A morte de mais uma liderança indígena no Brasil e os tratamentos distintas da notícia

O jornal britânico “The Guardian” publicou no último dia 16 de agosto uma matéria sobre o assassinato do cacique Jorge Guajajara, da  aldeia Cocalino que está localizada na Terra Indígena Arariboia ue está dentro da chamada  Amazônia maranhense, apontando explicitamente a possibilidade de que ele tenha sido assassinado em função de sua luta contra madeireiros e caçadores que exploram ilegalmente as florestas existentes naquela região [1].

jorginho guajajara

Dei uma busca nas notícias veiculadas pela mídia corporativa brasileira, e encontrei duas matérias (uma do O GLOBO e outra da Folha de São Paulo [2&3] onde o conflito que já custou a vida de 80 membros da etnia Guajajara nos últimos 10 anos é secundarizado, sobressaindo a informação de que o cacique Guajajara era “alcoólatra” e que segundo sua mulher “não tinha problemas com ninguém“.

Em contraste, a matéria do “The Guardian” ressaltou os problemas que Jorge Guajajara vivia com os exploradores ilegais da TI Araribóia em função da sua participação no grupo conhecido como “Guardiões da Floresta” que ocupa um papel de relevância na luta pela proteção da floresta amazônica e das comunidades que dela dependem [4].

É por isso que continuo achando que a mídia internacional tem se mostrado mais confiável do que a nacional no fornecimento de informações mais confiáveis sobre os conflitos em curso no Brasil. Depois ainda tem empresário da mídia que reclama da presença de sucursais de veículos internacionais no Brasil, mas sabidamente sem muita razão.


[1] https://www.theguardian.com/environment/2018/aug/16/brazil-jorginho-guajajara-amazon-indigenous-leader

[2] https://oglobo.globo.com/sociedade/morte-de-cacique-revolta-ativistas-liderancas-indigenas-22985232

[3] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/08/morte-de-lider-indigena-foi-por-afogamento-diz-pericia-caso-e-lembrado-em-premio-no-rio.shtml

[4] https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/cacique-jorginho-guajajara-e-assassinado-no-maranhao

 

 

Paraísos fiscais protegem empresas responsáveis pelo desmatamento na Amazônia e pesca excessiva no mundo

70% dos navios implicados na pesca ilegal, não declarada ou não regulamentada estão registrados em paraísos fiscais, segundo o relatório

soja guardian

Monocultura de soja na floresta amazônica perto de Santarém, no Brasil, com algumas árvores isoladas. Foto: Ricardo Beliel / LightRocket / Getty Images

Por Fioney Harvey, correspondente do “The Guardian” para matérias relacionadas ao Meio Ambiente

O dinheiro canalizado através de paraísos fiscais secretos tem sido usado para alimentar o desmatamento na Amazônia e a pesca ilegal em todo o mundo, acumulando um pesado custo ambiental, mas deixando poucas maneiras para as empresas serem responsabilizadas.

Bilhões de libras esterlinas foram enviados países reconhecidos como paraísos fiscais, e foram rastreadas como tendo sido usadas em atividades que contribuem para a destruição do meio ambiente, tais como o crescimento da monocultura da soja e produção de carne bovina em áreas desmatadas da Amazônia, e expandir uma rede, em grande parte não regulamentada, de navios de pesca que operam sob “bandeiras de conveniência”.

Os montantes traçados são provavelmente apenas uma fração do montante total canalizado através de paraísos fiscais que acabam financiando praticas ambientalmente destrutivas, de acordo com Beatrice Crona, co-autora de um relatório publicado hoje na revista “Nature, Ecology and Evolution”.

Victor Galaz, do Stockholm Resilence Centre da Universidade de Estocolmo e principal autor do estudo, acrescentou que: “o uso de paraísos fiscais não é apenas um desafio sociopolítico e econômico, mas também ambiental. Embora o uso de paraísos fiscais não seja ilegal, o sigilo financeiro dificulta a capacidade de analisar como os fluxos financeiros afetam as atividades econômicas no terreno e seus impactos ambientais. “

O estudo constatou que mais de dois terços do capital estrangeiro direcionados aos setores de soja e carne bovina do Brasil entre 2000 e 2011, conforme registrados pelo Banco Central do Brasil, foram canalizados por meio de paraísos fiscais.  E os plantios de soja a pecuária bovina têm sido associados ao desmatamento na Amazônia.

Durante o período estudado, quase US$ 27 bilhões de capital estrangeiro foram transferidos para empresas-chave dentro desses setores, e cerca de US$ 18,4 bilhões vieram de paraísos fiscais, sendo que as Ilhas Cayman foram as mais usadas.

Beatrice Crona, diretora-executiva da Comissão Econômica para a Dinâmica global e do Programa Biosfera na Real Academia Sueca de Ciências, disse que a disponibilidade dos dados do Banco Central do Brasil para o período em questão foi incomum, e jogou um pouco de luz sobre o que é provavelmente um negócio global muito maior.

Os defensores do verde pediram aos governos que tornem os fluxos financeiros mais transparentes. “Isso é dinheiro sujo, usado para alimentar atividades ilegais que estão impulsionando a crise ambiental global”, disse Elaine Gilligan, ativista internacional da Amigos da Terra. “Comunidades de evasão fiscal agressivas de fundos necessários para uma série de medidas, entre elas as proteções ambientais que desempenham um papel no combate ao caos climático.”

Esta ações estão atrasadas,  afirmou Gilligan. “Está claro que o governo do Reino Unido pode fazer muito para consertar isso. Para começar, eles devem apoiar os esforços internacionais para cobrar impostos e cumprir seu compromisso de maior transparência nos territórios ultramarinos britânicos “.

Andrea Marandino, gerente de finanças sustentáveis ​​do WWF, acrescentou que as empresas também podem desempenhar um papel. “A natureza está enfrentando ameaças sem precedentes à medida em que continuamos a tirar mais recursos das áreas naturais mais ricas do mundo. Os paraísos fiscais dificultam o rastreamento dos fluxos internacionais de capital e isso significa que não há responsabilidade “, disse ela. “Se quisermos garantir um futuro para áreas como a Amazônia, precisamos ter uma maior transparência corporativa e rastreabilidade dos fluxos de capital ao redor do mundo que financiam a destruição da natureza.”

