Facebook virou entreposto da grilagem de terras na Amazônia

Parts of Amazon Rainforest in Brazil Are Being Illegally Offered for Sale  on Facebook Marketplace : US News : Latin Post - Latin news, immigration,  politics, culture

Não sei se o hoje multi bilionário Mark Zuckerberg imaginou que um dia o seu “Facebook” iria virar uma espécie de entreposto avançado da grilagem de terras em áreas de conservação ambiental e de terras indígenas na Amazônia brasileira, mas o fato é que virou.  E isto foi meticulosamente documentado por jornalista da rede BBC que acabam de lançar um documentário mostrando o uso da área de anúncios do Facebook, o Marketplace, para que terras públicas sejam vendidas ilegalmente em um esquema que envolve diferentes escalas de envolvimento.

O documentário “Our World: Selling the Amazon” (Amazônia à venda) expõe o funcionamento de um vigoroso mercado ilegal online que opera livremente no Facebook, e uma dos elementos mais comprometedores para o Facebook é que os grileiros admitem que as terras que anunciam não lhes pertencem. E o pior é que o levantamento feito pelos pelos jornalistas da BBC mostra que eles reconhecem que estão vendendo terras públicas, com um detalhe importante que é o fato deles contarem com a impunidade por acreditarem que o presidente Jair Bolsonaro é uma espécie de aliado nesse processo de grilagem de terras públicas.

Interessante notar que a equipe de jornalistas da BBC identificou que a maioria dos anúncios de venda ilegal de terras públicas veio do estado de Rondônia. Como conheço bem o estado já que realizei trabalhos de campo na sua região central entre os anos de 1991 e 2008, pude reconhecer algumas das práticas reveladas como recorrentes dos tempos em que cruzei as estradas empoeiradas na região central do estado.

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O documentário “Amazônia à Venda” tem um duração de 41:10 minutos e pode ser assistido abaixo.

Relatório de ONG Finlandesa acusa Vale de danos ambientais na Amazônia

Pesquisador considera que a Vale é “verdadeiramente irresponsável” . Markus Kröger acredita que o governo da Finlândia deve examinar de perto a cadeia de produção da Outokumpu devido ao risco de reputação

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Bep Krokroti Xikrin é um dos representantes dos xikrin entrevistados no relatório da Finnwatch. Repórter Brasil / Finnwatch

Por Mika Mäkeläinen para a Yle

De acordo com o relatório da Finnwatch, a Outokumpu importa matéria-prima da mina da Vale, o que tem causado danos ao meio ambiente e problemas para os povos indígenas que vivem perto da mina.

Segundo a entidade, a mina Onça Puma, no Pará, envenenou o rio Cateté, que corta a área indígena Xikrin, e foram medidas concentrações anormais de metais pesados ​​nos moradores.

No mapa está a mina Onça Puma no Brasil e na região amazônica.Harri Vähäkangas / Yle

A Outokumpu compra uma mistura de ferro e níquel chamada ferroníquel da mina da Vale. É usado para fazer aço inoxidável. A Vale é a maior produtora mundial de minério de ferro e níquel, e uma empresa muitas vezes maior do que a Outokumpu.

A Outokumpu não contesta as compras, mas considera o controle de seus subcontratados abrangente. A Vale, por sua vez, negou que a mina seja a causa da poluição do rio.

Com seu recém-lançado relatório de pessoas envenenadas, a Finnwatch quer mostrar que tipo de efeitos a cadeia de suprimentos da empresa finlandesa teve na região amazônica.

relatório finwatch

As compras da Outokumpu junto à Vale foram levantadas no relatório, por exemplo, no uso dos recursos naturais da Amazônia, que afetam o meio ambiente e o modo de vida dos povos indígenas.

Devido à indústria de mineração e à produção de outras matérias-primas, o desmatamento na área de floresta tropical aumentou. Nos últimos dois anos, sob o presidente Jair Bolsonaro , cerca de 10.000 km2 de floresta tropical foram desmatados no Brasil a cada ano .

A responsabilidade corporativa dos assinantes estrangeiros depende da seriedade com que seus parceiros brasileiros levam o desmatamento e outros problemas ambientais.

Vale é uma importante subcontratada da Outokumpu

Segundo a Finnwatch, que estuda os efeitos das operações internacionais das empresas, a Outokumpu compra uma quantidade significativa de ferroníquel da Vale.

Em 2016–2019, a Outokumpu e suas subsidiárias estrangeiras adquiriram um total de mais de 33.000 toneladas de ferroníquel da mina Onça Puma. Menos de um décimo disso foi para a usina de aço Tornio e o restante para as subsidiárias da Outokumpu nos Estados Unidos e na Suécia. 

Vista aérea de um efluente de mina de ouro perto de Castelo dos Sonhos, no BrasilA mineração é uma das causas do desmatamento na Amazônia.  Mika Mäkeläinen / General

Outokumpu não quer falar nada sobre sua relação com a gigante mineradora brasileira Vale.

Por exemplo, a Vale não foi mencionada no Relatório Anual da Outokumpu, e a Outokumpu não quis comentar sobre quaisquer assuntos relacionados à Vale para a Yle. De acordo com Outokumpu, o valor do comércio com subcontratados é um segredo comercial.

De acordo com o relatório da Finnwatch, um total de mais de EUR 178 milhões em ferroníquel foi importado para a Finlândia em 2019 e menos de EUR 100 milhões no ano passado. De acordo com Juha Erkkilä , diretor de sustentabilidade da Outokumpu , a maior parte são importações da Outokumpu, mas Erkkilä não divulga as fontes de ferroníquel.

Erkkilä enfatiza que a quantidade de ferroníquel diminuiu à medida que a Outokumpu aumentou o uso de material reciclado.

A Outokumpu preparou uma resposta ao relatório da Finnwatch, segundo o qual seu aço inoxidável é feito com mais de 90% de material reciclado. No entanto, a declaração não contesta os números ou outras informações relevantes do relatório da Finnwatch.

A Finnwatch realizou um trabalho de campo relacionado ao estudo em conjunto com a Repórter Brasil na área do povo indígena xikrin no estado do Pará em dezembro de 2020.

Pesquisador: Vale é considerada a pior empresa

Segundo um pesquisador finlandês, a negociação da Outokumpu com a Vale é um erro que pode gerar uma reputação e até consequências jurídicas.

– A Vale é uma empresa da qual não valeria a pena comprar minerais, afirma Markus Kröger, Professor Assistente de Estudos de Desenvolvimento da Universidade de Helsinque .

Kröger já pesquisou as operações da Vale no Brasil e publicou um livro para download gratuito sobre mineração. Ele revisou o relatório de Finnwatch a pedido de Yle.

A Vale Mining Company está sediada no Rio de Janeiro.A Vale tem sido criticada de forma excepcionalmente forte por seus danos ambientais. Antonio Lacerda / EPA

Kröger justifica ignorar a Vale com as ações e reputação da empresa, que é uma das piores do mundo. Por exemplo, em 2012, a Vale foi eleita a empresa mais destrutiva do mundo em termos de meio ambiente e direitos humanos(você muda para outro serviço).

– É uma empresa que se concentra na maximização total dos lucros, contornando todas as leis possíveis, e é por isso que foi listada como a pior empresa, Kröger disse a Yle.

