Estudo mostra que os investimentos em pesquisas sobre biodiversidade secundariza instituições sediadas na Amazônia

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A Amazônia brasileira é uma das regiões de maior biodiversidade e ecologicamente importantes da Terra. No entanto, segundo um estudo que se encontra no prelo para publicação pela revista Perspectives in Ecology and Conservation, os investimentos em pesquisa para a biodiversidade nos biomas amazônicos são desproporcionalmente baixos em comparação com outras regiões do Brasil (Ver figura abaixo).

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Distribuição de recursos financeiros para projetos de pesquisa e bolsas entre macrorregiões brasileiras. As bolsas representam o número de bolsas individuais de mestrado, doutorado e pós-doutorado financiadas pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Ensino Superior) para a área de biodiversidade em 2022; O orçamento do projeto é o investimento realizado por Bolsas Universais financiadas pelo CNPq relacionadas à Botânica, Zoologia, Ecologia e Limnologia entre 2016 e 2022; O orçamento do PELD são os recursos entregues pelo CNPq em 2020 para monitoramento de locais de Pesquisa Ecológica de Longa Duração, conforme situação da instituição executora. Todos os valores foram calculados considerando a conversão monetária da moeda de 1 USD para 5,34 BRL. A coluna (A) indica os valores totais; (B) a relação entre os valores totais e a população total de cada macrorregião (IBGE, 2022); e (C) a relação entre os valores totais e a área total (km²) de cada macrorregião.

Os autores do estudo mostram que em 2022, a Amazônia recebeu 13% das bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado e abrigou 11% de todos os pesquisadores que atuam em programas de pós-graduação em biodiversidade.

Além disso, os dados levantados pelos autores do estudo mostram que as instituições amazônicas receberam aproximadamente 10% de todo o orçamento federal gasto em subsídios e bolsas de estudo e cerca de 23% de todos os recursos destinados ao apoio a sítios ecológicos de longo prazo.  Por outro lado, as cidades de Manaus e Belém concentram cerca de 90% de todas as bolsas e bolsas disponíveis para toda a região.

Um fato relevante que é mostrado no estudo é que, apesar do investimento per capita em pesquisa na Amazônia ser igual ou melhor do que o disponível para as regiões economicamente mais desenvolvidas do Brasil, a distribuição de recursos por área é altamente desigual.

Finalmente, os autores do estudo argumentam que o aumento do financiamento da pesquisa para a região amazônica requer contribuições diferenciadas das agências federais e mais colaborações transnacionais e integração entre programas amazônicos e fundos internacionais.

Seca devastadora na Amazônia é resultado da crise climática, mostra estudo

Condições climáticas extremas ameaçam o maior reservatório de carbono do mundo, pois a floresta tropical já está perto do ponto de inflexão

droughtCasas flutuantes e barcos encalhados no leito seco do lago Puraquequara, no Brasil, em meio a uma forte seca em outubro de 2023. Foto: Edmar Barros/AP

Por Damian Carrington para o “The Guardian”

A crise climática transformou a seca que atingiu a floresta amazónica em 2023 num acontecimento devastador, concluiu um estudo.

A seca foi a pior registada em muitos locais e atingiu o nível máximo “excepcional” na escala científica. Sem as emissões que aquecem o planeta provenientes da queima de petróleo, gás e carvão, a seca teria sido muito menos extrema, concluiu a análise.

Também mostrou que a probabilidade de ocorrência da seca era 30 vezes maior devido ao aquecimento global. O regresso do fenómeno climático natural El Niño está associado a condições mais secas, mas desempenhou apenas um pequeno papel, disseram os cientistas.

crise climática está a sobrecarregar condições meteorológicas extremas em todo o planeta, mas a seca extrema na Amazónia é um exemplo gritante e preocupante porque já se pensa que a floresta tropical está perto de um ponto de inflexão para um estado mais seco. Isto resultaria numa morte em massa de árvores que constituem a reserva terrestre de carbono mais importante do mundo, libertando grandes quantidades de CO2 e elevando ainda mais as temperaturas globais.

Milhões de pessoas na Amazônia foram afetadas pela seca , com alguns rios em seus níveis mais baixos há mais de um século. Houve escassez de água potável, colheitas fracassadas e cortes de energia, à medida que as centrais hidroeléctricas secaram. A seca também agravou os incêndios florestais e as altas temperaturas da água foram associadas a uma mortalidade em massa da vida fluvial, incluindo a morte de mais de 150 botos cor-de-rosa ameaçados de extinção numa única semana.

“A Amazônia pode fazer ou quebrar a nossa luta contra as mudanças climáticas”, disse Regina Rodrigues, professora da Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil, e parte da equipe da World Weather Attribution que fez a análise.

“Se protegermos a floresta, ela continuará a funcionar como o maior sumidouro de carbono terrestre do mundo”, disse ela. “Mas se permitirmos que as emissões induzidas pelo homem e a desflorestação a empurrem para o ponto de viragem, serão libertadas grandes quantidades de CO2 . Precisamos proteger a floresta tropical e abandonar os combustíveis fósseis o mais rápido possível.”

Simphiwe Stewart, pesquisadora do Centro Climático da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho na Holanda e também parte da equipe, disse: “Muitas comunidades que vivem na Amazônia simplesmente nunca viram uma seca como esta antes. As pessoas foram forçadas a fazer grandes viagens, arrastando barcos por trechos secos do rio, para ter acesso a alimentos, remédios e outros bens essenciais. É fundamental que as intervenções governamentais sejam orientadas para apoiar as comunidades a prepararem-se para a intensificação da seca à medida que o clima aquece.”

A análise utilizou métodos revistos por pares para comparar as secas no clima actual, que é 1,2ºC mais quente, com aquelas que teriam ocorrido num clima mais frio e pré-industrial. Os investigadores analisaram em particular a “seca agrícola”, que é responsável tanto pela baixa pluviosidade como pela evaporação da água dos solos e das plantas provocada pelas altas temperaturas.

Eles descobriram que o aquecimento global está diminuindo as chuvas e aumentando o calor na Amazônia, tornando a seca de junho a novembro de 2023 cerca de 30 vezes mais provável. O El Niño foi responsável por parte da redução das chuvas, mas as altas temperaturas foram quase inteiramente devidas às alterações climáticas, tornando-o o principal factor da seca.

A seca extrema de 2023 seria esperada cerca de uma vez a cada 50 anos no clima atual, estimou a análise. Mas se o aquecimento global atingir os 2ºC, seria de esperar uma seca tão severa a cada 13 anos.