Nos oceanos, cerca de 70% dos navios que foram implicados na pesca ilegal, não declarada ou não regulamentada, foram registrados em paraísos fiscais, de acordo com os resultados do estudo. A posse de barcos de pesca tem sido de interesse para os ativistas, devido às enormes diferenças existentes no monitoramento e regulação da pesca em várias jurisdições. Teias complexas de propriedade permitem que as capturas sejam comercializadas, desembarcadas e, em alguns casos, eliminadas fora dos regulamentos que devem impedir a sobrepesca.

Tony Long, executivo-chefe da Global Fishing Watch, disse: “[O jornal] acrescenta à crescente evidência que ilustra as práticas criminosas e obscuras que fornecem cobertura para a pesca ilegal, não declarada e não regulamentada [IUU]. Um foco internacional em bandeiras de conveniência e sua diligência insuficiente no monitoramento de suas embarcações sinalizadas já está há muito tempo “.

Os proprietários de embarcações podem usar “bandeiras de conveniência” para disfarçar suas atividades ou torná-las mais difíceis de rastrear, registrando sua embarcação sob a jurisdição que tem regulamentação frouxa sobre o envio. A enorme sobreposição entre os navios conhecidos por estarem operando em pesca IUU e voando bandeiras de conveniência de paraísos fiscais reconhecidos mostra a extensão do problema, disseram os autores do estudo da Nature.

Há muito tempo pedimos mais transparência nos movimentos dos navios, licenciamento, documentação de captura e a divulgação dos verdadeiros proprietários de todos os navios de pesca. “Sem isso, esses operadores inescrupulosos extrairão tudo, do oceano, para os próprios bolsos, com dinheiro às custas da sustentabilidade, afirmou Tony Long.

O secretismo de que as empresas desfrutam nos seus negócios em paraísos fiscais é usado principalmente para reduzir seus pagamentos de impostos, transferindo dinheiro entre as jurisdições para aproveitar as baixas taxas de impostos. Alguns dos métodos utilizados e empresas envolvidas foram destacados nos últimos anos por revelações nos chamados Panama Papers e os Paradise Papers, amplamente cobertos pelo “Thr Guardian”.

Mas a falta de transparência também permite que aqueles que querem esconder suas atividades destrutivas ao meio ambiente, disseram os pesquisadores no estudo da Nature. Eles pediram que a ONU examinasse como esse dinheiro financia o dano ambiental.

A abertura dos paraísos fiscais para o escrutínio minucioso dos órgãos reguladores e do público seria impopular com milhares de empresas, muitas delas nomes familiares, que tiram proveito de sua existência e da regulamentação frouxa que os mesmos proporcionam.

Muitas empresas se orgulham de seus altos padrões ambientais, mas ainda canalizam fundos por meio de paraísos fiscais para reduzir seus pagamentos de impostos, que custam aos governos US $ 200 bilhões por ano em receitas fiscais perdidas. Uma vez que o dinheiro passe para paraísos fiscais, há pouca maneira de descobrir como e onde ele foi usado.

O artigo do jornal Nature não nomeia empresas individuais, embora algumas tenham sido questionadas como parte da pesquisa.

Quem desejar ler o artigo a que esta matéria se refere, basta clicar [Aqui!]


Este artigo foi originalmente publicado em inglês no “The Guardian” [Aqui!]

Estudo do WWF-Brasil identifica pressões para reduzir áreas protegidas na Amazônia

Resultado de imagem para UNIDADES DE CONSERVAÇÃO AMEAÇAS WWF

Dados preliminares do estudo foram lançados no IX Congresso de Unidades de Conservação (CBUC) em Florianópolis

Dados preliminares de um estudo do WWF-Brasil divulgados nesta quinta-feira (2) durante o IX Congresso de Unidades de Conservação (CBUC) em Florianópolis apontam que das 316 unidades de conservação federais e estaduais Amazônia, 110 estão potencialmente ameaçadas por projetos de infraestrutura, somando aproximadamente 30 mil km2, ou 2% do território protegido. Pará e Amazonas são os estados que concentram o maior número das áreas sob risco por esses projetos.

O desmatamento aparece como fator de pressão em 204 UCs no bioma amazônico e atinge áreas de proteção integral e de uso sustentável. São 18 UCs com mais de 50% de suas áreas desmatadas. As UCs estaduais de uso sustentável são as que mais sofrem com o desmatamento, a exemplo da Floresta Estadual de Rendimento Sustentado Araras, em Rondônia, com 84% da área desmatada. Em 181 unidades de conservação, os pesquisadores notaram a existência de pastagens ilegais. Em 247 UCs há também sobreposição dos limites das unidades com cadastros ambientais rurais. Em 29 unidades, essa sobreposição atinge a totalidade da área, abrindo brechas, em alguns casos, para a grilagem de terras.

Os indicadores de pressão sobre as UCs identificados no estudo, entre os quais projetos de infraestrutura, desmatamento e sobreposição ao CAR são apenas alguns dos fatores por trás das tentativas de extinção, redução ou recategorização de áreas protegidas na Amazônia. Somam-se a eles, a pressão de políticos com interesses diversos que vão desde a extração de recursos naturais à ocupação irregular das terras. As investidas se dão principalmente por iniciativas de parlamentares.

Trata-se de um fenômeno a que os pesquisadores denominam pela sigla de PADDD (Protected Areas downgrading, downsizing and degazettement), ou seja recategorização, redução e extinção de áreas protegidas. O PADDD ocorre em todos os continentes, sendo um fator de risco para as áreas designadas para a conservação da biodiversidade e os modos de vida de povos indígenas e populações tradicionais.

No Brasil, o ano de 2017 foi rico em processos de PADDD. Este tema foi pauta do Congresso Nacional e de Assembleias Legislativas estaduais. Casos como o da Floresta Nacional do Jamanxim (PA) e do Parque Estadual Serra de Ricardo Franco (MT) são alguns exemplos.

Um dos mais recentes casos de PADDD na Amazônia encontra-se neste momento em julgamento no Judiciário em Rondônia e envolve a criação de 11 unidades de conservação estaduais. As áreas criadas por lei no ano passado pelo governo local somam cerca de 600 mil hectares. Elas representam um ganho em termos de vegetação nativa, biodiversidade, água e segurança climática para um estado campeão em desmatamento. Mesmo assim, a Assembleia Legislativa insiste em acabar com as UCs. O governo ganhou recentemente uma liminar favorável, mas as UCs seguem sob a mira dos deputados.

Prevenção

É justamente para antecipar e alertar o país sobre casos como este que o estudo do WWF-Brasil está mapeando os indicadores e identificando as fontes de pressão. A ideia é oferecer elementos de análise prévia de territórios e movimentações legislativas que apontem as possibilidades de PADDD no futuro próximo e a longo prazo.

