Estradas ilegais facilitam avanço do desmatamento na Amazônia

Estradas não oficiais predominam no bioma Amazônico

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As estradas não oficiais predominam no bioma Amazônia e já representam 76% dos 533 mil quilômetros de estradas oficiais, não oficiais e em assentamentos mapeadas na região até 2020 pelo Imazon.

Essas estradas surgem a partir das estradas oficiais e são construídas, na maioria das vezes, sem qualquer planejamento com a malha viária oficial e sem autorizações exigidas por lei, em parte para exploração ilegal dos recursos naturais por madeireiros e pecuaristas, em parte para invasão e especulação de terras públicas por grileiros. Uma vez abertas, elas permitem que novos infratores abram novos ramais, explorem novas áreas, criando verdadeiras artérias de devastação – inclusive dentro de áreas protegidas – e gerando conflitos fundiários.

Para conter o avanço dessas estradas é necessário implementar medidas como: mapeamento das estradas não oficiais pelo IBGE e DNIT, como já fazem com as oficiais; priorização do monitoramento e da fiscalização pelo Ibama, Polícia Federal, ICMBio e Secretarias de Meio Ambiente, contribuindo para o fortalecimento do papel governamental na região; e consolidação e criação de mais áreas protegidas, uma vez que somente 12% de estradas não oficiais ocorrem nessas áreas.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo Imazon [Aqui!]

Brasileiro abre série de palestras do ano Humboldt em Berlim

Pesquisador Paulo Artaxo relaciona desmatamento amazônico a aumento da temperatura média da Terra na abertura de ciclo de conferências que Universidade Humboldt dedica aos 250 anos do nascimento do naturalista alemão.

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Pesquisador Paulo Artaxo na abertura das palestras Kosmos promovida pela Universidade Humboldt em Berlim

A Amazônia é um dos componentes-chave do sistema terrestre e alterações na floresta podem influenciar o clima de todo o planeta. A informação foi apresentada pelo pesquisador brasileiro e professor da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Artaxo, no sábado (07/04), na abertura da série de palestras Kosmos-Lesungen, em Berlim, que marcam os 250 anos do nascimento do naturalista alemão Alexander von Humboldt.

A taxa atual de desmatamento da Amazônia está em 18%. “Se subir para 40%, a floresta tropical corre risco de colapsar e virar savana”, alertou o pesquisador.

A palestra, reservada a autoridades científicas e políticas da Alemanha e que contou com discurso do presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinemeier, lotou o auditório do Teatro Maxim Gorki, localizado logo ao lado do complexo de prédios da Universidade Humboldt.

Artaxo é referência internacional no estudo do meio ambiente amazônico e mudanças climáticas globais, além de membro da equipe do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), agraciada com o Prêmio Nobel da Paz de 2007.

Os dados trazidos por ele mostram que a estação seca na Amazônia está se prolongando, o que resulta em um período de queimadas mais longo. Isso também eleva a temperatura da água dos rios que cruzam a floresta e desembocam no oceano. Além disso, a floresta sempre foi parte importante do ciclo do carbono, o que já não ocorre. “Hoje a absorção de carbono pela floresta amazônica é igual a zero”, frisou.

Além de advertir sobre fatos e riscos, Artaxo também disse que a floresta pode fazer parte da solução. “Só há um processo que pode resolver o problema e remover o CO2 da atmosfera. Ele se chama fotossíntese”. O professor citou ainda outros pontos críticos do sistema climático da Terra, como o Sahel, na África, e a Grande Barreira de Corais, na Austrália. A importância brasileira, no entanto, foi destacada. “O Brasil tem a maior superfície de floresta tropical do mundo. É preciso mantê-la em pé”, afirmou.

O aumento da intensidade e a maior frequência de eventos climáticos extremos já acontecem desde os anos 1980. Para ilustrar os efeitos dessas alterações provocadas pela elevação da temperatura média do planeta, Artaxo citou o ciclone Idai, que matou mais 700 pessoas em Moçambique, no Zimbábue e no Malaui. no início de março.

Outra consequência do aquecimento global é a extinção de espécies. “A América do Sul é a parte da Terra que mais corre risco de perder biodiversidade, seguida pela Austrália e Nova Zelândia”, avisou. A produção de alimentos também será prejudicada e haverá mudanças no ciclo da água. “Já está acontecendo, mas não sabemos o quanto”.