De acordo com Kröger, o estado brasileiro tem apoiado generosamente a Valea, e a empresa tem obtido grandes lucros nos últimos anos, mas disse que negligenciou a proteção ambiental e os direitos humanos.

A Valea também é parcialmente responsável por dois acidentes nos últimos anos, nos quais barragens em embalagens de lixo extrativista foram rompidas e mataram cerca de 300 pessoas no Brasil.

Vista aérea de um deslizamento de terra em Brumadinho, Brasil

A Vale foi condenada por romper a barragem por bilhões de indenização. Antonio Lacerda / EPA

No início de fevereiro, a Vale foi condenada a cerca de seis bilhões de euros por danos devido a um grande acidente na barragem. O valor ainda pode aumentar. Além disso, parte da liderança da Vale recebe denúncias de homicídios.

–  Estamos falando de uma empresa realmente irresponsável, resume Kröger.

De acordo com Kröger, a mina de níquel Onça Puma, que foi culpa da Finnwatch, é muito problemática em muitos aspectos. Os povos indígenas tiveram que ceder parcialmente à mineração e às pastagens vizinhas.

A mina fica na parte alta do rio, utilizada pelos indígenas, de forma que os resíduos da mineração que vão para o rio poluem as águas a jusante.

Processos judiciais estão pendentes contra a Vale no Brasil, mas a empresa tem um acordo provisório com o povo xikrin. Segundo ele, a empresa apóia financeiramente os povos indígenas e investiga mais detalhadamente os problemas ambientais.

A Vale não respondeu às perguntas de Yle sobre o relatório de Finnwatch.

Outokumpu: os fornecedores devem seguir nossas diretrizes

De acordo com Juha Erkkilä, vice-presidente de Sustentabilidade da Outokumpu, os requisitos da Outokumpu para a responsabilidade dos subcontratados são “muito abrangentes”.

– Todos os jornalistas são obrigados a cumprir nosso código de conduta, no qual, entre outras coisas, os direitos humanos são destacados, diz Erkkilä.

No entanto, ele não quer avaliar a responsabilidade da Vale ou de outros fornecedores individuais.

Segundo Erkkilä, os próprios fornecedores não encontraram riscos em termos de responsabilidade corporativa em suas operações.

A visão de Finnwatch é diferente. De acordo com seu relatório, o controle de responsabilidade corporativa da Outokumpu é fragmentado e seus critérios vagos.

Vista aérea de uma aldeia indígenaA aldeia de Xikrim junto ao rio Cateté. Repórter Brasil / Finnwatch

Segundo o pesquisador, o controle do Outokumpu é retrógrado

Finnwatch acusa Outokumpu de ocultar compras no Brasil. O pesquisador também acha que as operações da Outokumpu parecem secretas e frouxas em termos de controle.

“Parece que nada está sendo controlado em Outokumpu”, diz Kröger.

Kröger está surpreso que Outokumpu não quis fornecer à Finnwatch as informações comerciais solicitadas, mas a ONG teve que buscar as informações em outro lugar.

– A Outokumpu parece não se importar de onde vem (ferroníquel). Se ainda houver uma tentativa de esconder dessa forma, é bastante alarmante, diz Kröger.

Se a empresa não quer ser mais transparente, Kröger acredita que o dono deve exigir. Outokumpu é uma empresa listada em que o estado finlandês tem o maior proprietário individual de pouco mais de um quinto.

Kröger argumenta que a estatal Solidium teria que examinar cuidadosamente as cadeias produtivas da Outokumpu e de outras empresas de sua propriedade para que não se enredassem em transações com empresas como a Vale.

Kröger aponta que não se trata apenas de risco de reputação e comportamento antiético. Segundo ele, grandes empresas internacionais estão cada vez mais sendo processadas, sendo acusadas de envolvimento em abusos aos direitos humanos e desastres naturais.

De acordo com Kröger, o estado deve investigar adequadamente as atividades das empresas que possui, e não deixar a tarefa para ONGs de poucos recursos – como é o caso agora da Finnwatch.

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Este texto foi originalmente escrito em finlandês e publicada pela Yle [Aqui!].

BNP Paribas anuncia que vai parar de financiar que produzem ou compram carne em áreas desmatadas na Amazônia após 2008

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Por  Sudip Kar-Gupta e Matthieu Protard; Edição de Kirsten Donovan para a Reuters

PARIS, 15 de fevereiro (Reuters) – O maior banco francês, o BNP Paribas, afirmou nesta segunda-feira que não financiará mais clientes que produzem ou compram carne bovina ou soja de terras na Amazônia desmatadas ou convertidas depois de 2008.

O BNP, que traçou uma política de combate ao desmatamento na Amazônia e no Cerrado, também disse que incentivaria seus clientes a não produzir ou comprar carne ou soja do Cerrado em terras desmatadas ou convertidas após 1º de janeiro de 2020.

O banco, o maior credor cotado da França, disse que só fornecerá produtos ou serviços financeiros a empresas – produtores, condicionadores de carne e comerciantes – que adotem uma estratégia de atingir o desmatamento zero em suas cadeias de produção e fornecimento até 2025, o mais tardar.

“As instituições financeiras expostas ao setor agrícola no Brasil devem contribuir para esse combate ao desmatamento”, disse o BNP Paribas em nota.

Bancos europeus como o Credit Suisse, o banco holandês ING e o BNP Paribas se comprometeram no mês passado a interromper o financiamento do comércio de petróleo bruto do Equador após pressão de ativistas que visam proteger a floresta amazônica.

Líderes indígenas que lutam para impedir a exploração de petróleo em seu território disseram que o papel dos bancos os tornou cúmplices em derramamentos de óleo, violações de direitos à terra e destruição da floresta tropical pela indústria petrolífera do Equador. 

(Reportagem de Sudip Kar-Gupta e Matthieu Protard; Edição de Kirsten Donovan)

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pela agência Reuters [Aqui!]

“O jogo agora é outro”

 Nova política americana sobre mudanças climáticas aumenta pressão sobre o Brasil para preservar a Amazônia e reduzir suas emissões

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Por Helton Escobar para o “Jornal da USP”

A chegada de Joseph Biden à Casa Branca e o retorno dos Estados Unidos à frente de batalha contra as mudanças climáticas globais têm implicações importantes para o Brasil. Sem Donald Trump para lhe fazer companhia no seleto clube de países negacionistas do aquecimento global, o governo Bolsonaro fica ainda mais isolado e sujeito a pressões por parte da comunidade internacional para combater o desmatamento da Amazônia, que — além de ser majoritariamente ilegal e extremamente nocivo do ponto de vista social, econômico e ambiental — é a fonte brasileira mais volátil de emissões de gases do efeito estufa para a atmosfera.

Tal como prometido durante a campanha eleitoral, uma das primeiras atitudes de Biden ao assumir a presidência dos Estados Unidos foi recolocar o país no Acordo de Paris, principal esforço internacional de combate às mudanças climáticas. Mas mais do que isso: uma Ordem Executiva, publicada por ele em 27 de janeiro, eleva a crise climática a uma questão de segurança nacional, a ser tratada como prioridade em todas as políticas nacionais e internacionais dos Estados Unidos.

