União Europeia e BR-319: a hipocrisia verde na estrada para o colapso da Amazônia

Sob o falso discurso do “desenvolvimento sustentável”, a pavimentação da BR-319 e a mineração de potássio em Autazes ameaçam destruir o último grande bloco preservado da floresta amazônica, acelerar a degradação florestal, empurrar o bioma para um ponto de não retorno climático e expor a hipocrisia ambiental da União Europeia

A reunião entre representantes do governo do Amazonas e embaixadores da União Europeia para discutir a pavimentação da BR-319 e a exploração de potássio em Autazes expõe uma das contradições mais brutais do capitalismo verde contemporâneo: a tentativa de apresentar como “desenvolvimento sustentável” um projeto que pode acelerar o colapso ecológico da maior floresta tropical do planeta.

O discurso oficial é cuidadosamente construído. A BR-319 aparece como símbolo de integração nacional, soberania e progresso econômico. O projeto de mineração de potássio em Autazes é vendido como solução estratégica para reduzir a dependência brasileira de fertilizantes importados. Na superfície, a narrativa parece racional e pragmática. Mas basta observar a história recente da Amazônia para perceber que o que está em curso é algo muito mais grave: a abertura definitiva do último grande bloco relativamente preservado da floresta amazônica brasileira para uma explosão de desmatamento, degradação florestal, grilagem de terras, mineração, expansão pecuária e conflitos fundiários.

A falácia central do discurso pseudo-pró-desenvolvimento consiste em fingir que a pavimentação da BR-319 pode ocorrer sem reproduzir exatamente o modelo predatório que historicamente acompanha toda expansão rodoviária na Amazônia. Estradas nunca funcionaram apenas como corredores de transporte. Elas operam como vetores de ocupação descontrolada. A vasta maioria do desmatamento amazônico ocorreu historicamente ao longo de eixos rodoviários. A BR-163, a Transamazônica e a própria expansão do chamado “arco do desmatamento” comprovam isso de forma inequívoca.

No caso da BR-319, os efeitos destrutivos já começaram mesmo antes da pavimentação integral. A simples retomada de manutenção e melhoria da estrada coincidiu com o crescimento acelerado de ramais clandestinos, avanço da grilagem, aumento de focos de incêndio e expansão do desmatamento em sua área de influência. A ideia de que o Estado brasileiro teria capacidade de controlar esse processo é uma ficção política conveniente. Os próprios órgãos ambientais vêm sendo sistematicamente enfraquecidos há anos, enquanto redes ilegais de ocupação territorial se expandem com enorme capacidade operacional e apoio político local.

Mas existe um aspecto ainda mais grave — e frequentemente invisibilizado — no debate sobre a BR-319: a aceleração massiva da degradação florestal. O estudo conduzido por Eraldo Matricardi e colaboradores e publicado na revista Science em 2020 demonstrou que, entre 1992 e 2014, a área de floresta degradada na Amazônia brasileira superou a área completamente desmatada. Foram cerca de 337 mil km² de florestas degradadas, contra aproximadamente 308 mil km² efetivamente desmatados. Vale destacar que participei diretamente como um dos colaboradores desse trabalho científico, o que permite afirmar com ainda maior convicção que os impactos indiretos da expansão rodoviária sobre a integridade ecológica amazônica continuam amplamente subestimados no debate público e governamental.

Essa descoberta desmonta outra manipulação central do discurso oficial. A destruição amazônica não ocorre apenas quando a floresta desaparece totalmente do mapa. Ela também acontece quando a floresta permanece aparentemente “em pé”, mas perde progressivamente sua integridade ecológica. Estradas como a BR-319 aceleram precisamente esse processo por meio da fragmentação florestal, da extração seletiva de madeira, da abertura de ramais ilegais, das queimadas recorrentes e dos incêndios de sub-bosque.

O resultado é uma Amazônia biologicamente empobrecida, climaticamente fragilizada e muito mais vulnerável ao fogo e às secas extremas. Uma floresta degradada ainda pode aparecer verde em imagens de satélite convencionais, mas sua biomassa diminui, sua biodiversidade colapsa e sua capacidade de armazenar carbono e reciclar umidade é profundamente reduzida.

Esse processo é particularmente perverso porque cria um ciclo de retroalimentação da destruição. Florestas degradadas tornam-se mais secas e inflamáveis. Isso favorece incêndios mais intensos, que ampliam ainda mais a degradação. Em um contexto de aquecimento global acelerado, o sistema pode entrar em espiral de colapso.

É precisamente nesse ponto que o debate sobre o chamado “ponto de não retorno” da Amazônia assume centralidade. Cientistas alertam há anos que a combinação entre desmatamento, degradação florestal e mudanças climáticas pode empurrar o bioma para uma transição irreversível em direção a uma savanização parcial. A floresta amazônica depende criticamente de sua própria umidade reciclada para sustentar os regimes de chuva da América do Sul. Quando a floresta perde densidade e continuidade, reduz-se também sua capacidade de gerar os chamados “rios voadores”, comprometendo o equilíbrio climático regional.

A BR-319 corta justamente uma das regiões ainda mais intactas da Amazônia brasileira. Sua pavimentação tende a conectar novas frentes de destruição ao arco do desmatamento, abrindo caminho para a interiorização definitiva do colapso ecológico amazônico. Em outras palavras: trata-se de uma intervenção potencialmente capaz de romper a última grande barreira geográfica contra a expansão da devastação em larga escala.

Tudo isso ocorre num momento de extrema vulnerabilidade climática. A Amazônia já enfrenta secas históricas, rios em níveis criticamente baixos, aumento da mortalidade de árvores e incêndios florestais sem precedentes. Há ainda crescente preocupação científica em torno da possibilidade de um novo super El Niño  em 2026, capaz de produzir efeitos devastadores sobre a capacidade hídrica da floresta. Em um cenário de secas extremas prolongadas, a degradação induzida pela BR-319 pode atuar como catalisador de uma crise ecológica de dimensões continentais.

É nesse contexto que a postura da União Europeia se revela particularmente hipócrita. Bruxelas gosta de se apresentar internacionalmente como liderança global na defesa da sustentabilidade, da transição ecológica e do combate às mudanças climáticas. No entanto, quando entram em cena interesses estratégicos ligados a fertilizantes, mineração e cadeias globais de commodities, os princípios ambientais rapidamente tornam-se flexíveis.

A disposição europeia de dialogar e potencialmente apoiar projetos associados à pavimentação da BR-319 e à mineração em Autazes revela uma velha lógica colonial reciclada em linguagem verde: preservação ambiental no discurso diplomático; flexibilização ambiental na prática quando estão em jogo interesses econômicos e geopolíticos.

A mineração de potássio em Autazes sintetiza perfeitamente essa contradição. O projeto avança sobre uma região ambientalmente sensível e envolve impactos severos sobre territórios indígenas, particularmente do povo Mura, cujos direitos vêm sendo progressivamente relativizados em nome de uma suposta urgência econômica. O que se apresenta como “transição sustentável” revela-se, na realidade, mais um capítulo do extrativismo predatório que transforma a Amazônia em zona de sacrifício para abastecer mercados globais.

Há ainda um elemento profundamente autoritário na retórica oficial: a tentativa de desqualificar qualquer crítica à BR-319 como sendo “anti-desenvolvimento”. Trata-se de uma armadilha ideológica clássica. Questionar a pavimentação da rodovia não significa defender isolamento ou pobreza. Significa reconhecer que repetir, em pleno colapso climático global, o mesmo modelo destrutivo das décadas de 1970 e 1980 representa uma aposta deliberada na intensificação da crise ecológica.

A pergunta central continua sendo: desenvolvimento para quem? Para as populações amazônicas, que enfrentarão secas mais severas, incêndios florestais, conflitos fundiários e perda de segurança hídrica? Ou para grupos minerários, cadeias agroexportadoras e interesses geopolíticos internacionais?

A Amazônia já envia sinais claros de exaustão ecológica. Persistir na pavimentação da BR-319 em meio ao agravamento da emergência climática global não é um projeto de desenvolvimento. É a institucionalização da destruição em larga escala travestida de modernização. E talvez a tragédia maior seja justamente esta: a devastação da floresta deixou de ser clandestina. Agora ela é discutida em reuniões diplomáticas, celebrada em discursos oficiais e legitimada por governos e atores internacionais que continuam falando em sustentabilidade enquanto ajudam a empurrar a Amazônia para o abismo.

A máquina de greenwashing “neutro em carbono” da Petrobras continua operando

Extrair cada vez mais combustíveis fósseis não pode, de forma alguma, ser “neutro em carbono”

Crédito da foto: Refinaria Abreu e Lima, Petrobras.

Por Chris Lang para o REDD-Monitor

A Petrobras é uma gigantesca empresa brasileira de petróleo e gás. Ela é responsável por uma grande contribuição para a crise climática, que está se agravando. Em 2025, a empresa aumentou sua produção de petróleo e gás em 11%.

Em setembro de 2021, a Petrobras foi uma das 12 empresas de petróleo e gás da Iniciativa Climática do Petróleo e Gás (Oil and Gas Climate Initiative) que anunciaram uma estratégia de emissões líquidas zero . A Iniciativa Climática do Petróleo e Gás é uma manobra de greenwashing das grandes poluidoras . Seus membros incluem BP, Chevron, CNPC, Eni, Equinor, ExxonMobil, Occidental, Petrobras, Repsol, Saudi Aramco, Shell e TotalEnergies.

O REDD-Monitor é uma publicação mantida por seus leitores. Assinaturas pagas garantem que todas as publicações do REDD-Monitor permaneçam gratuitas e acessíveis a todos. Se você puder contribuir, uma assinatura paga apoia este trabalho. Obrigado!

Obviamente, essas empresas não planejam interromper a extração e o lucro com a venda de combustíveis fósseis para atingir sua meta de emissões líquidas zero. Em vez disso, elas ignorarão as emissões provenientes da queima de combustíveis fósseis ( emissões de escopo 3 ) e se concentrarão na redução das emissões em suas próprias operações (emissões de escopo 1 e 2).

E, claro, eles compram créditos de carbono. Em seu suplemento “Mudanças climáticas e transição energética 2025 “, publicado recentemente, a Petrobras explica que,

Acreditamos que a compensação de emissões por meio de créditos de carbono pode complementar nossa jornada de descarbonização. Esses créditos podem ser baseados na natureza, aproveitando florestas, solos, oceanos e algas marinhas, ou derivados de soluções tecnológicas. Embora se espere que as compensações sejam utilizadas, elas são concebidas como contribuições suplementares e não substituem a necessidade de um fornecimento de energia com menor emissão de carbono.

A última frase soa bem, mas a Petrobras está aumentando a quantidade de petróleo e gás que extrai. A realidade é que a Petrobras é mais uma grande poluidora que usa créditos de carbono para maquiar suas operações destrutivas.

Gasolina “neutra em carbono”

A Petrobras vende seu Gasolina Podium como “neutro em carbono”. O REDD-Monitor escreveu sobre essa completa farsa em 2023:

Em 2025, a Petrobras comprou 1,2 milhão de créditos de carbono. Eis o que a Petrobras escreveu em seu relatório publicado recentemente:

Desde 2023, investimos no mercado voluntário para compensar as emissões da gasolina Petrobras Podium Carbon Neutral. Em 2025, adquirimos 1,2 milhão de créditos do projeto APD Grouped na Amazônia brasileira, dos quais 455 mil foram utilizados para compensar as emissões do Podium. Os créditos, da safra de 2022, são certificados pelo Verified Carbon Standard (VCS) da Verra.

O projeto APD Agrupado da Amazônia Brasileira foi desenvolvido pela empresa brasileira BRCarbon. O projeto abrange uma área total de mais de 30.000 hectares, composta por 15 propriedades nos estados de Mato Grosso, Acre, Amazonas e Pará.

Em seu site, a empresa desenvolvedora do projeto, BRCarbon, apresenta este mapa da área do projeto:

O projeto vendeu um total de 3.220.904 créditos de carbono. Entre os compradores, além da Petrobras, estão a Air New Zealand, a trip.com, a Rhodia Brasil (agora pertencente à empresa franco-belga Solvay), a PwC International e a Air Canada.

Segundo o Código Florestal brasileiro de 2012, todas as propriedades em áreas florestais devem manter uma área mínima de 80% com cobertura vegetal nativa, constituindo Reserva Legal. Em áreas de cerrado, o percentual é de 35%. O restante da área pode ser legalmente desmatado. O documento do projeto BRCarbon explica que,

Os proprietários de terras que decidirem aderir à iniciativa, renunciando ao seu direito de desmatar legalmente as suas áreas florestais, poderão aceder a recursos financeiros do mercado voluntário de carbono, tornando-se parceiros da BRCarbon.

Adicional? Permanente?

A questão de se o projeto é adicional ou não é discutível — como acontece com todos os projetos REDD . A BRCarbon afirma que “qualquer propriedade privada legalmente constituída dentro do bioma Amazônico, com mais de 80% de cobertura florestal (ou 35% para o Cerrado), é elegível para este projeto agrupado”.

É impossível saber se a floresta permanecerá protegida enquanto as emissões da queima de combustíveis fósseis permanecerem na atmosfera, e enquanto os créditos de carbono do projeto estiverem sendo negociados .

O documento do projeto reconhece que,

A atividade proposta para o projeto é economicamente menos atrativa do que qualquer projeto agrícola, pois não se esperam benefícios financeiros para o proponente do projeto além da receita relacionada ao comércio voluntário e à cadeia de valor, devido à sua implementação.

Em qualquer momento no futuro, um proprietário de terras poderá decidir ganhar mais dinheiro desmatando a floresta, vendendo a madeira e convertendo a terra em pastagens para gado ou plantações de soja.

Mesmo que a floresta permanecesse de pé como resultado do projeto REDD pelos próximos mil anos , os benefícios climáticos seriam anulados pelas operações poluentes das empresas que compram os créditos de carbono.

“Consideramos os mercados de carbono um instrumento crucial no combate às mudanças climáticas e estamos em discussões sobre a implementação de um mercado de carbono regulamentado no Brasil”, escreve a Petrobras .

A empresa está inclusive analisando a possibilidade de gerar seus próprios créditos de carbono, “otimizando a infraestrutura de transporte como alavanca de descarbonização por meio de parcerias público-privadas”.

A indústria de petróleo e gás precisa urgentemente ser regulamentada. Em vez disso, o governo brasileiro está convidando uma das maiores empresas poluidoras do país a ajudar a implementar a brecha do comércio de carbono para permitir que a destruição continue.

Com o agravamento da crise climática, a Amazônia se aproxima cada vez mais de um ponto de inflexão perigoso . Simplesmente não podemos nos dar ao luxo de trocar o carbono armazenado nas florestas por emissões contínuas de combustíveis fósseis. No entanto, é exatamente isso que a Petrobras e outras grandes empresas poluidoras estão fazendo.