Os cientistas disseram que a destruição em grande escala da floresta tropical para a produção de carne bovina e soja nas últimas décadas piorou a seca porque o desmatamento da vegetação significa que a terra retém menos água.

Dados recentes mostram que a floresta amazónica está se aproximando de um ponto de viragem, após o qual a floresta tropical seria perdida, com profundas implicações para o clima e a biodiversidade globais. Mais de 75% da floresta intocada perdeu estabilidade desde o início dos anos 2000, mostrou o estudo, o que significa que leva mais tempo para se recuperar após secas e incêndios florestais.

Gareth Redmond-King, da Unidade de Inteligência Energética e Climática do Reino Unido, disse: “A floresta amazónica é fundamental para regular o clima do nosso planeta, mas esta área da América do Sul também é crítica para o Reino Unido num sentido ainda mais imediato”.

“Cerca de metade das nossas importações de alimentos provém de pontos críticos de impacto climático, incluindo o Peru, a Colômbia e o Brasil, que são os nossos principais fornecedores de bananas, abacates, melões e outras frutas, bem como de soja para alimentação do gado britânico”, disse ele. “Portanto, os efeitos devastadores das alterações climáticas sobre os agricultores da América do Sul no ano passado podem muito bem traduzir-se em lacunas nas prateleiras dos nossos supermercados e em preços mais elevados para os nossos alimentos.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Perspectivas para 2024 para florestas tropicais

Tropical Rainforest Landscape, Amazon

Por Rhett A. Butler para a Mongabay

Na semana passada, a Mongabay publicou uma recapitulação das principais tendências nas florestas tropicais do mundo para 2023 . Aqui está um vislumbre de algumas das principais questões a serem monitoradas em 2024.

Brasil

taxa de desmatamento na Amazônia brasileira diminuiu significativamente durante o primeiro ano do terceiro mandato do presidente Lula, após o restabelecimento de vários programas de proteção da floresta tropical. No entanto, Lula enfrenta oposição substancial do Congresso e dos governos estaduais em relação às suas políticas ambientais. Apesar destes desafios, o apoio internacional à Amazónia está a reforçar os esforços de conservação da sua administração.

Eleições na RDC e na Indonésia

As eleições presidenciais serão iminentes em dois países com extensas florestas tropicais, a República Democrática do Congo (RDC) e a Indonésia.

Na RDC, o Presidente Felix Tshisekedi foi reeleito em Dezembro, no meio de controvérsia, com observadores e oposição a afirmarem que a votação não foi livre nem justa. Dado que a presidência de Tshisekedi coincidiu com taxas de desmatamento persistentemente elevadas e uma forte procura pelos minerais do país, a sua reeleição provavelmente indica poucas mudanças substanciais na tendência actual. Contudo, a escalada da instabilidade no Leste, potencialmente agravando a crise humanitária existente, poderá introduzir mais incerteza.

Na Indonésia, o ministro da Defesa, Prabowo Subianto, emergiu como o favorito presidencial. Prabowo, um crítico veemente do Regulamento Desmatamento Zero da UE, suscitou preocupações das ONG sobre o futuro da protecção ambiental na Indonésia. A redução consistente, embora subreconhecida, do desmatamento no país desde então levanta questões sobre sua continuação sob a liderança potencial de Prabowo.

Passagem de Wallace na Papua Ocidental da Indonésia.  Crédito da foto: Rhett A. Butler
Passagem de Wallace na Papua Ocidental da Indonésia. Crédito da foto: Rhett A. Butler

Mercados de Carbono

Depois de um ano desafiante, marcado por controvérsias e pela descida dos preços das compensações baseadas na natureza, os defensores dos créditos de carbono florestais têm esperança de que os padrões recentemente mais rigorosos nos mercados voluntários de carbono possam revitalizar o sector.

O estado brasileiro do Tocantins está preparado para verificar e vender créditos jurisdicionais de REDD+ (JREDD), que os proponentes argumentam serem mais confiáveis ​​do que os créditos convencionais de REDD+ no mercado voluntário. Um lançamento bem-sucedido poderia catalisar o mercado para esses créditos.

FUTUROS DE COMPENSAÇÃO DE EMISSÕES GLOBAIS BASEADAS NA NATUREZA DA CBL: contratos de fevereiro de 2024 e maio de 2024.  Cortesia do CME.
Futuros de compensações de emissões globais baseadas na natureza da CBL: contratos de fevereiro de 2024 e maio de 2024. Cortesia do CME

El Nino

A NASA e a Organização Meteorológica Mundial prevêem que o atual evento El Niño terminará este ano. Este desenvolvimento traria um certo alívio às florestas tropicais da Indonésia e da Amazónia, que sofreram secas em 2023.

Floresta e dendê em Jambi, Indonésia.  Crédito da foto: Rhett A. Butler
Floresta e dendê em Jambi, Indonésia. Crédito da foto: Rhett A. Butler

Inflação global e preços de commodities

Embora a inflação global pareça estar a diminuir, os analistas estão divididos quanto às previsões dos preços das matérias-primas. Por exemplo, a S&P Global prevê preços elevados do óleo de palma devido à estagnação da produção em grandes produtores como a Indonésia e a Malásia, juntamente com o aumento da procura de biodiesel, potencialmente sobrecarregando a oferta. Por outro lado, a Fitch prevê preços significativamente mais baixos, atribuindo isso às condições climáticas favoráveis.

Avanços em dados florestais

Espera-se que as melhorias na recolha de dados florestais continuem em 2024, impulsionadas pela crescente prevalência de satélites e pelos avanços na inteligência artificial e outras tecnologias. Por exemplo, a empresa de satélites Planet deverá introduzir uma ferramenta de mapeamento de carbono florestal e lançar a sua próxima geração de satélites ainda este ano.

Espera-se que a Universidade de Maryland divulgue sua avaliação anual da cobertura florestal global na primavera, enquanto uma parceria entre a Iniciativa Internacional para o Clima e Florestas da Noruega (NICFI) e o Bezos Earth Fund expandirá o acesso gratuito e universal ao monitoramento de alta resolução por satélite do trópicos.

Floresta tropical no Equador.  Crédito da foto: Rhett A. Butler
Floresta tropical no Equador. Crédito da foto: Rhett A. Butler

Progresso em compromissos de alto nível?

Na COP26, em Glasgow, mais de 140 países comprometeram-se a travar e reverter a desflorestação até 2030. Este compromisso foi reafirmado na COP28, no Dubai, no mês passado. Contudo, progressos significativos na garantia do financiamento necessário para atingir este objetivo continuam a ser ilusórios. O mundo está alarmantemente fora do rumo , como evidenciado pelo aumento do desmatamento em 2022. A questão premente agora é: estarão os líderes mundiais, abrangendo as esferas política e empresarial, à altura do desafio de travar o desmatamento?


