionado pela própria realidade ecológica do século XXI.

Lembremos que a Amazônia é um território marcado por massacres, expulsões e disputas violentas pela terra. O Pará conhece essa história melhor do que quase qualquer outro estado brasileiro. Nomes como a Guerrilha do Araguaia, a violência contra povos indígenas, os conflitos agrários do sul e sudeste do estado e o Massacre de Eldorado dos Carajás, para ficar nesses exemplos simples, revelam um padrão histórico de concentração fundiária e exclusão social.

Por isso, quando determinados discursos exaltam apenas a expansão econômica e silenciam sobre direitos humanos, reforma agrária, proteção territorial ou justiça ambiental, acabam reproduzindo uma lógica antiga. A ideia de que a Amazônia existe para servir a interesses externos, e não para garantir dignidade às populações que nela vivem. Talvez seja justamente nesse ponto que a incompatibilidade entre a Amazônia e o bolsonarismo se torne mais evidente.

A Amazônia contemporânea exige diálogo, diversidade, ciência, proteção ambiental e reconhecimento dos direitos territoriais. O bolsonarismo, por sua vez, consolidou-se politicamente por meio de uma retórica de confronto com quase tudo e todos. Ambientalistas, movimentos sociais, organizações internacionais, universidades e, frequentemente, com os próprios povos indígenas. São concepções distintas de democracia, de natureza e de futuro.

No fundo, a pergunta é simples. Devemos discutir se a Amazônia deve ser tratada como uma fronteira econômica a ser conquistada ou como uma civilização socioambiental a ser preservada e fortalecida? A resposta a essa pergunta define o destino do Brasil. Porque a Amazônia não é um problema a ser resolvido. É uma possibilidade histórica a ser compreendida. E qualquer projeto político que não consiga enxergar essa complexidade corre o risco de repetir os erros que, há décadas, transformam riqueza natural em desigualdade social. O jovem Flávio Bolsonaro representa o que de mais velho e antigo (não no sentido de sabedoria e experiência, mas de ultrapassado e arcaico) pode advir para a Amazônia. Que impeçamos seu avanço sobre nós.

*Ismael Machado é jornalista


Fonte: Medium

Grilagem S.A.: como a privatização ilegal de terras públicas alimenta a destruição da Amazônia

Artigo publicado na revista Environmental Science & Policy mostra que a grilagem funciona como uma engrenagem organizada que conecta especulação fundiária, desmatamento, violência e captura do Estado, transformando a floresta em ativo financeiro

O artigo “Forms of land grabbing in the Amazon: From land deals to illegal land appropriation“, assinado por Rayane Pacheco, Natalia Valdivieso Kastner e Amy Penfield e publicado na revista Environmental Science & Policy (Elsevier, 2026), oferece uma das sínteses mais abrangentes já produzidas sobre um dos principais motores da devastação amazônica: a apropriação privada de terras públicas,  popularmente conhecida  como grilagem.

Mais do que uma revisão bibliográfica, o trabalho demonstra que a disputa pela terra na Amazônia não pode ser reduzida à simples expansão da fronteira agrícola ou a conflitos fundiários isolados. Trata-se de um sistema complexo de acumulação de riqueza baseado na privatização ilegal de bens públicos, na expulsão de populações tradicionais e na transformação da floresta em ativo financeiro.

Um dos maiores méritos do artigo é mostrar que o conceito de land grabbing (“apropriação de terras”) precisa ser ampliado para abarcar diferentes modalidades de controle territorial. As autoras identificam duas grandes categorias: os land deals, que envolvem grandes aquisições ou concessões de terras por governos e corporações, e os land seizures ou encroachments, que correspondem à ocupação e apropriação ilegal de terras públicas ou privadas por grupos privados.

Essa distinção é particularmente importante para compreender a realidade brasileira. Enquanto boa parte da literatura internacional associa o land grabbing à compra de grandes extensões por investidores estrangeiros, na Amazônia o fenômeno assume predominantemente a forma da grilagem de terras públicas, realizada por agentes nacionais ligados ao agronegócio, à mineração, à exploração madeireira e à especulação fundiária.

Os dados reunidos pelas autoras são eloquentes. A revisão analisou 219 publicações produzidas entre 1982 e 2026 e constatou que 83% dos estudos concentram-se no Brasil. Entre eles, 44,5% tratam especificamente da apropriação ou ocupação ilegal de terras, sendo a forma mais recorrente a privatização de áreas públicas por atores privados.