Fonte: REDD-Monitor

Conflitos no campo e um punhado de histórias a lembrar

Em um acampamento rural, ouvindo histórias de resistência 

Por Ismael Machado para “Medium”

Há alguns dias a Comissão Pastoral da Terra (CPT), convocou a imprensa, como de hábito, para apresentar o relatório Conflitos no Campo Brasil. Fora de uma redação oficial há alguns meses, até me planejei a ir à sede da CNBB, aqui em Belém, mas outras demandas se impuseram. Ainda assim, passados alguns dias, debrucei-me sobre o material. Ele sempre é um documento precioso sobre os passos para onde o Brasil caminha em relação ao seu território campesino. Essa tarefa, uma das mais importantes vinculadas à Igreja no país vem de longe.

Desde 1985, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) sistematiza e publica anualmente o relatório, consolidando o que considero um dos mais importantes acervos sobre violência agrária e resistência no país. O balanço de 2025, embora aponte uma redução de 28% no número geral de conflitos em relação a 2024 (1.593 ocorrências), revela que a Amazônia permanece como um dos principais epicentros da violência no campo, concentrando disputas territoriais, conflitos pela água, trabalho escravo e assassinatos. Ou seja, num geral, talvez até possamos olhar o copo meio cheio, mas há muitos motivos para enxergar o copo meio vazio também.

O eixo Terra continua predominante, representando 75% das ocorrências. Maranhão, Pará e Rondônia, estados que integram total ou parcialmente a Amazônia Legal, figuram entre os que mais registraram violências. O Pará aparece como segundo estado com maior número de conflitos por terra (142 registros) e lidera os conflitos pela água (21 ocorrências), evidenciando a centralidade amazônica nas disputas envolvendo grilagem, invasões, contaminação por agrotóxicos e atuação de pistoleiros. Ainda que alguns indicadores tenham apresentado queda, o relatório alerta para possíveis subnotificações e para o refinamento das estratégias de intimidação por parte do agronegócio e de empreendimentos ligados ao agro-hidro-minero-negócio.

A Amazônia também se destaca no perfil das vítimas. Povos indígenas foram a categoria que mais sofreu violências no ‘eixo terra’ (258 ocorrências) e também lideram os conflitos pela água (42 registros). Quilombolas, ribeirinhos e posseiros, grupos historicamente vinculados aos territórios amazônicos, aparecem entre os mais atingidos. Há, certamente, o impacto do garimpo ilegal e da contaminação por mercúrio nos rios amazônicos, afetando inclusive a saúde de mulheres e crianças. O que sabemos aponta não apenas a devastação ambiental, mas a ruptura de modos de vida estruturados em torno das águas e florestas.

No campo da violência letal, a Amazônia Legal concentrou 16 dos 26 assassinatos registrados em 2025. Pará e Rondônia lideraram os casos, incluindo dois massacres ocorridos nesses estados. O dado evidencia que, apesar da redução global de conflitos, a letalidade aumentou, indicando maior intensidade e brutalidade nas disputas territoriais amazônicas. Já morei em Rondônia. Sei como funciona o pensamento local sobre o território e sobre a floresta. Ele não entusiasma quem acredita em outra maneira de pensar desenvolvimento. Não à toa, apesar das vozes e ações resistentes, é um dos estados que mais apoia o pensamento destrutivo de quem esteve no comando do país entre 2019 e 2022.

Os conflitos pela água, ainda que tenham diminuído numericamente (148 ocorrências), continuam fortemente associados à realidade amazônica. A atuação de mineradoras, garimpeiros e usinas hidrelétricas impacta diretamente rios e lençóis freáticos, comprometendo o acesso à água por comunidades tradicionais. Na Amazônia, onde o território é indissociável dos cursos d’água, esses conflitos assumem dimensão estrutural, envolvendo tanto a poluição quanto a apropriação privada dos bens comuns.

O relatório também registra crescimento nas violências por omissão e conivência do poder público (224 ocorrências), muitas relacionadas à não demarcação de terras indígenas e à não titulação de territórios quilombolas, impasses que incidem fortemente sobre a região amazônica, onde a regularização fundiária é historicamente marcada por conflitos, grilagem e sobreposição de interesses econômicos.

No que se refere ao trabalho escravo rural, embora os maiores números absolutos apareçam em estados como Mato Grosso e Minas Gerais, atividades predominantes na região Norte, como pecuária e mineração, continuam figurando entre os setores com trabalhadores resgatados. Isso reforça a ligação entre expansão predatória da fronteira econômica amazônica e degradação das condições de trabalho.

Por fim, o relatório destaca que, paralelamente à violência, persistem ações de resistência. Povos indígenas amazônicos tiveram presença expressiva nas mobilizações contra o chamado “PL da Devastação”, contra o Marco Temporal e diante de grandes empreendimentos de infraestrutura e energia. A fala de lideranças do Pará sintetiza o sentido político da publicação. Ao registrar conflitos se rompe o silêncio histórico imposto às populações da floresta e afirmamos a memória dos que tombaram.

Assim, mesmo diante da redução estatística geral, o panorama de 2025 confirma que a Amazônia permanece como território estratégico e tensionado, onde se cruzam interesses do agronegócio, mineração, grandes obras e políticas fundiárias, em confronto direto com povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e trabalhadores rurais. O relatório da CPT evidencia que a questão amazônica não é periférica no cenário dos conflitos agrários brasileiros. Na verdade, ela constitui seu núcleo mais sensível e explosivo, onde se articulam devastação ambiental, violência estrutural e resistência coletiva.

Particularmente, o tema sempre me foi transversal. Como repórter de campo, testemunhei fatos correlacionados, ouvi histórias de quem foi atravessado por essa violência e tentei transformar estatística em relatos de carne e osso.

Anos atrás, percorri, primeiro como correspondente de O Globo e depois como repórter especial do Diário do Pará, as estradas do Sul e Sudeste paraense para contar histórias de assassinatos que, embora noticiados como casos isolados, revelavam uma engrenagem persistente de pistolagem, disputas fundiárias e silenciamento. Atravessei trechos de chão batido e estradas mal pavimentadas entre Rio Maria, Xinguara, Marabá, Parauapebas, Itupiranga, Bom Jesus do Tocantins, Nova Ipixuna e São Félix do Xingu, por exemplo. O que encontrei não foi apenas uma sucessão de mortes por encomenda, mas um mapa de ausências e, sobretudo, a permanência das mulheres que ficaram. Esse era um ponto central nisso tudo. Não à toa, uma série de reportagens minha numa parceria entre a Agência Pública e o Diário do Pará se tornou a primeira a dar um prêmio jornalístico à Pública. Chamava-se ‘Marcadas para morrer’. Não ganhou o Esso porque os avaliadores não souberam como classificá-la entre impresso e online, como eram divididas as categorias antes. Isso foi explicado pela coordenação do prêmio à Marina Amaral e Natália Viana, as fundadoras da Pública.

Naquele período (antes e depois), ouvi o pessoal da Comissão Pastoral da Terra, professoras, viúvas, filhas e netas de gente assassinada. Essas vozes relatavam como, depois da emboscada fatal, não restava apenas o luto, mas também a reorganização forçada da vida material, a exposição a novas ameaças e a travessia solitária pelos corredores das delegacias, fóruns e tribunais em busca de justiça. A cada entrevista, eu percebia que a violência nunca terminava no disparo. Ela se prolongava na burocracia inerte, nas investigações incompletas e na naturalização do medo. O advogado da CPT, João Batista Afonso, sempre me lembrava ser a impunidade o traço principal da maioria desses crimes. O elo a unir essas histórias.

Em Rio Maria, reconstituí anos depois a trajetória da família de João Canuto, assassinado em 1985, quando presidia o sindicato local. Ao conversar com Luzia Canuto, sua filha, numa tarde quente, mas suavizada com um suco de caju, compreendi como o crime ultrapassara a dimensão individual e se tornara um divisor na história política da região. A casa simples, de madeira, era também arquivo e trincheira. Luzia narrava a perseguição ao pai, a continuidade da militância pelos filhos e os sequestros e assassinatos que se seguiram. Minha presença ali era a de quem anotava uma memória que se recusava a ser apaziguada.

Nos arredores de Marabá, ouvi Luciene Costa rememorar o assassinato do marido, coordenador de acampamentos em Bom Jesus do Tocantins. Ela me mostrou fotografias, recortes de jornal, datas guardadas com exatidão. Percorri o trecho onde ele fora morto, entre Nova Ipixuna e Bom Jesus. Luciene relatava as ameaças, a frase dita na última manhã. Ao registrar sua fala, eu tinha a nítida percepção de que o jornalismo, naquele contexto, funcionava como uma das poucas formas de inscrição pública contra o esquecimento.

Em outra viagem a Rio Maria, conheci Patrícia da Silva Rosa, neta de Elça Gonçalves da Silva. A chácara ficava a poucos quilômetros do centro. Reconstituí com ela o percurso de um suposto agiota, as ameaças, o boletim de ocorrência, o disparo ouvido do banheiro. O inquérito fora reduzido a latrocínio, apesar das contradições. Eu saí dali com a sensação de que a versão oficial, muitas vezes, era mais um mecanismo de encerramento precoce para as investigações.

Em Itupiranga, sentei-me na varanda de Antônia Alves para falar sobre o assassinato do sindicalista Pedro André. O executor fora condenado, mas as suspeitas sobre mandantes permaneciam difusas. Antônia descrevia disputas internas no sindicato e possíveis desvios de recursos. Seu filho, ainda criança à época, ouvira ameaças veladas dias antes do crime.

Também estive com Dulcinéia Zuqueto, viúva de Domingos Santos da Silva, morto diante de casa. Ela descreveu o homem que sondara a venda de terras, o volume do revólver sob a camisa, os tiros ouvidos enquanto ainda montava na moto. Falava do trauma que persistia nos estampidos de fogos de artifício. Ali, compreendi que o medo não se dissolvia com o tempo. Ele se reconfigurava como estado permanente de vigilância e perda.

Em Parauapebas, acompanhei a dor de Maria Alves, viúva de Soares da Costa Filho. As investigações apontaram mandante, intermediário e executores. Parte respondia em liberdade. Maria descrevia a dificuldade de sustentar a casa e criar a criança que haviam acolhido pouco antes do assassinato. Ao ouvir sua narrativa, percebi como a expressão “preço da encomenda”, R$ 12 mil para aquele crime, condensava uma lógica brutal de equivalências, com vidas convertidas em cifras modestas.

No acampamento Zumbi dos Palmares, próximo a Marabá, conversei com Kátia Cilene, viúva de Pedro Laurindo da Silva. O pistoleiro fora preso alegando dívida irrisória. O barraco de palha, a estrada quase intransitável, as famílias assentadas, compunham o cenário de uma luta cotidiana pela terra. Kátia tentava reorganizar a vida entre a maternidade, a gravidez e a busca por um recomeçar. Ao deixar o acampamento, a precariedade material contrastava com a clareza política que me vinha, entendendo que o conflito fundiário não era episódico, mas estrutural.

Era exatamente assim que eu iniciava a reportagem sobre essa mulher negra:

Kátia Cilene Pereira dos Santos tem 24 anos, quatro filhos e uma lágrima que teima em cair sempre que, por um motivo ou outro, precisa vasculhar a memória para falar do marido, Pedro Laurindo da Silva, assassinado no dia 17 de novembro de 2005, com dois tiros, às 19h30, a cerca de 200 metros de distância da sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Marabá. O crime foi encomendado possivelmente por um fazendeiro da região. Quem executou o sindicalista foi o pistoleiro Valdemir Coelho Pereira, que até duas semanas atrás estava em liberdade, mas que acabou sendo detido novamente por porte ilegal de arma, enquanto supostamente fazia uma tocaia num local conhecido como “Ponte do Bugrinho”, na estrada que liga Marabá a Rio Preto. Kátia Cilene vive no acampamento Zumbi dos Palmares, distante cerca de 50 km do centro de Marabá. No meio da mata pouco preservada, 79 famílias de sem-terra aguardam há cinco anos a regularização das terras. No mesmo local, há poucas semanas, Valdemir foi visto rondando as barracas de palha. Dois meses atrás teria ameaçado de morte João Batista Braga, o atual coordenador do acampamento. Valdemir já foi vaqueiro da fazenda ocupada pelos sem-terra.

Press enter or click to view image in full size

Kátia Cilene, relembrando a dor (foto: Ismael Machado)

Relembrando esses trabalhos, reconheço o quanto eles foram importantes para me situar como cidadão também. As estradas paraenses não eram apenas vias de acesso. Faziam parte da narrativa. Nelas se cruzavam fazendeiros, sindicalistas, jagunços, policiais, advogados, padres, professoras. Nelas também se delineava um padrão. A execução de lideranças, a intimidação da família, a investigação fragmentada, a prisão eventual do executor, a rarefação de condenações aos mandantes.

Ao transformar aquelas entrevistas em reportagem, percebia como, após cada assassinato, eram as mulheres que reorganizavam a sobrevivência. Tanto econômica, como afetiva e política. Elas assumiam a condução da casa, enfrentavam audiências, mantinham viva a memória dos mortos e, em alguns casos, davam continuidade à militância. Minha vivência pelas estradas do Pará revelou que para além de casos criminais, o que se descortinava à minha frente era um processo histórico em curso, no qual a disputa pela terra e pelo poder local produzia, na maioria das vezes, viúvas, órfãos e uma sensação recorrente de justiça interrompida. Esse percurso moldou minha compreensão do jornalismo como prática de presença. Ao rememorar essas reportagens, que ainda guardo em meus arquivos, sinto que cada quilômetro percorrido foi também uma tentativa de inscrever, no espaço público que me foi permitido, vozes que insistiam em não se calar, mesmo quando tudo ao redor sugeria silêncio. E é em um silêncio respeitoso que as lembro.

*Ismael Machado é jornalista


Fonte: Medium

Pouco estudada, névoa da Amazônia tem papel ambiental, indica pesquisa

Fenômeno que ocorre na altura da copa das árvores revela dinâmica intrincada entre microrganismos e a umidade que a floresta produz

Pouco estudada, névoa da Amazônia tem papel ambiental, indica pesquisa -  Ciência UFPR

Por Camille Bropp para “Ciência UFPR” 

O ponto a 43 metros de altura de uma plataforma metálica no meio da Floresta Amazônica, na Estação Científica de Uatumã, tem sido o local de trabalho recorrente da pesquisadora curitibana Bruna Sebben nos últimos sete anos. No Observatório de Torre Alta (ATTO), aonde se chega do aeroporto de Manaus por um trajeto de seis horas que envolve rodovia, barco e estrada de terra, pesquisadores do Brasil e da Alemanha buscam entender a relação entre floresta e atmosfera.

Para Bruna Sebben, estar na Amazônia significa desvendar a dinâmica e as funções da neblina amazônica. Talvez pouca gente saiba, mas a névoa é um fenômeno frequente da floresta. Ocorre entre as 3 e as 7 horas da manhã, coincidindo com o nascer do dia. Gera uma massa densa que envolve a vegetação e muda a paisagem na copa das árvores, entre 30 e 150 metros de altura.

“A floresta é de tirar o fôlego, uma experiência multissensorial que envolve visuais, sons e cheiros. Os diferentes tons de verde, a movimentação da copa pelo vento. E, no meio de tudo isso, uma torre, da qual se vê até mesmo o relevo por baixo desta selva”, descreve a cientista vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Engenharia Ambiental na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

A neblina é resultado da perda de calor para a atmosfera à noite e de como esse resfriamento impacta a umidade (o vapor d’água) que a floresta produz o tempo todo. Além de uma característica da Amazônia, a neblina é um dos processos do ciclo da água que fazem da floresta a “bomba d’água” do planeta. Mas, ao contrário dos rios voadores — as correntes de umidade que circulam pela Terra impulsionados pela floresta —, a neblina é menos estudada porque sua presença é local.

