Amazônia: sem poder questionar dados de desmatamento, Jair Bolsonaro sinaliza censura ao Inpe

bolsonaro inpe

Descontente com evidências científicas produzidas sobre o desmatamento na Amazônia, Jair Bolsonaro sinaliza que irá censurar o Inpe.

Quero começar esta postagem lembrando que no dia 11 de janeiro fui entrevistado pela jornalista Filomena Naves do jornal Diário de Notícias que é publicado em Lisboa, e nessa entrevista sinalizei algo que já me parecia óbvio: cientistas brasileiros que trabalhassem com temas sensíveis como desmatamento na Amazônia e  o uso abusivo de agrotóxicos pelo latifúndio agro-exportador tenderiam a ser perseguidos durante o governo Bolsonaro.

Pouco mais de 6 meses depois, o próprio presidente Jair Bolsonaro sinaliza de forma explícita que irá censurar o trabalho dos pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que fornecem dados contínuos sobre o avanço da franja de desmatamento na Amazônia brasileira.  Essa sinalização é um dos elementos apontados no interessante artigo assinado pela jornalista Lisandra Paraguassu e que foi publicada pela agência Reuters na tarde desta 6a. feira.

Segundo o artigo, o presidente Jair Bolsonaro teria dito que ““a questão do Inpe, eu tenho a convicção que os dados são mentirosos, e nós vamos chamar aqui o presidente do Inpe para conversar sobre isso, e ponto final nessa questão”. Bolsonaro teria dito ainda que “mandei ver quem está à frente do Inpe. Até parece que está a serviço de alguma ONG, o que é muito comum”. 

Explicitada a ameaça de censura a uma produção científica que é considerada uma das melhores em todo o planeta, alguém precisa avisar ao presidente Jair Bolsonaro que o Inpe é apenas um mensageiro altamente qualificado. E se ele, Bolsonaro, não gosta da mensagem deveria se comunicar com o encarregado do ministério do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, para ver o que de fato está acontecendo na pasta, para pelo menos evitar vexames maiores.

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Dados obtidos pelas pesquisas do Inpe que irritaram o presidente Jair Bolsonaro.

Um aspecto que alguém deveria avisar não apenas ao presidente Bolsonaro, mas também a Ricardo Salles, é que os estudos envolvendo as mudanças no uso e cobertura da terra na Amazônia e no Cerrado possuem um longo lastro, e que estão ancorados em avanços metodológicos que não são passíveis de serem censurados. Além disso, dada a existência de uma ampla expertise internacional, qualquer tentativa de censurar os dados produzidos pelo Inpe será definitivamente um imenso tiro no pé. É que os pesquisadores do Inpe são em sua maioria absoluta não apenas altamente qualificados, mas também responsavelmente pragmáticos sobre o trabalho que realizam.

Outro elemento a ser considerado pela equipe de governo do presidente Jair Bolsonaro é que atualmente existe uma ampla gama de satélites monitorando em condição quase instantânea tudo o que está acontecendo na chamada Pan Amazônia. incluindo aí a porção brasileira da bacia Amazônica. Assim, é particularmente improdutivo questionar-se a validade científica dos dados produzidos pelo Inpe que estão demonstrando a ocorrência de taxas explosivas de desmatamento, pois existem outras instituições científicas internacionais trabalhando com as mesmas séries de dados, e que certamente chegarão às mesmas conclusões dos pesquisadores que Jair Bolsonaro está chamando de mentirosos.

Uma outra questão é que aparentemente existe forte apreço no governo Bolsonaro por tudo que está relacionado aos EUA. Pois bem, um dos principais satélites que monitoram continuamente a Amazônia é o Landsat que possui uma das mais longas (senão a mais longa série de cenas mostrando as mudanças da cobertura vegetal na Amazônia. Como se sabe, os satélites do programa Landsat são uma iniciativa da National Space Agency (NASA), sendo uma das principais ferramentas utilizadas por cientistas de todo o mundo. Assim sendo, censurar o Inpe não apenas seria autoritário, mas essencialmente inútil. E se for para reclamar, que se reclame com o papa, ou seja, o presidente Donald Trump.

Finalmente, reitero a urgente necessidade de defender os pesquisadores do Inpe dos ataques que estão sendo desferidos contra eles. Digo isso não apenas porque é totalmente incorreta a natureza dos ataques, mas também porque necessitamos que eles continuem realizando o seu trabalho científico de forma autônoma, com requer a boa ciência que eles praticam há décadas, sempre com o rigor científico que seus estudos demandam.

