Expansão do agronegócio está afetando os ribeirinhos na Amazônia

Avanço da fronteira agropecuária compromete a economia e as práticas de subsistência de comunidades que vivem às margens dos rios Purus e Madeira, no sul amazonense

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Região portuária de Lábrea (AM). Foto: João Maciel de Araújo 

Por Rodrigo de Oliveira Andrade

A expansão da fronteira agropecuária nos municípios de Boca do Acre, Lábrea e Humaitá, no interior do estado do Amazonas, tem colocado em risco a economia e as práticas de subsistência das populações ribeirinhas que vivem às margens dos rios Purus e Madeira, como a pesca artesanal, a agricultura de várzea (praticada à beira dos rios) e o extrativismo de açaí, cacau e castanha.

A conclusão é de um grupo de pesquisadores do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (Ifam), em Humaitá. Sob coordenação do sociólogo João Maciel de Araújo, eles têm empreendido uma série de entrevistas e reuniões com ribeirinhos de seis comunidades nessas regiões para identificar seus problemas e suas principais demandas. Os especialistas também querem entender como eles têm se articulado com gestores públicos, proprietários de terras, lideranças sindicais e comunitárias, e instituições de pesquisa e ambientais.

O objetivo é fazer um diagnóstico socioeconômico e produtivo dessas comunidades e criar um plano de desenvolvimento comunitário, “com diretrizes que os orientem a superar seus problemas e garantir seus direitos”, explica Araújo.

As entrevistas e reuniões têm lançado luz sobre como a expansão do agronegócio — baseado na monocultura de grãos e de pasto para a pecuária bovina de corte — tem impactado os modos de vida e a economia dessas populações nos últimos anos. “Uma das coisas que temos observado é que essas comunidades parecem ser invisíveis aos olhos do poder público, que tende a considerar a agropecuária o motor do desenvolvimento econômico da região”, diz.

Manejo de Pirarucu em Jucuruá. Foto: Jelsenir Barbosa de Souza

Segundo ele, os incentivos ao desenvolvimento econômico local estão majoritariamente voltados à promoção da agropecuária, em detrimento de atividades ribeirinhas ligadas à pesca artesanal, à agricultura de várzea e à extração de frutos da natureza para consumo próprio e comercialização. “Isso contribui para ampliar a vulnerabilidade dessas populações”, comenta Araújo, acrescentando que a forte seca ocorrida na região agravou esse cenário.

Outro aspecto importante observado pelos pesquisadores diz respeito à falta de segurança fundiária para o desenvolvimento de atividades extrativistas. Araújo explica que a estrutura produtiva das populações ribeirinhas ao longo do ano baseia-se ora nas áreas de várzea, ora em terra firme. “Eles vivem a maior parte do tempo às margens dos rios, pescando e desenvolvendo sua agricultura de várzea”, diz o sociólogo. “Em determinado momento do ano, entram na floresta, onde passam semanas coletando frutos como açaí, cacau e castanha.”

Produção ribeirinha em Boca do Acre. Foto: João Maciel de Araújo

O problema é que esses indivíduos não são donos dessas terras, que tampouco estão protegidas como áreas de conservação, de modo que eles ficam à mercê das regras impostas por aqueles que se dizem proprietários. “Muitos deles, com incentivo do poder público, optam por vender ou transformar suas terras em áreas de produção agropecuária”, afirma o pesquisador. “De uma hora para outra, muitos ribeirinhos deixam de ter autorização para circular por essas áreas e colher seus frutos.”

Mapas feitos pelas próprias comunidades — com auxílio dos pesquisadores e por meio de metodologias de cartografia social, baseadas em relatos orais ou antigas descrições —, indicam que houve uma diminuição do território pelos quais os ribeirinhos daquela região podiam circular e fazer o manejo tradicional de recursos naturais, além de um crescimento acentuado das áreas de produção agropecuária.

Muitos ribeirinhos e populações tradicionais precisam se deslocar para outras áreas. Chegando lá, no entanto, têm de disputar espaço e recursos locais com outras comunidades, o que, não raro, gera atritos e conflitos. Nas entrevistas feitas com moradores da comunidade Jurucuá, na Reserva Extrativista do Médio Purus, os pesquisadores ouviram relatos recorrentes sobre um aumento da quantidade de pessoas de outras localidades, que tentam pescar em determinados lagos da região e coletar castanha em áreas antes disponíveis exclusivamente aos moradores da reserva. 

Os pesquisadores agora estão trabalhando na sistematização dos dados coletados por meio das entrevistas e trabalhando com os membros das comunidades na concepção de seus planos de desenvolvimento. “A ideia é ajudá-los a se organizar para melhorar suas condições de vida a médio e longo prazo, orientando suas associações comunitárias sobre os tipos de pressões que elas precisam fazer junto ao poder público para conseguirem resolver esses e outros problemas a que estão sendo submetidos”, afirma o sociólogo.

Segundo ele, a pesquisa evidencia o contraste de visões de mundo e de relação com a natureza e os recursos naturais. “Para os ribeirinhos, essas regiões são fonte de elementos que estruturam sua organização, baseada em relações de reciprocidade com a natureza, enquanto que para os agentes da frente de expansão agropecuária são meras fontes de obtenção de lucro”, conclui.


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Este texto foi originalmente publicado pela Humanamente – Divulgação Científica em Humanidades [Aqui!].

Pecuária na Amazônia pode ser responsável por 3 milhões de hectares de desmatamento até 2025

Estudo publicado nesta quarta calculou risco de destruição da floresta em áreas de compra de frigoríficos instalados no bioma. JBS é a empresa com maior risco

Gado na região de Marapá, sudeste da Amazônia paraense 

Se não adotar práticas mais eficientes de controle da cadeia, como a rastreabilidade individual, a pecuária na Amazônia pode ser responsável pela destruição de 3 milhões de hectares de floresta nos próximos dois anos, uma área equivalente ao território da Bélgica. Os dados são de um estudo realizado pelo Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), publicado nesta quarta-feira (22).

Para chegar a esse número, o Imazon calculou o grau de exposição ao desmatamento dentro das áreas de compra dos frigoríficos, considerando diferentes critérios.

O que encontraram foi que a exposição dos frigoríficos à destruição da floresta passou de 6,8 milhões de hectares em 2016, para 14,2 milhões de hectares em 2022. Isto é, a quantidade de áreas expostas ao desmatamento cresceu 108% em seis anos, mesmo sob forte pressão para o setor desvincular-se do problema.

Destes 14,2 milhões de hectares, 8,7 milhões de hectares já foram de fato desmatados em alguma medida, de forma legal ou ilegalmente. Outros 2,3 milhões são áreas embargadas pelo Ibama. 

Os 3,2 milhões de hectares restantes são justamente as porções de floresta em pé existentes nas áreas de compra dos frigoríficos que correm o risco de virem ao chão.

Segundo a pesquisa, a ameaça de destruição futura foi estimada levando em conta variáveis importantes para o desmatamento, como a inclinação do terreno, distância para rios, estradas e frigoríficos, classe territorial (terras indígenas, unidades de conservação, etc) e proximidade de derrubadas recentes e antigas.