Resultado da pesquisa de mestrado de Bruna Sebben, um estudo publicado com outros 35 autores no periódico Communications Earth & Environment traz elucidações sobre o papel ambiental da neblina amazônica. A pesquisa foi liderada pelo professor Ricardo Godoi, orientador da pesquisadora no mestrado que também coordena o Laboratório de Análise e Qualidade do Ar (LabAir) da UFPR.

As análises indicaram que a neblina sustenta a vida microscópica da floresta, dispersando nutrientes e servindo de habitat para microrganismos, como fungos e bactérias. Também é uma facilitadora dos ciclos biogeoquímicos, ou seja, dos ciclos naturais que “reciclam” os elementos químicos necessários à vida, como água, carbono, nitrogênio e fósforo.

(Clique para ampliar | Baixe em pdf)

A vida que mora na neblina amazônica

Neblinas são formadas basicamente por água condensada, o vapor de água que acabou de passar para o estado líquido. A pesquisa constatou que a neblina amazônica consegue carregar pela atmosfera partículas químicas, mas também microrganismos e até fragmentos de seres vivos macroscópicos (visíveis a olho nu).

Assim, a análise revelou que a neblina é um habitat temporário para microrganismos ativos. As amostras apresentaram concentrações de até 98 mil células por mililitro de água. Ou seja, a névoa é o ambiente de comunidades vivas de bactérias e de fungos que têm funções ambientais importantes.

“Estávamos dando um tiro no escuro. Claro que tínhamos uma noção da microbiota atmosférica da Amazônia, por conta de estudos de outros colegas, mas nossa ideia era observar como esses micro-organismos se comportam durante os eventos de nevoeiro. De forma geral, os fungos e as bactérias observados são essenciais para a decomposição da matéria orgânica e a reposição de nutrientes ao solo”, conta a pesquisadora.

No caso das bactérias, foram encontradas oito espécies vidas. Entre as mais frequentes estão a Sphingomonas paucimobilis e a Pseudomonas putida, que têm função no ciclo do fósforo, ajudando na fertilidade do solo. Houve ainda registros de bactérias que agem na decomposição de compostos orgânicos (Serratia marcescens e Ralstonia pickettii).

Em situações específicas, como em ambientes hospitalares ou frequentados por pessoas com problemas de imunidade, algumas dessas espécies são capazes de provocar infecções no ser humano. Na floresta, porém, têm funções ecológicas reconhecidas pela ciência e participam do equilíbrio de locais sem interferência humana, caso do ponto de vegetação contínua onde foram colhidas as amostras.

Nevoeiro age como uma ponte de água entre a atmosfera e o solo

O diferencial da pesquisa está em apresentar o nevoeiro como um transportador desses microrganismos vivos, ultrapassando a imagem dele como fenômeno meteorológico.

Segundo os cientistas, a neblina funciona como uma ponte biológica que facilita o transporte vertical (do ar para o solo) de bactérias e fungos. Assim, esses micro-organismos que costumam ficar suspensos no ar, acima da copa das árvores, acabam depositados vivos sobre as superfícies das plantas e do solo.

“As gotículas do nevoeiro atuam como forma de transporte ‘agradável’ para essas espécies microbiológicas. Cria um ambiente favorável para a atividade metabólica [as reações químicas de troca com o ambiente que mantêm um organismo vivo], porque as protege da radiação solar e da desidratação”, avalia a pesquisadora.

“Quando o nevoeiro goteja nas folhas e no solo esses microrganismos são depositados ainda metabolicamente ativos, facilitando seu papel ecológico e populando outras regiões”.

Descendo à altura das árvores, esses micro-organismos passam a compor as colônias que vivem sobre a superfície das plantas, outro universo particular chamado de filosfera. Essa relação com bactérias e fungos costuma proteger as plantas contra doenças, secas e radiação solar, além de beneficiar o seu crescimento pela produção de hormônios vegetais.

Ainda na graduação em Engenharia Ambiental da UFPR, Bruna Sebben examinou como esporos (células de reprodução de plantas, fungos e bactérias) e pólens de plantas da Amazônia se relacionam com a neblina. A conclusão foi de que, nesse caso, o nevoeiro funciona como ambiente de preservação dessas partículas, mais do que de transporte.

“No meu TCC observamos que, para noites com nevoeiro, a quantidade de esporos de fungos era muito maior, isso nos deixou pensativos sobre essa relação, se o nevoeiro permitia a emissão ou se a emissão favorecia a formação de nevoeiro. No fim descobrimos essa conexão intrínseca, os dois se potencializam”.

Colaboração mútua: o mundo microscópico depende do nevoeiro e ajuda a provocar o fenômeno

Outra indicação do estudo é que os micróbios e demais partículas da neblina amazônica ajudam que o próprio fenômeno exista.

Isso porque essas partes sólidas agem de duas formas para que a água do vapor da floresta se condense. Primeiro, pela sua capacidade de absorver água, o que atrai mais umidade para a região onde ocorre a neblina.

A outra forma é pela carga elétrica. As paredes celulares de muitos microrganismos possuem carga superficial negativa. Essa carga negativa é atraída pelas gotas de água, facilitando a incorporação e a estabilidade dos seres vivos dentro da neblina.

Essas características mostram a facilitação que gera a dependência mútua entre a comunidade de micróbios e a neblina.

No artigo, cientistas descrevem essa relação como colaborativa. Os microrganismos ajudam a criar a gota d’água ao servirem de base para a condensação. Em troca, ganham um microhabitat protegido contra a radiação solar, poluentes e desidratação, o que garante sua sobrevivência durante o transporte pela floresta.

Dessa forma, os microrganismos não são apenas passageiros passivos, porque agem na dinâmica das nuvens baixas na Amazônia.

Assim sendo, queimadas e desmatamento, dois problemas da Floresta Amazônica, afetam a neblina tanto aumentando as temperaturas quanto impedindo que a comunidade de micróbios permaneça vida e ativa.

Ainda que tenha havido queda nos alertas dos últimos três anos, segundo a medição do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) entre janeiro e março de 2026 a floresta perdeu 348 quilômetros quadrados por desmatamento.

No mesmo período, a Amazônia figura no sistema do Inpe como o bioma com mais área queimada (quase 9,4 mil quilômetros quadrados).

A neblina ocorre em áreas contínuas de floresta, o que significa que sua presença é um indicativo dos locais intocados e dos que mostram capacidade de se adaptar aos problemas.

“Quanto maior o desmatamento, menor a frequência e intensidade do nevoeiro. Então definitivamente existe um feedback entre estes fatores. Uma rigorosa fiscalização contra queimadas e desmatamento é necessária”, acredita Bruna Sebben.

Instalação do dispositivo para coleta de amostras, no observatório da Estação Científica de Uatumã

Um parêntese: como se coletam amostras de neblina?

Para coletar a neblina na Amazônia, os pesquisadores utilizaram a versão pequena de um dispositivo científico que colhe amostras de gotículas de nuvens e névoa. O aparelho coleta gotículas por meio de fileiras de fios de Teflon, material que não altera a composição das gotas e permite que elas gotas se acumulem quando o vento da névoa passa em alta velocidade.

“As gotinhas de nevoeiro impactam [nos fios] e ‘pingam’ em uma garrafa. Quando o nevoeiro é muito denso conseguimos coletar mais de 125 mililitros”, explica Bruna Sebben.

Para a pesquisa, o amostrador foi instalado a 43 metros de altura em uma plataforma no lado nordeste da torre principal do Observatório de Torre Alta da Amazônia (ATTO), que possui 325 metros no total. Localizado no Amazonas, o observatório é uma parceria entre Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o Instituto Max Planck, da Alemanha.

As mostras de névoa foram coletadas três vezes entre 2022 e 2023, de 13 nevoeiros diferentes.

Depois de recolhida, a água de névoa coletada precisa ser acondicionada em garrafas esterilizadas, para impedir contaminação. Essa parte da pesquisa ficou a cargo do LabAir da UFPR, em Curitiba, especializado em estudos ambientais relacionados ao ar

Também foram realizadas na UFPR, no Laboratory of Cancer Drug Resistance, as análises de citometria de fluxo. Essa técnica laboratorial usa laser e corantes fluorescentes para quantificar a concentração total de células e avaliar se os microrganismos estão vivos e viáveis (o equivalente a “saudáveis” para seres unicelulares).

Por fim, as partículas encontradas na névoa foram incubadas sob temperaturas controladas. Assim fungos e bactérias cresceram e as espécies puderam ser isoladas e identificadas. O principal método para isso, a espectrometria de massa, que analisa a estrutura química dos microrganismos, ocorreu no Laboratório de Micologia no Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo.

Como resultado, o estudo, financiado por agências públicas, entre elas o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), quantificou que dezenas de milhares de seres vivos habitam cada gota de névoa.

➕ Leia o artigo “Amazonian fog harbors viable microbes, publicado na Communications Earth & Environment (em inglês; aberto) 


FONTE: Ciência UFPR

A Amazônia está secando: o desmatamento empurra a floresta para o ponto de ruptura

Novo estudo publicado na Nature revela que a destruição da floresta reduz a reciclagem de umidade, intensifica secas e pode provocar um colapso climático em larga escala ainda neste século

A Amazônia está mais perto do ponto de ruptura do que imaginávamos.  Um novo estudo publicado na revista científica Nature alerta que o desmatamento está reduzindo drasticamente a capacidade da floresta de produzir sua própria chuva — e isso pode empurrar o maior bioma tropical do planeta para uma transição ecológica irreversível ainda neste século.

Segundo os pesquisadores, o problema não é apenas o aquecimento global isoladamente. O verdadeiro perigo surge da combinação entre mudanças climáticas, secas extremas e avanço do desmatamento. Juntos, esses fatores enfraquecem o mecanismo que mantém a floresta viva: a reciclagem de umidade atmosférica.

A floresta que fabrica chuva

A Amazônia funciona como uma gigantesca bomba de umidade. As árvores absorvem água do solo e a devolvem à atmosfera por meio da transpiração. Esse vapor forma nuvens e gera novas chuvas, criando um ciclo essencial para a própria sobrevivência da floresta.

Os cientistas estimam que até metade da chuva que cai sobre a Amazônia é produzida pela própria floresta. Sem essa reciclagem, o sistema perde estabilidade.

E há um detalhe decisivo: o desmatamento rompe justamente esse mecanismo.

Quando áreas florestais são derrubadas, menos água evapora para a atmosfera. O ar se torna mais seco, as estações secas ficam mais longas e a floresta remanescente passa a sofrer um estresse hídrico crescente. O resultado é um efeito dominó: regiões desmatadas reduzem as chuvas em áreas vizinhas, que também começam a secar.

O risco das “transições em cascata”

O estudo mostra que o maior perigo não está apenas na perda local da vegetação, mas nas chamadas “transições em cascata”.

Na prática, isso significa que o colapso de uma área pode desencadear o colapso de outras regiões a centenas ou até milhares de quilômetros de distância. Como a umidade circula pela atmosfera, a degradação da floresta se espalha pela rede climática amazônica.

Os pesquisadores descobriram que essas cascatas respondem pela imensa maioria das transições simuladas.

Ou seja: a Amazônia não entra em colapso apenas porque fica mais quente. Ela entra em colapso porque deixa de conseguir produzir e distribuir chuva para si mesma.

Um limite perigoso já pode estar próximo

Sem considerar o desmatamento, o estudo estima que a Amazônia enfrentaria um risco crítico de instabilidade em níveis de aquecimento global entre 3,7 °C e 4 °C.

Mas quando o desmatamento entra na conta, o cenário muda radicalmente.

Os pesquisadores concluíram que uma transição sistêmica pode ocorrer com um aquecimento muito menor — entre 1,5 °C e 1,9 °C — combinado a níveis de desmatamento entre 22% e 28% da floresta.

Hoje, o desmatamento acumulado da Amazônia já ultrapassa 15% do bioma.

Isso significa que o sistema pode estar perigosamente próximo de um limiar crítico.

O oeste amazônico pode ser o mais vulnerável

Um dos resultados mais preocupantes do estudo é a identificação das regiões oeste e sudoeste da Amazônia como particularmente vulneráveis.

Essas áreas dependem fortemente da umidade transportada por outras partes da floresta. Quando o desmatamento avança no sul e no leste — especialmente no chamado “arco do desmatamento” — a umidade deixa de chegar às regiões interiores.

A consequência pode ser devastadora: secas mais intensas, aumento de incêndios, perda de biodiversidade e transformação gradual da floresta em ecossistemas degradados, mais semelhantes a savanas secas.

Impactos muito além da Amazônia

Os efeitos não ficariam restritos ao Norte do Brasil.

A Amazônia influencia diretamente os chamados “rios voadores”, correntes atmosféricas que transportam umidade para outras regiões da América do Sul. O enfraquecimento desse sistema ameaça a disponibilidade hídrica e a produtividade agrícola em áreas fundamentais para a economia continental.

Os pesquisadores alertam que regiões agrícolas do sul do Brasil, Bolívia, Paraguai e da bacia do Rio da Prata podem sofrer impactos severos.

Isso significa risco para a produção de alimentos, geração de energia hidrelétrica e abastecimento urbano.

Um alerta global

O estudo reforça algo que cientistas vêm dizendo há décadas: proteger a Amazônia não é apenas uma questão ambiental regional. Trata-se de um tema central para a estabilidade climática do planeta.

A floresta amazônica é um dos maiores reguladores climáticos da Terra e desempenha papel decisivo no armazenamento de carbono, na circulação atmosférica e no equilíbrio hidrológico sul-americano.

Se a floresta perder sua capacidade de se autorregular, o mundo inteiro sentirá as consequências.

Ainda há tempo — mas a janela está se fechando

Apesar do cenário alarmante, os pesquisadores afirmam que a transição não é inevitável.

O estudo aponta que interromper o desmatamento e restaurar áreas degradadas pode fortalecer novamente a reciclagem de umidade e aumentar a resiliência da floresta.

Projetos de restauração ecológica, especialmente nas áreas mais degradadas do arco do desmatamento, podem funcionar como barreiras contra o avanço do colapso climático.

Mas o tempo é curto.

Cada hectare derrubado não representa apenas a perda de árvores. Representa também menos chuva, mais calor, mais seca e uma floresta progressivamente incapaz de sustentar a si mesma.

A Amazônia não está apenas sendo destruída. Ela está sendo desconectada do sistema climático que a mantém viva.

Em simulação de mudanças climáticas, plantas da Amazônia se reestruturam para absorver nutrientes

Vegetação amazônica se mostra competitiva e resiliente quando submetida a cenário simulado de aumento de gás carbônico e escassez de fósforo no solo

rtigo destaca a importância da continuidade de estudos sobre o fenômeno conhecido como fertilização por CO₂.