Na palestra, foram apresentados mapas que simularam uma nova geografia, caso as emissões de CO2 não cessem. Cidades podem sumir devido à elevação do nível dos oceanos, um processo que também afeta a Europa, África e Estados Unidos. “Nós sabemos que estamos fazendo isso há mais de cem anos e está acontecendo em todos os lugares do planeta. Aquecimento global não é o futuro, é o presente”, sublinhou.

Segundo Artaxo, há duas fontes para o aquecimento global: A queima de combustíveis fósseis (91%) e o desmatamento (9%). A segunda já apresentou redução. Na década passada, o desmatamento era responsável por 18% do CO2 lançado à atmosfera, absorvido pelos oceanos e florestas. Para zerar as emissões, entretanto, ainda há um longo caminho a percorrer, disse o especialista.

De acordo com o último relatório do IPCC, é preciso reduzir as emissões de gases de efeito estufa em pelo menos 5% ao ano começando em 2020, e zerar essas emissões até 2040. “Isso é possível, mas precisamos de um esforço global conjunto, envolvendo a ciência, os tomadores de decisão e o setor empresarial”, apontou o pesquisador, que completa: “É uma decisão política que tem que ser tomada agora e a ciência aponta os caminhos. Para a ciência, a solução é simples, mas talvez não o seja para a política”, apontou Artaxo.

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Paulo Artaxo gráfico com evolução do desmatamento da Amazônia

Ele mencionou o Acordo de Paris como um movimento para frear as emissões, mas alertou: “Mesmo que seja totalmente cumprido, ainda teremos um aumento entre 2,7°C e 3°C na temperatura media global até 2050”. Artaxo se mostrou cético ao falar sobre o compromisso brasileiro em reduzir 37% das emissões de CO2 até 2025 e 43% até 2030. O país também pretende até 2030 zerar o desflorestamento ilegal e compensar as emissões provenientes do desmatamento legal. “O Brasil até é capaz de cumprir, mas essas metas são bem difíceis”, opinou.

Ao encerrar a palestra, Artaxo apontou que, se ainda estivesse vivo, Alexander von Humboldt, geógrafo, naturalista e explorador alemão, certamente faria recomendações similares a dos atuais cientistas ambientais. “Se queremos evitar um aquecimento de 4°C ou 5°C no nosso planeta ainda neste século, não há outra forma a não ser usar os recursos naturais do nosso planeta de forma mais eficaz e inteligente”.

Após a palestra, Paulo Artaxo falou à DW Brasil sobre a situação da ciência brasileira. Apesar de ter relevância mundial, os cientistas brasileiros carecem de apoio e suporte financeiro dentro de seu próprio país. “A pesquisa não pode depender de orçamento de 1 ano, 2 anos ou 4 anos, pois tem papel fundamental no processo de evolução da economia e da sociedade”, afirmou. “Sem ciência, não há desenvolvimento. Assim, o Brasil será para sempre exportador de minério de ferro ou de soja”, completou.

O pesquisador criticou os recentes cortes de verba e congelamento de repasses para o setor. O orçamento do Ministério das Ciências e Tecnologia foi cortado em 32% de 2018 para 2019. No final de março, o presidente Jair Bolsonaro anunciou um congelamento adicional de repasses de 42%. “Isso basicamente estrangula todo o desenvolvimento cientifico e tecnológico do país. Faz muitos anos que é difícil para o CNPq implementar grandes projetos de pesquisa e isso está fazendo com que o Brasil perca terreno na ciência internacional”, informou o professor, que é pesquisador Emérito do CNPq.

Os cortes de orçamento atingem toda a cadeia de produção de conhecimento científica no Brasil. Desde o bolsista de iniciação científica que recebe 300 reais por mês até o estudante de pós-doutorado e também os projetos de pesquisa em andamento. “É importante frisar que não é só uma questão de recursos, é uma questão de modelo de desenvolvimento, do que se quer para o país daqui a 10, 15 ou 50 anos”, apontou.

“A função do governo é pensar essa estratégia e implementar medidas de longo prazo, visando para que caminho o país quer ir. E isso não está sendo feito”, finalizou.

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Esta reportagem foi originalmente produzida e publicada pela Deutsche Welle [Aqui!]

Desmantelamento de leis e caos ambiental sob Bolsonaro

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Na imagem os ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Tereza Cristina (Agricultura) se “vestem de índios” ao visitar uma monocultura de soja plantada ilegalmente em terra indígena no Mato Grosso.