“Já temos literatura científica e projetos de campo suficientes para mostrar que não precisamos mais desmatar nenhum hectare na Amazônia para aumentar a produção de carne. O que precisamos é melhorar a produtividade, que pode passar de um a pelo menos três bois por hectare com as tecnologias e as ofertas de crédito existentes”, defende a pesquisadora do Imazon Ritaumaria Pereira, uma das responsáveis pelo relatório.

Gigantes expostasO estudo também ranqueou os frigoríficos em relação à exposição deles às ameaças de destruição da floresta. A empresa mais crítica é a JBS, com quase 10 milhões de hectares desmatados, embargados ou sob risco de derrubada em suas zonas de compras. Em seguida está a Vale Grande, com pouco mais de 4 milhões de hectares. Masterboi, Minerva e Mercúrio completam o top 5, todas com mais de 2 milhões de hectares. 

O trabalho chama atenção para o fato de que nem as empresas que firmaram compromissos com Ministério Público Federal para controle da cadeia conseguem garantir que seus produtos estejam isentos da devastação ilegal.

Isso acontece porque os fornecedores indiretos ainda estão fora da equação. Ou seja: os frigoríficos prestam contas ao MPF apenas dos fornecedores diretos, que, apesar de estarem legalizados, podem ter adquirido animais de fazendas irregulares. 

A prática, conhecida como “lavagem de gado”, poderia ser resolvida com a exigência da rastreabilidade de todos os bovinos desde o nascimento, defende o Imazon. Algumas empresas têm anunciado medidas nesse sentido, mas apenas para depois de 2025.

“É inviável aceitar esse prazo para um problema que se arrasta há décadas, ainda mais quando ele pode representar o desmatamento de uma área do tamanho de Alagoas. Isso aumentará significativamente as emissões brasileiras de gases de efeito estufa em um momento de emergência climática que traz consequências como as secas no Norte e as chuvaradas no Sul. Se forem tomadas medidas urgentes focadas nas principais zonas de compra, já será possível evitar grande parte da derrubada prevista”, explica o pesquisador do Imazon Paulo Barreto, que também assina o trabalho.


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Este texto foi inicialmente publicado pelo OECO [Aqui!].

Pesquisadores da UFMG vislumbram ‘agrossuicídio’ em desmatamento na Amazônia

Artigo publicado na Nature Communications demonstra que a prática reduz o volume de chuvas e ameaça o lucrativo sistema de dupla safra praticado na região

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Estudo publicado na revista Nature Communications, por pesquisadores da UFMG e de outras universidades, demonstra que o avanço do desmatamento da Amazônia é economicamente prejudicial para a própria agricultura da região. A prática reduz o volume anual de chuvas, que são essenciais para que as plantações tenham desempenho lucrativo. Segundo os pesquisadores, essa redução avança de tal modo que, em breve, se nada for feito, poderá inviabilizar o lucrativo sistema de dupla safra hoje praticado na região.

Na investigação, os cientistas concentraram-se em um recorte do Sul da Amazônia brasileira, que, historicamente, foi a que mais sofreu com a expansão agrícola e madeireira no país e que concentra a maior parte das terras cultiváveis e de pastagens da região. Trata-se de uma área de 1,9 milhão de quilômetros quadrados, que abrange o Acre e Rondônia inteiros, o Norte e o Sudoeste do Mato Grosso, as metades inferiores dos estados do Amazonas e do Pará e uma pequena parte do Tocantins, como mostra o mapa a seguir.

Sul da Amazônia concentra terras cultiváveis e pastagens da região
Sul da Amazônia concentra terras cultiváveis e pastagens da regiãoImagem: Reprodução de artigo

Menos floresta, menos chuva
Os pesquisadores analisaram, em viés retrospectivo, a relação quantitativa entre as chuvas anuais e a perda de floresta nessa região de 1999 a 2019. Com base nesse cruzamento dos dados de chuva com os números de desmatamento, eles puderam determinar os “limites críticos” para a perda de floresta na localidade – isto é, quais os limites percentuais de desmatamento a partir dos quais o ganho de área de plantio passou a ser anulado economicamente pela perda de produtividade causada pela diminuição das chuvas.

Segundo os pesquisadores, estudos anteriores, realizados sobretudo no âmbito da modelagem matemática, estimavam que esse limite girava entre 30% e 50%. O estudo dos pesquisadores da UFMG avança ao estabelecer esse índice de forma empírica e ponderada, considerando-o em relação a diferentes escalas geográficas. Para entender como isso foi feito, é preciso compreender que o mapeamento realizado, via satélite, da precipitação na Amazônia a subdivide em “pixels” de 28 quilômetros quadrados, as chamadas “células de grade”. O cálculo da pesquisa considera essas células tanto individualmente quanto agrupadas.

Ao analisarem os dados referentes a cada célula (isto é, considerando áreas de 28 metros quadrados independentemente do entorno que as cerca), os pesquisadores notaram que a precipitação começa a cair (abruptamente, como se pode ver na linha vermelha do item “a” do gráfico abaixo) quando o desmatamento ultrapassa 58% do território. Portanto, esse seria, em princípio, o “limite crítico” para o desmatamento local em cada área desse tamanho: o ponto de inflexão a partir do qual a precipitação local passa a sofrer queda. Contudo, à medida que os pesquisadores agregam células de grade de modo a analisá-las conjuntamente, levando-se em conta sua influência recíproca, esse limite (a partir do qual o desmatamento passa a causar queda na precipitação) foi diminuindo gradativamente.

Desmatamento na Amazônia reduz a quantidade de chuvas anuais
Desmatamento na Amazônia reduz a quantidade de chuvas anuais Imagem: Reprodução de artigo

Ao considerarem, por exemplo, áreas de 56 quilômetros quadrados (duas células de grade de 28 quilômetros quadrados conjuntamente), os pesquisadores notaram que a queda na precipitação já se inicia quando o desmatamento ultrapassa 48% do território (também avançando abruptamente, como se pode ver na linha vermelha do item “b”, no gráfico acima). Quando consideradas áreas de 112 quilômetros quadrados (com a análise conjunta de quatro células de grade), esse “limite crítico” para o desmatamento cai para apenas 23% de desmatamento territorial, percentual a partir do qual a precipitação começa a diminuir de forma gradativa (item “c”).

Por fim, quando a região é analisada em uma escala geográfica maior, em áreas de 224 quilômetros quadrados (oito células de grade tomadas conjuntamente, de forma a considerar suas influências recíprocas), a queda da precipitação já se dava a partir de qualquer índice de desmatamento – e de forma linear. Quanto mais desmatamento, menos chuva (linha vermelha do item “d”).

“O produtor da região pode ter a ilusão de que, se desmatar ‘um pouco’ a região dele [isto é, abaixo desse ‘limite crítico’ para a sua área local – abaixo, por exemplo, de 48% para um território de 56 quilômetros quadrados, considerado isoladamente], ele terá não apenas um ganho de território para plantio, mas também um aumento de chuva e consequentemente um ganho potencializado de produtividade. Isso, de fato, até pode ocorrer num primeiro momento. O problema é que o volume de chuva que vai precipitar sobre a sua área não sofre apenas o efeito do desmatamento que ocorre nela, mas também o efeito do desmatamento de toda a região: o desmatamento feito pelo produtor vizinho impacta negativamente as precipitações que vão ocorrer em sua área, assim como o desmatamento em sua área impacta negativamente as precipitações sobre a área do produtor vizinho”, explica o pesquisador Argemiro Teixeira Filho, do Centro de Sensoriamento Remoto da UFMG, um dos pesquisadores que assinam o artigo.