França vetará produtos brasileiros associados a desmatamento na Amazônia

soja desmatamentoSoja produzida em área de desmatamento na Amazônia será impedida de entrar na França, anunciou o governo francês.

A alegria quase incontida que tomou conta do governo Bolsonaro e dos seus aliados da bancada ruralista por causa da assinatura do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia pode ter sido apenas um daqueles momentos de esperança exagerada que caracterizam as idas e vindas da forma dependente com que o Brasil se relaciona com a economia global.

É que segundo a Rede França Internacional (RFI), o governo francês aproveitou o anúncio do seu plano para o  clima para os próximos cinco anos, para informar que vai bloquear a importação de produtos florestais ou agrícolas que contribuam para o desmatamento no mundo, principalmente na Amazônia, no sudeste da Ásia e no Congo.

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O ministro francês da Transição Ecológica, Nicolas Hulot, adiantou que entre os principais itens estão o óleo de palma e soja.  Segundo a RFI, Hulot afirmo que “Vamos colocar um fim ao desmatamento importado”, numa clara sinalização de que deverá ocorrer um controle sobre os pontos de origem da produção, e que áreas de desmatamento na Amazônia e em outras partes do mundo serão barradas como pontos de fornecimento de commodities para a França.  A questão é que outros países europeus deverão seguir o exemplo francês, colocando inclusive em questão a real aplicação do acordo entre o Mercosul e a União Europeia.

Essa decisão francesa se soma a outras ações que estão ocorrendo na Europa, a começar pelo boicote que está sendo promovida pela rede sueca de supermercados Paradiset, e de outras ações por parte de organizações da socidade civil em diferentes países europeus que visam pressionar governos nacionais para que uma posição de restrição aos produtos brasileiros originados de áreas desmatadas seja adotada.

Por isso tudo é que quaisquer tentativas de tampar o sol com a peneira dentro do Brasil deverá trazer consequências desagradáveis para não apenas o governo Bolsonaro, mas especialmente para os grandes latifundiários que apostaram todas as suas fichas numa forma insustentável de produção agrícola, seja pelo desmatamento ou pelo uso abusivo de agrotóxicos.

Mas agora que o recado francês está dado, vamos ver como reagem os causadores dessa ameaça nada velada aos produtos brasileiros. É que se nada for feito para atender a sinalização francesa, o boicote será inevitável. A ver!

Ricardo Salles inventa conceito para tentar ocultar desmatamento explosivo da Amazônia

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Ricardo Salles “inventa” conceito para tentar encobrir o sol com a peneira na questão do aumento explosivo do desmatamento na Amazônia.
Mais um membro do governo Bolsonaro que parece obstinado a cobrir o sol com a peneira é o ainda ministro (ou seria antiministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que está empenhado em criar a noção de “desmatamento relativo” para obscurecer a dramática situação que está se desenvolvendo sob o seu comando na parte brasileira da bacia Amazônica.
É que pego com uma conta errada onde errou o cálculo do percentual de desmatamento anual na Amazônia em duas ordens de grandeza (Salles disse que era de 0,002% quando era de 0,16%), o antiministro do Meio Ambiente agora partiu para menosprezar as tendências temporais do desmatamento, partindo para uma definição objetivamente enganadora do “desmatamento relativo”.

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A idéia do desmatamento relativo é claramente mais uma invencionice de Ricardo Salles, na medida em que ele propõe jogar isso contra o conceito de desmatamento zero, o que ele chama de “desmatamento absoluto”, em uma tentativa de desprezar a perseguição de uma meta que é acima de tudo coerente. O fato é que na Amazônia brasileira já sobram terras desmatadas para a prática da agricultura e da pecuária, e o avanço do arco de desmatamento atende a outros interesses, incluindo a pilhagem ilegal de minérios e madeira, e a incorporação de novas porções de terras ao processo de especulação financeira. Aqui há que se ressaltar a presença de fundos financeiros no mercado de terras amazônicas, o que hoje é um dos principais motores do desmatamento.

