A Amazônia degradada já é maior que a desmatada


A área de selva alterada por extração de madeira ou fogo superou a desmatada nas últimas décadas

fogo amazoniaDepois de degradadas, as porções remanescentes de floresta ficam ainda mais expostas a incêndios, como o ocorrido próximo a Novo Progresso, no Pará, em agosto passado.ANDRE PENNER / AP

Por Miguel Ángel Criado para o El País

Há florestas que deixam de sê-lo mesmo sem desaparecer. É o que adverte um grupo de cientistas sobre o estado da região amazônica. Seu amplo desmatamento é bem conhecido, mas igualmente dramática (e mais complexa de medir) é a degradação do que resta. Com dados de mais de duas décadas, os pesquisadores comprovaram que a porção de floresta empobrecida já é maior que a desaparecida.

Com base em dados de satélite reunidos desde 1992, o grupo de pesquisadores mediu o impacto humano sobre a Amazônia. O mais fácil é calcular quanto da vegetação desapareceu para que suas terras fossem destinadas a outra coisa, em sua maioria a pastagem. Segundo o estudo publicado na revista Science, entre 1992 e 2014 desapareceram 308.311 km². A curva do desmatamento foi ascendente ano após ano, até atingir o pico em 2003, quando foram perdidos 29.000 km² ―uma superfície quase equivalente à da Catalunha ou a 75% do Estado do Rio de Janeiro. Seja pela pressão internacional ou pela ação política interna, o ritmo diminuiu até o patamar dos 6.000 km² perdidos anualmente desde 2014.

Mais difícil de calcular ―e de medir as consequências― é a degradação da floresta remanescente. Entre uma vegetação intocada e outra que deu lugar a pastagens, há um amplo leque de paisagens florestais mais ou menos empobrecidos. A degradação pode assumir distintas formas: uma menor densidade de árvores, uma perda de continuidade entre florestas cada vez menores e mais isoladas ou a queima de sub-bosque, entre outras. Uma série de algoritmos considerou as variações de refletância da luz de cada paisagem para determinar o grau de alteração.

“Uma floresta degradada é aquela que foi alterada de forma significativa ou que sofreu o impacto das atividades humanas. Continua contando com um dossel arbóreo, mas com biomassa reduzida”, explica David Skole, pesquisador do Observatório Global de Serviços ao Ecossistema da Universidade Estatal de Michigan (EUA) e coautor do estudo. “Um bom exemplo de degradação florestal é quando a floresta é submetida ao desmatamento seletivo, cortando-se algumas árvores e deixando-se outras.” Nas zonas desmatadas, a degradação se concentra nos limites entre a floresta e a terra nua. “Essas árvores que sobrevivem nas bordas dos terrenos desmatados são afetadas por mudanças no microclima. E há provas de que, no longo prazo, sofrem um colapso em sua biomassa. É o que chamamos de efeito-limite”.

matricardi et col

 

Os autores do estudo estimam que a porção da floresta amazônica degradada já superou os 337.000 km². Ou seja, a superfície empobrecida excede a afetada pelo desmatamento. E se este provoca o desaparecimento da floresta e de todas as funções associadas, o empobrecimento também tem suas consequências: liberação de gases do efeito estufa, alteração do equilíbrio da água e dos nutrientes, queda da biodiversidade e surgimento de doenças infecciosas.

São quatro os agentes degradantes principais: corte mais ou menos seletivo, incêndios, efeito-limite ou fragmentação e isolamento de porções de floresta. Até 2003, auge do desmatamento, estes dois últimos agentes foram os protagonistas. Desde então, porém, o desmatamento e o fogo têm sido mais importantes.

“Nos anos anteriores, o desmatamento e a degradação geralmente ocorriam no mesmo espaço”, afirma Skole. Como se fosse uma condição prévia ou um estado precedente, “o que levou muitos a verem a degradação como um atalho para o desmatamento, não uma interferência diferente a ser considerada, medida e gerenciada. Demonstramos que agora existe degradação, sobretudo por corte ilegal, que é uma perturbação espacialmente diferente”. De fato, mais da metade das áreas degradadas pelas derrubadas, por exemplo, mantiveram-se nesse estado praticamente durante as duas décadas englobadas pelo estudo.

Raúl Sánchez, pesquisador florestal da Universidade Pablo de Olavide (Espanha), diz que “até agora colocávamos no mesmo saco o desmatamento e a degradação, e este trabalho mostra que não é assim.” O que ele não esperava eram as dimensões do problema ―mesmo com o patamar de 2014. “Este ano, o fator principal tem sido o incêndio de baixa intensidade, primeiro passo para a degradação”, afirma.

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo jornal El País [Aqui!].

Cidades amazônicas sob risco de grandes incêndios por causa das queimadas

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Área urbana de Tangará da Serra (MT) cercada pelas chamas no dia de ontem (11/09).

Um dos aspectos que é pouco considerado quando se pensa nas mudanças do uso da terra que estão ocorrendo na Amazônia brasileira é o fato de que a região Norte possui uma taxa de urbanização acima de 70% (no Brasil como um todo, esta taxa está em torno de 85%).

Decorrente dessa alta taxa de urbanização da Amazônia (para os interessados no processo, eu recomendo o livro de John Browder e Brian Godfrey intitulado “Cidades da floresta: urbanização, desenvolvimento e globalização na Amazônia Brasileiraque oferece uma análise regional completa do processo de urbanização acontecendo na Amazônia Brasileira), o que temos é uma proximidade grande entre as aglomerações urbanas e as regiões florestadas que já foram ou estão sendo alteradas pelos processos de desmatamento e degradação florestal em curso na região.

Por isso, as cenas das chamas oriundas de queimadas cercando diferentes cidades na Amazônia não deveria surpreender ninguém (ver abaixo a situação que ocorreu ontem na cidade de Tangará da Serra, localizada no sudoeste do estado do Mato Grosso) (ver video abaixo).

A verdade é que outras cidades com tamanho mais significativo do que Tangará da Serra estarão, cedo ou tarde (talvez mais cedo do que tarde) no caminho de grandes incêndios na Amazônia, com consequências incalculáveis.