Dessa forma, o limite crítico cai, chegando a ser “qualquer” desmatamento, se considerada a área como um todo – isto é, a região em sua extensão superior a 224 quilômetros quadrados. “O que ocorre é aquilo que, nas ciências ambientais, chamamos de ‘jogo de soma negativa’: os desmatamentos localizados, mesmo que levem a aumento momentâneo de precipitação local, provocam menor precipitação geral, ocasionando uma perda que, na prática, supera os ganhos locais que cada produtor tem pontualmente com o aumento da sua área disponível para a atividade agricultura. Não que o resultado mude quando consideramos mais de uma célula de grade, mas ele é relativizado e distribuído quando são consideradas todas as áreas da região, em suas influências recíprocas”, explica o pesquisador.

“Nesse sentido”, acrescenta Argemiro, “é equivocada a ideia de que a política de controle e de redução do desmatamento possa se dar de forma pontual e parcialmente localizada. O desmatamento de uma área influencia a precipitação da região como um todo. O combate ao desmatamento – e à consequente diminuição das chuvas – só vai funcionar se for pensado como política nacional, considerando a Amazônia como um sistema integrado”. Ele acrescenta que a umidade injetada na atmosfera pela Amazônia leva umidade para, entre outras regiões, o Sudeste brasileiro.

Miopia ambiental
Em alguma medida, se analisado de forma contextualizada, todo desmatamento realizado hoje na Amazônia tem efeito de diminuição na precipitação geral, ainda que, num primeiro momento, um produtor que avance no desflorestamento de sua região, aumentando o seu território de plantação, possa notar um aumento momentâneo no índice de precipitação em suas terras. “Na prática, o que está ocorrendo na Amazônia hoje é um ‘agrossuicídio’, mas os produtores insistem em não ver”, alertam os pesquisadores, segundo os quais as perdas de floresta já chegam a 30% nesse recorte feito do Sul da Amazônia.

Esse alerta ganha ainda mais relevância quando se avalia a taxa anual de desmatamento da Amazônia, calculada via monitoramento de satélite pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (taxa Prodes), dos últimos anos. De 2004 a 2014, em razão das políticas públicas implementadas no período, essa taxa foi reduzida de 27.772 quilômetros quadrados por ano para 5.012 quilômetros quadrados. Contudo, o desmatamento na região voltou a crescer a partir de 2015, saltando para mais de 11 mil quilômetros quadrados em 2020. “Trata-se de um aumento de 143% no desmatamento em relação a 2012, ano da menor taxa já registrada, 4.571”, alertam os pesquisadores no estudo. 

Dados do projeto Prodes fazem ver que desmatamento na Amazônia, que vinha caindo desde 2004, voltou a subir a partir de meados da década de 2010
Dados do projeto Prodes mostram que o desmatamento na Amazônia, que vinha caindo desde 2004, voltou a subir a partir de meados da década de 2010Gráfico: Portal UFMG (com dados do projeto Prodes)

O futuro depende da governança

Além da análise retrospectiva dos dados de precipitação e desmatamento, os pesquisadores também estimaram, via modelagem matemática, as perdas econômicas que o setor agrícola terá caso persista a redução da quantidade de chuvas na região. O grupo fez projeções simuladas da expansão agrícola (com base no desmatamento) em dois cenários distintos: um de governança ambiental fraca e outro de governança ambiental forte.

“O cenário de governança fraca pressupõe o abandono das atuais políticas de controle do desmatamento e assume a hipótese de que o atual desmantelamento das políticas de conservação do Brasil seguirá em curso. Assume-se também, nesse caso, que seguirá havendo forte apoio político às práticas agrícolas ambientalmente predatórias e oferta de incentivos econômicos implícitos para o desmatamento ilegal”, explicam os especialistas no artigo. 

O cenário de governança forte, por sua vez, resulta de simulação de uma inflexão nesse movimento e incorporação da hipótese de que passe a haver, a partir de agora, “a expansão e a aplicação efetiva de políticas de conservação com base no total apoio governamental à agenda ambiental no Brasil, incluindo a plena implementação do Código Florestal e incentivos econômicos adicionais para a conservação florestal”.

Entre os diversos dados alcançados pelo estudo nessa direção, destaca-se o fato de que, em um cenário de governança ambiental fraca, “o sul da Amazônia brasileira pode perder 56% de suas florestas até 2050”. Ao mesmo tempo, o modelo projeta que a redução do desmatamento promovida em um cenário de governança ambiental forte evitaria perdas agrícolas na região no montante de até R$ 5,2 bilhões.

“No cenário de governança ambiental fraca, as conquistas ambientais alcançadas na Amazônia desde 2005 serão, na prática, desfeitas até 2025, quando se alcançariam outra vez índices de desmatamento superiores a 27 mil quilômetros quadrados por ano. Isso representa o pior cenário e deve ser visto como uma completa desconstrução da governança ambiental no Brasil, com impactos severos”, advertem os pesquisadores.

No cenário de governança ambiental forte, o desmatamento anual na Amazônia seria reduzido para quatro mil quilômetros quadrados até 2030, em um sistema de ganha-ganha que beneficiaria o meio ambiente e os produtores que atuam na região.

O artigo Deforestation reduces rainfall and agricultural revenues in the Brazilian Amazon é assinado por três pesquisadores da UFMG e dois de outras instituições. Da UFMG, além de Argemiro Teixeira Leite Filho, doutorando em análise e modelagem de sistemas ambientais no Instituto de Geociências (IGC), o trabalho conta com a participação de Britaldo Soares Filho, professor do Departamento de Cartografia do IGC e coordenador do CSR, e Juliana Leroy Davis, doutoranda em Engenharia de Produção e pesquisadora associada ao CSR.

Completam o grupo de autores Gabriel Medeiros Abrahão, do Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal de Viçosa (UFV), e Jan Börner, pesquisador do Centre for Development Research, da Universidade de Bonn, na Alemanha.

Ewerton Martins Ribeiro


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Este  texto foi originalmente pela Universidade Federal de Minas Gerais [Aqui!].

Fogo descontrolado na Amazônia ameaça ganhos ambientais e proteção do bioma

Incêndios se tornam principal fator de degradação da floresta e ação coordenada é urgente para eliminar riscos, avaliam pesquisadores
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Em artigo publicado na revista científica Nature Ecology & Evolution nesta terça-feira (16), pesquisadores do Brasil e do exterior alertam que os incêndios se tornaram o principal fator de degradação da Amazônia brasileira, passando a ameaçar ganhos ambientais na proteção do bioma, como a efetividade do PPCDAm (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal).

O grupo de cientistas recomenda esforços “urgentes e coordenados” para eliminar os riscos do fogo descontrolado, incluindo a cooperação e apoio internacional em pesquisa e governança.

“Primeiro, é preciso entender o que levou ao aumento do fogo. Com mais dados em mãos, as políticas podem ter maior efetividade. Uma das hipóteses que consideramos para explicar a alta nos incêndios é a ocorrência de uma queima antecipada, aproveitando o início da estação seca amazônica, para evitar sanções mais severas no final do ano, quando teremos que lidar com os efeitos fortes e esperados do El Niño”, explica Paulo Moutinho, cientista sênior no IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e um dos autores do artigo.