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Intensidade do desmatamento na região amazônica aumento, de acordo com dados do Inpe. Foto: /Divulgação
O interessante é que em 2005 fui o co-autor de um estudo publicado pela revista Environmental Conservation onde fizemos projeções de desaparecimento de unidades de conservação em Rondônia a partir de cálculos de desmatamento que a princípio Ricardo Salles certamente diria que o desmatamento existente era “relativo” e, consequentemente, desprezível. O problema é que calculamos naquele trabalho a curva do desmatamento e ela se apresentou numa forma exponencial. O resultado é que 14 anos depois daquela publicação, os nossos cálculos acabaram sendo ultrapassados pela velocidade com que a descaracterização das áreas avaliadas ocorreu, justamente pelas mãos de madeireiros e outros tipos de ocupantes ilegais das suas terras.
O mais grave da postura divercionista de Ricardo Salles é que ela estimula a ação criminosa contra os órgãos de proteção ambiental, colocando em risco a vida de servidores que estão subordinados diretamente a ele. Um caso típico da ação criminosa ocorreu no dia de ontem (04/07) em uma área indígena justamente no sul de Rondônia onde batedores a serviços de madeireiros atearam fogo em um caminhão de combustível pertencente ao IBAMA em uma tentativa de evitar a ação fiscalizatória do órgão.

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Mapa mostra localidade do distrito de Boa Vista do Pacarana, região onde caminhão-tanque foi incendiado. — Foto: Reprodução/Google Earth
Diante da postura oficial do governo Bolsonaro, evidenciada de forma explícita por essa postura divercionista do ministro do Meio Ambiente, não é difícil imaginar que não apenas estão em risco o Fundo Amazônia e o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, mas a próprio comercialização de commodities agrícolas brasileiras por causa do avanço explosivo do desmatamento na Amazônia.
A razão para um eventual banimento da agrícola brasileira é simples. É que se o atual governo brasileiro finge que não entende a importância central das florestas amazônicas para a regulação do clima da Terra, a maioria dos governos dos países desenvolvidos entende perfeitamente. E esses governos também sabem que suas populações se tiverem de opt entre comer um bife de um animal alimentado com soja produzida na Amazônia e não fazer isso para proteger o clima, a maioria irá preferir adotar outra dieta. O exemplo do boicote da rede sueca de supermercados Paradiset está aí para provar o que estou afirmando.

Noruega e Alemanha admitem hipótese de extinção do Fundo Amazônia

Principais doadores são contra mudanças propostas pelo governo Bolsonaro na gestão do fundo bilionário. Após reunião com embaixadores, ministro Ricardo Salles também menciona possibilidade do fim do programa.

 

amazoniaFundo Amazônia foi criado em 2008 majoritariamente com doações da Alemanha e da Noruega

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e os embaixadores de Noruega e Alemanha se reuniram nesta quarta-feira (03/07) para discutir um impasse criado pelas mudanças que vêm sendo implementadas pelo governo Bolsonaro para alterar a administração o Fundo Amazônia, o programa de financiamento à proteção da maior floresta tropical do mundo.

Após a reunião, tanto Salles quanto os embaixadores Nils Martin Gunneng (Noruega) e Georg Witschel (Alemanha) admitiram a possibilidade de que o programa venha a ser extinto caso o impasse não seja resolvido. Tanto a Alemanha quanto a Noruega mostraram contrariedade com a extinção de dois comitês responsáveis pela gestão do fundo, que foi oficializada pelo governo Bolsonaro na semana passada.

Antes disso, os governos alemão e norueguês já haviam rejeitado publicamente a proposta de Brasília de usar parte dos recursos do fundo para indenizar proprietários que vivem em áreas incluídas em unidades de conservação da Amazônia, o que hoje nao é permitido. Os europeus também rejeitaram as insinuações do governo brasileiro de que há indícios de irregularidades em contratos do fundo.

Após a reunião de hoje, Salles disse que o governo brasileiro ainda trabalha com os europeus para resolver o impasse, mas também admitiu a possibilidade de extinção do programa. “Em teoria, sim”, afirmou Salles. “Mas o que estamos falando aqui é de continuidade, de algo com mais afinco, mais dedicação e maior sinergia entre os diversos envolvidos”, disse.

Já o embaixador norueguês Nils Martin Gunneng, quando perguntado se continuidade do programa estava garantida, respondeu “nao”. “Como o ministro disse, teoricamente isso é uma opção, mas nós trabalhamos para continuar”, completou. O alemão Witschel, por sua vez, respondeu: “Existe essa possibilidade, mas queremos evitar o pior cenário”.