O site “Direto da Ciência” divulgou hoje a publicação de um artigo publicado pela revista Nature Ecology & Evolution dando conta dos efeitos dramáticos que a chegada de Jair Bolsonaro à presidência da república poderá em termos da aceleração do processo de erosão de medidas de proteção ambiental no Brasil.

Como alguém que tem estado envolvido em estudos sobre a dinâmica de desmatamento da Amazônia brasileira desde o início da década de 1990 e nas repercussões do uso de agrotóxicos sobre a saúde humana e ecossistemas naturais, só posso ficar ainda mais preocupado com os elementos levantados por Denis Abessa, Ana Famá e Lucas Buruaem.

É que todas as ações que já foram tomadas no âmbito dos ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente sinalizam para um aprofundamento do processo de desmantelamento do frágil sistema de proteção ambiental que foi implantado a duras penas no Brasil a partir de 1973 com a criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente que ficou sob o comando do recentemente falecido João Paulo Nogueira Neto.

Os efeitos deste desmantelamento serão sentidos por gerações inteiras, na medida em que se contribuirá para a ampliação da degradação ambiental em todo o território, mas especialmente na Amazônia e no Cerrado, justamente num momento em que as primeiras manifestações de eventos atmosféricos extremos que estão associadas às mudanças climáticas globais estão se manifestando em diversas partes do planeta, como foi o caso do ciclone Idai que arrasou cidades inteiras em Moçambique e no Zimbábuae.

Para ler mais sobre este artigo, sugiro a leitura da matéria publicada no Direto da Ciência que pode ser acessada [Aqui!]

Amazônia: desmatamento cresce no primeiro mês de 2019

Boletim do Imazon mostra aumento de 54% do desmatamento da Amazônia Legal, com destaque para a destruição no Pará e Mato Grosso

Timber from a PMFS in Brazil
Madeira de PMFS

Toras de madeira provenientes de plano de manejo florestal no pátio de uma unidade de conservação, em 2017, no Pará.

Por Greenpeace Brasil

O Instituto Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) acaba de divulgar os primeiros dados de 2019 de seu Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) e o boletim aponta que o desmatamento na Amazônia Legal aumentou 54% em janeiro, na comparação com o mesmo mês do ano passado.

O aumento impressionante confirma as piores projeções feitas por ambientalistas, pesquisadores e cientistas políticos sobre os efeitos imediatos das políticas propostas pelo novo governo no campo. Não por coincidência, os Municípios da Amazônia que elegeram Bolsonaro no 1º turno foram os que mais desmataram nos últimos 17 anos.

No total, foram detectados 108 km² de desmatamento na Amazônia Legal. O estado do Pará foi o que mais desmatou, com 37% do total, seguido de Mato Grosso (32%), Roraima (16%), Rondônia (8%), Amazonas (6%) e Acre (1%).

A maior parte deste desmatamento (67%) ocorreu em áreas privadas ou sob diversos estágios de posse, mas há um dado preocupante, boa parcela desta destruição ocorreu em Unidades de Conservação (5%) e Terras Indígenas (7%), o que pode indicar que a sinalização de que o governo irá afrouxar a fiscalização e paralisar demarcações já promove uma corrida pelo desmatamento.

Flertando com a volta violenta do desmatamento

O crescimento do desmatamento em 2019, apesar de chocante, já era esperado. Desde a campanha eleitoral, o então candidato Jair Bolsonaro já dava sinais claros de que promoveria retrocessos na agenda socioambiental caso fosse eleito. No primeiro dia de mandato, o novo governo transferiu, através da MP 870, a responsabilidade pela identificação, a delimitação, reconhecimento e demarcação de Terras Indígenas (TIs) para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), comandado pela ministra Tereza Cristina, líder da bancada ruralista. Já a Funai saiu do Ministério da Justiça e está agora subordinada ao novo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos.

A demarcação de TIs nas mãos do MAPA representa um claro conflito de interesses, já que historicamente o Ministério defende e é largamente influenciado pelos interesses da bancada ruralista, que vem liderando um verdadeiro ataque às áreas protegidas no País.

“Combater o desmatamento é uma responsabilidade do Brasil e deveria ser tratada pelo governo como uma prioridade, já que esta é a principal fonte de emissões de gases do efeito estufa do país”, afirma Carolina Marçal, da campanha de Amazônia do Greenpeace. “Ao protagonizar a imposição de uma agenda que viola os direitos dos povos indígenas e populações tradicionais, o novo governo nos conduz a um cenário ainda mais desolador de avanço da violência no campo e destruição ambiental, confirmados pelos primeiros dados do SAD”.