Apesar da queda de 42% registrada no desmatamento da Amazônia brasileira no primeiro semestre de 2023, na comparação com o mesmo período do ano passado, o fogo continuou subindo. De janeiro a julho deste ano, os focos de incêndio no bioma tiveram alta de 10,76% em relação a 2022.

Pela primeira vez, indicam os pesquisadores, o fogo parece se desassociar do desmatamento na região. Atividades que costumavam aparecer uma depois da outra nos indicadores, agora seguem rumo inverso.

“O fogo na Amazônia geralmente ocorre em áreas que foram desmatadas, ou seja, uma ilegalidade conectada à outra. Por isso, chamamos fogo de desmatamento. Além desse, há outros tipos de fogo característicos do bioma, como o fogo de manejo em pastagens. Mas o fogo de desmatamento era o mais comum, muitas vezes causando incêndios de grande proporção”, comenta Ane Alencar, diretora de Ciência no IPAM, também autora do texto.

Só 19% dos focos detectados pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), nos primeiros seis meses de 2023, estavam relacionados a desmatamentos recentes – uma queda, cita a publicação, comparada aos 39% registrados em 2022.

Além da ação humana, o contexto climático oferece condições para o aumento do fogo: um El Niño ativo, com efeitos de mais calor e mais seca, em retroalimentação com as mudanças climáticas, que têm como consequência a alteração de padrões e ciclos naturais, como o da chuva.

“O futuro da Amazônia sob as mudanças climáticas – mesmo se o desmatamento ilegal for zero – permanece pouco claro com as ameaças da emergência no clima, da seca e do fogo”, dizem os pesquisadores em um trecho. “As consequências da inação sobre o fogo na Amazônia e a desatenção aos tipos e causas do fogo são severas e devem ser evitadas”, ressaltam em outro.

Junto à articulação internacional, os autores indicam o comprometimento de países amazônicos para os avanços considerados necessários na gestão “equitativa e segura” contra os incêndios. Também sinalizam que a perda de vegetação nativa deve ser reduzida de maneira concomitante, bem como a transição de uma economia baseada em commodities agrícolas para uma bioeconomia sustentável.

Povos indígenas amazônicos do Brasil com altas taxas de HIV, mostra estudo

HIV indígena

São urgentemente necessárias estratégias de saúde que abordem as necessidades específicas dos povos indígenas, com ênfase no VIH. Na foto, indígenas do povo Bororó, no Mato Grosso do Sul, Brasil. Crédito da imagem: Valter Campanato/Agência Brasil , sob licença Creative Commons (CC BY 3.0 BR)

Os pesquisadores constataram que a infecção pelo HIV nesta população é de 0,93 por cento, valor superior ao observado em outros grupos indígenas brasileiros e ainda superior ao da população geral daquele país, que é de 0,6 por cento.

Uma medição anterior, realizada em 2012, entre esses grupos indígenas mostrou uma prevalência de 0,13%, segundo o estudo que será publicado na edição impressa de setembro do The Lancet Regional Health – Americas.

Além disso, aproximadamente 73,22 por cento dos 1.927 participantes nunca tinham sido testados para o HIV, hepatite ou sífilis, destacando a falta de acesso aos serviços de saúde e a pouca consciência da importância do diagnóstico precoce. A idade média dos participantes foi de 34,2 anos, sendo a maioria mulheres (74 por cento).

“A maior parte da população reside nas proximidades da cidade e é influenciada por moradores urbanos não indígenas que têm fácil acesso a eles. Além disso, esses indígenas frequentemente se aventuram em territórios diferentes dos seus, o que impacta a dinâmica de sua comunidade e os expõe a riscos como consumo de álcool e trabalho sexual ”, afirmam os pesquisadores.

O objetivo não foi apenas estudar a prevalência da infecção pelo HIV entre a população indígena residente nesta região fronteiriça com o Paraguai e a Bolívia, mas também identificar os principais fatores de risco associados à infecção, para então analisar o perfil molecular do vírus circulante.

O estudo também avaliou a eficácia dos tratamentos entre indígenas que vivem com HIV e o surgimento de possíveis mutações de resistência aos medicamentos.

Segundo Simone Simionatto, professora associada da Faculdade de Ciências Biológicas e Ambientais da Universidade Federal da Grande Dourados e autora principal do estudo, foram identificados diferentes subtipos de HIV-1, sendo o subtipo C o mais prevalente.

Esta descoberta é surpreendente, uma vez que na América Latina o subtipo predominante é o b, o que leva a pensar que os povos indígenas foram expostos ao HIV ‘importado’ por pessoas de outras regiões, disse John Mario González ao SciDev.Net, professor de imunologia da Universidad de los Andes (Bogotá, Colômbia).

“Encontramos mutações de resistência a medicamentos em algumas amostras, enfatizando a importância da vigilância molecular para orientar estratégias de tratamento”, diz Simionatto.

Para chegar a essas descobertas, os cientistas realizaram uma investigação transversal, com entrevistas com os participantes, abordando aspectos como idade, sexo, estado civil, escolaridade, histórico de uso de drogas, histórico sexual, histórico de transfusões sanguíneas e infecções sexualmente transmissíveis . .

Descobriram que a prevalência do HIV-1 era mais elevada em indígenas solteiros, que recebiam benefícios governamentais, tinham menos de cinco anos de educação formal, faziam sexo com consumidores de drogas injetáveis ​​e tinham um historial de infecções sexualmente transmissíveis e de prisão.

De acordo com Simionatto, as conclusões destacam a necessidade de implementar estratégias de prevenção, diagnóstico e tratamento do HIV “culturalmente sensíveis” que atendam às necessidades específicas dos povos indígenas.

“A identificação de subtipos de resistência e mutações pode orientar os profissionais de saúde a fornecer tratamentos mais eficazes e personalizados para pacientes indígenas com HIV. Os resultados sublinham a importância de aumentar a consciencialização sobre o VIH e de melhorar o acesso aos serviços de saúde nestas comunidades”, afirma o cientista por e-mail.

“Compreender a prevalência do VIH e de outros problemas de saúde nestas aldeias permite-nos reconhecer a ligação inseparável entre a saúde humana e o bem-estar ambiental. Esta compreensão pode orientar os decisores políticos e as partes interessadas na implementação de estratégias abrangentes que tenham em conta tanto a saúde ambiental como a conservação ” , afirma.

“Este tipo de pesquisa é de crucial importância, porque ajuda a compreender o abandono histórico vivido por todas as populações nativas do mundo, e particularmente na América Latina e no Caribe”.

John Harold Estrada, professor titular de saúde coletiva da Universidade Nacional da Colômbia

Para John Harold Estrada, professor titular de saúde coletiva da Universidade Nacional da Colômbia, as descobertas estão de acordo com o que foi encontrado anteriormente sobre a prevalência do HIV nas comunidades indígenas ao redor do mundo, que é que “todas as populações aborígenes têm infecção taxas superiores às da população em geral, com melhor acesso à saúde. Isso é uma tragédia para todos os povos originários”, reconhece.