O ministro Salles e os embaixadores não detalharam quais pontos sobre o fundo estão sendo discutidos, mas o diplomata norueguês disse que ter ficado “surpreso” com a extinção do Comitê Orientador do Fundo Amazônia (Cofa) e do comitê técnico do programa. Por outro lado, ele disse que o “ministro nos assegurou que o diálogo continua”-

“Nossa conversa hoje clarificou um pouco o caminho para uma solução positiva”, disse, por sua vez, Witschel. Ainda segundo o embaixador alemão, os países doadores apresentaram questionamentos ao governo brasileiro e que esperam as respostas até a segunda quinzena do mês.

O Fundo Amazônia foi criado em 2008 majoritariamente com doações da Alemanha e da Noruega, responsáveis por 99% dos 3,3 bilhões de reais que já foram repassados.

A verba é administrada por uma equipe montada para cumprir essa tarefa dentro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os projetos financiados têm como objetivo a redução do desmatamento e da emissão de gases de efeito estufa.

No início de junho, em uma carta enviada a Ricardo Salles, e ao então ministro da Secretaria de Governo Carlos Alberto dos Santos Cruz, os dois governos europeus defenderam o atual modelo de gestão e afirmaram que nenhuma das “auditorias financeiras ou de impacto que foram realizadas revelou qualquer ato ilegal ou de má gestão de recursos do fundo”.

“Esperamos que o BNDES continue a administrar o fundo e a aprovar os projetos planejados, de acordo com os entendimentos e diretrizes existentes. Nós também acreditamos que o aperfeiçoamento da eficiência, impacto e transparência do fundo podem ser abordados dentro da atual estrutura de governança”, disse a carta, que foi assinada pelos embaixadores Georg Witschel e Nils Gunneng.

Nos últimos meses, Salles também vem pressionando o BNDES. Em maio, o banco afastou Daniela Baccas, que tinha 15 anos de carreira no banco e era responsável pela gestão do fundo. O motivo do desligamento, segundo o BNDES, seria a averiguação das suspeitas levantadas pelo ministério. A decisão ocorreu após Salles ter anunciado que sua pasta teria encontrado indícios de “inconsistências” em contratos que recebem apoio do fundo.

Em condição de anonimato, funcionários do BNDES disseram à DW Brasil que o ministro teria iniciado uma “cruzada” contra o fundo, com falas agressivas contra a equipe e ausência de propostas.

Na carta, os embaixadores não só rejeitaram a possibilidade de problemas nos contratos como defenderam o atual modelo de composição do Cofa e a independência do BNDES para gerir o fundo.

“A estrutura de governança do Cofa vem servindo bem ao Fundo Amazônia por mais de 10 anos. Contar com uma representação diversificada e balanceada de autoridades e de membros da sociedade civil no Cofa contribui para uma maior transparência de informação e de prestação de contas na tomada de decisões. […] A competência e independência do BNDES na gestão do fundo é chave”, apontou o documento. “A governança do fundo segue as melhores práticas globais de governo aberto e participação democrática.”

Ainda segundo os embaixadores, o fato de o BNDES – e não o Cofa –, ser responsável por aprovar os projetos evita potenciais conflitos de interesse.

A carta ainda abordou a redução do desmatamento da Amazônia nos últimos 15 anos e apontou que “a experiência brasileira mostra que governos isoladamente não conseguem reduzir o desmatamento” e que isso demanda um “esforço conjunto entre autoridades públicas, empresas, ONGs e comunidades locais”.

Por fim, os embaixadores afirmaram que qualquer mudança para “o aperfeiçoamento da eficiência, impacto e transparência do fundo” deve ser abordada “dentro da atual estrutura de governança” do fundo.

JPS/ots

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Este artigo foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Desmatamento e mudanças climáticas podem dividir a Amazônia em duas

Em estudo publicado na Nature Climate Change, pesquisadores do Museu Goeldi e parceiros demonstram que a Amazônia pode ter metade de sua área reduzida a fragmentos até 2050. A porção oriental da região tende a perder 95% de suas florestas e o Pará será o estado mais prejudicado.