 

Um experimento que simula o futuro do aumento das concentrações de CO₂ atmosférico em plena floresta amazônica revela comportamento organizado, competitivo e resiliente da floresta nesse cenário com maior presença do gás, que agrava o efeito estufa, e com solo escasso em fósforo – importante nutriente da flora nativa. Publicadas em artigo na revista Nature Communications na terça (28), as constatações reforçam a importância do bioma no combate às mudanças do clima.

Em condições adversas, as raízes das plantas situadas na serrapilheira ficaram mais longas e finas. As raízes fixadas no solo tiveram aumento de colonização por fungos, o que pode influenciar a competição entre plantas e microorganismos pelos recursos disponíveis.

Ao longo de dois anos, a partir de 2019, os pesquisadores puderam coletar informações de um sub-bosque da Amazônia, com árvores de até três metros de altura, que são submetidas ao aumento da concentração de dióxido de carbono, o CO₂, por câmeras de topo aberto. O experimento é realizado pelo programa AmazonFACE, vinculado ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). O programa é uma parceria dos governos brasileiro e britânico, sediado no Instituto Nacional de Pesquisa (INPA) e co-coordenado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Localizada a 70 quilômetros de Manaus, a iniciativa existe desde 2014; no final de 2023 o experimento com a câmara de topo aberto foi encerrado e em maio de 2026 o experimento FACE, com enriquecimento de CO2 ao ar livre, iniciará.

Um estudo anterior no mesmo experimento revelou que as plantas aumentaram substancialmente o seu crescimento por conta das adaptações, resultando em aumento da assimilação do carbono em 67% e em aumento do diâmetro do caule em 65%. Os resultados acumulados até o momento apontam para uma “fertilização por CO₂”, fenômeno que ainda precisa ser aprofundado, segundo o artigo.

Assim, a pesquisa mostra que tanto plantas quanto microrganismos se reorganizaram rapidamente para absorver nutrientes diante do cenário atípico. “Essa rápida adaptabilidade da comunidade de plantas, investindo em múltiplas estratégias para aquisição de nutrientes, reforça a importância da interação com o fósforo para a possível capacidade da floresta de continuar atuando como um sumidouro de carbono e resiliência da floresta frente às mudanças climáticas”, explica Nathielly Martins, autora principal do estudo.

Para a autora, o estudo contribui para o entendimento de cenários climáticos futuros em todo o planeta. No entanto, a Amazônia é um dos biomas mais afetados por extremos climáticos nos últimos anos, como secas e alagamentos. “Os resultados observados até o momento são únicos e nos guiarão para uma melhor compreensão da floresta amazônica como um todo em resposta às mudanças climáticas”, conclui Martins.


Fonte: Agência Bori

Um acerto de contas na Amazônia

Líderes indígenas, comunidades tradicionais e pesquisadores estão resistindo ao desenvolvimento na floresta amazônica, que poderia levar seus ecossistemas a ultrapassar pontos de inflexão irreversíveis

Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil, durante visita às instalações da Regap, no Distrito Industrial Paulo Camilo Sul. Imagem: Ricardo Stuckert /  / Creative Commons 4.0.

Por Monica Piccinini para “The Ecologist” 

Fumaça paira sobre o sul da Amazônia, onde apenas algumas semanas atrás havia floresta. Ao longo de novas rodovias, caminhões de gado passam por rios com níveis de água baixos, e no vasto Cerrado vizinho, a soja se estende em direção a um horizonte antes coberto por vegetação nativa. O que está acontecendo não é um surto isolado de desmatamento, mas um momento decisivo para o modelo econômico que molda o Brasil moderno. 

Da carne bovina aos biocombustíveis, passando por créditos de carbono, blocos de petróleo e mega-represas, esta edição especial traça como práticas extrativistas familiares estão sendo reformuladas na linguagem do crescimento verde. Projetos de infraestrutura como a rodovia BR-319, a expansão das fronteiras dos combustíveis fósseis e o enfraquecimento das salvaguardas ambientais expõem um abismo crescente entre as promessas climáticas e a realidade. Esta não é apenas uma história de perdas, mas também de resistência. 

Líderes indígenas, comunidades tradicionais e pesquisadores resistem a um caminho que pode levar esses ecossistemas a pontos de inflexão irreversíveis. As consequências vão muito além das fronteiras do Brasil. O que acontecer lá terá repercussões nos sistemas alimentares globais, nos ciclos da água e no próprio clima.

Leis o Relatório Completo ( PDF )

O que está em jogo

O desmatamento e a degradação florestal deixaram de ser fenômenos distantes em grande parte da Amazônia meridional brasileira. Fazem parte do cotidiano. Caminhões transportam gado por estradas recém-abertas; nuvens de fumaça se elevam de campos onde, poucas semanas antes, havia floresta. Durante a estação seca, os rios começam a secar, o horizonte se torna uma linha cinza opaca e o cheiro de madeira queimada se espalha por quilômetros, às vezes por dias. Em conjunto, essas histórias revelam não uma crise isolada, mas uma complexa teia de pressões ecológicas, políticas e econômicas que irão remodelar a Amazônia e o Cerrado nas próximas décadas. Isso não é obra de alguns poucos indivíduos isolados. É o resultado de decisões tomadas em escritórios e salas de negociação distantes, em Brasília, São Paulo, Pequim e capitais europeias. A demanda global, acordos políticos, novas rodovias e pacotes de financiamento convergem aqui, na orla da floresta. 

Na Amazônia e no Cerrado vizinho, forças poderosas colidem. O agronegócio avança cada vez mais em terras intocadas, enquanto projetos de petróleo e gás progridem, barragens são construídas e rodovias como a BR-319 atravessam regiões remotas. Ao mesmo tempo, batalhas por direitos territoriais indígenas e proteção ambiental se desenrolam silenciosamente no Congresso e nos tribunais, muitas vezes longe dos olhos do público, mas com consequências duradouras no terreno. Paralelamente a essa expansão, surge uma nova promessa: um futuro “verde” baseado em  biocombustíveis ,  mercados de carbono e a chamada  bioeconomia . Essas ideias são vendidas como soluções climáticas. Elas atraem investidores e aplausos. Mas muitas comunidades indígenas e tradicionais fazem uma pergunta simples: isso realmente manterá a floresta de pé, ou é extração disfarçada de discurso mais ameno?

As escolhas feitas agora moldarão essas paisagens e as vidas a elas ligadas, por gerações.

As consequências vão muito além do Brasil. A Amazônia e o Cerrado regulam  as chuvas em toda a América do Sul e ajudam a estabilizar o clima global, armazenando imensas quantidades de carbono. Só a Amazônia abriga mais da metade das florestas tropicais remanescentes do mundo e uma parcela extraordinária de sua vida selvagem. Se ela entrar em colapso a ponto de não se recuperar, as consequências serão sentidas nas colheitas, no abastecimento de água, na saúde pública e nas economias em todos os continentes. O que está acontecendo não é uma crise isolada, mas uma complexa teia de pressões políticas, econômicas e ecológicas. As escolhas feitas agora moldarão essas paisagens e as vidas a elas ligadas, por gerações.

Carne bovina e soja

O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de carne bovina, abastecendo os mercados da China, Europa, Oriente Médio, Reino Unido e outros países. No entanto, a pecuária continua sendo o principal  fator de desmatamento e degradação na Amazônia brasileira. Vastos trechos de floresta são desmatados, muitas vezes ilegalmente, e convertidos em pastagens, uma transformação que pode levar semanas, mas cujos efeitos perduram por gerações. Pesquisadores que monitoram os padrões de desmatamento estimam que cerca de 80% das terras desmatadas na Amazônia acabam sendo convertidas em pastagens para gado. As implicações para os gases de efeito estufa são profundas: as emissões provenientes do desmatamento, incêndios,  metano e degradação do solo fazem do setor pecuário um dos maiores passivos climáticos do Brasil.

Os territórios indígenas estão cada vez mais cercados por pastagens. Incêndios provocados para limpar a terra frequentemente se alastram para as bordas das florestas, degradando ecossistemas que evoluíram sem queimadas regulares. Em anos de seca, esses incêndios podem ficar fora de controle. A fumaça não respeita as fronteiras demarcadas nos mapas. Para as comunidades que vivem na floresta, as consequências são imediatas. Os rios ficam obstruídos por sedimentos, os estoques de peixes diminuem e a fumaça aumenta as doenças respiratórias entre crianças e idosos. 

Luciana Gatti, pesquisadora sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), afirmou: “Houve um aumento enorme nas exportações de madeira, carne bovina, soja, milho e minerais. Este é um projeto baseado na destruição da natureza para a venda de commodities primárias.  Os sistemas hídricos são prejudicados por esses modelos de desenvolvimento, com graves consequências para os ecossistemas e para a população brasileira, ao mesmo tempo que concentram riqueza e poder nas mãos de grandes latifundiários.”

Embora a pecuária seja a principal causa do desmatamento e da degradação na Amazônia,  a soja transformou o Cerrado, uma região de pastagens, florestas e savanas que abrange mais de 2 milhões de quilômetros quadrados e alimenta as nascentes de oito das doze principais bacias hidrográficas do Brasil. Nas últimas cinco décadas, metade do Cerrado foi destruída. A soja industrial, grande parte destinada à alimentação animal para abastecer a China, a Europa, o Reino Unido e outros países, continua a se expandir e a destruir as áreas remanescentes. Diferentemente da Amazônia, o Cerrado possui menos proteções legais e menos fiscalização internacional. Com o endurecimento das leis em algumas partes da Amazônia, o agronegócio migrou para o Cerrado, onde a governança é muito mais frágil. Cássio Cardoso Pereira, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), afirmou: 

“Ao contrário da Amazônia, a maior parte do desmatamento no Cerrado ainda é legalmente permitida, o que protege as corporações e as cadeias de suprimentos da fiscalização. A responsabilização internacional falhou porque as estruturas globais de clima e biodiversidade negligenciam amplamente os campos e savanas, tratando-os como paisagens descartáveis ​​em vez de ecossistemas críticos.”

O sistema hídrico do Brasil  depende de uma delicada parceria entre a floresta amazônica e o Cerrado. Juntos, eles formam um vasto sistema hidrológico que transporta umidade pela atmosfera, armazena água subterrânea e estabiliza as bacias hidrográficas em grande parte da América do Sul. A bacia amazônica é o maior sistema de água doce do planeta, e o Cerrado abriga cerca de 80% das bacias hidrográficas do Brasil. Apesar dessa abundância, o Brasil está entrando em uma crise hídrica. Com o desaparecimento da vegetação nativa, os aquíferos recarregam mais lentamente e os rios que alimentam as grandes bacias hidrográficas do continente estão ficando mais secos. Os padrões de chuva se enfraquecem, as secas se prolongam e as ondas de calor se intensificam. O que começa como desmatamento se transforma em algo muito maior: uma lenta desestabilização do ciclo da água. Segundo Gatti, 2024 marcou o maior índice de emissões de carbono já registrado na Amazônia, impulsionado principalmente por incêndios. No entanto, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) do Brasil classifica as emissões dos incêndios na Amazônia como líquidas zero em sua metodologia oficial de contabilização, embora os incêndios sejam agora a maior fonte individual de emissões de carbono da região. 

Augusto Getirana, cientista pesquisador do Laboratório de Ciências Hidrológicas do Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA, falando a título pessoal, disse: “Uma crise hídrica no Brasil que resulta em interrupção da produção nacional de alimentos rapidamente se transforma em uma crise global. Vimos isso em 2021, quando os preços dessas commodities aumentaram substancialmente em todo o mundo.”

Comunidades relatam redução na disponibilidade de água e contaminação por agrotóxicos.

As comunidades tradicionais  de geraizeiros (comunidades tradicionais do Cerrado) e  quilombolas (comunidades formadas por afro-brasileiros fugitivos ou libertos da escravidão), muitas sem títulos de propriedade oficiais, encontram-se cercadas por monoculturas. A transformação não é apenas física, mas também cultural. Não se trata apenas de carne bovina ou soja, mas de um modelo de crescimento que desmata mais rápido do que a terra consegue se recuperar. Os lucros vão para o exterior, enquanto os danos permanecem, visíveis em rios esgotados, solos degradados e comunidades marginalizadas. Se isso continuar, o Brasil corre o risco de enfraquecer os próprios sistemas que sustentam seu povo e sua economia.

A rodovia BR-319

Poucos projetos simbolizam a encruzilhada da Amazônia de forma tão marcante quanto a  BR-319 . A BR-319 é ​​uma rodovia federal de 885 quilômetros que liga Manaus, capital do Amazonas, a Porto Velho, no extremo sul da floresta. Construída na década de 1970, durante a ditadura militar brasileira, e abandonada no final da década de 1980 devido à dificuldade de manutenção, a rodovia tornou-se o centro de um debate acirrado sobre o futuro da Amazônia. Ela corta uma das áreas mais intocadas da região. Os planos atuais do governo para reconstruí-la e asfaltá-la são apresentados como um impulso para o desenvolvimento regional e a conectividade com o restante do país, mas críticos alertam que a BR-319 pode acarretar consequências ambientais, sociais e de saúde de grande escala. Philip Fearnside, professor pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA),  explicou: “Pavimentar a rodovia BR-319 conectaria a Amazônia central, relativamente preservada, à região da AMACRO – um ponto crítico de desmatamento que recebeu o nome dos estados do Amazonas, Acre e Rondônia. Embora a AMACRO seja promovida como uma zona de desenvolvimento sustentável (ZDS), tornou-se um dos principais motores do desmatamento na floresta amazônica.”

Um líder indígena do povo Mura, da região do Lago Capanã Grande, compartilhou suas preocupações sobre o impacto da rodovia em sua aldeia. (Seu nome foi omitido para garantir sua segurança.) Ele  disse : “Gostaria de expressar minha indignação perante todos em relação ao impacto da rodovia BR-319 nas terras indígenas do Lago Capanã. Isso nos traz problemas, manipulação de direitos, violação de nossas áreas tradicionais, ocupação por grileiros, poluição de nossos rios, destruição de nossa natureza. E isso está causando grandes problemas no fluxo de nossos rios. Córregos estão sendo soterrados. Aqui, usamos a água do rio. O resultado dessa estrada será uma porta aberta para a entrada de criminosos, traficantes de drogas e todos os tipos de drogas, como já acontece. A população indígena vive de alimentos da natureza; a população indígena não vive da pecuária. Os povos indígenas vivem de seus objetos tradicionais. Eles vivem da subsistência da natureza e extraem da natureza para sua sobrevivência e para proteger sua própria natureza. Sou contra essa pavimentação.”

A reconstrução da rodovia BR-319 é ​​particularmente perigosa porque incentiva a expansão para além da via principal. Uma rede de estradas secundárias não autorizadas já se ramifica do corredor, abertas por madeireiros, mineradores e grileiros. Assim que a rodovia principal estiver totalmente transitável durante todo o ano, espera-se que essas estradas secundárias cresçam rapidamente em um padrão em “espinha de peixe”, penetrando cada vez mais fundo em florestas que permaneceram praticamente intocadas. Os planos oficiais também incluem rodovias estaduais como a AM-366, AM-360, AM-343 e AM-356, projetadas para conectar a BR-319 a áreas florestais remotas como a região de Trans-Purus, abrindo ainda mais áreas que até agora foram amplamente protegidas da atividade humana em larga escala. Comunidades indígenas e tradicionais estão na linha de frente dessas ameaças. Existem 69 territórios indígenas e dezoito mil indígenas ao longo do trajeto da rodovia. Essas comunidades não foram devidamente consultadas, em violação à Convenção 169 da OIT, que exige o consentimento livre, prévio e informado antes que projetos que afetem terras indígenas sejam iniciados. Para essas comunidades, a rodovia não é apenas um projeto de desenvolvimento: ela ameaça seus meios de subsistência, rios, florestas e sobrevivência cultural.