Uma das descobertas mais interessantes do estudo – na opinião de Estrada – tem a ver com a resistência que alguns dos pacientes apresentavam aos antirretrovirais, quer transmitidos, o que significa que o vírus com o qual foram infectados já vinha com mutações que tornam os medicamentos ineficaz, ou adquirida, que ocorre quando o vírus sofre mutação após entrar em contato com a droga, para sobreviver.

“Esse cenário é muito grave, porque significa uma enorme barreira para conseguir controlar as pandemias , pois indica que serão necessários medicamentos de acesso mais difícil e caro. Esse tipo de pesquisa é de crucial importância, porque ajuda a compreender o abandono histórico vivido por todas as populações nativas do mundo, e particularmente na América Latina e no Caribe”, ressalta.

 Link para artigo no The Lancet Regional Health – Americas


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Este artigo foi produzido pela edição América Latina e Caribe do  SciDev.Net [Aqui!].

Emissões de carbono na Amazônia cresceram 122% em 2020 em relação à média de 2010 a 2018

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As emissões de gás carbônico (CO2) pela Amazônia aumentou em 122% e 89% nos anos de 2020 e 2019, respectivamente, em comparação com o período de 2010 a 2018. O crescimento representa a soma dos números do desmatamento e das queimadas na região, e está relacionado principalmente ao declínio na aplicação de leis ambientais. É o que aponta artigo de pesquisadores do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e de outras instituições nacionais e estrangeiras publicado na quarta (23) na revista “Nature”.

A equipe comparou dados sobre o cumprimento das regulamentações ambientais aos eventos ocorridos na Amazônia durante o período de 2010 a 2018, já analisados em produções anteriores, e nos anos subsequentes, 2019 e 2020. Os pesquisadores coletaram amostras de CO2 em 742 voos realizados com uma pequena aeronave em quatro localidades da Amazônia e analisaram as amostras em laboratório do INPE.

O resultado das pesquisas foi compartilhado com técnicos do PRODES/DETER (INPE), que produziram mapas comparando a diferença do desmatamento em 2019 e 2020 com a média 2010-2018. Verificou-se que o aumento de desmatamento em 2019 foi de 82% e de 77% em 2020. Também houve aumento na área queimada de 14% em 2019 e de 42% em 2020. Já as multas reduziram 30% e 54%, e os pagamentos das multas reduziram em 74% e 89% em 2019 e 2020, respectivamente.  “O modelo econômico na Amazônia está por trás disso”, comenta Luciana Gatti, pesquisadora do INPE e principal autora do artigo.

Os dados apontam ainda que o nível das emissões registradas entre 2019 e 2020 são comparáveis ao observado em 2015 e 2016, quando um evento climático extremo de grande escala atingiu a região – o El Niño. “Quando o El Niño aconteceu, as emissões de CO2 cresceram porque foi um período de extrema seca, com muitas queimadas e perda de parte da floresta”, explica a pesquisadora. Gatti reforça que 2019 e 2020 não contaram com razões climáticas que justifiquem o crescimento das emissões, o que aponta para a ação humana como explicação.

A pesquisa salienta que as ações de monitoramento e controle podem ser ainda mais importantes nos próximos anos, quando a previsão é de que a região amazônica enfrente desafios maiores, pois as previsões indicam que o próximo evento climático promete ser mais intenso que o último El Niño. “Os dados mostram claramente a importância de políticas de controle e combate ao desmatamento eficazes”, frisa Gatti.

O financiamento do governo é essencial para que as análises possam continuar sendo feitas. “O recurso financeiro usado para as pesquisas é cedido por agências de financiamento de ciência, mas, para que os dados possam estar disponíveis independentemente de publicações científicas, precisamos de financiamento por parte do Governo Federal”, explica a pesquisadora.

A pesquisa observa que a exportação de madeira na Amazônia aumentou quase 700% no período, assim como também cresceram a área plantada de soja (68%) e de milho (58%), além do rebanho bovino (14%) dentro da Amazônia. Daí a importância de políticas públicas apontando um modelo de economia com a floresta em pé, e mais eficazes para a preservação da floresta e a conservação da diversidade amazônica. “Estamos na batalha para o governo assumir a tarefa de zerar o desmatamento antes de 2030 e reflorestar uma parte nas regiões críticas para salvar a Amazônia do ponto de não retorno”, conclui Gatti.

Pesquisadores do Inpe apresentam nesta quarta (23) estudo sobre emissões de carbono na Amazônia

Artigo científico na Nature detalha como o declínio na aplicação das leis ambientais influenciou as emissões na maior floresta tropical do mundo

Brazil's greenhouse gas emissions rose 9.5 per cent in 2020 with Amazon  deforestation: study | Technology News - The Indian Express

Cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), apresentam nesta quarta-feira (23), às 11h, em Brasília, estudo que aponta aumento significativo nas emissões de carbono na Amazônia entre 2019 e 2020. A ministra Luciana Santos participa da apresentação.

A pesquisa, que será publicada pela revista Nature, é assinada por 30 cientistas brasileiros e foi liderada pela equipe do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do Inpe.

A apresentação dos resultados será feita pela autora líder da pesquisa, Luciana Gatti, e pelo coordenador de Ciências da Terra do Inpe, Gilvan Sampaio. Os pesquisadores concederão entrevista coletiva após a apresentação.

Serviço

Evento: Apresentação dos resultados da pesquisa sobre emissões de carbono na Amazônia

Data: 23/08/2023, às 11h

Local: Auditório do MCTI – Esplanada dos Ministérios, Bloco E, Brasília

Transmissão pelo canal do MCTI (Link).

Alegria e desafio reinaram em encontro liderado pelo cacique Raoni Metuktire

Preocupações climáticas proeminentes enquanto centenas participam da celebração do 91º aniversário de Raoni

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Raoni subiu ao palco para discursar na reunião que convocou para pensar novas estratégias diante das ameaças políticas e climáticas. Fotografia: Kamikia Kisedje

Por Jonathan Watts para o  “The Guardian”

Durante o mês mais quente do mundo em mais de 100.000 anos , homens, mulheres e crianças indígenas de todo o Brasil chegaram a um dos últimos grandes redutos da floresta amazônica para uma celebração marcada pela tristeza e desafio.

Em meio a crescentes preocupações com a seca e crescentes evidências de que as maiores árvores da floresta estão começando a morrer, eles vieram ao Parque Nacional do Xingu para prestar homenagem ao mais eficaz protetor da Amazônia de todos, o cacique Raoni Metukire, que indicou ele pode estar chegando ao fim de seus dias de ativista.

Homenagens vieram do rei Charles III, patriarca da igreja ortodoxa e realeza do rock em Sting, enquanto mais de 800 pessoas compareceram pessoalmente. Estavam presentes os Kayapó, Yanomami, Munduruku, Xipaya, Xikrin, Krenak, Wapichana, Guajajara, Paiakan, Arara e Panará, além de conservacionistas brasileiros, cientistas, um ministro do governo, um juiz e dezenas de apoiadores estrangeiros. O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, não compareceu, alegando a necessidade de um procedimento médico em seu quadril.