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Este escrito originalmente em inglês foi publicado pela Mongabay [Aqui!].

Estudo mostra que a cor dos rios é uma pista confiável na luta contra a Malária

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Um estudo no Brasil constatou que perto de rios de águas escuras há maior incidência de malária que em zonas que lindan com rios de águas claras. Crédito da imagem: Alexandre Amorim/Panoramio , sob licença Creative Commons CC BY-SA 3.0 Deed 

Por Pablo Corso para a SciDev

As populações que vivem próximas de rios de águas escuras têm maior incidência de malária do querios de águas claras, é o que mostra um estudo pesquisadores brasileiros no Malaria Journal .

Esta informação deveria facilitar a identificação de zonas com alto risco de transmissão de doenças e contribuir para o planejamento de ações preventivas.

A malária é transmitida pelo mosquito Anopheles , com casos sendo impulsionados pela combinação de más instalações sanitárias, degradação ambiental , mudanças de temperatura e condições hidrológicas.

No Brasil, a doença se concentra nos estados da Amazônia, e em alguns rios se reproduzem os mosquitos que atuam como vetores.

Na Amazônia, que abriga uma das maiores bacias  hidrográficas do mundo, sedimentos como areia, silte e argila afetam a coloração dos rios, o que deriva em pistas confiáveis ​​sobre a presença —ou não— do mosquito que transmite a malaria. Os rios classificados como brancos, segundo dados do estudo, transportam grande quantidade de sedimentos.  Os “negros” levam grandes quantidades de nutrientes orgânicos.

Os casos de malária são mais frequentes nestes últimos, concluiu o estudo que se estendeu durante 17 anos (2003-2019) em 50 municípios do estado do Amazonas.

“É possível que estes achados ajudem a melhorar as estratégias de controle, ampliando o conhecimento sobre a identificação de zonas com maior risco de transmissão (…) e que ser extrapoladas para regiões com características semelhantes”.

Jesem Yamall Orellana, coautor do estudo

Os sedimentos em suspensão, em mudança, baixam a temperatura e aumentam a velocidade das águas, um obstáculo para a reprodução do vetor.

Para realizar essas observações, o pesquisador recorreu a imagens de satélite, informações de estações pluviométricas e bases de dados oficiais sobre a doença.

“Ao comparar os valores mais altos de incidência de malária, a probabilidade de que fosse menor nos rios de água branca era cerca de 96%”, precisou SciDev.Net Jesem Yamall Orellana, um dos autores do trabalho.

“É possível que esses achados ajudem a melhorar as estratégias de controle, ampliando o conhecimento sobre a identificação de zonas com maior risco de transmissão”, acrescenta. “Pode-se extrapolar para regiões com características semelhantes”.

Gabriel Zorello Laporta, autor de outro trabalho sobre a incidência da Malária no Brasil , sinalizou que a pesquisa “estabelece em termos formais uma relação empírica muito conhecida pelos entomólogos que trabalham na região amazônica”. Coincide que os resultados poderiam extrapolar para países como o Peru, onde vive o mesmo vetor ( Nyssorhynchus darlingi ), mas não poderia acontecer o mesmo em países com vetores diferentes.

O caminho da prevenção

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, o planeta registrou 247 milhões de casos de malária em 2021. Isso representa dois milhões a mais que em 2020, embora se atribua a suba à interrupção dos serviços sanitários durante a pandemia.

Nas últimas décadas, iniciativas governamentais avançadas para prevenir a doença levaram à redução global do ritmo de contágios e mortes .

Em países onde a doença é endêmica, a incidência foi reduzida de 82 casos por cada 1.000 habitantes em 2000 para 57 em 2019, destaca o Relatório Mundial sobre Malária de 2022.

Enquanto a África relatava 95 % dos casos de malária no mundo, nas Américas o número baixou de 1,5 milhão em 2000 para 600.000 em 2021. Países como Argentina, Paraguai e El Salvador conseguiram eliminar a doença.

O Brasil também mostra uma tendência decrescente, com ações de prevenção, controle e vigilância. Entre eles, Yamall Orellana destaca o “apoio técnico, maior acesso a mosquitos e inseticidas de longa duração, testes de diagnóstico rápido, melhorias em redes de laboratórios, educação sanitária e formação de profissionais”.

Então, fique muito por fazer. “Dos 29 municípios classificados como de alto risco pelo Ministério da Saúde do Brasil em 2021, 14 foram estabelecidos no Amazonas ”, precisa. “Esses estados são muito grandes e heterogêneos e —em geral— compreendem territórios de difícil acesso, o que torna muito desafiador o controle da doença”, disse Zorello Laporta.

Isso dificultou zonas de abarca como Roraima, o estado onde habitam os indígenas yanomami, vítimas de uma catástrofe social e sanitária que complica ainda mais a abordagem.

Junto ao Pará, neste estado também avançou o garimpo ilegal. “Os portadores assintomáticos perpetuam a transmissão, especialmente se eles fizerem parte de uma atividade econômica ilícita, que implica uma dinâmica de mobilidade entre diversas localidades”, explica.

O contexto nacional, de Zorello Laporta, motiva um grande otimismo, porque o governo de Lula da Silva respalda “a conservação das florestas, dos direitos indígenas e das disparidades na saúde”, elogia. “O compromisso político e económico é fundamental para sustentar a luta contra a malária”.

Esta luta, advertiu Yamall Orellana, deve se estender a países como Venezuela e Colômbia, que junto com o Brasil concentram cerca de 80% dos casos na América do Sul

“A situação epidemiológica ainda é preocupante” nessas nações, alerta, porque se enfrenta desafios persistentes em torno da disposição de dados confiáveis ​​e estratégias para melhorar o diagnóstico e o acesso ao tratamento.


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Este artigo escrito originalmente em espanhol foi produzido pela edição da América Latina e Caribe do SciDev.Net e publicado Aqui!

Expansão do agronegócio está afetando os ribeirinhos na Amazônia

Avanço da fronteira agropecuária compromete a economia e as práticas de subsistência de comunidades que vivem às margens dos rios Purus e Madeira, no sul amazonense

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Região portuária de Lábrea (AM). Foto: João Maciel de Araújo 

Por Rodrigo de Oliveira Andrade

A expansão da fronteira agropecuária nos municípios de Boca do Acre, Lábrea e Humaitá, no interior do estado do Amazonas, tem colocado em risco a economia e as práticas de subsistência das populações ribeirinhas que vivem às margens dos rios Purus e Madeira, como a pesca artesanal, a agricultura de várzea (praticada à beira dos rios) e o extrativismo de açaí, cacau e castanha.