“A premissa do estudo é a de que usando uma lente para enxergar o futuro com um bom grau de previsibilidade, apoiado em indicadores objetivos, será possível agir de maneira preventiva e efetiva na defesa das Unidades de Conservação”, explica Mariana Napolitano, coordenadora do Programa de Ciências do WWF-Brasil.

A partir da análise das condições e contextos dos eventos de PADDD até o primeiro trimestre de 2018, o estudo gera pela primeira vez indicadores mensuráveis, específicos, relevantes e, algumas vezes, passíveis de georeferenciamento.

“Fizemos duas leituras simultâneas. Uma delas olhou os processos de PADDD ocorridos nas duas últimas décadas, a outra nos atuais projetos de lei e programas de governo que implicam em alterações das unidades de conservação”, conta Maria Cecília Wey de Brito, co-autora do estudo.

Ela ressalta que o trabalho também avaliou a qualidade da gestão das unidades de conservação mais vulneráveis ao PADDD. O que se viu é que apenas 13% das UCs vulneráveis apresentam um bom status de efetividade de gestão, evidenciando uma baixa capacidade da maioria das UCs em enfrentarem essas ameaças.

“Focamos no bioma Amazônia por ser a região do país que concentra o maior número de casos de PADDD, por sua relevância estratégica na conservação das florestas, da biodiversidade e no papel chave que tem para a discussão climática global”, diz Marco Lentini, da Iniciativa de Florestas do WWF-Brasil.

“Para resistir à ofensiva contra as UCs, é preciso monitorar o movimento de parlamentares que tentam aprovar projetos de lei e o lobby dos setores econômicos”, afirma Michel dos Santos, coordenador de Políticas Públicas do WWF-Brasil. Para isso, ressalta, é estratégico compreender a dinâmica dos fatores que levam aos processos de PADDD e mapear as tendências futuras desse fenômeno.

Também é essencial a criação de mecanismos ou ferramentas que possam registrar dados, antecipar situações conflituosas, bem como propor soluções preventivas e abordagens inovadoras para as UCs. O estudo é o primeiro passo para uma ferramenta pública de controle de PADDD no Brasil.

Temas prioritários para monitoramento preventivo de iniciativas de PADDD

FONTE: JB PRESS HOUSE

Aliança entre Temer e ruralistas pode custar meta climática ao Brasil

Estudo publicado em revista internacional indica que descontrole do desmatamento pode levar à emissão de 1,8 bilhão de toneladas em 2030 na Amazônia e no cerrado, estourando promessa de Paris

Resultado de imagem para presidente temer sanciona a mp 759

O presidente “de facto” Michel Temer assinando a MP 759 que anistiou a grilagem de terras. 

DO OC – A aliança do governo de Michel Temer com os ruralistas no Congresso pode ter salvo o presidente de ser investigado no STF por corrupção, mas deixou um monte de mortos pelo caminho. Um deles pode ser a meta brasileira de redução das emissões de gases que causam o aquecimento global, conforme sugere um estudo publicado nesta segunda-feira (9).

Um grupo de pesquisadores do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e de Brasília mostrou no periódico Nature Climate Change como as barganhas políticas feitas desde 2016 afetam o controle do desmatamento na Amazônia e no cerrado. No pior caso, isso faria as emissões de gases-estufa por desmatamento retornarem aos patamares do século passado. Dessa forma, o Brasil estouraria em 2030 todos os limites de emissões compatíveis com o cumprimento de sua meta no acordo do clima de Paris.

Só por desmatamento o país emitiria, nesse cenário, 1,8 bilhão de toneladas líquidas de gás carbônico em 2030 – um valor 50% maior do que a meta indicativa da NDC, o compromisso brasileiro em Paris, que é de 1,2 bilhão de toneladas naquele mesmo ano.

No cenário mais provável, a conta da aliança com os ruralistas sobraria para outros setores, como a indústria e os transportes. E seria salgada: para o Brasil se manter na meta em 2030, o restante da economia teria de desembolsar US$ 2 trilhões (mais que valor total do PIB em 2017) para adotar tecnologias ainda imaturas ou não testadas e zerar suas emissões, de forma a compensar o carbono emitido a mais no setor florestal.

Para fazer o estudo, o grupo liderado por Roberto Schaeffer, da COPPE-URRJ, e Britaldo Soares-Filho, da Universidade Federal de Minas Gerais, usou modelos de computador que fazem simulações de como o uso da terra evolui no território e de como as relações entre uso da terra e energia se desenvolvem em resposta a contextos diversos. Para isso, eles alimentaram o modelo com as taxas de desmatamento e as condições de governança ambiental em três momentos: antes de 2005, quando não havia controle sobre a devastação das florestas; entre 2005 e 2012, quando medidas foram adotadas e a taxa de desmatamento caiu; e entre 2012 e 2017, quando a tendência de queda se rompeu na esteira do enfraquecimento do Código Florestal e da crise política.

Nos últimos dois anos, o quadro de governança pós-2012 se agravou. Para tentar aprovar o impeachment, depois reformas impopulares, depois para salvar a própria pele, Michel Temer fez uma série de concessões à bancada ruralista, que representa cerca de 40% dos votos na Câmara dos Deputados: a grilagem de terras de até 2.500 hectares foi legalizada, a demarcação de terras indígenas foi congelada, unidades de conservação tiveram propostas de redução de limites e o licenciamento ambiental passou a ser ameaçado por vários projetos de lei.

Os ruralistas não ganharam tudo ainda. “Mas, para o desmatamento, a sinalização negativa que o governo dá tem uma importância enorme”, diz Raoni Rajão, da UFMG, coautor do estudo.

Com base nessas informações, os modelos produziram três cenários. Num deles, a governança ambiental é fortalecida, algo que soa pouco factível hoje. Neste caso, o desmatamento do cerrado alcança 3.794 km2 em 2030, comparado aos mais de 9.484 km2 hoje. O da Amazônia cairia dos atuais 7.000 km2 para 3.920 km2.

No cenário intermediário, considerado pelo grupo o mais provável, o desmatamento no cerrado vai a 14.759 km2, e o da Amazônia, a 17.377 km2 em 2030. No pior cenário, a governança ambiental é totalmente abandonada e o desmatamento anual retorna aos níveis mais altos: 18.517 km2 no cerrado e 27.772 km2 na Amazônia.  