O motivo aparente da reunião em Piaraçu, vila do Mato Grosso, foi o aniversário nominal de 91 anos de Raoni, mas, na verdade, como as árvores mais poderosas da Amazônia, ninguém sabe ao certo quantos anos ele tem. Raoni existe há mais tempo do que a maioria, fez mais campanhas, viajou mais, sem dúvida conquistou mais e definitivamente é mais visível globalmente, graças à sua placa labial inconfundível.

Muitos observaram que o evento parecia um último suspiro para um líder que parece fisicamente forte e politicamente astuto, mas diz publicamente que seus dias como ativista estão acabando, gerando especulações sobre quem poderia ocupar seu papel como chefe do povo Kayapó.

Uma liderança forte é vital neste momento extraordinário de oportunidade política nacional e preocupação climática global que tornou o mundo exterior mais disposto do que nunca a ouvir as vozes indígenas, mas aparentemente ainda despreparado para se sentar ao lado deles nas negociações ou agir em seus melhores interesses.

Isso é uma fonte de frustração antes de duas reuniões de importância crucial na cidade amazônica de Belém que ajudarão a decidir o destino da floresta tropical: uma cúpula amazônica no próximo mês que reunirá os líderes do Brasil, Colômbia, Peru, Bolívia, Venezuela, Guiana, Guiana Francesa e Suriname, e a cúpula do clima Cop30 da ONU em 2025.

Raoni e outros líderes acreditam que os povos indígenas merecem mais do que seu status de observador habitual nesses eventos, porque eles provaram ser os guardiões da floresta mais bem preservada do mundo. “Estou esperando uma chance de participar”, disse Raoni. “Quando os líderes nacionais prometem discutir esse assunto, nós, indígenas, os ouvimos. Mas também discutimos essas coisas entre nós e temos ideias sobre como impedir a destruição da floresta.”

As esperanças entre os quase 1 milhão de indígenas do país aumentaram desde que Lula se tornou presidente: ele já nomeou o primeiro chefe indígena de assuntos indígenas da história do país, criou um novo ministério indígena e prometeu que seu governo demarcaria mais territórios indígenas e colocaria um deter as invasões de garimpeiros ilegais e grileiros. 

A primeira ministra dos assuntos indígenas do Brasil, Sonia Guajajara, (segunda da esquerda) caminha de braço dado com outras lideranças indígenas em direção à reunião convocada pelo reverenciado cacique Raoni Mekutire

A primeira ministra dos assuntos indígenas do Brasil, Sonia Guajajara, (segunda da esquerda) caminha de braço dado com outras lideranças indígenas em direção ao encontro convocado pelo reverenciado cacique Raoni Mekutire. Fotografia: Kamikia Kisedje

Desde então, como observou a nova ministra do índio, Sônia Guajajara, no encontro de Piaraçu, houve ganhos significativos. Seis territórios indígenas foram demarcados, o desmatamento caiu em mais de um terço e o governo lançou campanhas paramilitares para expulsar alguns garimpeiros do território Yanomami.

Mas o progresso tem sido mais lento do que muitos aqui esperavam, enquanto novas ameaças políticas e climáticas surgiram, como uma ação do poderoso lobby ruralista do Brasil para limitar as demarcações a áreas ocupadas por povos indígenas em 1988. Esse estratagema, que é objeto de uma feroz batalha no senado e na suprema corte, poderia impedir e até reverter o reconhecimento oficial dos territórios.

Os participantes também notaram como o clima ficou conturbado, com os indígenas shamen observando que os rios estavam “tristes”, esgotados além dos níveis normais. Paulo Moutinho, chefe do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, observou que a temperatura em Piaraçu esta semana subiu para 46°C, muito acima do normal em uma área onde as árvores geralmente ajudam a manter o calor baixo em comparação com as planícies agrícolas desmatadas. Registros anteriores sugerem que o El Niño deste ano trará mais secas e uma estação seca mais longa, o que enfraquecerá a floresta.

“As grandes árvores estão morrendo na Amazônia porque os El Niños estão se tornando mais frequentes e de maior duração, tornando mais difícil para o solo repor a umidade. Isso resulta em estresse hídrico para as árvores. A Bacia do Xingu já está em uma situação ruim e esperamos uma seca longa e forte nos próximos anos”, alertou Moutinho.

Davi Kopenawa Yanomami, um dos grandes líderes espirituais do maior território indígena do Brasil, expressou preocupação com as mudanças climáticas e raiva pela falta de apoio do Estado para seu povo, cuja terra ainda é atormentada por garimpeiros ilegais e pelas doenças que eles trazem. “Se o governo não conseguir resolver isso, estamos preparados para entrar em guerra”, disse ele.

Ele queria falar cara a cara com os líderes mundiais. “Não quero apenas enviar-lhes uma mensagem. Eu preciso olhar nos olhos deles”, disse ele. “Meu papel é cuidar do meu povo. A responsabilidade deles é cuidar do nosso planeta.”

Ele elogiou Raoni por ter convocado a reunião. “Isso é histórico. Não vai nascer outro Raoni. Isso me preocupa muito, mas a luta vai continuar”. 

Participantes da celebração de Raoni Metuktire
Mais de 800 pessoas compareceram à celebração de Raoni Metuktire, incluindo representantes das tribos Kayapó, Yanomami, Munduruku, Xipaya, Xikrin, Krenak, Wapichana, Guajajara, Paiakan, Arara e Panará. Fotografia: Kamikia Kisedje

Alessandra Munduruku, que liderou a batalha contra o garimpo ilegal nas terras de seu povo na bacia do rio Tapajós, apesar das ameaças à sua vida, enfatizou diplomaticamente, mas com firmeza, a mudança de papéis. “As mulheres também devem estar envolvidas na tomada de decisões porque lembramos que temos filhos. Dizemos aos líderes da aldeia que vocês não precisam decidir sozinhos, podemos assumir parte da responsabilidade. Agora estamos na linha de frente.”

Raoni expressou sua frustração com o não comparecimento de Lula. “Você me disse que iríamos conversar sobre os territórios que não foram demarcados. Eu não esqueci isso,” ele disse. “Eu não sou uma criança. Somos da mesma geração. Somos adultos. Antes que fiquemos velhos, temos que falar de terras indígenas para que nosso povo viva em paz”.

Uma declaração de toda a reunião ecoou esse pedido, conclamando o estado a expulsar os garimpeiros ilegais , anular os acordos de crédito de carbono e impedir o arrendamento de terras indígenas para a agricultura industrial.

No último dia do encontro, depois de dias de discursos e noites de dança, o velho cacique apareceu formidavelmente forte, permanecendo no palco por horas no calor intenso, andando sem ajuda, fazendo um discurso de 20 minutos e demonstrando sua capacidade única de unificar com um momento de mãos dadas que reuniu rivais políticos indígenas, um juiz, um prefeito local que representa principalmente agricultores brancos, altos funcionários da saúde e líderes femininas.

O único gemido da multidão foi quando Raoni deu a entender que não tinha muito tempo para terminar seu trabalho. Mais característica foi a explosão de alegria da multidão quando foi anunciado que, após uma espera de 20 anos, o governo havia concordado em passar para a próxima etapa de demarcação de Kapot Nhinore, local de nascimento de Raoni e local de descanso de seus ancestrais, como território indígena. Esta notícia gerou cantos e danças espontâneas entre os Kayapó e sorrisos e lágrimas entre outros visitantes.