Por isso, quando leio que apoiadores do governo Bolsonaro utilizam as cenas de grandes incêndios ocorrendo na Califórnia como uma espécie de desculpa minimizadora do que está acontecendo na Amazônia, eu só posso pensar que a ignorância é a causa desse esforço negacionista. 

É que, ao contrário da Califórnia, a maioria das cidades da Amazônia brasileira não possui equipamentos para combater grandes incêndios, o que amplia a chance de que uma grande quantidade delas esteja hoje vivendo sob o risco da devastação via o fogo. Como já estive fazendo trabalhos de campo por quase 20 anos em Rondônia, posso afirmar que essa proximidade com as áreas de queimada aumenta a chance de que áreas urbanas sejam atingidas em cheio por grandes incêndios por causa delas.

Enquanto isso, vemos o presidente e o vice-presidente da república, bem como o ministro do Meio Ambiente, envolvidos em esforços rocambolescos de negação da catástrofe ambiental que está ocorrendo tanto na Amazônia quanto no Pantanal Matogrossense.  Esse tipo de comportamento negacionista ainda poderá resultar em grandes perdas humanas, além da ambiental que já está em curso. O governo Bolsonaro neste momento literalmente brinca com fogo.

Destruição da Amazônia vai muito além do desmatamento recorde

Pesquisadores do Brasil e EUA analisaram dados de 1992 a 2014 e constataram que a degradação por exploração econômica ocupa área bem maior que a desmatada

amazonia-degradacaoPara pesquisador, degradação é um câncer que se espalha pela Amazônia

Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – O acelerado processo de desmatamento da Amazônia, que tem preocupado o mundo inteiro, deixou de ser o único problema. Estudo realizado por cientistas do Brasil e dos Estados Unidos publicado nesta quinta-feira (10) na revista especializada Science mostra que de 1992 a 2014 a degradação foi bem maior do que o desmatamento. Enquanto a área degradada foi de 337.427 quilômetros quadrados, o desmatamento se espalhou sobre 308.311 quilômetros quadrados.

Enquanto o desmatamento se caracteriza pela derrubada de árvores em grande extensão de terra para transformá-la em pasto e lavouras, a degradação é a alteração gradual da vegetação ao longo do tempo, com a derrubada de árvores de maior interesse econômico, que fornecem madeiras nobres, e a abertura de estradas para o seu transporte. A ação do fogo também contribui para esse processo que leva ao empobrecimento da cobertura vegetal que impacta a fauna e reduz a biodiversidade.

Para chegar a essa conclusão, pesquisadores das universidades de Brasília (UnB), Estadual do Norte Fluminense (Uenf) e do Michigan, nos Estados Unidos, utilizaram ferramentas de detecção automática de imagens utilizadas no sensoriamento remoto e no geoprocessamento, além de fazer trabalho de campo na Amazônia brasileira.

‘Mentira verde’

Com toda essa área desmatada e degradada, os cientistas constataram que a Amazônia brasileira está longe de ser preservada como apregoam o presidente Jair Bolsonaro, seu vice Hamilton Mourão e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. E muito mais perto de perder seu papel fundamental na regulação do clima.

Os dados derrubam a chamada “mentira verde”. Cunhada pelo climatologista Antonio Donato Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a expressão refere-se à crença de que apenas o desmatamento é responsável pela destruição do bioma. E a estimativa de muitos ambientalistas, para os quais 80% da floresta é intocada.

“Pode ter no máximo 70% de área preservada. Como o desmatamento tem avançado, a gente pode estar caminhando para 65%”, diz o professor e pesquisador Marcos Pedlowski, da Uenf e um dos autores do estudo liderado por Eraldo Matricardi, professor do Departamento de Engenharia Florestal da UnB. “A degradação pode ser comparada a um câncer de grande intensidade se espalhando pelo organismo quase que imperceptivelmente”.

Segundo Pedlowski, a degradação poderá se manter nesse nível ou até mesmo aumentar. Para obter dados mais consistentes, ele e os colegas estão analisando dados de 2015 a 2018. “De qualquer forma, mesmo que a taxa se mantenha estabilizada, é muito ruim. Nossas medidas são bastante conservadoras porque no estudo consideramos apenas as formas perceptíveis, e não qualquer forma de degradação.”

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Este texto foi inicialmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Amazônia: estudo sobre degradação indica que o ponto de inflexão provavelmente já foi excedido

Na nova edição do jornal científico “Science”, os cientistas calcularam com base nos dados do Landsat que enquanto entre 1992 e 2014 os números de desmatamento na Amazônia se estendiam a 308.311 km², as áreas degradadas na Amazônia no mesmo período já chegavam a 337.427 km² .

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Por Christian.russau@fdcl.org

Há muito que se fazem advertências sobre o iminente ponto de inflexão da Amazônia, o momento em que 20-25% da floresta amazônica já terão sido desmatados.  Em função disso, os ecossistemas amazônicos ameaçam “virar” e um processo imparável de desertificação e secas sistemicamente crescentes seria o resultado. Até agora, os governantes têm estado de olho no número de cientistas que se dedicam a avaliar os processos de limpar, desmatar e cortar e queimar. Este é de fato um indicador extremamente importante, principalmente em vista do rápido aumento dos cortes e queimadas na Amazônia desde que o presidente da extrema direita Jair Bolsonaro assumiu o cargo. 

Mas agora, em um novo estudo, os cientistas estão chamando a atenção para um fenômeno até então negligenciado: o das áreas já degradadas da Amazônia. Na nova edição do jornal científico Science, os cientistas: Eraldo Aparecido Trondoli Matricardi, David Lewis Skole Olívia Bueno Costa, Marcos Antonio Pedlowski, Jay Howard Samek e Eder Pereira Miguel,1 apresentam valores calculados a partir de imagem de satélite Landsat e mostram que, durante os valores de desmatamento na Amazônia é de 308.311 km² ,  e que no mesmo período a área degradada foi de km² 337.427.