O carbono emitido por perda de florestas e savanas nos três cenários foi comparado com o chamado “orçamento de carbono” do Brasil, ou seja, quanto CO2 o país ainda pode emitir para cumprir sua parte na meta do Acordo de Paris de estabilizar o aquecimento da Terra abaixo de 2oC em relação à era pré-industrial. Dado o tamanho da economia e da população do Brasil, esse orçamento foi calculado em 24 bilhões de toneladas líquidas de CO2 equivalente entre 2010 e 2050. Como já emitimos 4,6 bilhões de 2010 a 2017, o orçamento remanescente é de 19,4 bilhões de toneladas.

No cenário mais provável, o intermediário, as emissões acumuladas apenas por desmatamento entre 2010 e 2030 chegam a 16,3 bilhões de toneladas. O Brasil só consegue se manter dentro do orçamento de carbono se impuser ao setor industrial e energético as tais tecnologias mais caras a custo de US$ 2 trilhões.

A NDC também vai para o vinagre já no cenário intermediário. “O compromisso assumido no Acordo de Paris é de chegar a 2030 com 1,2 bilhão de toneladas de emissões no conjunto da economia. Mas no cenário tendencial somente as emissões por desmatamento já alcançariam esse valor”, afirma Rajão.

O cenário mais grave é um alerta, mas por ora não é o mais provável, já que o Ministério do Meio Ambiente continua agindo para controlar a devastação. No governo Temer, paradoxalmente, o orçamento do Ibama para a fiscalização ambiental foi incrementado em relação ao do segundo mandato de Dilma Rousseff, com dinheiro doado pela Noruega.

Na semana passada, o órgão anunciou que concluirá neste mês a Operação Panopticum, que consiste no envio de 25,2 mil cartas e e-mails a proprietários de terra de 59 municípios com risco de desmatamento. O objetivo é informar os proprietários de que eles estão sendo monitorados por satélite e serão punidos em caso de desmatamento ilegal.

“O Ibama continua melhorando, mas no caso da Amazônia, isso vai diminuir no máximo um terço do desmatamento total, que está em terras privadas que já estão no Cadastro Ambiental Rural”, disse Rajão, que concebeu a Operação Panopticum juntamente com Jair Schmitt, diretor de Políticas de Combate ao Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente. Segundo ele, é mais difícil fazer esse controle em áreas privadas fora do CAR, em unidades de conservação, terras devolutas, terras indígenas e assentamentos.

“O estudo mostra que o Brasil está praticando hoje um tipo de política do século 19, o que faz com que talvez tenhamos que recorrer a tecnologias do século 21, muitas delas ainda não maduras ou comercialmente disponíveis, para compensar o aumento das emissões de gases de efeito estufa advindas do aumento do desmatamento decorrentes desta política”, disse Roberto Schaeffer.

FONTE: http://www.observatoriodoclima.eco.br/alianca-entre-temer-e-ruralistas-pode-custar-meta-climatica-ao-brasil/

Mudanças climáticas estão aqui para transformar a Terra e o jeito que vivemos nela

heat 1

O mapa, rotulado como Índice da Miséria, acima mostra a sensação de calor com base na temperatura, umidade relativa do ar e sensação térmica.  As cores mais quentes significam mais miséria.

Em meio às desventuras da Copa FIFA 2018,  muitas informações passaram sem ser sequer notadas pela maioria das pessoas e, por que não, pela mídia corporativa brasileira. Uma dessas informações tem a ver com a informação de que foram registradas as temperaturas mais altas em diversas partes da Terra, o que é mais uma prova de que as mudanças climáticas estão aqui para ficar [1].

heat 4

Análise do modelo europeu de altas temperaturas no norte da África no dia 5 de julho mostrando valores máximos sobre a Argélia em torno de 51,3 graus Celsius. (WeatherBell.com)

E pior do que termos recordes de tempeatura é a constatação de que paulatinamente está ocorrendo uma elevação nas temperaturas médias dos dias e noites, com uma perda da capacidade dos ventos de amenizar o aquecimento que está ocorrendo no planeta. A figura abaixo, por exemplo, mostra a consistente elevação das temperaturas médias diurnas e noturnas na parte continental dos EUA a partir de 1950, deixando claro que as temperaturas em ambos períodos estão ficando mais altas.

heat 3

Para a maioria das pessoas, a informação de que estamos alcançando recordes de temperatura não chega a ser nada alarmante, visto que uma parte considerável da população humana está envolvida em questões mais mundanas, tais como obter comida e água, sem falar em um teto sobre suas cabeças [2].

água

Mas é aí que mora o problema. As mudanças climáticas irão certamente impactar de forma mais aguda aqueles que já estão sofrendo as piores consequências da forma perdulária e irresponsável com que os ultrarricos usam a Terra para lhes garantir um modo de vida que não possui nenhuma sustentação ecológica. 

No caso brasileiro, a atual conjuntura política não apenas ignora compromissos multilaterais que o país assinou em décadas recentes em termos da agenda pró-controle dos efeitos das mudanças climáticas, mas como estamos embarcados numa jornada em que um dos pontos mais dramáticos é justamente a profunda regressão nos poucos avanços que haviam sido duramente alcançados no manejo de ecossistemas naturais e no controle da desvastação em diversos biomas brasileiros, incluindo a Amazônia e a Mata Atlântica.

O problema é que o desmatamento que está consumindo grandes porções dos biomas florestais brasileiros está contribuindo para que haja um aumento das temperaturas nas regiões que mais estão perdendo vegetação, contribuindo não apenas para alterar o clima dessas áreas, mas também a disponibilidade de água. Em  outras palavras, é uma espécie de tempestade perfeita, onde toda as coisas que podem dar errado separadamente, acabam dando errado juntas.


[1] https://www.washingtonpost.com/news/capital-weather-gang/wp/2018/07/06/africa-may-have-witnessed-its-all-time-hottest-temperature-thursday-124-degrees-in-algeria/?noredirect=on&utm_term=.cb7e290aa436

[2] https://www.forbes.com/sites/marshallshepherd/2018/06/05/imagine-life-without-water-not-possible-but-earths-water-supply-is-changing/#3fc5dc833941

Relatório do Global Forest Watch mostra que no campeonato do desmatamento, o Brasil já é campeão mundial

Resultado de imagem para deforestation worldwide global forest watch

O consórcio “Global Forest Watch” acaba de divulgar o seu relatório anual sobre o desmatamento em escala mundial  e os números não são nada animadores, especialmente no tocante aos biomas tropicais, que perderam algo semelhante a um campo de futebol por segundo a cada dia em 2017 [1].