A conclusão é de um grupo de pesquisadores do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (Ifam), em Humaitá. Sob coordenação do sociólogo João Maciel de Araújo, eles têm empreendido uma série de entrevistas e reuniões com ribeirinhos de seis comunidades nessas regiões para identificar seus problemas e suas principais demandas. Os especialistas também querem entender como eles têm se articulado com gestores públicos, proprietários de terras, lideranças sindicais e comunitárias, e instituições de pesquisa e ambientais.

O objetivo é fazer um diagnóstico socioeconômico e produtivo dessas comunidades e criar um plano de desenvolvimento comunitário, “com diretrizes que os orientem a superar seus problemas e garantir seus direitos”, explica Araújo.

As entrevistas e reuniões têm lançado luz sobre como a expansão do agronegócio — baseado na monocultura de grãos e de pasto para a pecuária bovina de corte — tem impactado os modos de vida e a economia dessas populações nos últimos anos. “Uma das coisas que temos observado é que essas comunidades parecem ser invisíveis aos olhos do poder público, que tende a considerar a agropecuária o motor do desenvolvimento econômico da região”, diz.

Manejo de Pirarucu em Jucuruá. Foto: Jelsenir Barbosa de Souza

Segundo ele, os incentivos ao desenvolvimento econômico local estão majoritariamente voltados à promoção da agropecuária, em detrimento de atividades ribeirinhas ligadas à pesca artesanal, à agricultura de várzea e à extração de frutos da natureza para consumo próprio e comercialização. “Isso contribui para ampliar a vulnerabilidade dessas populações”, comenta Araújo, acrescentando que a forte seca ocorrida na região agravou esse cenário.

Outro aspecto importante observado pelos pesquisadores diz respeito à falta de segurança fundiária para o desenvolvimento de atividades extrativistas. Araújo explica que a estrutura produtiva das populações ribeirinhas ao longo do ano baseia-se ora nas áreas de várzea, ora em terra firme. “Eles vivem a maior parte do tempo às margens dos rios, pescando e desenvolvendo sua agricultura de várzea”, diz o sociólogo. “Em determinado momento do ano, entram na floresta, onde passam semanas coletando frutos como açaí, cacau e castanha.”

Produção ribeirinha em Boca do Acre. Foto: João Maciel de Araújo

O problema é que esses indivíduos não são donos dessas terras, que tampouco estão protegidas como áreas de conservação, de modo que eles ficam à mercê das regras impostas por aqueles que se dizem proprietários. “Muitos deles, com incentivo do poder público, optam por vender ou transformar suas terras em áreas de produção agropecuária”, afirma o pesquisador. “De uma hora para outra, muitos ribeirinhos deixam de ter autorização para circular por essas áreas e colher seus frutos.”

Mapas feitos pelas próprias comunidades — com auxílio dos pesquisadores e por meio de metodologias de cartografia social, baseadas em relatos orais ou antigas descrições —, indicam que houve uma diminuição do território pelos quais os ribeirinhos daquela região podiam circular e fazer o manejo tradicional de recursos naturais, além de um crescimento acentuado das áreas de produção agropecuária.

Muitos ribeirinhos e populações tradicionais precisam se deslocar para outras áreas. Chegando lá, no entanto, têm de disputar espaço e recursos locais com outras comunidades, o que, não raro, gera atritos e conflitos. Nas entrevistas feitas com moradores da comunidade Jurucuá, na Reserva Extrativista do Médio Purus, os pesquisadores ouviram relatos recorrentes sobre um aumento da quantidade de pessoas de outras localidades, que tentam pescar em determinados lagos da região e coletar castanha em áreas antes disponíveis exclusivamente aos moradores da reserva. 

Os pesquisadores agora estão trabalhando na sistematização dos dados coletados por meio das entrevistas e trabalhando com os membros das comunidades na concepção de seus planos de desenvolvimento. “A ideia é ajudá-los a se organizar para melhorar suas condições de vida a médio e longo prazo, orientando suas associações comunitárias sobre os tipos de pressões que elas precisam fazer junto ao poder público para conseguirem resolver esses e outros problemas a que estão sendo submetidos”, afirma o sociólogo.

Segundo ele, a pesquisa evidencia o contraste de visões de mundo e de relação com a natureza e os recursos naturais. “Para os ribeirinhos, essas regiões são fonte de elementos que estruturam sua organização, baseada em relações de reciprocidade com a natureza, enquanto que para os agentes da frente de expansão agropecuária são meras fontes de obtenção de lucro”, conclui.


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Este texto foi originalmente publicado pela Humanamente – Divulgação Científica em Humanidades [Aqui!].

Pecuária na Amazônia pode ser responsável por 3 milhões de hectares de desmatamento até 2025

Estudo publicado nesta quarta calculou risco de destruição da floresta em áreas de compra de frigoríficos instalados no bioma. JBS é a empresa com maior risco

Gado na região de Marapá, sudeste da Amazônia paraense 

Se não adotar práticas mais eficientes de controle da cadeia, como a rastreabilidade individual, a pecuária na Amazônia pode ser responsável pela destruição de 3 milhões de hectares de floresta nos próximos dois anos, uma área equivalente ao território da Bélgica. Os dados são de um estudo realizado pelo Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), publicado nesta quarta-feira (22).

Para chegar a esse número, o Imazon calculou o grau de exposição ao desmatamento dentro das áreas de compra dos frigoríficos, considerando diferentes critérios.

O que encontraram foi que a exposição dos frigoríficos à destruição da floresta passou de 6,8 milhões de hectares em 2016, para 14,2 milhões de hectares em 2022. Isto é, a quantidade de áreas expostas ao desmatamento cresceu 108% em seis anos, mesmo sob forte pressão para o setor desvincular-se do problema.

Destes 14,2 milhões de hectares, 8,7 milhões de hectares já foram de fato desmatados em alguma medida, de forma legal ou ilegalmente. Outros 2,3 milhões são áreas embargadas pelo Ibama. 

Os 3,2 milhões de hectares restantes são justamente as porções de floresta em pé existentes nas áreas de compra dos frigoríficos que correm o risco de virem ao chão.

Segundo a pesquisa, a ameaça de destruição futura foi estimada levando em conta variáveis importantes para o desmatamento, como a inclinação do terreno, distância para rios, estradas e frigoríficos, classe territorial (terras indígenas, unidades de conservação, etc) e proximidade de derrubadas recentes e antigas.