“É política da minha administração que as considerações climáticas sejam um elemento essencial da política externa e da segurança nacional dos Estados Unidos. Os Estados Unidos trabalharão com outros países e parceiros, tanto de forma bilateral quanto multilateralmente, para colocar o mundo em um caminho climático sustentável”, diz a Ordem Executiva. E também: “Reconhecendo que as mudanças climáticas afetam uma ampla gama de assuntos, será uma prioridade dos Estados Unidos pressionar por uma maior ambição climática e integração de considerações climáticas em uma ampla gama de fóruns internacionais”.

Para liderar essa nova diplomacia climática, Biden nomeou o ex-chanceler John Kerry, um experiente negociador e profundo conhecedor do tema, como “enviado especial” dos Estados Unidos para o clima. Caberá a ele dialogar com o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, que se coloca abertamente como um negacionista da crise climática.

Queimada em Lábrea (AM). Foto: Christian Braga/Greenpeace

“O jogo agora é outro; não tem mais espaço para conversa mole”, diz o pesquisador Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP e especialista em mudanças climáticas. “Queira ou não queira, o Brasil vai ter que se alinhar com políticas internacionais de conservação ambiental, se não quiser perder mercado e ficar fora das negociações.”

O professor e ex-reitor da USP Jacques Marcovitch, especialista em política climática internacional, ressalta que não se trata apenas de uma posição isolada dos Estados Unidos, mas de um alinhamento das principais economias do mundo (incluindo China, Grã-Bretanha e União Europeia) em favor do desenvolvimento sustentável de baixo carbono e do combate às mudanças climáticas, que pode acabar marginalizando o Brasil no cenário internacional. O discurso do vice-presidente Hamilton Mourão na última reunião do Fórum Econômico Mundial, em Davos, buscando apresentar o Brasil como um país engajado na defesa do meio ambiente, mostra que o governo está atento a esse risco, avalia Marcovitch. “Se não tomarmos cuidado, poderemos enfrentar essa hostilização da comunidade internacional, e isso não é interessante para o Brasil.”

O ponto-chave para o Brasil nessa questão climática é a Amazônia. Diferentemente dos países desenvolvidos, onde a maior parte das emissões de gases do efeito estufa (relacionados ao aquecimento global) provém da queima de combustíveis fósseis (petróleo, gás e carvão mineral) para geração de energia, aqui a principal fonte histórica de emissões é o desmatamento — ou “mudanças no uso do solo”, como se diz na linguagem técnica dos relatórios internacionais. Cada hectare de floresta tropical contém entre 100 e 150 toneladas de carbono “embutidas” em sua vegetação; e quando a floresta queima ou a vegetação apodrece esse carbono é liberado para a atmosfera na forma de gases (principalmente dióxido de carbono, CO2), da mesma forma que acontece na queima de combustíveis fósseis (que também são derivados de matéria orgânica, rica em carbono). Uma vez na atmosfera, não importa se esse gás carbônico veio de uma árvore queimada ou do escapamento de um carro; ele contribui para o aquecimento global da mesma forma.

Destruir a floresta, portanto, é tão nocivo para o clima quanto queimar petróleo. Apesar da contribuição histórica do Brasil para o aquecimento global ser relativamente pequena (cerca de 1%), a maior parte dessa contribuição nociva tem origem, principalmente, no desmatamento da Amazônia e na agropecuária, já que a matriz energética brasileira é majoritariamente limpa (baseada em hidrelétricas e biocombustíveis) e o País é pouco industrializado. Uma comparação simples entre os dados oficiais de desmatamento e de emissões de gases do efeito estufa do País nas últimas décadas deixa isso claro: quando a destruição da floresta aumenta, as emissões também aumentam; e quando o desmatamento diminui, as emissões encolhem na mesma proporção (veja abaixo).

Os dados oficiais mais recentes sobre as emissões de gás carbônico do País vão até o ano de 2016, num período em que o desmatamento na Amazônia ainda estava relativamente controlado e as taxas de desmate ficavam abaixo de 8 mil quilômetros quadrados/ano. Tanto que, naquele momento, o desmatamento passou a ser apenas a terceira maior fonte de emissões do Brasil, atrás da agropecuária e do setor energético. Mas a situação, hoje, não é mais a mesma: nos últimos dois anos, sob a gestão do presidente Jair Bolsonaro, o desmatamento voltou a crescer, ultrapassando a marca de 10 mil km2, em 2019, e de 11 mil km2, em 2020, segundo dados oficiais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) — que Bolsonaro tentou de todo modo desacreditar no início de sua gestão. Consequentemente, as emissões de carbono aumentaram, e as críticas da comunidade internacional ao descaso ambiental do Brasil, também — não só pela questão climática, mas também da biodiversidade e de suas implicações sociais. O antagonismo gerado com os países europeus na área ambiental é tão forte que ameaça melar o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, assim como a entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

A Ordem Executiva de Biden faz uma menção específica à Amazônia, requisitando aos secretários do Tesouro e de Estado (equivalentes aos ministros da Economia e das Relações Exteriores no Brasil) a elaboração de “um plano para promover a proteção da floresta amazônica e outros ecossistemas cruciais que atuam como sorvedouros de carbono, inclusive por meio de mecanismos de mercado”.

“Proteger a Amazônia é uma parte crítica dos esforços para estabilizar o clima, prevenir a próxima pandemia mundial e inibir a crise de extinção que se aproxima”, diz um relatório preparado pela US Network for Democracy in Brazil (USNDB), uma rede de pesquisadores, ativistas e organizações que defendem a democracia no Brasil. Entregue ao governo Biden no início de fevereiro, o documento lista uma série de denúncias contra o governo Bolsonaro, referentes a violações na área ambiental e de direitos humanos, e recomenda que o governo americano “congele negociações de comércio bilateral com o Brasil”, até que essas questões sejam solucionadas.

“Uma prioridade importante deveria ser a restrição, através de ordem executiva sobre compras e legislação governamentais, de importações de commodities de risco florestal como madeira, soja e produtos provenientes do gado, a não ser que possa ser determinado que as importações não estejam ligadas ao desmatamento ou a abusos de direitos humanos”, diz o documento — que chama atenção, também, para a vulnerabilidade de outros biomas brasileiros, como Cerrado e Pantanal. “Financiar a conservação ambiental sob o atual governo brasileiro pode parecer ‘jogar dinheiro no problema’, a não ser que o governo brasileiro inverta o curso de sua agenda destrutiva.”

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Geopolítica ambiental

“A Amazônia virou um tema geopolítico”, diz Izabella Teixeira, ex-ministra do Meio Ambiente do Brasil e copresidente do Painel Internacional de Recursos do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (IRP-Unep). Considerando que o desmatamento da Amazônia afeta o clima de todo o planeta (e não só do Brasil), é natural que outros países, ao elegerem o combate às mudanças climáticas como prioridade, passem a se importar mais com a conservação da floresta. “Não é uma discussão sobre soberania, sobre territórios, mas sobre impacto que isso (o desmatamento) tem na atmosfera, que é um bem global”, destaca ela.

“Inicialmente, não acredito que o Brasil sofrerá sanções, ou mesmo pressão para uma mudança na política ambiental atual. Inicialmente. Mas, ao longo do tempo, se o desmatamento continuar com tendência de aumento, como está agora, creio que potencialmente haverá pressão, como a que já se sente por parte da Europa”, avalia Thelma Krug, pesquisadora do Inpe e vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) — mas que nesta reportagem não fala em nome do painel.