E nessa copa do mundo da perda de florestas e da biodiversidade nela contidas, o Brasil deu de goleada de 4 a 1 na segunda colocada, a República Democrática do Congo (ver figura abaixo).

GFW_17_Update_blog_graphics_SP-05

Um dado ainda mais preocupante é o que indica que a taxa média dos últimos 3 anos está em um curva ascendente, indicando que poderá ocorrer uma elevação ainda maior do desmatamento total acumulado (ver figura abaixo).

gfw 2

Em uma nota no seu blog oficial, o Global Forest Watch aponta que o aumento constante na perda de cobertura de árvores tropicais é alarmante e os novos dados demonstram cada vez mais que os atuais esforços para reduzir o desmatamento são insuficientes. Na mesma nota, o Global Forest Watch lembra que, além de proteger a biodiversidade e fornecer meios de subsistência humanos, as florestas também desempenham um papel fundamental no armazenamento de carbono. E que embora a conservação florestal possa fornecer cerca de 30% da solução para limitar o aumento da temperatura global a 2 ° C, um limite que os cientistas dizem ser necessário para evitar os piores impactos da mudança climática, apenas 2% do financiamento disponíveis para proteção do clima são para o setor florestal.  A nota conclui dizendo que se o mundo quiser acabar com as mudanças climáticas com seriedade, todos os países devem redobrar seus esforços para reduzir o desmatamento.

Mas, cá entre nós, dado o controle político exercido pela bancada ruralista no congresso nacional e o silêncio cúmplice da maioria da mídia corporativa brasileira sobre o que está acontecendo em todos os biomas florestais brasileiros, é bem provável que ainda vejamos taxas médias ainda mais altas no Brasil, com a consequente extinção de mais biodiversidade e uma contribuição ainda maior na aceleração das mudanças climáticas.

E não custa lembrar que graças ao chamado “Novo Código Florestal” promulgado pela ex-presidente Dilma Rousseff, o nível de afrouxamento da proteção de áreas de alto valor ecológico ficou ainda maior, com o consequente aumento das taxas médias e totais de desmatamento não apenas nos biomas da Amazônia, mas em outras áreas ainda mais sensíveis tais como os do Cerrrado e da Caatinga. A consequência desse afrouxamento pode ser visto claramente na figura abaixo.

gfw 3

————————–

[1] https://blog.globalforestwatch.org/data/el-2017-fue-el-segundo-peor-ano-en-relacion-a-la-perdida-de-cobertura-arborea-en-los-tropicos 

[2] http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2012/10/dilma-aprova-novo-codigo-florestal-com-nove-vetos-na-lei-original.html

Aviação e falsas soluções: A farsa do projeto de REDD “Florestal Santa Maria”, no Mato Grosso, Brasil

border-of-area-of-redd-project-2-apaisada-768x362

Limite da área do projeto REDD. Ph. WRM.

O projeto de REDD Florestal Santa María (FSM-REDD) cobre quase 70.000 hectares da Amazônia brasileira e vendeu créditos de carbono a programas de compensação de, pelo menos, duas companhias aéreas: Delta Airlines e TAP. Por trás dele se esconde um aumento no desmatamento na região e um histórico de concentração de terras, uso de certificações que não valem mais e promessas não cumpridas às comunidades locais.

Embora esteja demonstrado que o REDD não é uma solução real para a mudança climática, o Conselho da Organização da Aviação Civil Internacional (OACI) – reunido em Montreal de 11 a 19 de junho – avança em planos para permitir que as companhias aéreas mitiguem suas emissões com projetos de compensação de carbono e o uso de agrocombustíveis baseados em monoculturas industriais, que causam estragos em florestas do Sul Global e seus habitantes.

Em uma cartaorganizações de todo o mundo estão pedindo que a OACI abandone seus planos de mitigação com soluções falsas e destrutivas, e comece a reduzir o tráfego aéreo.

Faça o download do artigo completo em pdf

O projeto de REDD da empresa Florestal Santa Maria S/A – chamado de projeto FSM-REDD – é desenvolvido numa área florestal de 71.714 hectares, no município de Colniza, noroeste do estado do Mato Grosso, na região Amazônica do Brasil. O projeto afirma que evitaria uma emissão de CO2 da ordem de 30 milhões de toneladas de 2009 até 2039. A empresa pretende vender essa suposta redução na forma de créditos de carbono. O projeto foi elaborado pela consultoria Plant Environmental Intelligence e outras, e validado pela empresa norte-americana Rainforest Alliance, de acordo com o sistema de certificação para projetos de REDD da VCS (Verified Carbon Standard). (1)

A área do projeto FSM-REDD é 100% dedicada ao chamado “manejo florestal sustentável” (MFS), desde antes do início do projeto. Paralelamente à elaboração e à implementação do projeto, a Florestal Santa Maria buscou, em 2012, a certificação florestal para seu plano de manejo pelo selo do FSC (Conselho de Manejo Florestal). (2)

O projeto já vendeu créditos de carbono para, pelo menos, três empresas transnacionais. A Bunge Environmental Markets foi compradora na fase da elaboração e no início da implementação. Essa empresa, que atua no comércio de commodities agrícolas, afirma que prestou assessoria técnica para a elaboração do projeto e “firmou um compromisso de compra de parte dos créditos de carbono, permitindo a negociação antecipada” (3). Outra compradora dos créditos é a Delta Airlines, empresa aérea dos EUA que apoia cinco projetos de compensação de carbono, entre eles o FSM-REDD. A Delta afirma que o projeto “promove uma melhor proteção florestal” e “apoia as comunidades através de reflorestamento e educação sobre conservação” (4). Outra empresa aérea que tem comprado créditos é a TAP Portugal, que justifica seu apoio, afirmando que o projeto “promove a proteção de 77 mil hectares da Floresta Tropical Amazónia nativa, sujeitos a pressão de desflorestação com consequente perda de biodiversidade. No âmbito do projeto está a ser trabalhado com as comunidades locais um modelo que gera emprego mas de forma sustentável para a floresta, com formação específica em produção de madeira sustentável, travando explorações ilegais e protegendo a flora e fauna locais.“ (5)

A área do projeto de REDD+ da FSM corre realmente perigo de ser desmatada?