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Com base nesses números , o professor universitário Marcos Pedlowski afirmou em entrevista ao KoBra que a afirmação “20% da Amazônia” foi “apenas apurada”, “80%” estão intactas, portanto não é sustentável. “Com base em nosso novo levantamento – mesmo com uma interpretação conservadora” podemos dizer que “pelo menos cerca de 30% da Amazônia já foi desmatada e degradada.” Em razão do anterior desconsiderar em grande parte a importância das áreas degradadas da Amazônia, essa parcela poderia ser menor estimativa conservadora – já levou ao fato de que apenas 65% da Amazônia são considerados intactos, disse Pedlowski em entrevista ao KoBra.

Pontos de inflexão na Amazônia e o fim iminente dos Rios Voadores Amazônia e o que isso significa para as metrópoles de milhões no sul e sudeste do país no futuro

Segundo os cientistas Thomas E. Lovejoy e Carlos Nobre 2, a Amazônia está à beira de um ponto de inflexão, a partir do qual não há mais volta: “Acreditamos que sinergias negativas entre desmatamento, mudanças climáticas e uso generalizado do fogo sugerem que isso O sistema amazônico irá tombar para ecossistemas não florestais no leste, sul e centro da Amazônia no caso de desmatamento de 20-25%. “

Para entender o que significaria se a paisagem da floresta tropical amazônica se tornasse uma savana seca, o conceito de rios voadores deve ser explicado.

O termo rios voadores foi cunhado pelo meteorologista do Instituto Brasileiro de Pesquisas Espaciais INPE e membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas do IPCC, José Antonio Marengo Orsini. 3 Marengo e seus mais de 50 colegas de oito países tinham 700 balões, equipados com sensores, lançados na Amazônia em 2002-2003 e, portanto, eram capazes de entender as correntes de ar predominantes por temporada. O resultado: nos meses de verão, as nuvens formadas por evaporação na Amazônia derivam para o oeste a uma altura de menos de três mil metros e a uma velocidade média de 50 km / h, onde são bloqueadas nos Andes e então desviadas para sul / sudeste – antes de chover sobre o sudeste e sul do Brasil, sobre o Uruguai, Paraguai e norte da Argentina. “Essas correntes são como rios voadores que carregam umidade de norte para sul”, explicou José Marengo na época. Sua colega de pesquisa Carolina Vera, da Universidade de Buenos Aires acrescentou: “Principalmente no verão, quando essas correntes de ar são uma das principais causas das fortes chuvas”. Porque as nuvens que se deslocam para o sul aumentam a umidade lá, de acordo com os pesquisadores de Marengo já em 2003, em 20-30%, em alguns casos até 60%.

Antonio Nobre, do INPE, instituto nacional de pesquisa em questões espaciais, declarou em 2009 5A conexão entre a escassez de água no sul e o desmatamento da Amazônia é diferente: na Amazônia, 20 bilhões de toneladas de água evaporam todos os dias. Para efeito de comparação: o maior rio do mundo, o Amazonas, injeta 19 bilhões de toneladas de água no Atlântico todos os dias. Na floresta amazônica, a folhagem multifacetada da flora, atingindo até 40 metros de altura, oferece de oito a dez vezes a superfície potencial de evaporação em um metro quadrado de solo da floresta tropical. Enquanto uma árvore pode evaporar até 300 litros de água por dia, a taxa para pastagens é de apenas um oitavo desse valor, segundo Nobre. O termo rios voadores, portanto, significa o processo de evaporação diária para nuvens de 20 bilhões de toneladas de água através da folhagem amazônica, 50% dos quais chove novamente na Amazônia e puxa dez bilhões de toneladas para o oeste e são bloqueados nos Andes de seis mil metros de altura e empurrados para o sul de lá e chovem sobre a área de influência da Grande São Paulo. Se a evaporação na Amazônia for reduzida por meio da valorização, ou seja, desmatamento da região e conversão pela agricultura industrial, isso também reduz as chuvas para a bacia hidrográfica de São Paulo.

Nos últimos 40 anos, uma média de três milhões de árvores por dia foram derrubadas na Amazônia. A partir disso, o número assustador de 2.000 árvores por minuto ou um total de 42 bilhões de árvores é calculado. 6 Se os rios da Amazônia secam, o sul e o sudeste do Brasil com suas metrópoles de milhões, o norte da Argentina, bem como o Uruguai e o Paraguai, ficam em terra seca.

 1 Veja https://science.sciencemag.org/content/369/6509/1378

3 Revista pesquisa, Fapesp, agosto de 2005, http://revistapesquisa.fapesp.br/2005/08/01/o-mapa-dos-ventos/ Acessado em 4 de agosto de 2015

4 Revista pesquisa, Fapesp, agosto de 2005, http://revistapesquisa.fapesp.br/2005/08/01/o-mapa-dos-ventos/ Acessado em 4 de agosto de 2015

5 Daniela Chiaretti: “Sem chuva da Amazônia, SP vira deserto. Entrevista com Antonio Nobre, pesquisador do Inpe”, Valor Econômico, 12 de janeiro de 2009

6 Antonio Donato Nobre: ​​”O Futuro Climático da Amazônia. Relatório de Avaliação Científica”, São José dos Campos – SP, Edição ARA, CCST-INPE e INPA, p.30, http://www.ccst.inpe.br/ wp-content / uploads / 2014/10 / Futuro-Climatico-da-Amazonia.pdf Acessado em 12 de agosto de 2015

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pela Kooperation Brasilien [Aqui!].

Na Amazônia, degradação florestal está ultrapassando o desmatamento total

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O desmatamento na Amazônia brasileira aumentou abruptamente nos últimos dois anos, após ter apresentado uma trajetória de queda por mais de uma década. Com o presidente do país, Jair Bolsonaro, notoriamente entusiasmado com a expansão para a floresta tropical, novos dados de desmatamento regularmente chegam às manchetes globais .

Mas o que menos pessoas percebem é que mesmo as florestas que não foram desmatadas, ou totalmente “desmatadas”, raramente ficam intocadas. Na verdade, apenas 20% das florestas tropicais do mundo são classificadas como intactas . O restante foi afetado por extração de madeira, mineração, incêndios ou pela expansão de estradas ou outras atividades humanas. E tudo isso pode acontecer sem ser detectado pelos satélites que monitoram o desmatamento.