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Crédito: Ricardo Funari Getty Images

Por Agência Museu Goeldi 

O maior bloco de floresta tropical do mundo pode estar severamente ameaçado. Uma em cada dez espécies de árvores do mundo cresce na Amazônia e mais da metade pode estar ameaçada de extinção em três décadas. Este é um dos achados de recente estudo publicado na revista Nature Climate Change, onde quatro pesquisadores do Brasil e da Holanda apresentam uma análise combinando cenários de impactos do desmatamento e das mudanças climáticas com conclusões alarmantes. De acordo com a previsão do cenário mais pessimista, conhecido como business as usual, metade da floresta ao sul da Amazônia pode ser reduzida a fragmentos, levando muitas espécies a um sério risco de extinção.

O grupo de pesquisadores inicialmente produziu mapas da distribuição original de cada uma das 10.071 espécies de árvores amazônicas conhecidas anteriores às mudanças induzidas pela humanidade. Estes mapas foram sobrepostos para fornecer o número médio de espécies para cada quadrado de 10×10 quilômetros dentro da floresta, estimando a riqueza de espécies nestes espaços, que foi de, aproximadamente, 1.500 espécies para cada um dos quadrados. O mapeamento do local onde as espécies podem ser encontradas é importante para se obter os limites de temperatura e precipitação onde elas estão aparentemente confortáveis, explica o primeiro autor do estudo, Vitor Gomes. Ao sobrepor a distribuição original das espécies ao desmatamento total da Amazônia até o ano 2013 (cerca de 10%), foi observado que um total de 807 espécies podem ser classificadas como ameaçadas de extinção. Segundo o estudo, até 2013 o desmatamento já havia atingido áreas aptas à distribuição de 98,7% das espécies de árvore na Amazônia.

A seguir, o grupo avaliou os impactos do desmatamento e das mudanças climáticas segundo projeções para o ano de 2050. Surpreendentemente, as mudanças climáticas se mostraram capazes de superar os impactos do desmatamento nos próximos 30 anos. As perdas de áreas aptas provocadas pelo desmatamento variaram entre 19 e 33%, enquanto que a variação com base nas mudanças climáticas variou entre 47 e 53%. “Apesar do maior potencial de perda provocado pelas mudanças climáticas, ambos os cenários apresentam resultados alarmantes e podem ter consequências severas para a biodiversidade amazônica”, considera Vitor Gomes – que defendeu tese de doutorado sobre este assunto no Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais (MPEG/Embrapa/UFPA), tendo sido antes beneficiado pelo programa Ciência Sem Fronteiras.

Os autores do estudo consideraram que um cenário futuro realístico deveria apresentar ambos os impactos combinados e os resultados desta combinação se traduziram em perdas ainda maiores. As perdas podem variar entre 53 e 65%, do cenário mais otimista ao mais pessimista. Tais perdas resultariam em uma redução da riqueza de espécies entre 43 e 58%. “Apesar do importante papel das florestas tropicais na regulação do clima, conservação da biodiversidade e fornecimento de serviços ecossistêmicos, corremos o risco de perder quase 60% da riqueza arbórea da Amazônia”, diz Rafael Salomão, coautor do estudo, pesquisador do Museu Goeldi e professor da Universidade Federal Rural da Amazônia, em Belém, Brasil.

Mesmo o cenário combinado mais otimista prevê uma perda de mais da metade das áreas aptas à distribuição das espécies arbóreas amazônicas. O número total de espécies ameaçadas nos cenários combinados pode variar entre 4.872 (48,4%) e 4.993 (49,6%). Apesar da pequena diferença entre os cenários combinados, no mais otimista, o número de espécies classificadas como “Criticamente Ameaçadas” (CR) é menor, caindo de 22% (mais pessimista) para 11% (mais otimista). O cenário mais pessimista é baseado nas tendências atuais de desmatamento e emissões de CO2, considerando a ausência de ações mitigadoras ou o aumento da governança. Um dos mapas apresentados no estudo mostra a Amazônia divida ao meio no cenário mais pessimista. Uma das metades, formada pelas porções leste, sul e sudeste da Amazônia, aparece severamente fragmentada e, a outra metade, formada pelas porções norte, central e oeste, aparece com um formato ainda contínuo.