“Foi com isso que ele sonhou”, disse Patrick Cunningham, coautor de Spirit of the Amazon. “Minha única preocupação é que Raoni também disse que, assim que puder ir para Kapot Nhinore, poderá terminar seus dias em paz.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Grandes bancos são responsáveis pela maioria dos US$ 20 bilhões em financiamento destinados a empresas de petróleo e gás que estão destruindo a Amazônia, mostra estudo

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Belém, Brasil, 25 de julho de 2023. Oito grandes bancos norte-americanos, europeus e brasileiros estão contribuindo para a destruição da Amazônia e do clima, sendo responsáveis pela maior parte do financiamento do setor de petróleo e gás em acordos diretamente ligados a atividades no Peru, Colômbia, Brasil e Equador, de acordo com uma pesquisa divulgada hoje pela Stand.earth e pela Coordenadoria das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA), antecedendo a Cúpula da Amazônia, que será realizada em Belém no próximo mês.

O relatório Capitalizing on Collapse (“Os lucros do colapso”), elaborado por pesquisadores premiados do Stand.earth Research Group, detalha como o JPMorgan Chase, Itaú Unibanco, Citibank, HSBC, Banco Santander, Bank of America, Banco Bradesco e Goldman Sachs concederam mais de US$ 11 bilhões em financiamento às atividades de exploração de petróleo e gás na Amazônia nos últimos 15 anos, de 2009 a 2023. Embora representem apenas 5% dos bancos na base de dados, eles são responsáveis por 55% do total estimado de US$ 20 bilhões diretamente direcionados para a região. Dos oito bancos, seis têm sede nos EUA ou atuam por meio de suas subsidiárias norte-americanas e operam acordos na região, enquanto dois bancos brasileiros – Itaú Unibanco e Banco Bradesco – estão fortemente ligados a projetos específicos do setor de petróleo e gás no país.

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Figura 1. Embora representem apenas 5% dos bancos na base de dados, esses 8 grandes bancos representam 55% do financiamento direto estimado nos últimos 15 anos. O JPMorgan Chase encabeça a lista da destruição na Amazônia com 10% do financiamento direto, ou US$ 1,9 bilhão.

Bancos como o JPMorgan Chase, que encabeça a lista com 10% do financiamento direto (US$ 1,9 bilhão), lucraram com o setor de petróleo e gás nos últimos 15 anos, apesar de a ameaça de um colapso na Amazônia ter aumentado drasticamente no mesmo período. A floresta tem sofrido com a fragmentação, o desmatamento e as queimadas, a tal ponto que os cientistas alertam que ela pode estar chegando a um ponto de não retorno ecológico desastroso. Décadas de queima e vazamentos associados ao setor de petróleo e gás poluíram os cursos d’água e o solo na Amazônia, deixando as comunidades Indígenas doentes, reduzindo seus meios de subsistência e violando seus direitos. E, como o financiamento criou novas oportunidades de expansão, o setor impulsionou as emissões de carbono na atmosfera à custa de um futuro seguro para o clima.

Os estudos de caso incluídos no relatório Capitalizing on Collapse ilustram como cada um desses grandes bancos esteve envolvido em acordos que expandiram a produção de petróleo e gás na Amazônia, incluindo seu envolvimento no projeto da maior bomba de carbono da Amazônia, o Complexo Parnaíba, capaz de liberar duas gigatoneladas de carbono ao longo de sua vida útil. De acordo com a Agência Internacional de Energia, essa expansão não é compatível com a meta de manter o aquecimento global sob controle, apesar de os compromissos climáticos dos bancos afirmarem que estão alinhados com o objetivo de limitar o aquecimento global a 1,5 °C.

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O relatório Capitalizing on Collapse também revela os bancos que financiam empresas envolvidas na exploração de petróleo e gás na Amazônia, o que é conhecido como financiamento indireto, dificultando o rastreamento do dinheiro. O relatório explora como a falta de transparência nos dados financeiros e a fragilidade das políticas bancárias de risco socioambiental (ESR) podem criar condições para que o financiamento seja destinado à produção de combustíveis fósseis, mesmo quando os bancos assumem compromissos explícitos com o clima, os direitos humanos e a biodiversidade.

Com a reunião dos líderes governamentais em Belém, na Cúpula da Amazônia, a ser promovida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, entre 8 e 9 de agosto, para discutir como proteger a região, fortalecer as lideranças Indígenas e proteger os valores ambientais, o relatório Capitalizing on Collapse demonstra que os bancos têm um papel fundamental a desempenhar no futuro, que não incluem a destruição da Amazônia. A iniciativa de proteção regional liderada pelos Povos Indígenas, Amazônia para a Vida: Proteger 80% até 2025, também menciona a necessidade de abandonar os investimentos em combustíveis fósseis como uma das principais medidas para o sucesso da empreitada.

Alguns bancos se mobilizaram para lidar com sua cumplicidade na destruição da Amazônia. Em maio de 2022, o BNP Paribas se comprometeu a não mais financiar ou investir em empresas que produzem a partir de reservas de petróleo e gás na Amazônia ou que desenvolvem infraestruturas relacionadas, tornando-se o primeiro grande banco a adotar a exclusão geográfica do petróleo e gás na floresta amazônica. Em dezembro de 2022, o HSBC alterou suas políticas para excluir todos os novos serviços de financiamento e assessoria a qualquer cliente para a exploração, avaliação, desenvolvimento e produção de projetos envolvendo petróleo e gás no Bioma Amazônico. Esses dois bancos, juntamente com alguns outros, estão dando sinais importantes de que precisam estar dispostos a rever sua relação com a destruição da Amazônia e tomar medidas para gerenciar esse risco.

O relatório é acompanhado pela primeira base de dados pública em que se pode pesquisar todos os bancos envolvidos com o setor de petróleo e gás na Amazônia por meio de financiamentos diretos e indiretos. A base de dados Amazon Banks Database baseia-se em pesquisas anteriores realizadas pelo Stand Research Group sobre financiamento ao comércio e políticas de ESR dos bancos. A base de dados é uma lista abrangente dos bancos envolvidos em acordos de subscrição de empréstimos e títulos para empresas envolvidas na exploração e produção (upstream) e no armazenamento, comércio e transporte (midstream) de petróleo e gás na Amazônia. Essa base de dados estará disponível publicamente a partir de 25 de julho em Exit Amazon Oil and Gas.

O Stand Research Group ganhou recentemente o Prêmio Keeling Curve na categoria de finanças, em reconhecimento à sua liderança e inovação em pesquisas financeiras, políticas e sobre a cadeia de fornecimento na Amazônia. Essa base de dados e o relatório fazem parte desse esforço. A pesquisa na base de dados também embasou a análise sobre o financiamento na Amazônia incluída no relatório Banking on Climate Chaos (“Financiando o caos climático”), de 2023.

Angeline Robertson, Pesquisadora Líder do Stand Research Group:

“Essa pesquisa premiada destaca que os bancos têm um papel fundamental a desempenhar na mudança da economia energética por trás da crise climática. A Amazônia é uma região fundamental para que os bancos apresentem políticas globais ousadas que possam cumprir a intenção de defender os direitos humanos, proteger a biodiversidade e manter o aquecimento global em 1,5 °C. De acordo com a orientação da Agência Internacional de Energia, não deveria haver nenhuma nova produção de petróleo e gás se quisermos ficar abaixo de 1,5 °C, mas continuamos a ver financiamentos bancários para a expansão da exploração de petróleo e gás na maior floresta tropical do mundo.”