“Já temos literatura científica e projetos de campo suficientes para mostrar que não precisamos mais desmatar nenhum hectare na Amazônia para aumentar a produção de carne. O que precisamos é melhorar a produtividade, que pode passar de um a pelo menos três bois por hectare com as tecnologias e as ofertas de crédito existentes”, defende a pesquisadora do Imazon Ritaumaria Pereira, uma das responsáveis pelo relatório.

Gigantes expostasO estudo também ranqueou os frigoríficos em relação à exposição deles às ameaças de destruição da floresta. A empresa mais crítica é a JBS, com quase 10 milhões de hectares desmatados, embargados ou sob risco de derrubada em suas zonas de compras. Em seguida está a Vale Grande, com pouco mais de 4 milhões de hectares. Masterboi, Minerva e Mercúrio completam o top 5, todas com mais de 2 milhões de hectares. 

O trabalho chama atenção para o fato de que nem as empresas que firmaram compromissos com Ministério Público Federal para controle da cadeia conseguem garantir que seus produtos estejam isentos da devastação ilegal.

Isso acontece porque os fornecedores indiretos ainda estão fora da equação. Ou seja: os frigoríficos prestam contas ao MPF apenas dos fornecedores diretos, que, apesar de estarem legalizados, podem ter adquirido animais de fazendas irregulares. 

A prática, conhecida como “lavagem de gado”, poderia ser resolvida com a exigência da rastreabilidade de todos os bovinos desde o nascimento, defende o Imazon. Algumas empresas têm anunciado medidas nesse sentido, mas apenas para depois de 2025.

“É inviável aceitar esse prazo para um problema que se arrasta há décadas, ainda mais quando ele pode representar o desmatamento de uma área do tamanho de Alagoas. Isso aumentará significativamente as emissões brasileiras de gases de efeito estufa em um momento de emergência climática que traz consequências como as secas no Norte e as chuvaradas no Sul. Se forem tomadas medidas urgentes focadas nas principais zonas de compra, já será possível evitar grande parte da derrubada prevista”, explica o pesquisador do Imazon Paulo Barreto, que também assina o trabalho.


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Este texto foi inicialmente publicado pelo OECO [Aqui!].

Pesquisadores da UFMG vislumbram ‘agrossuicídio’ em desmatamento na Amazônia

Artigo publicado na Nature Communications demonstra que a prática reduz o volume de chuvas e ameaça o lucrativo sistema de dupla safra praticado na região

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Estudo publicado na revista Nature Communications, por pesquisadores da UFMG e de outras universidades, demonstra que o avanço do desmatamento da Amazônia é economicamente prejudicial para a própria agricultura da região. A prática reduz o volume anual de chuvas, que são essenciais para que as plantações tenham desempenho lucrativo. Segundo os pesquisadores, essa redução avança de tal modo que, em breve, se nada for feito, poderá inviabilizar o lucrativo sistema de dupla safra hoje praticado na região.

Na investigação, os cientistas concentraram-se em um recorte do Sul da Amazônia brasileira, que, historicamente, foi a que mais sofreu com a expansão agrícola e madeireira no país e que concentra a maior parte das terras cultiváveis e de pastagens da região. Trata-se de uma área de 1,9 milhão de quilômetros quadrados, que abrange o Acre e Rondônia inteiros, o Norte e o Sudoeste do Mato Grosso, as metades inferiores dos estados do Amazonas e do Pará e uma pequena parte do Tocantins, como mostra o mapa a seguir.

Sul da Amazônia concentra terras cultiváveis e pastagens da região
Sul da Amazônia concentra terras cultiváveis e pastagens da regiãoImagem: Reprodução de artigo

Menos floresta, menos chuva
Os pesquisadores analisaram, em viés retrospectivo, a relação quantitativa entre as chuvas anuais e a perda de floresta nessa região de 1999 a 2019. Com base nesse cruzamento dos dados de chuva com os números de desmatamento, eles puderam determinar os “limites críticos” para a perda de floresta na localidade – isto é, quais os limites percentuais de desmatamento a partir dos quais o ganho de área de plantio passou a ser anulado economicamente pela perda de produtividade causada pela diminuição das chuvas.

Segundo os pesquisadores, estudos anteriores, realizados sobretudo no âmbito da modelagem matemática, estimavam que esse limite girava entre 30% e 50%. O estudo dos pesquisadores da UFMG avança ao estabelecer esse índice de forma empírica e ponderada, considerando-o em relação a diferentes escalas geográficas. Para entender como isso foi feito, é preciso compreender que o mapeamento realizado, via satélite, da precipitação na Amazônia a subdivide em “pixels” de 28 quilômetros quadrados, as chamadas “células de grade”. O cálculo da pesquisa considera essas células tanto individualmente quanto agrupadas.

Ao analisarem os dados referentes a cada célula (isto é, considerando áreas de 28 metros quadrados independentemente do entorno que as cerca), os pesquisadores notaram que a precipitação começa a cair (abruptamente, como se pode ver na linha vermelha do item “a” do gráfico abaixo) quando o desmatamento ultrapassa 58% do território. Portanto, esse seria, em princípio, o “limite crítico” para o desmatamento local em cada área desse tamanho: o ponto de inflexão a partir do qual a precipitação local passa a sofrer queda. Contudo, à medida que os pesquisadores agregam células de grade de modo a analisá-las conjuntamente, levando-se em conta sua influência recíproca, esse limite (a partir do qual o desmatamento passa a causar queda na precipitação) foi diminuindo gradativamente.

Desmatamento na Amazônia reduz a quantidade de chuvas anuais
Desmatamento na Amazônia reduz a quantidade de chuvas anuais Imagem: Reprodução de artigo

Ao considerarem, por exemplo, áreas de 56 quilômetros quadrados (duas células de grade de 28 quilômetros quadrados conjuntamente), os pesquisadores notaram que a queda na precipitação já se inicia quando o desmatamento ultrapassa 48% do território (também avançando abruptamente, como se pode ver na linha vermelha do item “b”, no gráfico acima). Quando consideradas áreas de 112 quilômetros quadrados (com a análise conjunta de quatro células de grade), esse “limite crítico” para o desmatamento cai para apenas 23% de desmatamento territorial, percentual a partir do qual a precipitação começa a diminuir de forma gradativa (item “c”).

Por fim, quando a região é analisada em uma escala geográfica maior, em áreas de 224 quilômetros quadrados (oito células de grade tomadas conjuntamente, de forma a considerar suas influências recíprocas), a queda da precipitação já se dava a partir de qualquer índice de desmatamento – e de forma linear. Quanto mais desmatamento, menos chuva (linha vermelha do item “d”).