Amazônia dividida ao meio

Espécies comuns na metade fragmentada, tal como Protium altissimum (Aubl.) Marchand., podem enfrentar grande ameaça de extinção. Esta espécie é a segunda mais abundante na Amazônia, ocorrendo com grande número de indivíduos. Na área severamente fragmentada o desmatamento já é bastante intenso, especialmente na região conhecida como “arco do desmatamento”. O bloco contínuo pode sofrer menor impacto do desmatamento, mas não está imune às mudanças do clima. A espécie Eperua falcata Aubl., muito comum no Planalto das Guianas, e também uma das mais abundantes na Amazônia, pode perder até 63% das áreas aptas à sua distribuição. Segundo Hans ter Steege, coautor do artigo e pesquisador do Naturalis Biodiversity Center em Leiden, Holanda, espécies como a E. falcata, podem ter grande dificuldade de encontrar novos ambientes no futuro. As árvores desta espécie não conseguem espalhar suas sementes a mais do que 15 metros de distância e seus indivíduos precisam de cerca de um século para atingirem a maturidade. “Muitas populações de espécies movem-se lentamente. Eu comumente leio artigos inferindo que, devido às mudanças climáticas, alguns tipos de florestas serão encontrados em outras regiões em 2050. Mas como estas florestas podem ao menos chegar lá? Elas pegarão um trem?”, questiona.

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Apesar dos resultados alarmantes, o estudo destaca o importante papel da rede de áreas protegidas da Amazônia. Estas áreas podem prevenir a redução da riqueza de espécies em relação às previsões dos impactos futuros. “Mesmo que estas áreas não sejam totalmente imunes às mudanças no clima, que pode sobrepor limites físicos ou geográficos, nossos modelos mostram que as florestas fora da rede de áreas protegidas podem perder até um terço a mais de espécies”, diz Vitor Gomes. Os autores acrescentam que o cenário mais pessimista aparenta ser cada vez mais realista, pois o desmatamento na Amazônia está aumentando novamente e os esforços atuais para limitar o aquecimento global são claramente insuficientes.

Ima Vieira, coautora do artigo e pesquisadora do Museu Goeldi, em Belém, Brasil, alerta para o grande risco que a floresta amazônica corre por conta da aprovação do Projeto de Lei 2362/2019 no Brasil, que propõe a eliminação da reserva legal nas propriedades rurais. Ima diz: “Se isso acontecer, cerca de 89 milhões de hectares podem ser diretamente ameaçados pelo desmatado na Amazônia. Já ficamos impressionados com os resultados deste estudo, imagine o que pode vir pela frente com esse nível de retrocesso ambiental? A floresta do futuro pode ser dividida em vários blocos, onde muitas espécies correriam sérios riscos de extinção. É fundamental o avanço da governança ambiental na região, considerando as áreas protegidas e as reservas legais como instrumentos complementares da proteção da biodiversidade. Nesse quadro, a Amazônia Oriental pode perder 95% de suas florestas e o estado do Pará será o mais prejudicado, porque já é o campeão regional em perdas de diversidade”.

O estudo finaliza com o exemplo da Floresta Atlântica, que, apesar de hoje possuir pouco mais de 10% de sua cobertura original, foi alvo do alerta de diversos estudos ao longo de mais de um século e, portanto, deixar que a Amazônia tenha o mesmo destino não seria uma opção.

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Este artigo foi inicialmente publicado pela Agência Museu Goeldi [Aqui!].

Greenpeace bloqueia na França chegada de navio carregado de farelo de soja contaminado com desmatamento no Brasil

O produto saiu do porto de Cotegipe, onde a grande maioria da soja exportada vem do Cerrado brasileiro, e tinha como destino o mercado europeu

forest killerA ação busca chamar a atenção para a necessidade urgente de ação por parte de governos e empresas frente à crise climática.

Por Greenpeace Brasil

“Já que o governo Francês é incapaz de cumprir seu compromisso de combater o desmatamento e as mudanças climáticas, decidimos fazer isso por eles”, disse Cecile Leuba, da campanha de florestas do Greenpeace França. Na manhã de hoje (no horário do Brasil), cerca de 50 ativistas bloquearam a chegada do navio cargueiro ELLIREA, que saiu do porto de Cotegipe, em Salvador, com destino ao porto de Sète. O cargueiro transportava 50 mil toneladas de farelo de soja , que provavelmente seria usado para alimentação animal na França e na Eslovênia, destinos finais da carga do navio.