Este artigo foi originalmente publicado pelo Greenpeace Brasil [Aqui!]

Cientistas brasileiros sugerem redefinição dos limites da Amazônia

Floresta de Transição
Zona de transição cerrado e floresta.
Pesquisadores de três universidades brasileiras realizaram um extenso trabalho de mapeamento por satélite e chegaram à conclusão de que a Amazônia é maior e mais ao sul do que indicam os limites oficiais. O líder dos estudos, professor Ben Hur Marimon Junior, da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), revela que a fronteira entre a Amazônia e o Cerrado não está adequadamente posicionada e também não é uma simples linha divisória, conforme consta no mapeamento oficial. O pesquisador destaca que a transição entre a Amazônia e o Cerrado deve ser considerada como uma extensa faixa, com larguras que chegam até 250 km. “É preciso reposicionar a Amazônia e o Cerrado nos mapas oficiais para melhor adequar os dois maiores biomas brasileiros às leis e politicas públicas de proteção à biodiversidade”, conclui o professor.
Segundo Eduardo Queiroz Marques, primeiro autor dos estudos, existem falhas nos mapas oficiais, que eram baseados na antiga tecnologia de imagens de radar nos anos 1970. “Estas antigas técnicas de mapeamento não permitiam o mesmo nível de detalhamento que temos hoje”, revela o especialista em mapeamento por satélite, prof. Eraldo Matricardi (UnB), um dos coautores do estudo. “Esta tecnologia não foi eficaz na delimitação das florestas que fazem a conexão entre os biomas e não conferem com a realidade dos limites da Amazônia com o Cerrado”, conclui Matricardi.

rainforest cerrado amazon
Mapeamento feito com novas técnicas de sensoriamento mostra que a Amazônia é maior e mais ao sul do que tradicionalmente mostrado.
Para a professora da UNEMAT Beatriz Marimon, também coautora dos estudos, uma das consequências da imprecisão dos antigos mapas é que alguns tipos de florestas que eram comuns no sul da Amazônia foram confundidos com cerrado denso, que são menos protegidos pela legislação brasileira, tanto pelo novo quanto o antigo Código Florestal. Junto com a vegetação perdemos também espécies de animais nesta região única de biodiversidade, revela o especialista em fauna da UnB, professor Guarino Colli, outro coautor do estudo.
Os cientistas revelaram que algumas imprecisões no mapeamento oficial dos limites da Amazônia meridional permitiram que o desmatamento atingisse níveis próximos ao colapso em muitas áreas de intenso uso agropecuário. “Nosso trabalho não só redefiniu pela primeira vez uma parte importante dos limites entre a Amazônia e o Cerrado, mas revelou a necessidade urgente da criação de uma zona especial de amortecimento ao sul e sudeste da Amazônia para conservar as florestas remanescentes na região e evitar novos desfechos do erro na delimitação dos biomas”, conclui Ben Hur.
Quem desejar acessar o artigo que apresenta os resultado da pesquisa e que foi publicado na revista “Biodiversity and Conservation”, basta clicar [Aqui!].

Marketing acadêmico: revista Agenda Social lança primeiro número de 2018

A revista Agenda Social, uma publicação impulsionada pelo Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte (Uenf) lançou hoje o primeiro número do ano de 2018.

agenda social 2018

A Agenda Social que já está no seu Volume 12 é voltada para abarcar, sob um olhar multidisciplinar, vários aspectos críticos da realidade atual, desde a escala local até o global.

Como explica o editor-chefe da Agenda Social, Professor Fábio Py, , o presente número é um  “dossiê composto por temas ligados à experimentação teórico-metodológica dos saberes amazônicos, que ocorreram inicialmente na IV Semana Panamazônica, organizada pelo Instituto de Linguística, Letras e Artes (ILLA) e pelo Instituto de Ciências Humanas (ICH), da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa)“.

O lançamento deste número não poderia vir num momento mais auspicioso do que estamos enfrentando no Brasil neste momento, onde existem propostas concretas para colocar a Amazônia em um novo ciclo de grandes projetos de infraestrutura.  E numa coerência direta com a necessidade de análise crítica dos prós e contras destas propostas, vários dos artigos desta edição apontam e analisam várias contradições e sequelas criadas  pelas tentativas anteriores de incluir a Amazônia dentro dos esforços voltados para o crescimento econômico do Brasil.

Quem desejar acessar este número da Agenda Social, basta clicar [Aqui!].