“O produtor da região pode ter a ilusão de que, se desmatar ‘um pouco’ a região dele [isto é, abaixo desse ‘limite crítico’ para a sua área local – abaixo, por exemplo, de 48% para um território de 56 quilômetros quadrados, considerado isoladamente], ele terá não apenas um ganho de território para plantio, mas também um aumento de chuva e consequentemente um ganho potencializado de produtividade. Isso, de fato, até pode ocorrer num primeiro momento. O problema é que o volume de chuva que vai precipitar sobre a sua área não sofre apenas o efeito do desmatamento que ocorre nela, mas também o efeito do desmatamento de toda a região: o desmatamento feito pelo produtor vizinho impacta negativamente as precipitações que vão ocorrer em sua área, assim como o desmatamento em sua área impacta negativamente as precipitações sobre a área do produtor vizinho”, explica o pesquisador Argemiro Teixeira Filho, do Centro de Sensoriamento Remoto da UFMG, um dos pesquisadores que assinam o artigo.

Dessa forma, o limite crítico cai, chegando a ser “qualquer” desmatamento, se considerada a área como um todo – isto é, a região em sua extensão superior a 224 quilômetros quadrados. “O que ocorre é aquilo que, nas ciências ambientais, chamamos de ‘jogo de soma negativa’: os desmatamentos localizados, mesmo que levem a aumento momentâneo de precipitação local, provocam menor precipitação geral, ocasionando uma perda que, na prática, supera os ganhos locais que cada produtor tem pontualmente com o aumento da sua área disponível para a atividade agricultura. Não que o resultado mude quando consideramos mais de uma célula de grade, mas ele é relativizado e distribuído quando são consideradas todas as áreas da região, em suas influências recíprocas”, explica o pesquisador.

“Nesse sentido”, acrescenta Argemiro, “é equivocada a ideia de que a política de controle e de redução do desmatamento possa se dar de forma pontual e parcialmente localizada. O desmatamento de uma área influencia a precipitação da região como um todo. O combate ao desmatamento – e à consequente diminuição das chuvas – só vai funcionar se for pensado como política nacional, considerando a Amazônia como um sistema integrado”. Ele acrescenta que a umidade injetada na atmosfera pela Amazônia leva umidade para, entre outras regiões, o Sudeste brasileiro.

Miopia ambiental
Em alguma medida, se analisado de forma contextualizada, todo desmatamento realizado hoje na Amazônia tem efeito de diminuição na precipitação geral, ainda que, num primeiro momento, um produtor que avance no desflorestamento de sua região, aumentando o seu território de plantação, possa notar um aumento momentâneo no índice de precipitação em suas terras. “Na prática, o que está ocorrendo na Amazônia hoje é um ‘agrossuicídio’, mas os produtores insistem em não ver”, alertam os pesquisadores, segundo os quais as perdas de floresta já chegam a 30% nesse recorte feito do Sul da Amazônia.

Esse alerta ganha ainda mais relevância quando se avalia a taxa anual de desmatamento da Amazônia, calculada via monitoramento de satélite pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (taxa Prodes), dos últimos anos. De 2004 a 2014, em razão das políticas públicas implementadas no período, essa taxa foi reduzida de 27.772 quilômetros quadrados por ano para 5.012 quilômetros quadrados. Contudo, o desmatamento na região voltou a crescer a partir de 2015, saltando para mais de 11 mil quilômetros quadrados em 2020. “Trata-se de um aumento de 143% no desmatamento em relação a 2012, ano da menor taxa já registrada, 4.571”, alertam os pesquisadores no estudo. 

Dados do projeto Prodes fazem ver que desmatamento na Amazônia, que vinha caindo desde 2004, voltou a subir a partir de meados da década de 2010
Dados do projeto Prodes mostram que o desmatamento na Amazônia, que vinha caindo desde 2004, voltou a subir a partir de meados da década de 2010Gráfico: Portal UFMG (com dados do projeto Prodes)

O futuro depende da governança

Além da análise retrospectiva dos dados de precipitação e desmatamento, os pesquisadores também estimaram, via modelagem matemática, as perdas econômicas que o setor agrícola terá caso persista a redução da quantidade de chuvas na região. O grupo fez projeções simuladas da expansão agrícola (com base no desmatamento) em dois cenários distintos: um de governança ambiental fraca e outro de governança ambiental forte.

“O cenário de governança fraca pressupõe o abandono das atuais políticas de controle do desmatamento e assume a hipótese de que o atual desmantelamento das políticas de conservação do Brasil seguirá em curso. Assume-se também, nesse caso, que seguirá havendo forte apoio político às práticas agrícolas ambientalmente predatórias e oferta de incentivos econômicos implícitos para o desmatamento ilegal”, explicam os especialistas no artigo. 

O cenário de governança forte, por sua vez, resulta de simulação de uma inflexão nesse movimento e incorporação da hipótese de que passe a haver, a partir de agora, “a expansão e a aplicação efetiva de políticas de conservação com base no total apoio governamental à agenda ambiental no Brasil, incluindo a plena implementação do Código Florestal e incentivos econômicos adicionais para a conservação florestal”.

Entre os diversos dados alcançados pelo estudo nessa direção, destaca-se o fato de que, em um cenário de governança ambiental fraca, “o sul da Amazônia brasileira pode perder 56% de suas florestas até 2050”. Ao mesmo tempo, o modelo projeta que a redução do desmatamento promovida em um cenário de governança ambiental forte evitaria perdas agrícolas na região no montante de até R$ 5,2 bilhões.

“No cenário de governança ambiental fraca, as conquistas ambientais alcançadas na Amazônia desde 2005 serão, na prática, desfeitas até 2025, quando se alcançariam outra vez índices de desmatamento superiores a 27 mil quilômetros quadrados por ano. Isso representa o pior cenário e deve ser visto como uma completa desconstrução da governança ambiental no Brasil, com impactos severos”, advertem os pesquisadores.

No cenário de governança ambiental forte, o desmatamento anual na Amazônia seria reduzido para quatro mil quilômetros quadrados até 2030, em um sistema de ganha-ganha que beneficiaria o meio ambiente e os produtores que atuam na região.

O artigo Deforestation reduces rainfall and agricultural revenues in the Brazilian Amazon é assinado por três pesquisadores da UFMG e dois de outras instituições. Da UFMG, além de Argemiro Teixeira Leite Filho, doutorando em análise e modelagem de sistemas ambientais no Instituto de Geociências (IGC), o trabalho conta com a participação de Britaldo Soares Filho, professor do Departamento de Cartografia do IGC e coordenador do CSR, e Juliana Leroy Davis, doutoranda em Engenharia de Produção e pesquisadora associada ao CSR.