Segundo afirma a empresa Plant Environmental Intelligence, a linha de base desse projeto de REDD+, ou seja, a previsão do desmatamento que aconteceria sem o projeto, sugere que a área da FSM seria desmatada em 87,6% por causa da extração de madeira, para, em seguida, ser transformada principalmente em áreas de pasto e também em plantações de café, como tem sido a prática no município (6).

No entanto, não é fácil acreditar que a área do projeto FSM-REDD, precisamente, corra perigo, por uma série de razões. Em primeiro lugar, a área do projeto já tem dono, tratando-se de uma madeireira que tem sua área titulada. É bastante difícil imaginar que outra madeireira ou pessoas resolvam invadir a área dessa empresa, que, inclusive, é a única no município com um “plano de manejo” licenciado pelo Estado. Além disso, trata-se de uma área que está nas mãos do poderoso grupo familiar empresarial que afirma ser, segundo o texto do projeto, os ”donos originais” dessas terras, tendo adquirido do governo federal e do governo do estado o direito de “colonizar” Colniza em 1975. (7)

A pessoa ou empresa que tentar invadir e destruir a área da Florestal Santa Maria deve estar em busca de encrenca. A própria documentação do projeto cita uma audiência pública organizada em Colniza, em 2002 – antes da elaboração do projeto de REDD – com 300 participantes, quando a população foi alertada sobre os riscos de se invadir a propriedade da empresa, algo inédito para a região. A empresa afirma que mantém um sistema de vigilância com oito bases dentro da área. O projeto diz que invasões “foram erradicadas e registradas pelas autoridades locais e pelo sistema de autovigilância da fazenda”, e que “essas invasões deram origem a perseguições judiciais para retomar a posse da área”. (8) Na lista de documentos consultados, a empresa Rainforest Alliance, que validou o projeto, cita um boletim de ocorrência registrado na delegacia da polícia e uma reintegração de posse expedida pela justiça da região contra invasores em 2004. Nenhum boletim com data posterior foi incluído. (9) Todos esses fatos corroboram a tese de que não havia perigo de que a área fosse destruída, porque seus proprietários a estavam protegendo antes do projeto de REDD.

Além disso, não tem cabimento o projeto apostar que, nos próximos 30 anos, sua área seria desmatada quase totalmente e, em boa parte, de forma ilegal – porque ultrapassaria o limite permitido por lei, de 20% da propriedade –, argumentando que se trata da prática comum nessa região do Mato Grosso nas últimas décadas. Nos últimos anos, o governo do Mato Grosso vem pretendendo zerar o desmatamento ilegal no estado até 2020, a partir de 2017, com apoio de acordos de cooperação que totalizam cerca de 40 milhões de euros com o Banco alemão KfW e o governo do Reino Unido. Portanto, a referência para construir a suposta linha de base do projeto FSM-REDD não pode ser apenas uma especulação baseada na história de ilegalidades e destruição ambiental da região mais ampla, que simplesmente seria repetida na área especifica do projeto; ela deveria se fundamentar muito mais na situação específica da área e nas propostas que estão sendo discutidas há vários anos e implementadas pelas autoridades para combater o desmatamento no futuro próximo. (10)

O FSM-REDD ainda afirma que outro objetivo seria contribuir com a redução do desmatamento na região: o projeto “tomará iniciativas conjuntas com a SEMA-MT [Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Mato Grosso] para criar um modelo de manejo ambiental altamente replicável em outras áreas onde tenha sido identificado potencial para receber futuros projetos de REDD” . Isso faria sentido porque fora da área do projeto de REDD acontecia, de fato, muito desmatamento em função das atividades de madeireiras e a expansão do pasto para criação de gado. No entanto, desde que começou o projeto, não há notícias de criação de projetos de “manejo ambiental” e futuros projetos de REDD na região do município de Colniza. Ao contrário, depois de anos de uma tendência de redução, como em boa parte da Amazônia brasileira, os dados sobre desmatamento em Colniza, sobretudo desde 2013, indicam um novo crescimento, que ocorreu com o projeto FSM-REDD já em funcionamento. Sobretudo em 2015, foi registrado um forte aumento no desmatamento no município. A imprensa do Mato Grosso veiculou matérias citando Colniza como líder do ranking de municípios em termos de desmatamento em todo o estado do Mato Grosso (10). Enquanto o incremento no desmatamento no município, entre 2008 e 2012, ou seja, antes do início do projeto de FSM-REDD, foi de 125 km2 em 2008, 76,1 km2 em 2009, 78,5 km2 em 2010, 87,3 km2 em 2011 e chegou a 81,0 km2 em 2012, é a partir de 2013, ou seja, com o projeto FSM-REDD em funcionamento, que começa uma fase de forte aumetno no desmatamento: 155,8 km2 em 2013, 145,5 km2 em 2014, 251,2 km2 em 2015, 223,7 km2 em 2016 e 176,1 km2 em 2017. (12)

Benefícios para comunidades locais?

Em sua propagando sobre o projeto FSM-REDD, as empresas aéreas Delta e TAP enfatizam os benefícios para as comunidades do entorno da área do projeto. O documento do projeto cita, por exemplo, a qualificação da comunidade local para se engajar nas atividades de “manejo florestal” da FSM, a certificação FSC da área, a proteção da área da empresa contra invasores no longo prazo, melhorias na fiscalização da área do projeto, organização de brigadas de combate a incêndio, criação de incentivos para recuperar áreas degradadas no entorno da área, junto com um estudo de viabilidade para estabelecer uma pequena unidade de processamento de produtos não madeireiros e a organização de uma escola técnica florestal no município de Colniza.

Porém, até o presente momento, não conseguimos encontrar nenhuma informação sobre atividades sendo implementadas em beneficio das comunidades locais, por exemplo, a realização de estudos e/ou inauguração de uma escola técnica ou de uma unidade de processamento. Perguntamos a algumas pessoas que vivem no município e no entorno da área do FSM-REDD, e ninguém tinha conhecimento sobre essas ações propostas e nem informação sobre o projeto.

Apenas algumas ações parecem ter sido realizadas, como a qualificação de mão de obra da própria empresa, porque eram de interesse dela e até por se tratarem de irregularidades constatadas pela equipe de auditoria do FSC: “Não há um programa efetivo de capacitação para os trabalhadores envolvidos na unidade de manejo florestal”. (13) Além disso, a comunidade local acaba sendo envolvida no combate ao fogo, que ocorre regularmente, como em toda a região, na época mais seca do ano, mas isso também é de interesse direto da empresa.

Um “manejo florestal” certificado pelo FSC?