O artigo desmonta ainda um dos mitos mais difundidos sobre a ocupação da Amazônia: o de que a destruição da floresta seria resultado da ação espontânea de pequenos agricultores ou posseiros. Pelo contrário, as autoras mostram que a grilagem moderna funciona como uma verdadeira cadeia empresarial.

Existe uma divisão organizada de funções. Há financiadores que aportam capital, gestores responsáveis pela falsificação documental e pela coordenação das operações, pistoleiros encarregados da expulsão violenta de moradores e comunidades tradicionais, “laranjas” utilizados para registrar propriedades fictícias e colaboradores instalados dentro do próprio aparelho estatal, incluindo cartórios, órgãos públicos e agentes políticos.

Essa descrição aproxima-se muito do conceito de máfia da terra, utilizado por diversos pesquisadores brasileiros e estrangeiros e citado pelas autoras. Não se trata de criminalidade difusa, mas de uma estrutura organizada que conecta interesses econômicos, violência privada e fragilidades institucionais.

Outro aspecto extremamente relevante é a descrição da sequência operacional da grilagem.  Primeiro ocorre a ocupação da área pública. Em seguida vem a extração seletiva de madeira de alto valor comercial. Depois realiza-se a derrubada e a queima da floresta, convertendo-a em pastagem. A presença de gado, por sua vez, funciona como demonstração de “uso produtivo” da terra, aumentando seu valor de mercado e fortalecendo futuras reivindicações de regularização fundiária. Finalmente, a área é registrada, subdividida e revendida para grandes empreendimentos agropecuários ou investidores.  Essa sequência revela uma constatação incômoda: o desmatamento não é um efeito colateral da ocupação territorial; ele é parte integrante da estratégia de apropriação da terra.

Nesse sentido, o artigo dialoga diretamente com uma vasta literatura brasileira que identifica a especulação fundiária como um dos principais motores da devastação amazônica. Derrubar a floresta significa produzir uma “benfeitoria” que valoriza economicamente o imóvel e aumenta suas chances de futura regularização.

As autoras também oferecem uma análise particularmente interessante sobre o Cadastro Ambiental Rural (CAR). Criado originalmente como instrumento de monitoramento ambiental, o sistema passou a ser utilizado por grileiros como uma espécie de comprovação informal de posse.

Por ser um cadastro autodeclaratório, o CAR permite que ocupantes ilegais registrem áreas públicas em seu nome, criando uma aparência de legalidade que posteriormente pode servir como argumento para obtenção de títulos definitivos ou acesso a crédito rural. O resultado é um paradoxo institucional: um mecanismo concebido para proteger a floresta acaba sendo apropriado como ferramenta de expansão da grilagem.

O texto também destaca como mudanças legislativas, anistias sucessivas e discursos políticos favoráveis à flexibilização ambiental contribuem para alimentar expectativas de impunidade. Quando invasões passadas são posteriormente regularizadas, cria-se um incentivo permanente para novas ocupações ilegais.

Talvez a principal contribuição do artigo seja demonstrar que a grilagem não pode ser interpretada apenas como um problema fundiário ou ambiental. Ela representa um mecanismo de acumulação de capital baseado na privatização de patrimônio público, articulando especulação imobiliária, expansão do agronegócio, exploração madeireira, mineração, lavagem de dinheiro e violência contra povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos agricultores.

As recomendações apresentadas pelas autoras são claras: destinar imediatamente as florestas públicas ainda não designadas para unidades de conservação ou territórios indígenas; fortalecer os sistemas de regularização fundiária sem premiar ocupações ilegais; integrar cadastros ambientais e registros de propriedade; interromper sucessivas mudanças legais que enfraquecem a proteção territorial; e investigar os esquemas financeiros que sustentam a grilagem e a lavagem de dinheiro.

O trabalho de Pacheco, Kastner e Penfield é particularmente oportuno porque evidencia que a Amazônia continua sendo tratada como uma fronteira aberta para a acumulação privada, onde o patrimônio coletivo é convertido em riqueza particular por meio da violência, da fraude documental e da captura das instituições públicas.

No fim das contas, a grilagem não é apenas uma disputa pela terra. É uma disputa pelo futuro da Amazônia. Enquanto a apropriação privada de terras públicas permanecer sendo um negócio altamente lucrativo e politicamente tolerado, o avanço do desmatamento continuará sendo menos um problema ambiental do que uma consequência previsível de um modelo de desenvolvimento baseado na mercantilização da floresta e na expulsão daqueles que historicamente a preservaram.