Essas florestas são conhecidas como “degradadas” e constituem uma fração cada vez maior das paisagens florestais remanescentes do mundo. A degradação é um grande desafio ambiental e social. Perturbações associadas à exploração madeireira, incêndio e fragmentação do habitat são uma fonte significativa de emissões de CO₂ e podem transformar as florestas de sumidouros de carbono em fontes, onde o carbono emitido quando as árvores queimam ou se decompõem supera o carbono retirado da atmosfera à medida que crescem.

A degradação da floresta também é uma grande ameaça à biodiversidade e tem demonstrado aumentar o risco de transmissão de doenças infecciosas emergentes . E, apesar de tudo isso, continuamos sem ferramentas adequadas para monitorar a degradação florestal na escala necessária.

degrad 1Degradado – mas não desmatado. CIFOR / flickr , CC BY-NC-SA

A principal razão pela qual a degradação florestal é difícil de monitorar é que é difícil ver do espaço. O lançamento do programa Landsat da Nasa na década de 1970 revelou – talvez pela primeira vez – a verdadeira extensão do impacto que os humanos tiveram nas florestas do mundo. Hoje, os satélites nos permitem rastrear as frentes de desmatamento em tempo real em qualquer lugar do mundo. Mas embora seja fácil detectar onde as florestas estão sendo derrubadas e convertidas em fazendas ou plantações, capturar a degradação florestal não é tão simples. Uma floresta degradada ainda é uma floresta, pois por definição ela retém pelo menos parte de sua copa. Portanto, embora florestas antigas e madeireiras possam parecer muito diferentes no solo, vistas de cima podem ser difíceis de distinguir em um mar de verde.

Detetives de degradação

Novas pesquisas publicadas na revista Science por uma equipe de pesquisadores brasileiros e norte-americanos liderada por Eraldo Matricardi deu um passo importante para enfrentar esse desafio. Ao combinar mais de 20 anos de dados de satélite com extensas observações de campo, eles treinaram um algoritmo de computador para mapear as mudanças na degradação florestal ao longo do tempo em toda a Amazônia brasileira. O trabalho deles revela que 337.427 km² de floresta foram degradados em toda a Amazônia brasileira entre 1992 e 2014, uma área maior do que o vizinho Equador. Durante o mesmo período, a degradação superou o desmatamento, que contribuiu para a perda de mais 308.311 km² de floresta.

Os pesquisadores deram um passo além e usaram os dados para separar a contribuição relativa de diferentes fatores de degradação florestal, incluindo extração de madeira, incêndios e fragmentação florestal. O que esses mapas revelam é que, embora as taxas gerais de degradação em toda a Amazônia brasileira tenham diminuído desde a década de 1990 – em linha com a diminuição do desmatamento e da fragmentação de habitat associada – as taxas de extração seletiva e incêndios florestais quase dobraram. Em particular, nos últimos 15 anos, a exploração madeireira se expandiu para o oeste em uma nova fronteira que até recentemente era considerada remota demais para estar em risco.

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Ao colocar a degradação florestal no mapa, Matricardi e colegas não apenas revelaram a verdadeira extensão do problema, mas também geraram os dados básicos necessários para orientar a ação. A restauração de florestas degradadas é fundamental para vários esforços internacionais ambiciosos para conter a mudança climática e a perda de biodiversidade, como o esquema da ONU para pagar aos países em desenvolvimento para manter suas florestas intactas . Se for permitida a recuperação, as florestas degradadas, particularmente aquelas nos trópicos, têm o potencial de sequestrar e armazenar grandes quantidades de CO₂ da atmosfera – ainda mais do que suas contrapartes intactas .

Simplesmente permitir que as florestas se regenerem naturalmente pode ser uma estratégia muito eficaz, já que os estoques de biomassa geralmente se recuperam em décadas . Em outros casos, a restauração ativa pode ser uma opção preferível para acelerar a recuperação. Outro estudo recente, também publicado na revista Science, mostrou como o plantio de árvores e o corte de lianas (grandes trepadeiras lenhosas comuns nos trópicos) podem aumentar as taxas de recuperação de biomassa em até 50% nas florestas tropicais do sudeste asiático. Mas a restauração ativa tem um custo que, em muitos casos, excede os preços que são pagos para compensar a emissão de CO₂ no mercado voluntário de carbono. Se quisermos implementar com sucesso a restauração do ecossistema em uma escala global, governos, empresas e até mesmo indivíduos precisam pensar cuidadosamente sobre como eles valorizam a natureza.

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo site “The Conversation” [Aqui!].

Science mostra que há mais degradação florestal do que desmatamento na Amazônia brasileira entre 1992 e 2014

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O artigo intitulado “Long-term forest degradation surpasses deforestation in the Brazilian Amazon” que foi publicado hoje na revista Science, e que tem como primeiro autor o professor Eraldo Matricardi do Departamento de Engenharia Florestal da UNB, demonstra que o processo de degradação florestal na Amazônia brasileira afetou uma área maior do que o desmatamento no período de 1992 a 2014.

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O artigo mostra que a área da Amazônia brasileira afetada pela degradação florestal – onde a biomassa da floresta é perdida, mas não completamente convertida para outro uso – é maior do que a área afetada pelo desmatamento. De acordo com os resultados do estudo publicado hoje pela Science, entre 1992 e 2014, a área total de floresta degradada foi de 337.427 quilômetros quadrados, ante 308.311 quilômetros quadrados que foram  desmatados.

Estes resultados têm implicações para as emissões globais de gases de efeito estufa e perda de espécies, entre outros fatores. A degradação florestal é mais difícil de medir e monitorar do que o desmatamento, embora várias iniciativas ambientais internacionais, como a Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, apontem a restauração de florestas degradadas como um foco principal.

Atividades que causam degradação florestal, tais como queimadas, extração seletiva de madeira e fragmentação florestal podem ser difíceis de detectar sob um dossel florestal existente. A análise das imagens de satélite feitas pela equipe liderada por Eraldo Matricardi mostram casos onde a degradação persistiu e voltou a ocorrer ao longo do período de 25 anos. Esse é um resultado “bom e ruim”, pois apesar da floresta não ter sido completamente nesses locais, houve uma inevitável perda dos serviços ambientais (ver abaixo a progressão temporal dos diferentes tipos de degradação florestal na Amazônia brasileira ao longo do período estudado).