Em relação à certificação florestal pelo FSC, uma grande contradição precisa ser apontada logo. Enquanto a QAS, sistema de auditoria para empresas que querem se tornar “neutros” em termos de carbono através de redução de emissões, divulga no seu site a informação de que a área do projeto FSM-REDD, apoiado pela TAP Air Portugal, destinada à extração de madeira é certificada pelo FSC, as informações do próprio site do FSC provam o contrário: o FSC informa que a certificação da empresa foi encerrada em 2017. (14)

O motivo pelo qual a empresa buscou a certificação pelo FSC é revelado no relatório dos auditores da empresa Imaflora, que realizaram a certificação FSC, quando afirmam que “os principais objetivos de manejo florestal [da FSM] são” (…) “atender às exigências da validação de carbono”. (15) Ou seja, sem a certificação FSC, a empresa não conseguiria vender os créditos de carbono validados pelo sistema VCS a compradores interessados. O FSC seria então, digamos, um “atestado” da seriedade do manejo florestal.

O fato de a certificação FSC ser obrigatória para o projeto FSM-REDD ser aprovado e vender créditos de carbono sugere que a empresa, por si só, não teria investido recursos para atender às exigências do selo FSC. Essa tese parece fazer sentido quando vemos a enorme lista de irregularidades e ilegalidades encontradas pelos auditores do FSC em 2012, ao comparar os princípios e critérios do selo com a realidade na Florestal Santa Maria: violações de leis trabalhistas, danos à floresta causados pela extração de madeira, inclusive áreas de preservação permanente – que deveriam ser estritamente protegidas pela lei – afetadas pelo corte de madeira, e ausência de muitos planos e ações que deveriam fazer parte do chamado “manejo florestal sustentável”. (16)

Vale ressaltar que essa realidade não é incomum nas áreas certificadas pelo FSC e, além disso, as comunidades que dependem das florestas e convivem com o “manejo” têm questionado sua suposta “sustentabilidade”. No estado brasileiro do Acre, a exemplo de outros países, como a República Democrática de Congo, o chamado “manejo sustentável” também leva à destruição gradativa da floresta. (17)

O que também impressiona é que, apesar de todas as ilegalidades e irregularidades constatadas, o Imaflora tenha concedido à empresa o selo FSC em 2013, apostando na expectativa de que ela melhoraria sua atuação e resolveria a longa lista de problemas encontrados. No entanto, três anos depois, no relatório de monitoramento de 2015, a equipe de auditores acabou requerendo a suspensão do certificado pelo fato de que a empresa não conseguiu atender a várias demandas dos auditores. (18) Em 2017 – depois de a empresa desfrutar quatro anos do selo FSC e ter conseguido o selo da VCS, que nos seus documentos faz ampla referência ao selo FSC da Florestal Santa Maria – o próprio FSC informou que a certificação estava “cancelada”. (19)

A posse da terra: uma história mal contada?

O que chama a atenção, primeiramente, é que a história contada pelo FSM-REDD sobre a suposta legalidade do título da terra do projeto e sobre o processo de ocupação de Colniza é reproduzida, sem maiores comentários, pelos auditores do projeto e também pelos certificadores do FSC, como se fosse a versão verdadeira da história de Colniza e da área do projeto. Apesar do histórico de grilagem de terras, destruição ambiental e violência que marca o processo de colonização da Amazônia, sobre o qual há bastante documentação disponível, nada disso foi investigado no caso específico de Colniza e nenhuma informação ou documentação sobre esse histórico foi acrescentada pelos auditores, a não ser os comentários sobre a questão indígena na região, citada pelos auditores do FSC.

Aqui não cabe uma investigação profunda sobre a complexa questão fundiária e a ocupação nessa região da Amazônia, mas, numa rápida avaliação da história contada, duas questões chamam bastante atenção. A primeira é que os supostos donos da área do projeto de REDD – a família Lunardelli – foram os principais controladores da empresa de “colonização” cuja atuação teria levado à fundação de Colniza – chamada COLNIZA Colonização e Comércio Ltda. Em 1975, a empresa adquiriu 400.000 hectares da antiga empresa de colonização de Mato Grosso (CODEMAT), para contribuir com um plano dos governos federal e estadual de colonizar uma área de 2 milhões de hectares nessa região do Mato Grosso. Também chama a atenção quando o texto do projeto afirma que só “cerca de 20 anos depois da compra inicial de terras” é criado o primeiro assentamento de famílias sem terra. Isso é justificado pela suposta “falta de infraestrutura para implementar o projeto de colonização inicial” e uma “pressão descontrolada por ocupação de terras”. Ao doar a terra para o INCRA – o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária –, a empresa estaria “mostrando boa vontade” frente ao governo. Tudo isso levanta muitas perguntas sem resposta: o que dizia o contrato firmado em 1975 para colonizar a região? O que aconteceu entre o longo período de 1975 e 1991, suposta data de criação do primeiro assentamento de agricultores na região, período simplesmente invisibilizado no projeto? Por que só depois de muitos anos foi criado o primeiro assentamento do INCRA com a “boa vontade” da colonizadora COLNIZA?

Consultando algumas fontes documentais sobre a história de Colniza, o relato do projeto FSM-REDD parece mal contado. Antes de tudo, é preciso ter muito cuidado com qualquer versão contada por grandes empresas naquela fase histórica do Brasil, uma vez que se tratava do período de ditadura militar (1964-1985). Esta instalou um regime totalitário que perseguia e torturava opositores enquanto beneficiava, dando incentivos financeiros e fiscais para grandes empresas privadas. Obter direitos sobre 400.000 hectares naquele período mostra uma proximidade entre a empresa e a ditadura militar, algo que passou despercebido nos relatórios de validação do projeto e na certificação do FSC.