As consequências ambientais seriam enormes. A Amazônia armazena vastas quantidades de carbono e gera os fluxos de umidade conhecidos como “rios voadores”, que sustentam as chuvas em todo o Brasil e além. A construção de uma rodovia pavimentada e a abertura das estradas secundárias planejadas acelerariam o desmatamento, fragmentariam habitats e liberariam grandes quantidades de carbono, comprometendo a capacidade da floresta de funcionar como um ecossistema estável. Cientistas alertam que a infraestrutura combinada poderia levar a Amazônia a um ponto de inflexão climático irreversível.  Os riscos à saúde já são evidentes e provavelmente aumentarão. A fragmentação da floresta e o aumento da atividade humana ao longo da BR-319 têm sido associados ao aumento de casos de malária, enquanto doenças como a febre de Oropouche têm apresentado surtos na região. A expansão para habitats naturais anteriormente intocados aproxima humanos e animais, aumentando o risco de transmissões zoonóticas, quando patógenos passam de animais para humanos, e criando condições para potenciais novas pandemias. “O desmatamento na floresta amazônica e em outras regiões tropicais aumenta o risco de surgimento de novas doenças humanas, intensificando o contato entre a fauna silvestre da floresta e a população humana e seus animais domésticos. Também contribui para as mudanças climáticas, que podem criar condições favoráveis ​​ao surgimento de infecções parasitárias, fúngicas, virais e bacterianas”, explicou Fearnside.

A BR-319 também atrai o crime organizado, que já está em crescimento na região. A grilagem de terras, a extração ilegal de madeira e a mineração prosperam onde a fiscalização é fraca, e uma rodovia pavimentada com múltiplas estradas secundárias tornaria essas atividades mais fáceis e lucrativas. Em vez de trazer benefícios às comunidades locais, a rodovia corre o risco de disseminar deslocamentos populacionais, violência e destruição ambiental. As decisões tomadas em relação à BR-319 e sua rede de estradas secundárias moldarão não apenas o futuro da Amazônia, mas também a estabilidade climática, a biodiversidade e a saúde humana em todo o Brasil, América do Sul e no resto do planeta nas próximas décadas.

Biocombustíveis

O Brasil há muito se posiciona como pioneiro em biocombustíveis. O etanol de cana-de-açúcar e o biodiesel de soja são apresentados como alternativas de baixo carbono aos combustíveis fósseis. Mudanças recentes nas políticas públicas aceleraram a obrigatoriedade da mistura de combustíveis fósseis e incentivaram a produção, mas por trás dos slogans reside uma realidade complexa. O cultivo em larga escala de cana-de-açúcar, palma de óleo, soja e milho, culturas essenciais para a  produção de biocombustíveis , continua a se expandir para áreas ecologicamente sensíveis. Projetos rotulados como “verdes” ou “limpos” muitas vezes replicam a mesma lógica extrativista que definiu as ondas passadas de crescimento agrícola.

Jorge Ernesto Rodriguez Morales, professor e pesquisador do Departamento de História Econômica e Relações Internacionais da Universidade de Estocolmo,  alerta : “Apesar do seu sucesso, a indústria de biocombustíveis no Brasil se desenvolveu dentro de objetivos mais amplos de desenvolvimento e segurança territorial, muitas vezes exercendo pressão significativa sobre ecossistemas e comunidades em um ambiente institucional que geralmente negligenciava as preocupações socioambientais”. Ele acrescentou: “Essa coevolução insustentável de trajetórias de desenvolvimento e bioenergia – marcada pelo desmatamento, pela colonização de terras e pela expansão agrícola – limitou o espaço de adaptação na agricultura”.

Morales explicou que, assim como a produção de alimentos, o etanol requer terra, água e nutrientes, o que significa que uma expansão em larga escala poderia intensificar os efeitos colaterais negativos do crescimento agrícola. Esses efeitos incluem desafios socioambientais significativos relacionados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), como o desmatamento (ODS 15), as emissões de CO2 decorrentes da mudança no uso da terra (ODS 13), as perdas de nitrogênio (ODS 13, 14 e 15), a extração insustentável de água (ODS 14) e os riscos à segurança alimentar (ODS 2), entre outros. Nesse contexto, o boom dos biocombustíveis se assemelha menos a uma solução climática e mais a uma intensificação de conflitos fundiários de longa data e da pressão ecológica. Embora o Brasil produza bilhões de litros de etanol e biodiesel anualmente, a contabilização completa dos impactos climáticos, incluindo as emissões decorrentes da mudança no uso da terra e a intensidade energética do cultivo, mina a alegação de que os biocombustíveis são inerentemente “verdes”.

Créditos de carbono

Créditos de carbono florestais são promovidos para financiar a conservação, permitindo que as empresas compensem as emissões residuais. Projetos de carbono florestal, incluindo os esquemas REDD+ (Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal), multiplicaram-se na Amazônia. Em teoria, os créditos de carbono poderiam canalizar recursos para a proteção das florestas, criando incentivos econômicos para a manutenção da integridade ecológica. Na prática, a realidade muitas vezes fica aquém do esperado. Críticos argumentam que o sistema atual concede aos poluidores o que equivale a um passe livre para continuar emitindo, enquanto os direitos à terra, a governança e a fiscalização são negligenciados.

A ideia de que a compra  de créditos de carbono permite que uma empresa compense sua poluição enquanto as florestas globais permanecem intactas parece simplista, mas é contestada por acadêmicos, que revelam uma realidade muito mais complexa. Projetos que antes conquistaram reconhecimento internacional, como a iniciativa de conservação liderada pelos indígenas Suruí, ruíram sob a pressão da mineração ilegal e da expansão da pecuária, demonstrando que mesmo compensações bem elaboradas são vulneráveis ​​em ambientes legais e de fiscalização frágeis. Além disso, a permanência do carbono florestal é cada vez mais incerta em um mundo em aquecimento. Secas, incêndios e extração ilegal de madeira ameaçam a integridade dos estoques de carbono que sustentam os esquemas de compensação. Thales AP West, professor assistente titular do Instituto de Estudos Ambientais (IVM) da Universidade Livre de Amsterdã e uma das principais vozes entre os pesquisadores que analisam os mecanismos do mercado de carbono, alertou que, a menos que ocorra uma reforma sistêmica, a negociação de carbono continuará priorizando a conveniência em detrimento da integridade climática. Ele  afirmou : “A menos que haja uma mudança de atitude entre empresas, governos e organizações como a ONU, é provável que o mercado continue priorizando a conveniência em detrimento da integridade.”

Para as comunidades indígenas, os mercados de carbono também podem mercantilizar territórios há muito governados por relações culturais e espirituais. As florestas tornam-se unidades de medida e de comércio, enquanto as questões de direitos territoriais e poder permanecem sem solução.

Bioeconomia

O Brasil promove a  bioeconomia como um caminho para o crescimento sem desmatamento. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva descreveu um futuro em que a Amazônia se torna um centro de negócios sustentáveis, utilizando recursos renováveis ​​em vez de desmatar. Essa ideia se tornou um elemento-chave da estratégia climática do governo, atraindo grandes promessas de investimento e atenção internacional. Mas existe uma crescente discrepância entre o discurso otimista e a realidade. O termo “bioeconomia” tem sido usado para descrever tudo, desde pesquisa biotecnológica e mercados de carbono até grandes plantações de biocombustíveis e mineração, sem regras claras sobre proteção ambiental ou direitos das comunidades locais. Enquanto organizações como a Eco Invest Brasil captam bilhões para projetos “verdes”, críticos temem que a fragilidade das salvaguardas possa permitir que grandes empresas avancem sem a devida participação ou fiscalização local.

Ossi Ollinaho, professor da Universidade de Helsinque, alertou que a promessa de produtos verdes pode ser facilmente subvertida quando os incentivos econômicos ainda favorecem grandes monoculturas em detrimento da biodiversidade. Ele  advertiu : “A extensão desse conceito [de bioeconomia] à Amazônia e a contextos semelhantes de alta sociobiodiversidade acarreta o risco inerente de que ela acabe sendo transformada em celulose e vendida para obter lucro”. Em outras palavras, sem um planejamento cuidadoso, a bioeconomia pode acabar prejudicando as próprias florestas e comunidades que alega proteger.

Uma das questões é que o termo “bioeconomia” está sendo usado de forma ampla para abranger coisas muito diferentes. Colocar plantações industriais e produtos florestais de pequena escala na mesma categoria esconde o fato de que seus impactos são muito distintos. Culturas como soja, óleo de palma, milho e cana-de-açúcar, mesmo quando chamadas de “bioeconômicas”, ainda podem impulsionar mudanças no uso da terra, deslocar pequenos produtores e prejudicar a biodiversidade. O açaí é o exemplo mais conhecido. Antes um alimento básico local, agora é um produto global que vale mais de US$ 1 bilhão. Muitas vezes é usado como prova de que a bioeconomia funciona, mas a crescente demanda mudou a forma como é cultivado e colhido, remodelando partes da floresta e criando novas pressões sobre as pessoas que vivem ali há gerações. O que antes era visto como trabalho sustentável e comunitário agora faz parte de um sistema comercial maior que nem sempre beneficia aqueles que dependem da floresta.

Líderes indígenas e comunidades locais apontam que sempre viveram em harmonia com os recursos da floresta e dependeram deles. Castanha-do-pará, açaí e outros produtos fazem parte de suas economias há séculos. O que mudou foi a escala e o tipo de dinheiro externo que chega à região. Grandes iniciativas como a Amazônia 4.0, promovidas como caminhos de alta tecnologia para uma bioeconomia moderna, correm o risco de repetir os mesmos padrões de extração e desigualdade que há muito caracterizam a região.

Sem direitos fundiários seguros e poder de decisão para as populações locais, existe um temor real de biopirataria: empresas utilizando conhecimentos tradicionais e recursos genéticos sem justa compensação. O Brasil tem a oportunidade de modelar um tipo de crescimento econômico que realmente apoie tanto as pessoas quanto a natureza. Mas se as políticas permanecerem vagas e as salvaguardas forem frágeis, a bioeconomia poderá acabar sendo pouco mais do que um novo rótulo para padrões de extração já conhecidos. 

Petróleo e gás

Embora o Brasil se posicione como líder climático no cenário global, o país continua expandindo a exploração de petróleo e gás em um ritmo alarmante. Em junho de 2025, pouco antes da COP30, a Agência Nacional do Petróleo e Gás Natural (ANP) anunciou um leilão para direitos de exploração de 172 blocos de petróleo e gás, a maioria em alto-mar, incluindo 47 blocos na bacia amazônica. Essa medida evidencia uma crescente tensão entre os compromissos climáticos e o desenvolvimento contínuo de combustíveis fósseis. A Petrobras já perfura poços na margem equatorial da Amazônia, a apenas 500 km do rio Amazonas. Trata-se de um ecossistema extremamente sensível, lar de recifes de coral e manguezais. Já foram relatados vazamentos de petróleo na região. 

Segundo a Amazônia Real, a exploração planejada na foz do rio ameaça afetar diretamente diversas comunidades indígenas no estado do Amapá. Entre as mais vulneráveis ​​estão os povos Karipuna, Palikur-Arukwayene, Galibi Marworno e Galibi Kali’na, que vivem em três territórios indígenas oficialmente reconhecidos: Uaçá, Juminã e Galibi. Juntos, esses territórios abrangem aproximadamente 518.454 hectares e abrigam cerca de 13.000 pessoas em 56 aldeias, uma região que depende fortemente da floresta e dos cursos d’água para sobreviver.

Mais a oeste, na Amazônia, a Rosneft, empresa estatal russa de petróleo e gás, detém direitos de perfuração em vários blocos na bacia sedimentar do Solimões, perto do rio Purus, trajeto da futura rodovia BR-319. Essa área remota e em grande parte intacta da floresta tropical permanece notavelmente preservada, com ecossistemas e comunidades locais altamente dependentes das terras e rios circundantes. As preocupações ambientais são urgentes, pois novas estradas e infraestrutura podem abrir essas áreas isoladas para atividades industriais, pressionando a floresta por meio do desmatamento, da fragmentação do habitat e da extração de combustíveis fósseis em uma das regiões ecologicamente mais sensíveis da Amazônia.

Em 2025, o Brasil avançou ainda mais na expansão da produção de combustíveis fósseis, com uma produção diária de petróleo e gás natural de pouco menos de 4,9 milhões de barris de óleo equivalente, representando um aumento de 13,3% em relação ao ano anterior. A produção de petróleo, por si só, responde por cerca de 3,7 milhões de barris por dia, dos quais mais da metade é exportada, vinculando a expansão brasileira diretamente à demanda global de energia. As consequências são claras e urgentes. O aumento  da produção de combustíveis fósseis eleva as emissões, intensificando os impactos climáticos já visíveis por meio de tempestades mais fortes, ondas de calor, inundações e perda de ecossistemas. Cada atraso na redução da dependência de combustíveis fósseis agrava os riscos futuros, e a janela para evitar os desfechos mais catastróficos está se fechando rapidamente.

Energia hidrelétrica

A energia hidrelétrica fornece mais de 50% da eletricidade do Brasil e é frequentemente celebrada como uma conquista nacional. Grandes barragens são promovidas como uma fonte de energia limpa, mas os custos sociais e ecológicos contam uma história muito mais dura. Em toda a bacia amazônica,  barragens inundaram vastas áreas de floresta, deslocaram milhares de comunidades indígenas e ribeirinhas e interromperam o fluxo dos rios dos quais essas comunidades dependem para obter alimentos como peixes. Elas desencadearam desmatamento e poluição generalizados e, ironicamente, contribuíram para as emissões de gases de efeito estufa, incluindo metano e dióxido de carbono. A chegada de trabalhadores aos canteiros de obras das barragens muitas vezes impulsiona a urbanização acelerada, sobrecarregando a infraestrutura local e alimentando o aumento da violência, da criminalidade e dos problemas de saúde física e mental. Os efeitos deixam cicatrizes profundas e duradouras em comunidades que já lutam para sobreviver.

Um exemplo marcante é o  complexo hidrelétrico de Belo Monte, no estado do Pará. Sua construção deslocou à força cerca de 40 mil pessoas, incluindo comunidades ribeirinhas e um quarto da população de Altamira, realocando-as para assentamentos remotos na periferia da cidade. Igor Cavallini Johansen, professor do Departamento de Demografia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), explicou: “Precisamos lidar com as persistentes desigualdades criadas pelas grandes barragens hidrelétricas – tanto na região de Altamira quanto em toda a bacia amazônica. Esse legado de desenvolvimento desigual, em que as comunidades locais arcam com os custos ambientais e sociais enquanto centros urbanos distantes colhem os benefícios energéticos, exige uma reparação urgente.”