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Durante o período coberto pelo estudo, as políticas brasileiras contribuíram para a redução do desmatamento, processo que se caracteriza pela conversão das florestas é para um uso inteiramente novo,  tais como pastagem, observaram os pesquisadores. Mas, de 2006 a 2010, a taxa média anual de degradação florestal por extração e queima era quase igual às taxas de desmatamento, e em 2014 as taxas de degradação haviam excedido as taxas de desmatamento.

Uma consequência deste estudo será a necessidade de ser fazer uma mudança na narrativa na situação da cobertura florestal amazônica, especialmente no ponto em que se diz que ainda existem 80% de florestas intocadas na Amazônia brasileira. É que usando formas conservadoras de estimativas, este estudo chegou a um cálculo de que algo em torno de 10% da área da Amazônia brasileira possui a presença de alterações significativas causadas por diferentes formas de degradação florestal.

Quem desejar  acessar este artigo no site da Science, basta clicar [Aqui!].

A pressão internacional desaceleraria o desmatamento na Amazônia

Ao lado da pressão, devem-se buscar soluções de longo prazo que salvaguardem a biodiversidade da Amazônia e o futuro das pessoas que nela vivem de forma sustentável.

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Por Mikko Pyhälä,  Pertti Salolainen  e Ilari Sääksjärvi para o Helsingin Sanomat 

O editorial do Helsingin Sanomat intitulado “O impacto climático dos incêndios florestais na Amazônia” descreveu um desafio importante, mas irreal, sobre as implicações do acordo comercial UE-Amazônia Mercosul, afirmando que “a União Europeia pode influenciar os governos do Brasil e de outros países amazônicos com o acordo comercial do Mercosul do ano passado , que inclui obrigações em matéria de clima e ação ambiental”.

Em 28 de junho de 2019, a UE e o Mercosul publicaram um projeto negociado conjuntamente, que entrará em vigor assim que as alterações propostas pelas partes forem acordadas e o acordo finalizado tiver sido ratificado pelos parlamentos das partes.

O projeto ainda não rege a conduta das partes. A mídia noticiou que o Brasil está se comportando de forma que viola, em particular, o texto do anteprojeto sobre comércio e desenvolvimento sustentável. Pelo menos os chefes de Estado da Holanda, Áustria, França e Alemanha pediram que o projeto fosse alterado. Segundo eles, a política do presidente brasileiro Jair Bolsonaro não corresponde aos princípios já negociados.

O projeto não define claramente como as sanções podem ser impostas por quebra de contrato. As divergências precisam ser consultadas e painéis de especialistas estabelecidos, o que leva tempo e não necessariamente leva a resultados. Quando o acordo foi negociado, aparentemente não se podia imaginar o quão descaradamente um estado poderia violá-lo. Estudiosos brasileiros já falaram até em “homicídio do próprio país”.

Jair Bolsonaro tirou poderes e fundos de agências ambientais e indígenas. Ele encorajou os proprietários de terras a invadir áreas protegidas legais e limpar florestas em áreas indígenas onde os incêndios agora estão intensos. De acordo com o Greenpeace, os incêndios em áreas protegidas aumentaram em mais de 80% ao ano.

Bolsonaro proibiu agências governamentais de relatar incêndios florestais, e o Conselho Amazônico do país é formado apenas por soldados. O Observatório Terrestre da NASA da agência espacial dos EUA desenvolveu um rastreamento preciso dos incêndios por satélite e levantou preocupações em 20 de agosto de que a pior devastação ambiental do século 21 na Amazônia poderia ser iminente.

A Finlândia também deve exigir que o projeto seja alterado. O objetivo deve ser que a UE exija o congelamento dos benefícios comerciais em caso de violação grave do contrato. A UE também deve persuadir a China a exigir obrigações climáticas e ambientais do Brasil, já que os chineses compram a maior parte da produção agrícola do Brasil oriunda da destruição da floresta tropical.

A pressão internacional é uma forma de curto prazo de desacelerar o desmatamento. Paralelamente, devem ser buscadas soluções de longo prazo que salvaguardem a biodiversidade da Amazônia e o futuro de seus habitantes de forma sustentável.

* Mikko Pyhälä, é Embaixador emérito e escritor, Pertti Salolainen é ex-ministro de Comércio Exterior da Finlândia, além de fundador e presidente honorário do WWF Finlândia, e Ilari Sääksjärvi é professor de Pesquisa em Biodiversidade da Universidade de Turku, Finlândia.

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Este texto foi originalmente escrito em finlandês e publicado pelo jornal Helsingin Sanomat  [Aqui!].

A loteria do carbono: A cegueira da Europa para a pegada de carbono da carne brasileira

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O excesso de dependência da Europa na carne bovina do estado de Mato Grosso em particular, e a ausência de due diligence por parte dos produtores e comerciantes de carne, deixa a Europa não apenas cegamente cúmplice na crescente crise de desmatamento do Brasil, mas também exposta a níveis significativos de emissões embutidas nas importações.

Até 20,8 milhões de toneladas de gases de efeito estufa (GEE) poderiam ter sido emitidos no Brasil para produzir carne bovina importada por apenas cinco países europeus em 2019, equivalente à pegada climática anual de 2,4 milhões de cidadãos da UE – o dobro da população de Bruxelas.

Estimativas ainda mais conservadoras sugerem que as emissões poderiam ter chegado a 2,6 a 4,9 milhões de toneladas de CO2e (tCO2e), equivalente à pegada anual de até 465.000 europeus.

As descobertas fazem parte de uma nova análise do Earthsight, A Loteria do Carbono: Estimativa das pegadas de carbono embutidas nas importações europeias de carne bovina brasileira , e destacam como os importadores devem tomar medidas concretas para obter carne bovina não ligada ao maior fator de contribuição na intensidade de carbono da produção de carne bovina – desmatamento.

Enquanto as emissões globais de GEE deverão cair este ano devido à desaceleração da atividade econômica após a pandemia de Covid-19, o Brasil deverá contradizer essa tendência e ver um aumento entre 10 e 20 por cento, principalmente por causa dos níveis crescentes de desmatamento.