Completam o grupo de autores Gabriel Medeiros Abrahão, do Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal de Viçosa (UFV), e Jan Börner, pesquisador do Centre for Development Research, da Universidade de Bonn, na Alemanha.

Ewerton Martins Ribeiro


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Este  texto foi originalmente pela Universidade Federal de Minas Gerais [Aqui!].

Fogo descontrolado na Amazônia ameaça ganhos ambientais e proteção do bioma

Incêndios se tornam principal fator de degradação da floresta e ação coordenada é urgente para eliminar riscos, avaliam pesquisadores
fogo

Em artigo publicado na revista científica Nature Ecology & Evolution nesta terça-feira (16), pesquisadores do Brasil e do exterior alertam que os incêndios se tornaram o principal fator de degradação da Amazônia brasileira, passando a ameaçar ganhos ambientais na proteção do bioma, como a efetividade do PPCDAm (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal).

O grupo de cientistas recomenda esforços “urgentes e coordenados” para eliminar os riscos do fogo descontrolado, incluindo a cooperação e apoio internacional em pesquisa e governança.

“Primeiro, é preciso entender o que levou ao aumento do fogo. Com mais dados em mãos, as políticas podem ter maior efetividade. Uma das hipóteses que consideramos para explicar a alta nos incêndios é a ocorrência de uma queima antecipada, aproveitando o início da estação seca amazônica, para evitar sanções mais severas no final do ano, quando teremos que lidar com os efeitos fortes e esperados do El Niño”, explica Paulo Moutinho, cientista sênior no IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e um dos autores do artigo.

Apesar da queda de 42% registrada no desmatamento da Amazônia brasileira no primeiro semestre de 2023, na comparação com o mesmo período do ano passado, o fogo continuou subindo. De janeiro a julho deste ano, os focos de incêndio no bioma tiveram alta de 10,76% em relação a 2022.

Pela primeira vez, indicam os pesquisadores, o fogo parece se desassociar do desmatamento na região. Atividades que costumavam aparecer uma depois da outra nos indicadores, agora seguem rumo inverso.

“O fogo na Amazônia geralmente ocorre em áreas que foram desmatadas, ou seja, uma ilegalidade conectada à outra. Por isso, chamamos fogo de desmatamento. Além desse, há outros tipos de fogo característicos do bioma, como o fogo de manejo em pastagens. Mas o fogo de desmatamento era o mais comum, muitas vezes causando incêndios de grande proporção”, comenta Ane Alencar, diretora de Ciência no IPAM, também autora do texto.

Só 19% dos focos detectados pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), nos primeiros seis meses de 2023, estavam relacionados a desmatamentos recentes – uma queda, cita a publicação, comparada aos 39% registrados em 2022.

Além da ação humana, o contexto climático oferece condições para o aumento do fogo: um El Niño ativo, com efeitos de mais calor e mais seca, em retroalimentação com as mudanças climáticas, que têm como consequência a alteração de padrões e ciclos naturais, como o da chuva.

“O futuro da Amazônia sob as mudanças climáticas – mesmo se o desmatamento ilegal for zero – permanece pouco claro com as ameaças da emergência no clima, da seca e do fogo”, dizem os pesquisadores em um trecho. “As consequências da inação sobre o fogo na Amazônia e a desatenção aos tipos e causas do fogo são severas e devem ser evitadas”, ressaltam em outro.

Junto à articulação internacional, os autores indicam o comprometimento de países amazônicos para os avanços considerados necessários na gestão “equitativa e segura” contra os incêndios. Também sinalizam que a perda de vegetação nativa deve ser reduzida de maneira concomitante, bem como a transição de uma economia baseada em commodities agrícolas para uma bioeconomia sustentável.

Povos indígenas amazônicos do Brasil com altas taxas de HIV, mostra estudo

HIV indígena

São urgentemente necessárias estratégias de saúde que abordem as necessidades específicas dos povos indígenas, com ênfase no VIH. Na foto, indígenas do povo Bororó, no Mato Grosso do Sul, Brasil. Crédito da imagem: Valter Campanato/Agência Brasil , sob licença Creative Commons (CC BY 3.0 BR)

Os pesquisadores constataram que a infecção pelo HIV nesta população é de 0,93 por cento, valor superior ao observado em outros grupos indígenas brasileiros e ainda superior ao da população geral daquele país, que é de 0,6 por cento.

Uma medição anterior, realizada em 2012, entre esses grupos indígenas mostrou uma prevalência de 0,13%, segundo o estudo que será publicado na edição impressa de setembro do The Lancet Regional Health – Americas.

Além disso, aproximadamente 73,22 por cento dos 1.927 participantes nunca tinham sido testados para o HIV, hepatite ou sífilis, destacando a falta de acesso aos serviços de saúde e a pouca consciência da importância do diagnóstico precoce. A idade média dos participantes foi de 34,2 anos, sendo a maioria mulheres (74 por cento).

“A maior parte da população reside nas proximidades da cidade e é influenciada por moradores urbanos não indígenas que têm fácil acesso a eles. Além disso, esses indígenas frequentemente se aventuram em territórios diferentes dos seus, o que impacta a dinâmica de sua comunidade e os expõe a riscos como consumo de álcool e trabalho sexual ”, afirmam os pesquisadores.

O objetivo não foi apenas estudar a prevalência da infecção pelo HIV entre a população indígena residente nesta região fronteiriça com o Paraguai e a Bolívia, mas também identificar os principais fatores de risco associados à infecção, para então analisar o perfil molecular do vírus circulante.

O estudo também avaliou a eficácia dos tratamentos entre indígenas que vivem com HIV e o surgimento de possíveis mutações de resistência aos medicamentos.

Segundo Simone Simionatto, professora associada da Faculdade de Ciências Biológicas e Ambientais da Universidade Federal da Grande Dourados e autora principal do estudo, foram identificados diferentes subtipos de HIV-1, sendo o subtipo C o mais prevalente.

Esta descoberta é surpreendente, uma vez que na América Latina o subtipo predominante é o b, o que leva a pensar que os povos indígenas foram expostos ao HIV ‘importado’ por pessoas de outras regiões, disse John Mario González ao SciDev.Net, professor de imunologia da Universidad de los Andes (Bogotá, Colômbia).

“Encontramos mutações de resistência a medicamentos em algumas amostras, enfatizando a importância da vigilância molecular para orientar estratégias de tratamento”, diz Simionatto.