Para Maria Francineide Ferreira dos Santos, Belo Monte levou mais do que sua casa. Levou seu paraíso. Morando em Paratizinho, ela se manifestou contra a destruição, apenas para ser forçada a ir para a cidade. Mesmo assim, ela nunca parou de lutar. Hoje, ela vive na Volta Grande do Xingu, não apenas como sobrevivente, mas como uma ferrenha protetora do rio e de seu povo. Ela  disse : “Todos os impactos que sofremos são irreparáveis. O primeiro impacto foi o maior crime que Belo Monte cometeu no Xingu, a morte dos peixes e o deslocamento de seu povo, que nasceu e cresceu nesta região, que vivia nas ilhas, sem direitos, sem ser ouvido, sem respeito, tendo suas casas arrancadas e queimadas, violando nossos direitos.”

Outro impacto foi ver nosso povo, que não entendia nada, perder suas casas, sendo transferido para a cidade onde os preços dos terrenos eram exorbitantes, sem nos dar as condições para sobreviver. O governo faz o que quer. Esta tem sido uma luta perdida. Nenhuma justiça foi feita.” Rodolfo Salm, ecologista, ativista e professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), que mora em Altamira, descreveu as consequências mais amplas do projeto: “O projeto hidrelétrico de Belo Monte é um claro exemplo de fracasso ambiental, social e econômico. Longe de trazer prosperidade, o projeto deixou a região economicamente fragilizada e ambientalmente danificada. A produção de energia em Belo Monte é instável, com o Rio Xingu apresentando níveis muito baixos durante a maior parte do ano, uma falha que já era conhecida antes mesmo do início da construção.”

Johansen destacou os danos irreversíveis causados ​​por barragens hidrelétricas em áreas de alta biodiversidade como a Amazônia: “Em primeiro lugar, esses projetos causam danos ecológicos irreversíveis – inundando vastas áreas de floresta tropical intocada, destruindo habitats únicos e potencialmente levando à extinção de espécies. Igualmente preocupante é o padrão consistente de violações dos direitos humanos. Comunidades indígenas e tradicionais enfrentam repetidamente o deslocamento sem consulta adequada ou compensação justa, como demonstrado de forma contundente pelo projeto Belo Monte. O cálculo climático para barragens tropicais também se mostrou falho. Em vez de serem soluções de energia limpa, seus reservatórios se tornam fábricas de metano à medida que a vegetação submersa se decompõe. Isso questiona a própria lógica de priorizar a energia hidrelétrica em regiões de floresta tropical. Talvez a lição mais crucial seja que não podemos mais justificar o sacrifício da riqueza ecológica e cultural da Amazônia por ganhos energéticos questionáveis. As evidências mostram claramente que, em áreas de alta biodiversidade, os custos de grandes barragens quase sempre superam os benefícios – uma realidade que exige uma mudança fundamental na política energética.” Apesar disso, as propostas para novas barragens continuam, frequentemente defendidas como essenciais para a segurança energética e o desenvolvimento industrial.

O campo de batalha legislativo

A expansão da infraestrutura e do agronegócio cresce nas regiões da Amazônia e do Cerrado, em paralelo a  propostas legislativas controversas . O controverso  Marco Temporal , um argumento jurídico que afirma que os povos indígenas têm direito apenas às terras que ocupavam fisicamente em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição brasileira, tem sido alvo de intenso debate. Organizações indígenas argumentam que isso ignora os deslocamentos forçados ocorridos durante a ditadura e períodos anteriores. Essa lei poderia prejudicar as reivindicações de territórios não formalmente demarcados até 1988, abrindo-os para exploração. Os territórios indígenas permanecem entre as barreiras mais eficazes contra o desmatamento e a degradação florestal. Estudos demonstram consistentemente menores taxas de perda florestal dentro de terras indígenas demarcadas em comparação com as áreas circundantes.

Enquanto isso, a Lei de Devastação (15.190/2025), que entrou em vigor em fevereiro deste ano, introduz um sistema de autolicenciamento. As empresas agora podem obter licenças ambientais preenchendo formulários online, dispensando os estudos de impacto ambiental. Anteriormente, o licenciamento podia levar de cinco a sete anos, mas agora pode ser concluído em apenas 12 meses. Isso facilitará projetos de infraestrutura de grande escala, como a reconstrução da rodovia BR-319, mineração, petróleo e gás e barragens. Essa lei também isenta de licenciamento 13 categorias de atividades, que vão desde a manutenção de estradas até o agronegócio. Especialistas em direito ambiental alertam que o enfraquecimento do licenciamento em um momento de expansão da infraestrutura pode exacerbar o desmatamento e a degradação, além de aumentar a poluição e os conflitos sociais. É fundamental destacar que pelo menos 40% das terras indígenas reconhecidas pelo Estado brasileiro estarão expostas ao desenvolvimento industrial, ao desmatamento e à mineração ilegal.

Para piorar a situação, a Moratória da Soja na Amazônia (MSA), de 2006, que impediu empresas de comprarem soja cultivada em áreas recém-desmatadas da Amazônia, está sendo enfraquecida à medida que as principais associações do setor de soja no Brasil, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (ABIOVE) e a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (ANEC), retiram seu apoio à medida. Essas associações representam grandes empresas globais do setor, como Cargill, Bunge, ADM, Louis Dreyfus e COFCO, cujas decisões de compra influenciam fortemente a proteção das florestas. Grupos ambientalistas alertam que, se o acordo ruir, poderá levar a mais desmatamento e violação dos direitos indígenas, enquanto alguns supermercados do Reino Unido e da Europa, incluindo Tesco, Sainsbury’s, Asda, Lidl, Audi, Ocado e Waitrose, pressionam as empresas a manterem regras rígidas de fornecimento sem desmatamento.

Ação coletiva

O Brasil se encontra em um momento decisivo. De um lado, promessas de acabar com o desmatamento ilegal, de proteger o que resta da floresta, de agir em nome do clima. Do outro, poderosos interesses pressionam por mais gado, mais soja, mais mineração, mais estradas que cortam terras ancestrais. A linguagem da proteção é forte, mas a máquina da expansão é ainda mais. O que acontece em Brasília não ficará em Brasília. A fumaça que sobe da Amazônia não para nas fronteiras nacionais: torna-se parte do mesmo ar que todos respiramos. A pressão para desmatar não começa com uma motosserra: começa com a demanda global. O bife servido em Xangai, a soja usada para alimentar o gado na Europa, os minerais dentro dos celulares na Califórnia, a madeira usada para construir hotéis de luxo nos EUA, tudo está ligado de alguma forma ao que acontece nessas florestas. Empréstimos assinados em centros financeiros distantes da orla da floresta. Podemos viver a milhares de quilômetros de distância, mas nossas economias e nosso consumo estão intimamente ligados ao mesmo tecido. A floresta não está caindo isoladamente. Está sendo desmantelado por um sistema global que recompensa a extração e chama isso de progresso. Mas essa história ainda não terminou.

Existem escolhas que poderiam desviar a trajetória da destruição. Proteções mais rigorosas para a soja, compromissos reais de desmatamento zero que signifiquem algo na prática, e não apenas no papel. Projetos de infraestrutura recusados ​​quando ameaçam florestas intactas, leis ambientais aplicadas com a devida seriedade, porque de fato importam. Territórios indígenas reconhecidos e protegidos, não atrasados ​​ou contestados. Inúmeras vezes, as evidências mostram que onde os povos indígenas têm direitos territoriais seguros, a floresta permanece. Mas nem mesmo as melhores políticas nacionais, sozinhas, conseguirão deter o aquecimento global. A menos que o uso de combustíveis fósseis diminua drasticamente e rapidamente, a seca e os incêndios se intensificarão, e a Amazônia e o Cerrado secarão de dentro para fora. Há um ponto de inflexão além do qual a floresta não poderá se recuperar e, uma vez ultrapassado, nenhuma promessa ou cúpula a trará de volta.

A Amazônia e o Cerrado não são “recursos”. São sistemas vivos e pulsantes, vastas comunidades de água, solo, plantas, animais e pessoas, interligadas de maneiras que só agora começamos a compreender. Armazenam carbono, sim, mas também guardam histórias, línguas, remédios, canções. Regulam as chuvas que alimentam as plantações em toda a América do Sul, refrescam um planeta que está em crise. Protegê-los exige mais do que discursos eloquentes. Exige coragem política, ciência que seja ouvida e um profundo respeito pelas comunidades indígenas e tradicionais que defendem essas terras há gerações, muitas vezes correndo grandes riscos pessoais. Exige confrontar a incômoda verdade de que a expansão econômica desenfreada em um planeta finito é uma contradição.

Se falharmos, as consequências serão sentidas em colheitas perdidas e aumento dos preços dos alimentos, na escassez de água, em migrações forçadas, em conflitos por recursos cada vez mais escassos, em culturas e espécies perdidas para sempre. O desmantelamento desses ecossistemas não seria uma tragédia apenas do Brasil. Seria um acerto de contas global. No fim das contas, a Amazônia e o Cerrado são mais do que debates políticos ou slogans de campanha: são uma medida de quem escolhemos ser. Continuaremos trilhando um caminho onde o lucro a curto prazo se sobrepõe aos direitos humanos e à sanidade ecológica? Ou trilharemos um caminho diferente, moldado pela cooperação, justiça e humildade perante o mundo vivo? A janela está se fechando. As decisões tomadas agora reverberarão por gerações. E um dia, a história perguntará se defendemos a floresta quando ainda tínhamos a chance, ou se assistimos à sua queima e a consideramos inevitável.

 

Monica é uma jornalista brasileira-britânica e membro do Sindicato Nacional dos Jornalistas. Ela contribui regularmente para  o The Ecologist e publica no Substack, Medium e em sua própria plataforma,  YourVoiz.org .


Fonte: The Ecologist

Secas mais longas e mudanças nas chuvas já ocorrem na Amazônia, apontam pesquisas

Liderados por cientistas do Inpe, estudos recém-publicados indicam prolongamento de quatro para até seis meses da estação seca, com aumento de déficit hídrico em mais de 150 milímetros; trabalhos são alerta para 2026 e 2027, quando há previsão de “super El Niño”

Por Luciana Constantino para Agência FAPESP 

A Amazônia brasileira já começa a registrar cenários até então projetados para as próximas décadas, com estações secas mais longas e alteração no padrão de chuvas, apontam dois estudos recém-publicados liderados por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O quadro pode se intensificar rapidamente, elevando riscos à biodiversidade, ao reabastecimento de reservatórios naturais de água e ao funcionamento da floresta se não houver políticas integradas e iniciativas de combate às mudanças climáticas.

Os trabalhos, baseados em modelos climáticos que incorporam a dinâmica regional, também funcionam como um alerta para este ano e o próximo, quando há a possibilidade de um “super El Niño”. Caracterizado pelo aquecimento do oceano Pacífico na faixa equatorial, o fenômeno pode, em sua versão mais intensa, elevar a temperatura em mais de 2 °C acima da média, provocando grandes alterações na circulação atmosférica e no regime de chuvas em escala global.

O resultado de uma das pesquisas indica prolongamento da estação seca na Amazônia de quatro para até seis meses, com aumento de déficit hídrico superando -150 milímetros (mm) no período. Publicado no International Journal of Climatology, o artigo aponta maior instabilidade climática e mais eventos extremos fora do padrão sazonal, além de crescimento da degradação da floresta associada ao fogo.

outro trabalho, que está na edição de março da Perspectives in Ecology and Conservation, analisa a seca registrada entre 2023 e 2024 na Amazônia, período em que o Brasil também foi fortemente afetado pelo El Niño. Os achados mostram um crescimento médio de 9% nas áreas queimadas e 19% nos alertas de degradação florestal, com até 4,2 milhões de hectares impactados por fogo no pico da seca. Evidenciam, assim, que o ciclo seca-fogo-degradação está se fortalecendo, reduzindo a capacidade do ecossistema de se restabelecer.

“Há alguns anos, quando começamos a discutir cenários climáticos para a Amazônia, muitas vezes esse futuro era visto como algo distante nas conjunturas mais pessimistas. Porém, estamos observando que os extremos de anomalia mais pessimistas estão acontecendo no presente. Quando comparamos os dados de hoje com as projeções, vemos o quão crítica vai ficando essa situação à medida que incluímos cenários pessimistas na análise climática”, resume a engenheira ambiental e sanitarista Débora Dutra, doutoranda em sensoriamento remoto no Inpe e primeira autora dos dois artigos.

A bióloga Liana Anderson, orientadora de Dutra e pesquisadora no Inpe, destaca o papel dos cientistas diante da dissonância entre as evidências científicas dos impactos das mudanças climáticas nos ecossistemas e as respostas para a sua mitigação e contenção.

“Estamos em um momento crucial, com metas nacionais e internacionais a cumprir até 2030. Se colocarmos os esforços nessa direção, temos condição de atingi-las. É preciso pensar na conexão entre meio ambiente, desenvolvimento e economia como uma tríade indissociável, seja pelo lado da exploração ou pelo preço a ser pago pela reconstrução após os impactos. Acho que essa crise climática abre oportunidade de repensarmos caminhos e como acelerar iniciativas sustentáveis, que busquem qualidade de vida, justiça social e ambiental. Existe mobilização da comunidade científica para contribuir e mostrar alternativas. A questão é quem está disposto a escutar o que vem sendo estudado ao longo das últimas décadas”, complementa Anderson, que lidera o laboratório TREES (sigla para TRopical Ecosystems and Environmental Sciences) ao lado do pesquisador Luiz Aragão, também um dos autores dos artigos.

Construindo modelos

Na pesquisa publicada no International Journal of Climatology, os cientistas utilizaram uma métrica que vem sendo trabalhada por Aragão desde 2007 – o máximo déficit hídrico acumulado (MCWD, na sigla em inglês), considerado um indicador-chave de estresse hídrico nos ecossistemas tropicais –, aliada a dados da fase seis do Projeto de Intercomparação de Modelos Acoplados, que fornece uma estrutura padronizada para a modelagem climática alinhada às avaliações dos Caminhos Socioeconômicos Compartilhados (SSPs) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas.

O estudo foi conduzido no sudoeste da Amazônia, abrangendo o Acre e parte dos Estados do Amazonas e de Rondônia. Abrigando áreas com mais de 90% de cobertura florestal, a região está sob forte pressão de desmatamento.

Os resultados mostram que, em cenários de altas emissões de gases de efeito estufa, há uma intensificação dos déficits hídricos durante a estação seca na Amazônia, sobretudo na porção sudoeste da floresta. As projeções indicam estações secas mais longas e intensas, com aumento do estresse hídrico entre junho e setembro e déficits que podem ultrapassar -21 mm/mês até o fim do século no cenário mais pessimista.

Esse agravamento tende a produzir impactos diretos sobre a floresta, com maior mortalidade de árvores, degradação florestal e perda de biodiversidade, além da redução da capacidade da Amazônia de atuar como sumidouro de carbono, reforçando um ciclo de retroalimentação entre degradação e aquecimento global.

Para aprimorar as projeções futuras e as avaliações de risco climático na região, os pesquisadores sugerem, entre outros pontos, a adoção de análises integradas que incorporem mudanças no uso da terra, anomalias na circulação atmosférica e interações entre incêndios e secas.