O desmatamento na Amazônia brasileira tem aumentado a cada ano desde 2017, e 30% em 2019. As desmatamentos nos primeiros seis meses de 2020 aumentaram 24% em comparação com o mesmo período de 2019, atingindo 2.544 km², a segunda maior quantidade em qualquer semestre desde 2010. 2020 viu o pior início da temporada de incêndios no Brasil em uma década , com as queimadas no bioma Amazônia correndo o risco de ultrapassar as de 2019, que aumentaram 85% em 2018.

O desmatamento responde por quase metade do total de emissões de GEE do Brasil, com a agricultura e pecuária, atividades intimamente ligadas à perda de floresta, respondendo por mais um quarto. Em 2018, a pecuária foi responsável por quase um quinto de todas as emissões no Brasil – se o desmatamento para a pecuária for levado em conta, essa participação sobe para 45 por cento.

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Calculando o carbono

Quantificar a verdadeira escala das emissões de carbono atreladas às importações europeias de carne bovina brasileira é um grande desafio. Há poucas evidências de que produtores ou importadores verifiquem consistentemente se a carne que comercializam vem de gado vinculado ao desmatamento ou de pastagens degradadas e de alta emissão, enquanto o envolvimento de fornecedores indiretos desconhecidos permanece irrestrito na indústria frigorífica brasileira.

No cálculo da faixa de emissões possíveis, a pesquisa ilustra a falta de transparência do setor e os riscos que os importadores correm ao comprar carne bovina do Mato Grosso e de outros estados com alto índice de desmatamento.

Embora o Trase , uma plataforma de transparência da cadeia de suprimentos, e estudos anteriores tenham estimado a pegada de carbono embutida nas importações de carne bovina brasileira da Europa, a análise da Earthsight fornece estimativas sobre o comércio mais recente usando métodos diferentes. As estimativas da Earthsight não se limitam às emissões do desmatamento, mas também incluem as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) de todo o ciclo de produção de carne bovina, incluindo mudança no uso da terra, insumos agrícolas, pecuária, rebanho e emissões de solo, abate e transporte até o ponto de exportação.

A análise se baseia em estudo recente do Instituto Escolhas, que calculou a pegada média de emissões da carne bovina produzida em cada estado brasileiro ao longo de uma década, inclusive para diferentes tipos de sistemas representativos de manejo de rebanho e qualidades de pastagens.

O Instituto Escolhas estimou que a pegada de carbono média nacional da produção de carne bovina, entre 2008 e 2017, variou de 25kg a 78kg CO2e (emissões de carbono equivalente) por quilo de carne bovina, dependendo do desmatamento. Em contraste, o CO2e médio por quilo de carne bovina produzida na UE foi estimado em cerca de 22 kg.

A análise da Earthsight empregou amplamente as estimativas estaduais do Instituto Escolhas em uma variedade de manejo de rebanho e tipos de pastagem, incluindo médias estaduais e pastagens degradadas e estáveis.

A combinação das estimativas de emissões médias estaduais produzidas pelo Instituto Escolhas com os dados das exportações brasileiras possibilitou o cálculo das pegadas de carbono embutidas nas remessas recebidas pelos países selecionados e suas empresas importadoras.

carne 3As importações europeias de carne bovina brasileira estão expostas ao enorme desmatamento e ao risco de emissões de carbono da pecuária. Crédito: Shutterstock

Os cinco maiores países importadores da Europa

Quase toda a carne bovina (96 por cento) enviada para a Europa veio de instalações em apenas cinco estados: Mato Grosso, São Paulo, Rio Grande do Sul, Goiás e Mato Grosso do Sul.

Mato Grosso foi o maior fornecedor estadual para os cinco países, respondendo por 33% do total.

Os cinco principais países de destino da carne bovina desses cinco estados – Itália (29.650 toneladas), Reino Unido (28.030 toneladas), Holanda (22.084 toneladas), Espanha (9.466 toneladas) e Alemanha (8.060 toneladas) – não se classificam na mesma ordem ao avaliar as emissões de carbono que essas importações podem ter produzido.

As importações para a Itália tiveram a maior pegada de carbono incorporada média – sem ou com desmatamento – variando de 244.440 a 1,1 milhão de tCO2e ao usar estimativas de emissões médias baseadas no estado. A Itália foi seguida pela Holanda (162.407 a 633.124 tCO2e), Espanha (94.208 a 451.298 tCO2e), Alemanha (63.364 a 224.623 tCO2e) e o Reino Unido (50.031 a 152.294 tCO2e).

A estimativa mais alta combinada de 2,6 milhões de tCO2e é equivalente às emissões de carbono de 2018 de 298.148 europeus. As exportações de Mato Grosso, lar de áreas da Amazônia e do Cerrado e o estado mais desmatado que domina o comércio para a Europa, sozinhas respondem por 2,2 milhões de tCO2e, ou 85 por cento.

A pole position da Itália não se deve apenas a seus grandes volumes de importação, mas também – e principalmente – sua dependência da carne bovina de Mato Grosso, que tem estimativas de emissões médias consideravelmente mais altas por quilo de carne bovina do que os outros quatro estados fornecedores de importações europeias. Quase metade de todas as importações italianas (14.279 toneladas) vêm do estado.

Se toda a carne importada para a Europa fosse derivada exclusivamente de pastagens estáveis ​​(pastagens de baixa produtividade sem capacidade de remover carbono da atmosfera) em cada estado, a média superior de emissões embutidas totais (quando o desmatamento está envolvido) sobe para 4,9 milhões de tCO2e – quase o dobro ao aplicar as médias estaduais. Esta é a pegada climática de 465.000 europeus.

No entanto, se 35% da carne bovina dos frigoríficos mato-grossenses veio de gado criado em pastagens degradadas (pastagens de alta emissão devido à degradação do solo e que estão mais associadas a áreas recentemente desmatadas) e o restante de Mato Grosso e dos outros quatro estados foram estimados usando as médias estaduais, a pegada de carbono total embutida nas importações europeias de carne bovina brasileira pode chegar a 20,8 milhões de tCO2e. Isto é equivalente à pegada climática anual de 2,4 milhões de cidadãos da UE.

Esse aumento dramático ocorre porque um quilo de carne bovina produzida em Mato Grosso a partir de gado criado em pastagens degradadas associadas ao desmatamento gera a impressionante quantidade de 1.695 kg CO2e.