Para chegar a essas descobertas, os cientistas realizaram uma investigação transversal, com entrevistas com os participantes, abordando aspectos como idade, sexo, estado civil, escolaridade, histórico de uso de drogas, histórico sexual, histórico de transfusões sanguíneas e infecções sexualmente transmissíveis . .

Descobriram que a prevalência do HIV-1 era mais elevada em indígenas solteiros, que recebiam benefícios governamentais, tinham menos de cinco anos de educação formal, faziam sexo com consumidores de drogas injetáveis ​​e tinham um historial de infecções sexualmente transmissíveis e de prisão.

De acordo com Simionatto, as conclusões destacam a necessidade de implementar estratégias de prevenção, diagnóstico e tratamento do HIV “culturalmente sensíveis” que atendam às necessidades específicas dos povos indígenas.

“A identificação de subtipos de resistência e mutações pode orientar os profissionais de saúde a fornecer tratamentos mais eficazes e personalizados para pacientes indígenas com HIV. Os resultados sublinham a importância de aumentar a consciencialização sobre o VIH e de melhorar o acesso aos serviços de saúde nestas comunidades”, afirma o cientista por e-mail.

“Compreender a prevalência do VIH e de outros problemas de saúde nestas aldeias permite-nos reconhecer a ligação inseparável entre a saúde humana e o bem-estar ambiental. Esta compreensão pode orientar os decisores políticos e as partes interessadas na implementação de estratégias abrangentes que tenham em conta tanto a saúde ambiental como a conservação ” , afirma.

“Este tipo de pesquisa é de crucial importância, porque ajuda a compreender o abandono histórico vivido por todas as populações nativas do mundo, e particularmente na América Latina e no Caribe”.

John Harold Estrada, professor titular de saúde coletiva da Universidade Nacional da Colômbia

Para John Harold Estrada, professor titular de saúde coletiva da Universidade Nacional da Colômbia, as descobertas estão de acordo com o que foi encontrado anteriormente sobre a prevalência do HIV nas comunidades indígenas ao redor do mundo, que é que “todas as populações aborígenes têm infecção taxas superiores às da população em geral, com melhor acesso à saúde. Isso é uma tragédia para todos os povos originários”, reconhece.

Uma das descobertas mais interessantes do estudo – na opinião de Estrada – tem a ver com a resistência que alguns dos pacientes apresentavam aos antirretrovirais, quer transmitidos, o que significa que o vírus com o qual foram infectados já vinha com mutações que tornam os medicamentos ineficaz, ou adquirida, que ocorre quando o vírus sofre mutação após entrar em contato com a droga, para sobreviver.

“Esse cenário é muito grave, porque significa uma enorme barreira para conseguir controlar as pandemias , pois indica que serão necessários medicamentos de acesso mais difícil e caro. Esse tipo de pesquisa é de crucial importância, porque ajuda a compreender o abandono histórico vivido por todas as populações nativas do mundo, e particularmente na América Latina e no Caribe”, ressalta.

 Link para artigo no The Lancet Regional Health – Americas


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Este artigo foi produzido pela edição América Latina e Caribe do  SciDev.Net [Aqui!].

Emissões de carbono na Amazônia cresceram 122% em 2020 em relação à média de 2010 a 2018

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As emissões de gás carbônico (CO2) pela Amazônia aumentou em 122% e 89% nos anos de 2020 e 2019, respectivamente, em comparação com o período de 2010 a 2018. O crescimento representa a soma dos números do desmatamento e das queimadas na região, e está relacionado principalmente ao declínio na aplicação de leis ambientais. É o que aponta artigo de pesquisadores do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e de outras instituições nacionais e estrangeiras publicado na quarta (23) na revista “Nature”.

A equipe comparou dados sobre o cumprimento das regulamentações ambientais aos eventos ocorridos na Amazônia durante o período de 2010 a 2018, já analisados em produções anteriores, e nos anos subsequentes, 2019 e 2020. Os pesquisadores coletaram amostras de CO2 em 742 voos realizados com uma pequena aeronave em quatro localidades da Amazônia e analisaram as amostras em laboratório do INPE.

O resultado das pesquisas foi compartilhado com técnicos do PRODES/DETER (INPE), que produziram mapas comparando a diferença do desmatamento em 2019 e 2020 com a média 2010-2018. Verificou-se que o aumento de desmatamento em 2019 foi de 82% e de 77% em 2020. Também houve aumento na área queimada de 14% em 2019 e de 42% em 2020. Já as multas reduziram 30% e 54%, e os pagamentos das multas reduziram em 74% e 89% em 2019 e 2020, respectivamente.  “O modelo econômico na Amazônia está por trás disso”, comenta Luciana Gatti, pesquisadora do INPE e principal autora do artigo.

Os dados apontam ainda que o nível das emissões registradas entre 2019 e 2020 são comparáveis ao observado em 2015 e 2016, quando um evento climático extremo de grande escala atingiu a região – o El Niño. “Quando o El Niño aconteceu, as emissões de CO2 cresceram porque foi um período de extrema seca, com muitas queimadas e perda de parte da floresta”, explica a pesquisadora. Gatti reforça que 2019 e 2020 não contaram com razões climáticas que justifiquem o crescimento das emissões, o que aponta para a ação humana como explicação.

A pesquisa salienta que as ações de monitoramento e controle podem ser ainda mais importantes nos próximos anos, quando a previsão é de que a região amazônica enfrente desafios maiores, pois as previsões indicam que o próximo evento climático promete ser mais intenso que o último El Niño. “Os dados mostram claramente a importância de políticas de controle e combate ao desmatamento eficazes”, frisa Gatti.

O financiamento do governo é essencial para que as análises possam continuar sendo feitas. “O recurso financeiro usado para as pesquisas é cedido por agências de financiamento de ciência, mas, para que os dados possam estar disponíveis independentemente de publicações científicas, precisamos de financiamento por parte do Governo Federal”, explica a pesquisadora.

A pesquisa observa que a exportação de madeira na Amazônia aumentou quase 700% no período, assim como também cresceram a área plantada de soja (68%) e de milho (58%), além do rebanho bovino (14%) dentro da Amazônia. Daí a importância de políticas públicas apontando um modelo de economia com a floresta em pé, e mais eficazes para a preservação da floresta e a conservação da diversidade amazônica. “Estamos na batalha para o governo assumir a tarefa de zerar o desmatamento antes de 2030 e reflorestar uma parte nas regiões críticas para salvar a Amazônia do ponto de não retorno”, conclui Gatti.