O retorno dos Estados Unidos ao Acordo de Paris, segundo ela, cria “um cenário muito positivo” para avanços no enfrentamento da crise climática global. A ordem executiva de Biden reforça o compromisso americano de apoiar financeiramente os países em desenvolvimento a lidar com o problema e adotar medidas mais ambiciosas de redução de emissões, que é um ponto-chave do acordo. “Isso deve estimular outros países desenvolvidos a cumprir seus compromissos de apoiar os países em desenvolvimento”, avalia Thelma. “Esta é uma das mudanças que vejo no curto prazo e que é extremamente necessária para ajudar os países em desenvolvimento a ampliar suas contribuições nacionalmente determinadas e colocar as emissões de gases de efeito estufa em uma trajetória consistente com o Acordo de Paris.”

A ajuda financeira internacional para a conservação da Amazônia e do Cerrado “seria muito bem-vinda”, avalia Thelma. “Só que essas contribuições não caem do céu”, alerta ela. “Há a necessidade do País ter um plano concreto, crível e executável para conter o desmatamento” — o que não é o caso atualmente.

O Plano para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) foi abandonado pelo governo Bolsonaro em 2019, apesar dos ótimos resultados que vinha produzindo nos últimos 15 anos. O governo também desmontou ou desmobilizou quase todos os grupos de trabalho, comissões e outras estruturas internas de governo que lidavam com a questão climática, em diferentes ministérios; e adotou um discurso de ataque aos seus próprios órgãos de pesquisa e defesa ambiental (como Ibama e ICMBio), que tiveram sua atuação inibida nos últimos dois anos pela falta de apoio e de recursos para suas atividades.

“O primeiro passo é reconhecer os retrocessos e impedir os retrocessos. Não adianta ficar fazendo bravatas”, diz Izabella Teixeira. “A agenda ambiental brasileira está completamente fragmentada.” Segundo ela, o governo não só deixou de dar prioridade à questão como passou a desconstruir as políticas e programas que já existiam, sem colocar nada no lugar capaz gerar resultados positivos. “Os resultados que estão sendo entregues hoje são de retrocesso.”

E não é por falta de dinheiro, diz o secretário executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini. Ele lembra que há cerca de R$ 3 bilhões “parados” no Fundo Amazônia (mais do que o orçamento inteiro do Ministério do Meio Ambiente), que poderiam estar sendo usados no combate ao desmatamento, mas não são. “Dinheiro tem; o que falta é interesse do governo”, diz.

Área de queimada no entorno da BR-163 em Novo Progresso (PA). Foto: Lucas Landau/Greenpeace

Astrini tem poucas esperanças — para não dizer nenhuma — de que alguma pressão internacional vá mudar a postura beligerante e negacionista de Bolsonaro com relação ao meio ambiente, porque é justamente essa postura que atende aos interesses da sua base política e eleitoral mais fiel, que ele precisa agradar para se reeleger em 2022. “Se a claque dele quiser que ele desmate a Amazônia e enfrente o Biden, é isso que ele vai fazer”, aposta Astrini.

“Minha impressão é que até o fim do governo Bolsonaro nada vai acontecer”, prevê o ex-diretor do Inpe e atual diretor do Secretariado do Grupo de Observações da Terra (GEO), Gilberto Câmara. “É óbvio que a pressão vai aumentar, mas acho que o debate será pós-2022.”

O filósofo e cientista político Ricardo Abramovay, professor sênior do Programa de Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente da USP, também não crê numa mudança de postura do governo brasileiro. “Não vai mudar porque somos governados por uma seita fundamentalista que não é sensível a pressões internacionais”, diz. Será preciso acompanhar, segundo ele, qual será a postura diplomática adotada pelo governo Biden em suas relações com o Brasil daqui para frente. “Se os Estados Unidos adotarem uma posição muito inflexível, isso poderá ser aproveitado pelo governo brasileiro para se fazer de vítima da comunidade internacional”, avalia Abramovay.

As primeiras sinalizações vindas de Washington foram de abertura ao diálogo. “Na relação bilateral entre Brasil e EUA a diplomacia estará à frente para qualquer tema, incluindo a questão climática”, disse a porta-voz do Departamento de Estado americano, Kristina Rosales,segundo o jornalFolha de S.Paulo.

“Acho que faz todo sentido. Devem estender a mão primeiro na tentativa de ajudar a resolver o problema do desmatamento; o que não acredito que trará resultados, pois do lado de cá não deverão encontrar interesse nenhum”, avalia Astrini, do Observatório do Clima. “Em 2019, na época das queimadas, a (chanceler alemã) Angela Merkel fez o mesmo gesto, e Bolsonaro mandou ela reflorestar a Alemanha.”

Do ponto de vista do agronegócio brasileiro, a ordem executiva do presidente Biden abre perspectivas positivas, na avaliação do pesquisador Marcos Fava Neves, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP. “Vejo como uma oportunidade para o Brasil atrair cada vez mais recursos que auxiliem na preservação. A grande maioria dos indicadores ambientais do Brasil é extremamente favorável, mas o desmatamento na Amazônia Legal cresceu entre 2019 e 2020 e é necessário combater fortemente a ilegalidade”, afirma Neves. Um mercado que poderá crescer bastante, segundo ele, é o de biocombustíveis. “Mais de 98% do agro brasileiro não está ligado à Amazônia e são empresas que atendem aos mais rigorosos certificados internacionais, portanto não vejo ameaça a essas empresas com uma exigência maior.”

Compromisso assumido

Um primeiro passo do Brasil para demonstrar comprometimento com a causa climática, segundo Marcovitch, seria a apresentação de um plano estratégico para o cumprimento de seus compromissos já assumidos no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC, em inglês) e do Acordo de Paris, por meio da sua Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC), que prevê a redução de 37% das emissões de gases do efeito estufa no País até 2025, e de 43%, até 2030, em comparação com o que era emitido em 2005. Um compromisso que passa, obrigatoriamente, pela redução do desmatamento e pela restauração de áreas degradadas.

“Acredito que isso seja uma pré-condição para qualquer diálogo”, avalia Marcovitch. “Nenhum país vai querer negociar com o Brasil se não houver um compromisso claro de cumprimento das metas.”

As NDCs são o principal instrumento de implementação do Acordo de Paris — que, em vez de estipular uma meta única de redução global de emissões (como foi feito anteriormente, no Protocolo de Quioto), permitiu que cada país determinasse sua própria contribuição, para um objetivo comum de manter o aumento da temperatura média da Terra abaixo de 2 graus Celsius. A primeira NDC brasileira foi apresentada em 2015, e o Acordo de Paris determinava que todos os países signatários apresentassem uma nova NDC, com metas mais ambiciosas, até o fim de 2020.

A nova NDC do Brasil foi enviada à UNFCCC em 8 de dezembro, basicamente reafirmando os compromissos da primeira versão. Em nota à imprensa, o Ministério das Relações Exteriores descreveu a contribuição brasileira como “uma das mais ambiciosas do mundo”. Organizações não governamentais, porém, fizeram duras críticas à nova proposta, que, segundo elas, é menos ambiciosa do que a NDC original. Isso porque o valor de referência para o que o país emitia em 2005 foi atualizado (em função de uma revisão metodológica) de 2,1 bilhões para 2,8 bilhões de toneladas de CO2 equivalente. Consequentemente, como a linha de base aumentou, a quantidade de gases do efeito estufa que o Brasil poderá emitir em 2025 e 2030 também passou a ser maior do que a prevista na NDC original — cerca de 40% maior, segundo uma análise da Climate Action Network(CAN), uma rede com mais de 1,5 mil organizações não governamentais.