Os resultados mostram que o volume de comércio raramente determina as pegadas de carbono, mas que a origem do gado, as ligações com o desmatamento e os tipos de pastagem são os fatores mais importantes. Os importadores com menores volumes de comércio podem ter pegadas de carbono desproporcionalmente altas por causa de suas práticas de abastecimento.

Pegadas de carbono da empresa

Tal como acontece com a análise a nível de país, as emissões embutidas estimadas da Europa estão dramaticamente concentradas nas importações de relativamente poucas empresas.

Ao considerar as estimativas baseadas em médias estaduais, apenas duas empresas (Silca e JBS) respondem por quase um quarto das emissões estimadas, oito empresas são responsáveis ​​por mais da metade e 27 respondem por 80 por cento.

Algumas empresas europeias têm pegadas de carbono incorporadas mais altas do que alguns países destinatários.

Quando calculada usando as emissões médias superiores em nível estadual, a empresa italiana Silca tem uma pegada maior (375.000 tCO2e) do que a Alemanha (224.623 tCO2e) ou o Reino Unido (152.294 tCO2e). O grupo brasileiro JBS (221.538 tCO2e), o conglomerado alemão de alimentos Tonnies (199.411 tCO2e) e a empresa italiana Bervini Primo (181.660 tCO2e) também têm emissões embutidas mais altas do que o Reino Unido.

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Quando calculada com base em toda a carne importada proveniente de gado criado em pastagens estáveis ​​associadas ao desmatamento, a pegada de carbono estimada de empresas individuais aumenta consideravelmente. Com essa medida, as emissões de carbono embutido da JBS quase triplicam, colocando a empresa acima da Silca como a importadora com maior pegada embutida.

Da mesma forma, se as importações da JBS de Mato Grosso também fossem todas derivadas de pastagens degradadas ligadas ao desmatamento, suas importações para a Europa incorporariam emissões 22 vezes maiores (5 milhões de tCO2e) do que abaixo da média estadual superior nos cinco estados.

Alguns dos maiores importadores por peso estão fora do ranking das 10 pegadas de carbono médias. Os exemplos mais marcantes são a Marfrig (segundo maior importador por peso e entre os três maiores frigoríficos do Brasil), Princes (Reino Unido) e Bolton Group (Itália). Essas empresas, embora sejam grandes importadoras, podem ter uma classificação mais baixa em emissões de carbono incorporado porque quase toda a carne bovina é proveniente de frigoríficos de São Paulo e do Rio Grande do Sul.

Esses estados apresentam níveis significativamente mais baixos de desmatamento – e, portanto, menores emissões de carbono por perda florestal – em comparação com Mato Grosso e os estados do Cerrado de Goiás e Mato Grosso do Sul.

No entanto, é improvável que a carne embarcada dos estados do sul esteja livre de desmatamento, já que parte desse gado pode vir de estados do Cerrado ou bioma amazônico.

Além disso, Princes e Bolton são grandes compradores de carne enlatada e outros tipos de carne enlatada. As instalações de exportação no sul provavelmente fornecem parte da carne fresca que eles transformam nesses produtos altamente processados ​​de matadouros mais ao norte, que estão mais intimamente ligados a fazendas na Amazônia ou Cerrado.

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Além disso, embora as empresas que importam exclusiva ou predominantemente de São Paulo e do Rio Grande do Sul possam parecer expostas a emissões embutidas mais baixas, se as pastagens estáveis ​​ligadas ao desmatamento desempenharem um papel importante em suas cadeias de abastecimento, suas emissões podem aumentar dramaticamente. É exatamente isso que se observa com Marfrig, Princes e Bolton.

Gigantes do frigorífico brasileiro

A forte ligação entre o desmatamento e a quantidade de carbono embutido na produção de carne bovina é preocupante não só por causa de suas consequências ambientais, mas também por causa dos níveis de ilegalidade que provavelmente estão contaminando as cadeias de abastecimento de carne. Um relatório publicado no início deste ano pela MapBiomas mostrou que 99 por cento de todo o desmatamento ocorrido no Brasil em 2019 era ilegal.

As mesmas empresas brasileiras que abatem gado e exportam carne bovina também estão entre os maiores importadores da Europa. Isso poderia facilitar o cumprimento das leis de due diligence, uma vez que essas empresas já teriam dados relacionados, mas também poderia levantar questões sobre a confiabilidade de tais sistemas se as empresas fiscalizassem suas próprias práticas, especialmente considerando o histórico dessas empresas no Brasil.

JBS, Minerva e Marfrig , os três maiores exportadores e entre os principais importadores da Europa, há anos estão vinculados ao desmatamento ilegal na Amazônia e em outros lugares e são repetidamente criticados por não conseguirem monitorar seus fornecedores indiretos.

A Earthsight pediu às 10 empresas que importam os maiores volumes de carne bovina para a Europa, e a várias outras notáveis, que detalhem as descobertas do monitoramento das emissões de carbono que realizam. Apenas Marfrig respondeu. A empresa forneceu uma pegada de carbono estimada para sua carne bovina variando de 48 a 99kg CO2e / kg carne bovina. A aplicação dessas estimativas em relação às importações da Marfrig em 2019 (10.145 toneladas) revela uma gama de pegadas de carbono embutidas significativamente superior às estimativas calculadas para a empresa a partir dos valores do Instituto Escolhas.

A Marfrig disse que “busca estreitar a relação entre os produtores e a Marfrig, incentivando a adoção de boas práticas pecuárias, que contribuam para o desenvolvimento sustentável das fazendas e garantam uma produção mais segura e com menor impacto ambiental”. A empresa acrescentou que monitora a pegada de carbono de sua produção de carne bovina com base em métodos internacionalmente reconhecidos.

carne 6Abatedouro Mafrig em Mato Grosso, Brasil. Crédito: Alamy

A Europa vai agir?

Cerca de 25 por cento das  emissões de carbono embutidas nos produtos  consumidos na Europa são emitidas no exterior. À medida que a UE embarca em seu New Deal Verde e busca finalizar o acordo comercial Mercosul-UE que aumentará dramaticamente o comércio com o Brasil, garantir que as emissões associadas ao consumo europeu não sejam terceirizadas para outros países será crítico.