A ação acontece duas semanas após a publicação pelo Greenpeace Internacional do relatório Contagem Regressiva para a Extinção, que expõe o modelo de negócio predatório de grandes empresas em tempos de crise climática. De 2010 a 2020, período no qual  centenas de empresas se comprometeram a acabar com o desmatamento em suas cadeias produtivas, de diversas commodities agrícolas, 50 milhões de hectares de floresta foram desmatadas em todo o mundo para ampliar essa produção — o equivalente a uma área quase do tamanho de Minas Gerais.

Para chamar a atenção para a necessidade urgente de ação frente à crise climática, que faz vítimas no mundo todo, os ativistas do Greenpeace bloquearam o acesso do navio ao cais, em Sète, impedindo que ele atracasse, com um ativista pendurado em sua âncora. Os quatro guindastes que seriam utilizados para descarregar o produto também foram ocupados por ativistas, com banners com as mensagens “Agricultura industrial = desmatamento” e “Aviso: soja de desmatamento”. No casco do navio foi pintada a mensagem “Assassino florestal”.

O cultivo de soja já foi um dos principais vetores de desmatamento da Amazônia, até o estabelecimento da Moratória da soja em 2006. Porém, o cultivo do grão se expande sobre o território do  Cerrado brasileiro, a Savana mais biodiversa do mundo, deixando um rastro de desmatamento e muitas vezes conflitos sociais pelos territórios radicionalmente ocupados pela população indígena e outras populações tradicionais. O Cerrado, que ocupava 24% da área do Brasil, já perdeu quase metade de sua vegetação original. Mesmo assim,  a soja da região continua ganhando os mercados internacionais: ao menos 88% desse grão que sai do porto de Cotegipe vem do Cerrado e tem como destino países como a China, Espanha, Alemanha e França, onde o produto é majoritariamente usado na alimentação de animais de corte , como frangos, porcos e bois.

“Diversas empresas fizeram uma promessa há 10  anos aos seus consumidores, de que fariam a sua parte para acabar com desmatamento nos produtos que comercializam, isso teria um papel fundamental para minimizar a emergência climática que estamos enfrentando”, disse Rômulo Batista, da campanha de florestas do Greenpeace Brasil. “O curioso é que as mesmas empresas que ajudaram a sociedade a criar a Moratória da Soja, um importante mecanismo de proteção da Amazônia, hoje se negam a preservar o Cerrado e isso é inaceitável”, completa.

Os ativistas franceses exigem que os governo de seu país implemente regras mais rígidas para a entrada de produtos agrícolas não apenas do Brasil, mas de diversos outros países, com a comprovação que os produtos não têm relação com desmatamento e violações dos direitos humanos. Os franceses também buscam chamar a atenção de sua população sobre o consumo excessivo de carne e laticínios e seu impacto em ambientes como o Cerrado, a Amazônia e o Gran Chaco todos na América Latina.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo Greenpeace Brasil [Aqui!].

Angela Merkel classifica situação no Brasil sob o governo Bolsonaro como “dramática”

merkelAngela Merkel afirmou no Parlamento Alemão que a situação do Brasil sob o governo Bolsonaro é “dramática”.  

A chanceler alemã Angela Merkel fez pronunciamento no parlamento alemão onde apresentou suas razões para apoiar a aprovação do acordo comercial de livre comércio entre a União Europeia (EU) e o Mercosul, a despeito da graves violações aos direitos humanos e ao avanço explosivo no desmatamento na Amazônia (ver vídeo abaixo).

Merkel afirmou ainda que vai trabalhar com todas as suas forças para que o está acontecendo no Brasil neste momento não siga acontecendo, especialmente na questão do desmatamento da Amazônia. Nesse sentido, Merkel afirmou que “vejo com preocupação as ações do presidente brasileiro [sobre o desmatamento], e se a oportunidade surgir no G20 pretendo ter uma conversa clara com ele.” 

O problema para Merkel é que dificilmente ela será ouvida por Bolsonaro cujo compromisso político primeiro e único é com as forças políticas que o elegeram, incluindo aí as forças que hoje saqueiam e desmatam ilegalmente amplas porções da floresta amazônica.

Mas não deixa de ser impressionante que um líder da direita europeia classifique a situação do Brasil como dramática sob o governo Bolsonaro.  O fato que a nossa situação econômica, política e social é definitivamente dramática, com tendências a piorar.  Entretanto, é preciso aparecer uma líder da direita europeia para que finalmente alguém diga a coisa como a coisa é. Dramático!