“O exemplo do Brasil, que apresentou uma NDC em muitos aspectos mais fraca e menos ambiciosa do que a anterior, não deve ser aceito no âmbito da UNFCCC e de seu Acordo de Paris, muito menos bem-vindo”, diz uma carta da CAN, enviada à secretaria executiva da convenção, em 25 de janeiro. O Ministério das Relações Exteriores publicou uma nova nota à imprensa, ainda em dezembro, rebatendo as críticas levantadas pelos ambientalistas. Segundo o ministério, a possibilidade de revisão dos dados de 2005 estava prevista na NDC desde o início, e “busca apenas respeitar a melhor ciência disponível”.

A NDC dos Estados Unidos, por sua vez, previa uma redução de 26% a 28% das emissões de gases do efeito estufa até 2025, comparado aos níveis de 2005. Em novembro de 2019, porém, o então presidente Donald Trump retirou oficialmente os Estados Unidos do Acordo de Paris, e por isso a revisão dessas metas não foi realizada. Umas das medidas previstas na ordem executiva do novo presidente Biden é, justamente, a formulação “imediata” de uma nova NDC, acompanhada de um ambicioso projeto de descarbonização da economia americana.

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo “Jornal da USP” [Aqui!].

Investigação revela que Walmart, Costco e Kroger vendem nos EUA, carne da JBS que está ligada à destruição da Amazônia

Walmart, Costco e Kroger estão vendendo carne bovina importada do Brasil pela subsidiária Sampco da JBS.Walmart, Costco e Kroger estão vendendo carne bovina importada do Brasil pela subsidiária Sampco da JBS. Fotografia: Brendan McDermid / Reuters

Por Andrew Wasley e Alexandra Heal para o “The Guardian”

Três das maiores redes de supermercados dos Estados Unidos vendem carne brasileira produzida por uma polêmica empresa de carnes ligada à destruição da floresta amazônica , revelou uma investigação.

As gigantes do setor alimentício Walmart, Costco e Kroger – que juntas totalizaram vendas líquidas de mais de meio trilhão de dólares no ano passado – estão vendendo carne bovina brasileira importada da JBS, a maior empresa de carnes do mundo , que está associada ao desmatamento .

A carne bovina brasileira foi identificada como um dos principais impulsionadores do desmatamento na Amazônia, onde trechos de floresta são derrubados para pastagens usadas na pecuária. A Amazônia é um amortecedor crucial na estabilização do clima regional e global. Especialistas dizem que preservar as florestas tropicais do mundo é essencial para evitar a intensificação da emergência climática .

Pesquisa do Guardian, do Bureau of Investigative Journalism e da agência de análise de dados sem fins lucrativos C4ADS apurou que, nos últimos anos, a subsidiária da JBS Sampco Inc importou para os Estados Unidos milhares de toneladas de carne bovina brasileira, destinada a cadeias de supermercados e outras empresas de alimentos.

Os produtos incluem carne desfiada e enlatada (corned), bem como carne congelada e bifes. Em dezembro, a carne desfiada da marca Sampco, produzida em uma fábrica da JBS em São Paulo, estava sendo vendida online tanto pelo Walmart quanto pela Costco, e os dados de envio apontam as exportações da JBS de carne enlatada brasileira sendo fornecida para venda nas lojas Kroger.

Entre julho de 2017 e novembro de 2019, a Sampco importou mais de 5.000 remessas de produtos bovinos brasileiros, totalizando 7.884 toneladas, mostram os recordes obtidos pelo C4ADS.

Em resposta a essas descobertas, os ativistas pediram às cadeias de supermercados que tomassem medidas rápidas para livrar as cadeias de suprimentos de produtos associados ao desmatamento.

“Os supermercados precisam ir além de sua retórica de sustentabilidade, estabelecendo requisitos estritos para seus fornecedores, proibindo o desmatamento, monitorando seus fornecedores para conformidade e cancelando contratos com os piores infratores como a JBS”, disse Lucia von Reusner, diretora sênior de campanha da organização internacional de campanha Mighty Terra.

Costco se recusou a responder perguntas, mas apontou para suas políticas de sustentabilidade , que afirmam: “Nossa intenção não é obter carne de regiões de alto risco de desmatamento até que sistemas abrangentes de rastreabilidade e monitoramento estejam em vigor.”

Um porta-voz do Walmart disse: “O Walmart leva essas alegações a sério e analisará as alegações feitas. Acreditamos que as florestas saudáveis ​​sustentam a biodiversidade, sustentam a subsistência e desempenham um papel importante na mitigação das mudanças climáticas. O Walmart está trabalhando com fornecedores na certificação, monitoramento, apoio a regiões de compras sustentáveis, promovendo ações colaborativas e defendendo políticas eficazes. ” 

JBS, gigante da carne do Brasil, se compromete com fornecedores ligados ao desmatamento

Um porta-voz da Kroger disse: “Levamos o desmatamento a sério, conforme demonstrado pelo nosso compromisso de não desmatamento , e continuamos a envolver nossos fornecedores na busca por este compromisso e para garantir que nenhum desmatamento ocorra em nossas cadeias de fornecimento relevantes.”

As exportações de carne bovina da JBS foram vinculadas a fazendas envolvidas em 300 km2 de desmatamento por ano. A empresa abate quase 35 mil cabeças de gado por dia no Brasil.

Um porta-voz da JBS disse: “A falsa alegação de que as exportações da JBS estão ligadas ao desmatamento é irresponsável e baseada em análises superficiais e imperfeitas da correlação entre a concentração do desmatamento em nível municipal e a localização de nossas fábricas. Correlação não é causa ”.

Os ativistas disseram que as últimas revelações destacaram a necessidade urgente de leis americanas que combatam o desmatamento. Até o momento, não houve nenhuma proposta significativa nos Estados Unidos para uma legislação federal proibindo as importações agrícolas relacionadas ao desmatamento tropical, ao contrário da Grã-Bretanha e da UE, onde o ímpeto por novas regras recentemente ganhou força .

“Os EUA são cúmplices em impulsionar o desmatamento global por meio de suas vendas de produtos de carne bovina do Brasil”, disse Sarah Lake, vice-presidente e diretora da Mighty Earth para a América Latina. “O governo Biden tem a oportunidade de fazer avançar uma legislação para restringir a importação de produtos ligados ao desmatamento, assim como a UE, o Reino Unido e a França já estão fazendo.”

Brian Schatz, senador democrata pelo Havaí, disse antes da pandemia de COVID-19 que planejava introduzir essa legislação . E na semana passada, um projeto de lei foi apresentado à assembléia estadual da Califórnia exigindo que empreiteiros forneçam produtos ao estado para garantir que eles não estejam vinculados ao desmatamento no exterior.