Na pesquisa que analisou a seca extrema de 2023 e 2024, o grupo mapeou e quantificou o estresse hídrico, a degradação florestal e a dinâmica do fogo, identificando implicações para a gestão ambiental. O estudo chegou à conclusão de que a seca intensificou a interação entre déficit hídrico, incêndios e degradação, com o fogo cada vez mais associado à debilitação da floresta em pé, e não apenas ao desmatamento. Enquanto o desmate remove totalmente a cobertura de vegetação, a degradação enfraquece a floresta sem destruí-la por completo.

De acordo com o trabalho, os resultados destacam a necessidade de uma governança integrada do fogo, reunindo indicadores climáticos aos sistemas de alerta, fortalecendo a coordenação institucional e incorporando a degradação florestal nas estratégias de mitigação e adaptação.

Costurando ciência e iniciativas práticas

Sob a coordenação de Anderson, Dutra vem estudando há alguns anos os impactos do fogo na floresta amazônica e publicou um artigo sobre queimadas no município de Boca do Acre, no Amazonas (leia mais em: agencia.fapesp.br/40757).

Desde o ano passado, as pesquisadoras integram a iniciativa “Fogo em Foco”, uma parceria entre forças operacionais de combate e prevenção de fogo (como o Corpo de Bombeiros Militar de diversos Estados) e instituições de pesquisa. Para marcar o lançamento do programa, o laboratório TREES, a Rede Brasa de pesquisa e a Liga dos Corpos de Bombeiros Militares realizaram um evento em outubro com a divulgação do relatório “Fogo em Foco 2024-2025” e do artigo internacional “State of Wildfires 2024-2025”.

Segundo Anderson, em abril foi autorizada a continuidade desse trabalho conjunto com os bombeiros para 2026. “Essa aproximação é uma forma de aliar o que a ciência consegue entregar com a realidade de quem atua na ponta, tanto em estratégias de prevenção quanto de combate. Tentamos costurar ciência e ações na sociedade. Mas ainda há um ponto em que precisamos avançar, que é a magnitude do impacto econômico e o quanto isso significa para o desenvolvimento do país”, diz a pesquisadora.

Por isso, Dutra decidiu mergulhar no tema e vai trabalhar em sua tese de doutorado com dados sobre o potencial das perdas econômicas derivadas do fogo, discutindo não só questões florestais, mas também saúde e impactos sociais.

Ela recebe bolsa da FAPESP, que também apoiou os dois artigos por meio de outros cinco projetos – 21/04019-4, 20/08916-8, 25/28244-8 e 25/07124-4, incluindo o Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI).

Os artigos Dry-season water deficits in the Southwestern Amazon under high emissions e Intensification of drought-associated wildfires challenges actions for Amazonia’s sustainable development podem ser lidos, respectivamente, em: rmets.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/joc.70331 e sciencedirect.com/science/article/pii/S2530064426000295.


Fonte: Agência Fapesp
 

Importações britânicas de combustível de aviação “verde” estão ligadas ao desmatamento da Amazônia

Uma refinaria do Texas que exporta combustível de aviação sustentável para a Europa obteve sebo bovino de uma empresa de processamento de carne multada por compras ilegais de gado

UK imports of "green" jet fuel linked to Amazon deforestation

Por Naira Hofmeister, Charlotte Teunis, Hyury Potter, Lucy Jordan,  Bela de Jong e  Gabriele Di Donfrancesco para “Climate Home News”

A Diamond Green Diesel (DGD), uma das principais fornecedoras de combustível de aviação sustentável (SAF) e diesel renovável, adquiriu centenas de milhares de toneladas de sebo bovino do Brasil, juntamente com gorduras residuais de outras fontes, nos últimos três anos, à medida que a demanda global por matérias-primas para biocombustíveis aumenta vertiginosamente .

Reportagens da Unearthed e da organização investigativa sem fins lucrativos Repórter Brasil revelam a ligação da DGD com uma fábrica de processamento de resíduos animais que se abastece de um frigorífico multado por comprar gado de uma reserva amazônica desmatada ilegalmente. Uma investigação anterior da Reuters e da Repórter Brasil descobriu que a DGD havia comprado gordura animal de outras duas fábricas de processamento de resíduos animais ligadas ao fornecimento de gado de fazendas ilegais.

A fábrica recém-identificada, Pacífico Indústria e Comércio de Óleos e Proteínas Ltda, com sede em Cacoal, uma pequena cidade no estado de Rondônia, no extremo oeste da Amazônia, foi fornecida pelo frigorífico de Rondônia DistriBoi, mostra um documento judicial de 2022. 

A DistriBoi foi multada há dois anos por comprar ilegalmente gado da reserva de conservação estadual Jaci-Paraná, que foi devastada pela pecuária ilegal.

Não há indícios de que as empresas envolvidas tivessem conhecimento do desmatamento em nível de fazenda. No entanto, as descobertas apontam para uma lacuna de rastreabilidade na cadeia de suprimentos de matérias-primas para combustíveis sustentáveis, onde os subprodutos da pecuária estão sujeitos a menos fiscalização do que as principais commodities do setor, como carne e couro. 

Vista aérea da entrada da Diamond Green Diesel, LLC, uma joint venture entre a Valero Energy Corporation e a Darling Ingredients Inc., em Port Arthur, Texas, EUA, em 30 de julho de 2025. REUTERS/Adrees Latif

A reserva Jaci-Paraná era coberta por uma floresta tropical intocada quando foi criada, há 30 anos, para proteger atividades florestais tradicionais, como a extração de látex e a colheita de nozes. 

Hoje, a pecuária ilegal devastou quase 80% da cobertura florestal e tornou-se um exemplo notório da destruição causada por grileiros na maior floresta tropical do mundo.

“Os danos à biodiversidade têm sido devastadores”, disse a ativista indígena local Neidinha Suruí, que participou do documentário “O Território”, vencedor do Prêmio Emmy de 2025.

Viagens aéreas mais ecológicas?

O “diesel renovável” e o combustível de aviação sustentável (SAF) que estão sendo exportados pela DGD – uma joint venture entre a refinaria de petróleo americana Valero Energy Corp e a Darling Ingredients, com sede no Texas – são classificados como “verdes” porque são feitos a partir de matérias-primas classificadas como resíduos, incluindo sebo, que consiste em gordura separada de carcaças de gado.

Muitos governos e companhias aéreas depositam suas esperanças em voos mais ecológicos com combustível de aviação sustentável (SAF) produzido com resíduos orgânicos, incluindo a Grã-Bretanha, que introduziu uma exigência obrigatória de mistura no ano passado.

O transporte aéreo é responsável por cerca de 2,5% das emissões globais de carbono e, ao contrário de outros setores de transporte que podem ser eletrificados, reduzir a pegada de carbono da aviação é muito mais difícil.

Resíduos como sebo bovino e óleo de cozinha usado (UCO) são considerados as matérias-primas viáveis ​​mais ecológicas para a produção de SAF (Combustíveis Sustentáveis ​​em Suspensão), visto que não competem com produtos alimentícios como óleo de soja ou óleo de palma, nem aumentam a pressão sobre o desmatamento.

Uma aeronave da Air France, operada com combustível de aviação sustentável (SAF) produzido pela TotalEnergies, é reabastecida antes de seu primeiro voo de Nice para Paris, no aeroporto de Nice, França, em 1º de outubro de 2021. REUTERS/Eric Gaillard

No entanto, existe a preocupação de que a corrida global para aumentar o uso de SAF possa exacerbar indiretamente a pressão sobre o desmatamento, aumentando a demanda por matérias-primas como sebo e óleo de cozinha usado.

Isso poderia aumentar as margens de lucro das fazendas de gado – incluindo as ilegais – e ter outras consequências não intencionais, como incentivar a fraude nas cadeias de suprimentos, conforme relatado pelo Climate Home News .

Uma investigação publicada em março pela Climate Home News e pela emissora sueca SVT revelou que a gigante finlandesa de biocombustíveis Neste está obtendo ingredientes essenciais para seu SAF (Combustível de Aviação Sustentável) de uma cadeia de suprimentos opaca que permite que óleo de palma fresco seja comercializado como óleo usado e residual.

Como o sebo é classificado como resíduo por órgãos reguladores em mercados como o Reino Unido e a UE, o esquema de certificação mais utilizado na indústria de combustíveis verdes – a Certificação Internacional de Sustentabilidade e Carbono (ISCC) – não avalia se houve desmatamento para a criação do gado que o produziu.

Isso permite que o sebo bovino seja considerado uma matéria-prima sustentável para combustíveis verdes, mesmo que os animais tenham sido criados em terras desmatadas ilegalmente.

“É evidente que existe uma falha nas regras se os produtos, neste caso o sebo animal, provêm originalmente de terras desmatadas”, afirmou Cian Delaney , coordenador de campanhas do grupo de defesa do transporte e energia limpos Transport & Environment.

Isso significa que as medidas governamentais de emissões de poluentes atmosféricos, destinadas a reduzir as emissões do transporte aéreo, podem ajudar a aumentar os rendimentos dos pecuaristas ligados ao desmatamento ilegal no Brasil, onde a pecuária e outras formas de agricultura têm sido os principais fatores de perda florestal.

Atacadistas de terras abrem caminho para pecuaristas 

Outrora coberta por uma densa cobertura de floresta tropical, a reserva Jaci-Paraná, em Rondônia, foi devastada pelo desmatamento ilegal impulsionado pela pecuária – uma das principais causas da perda de árvores na Amazônia.

Os grileiros se apropriaram – muitas vezes violentamente – e desmataram mais de três quartos da floresta para pastagem, à medida que a pecuária avança de forma constante para o sul da Amazônia.

Suruí, o ativista indígena local, afirmou que as empresas que compram produtos derivados de atividades ilegais perpetuam crimes ambientais na floresta tropical.

“Se não houvesse frigoríficos comprando gado de origem ilegal, não haveria grilagem de terras nem desmatamento”, disse Suruí à Repórter Brasil, que fez a nova investigação em parceria com a Unearthed e uma equipe de jornalistas apoiada pelo JournalismFund Europe. 

Processos judiciais e cadeias de suprimentos interligadas

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva prometeu acabar com todo o desmatamento no país até 2030, em parte fortalecendo a fiscalização ambiental na maior floresta tropical do mundo.

Em Rondônia, as autoridades abriram mais de 50 processos relacionados à grilagem de terras e ao desmatamento somente na reserva Jaci-Paraná. O frigorífico DistriBoi é citado em 31 desses processos, incluindo o de 2024 , no qual foi multado.

Segundo o documento judicial de 2022, referente a uma disputa trabalhista não relacionada, os advogados da Pacífico se referem à DistriBoi como a “maior fornecedora de matéria-prima” da fábrica de processamento de resíduos animais.

A DGD, com sede nos EUA, recebeu quase 15.000 toneladas de sebo da Pacífico entre 2023 e 2025 em sua refinaria no Texas, além de óleo de cozinha usado de diversos países e fontes, de acordo com o banco de dados comercial Panjiva.

Um rebanho de gado é visto na fazenda Marupiara, na cidade de Tailândia, estado do Pará, Brasil, em 17 de março de 2020. Foto tirada em 17 de março de 2020. Para acompanhar a reportagem especial BRASIL-DESMATAMENTO/GADO REUTERS/Pilar Olivares

A Darling Ingredients também é empresa controladora da Pacífico desde a aquisição, em 2022, da empresa brasileira de processamento de resíduos animais FASA Group.

Um porta-voz da Darling Ingredients negou que a Pacífico tenha obtido resíduos de carne bovina do matadouro Ji-Paraná da DistriBoi – um dos dois que a empresa de processamento de carne opera em Rondônia.

“A fábrica de processamento de resíduos animais Pacífico não adquire nenhum material do matadouro Distriboi em Ji-Paraná”, disse o porta-voz em resposta por e-mail, sem apresentar provas ou comentar diretamente o conteúdo do documento judicial de 2022.

Darling não respondeu a uma pergunta subsequente sobre o outro matadouro da Distriboi na região, que, de acordo com documentos de transferência de gado, também comprou gado de uma fazenda que desmatou ilegalmente a floresta dentro da reserva extrativista.

“Nossas relações são normalmente com o matadouro, estando a vários níveis de distância dos pecuaristas. Independentemente disso, estamos comprometidos em garantir que nossas matérias-primas sejam provenientes de fontes livres de desmatamento. Esperamos que nossos fornecedores de matéria-prima cumpram nosso código de conduta. Além disso, estamos em processo de exigir que todos os fornecedores de matéria-prima atestem que seu material é proveniente de fontes livres de desmatamento”, disse o porta-voz em comunicado. 

A DistriBoi afirmou, em aparente referência aos processos judiciais pendentes de Jaci-Paraná, que “as questões mencionadas… já estão sob análise, inclusive por tribunais superiores”. A empresa já havia negado qualquer irregularidade anteriormente. A declaração da empresa não abordou uma questão sobre seus laços comerciais com a Pacífico. 

A Valero Energy, a principal refinadora que é coproprietária da DGD juntamente com a Darling Ingredients, não respondeu aos pedidos de comentários, assim como a própria DGD.

Do matadouro às Forças Armadas de Singapura

Num esforço para conter as emissões de carbono provenientes do transporte aéreo, os reguladores do Reino Unido e da UE determinaram quotas progressivamente crescentes para a mistura de SAF (Combustível de Aviação Sustentável) nos próximos anos, criando um novo mercado para matérias-primas, incluindo sebo bovino.

As exportações brasileiras de sebo para os EUA aumentaram acentuadamente nos últimos anos, passando de menos de 10.000 toneladas em 2021 para quase 400.000 toneladas no ano passado, segundo a Panjiva, refletindo a crescente demanda por biocombustíveis como o SAF (Combustível de Aviação Sustentável).

No Reino Unido, o maior mercado de aviação da Europa em termos de capacidade de assentos, o combustível de aviação deveria conter 2% de SAF (Combustível de Aviação Sustentável) até o final de 2025, aumentando para 10% em 2030 e 22% em 2040.  

Segundo dados comerciais da Panjiva, a DGD exportou 134 mil toneladas de SAF (Combustível de Aviação Sustentável) do Texas para o Reino Unido em 2025, num valor próximo a 90 milhões de dólares. A empresa também exportou quantidades menores de diesel renovável para a Grã-Bretanha.

Os dados mostram que a UE recebeu biocombustíveis – incluindo quantidades muito menores de SAF (Combustível de Aviação Sustentável) – no valor de mais de US$ 1,1 bilhão da refinaria da DGD no Texas no ano passado. 

A investigação da Unearthed não conseguiu identificar quais companhias aéreas ou aeroportos compram o SAF da DGD quando este chega à Grã-Bretanha.

A Valero, outra empresa controladora da DGD, está se posicionando como um ator fundamental na transição para combustíveis com menor emissão de carbono no Reino Unido, onde comercializa seu diesel renovável sob a marca Texaco.

A empresa tem participado ativamente nas discussões sobre políticas de SAF (combustível de aviação suplementar) e criticou o limite planejado pelo governo para fontes de gordura residual no SAF, classificando-as como “a rota de produção de SAF mais rentável do mundo” em uma apresentação ao parlamento.