Fany Kuiru, Coordenadora Geral da Coordenadoria das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA):

“A expansão do petróleo na Amazônia é uma ameaça latente aos territórios Indígenas e aos ecossistemas vitais no Peru, Equador, Brasil e Colômbia, mas também coloca em risco dezenas de Povos Indígenas isolados, cuja existência depende da integridade de seus territórios. A degradação e o desmatamento combinados nos colocam diante de um iminente ponto de não retorno que, para nossos povos, se traduz em doenças crônicas como consequência da contaminação, na perda de nossa soberania alimentar devido a metais pesados encontrados nos peixes e na água que bebemos e na violência sistemática contra aqueles que defendem nosso lar. Os bancos, financeiras e outras empresas que investem na região e cujos lucros são derivados da exploração de petróleo são cúmplices da morte de nossas lideranças, de nossas culturas e de nossos modos de vida. Pedimos que os maiores investidores bancários deixem a Amazônia imediatamente.”

Todd Paglia, Diretor Executivo da Stand.earth:

“O relatório Capitalizing on Collapse mostra claramente que os bancos precisam parar de financiar projetos envolvendo petróleo e gás na Amazônia. A plataforma pela exclusão geográfica para abandonar a exploração de petróleo e gás amazônicos (Exit Amazon Oil and Gas) aponta para um dos pilares da iniciativa Amazônia para a Vida: 80 X 2025 e é um caminho claro para os bancos enviarem o sinal de que querem investir no futuro da Amazônia, não em seu colapso. Ao implementar a exclusão de investimentos problemáticos em petróleo e gás em toda a Amazônia, abandonando acordos e relacionamentos que causam destruição e investindo no desenvolvimento econômico ecológico, apoiado pelos Povos Indígenas na região, bancos como JPMorgan Chase, Itaú Unibanco e Citi têm a chance de estar do lado certo da história.”

April Merleaux, Gerente de Pesquisa, Equipe de Clima e Energia, Rainforest Action Network:

“O relatório Capitalizing on Collapse destaca uma importante pesquisa sobre o financiamento bancário destinado à extração de petróleo e gás no bioma amazônico. O caminho mais seguro para manter o aumento das temperaturas globais abaixo de 1,5 ˚C é promulgar os princípios do CLPI (Consentimento Livre, Prévio e Informado) para os Povos Indígenas. A proteção dos direitos humanos e a manutenção dos combustíveis fósseis no solo nos afastarão do Caos Climático. Mas esse relatório mostra que os bancos – inclusive os grandes bancos dos EUA, como o Bank of America e o JPMorgan Chase – estão indo na direção oposta, financiando a destruição nessa região vital. Capitalizing on Collapse lança dúvidas sobre as promessas de zerar as emissões de carbono feitas pelos bancos.


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Este texto foi inicialmente publicado pela Stand.Earth [Aqui!].

Terra em transe. Pontos de inflexão ecológica podem ocorrer muito mais cedo do que o esperado, segundo estudo

Floresta Amazônica e outros ecossistemas podem entrar em colapso ‘muito em breve’, alertam pesquisadores

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Desmatamento da Amazônia, perto de Santarém, Brasil. Fotografia: Brazil Photos/LightRocket/Getty Images

Por Jonathan Watts Editor de ambiente global, para o “The Guardian”

É provável que o colapso ecológico comece mais cedo do que se acreditava, de acordo com um novo estudo que modela como os pontos de inflexão podem amplificar e acelerar uns aos outros.

Com base nessas descobertas, os autores alertam que mais de um quinto dos ecossistemas em todo o mundo, incluindo a floresta amazônica, correm o risco de sofrer um colapso catastrófico durante a vida humana.

“Isso pode acontecer muito em breve”, disse o professor Simon Willcock, da Rothamsted Research, que co-liderou o estudo. “Poderíamos ser a última geração a ver a Amazônia.”

A pesquisa, publicada na quinta-feira na Nature Sustainability, provavelmente gerará um debate acalorado. Comparada com a ligação há muito estabelecida e conclusivamente comprovada entre os combustíveis fósseis e o aquecimento global, a ciência dos pontos de inflexão e suas interações é relativamente subdesenvolvida.

O principal órgão consultivo científico das Nações Unidas, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, tem sido mais cauteloso. Em seu último relatório, disse que havia uma chance de um ponto de inflexão na Amazônia até o ano de 2100.

No entanto, vários cientistas proeminentes baseados no Brasil, incluindo Carlos Nobre, alertaram que isso pode acontecer muito mais cedo. O novo estudo destaca essa perspectiva alarmante. Ele observa que a maioria dos estudos até agora se concentrou em um fator de destruição, como mudança climática ou desmatamento. Mas quando você combina isso com outras ameaças, como estresse hídrico, degradação e poluição dos rios pela mineração, o colapso ocorre muito mais rapidamente.

O lago Erhai, na China, desabou mais cedo do que a maioria dos observadores esperava. De acordo com Willcock, isso ocorreu porque as projeções foram baseadas em um fator – o escoamento agrícola que estava carregando o sistema de água com excesso de nutrientes – mas outras tensões agravaram e aceleraram essa degradação. Quando a variação climática, a gestão da água e outras formas de poluição foram adicionadas à mistura, o sistema de lagos rapidamente perdeu sua resiliência.

Ao todo, a equipe, composta por cientistas das universidades de Southampton, Sheffield e Bangor, além da Rothamsted Research, analisou dois ecossistemas de lagos e duas florestas, usando modelos de computador com 70.000 ajustes de variáveis. Eles descobriram que até 15% dos colapsos ocorreram como resultado de novas tensões ou eventos extremos, mesmo quando a tensão primária foi mantida em um nível constante. A lição que aprenderam foi que, mesmo que uma parte de um ecossistema seja gerenciada de forma sustentável, novas tensões, como o aquecimento global e eventos climáticos extremos, podem fazer a balança pender para um colapso.

Embora o escopo do estudo seja limitado, os autores disseram que os resultados mostraram a necessidade de os formuladores de políticas agirem com mais urgência.

“Estudos anteriores de pontos críticos ecológicos sugerem custos sociais e econômicos significativos a partir da segunda metade do século XXI. Nossas descobertas sugerem que esses custos podem ocorrer muito mais cedo”, observou o coautor, Prof. John Dearing.

Willcock disse que as descobertas foram “devastadoras”, mas disse que essa abordagem – de análise por meio da dinâmica do sistema – também tem um potencial positivo porque mostra que pequenas mudanças em um sistema podem ter grandes impactos. Embora o estudo se concentre no aspecto negativo dos canudos que quebram os ecossistemas, ele disse que o oposto também pode ser verdade. O lago Erhai, por exemplo, tem mostrado sinais de recuperação.

“A mesma lógica pode funcionar ao contrário. Potencialmente, se você aplicar pressão positiva, poderá ver uma recuperação rápida”, disse ele, embora enfatize que o tempo está passando mais rápido do que a maioria das pessoas imaginava.


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Este texto originalmente escrito em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].