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Este texto foi escrito originalmente em inglê e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Ex-presidente do INPE, físico Ricardo Galvão, ganha prêmio internacional “de Liberdade Científica e Responsabilidade” pela defesa dos dados de desmatamento da Amazônia

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Ricardo Galvão em frente do no Instituto de Física da Universidade de São Paulo, onde trabalha desde 1983. | SEESP

Por  Adam D. Cohen

Ricardo Galvão, o físico brasileiro que perdeu o cargo de diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) após defender seus dados sobre o desmatamento na floresta amazônica, receberá o prêmio 2021 de Liberdade e Responsabilidade Científica da Associação América para Avanço da Ciência (AAAS).

O Prêmio AAAS de Liberdade e Responsabilidade Científica homenageia cientistas que demonstraram liberdade científica e / ou responsabilidade em circunstâncias particularmente desafiadoras, às vezes em risco para sua segurança profissional ou física. Quando o presidente brasileiro Jair Bolsonaro atacou a legitimidade de um relatório destacando um aumento dramático no desmatamento na Amazônia, Galvão se manteve atrás dos números, uma decisão que lhe custou o emprego.

“O professor Galvão defendeu a ciência sólida em face da hostilidade”, disse Jessica Wyndham, diretora do Programa de Responsabilidade Científica, Direitos Humanos e Direito da AAAS. “Ele agiu para proteger o bem-estar do povo brasileiro e da imensa maravilha natural que é a floresta amazônica, um patrimônio mundial.”

O  INPEj, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do país, tem reputação internacional como líder no uso de satélites para detectar extração ilegal de madeira e queimadas em florestas tropicais. O Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real da agência pode detectar o desmatamento ilegal com rapidez suficiente para dar às autoridades policiais a chance de pará-lo.

Em 4 de julho de 2019, liderado por Galvão, o INPE publicou relatório mostrando que houve um aumento de 88% no desmatamento na Amazônia em junho de 2019 em comparação com o mesmo mês do ano anterior. O relatório citou uma possível ligação entre a eleição de Bolsonaro e o aumento pronunciado da degradação da terra. Bolsonaro concorreu à presidência em uma plataforma pró-desenvolvimento e começou a afrouxar as regulamentações ambientais imediatamente após assumir o cargo no início de 2019.

Em comentários feitos a jornalistas em 19 de julho, Bolsonaro acusou Galvão de mentir e estar “a serviço de alguma organização não governamental”. Na época, dados do INPE mostravam que um total de 4.701 km2 de terras haviam sido desmatados no primeiro semestre de 2019, um aumento drástico em relação aos 2.809 quilômetros quadrados que haviam sido desmatados no primeiro semestre de 2018. Galvão negou veementemente as afirmações de Bolsonaro , chamando-os de “não adequados para um presidente do Brasil”.

Bolsonaro, no entanto, continuou o ataque. Durante entrevista coletiva em 1º de agosto, ele afirmou que os números foram fabricados “para atacar o nome do governo e do Brasil”. Em seguida, o INPE divulgou nota para “reafirmar sua confiança na qualidade dos dados”, e Galvão foi demitido no dia 2 de agosto. Ele continua a atuar como professor de física aplicada na Universidade de São Paulo, onde trabalha desde 1983.

Desde sua saída do INPE, Galvão não para de se pronunciar contra o que considera a hostilidade de Bolsonaro à ciência. A revista Nature nomeou o físico brasileiro como das “pessoas que mais importavam em ciência em 2019.”

“Não apenas como cientista, mas como cidadão brasileiro, estou muito preocupado com o aumento da taxa de desmatamento na Amazônia”, disse Galvão em uma entrevista de agosto de 2019 ao Eos . “O líder de qualquer país deve estar ciente de que em assuntos científicos não há autoridade acima da soberania da ciência.”

AAAS estabeleceu o Prêmio de Liberdade e Responsabilidade Científica em 1980. As realizações que reconhece incluem agir para proteger a saúde, segurança ou bem-estar do público; concentrar a atenção do público em questões importantes relacionadas à pesquisa científica, educação e políticas públicas; e estabelecer precedentes importantes no desempenho das responsabilidades sociais dos cientistas ou na defesa da liberdade profissional dos cientistas e engenheiros.

Ricardo Galvão receberá o prêmio em uma cerimônia virtual no dia 10 de fevereiro, durante a 187ª Reunião Anual da AAAS. AAAS começará a aceitar nomeações para o prêmio de 2022 em 15 de abril. Mais informações sobre os requisitos de elegibilidade podem ser encontradas  aqui.

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado no site oficial da AAAS [Aqui!].

Estudo da WWF mostra que 43 milhões de hectares de floresta tropical foram destruídos entre 2004 e 2017

A avaliação dos dados de satélite de 2004 a 2017 mostra uma perda de floresta tropical que é muito maior do que o tamanho da Alemanha. De acordo com o WWF, cerca de um sexto de todos os alimentos comercializados na União Europeia contribui para o desmatamento nos trópicos

mura tribeMembros da tribo Mura em uma parte desmatada de suas terras tradicionais na Amazônia perto de Humaitá, Amazonas, Brasil, em agosto de 2019. Ueslei Marcelino / Reuters

Segundo cálculos da organização ambientalista WWF, 43 milhões de hectares de floresta tropical foram destruídos nos últimos anos e 24 áreas foram particularmente afetadas. O WWF anunciou na quarta-feira em Berlim que isso se baseia em dados de satélite de 2004 a 2017. A maior perda ocorre na Amazônia no Brasil, Colômbia, Peru, Bolívia, Venezuela e Guiana com 18,3 milhões de hectares. Para colocar em perspectiva: a área da Alemanha é de mais de 35,7 milhões de hectares.

O WWF enfatizou que os consumidores na Alemanha também foram parcialmente culpados pelo desmatamento. “Para o cultivo de soja, cacau e carne bovina importados pela União Europeia (UE), as florestas são freqüentemente destruídas. Cerca de um sexto de todos os alimentos comercializados na UE contribuem para o desmatamento nos trópicos ”, disse o comunicado. “Em vez de apenas apontar o dedo para governos e agricultores em pontos críticos de desmatamento, também temos que tocar em nossos próprios narizes”, disse a gerente do programa florestal do WWF Alemanha, Susanne Winter, de acordo com a informação.

Ela explicou que as florestas tropicais são uma precaução para a saúde dos humanos e da natureza. Por exemplo, eles armazenam carbono e são um habitat importante para espécies animais e vegetais. “Precisamos urgentemente parar o desmatamento, caso contrário, a vida como a conhecemos vai parar”, disse Winter.

Os chamados hotspots de desmatamento também incluem florestas em Bornéu (Indonésia, Malásia), Paraguai, Argentina, Madagascar e Sumatra. Quase metade das florestas remanescentes nesses hotspots também estão gravemente fragmentadas, por exemplo, por estradas ou terras aráveis. “Isso torna a floresta mais suscetível à seca e ao fogo e expulsa as espécies animais que vivem lá.”

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Este artigo foi inicialmente escrito em alemão e publicado pelo “Neue Zürcher Zeitung” [Aqui!].

Novo título verde da Amaggi levanta questões sobre compromisso com o fim do desmatamento

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O trader de commodities brasileiro Grupo Amaggi lançou recentemente um título verde para expandir sua presença no mercado de soja do país. O título verde de US $ 750 milhões da empresa alocará dois terços dos recursos para novos esquemas, como iniciativas de energia limpa, e o restante para refinanciar dívidas para projetos que incluem a compra e processamento de soja certificada. O Grupo Amaggi, de propriedade privada, é um grande exportador de soja do Brasil. Seu CEO é Blairo Maggi, ex-ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do ex-presidente Michel Temer. Os críticos dizem que suas ações como empresário e funcionário do governo levaram à perda generalizada de florestas no Brasil.