Contribuindo para a redução das emissões?

Uma supervisão ainda mais rigorosa das matérias-primas do SAF (Combustível de Aviação Sustentável) é crucial para garantir que as medidas de mistura, como a do Reino Unido, estejam efetivamente reduzindo as emissões, afirmou Anna Krajinska, diretora da Transport & Environment UK.

As florestas armazenam grandes quantidades de carbono e, quando são derrubadas ou queimadas, esse carbono é liberado na atmosfera. 

“Se houver sebo proveniente de terras desmatadas, essas emissões podem ser tão altas que talvez não se atinja o limite de redução de gases de efeito estufa”, disse Krajinska.

Um funcionário é fotografado abastecendo o Boeing 777-300ER da Emirates Airlines com Combustível de Aviação Sustentável (SAF, na sigla em inglês), durante um voo de demonstração histórico, enquanto um de seus motores operava com 100% de SAF, no aeroporto de Dubai, em Dubai, Emirados Árabes Unidos, em 30 de janeiro de 2023. REUTERS/Rula Rouhana

Mas, à medida que o apetite mundial por voos continua a crescer , alguns especialistas afirmam que o SAF (Combustível de Aviação Sustentável) é o único meio viável para reduzir as emissões da aviação atualmente.

Referindo-se às ligações com o desmatamento identificadas na investigação da Unearthed, Wouter Dewulf, economista da aviação da Universidade de Antuérpia, na Bélgica, afirmou que “seria importante avaliar a dimensão dessa infração”.

“Tenho quase certeza de que existem exceções”, acrescentou Dewulf. “Mas os biocombustíveis são a melhor alternativa no momento.”

Delaney, da T&E, afirmou que é necessária mais transparência e melhor supervisão por parte das autoridades reguladoras. “No momento, existem muitos pontos cegos”, acrescentou.


Fonte: Climate Home News

A Amazônia depois da COP 30: o que ficou, o que segue em disputa

Por Ismael Machado* 

O calor era pesado naquele agosto de 1995, em Corumbiara, Rondônia. O maior conflito agrário já registrado em Rondônia até então e um dos mais brutais da história do estado deixaram como rastro dez mortos e dezenas de feridos. As imagens e relatos dos crimes cometidos em Corumbiara chocaram o mundo, diante da brutalidade perpetrada pela polícia militar de Rondônia contra as cerca de 600 famílias que estavam acampadas na Fazenda Santa Elina. Cobri esse massacre como repórter de uma TV em Porto Velho.

Anos depois, acompanhando o julgamento do Massacre de Eldorado dos Carajás, o ar parecia ainda mais denso — não apenas pela temperatura, mas pelo acúmulo de tudo o que não se resolveu ali. Corpos tombados que voltavam como memória em relatos no tribunal, vozes interrompidas que insistiam em atravessar o tempo. Em outro momento, no interior do Pará, o enterro de Dorothy Stang se deu sob um silêncio irregular, um grito sufocado vindo de dentro da floresta.

Mais tarde, já no audiovisual, ao dirigir um documentário atravessando áreas de mineração no sudeste do Pará, onde a presença da Vale redefine paisagens, ritmos e destinos, a sensação era outra, mas não menos intensa: comunidades inteiras reorganizadas em função de um projeto que chega com escala global e impacto local imediato. Em todos esses momentos, separados no tempo e na linguagem testemunhadas por mim, havia um elemento comum: a Amazônia não se deixa reduzir a uma narrativa única. O que se revela é um território feito de camadas simultâneas, onde conflito, permanência e reinvenção coexistem. E foi com essa e tantas outras memórias acumuladas que ano passado acompanhei as discussões sobre a COP-30.

Quando a Conferência chegou a Belém, projetou sobre a Amazônia uma expectativa rara, a de que, finalmente, o centro das decisões globais coincidiria com o território mais decisivo para o equilíbrio climático do planeta. Para quem acompanha essa realidade há décadas, havia ali menos surpresa do que reconhecimento. A promessa de convergência entre discurso global e realidade local já apareceu antes, com outros nomes, outras agendas e outros protagonistas.

Passado o evento, o contraste entre promessa e realidade se torna mais nítido. A floresta permaneceu onde sempre esteve, ou seja, atravessada por pressões econômicas, conflitos fundiários, experiências de resistência e formas de vida que não cabem facilmente nos modelos dominantes de desenvolvimento. Ao longo dessas décadas, o que se observa não é exatamente uma transformação estrutural, mas uma sucessão de camadas que se sobrepõem. São velhas práticas que não desaparecem, apenas se reconfiguram para caber nos discursos do presente. Nos últimos dias tivemos a notícia de que uma equipe do Ibama foi recebida a tiros em uma área de garimpo clandestino. Fato isolado? Nunca.

Para além de respostas definitivas, o legado da conferência deixou perguntas incômodas. Houve avanços institucionais, compromissos reafirmados e um volume de recursos anunciados. Ainda assim, a dinâmica concreta da região não se altera por declarações. A Amazônia segue sendo tratada, em grande medida, como espaço de exploração, ainda que sob novos discursos. A linguagem da sustentabilidade ganhou centralidade, mas sua tradução prática continua em aberto. Vista em perspectiva, essa recorrência revela um padrão persistente.

A noção de bioeconomia, amplamente mobilizada durante e após a COP, exemplifica bem essa ambiguidade. Em alguns casos, tem servido como base para iniciativas que valorizam cadeias produtivas locais, respeitam o ritmo dos ecossistemas e garantem renda para comunidades. Em outros, aparece como uma reedição de práticas antigas, agora revestidas de termos mais aceitáveis no cenário internacional. Ao longo do tempo, diferentes conceitos ocuparam esse lugar de promessa — desenvolvimento sustentável, economia verde, inovação florestal — , quase sempre carregando a mesma questão de fundo, que se resume numa sentença para mim: o problema nunca esteve apenas na ideia, mas nas condições concretas de sua implementação. Em outras palavras, quem define as regras, quem controla os processos e quem se beneficia dos resultados.

Essa disputa ganha ainda mais nitidez quando observada sob a lente econômica. O Banco Mundial calcula que a floresta amazônica em pé teria um valor de US$ 317 bilhões por ano. Ainda assim, o que se verifica na prática revela uma inversão profunda de prioridades. Em 2024, o Pará, que exportou US$ 23 bilhões, eliminou 6,7 milhões de árvores da floresta e obteve um faturamento diminuto de apenas US$ 500 milhões com as madeiras da Amazônia. A discrepância entre o valor potencial da floresta preservada e o retorno efetivo da sua exploração predatória expõe, de forma quase didática, o descompasso entre discurso e prática.

No plano territorial, a situação continua marcada por assimetrias profundas. A expansão de atividades ilegais, como o garimpo e a grilagem, convive com políticas de proteção frequentemente frágeis ou descontinuadas. Ao mesmo tempo, povos indígenas, comunidades quilombolas, ribeirinhas e camponesas mantêm formas de ocupação e uso da terra que demonstram, na prática, outras possibilidades de relação com o ambiente. Essas experiências não são residuais; constituem parte significativa da realidade amazônica e, em muitos casos, são justamente o que impede que a devastação avance ainda mais rapidamente. Ao longo de anos de cobertura, elas aparecem como uma possibilidade de futuro, ainda que constantemente ameaçadas.

No livro Arrabalde, de João Moreira Salles, ele descreve uma frase de um antigo madeireiro que também já ouvi diversas vezes. O depoimento, sincero, de “quando cheguei aqui não tinha nada”. Esse nada era a floresta. O inimigo a vencer, como amplamente divulgado na propaganda oficial do governo militar, por intermédio de órgãos como Sudam e Basa, por exemplo.

Há outras formas de ver a Amazônia, no entanto. Tenho pensado nisso a partir do contato com diversas pessoas que buscam formas diferentes de viver. A cultura ocupa um lugar central nesse cenário, embora nem sempre seja reconhecida como tal. Na música, nas artes visuais, no audiovisual, na gastronomia e na moda, para ficar em exemplos simples, a Amazônia contemporânea vem produzindo linguagens que articulam tradição e experimentação. Essas produções não apenas representam o território, mas participam ativamente de sua construção simbólica e política. Ao mesmo tempo, enfrentam o risco constante de apropriação externa, que transforma referências locais em mercadoria global sem retorno proporcional para seus criadores — um processo que se repete com impressionante regularidade.

No campo da moda, por exemplo, cresce o interesse por matérias-primas amazônicas e por estéticas associadas à floresta. Parte desse movimento se organiza em torno de práticas mais responsáveis, com cadeias produtivas curtas e maior transparência. Outra parte, no entanto, reproduz lógicas já usadas e reusadas, deslocando valor para fora da região. A questão não está apenas no produto final, mas no percurso que ele percorre até chegar ao mercado. Ao longo do tempo, o que muda são os intermediários e as narrativas; a estrutura de concentração de valor, muitas vezes, permanece. Há quem resista a isso e é um alento encontrar esses focos de resistência. Não à toa, a maioria encabeçado por mulheres.

Essa diversidade de possibilidades produtivas também se expressa na própria floresta. Cientistas brasileiros já descreveram, na Amazônia, plantas capazes de produzir fibras, celulose, corantes, óleos essenciais, óleos vegetais fixos, alimentos e substâncias medicinais, com potencial para gerar cadeias econômicas nos setores de alimentos, cosméticos e farmacêutico. Nesse último caso, o contraste também chama atenção: o mercado farmacêutico brasileiro conta com 411 empresas, sendo 295 de capital nacional e 116 internacionais, movimentando cerca de US$ 36 bilhões, enquanto a biodiversidade amazônica, uma de suas maiores bases potenciais, segue subaproveitada ou capturada de forma desigual.

O tema da alimentação também sintetiza muitas dessas tensões vividas atualmente. Sistemas agroflorestais, manejo tradicional e agricultura familiar convivem com a expansão de monoculturas voltadas à exportação, como a soja, no exemplo mais forte atualmente. Cada modelo implica formas distintas de uso do solo e da água, de distribuição de renda e de impacto ambiental. Nesse contexto, a discussão sobre a terra permanece central. A concentração fundiária e a insegurança jurídica alimentam conflitos e dificultam a consolidação de alternativas sustentáveis. O geógrafo Bruno Malheiro tem pesquisas aprofundadas que mostram como a questão da Amazônia como exportadora de soja é um projeto federal. Como diria aquele personagem do Chapolin Colorado: “e agora, quem irá nos ajudar?”.

Converso com Pablo Neri, uma jovem liderança do MST e ele me aponta, categórico, que a reforma agrária, adaptada às especificidades amazônicas e orientada por princípios agroecológicos, precisa voltar a aparecer como elemento estratégico fundamental, ainda que enfrente resistências políticas e econômicas significativas. Quem se aprofunda mais nessa luta corre o risco de sempre ser recebido com violência. Essa é uma constante histórica, registrada de forma contundente por José Batista Afonso e Aírton Pereira no indispensável livro “Assassinatos e Impunidade no campo e no Pará — 1980 a 2024” e também algo que, ao longo de décadas de jornalismo na região, sei que não são apenas dados ou estatísticas, mas um modelo de enfrentamento que se tornou quase um padrão que atravessa gerações.

Leio um texto do jornalista Paulo Silber e vejo esse padrão se repetindo. Ele informa sobre um protesto na Terra Indígena Mãe Maria que paralisou trens da Estrada de Ferro Carajás, reacendendo ações do MPF que questionam licenciamento ambiental e consulta às comunidades. A comunidade indígena mira a Vale, em protesto contra os impactos ambientais atribuídos às obras de duplicação da ferrovia, que já tinha sido alvo de outros protestos recentes. O bloqueio ocorreu no município de Bom Jesus do Tocantins e foi organizado por lideranças de povos que vivem na Terra Indígena Mãe Maria, território com cerca de 62 mil hectares e população aproximada de 1,3 mil pessoas. A área é habitada por povos Gavião, entre eles Parkatêjê, Kyikatêjê e Akrãtikatêjê.

Esse filme já vimos antes. Ainda veremos essa repetição. É fato.

Há caminhos. Iniciativas organizadas por mulheres, jovens, produtores culturais e trabalhadores do campo vêm construindo soluções que articulam geração de renda, preservação ambiental e fortalecimento comunitário. Essas experiências operam em escalas diversas e, muitas vezes, com recursos limitados, mas apresentam um grau elevado de inovação social. O desafio está em ampliar seu alcance sem comprometer sua autonomia e também em conseguirem ser enxergadas de forma completa por quem tem a caneta decisória, algo que historicamente nem sempre acontece.

No plano internacional, a Amazônia permanece no centro de disputas geopolíticas. Interesses ligados a mercados de carbono, biodiversidade e recursos naturais continuam a se intensificar. A pressão externa, que ao longo do tempo já assumiu diferentes justificativas, encontra agora novas formas de se expressar no contexto da transição energética e da economia verde. Ao mesmo tempo, persistem movimentos estratégicos de grandes potências atentos aos recursos minerais da região. Esse cenário exige cuidado para que novas formas de dependência não se estabeleçam sob o argumento da sustentabilidade. A participação efetiva de atores locais nos processos decisórios se torna, nesse sentido, um ponto sensível. Trump sinaliza isso claramente, cobiçando as “terras raras”. A classificação de terrorismo ao PCC e ao Comando Vermelho acende uma luzinha amarela a quem consegue pensar um pouquinho nesse tabuleiro de xadrez do futuro.

Estamos preparados? Gostaria de dizer sim sem pestanejar. Mas entendo que a produção de conhecimento também precisa aparecer como dimensão estratégica. Universidades e centros de pesquisa da região desempenham papel fundamental na construção de alternativas, mas ainda enfrentam limitações estruturais. O fortalecimento dessas instituições, aliado ao reconhecimento dos saberes tradicionais, pode contribuir para a formulação de políticas mais ajustadas à realidade amazônica. Ainda assim, o que se vê, com frequência, é uma distância persistente entre o conhecimento produzido e sua incorporação efetiva nas decisões.

O período posterior à COP-30 não indica um desfecho, mas uma continuidade marcada por tensões e possibilidades. A sustentabilidade, frequentemente apresentada como consenso, revela-se, na prática, um campo de disputas. Diferentes projetos para a Amazônia seguem em confronto, cada um com suas prioridades, seus métodos e suas consequências.

A floresta, por sua vez, permanece como elemento central dessa equação, não apenas por sua importância ecológica, mas por concentrar modos de vida que desafiam padrões dominantes. O que está em jogo não se limita à preservação de um bioma, mas envolve a forma como sociedades organizam suas relações com o território, com o trabalho e com o futuro.

Independentemente de conferências, reuniões ou agendas governamentais, o que permanece é a necessidade de transformar compromissos em práticas consistentes, capazes de dialogar com a complexidade amazônica. E talvez o que a experiência acumulada ao longo de décadas permita afirmar, com alguma cautela, é que a Amazônia não muda no ritmo dos anúncios. Ela se transforma lentamente, de forma desigual e quase sempre em disputa, no entrelaçamento contínuo entre forças que tentam redefini-la em termos puramente econômicos e outras que insistem em mantê-la viva.


*Ismael Machado é jornalista.