Até o momento, não há requisitos para que as empresas coloquem carne brasileira (ou qualquer produto agrícola de qualquer país) nos mercados europeus para realizar due diligence sobre o desmatamento ou impactos ambientais mais amplos desses produtos, muito menos para parar de fornecê-los onde os impactos e riscos envolvidos são compreendidos e considerados inaceitáveis.

Enquanto os compradores europeus não tiverem sistemas adequados de devida diligência, eles correm o risco de comprar de empresas ligadas ao desmatamento que geram enormes emissões climáticas.

A UE está emitindo sons positivos sobre a introdução de due diligence obrigatória para desvincular o desmatamento do consumo de commodities agrícolas e se afastar das  promessas corporativas voluntárias falhas  atualmente em jogo. 

Qualquer  lei deve ser robusta o suficiente  para garantir transparência e responsabilidade no setor.

O Reino Unido também anunciou recentemente sua intenção de aprovar leis exigindo que as empresas exerçam a devida diligência na pegada de desmatamento de produtos agrícolas usados ​​e comercializados no Reino Unido, incluindo carne bovina. No entanto, o modelo proposto parece lamentavelmente inadequado, pois se aplicaria apenas ao desmatamento ilegal, não se aplicaria a todas as empresas que importam commodities florestais de risco usadas no Reino Unido e enfraquece as iniciativas existentes e os compromissos governamentais já em vigor. 

Sistemas de rastreabilidade e dados relevantes sobre o uso da terra já existem no Brasil que poderiam fornecer uma due diligence abrangente, mas uma mistura de barreiras regulatórias e a falta de incentivos impediram que fossem usados ​​com efeito total para desvincular as cadeias de abastecimento de carne da destruição ambiental.

Nenhum sinal de mercado – seja dentro ou fora do Brasil – existe atualmente para incentivar a integração dos sistemas e capacidades de rastreabilidade existentes no Brasil. Até que isso aconteça, parece que a loteria do carbono e do desmatamento embutidos nas importações de carne bovina brasileira pela Europa persistirá.

Para ver os resultados completos da pesquisa, consulte o  relatório em PDF . 

fecho

Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela Earthsight [Aqui!].

No Dia da Amazônia, Salles continua passando sua boiada

Hoje, 5 de agosto, é celebrado o Dia da Amazônia. O que deveria ser um dia de celebração da preservação da maior área de florestas tropicais do planeta, acaba servindo para marcar e denunciar a situação catastrófica que reina naquela região sob o comando de Jair Bolsonaro, Hamilton Mourão e Ricardo Salles.

passando a boiada

Falando em Salles, esse dia 05 de agosto certamente celebrado por ele como um dos dias da Amazônia em que conseguiu atravessar a sua boiada sobre o conjunto de leis que deveriam proteger os biomas amazônicos.

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Somente neste 05 de agosto ocorreram 2494 incêndios na Amazônia

Mas não há de ser nada, e a devida reação já está ocorrendo em todas as partes da Terr. E cedo ou tarde, os custos políticos e econômicos obrigarão a uma mudança radical na forma pela qual o Brasil está hoje destruindo seus biomas altamente diversos para o plantio de soja e a criação de gado.

Enquanto, celebremos toda a resistência que já ocorre dentro e fora do Brasil. É que dessa resistência virão dias da Amazônia que serão dignos de serem celebrados.

Governo Bolsonaro comete equívoco estratégico ao precarizar o INPE

ministro-astronautaO ex-astronauta e vendedor de travesseiros Marcos Pontes é um dos artífices dos ataques perpetrados pelo governo Bolsonaro ao Inpe

A inconformidade do alto escalão do governo Bolsonaro com a ciência produzida pelos pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) ficou evidente com a demissão do seu então diretor, o físico Ricardo Galvão em agosto de 2019.

De lá para cá, uma série de movimentos indicam que a opção preferencial do presidente Jair Bolsonaro, secundado pelo ministro “lost in space“, o ex-astronauta e atual vendedor de travesseiros, o oficial da reserva Marcos Pontes, é de asfixiar financeiramente o Inpe, na provável e vã esperança de que não haverá mais monitoramento de qualidade na mudança da cobertura vegetal da Amazônia brasileira.

A coisa é tão explícita que a Agência Espacial Brasileira decidiu cortar para zero o orçamento de pesquisa, desenvolvimento e capital humano do Inpe  para 2021.  Com isso, não haverá para que os pesquisadores do instituto possam aprimorar suas capacidades para responder aos crescentes desafios científicos que estão emergindo por causa do avanço da franja de desmatamento e degradação dos ecossistemas amazônicos.

Outra colossal e onerosa besteira que bem exemplifica a disposição de sabotar o Inpe foi o gasto de R$ 145 milhões pelo Ministério da Defesa para a aquisição de microssatélites para fazer um serviço que já é feito com mais qualidade e precisão em São José dos Campos. 

O pior é que brevemente ficará dolorosamente evidente que o governo brasileiro precisará cada vez mais da expertise e da respeitabilidade internacional que o Inpe e seus pesquisadores possuem, até para se defender de novas descobertas que virão a público sobre o grau de destruição dos ecossistemas amazônicos.

A verdade é que o governo Bolsonaro, ao sabotar abertamente a capacidade funcional do Inpe, está dando um tiro (de bazuca) no próprio pé. É que em todos os anos em que foi permitido que desenvolvesse suas pesquisas sem graves intromissões ideológicas, os pesquisadores do Inpe atuaram não apenas como um instituto de excelência científica, mas com um órgão de Estado. 

E há que se notar que, por mais que se queira impedir o avanço da ciência, as rodas que movem o avanço do conhecimento científico sempre são mais fortes do que os desejos dos governantes de plantão. Em outras palavras, não há como brecar o avanço da ciência, e quando muito pode-se torná-lo mais lento.

Finalmente, há que ficar claro que a defesa do Inpe sintetiza hoje a defesa da ciência nacional e as possibilidades de que o Brasil possa ter um destino que não seja apenas ser terra arrasada pela dependência na venda de commodities agrícolas e minerais.