Embora o título verde seja um sinal de progresso na construção de políticas que levem à sustentabilidade ambiental, a Amaggi ainda não concordou com uma data limite de 2020 para o desmatamento no Cerrado. No final do ano passado, os signatários do Manifesto do  Cerrado , que inclui 160 empresas e investidores que têm exposição ao mercado de soja, pediram aos principais comerciantes de soja que concordassem com a data limite de 2020 para a compra de soja no bioma Cerrado. Os investidores e as empresas também pressionaram os comerciantes a implementarem um sistema vigoroso de rastreabilidade e monitoramento, baseado nos   princípios da Accountability Framework Initiative (AFI), para mostrar a aderência à data limite.

Ao não concordar com uma data limite, a Amaggi corre o risco de ver reduzido o interesse dos investidores em seu título verde recém-lançado. A Amaggi tem o compromisso de desmatamento zero, mas não cobre o desmatamento legal e seu sistema de implementação é considerado insuficiente para mitigar totalmente os riscos. A Amaggi, que comercializa por conta própria e como parte de joint ventures como Amaggi LD (uma JV com Louis Dreyfus e Zen-Noh), é uma grande compradora de soja dos desmatadores SLC Agrícola e BrasilAgro. Durante o verão de 2020, a Amaggi viu 4.203 incêndios em suas regiões de abastecimento, um ligeiro aumento em relação ao mesmo período de 2019, de acordo com a Chain Reaction Research.

As ONGs e os investidores provavelmente questionarão o quanto a empresa melhorará sua sustentabilidade com este novo título verde e se ela se comprometerá a estar totalmente livre do desmatamento. Finnwatch, uma ONG finlandesadivulgou um relatório no final de janeiro alertando sobre a exposição ao risco de desmatamento para investidores e empresas na Escandinávia que fazem negócios com Denofa , uma exportadora de soja de propriedade da Amaggi, observando a falta de eficácia geral em conter o desmatamento no Brasil . Outros comerciantes viram reações de compradores devido a preocupações com o desmatamento. A Nestlé cortou as compras da Cargill em 2019, enquanto a Grieg Seafood disse no ano passado, que não usaria os recursos de seu título verde para comprar soja da Cargill. Os fornecedores brasileiros de soja para a indústria de salmão, CJ Selecta, Caramuru e Imcopa,  anunciaram  compromissos com a data limite de agosto de 2020 para evitar que o desmatamento entre em suas cadeias de abastecimento, pressionando os principais comerciantes do Brasil – Amaggi, LDC, ADM , Bunge, Cargill, Viterra e COFCO.

Como as políticas atuais de desmatamento dos principais comerciantes de soja podem ser insuficientes para mitigar totalmente o risco de desmatamento, eles podem enfrentar risco de receita, risco de financiamento e risco de reputação. A probabilidade de regulamentações e leis mais rígidas no Reino Unido e na UE pode trazer riscos de acesso ao mercado para os comerciantes. A possibilidade do acordo comercial UE-Mercosul desmoronar por  questões climáticas pode exacerbar os riscos. Dada a influência dos comerciantes no mercado, eles têm sido alvo de campanhas de ONGs, investidores ativistas e empresas de bens de consumo. Com os comerciantes altamente ativos no Cerrado e seus volumes de exportação de soja aumentando, um acordo com uma data limite para 2020 poderia trazer mudanças em grande escala e enviar fortes sinais aos fornecedores para interromper o desmatamento. Até que isso aconteça, os críticos provavelmente olharão para ações como o título verde da Amaggi com suspeita.

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Este texto foi originalmente escrito em inglês pela Chain Reaction Research [Aqui!].

Pesquisa IBOPE: brasileiros se preocupam muito com a questão ambiental

 Levantamento mostra ainda que consumidores e eleitores já fazem escolhas cada vez mais coerentes com seus valores ambientais

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Quatro em cada cinco brasileiros acham que as queimadas na Amazônia prejudicam a imagem do Brasil no exterior e 78% entendem que elas podem prejudicar também as relações comerciais com outros países. Para 77% dos brasileiros, proteger o meio ambiente é mais importante, ainda que isso signifique menos crescimento econômico. Entre os brasileiros, é praticamente uma unanimidade que o aquecimento global está acontecendo (92%) e já pode prejudicar – e muito – a atual geração (72%). E a relação entre queimadas e clima é percebida por quase todos os brasileiros: 90% concordam que as queimadas na Amazônia são uma ameaça para o clima e o meio ambiente do planeta e 92% acreditam que elas prejudicam a qualidade de vida da população.

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Essas são algumas conclusões da pesquisa IBOPE Inteligência encomendada pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade – ITS Rio em parceria com o Programa de Comunicação de Mudança Climática da Universidade de Yale (Yale Program on Climate Change Communication) com brasileiros de todas as regiões, classes e níveis de escolaridade, refletindo o perfil da população brasileira acima dos 18 anos. Ela mostrou percepções e opiniões da sociedade, que de forma geral vão no sentido contrário a algumas das políticas ambientais do país.

A pesquisa traz também um recado importante para políticos e empresários: quase metade dos brasileiros (42%) declarou já ter votado em algum político em razão de suas propostas para defesa do meio ambiente e mais da metade (59%) deixou de comprar ou usar algum produto que prejudique o meio ambiente.

“A atual política ambiental do Brasil nos isola no cenário internacional e pode nos custar empregos e atrasar nossa recuperação pós-COVID. O Brasil caminha na direção contrária do que esperam os investidores e líderes internacionais, bem no momento em que o mundo se realinha para combater o problema das mudanças climáticas”, analisa Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

Quando perguntados sobre quem pode contribuir para resolver o problema das mudanças climáticas, os governos e as empresas foram os mais citados, por 35% e 32% dos entrevistados, respectivamente. “O entendimento dos brasileiros reflete o que desejam consumidores e investidores. As empresas devem buscar desempenhar um papel mais estratégico no desenvolvimento sustentável. Várias corporações já se uniram nesse esforço, mas precisamos avançar mais se quisermos permanecer relevantes nas cadeias econômicas globais”, completa Marcello Brito, representante da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, movimento que reúne mais de 270 organizações do setor privado, financeiro, sociedade civil e academia.

A ação humana é vista como a principal causa das queimadas na Amazônia para 77% dos brasileiros. Na questão sobre quem causa as queimadas, os entrevistados podiam apontar mais que um responsável. Os mais citados foram madeireiros (76%), agricultores (49%), pecuaristas (48%) e garimpeiros (41%). Mesmo quando se considera apenas o indicado em primeiro lugar, estes atores continuam sendo os mais citados. Perguntados sobre de quem é a responsabilidade em contribuir para resolver o problema, mais da metade da população (54%) entende que a responsabilidade é do governo.