Essa análise do contexto histórico é fundamental também para poder minimamente analisar e entender o processo de ocupação da Amazônia que se deu principalmente durante a ditadura militar. Segundo uma pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso que estudou o processo histórico de ocupação das terras na região (20), desde o final do século XIX, quando as terras que não tinham título passaram para as mãos do Estado brasileiro e se transformaram em terras públicas, os supostos programas de colonização, como o de Colniza, eram formas de privatização de terras ao repassar grandes glebas públicas para as mãos de empresas privadas. A pesquisadora aponta a empresa dos Lunardelli, a COLNIZA, como uma das quatro que conseguiram ter acesso aos 2 milhões de hectares que o governo queria distribuir naquela época nessa região do Mato Grosso. A COLNIZA também foi uma das três, entre essas quatro, que não cumpriram o contrato com o governo, com prazo de cinco anos para colonizar a região. Segundo relata a pesquisadora, a COLNIZA fez o “loteamento das terras no mercado imobiliário, não cumprindo o que havia sido acordado inicialmente com o Estado”. A pesquisadora analisa que isso era a prática da maioria das empresas colonizadoras, enquanto, nos projetos de colonização, tanto estatais quanto privados, parte das terras teria que ser destinada aos chamados núcleos de povoação. Em vez disso, a pesquisadora relata que a maioria das colonizadoras “usava a terra para especular em benefício próprio”. Em maio de 1995, 20 anos depois de a COLNIZA adquirir os 400.000 hectares, a empresa dos Lunardelli, segundo a pesquisadora“expulsou de sua área mais de 350 posseiros que (…) ocupavam parte da gleba que vinha sendo loteada a particulares”. A empresa recorreu à Justiça, que concedeu liminar de reintegração de posse. O Estado interveio em seguida e a empresa concordou em devolver parte da área, o que deu origem à proposta do INCRA de assentar as famílias. (21)

Ainda sobre o que de fato aconteceu entre 1975 e 1991, período que não é comentado no relatório do projeto FSM-REDD, moradores da região e também documentação disponível apontam que, em vez da colonização, predominava, como em outras regiões próximas, o garimpo de ouro (22) – atividade ilegal e, ao mesmo tempo, muito lucrativa e destrutiva.

Considerações finais

Esta breve análise do projeto de REDD da Florestal Santa Maria gera muito mais perguntas do que respostas. Algumas das principais perguntas são: como esse projeto continua existindo, pelo menos publicamente, podendo se beneficiar de recursos da venda de créditos de carbono para as empresas aéreas Delta Airlines e TAP, enquanto está localizado numa área em Colniza que não corria e não corre risco de desmatamento? Como esse projeto continua existindo sem gerar os benefícios prometidos para a comunidade local? Como a empresa que mantinha um “manejo florestal” com violações da legislação trabalhista e causando danos à floresta, obteve, mesmo assim, o selo FSC, o qual ela perdeu quatro anos depois?

No entanto, esse projeto de REDD também parece se encaixar na breve e turbulenta história de colonização do município de Colniza, da qual o dono da Florestal Santa Maria é protagonista. É fundamental que essa história seja reescrita da forma como ela de fato ocorreu. A empresa da família Lunardelli estava entre as empresas privadas que vieram para a região para lucrar com o acesso a grandes quantidades de terras, que depois foram loteadas, como ela também fez em outros estados do Brasil e até no Paraguai (23). O objetivo principal era obter lucros, num contexto em que todos que vieram queriam ganhar dinheiro rápido, com a grilagem de terras, atividade praticada por madeireiras com a conivência das autoridades e com extrema violência contra posseiros migrantes e pequenos agricultores em busca de um pedaço de terra para sobreviver.

O projeto FSM-REDD parece ter sido identificado pelos donos da Florestal Santa Maria como mais uma oportunidade de lucro fácil nessa curta história de Colniza, e a linha de base do projeto busca maximizar o lucro. Quem se beneficia dessa “oportunidade” do mecanismo de REDD em Colniza são novamente as certificadoras e as grandes empresas, seja a Florestal Santa Maria, a Bunge, a Delta Airlines ou a Air Portugal.

Enquanto isso, o desmatamento continua a todo vapor no município de Colniza e nessa região da Amazônia brasileira onde medidas para interrompê-lo são fundamentais e urgentes.

Winnie Overbeek

Secretariado Internacional do WRM

1. http://www.florestalsantamaria.com.br/site/documentos/57FSM_REDD_VCS_PD_pt.pdf

2. Quando o REDD+ foi lançado em 2009, o mecanismo de REDD passou a abranger a possibilidade de realizar projetos de REDD também em áreas de “manejo florestal sustentável”. O MFS propõe não fazer o corte raso da floresta, mas cortar árvores de forma seletiva, com o objetivo de manter a “floresta em pé”.

3. http://www.bunge.com.br/Imprensa/Noticia.aspx?id=365

4. https://news.delta.com/delta-offsets-carbon-emissions-100000-customers-tuesday

5. http://www.tapairportugal.com/pt/responsabilidade/compromisso-ambiental

6. http://www.florestalsantamaria.com.br/site/documentos/57FSM_REDD_VCS_PD_pt.pdf – p. 82

7. Ibid

8. Ibid

9. https://www.rainforest-alliance.org/business/sites/default/files/climate_project/florestalsantamaria-vcs-verification-report.pdf

10. http://www.matogrossoeconomico.com.br/noticias/governo-de-mato-grosso-assina-acordo-com-alemanha-e-reino-unido-para-investimentos-de-r-170-milhoes/16679;

11. http://www.colnizamtnoticias.com.br/artigo/municipio-de-colniza-e-o-municipio-que-mais-desmata-no-estado-do-mato-grosso

12. http://www.dpi.inpe.br/prodesdigital/prodesmunicipal.php

13. Resumo Público Certificação Florestal Santa Maria, 2013, Imaflora

14. https://qascarbonneutral.com/tap-portugal-carbon-offset/? and https://info.fsc.org/details.php?id=a0240000007mgyJAAQ&type=certificate

15. Resumo Público de Avaliação de Certificação do Manejo Florestal da Florestal Santa Maria S/A em Colniza, MT, Brasil, 2013, Imaflora

16. Ibid

17. https://wrm.org.uy/pt/artigos-do-boletim-do-wrm/secao1/brasil-vozes-de-comunidades-no-acre-alertam-sobre-as-violacoes-envolvidas-no-manejo-florestal-sustentavel-comunitario/ and https://news.mongabay.com/2017/01/logging-in-certified-concessions-driving-intact-forest-loss-in-congo-basin/

18. Resumo Público de Auditoria Anual 2015 do Manejo Florestal da Santa Maria Florestal em Colniza, MT, Brasil, 2015, Imaflora

19. https://info.fsc.org/details.php?id=a0240000007mgyJAAQ&type=certificate

20. https://periodicos.ufsc.br/index.php/geosul/article/viewFile/18833/20128

21. Ibid

22. https://pt.wikipedia.org/wiki/Colniza

23. http://www.lagea.ig.ufu.br/xx1enga/anais_enga_2012/eixos/1015_1.pdf

FONTE: https://wrm.org.uy/pt/livros-e-relatorios/a-farsa-do-projeto-de-redd-florestal-santa-maria-no-mato-grosso-brasil/