Segundo Anthony Leiserowitz, diretor do Yale Program on Climate Change Communication, há semelhanças e diferenças entre o Brasil e os Estados Unidos: “Os resultados são fascinantes – eles nos ajudam a entender a opinião pública brasileira e fornecem um contraste muito interessante com a opinião pública nos Estados Unidos. Por exemplo, 92% dos brasileiros entendem que o aquecimento global está acontecendo. Nos Estados Unidos, esse percentual é de apenas 73%. Da mesma forma, 78% dos brasileiros dizem que o aquecimento global é uma questão muito importante, em comparação com apenas 37% dos americanos. Ao mesmo tempo, também vemos padrões semelhantes entre os dois países. Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, os jovens, aqueles que se declaram mais à esquerda no espectro político, com ensino superior e as mulheres, afirmam conhecer mais e estar mais preocupados com as mudanças climáticas, o desmatamento e o meio ambiente do que os entrevistados mais velhos, que se declaram mais à direita politicamente, com menor grau de instrução e homens. Esperamos que esses resultados sejam úteis para muitos atores no Brasil, como funcionários do governo, líderes empresariais e organizações da sociedade civil.”

Para Rosi Rosendo, diretora de contas na área de Opinião Pública, Política e Comunicação do IBOPE Inteligência, “Os resultados da pesquisa apontam para uma grande preocupação da população brasileira em relação ao meio ambiente, pauta que tem tomado conta dos noticiários nos últimos anos, principalmente em função das queimadas que ocorreram na Amazônia em 2019 e no Pantanal e no Cerrado no segundo semestre de 2020, ambos acontecimentos tiveram forte repercussão internacional. As queimadas foram percebidas pelos brasileiros como acontecimentos que prejudicam a imagem do Brasil no exterior e que podem até impactar negativamente a relação comercial com outros países. No entanto, ainda que a população considere importante a preservação do meio ambiente, há muito que se avançar em termos de educação e disseminação de conhecimento sobre as mudanças climáticas e o aquecimento global, já que apenas um em cada cinco brasileiros declarou saber muito sobre o assunto, resultados que devem ser levados em conta tanto pelo governo quanto pelas empresas em ações de preservação do meio ambiente”, acrescenta Rosendo.

Fabro Steibel, diretor do ITS, explica que novas rodadas da pesquisa serão realizadas e que o objetivo é medir a percepção do brasileiro sobre o clima ao longo dos anos. “Nós percebemos que há pesquisas sobre a percepção de clima, mas elas não têm continuidade. Dando continuidade, poderemos acompanhar se haverá evolução da preocupação”.

“Mudanças Climáticas: a Percepção dos Brasileiros” é uma pesquisa quantitativa realizada pelo IBOPE Inteligência com uma amostra de 2.600 entrevistas, representativa da população brasileira com 18 anos ou mais em todas as regiões do Brasil. O período de campo foi de 24 de setembro a 16 de outubro de 2020, após o qual o ITS se dedicou à análise dos dados em conjunto com os seus parceiros. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para o total da amostra, considerando-se um nível de confiança de 95%. Saiba mais em: https://www.percepcaoclimatica.com.br/

Sobre o Instituto Tecnologia e Sociedade (ITS Rio)

O ITS Rio é uma associação civil sem fins lucrativos dedicada ao desenvolvimento de pesquisas e projetos sobre o impacto social, jurídico, cultural e político das tecnologias de informação e comunicação. Com ampla atuação internacional, derivada da experiência e trabalho em sua área específica acumulada por mais de 10 anos por parte dos seus fundadores, o ITS é organizado no modelo de think tank independente. O ITS realiza pesquisas orientadas ao atendimento do interesse público e que gerem reflexões e propostas que avancem o diálogo democrático, a proteção dos direitos humanos e proporcionem impactos relevantes na formação e execução de políticas públicas e práticas privadas. Formado por professores e pesquisadores de diversas instituições como UERJ, PUC-Rio, FGV, IBMEC, ESPM, MIT Media Lab, dentre outras, o ITS conta com uma rede de parceiros nacionais e internacionais. Mais informações: https://itsrio.org

Yale Program on Climate Change Communication

Pesquisa conhecimento, atitudes, preferências políticas e comportamentos públicos em todo o mundo e desenvolve estratégias de comunicação para engajar diferentes públicos na ciência e nas soluções de mudanças climáticas.

Mais informações: https://climatecommunication.yale.edu/

Barragem de Belo Monte enfrenta fiasco econômico

belo monteBarragem de Belo Monte (a Volta Grande, vindo da esquerda abaixo). Foto: Christian Russau (2016)

Por Christian Russau para a Kooperation Brasilien

O operador da barragem de Belo Monte alerta para enormes prejuízos econômicos se a redução da drenagem de água da área da barragem até a grande curva do Volta Grande, que foi decidida recentemente pelo órgão ambiental do Ibama, for implementada para proteger os interesses dos  moradores locais.  A empresa quer reverter decisão do Ibama. Mas mesmo antes do início da construção, anos atrás, os críticos alertaram para o conflito da “lucratividade da barragem contra os interesses dos moradores locais”.

Ao longo de uma década, muitos críticos da barragem monstro de Belo Monte repetidamente apontaram que ela transformaria a grande curva da Volta Grande para a operação lucrativa da barragem de 11 GW,  apontando para o fato de que a natureza e as pessoas no local serem maciçamente afetadas, porque uma redução de até 80% na quantidade de água de um rio de quase 100 km traria estagnação do corpo hídrico, com todas as consequências, tais como falta de oxigênio, mortandade de peixes, aumento da formação de mosquitos. Os críticos repetidamente apontaram que apesar da estação das chuvas sempre houve estações secas e que, portanto, o conflito entre a rentabilidade da barragem e os interesses dos moradores locais da Volta Grande era inevitável. Agora, o conflito anunciado ameaça chegar ao auge.

Depois que moradores uniram forças para realizar um protesto em novembro do ano passado e  bloquearam a Transamazônica  para exigir um aumento do volume mínimo de vazão livre para a Volta Grande, o  Ibama decidiu que no canal que se ramificava em frente à primeira barragem do Pimental, a máximo de 10.900 metros cúbicos por segundo deve ser desviado para a barragem de Belo Monte a fim de garantir uma vazão mínima de 16.000 m3 /s na Volta Grande do Xingu, de modo a permitir a reprodução da fauna e da flora durante o período Piracema.

Mas agora a operadora Belo Monte Norte Energia confronta essa decisão em uma notificação formal ao Ibama. A redução do volume de água para 10.900 metros cúbicos por segundo para a operação da barragem de Belo Monte não seria suficiente para garantir uma produção lucrativa de energia elétrica, segundo a revista IstoÉ Dinheiro. Segundo o relatório, essa objeção formal também foi encaminhada aos ministérios federais em Brasília. O relatório cita fontes segundo as quais está em risco não apenas a lucratividade da maior barragem de Belo Monte, mas também a da barragem menor de Pimental que fica a montante. Um dos outros argumentos do operador da barragem agora inverte o argumento da proteção dos peixes: Uma redução na quantidade de água a ser fornecida ao reservatório da barragem acarreta o risco de que os níveis de água impactem as áreas de lagoas fechadas em que os peixes então capturados morreriam ou ficariam impossibilitados de realizar a tão importante desova, afirma IstoÉ Dinheiro. Um aumento abrupto do fluxo de água em Pimental também acarreta o risco de uma formação repentina de inundação na Volta Grande, o que significa inundação e destruição de propriedades e posses das pessoas, bem como uma ameaça à flora e fauna. 

O conflito chegará ao ápice. Como se nada disso tivesse sido avisado com antecedência

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pela Kooperation Brasilien [Aqui!].