Hidrovias na Amazônia: encontro abre diálogo entre comunidades, ministérios e órgãos de controle sobre planejamento de transporte fluvial na região

Após quase um ano desde o envio de carta cobrando diálogo sobre o modelo de hidrovias na Amazônia, encontro aproxima órgãos públicos e sociedade civil para discutir planejamento, licenciamento e direitos das populações afetadas.

Representantes de comunidades e movimentos sociais das bacias dos rios Madeira, Tapajós e Tocantins, organizações da sociedade civil, pesquisadores e órgãos do governo federal e de controle participaram, na última sexta-feira (11), de uma videoconferência organizada pelo Grupo de Trabalho Infraestrutura e Justiça Socioambiental (GT Infra) para discutir caminhos para fortalecer as políticas públicas voltadas à infraestrutura de transportes na Amazônia.

Entre os principais temas discutidos no encontro estiveram:

  • Participação das comunidades nas decisões sobre infraestrutura de transportes, com destaque para a necessidade de ampliar a presença de povos indígenas e comunidades tradicionais nos processos de planejamento, bem como respeitar o direito à Consulta livre, prévia e informada;
  • Planejamento integrado das hidrovias, considerando a relação entre rios, portos, rodovias e ferrovias e os efeitos dos empreendimentos sobre os corredores logísticos, incluindo o desafio de equilibrar o transporte de grandes volumes de commodities com as necessidades de mobilidade, abastecimento e produção das comunidades locais;
  • Infraestrutura de transporte para as populações amazônicas, com discussão sobre a falta de portos, entrepostos, energia e conexões intermodais adequadas às comunidades e às cadeias da sociobiodiversidade;
  • Avaliação de impactos cumulativos e sinérgicos, incluindo os efeitos combinados de diferentes obras e intervenções existentes e planejadas nas bacias hidrográficas;
  • Limitações do atual modelo de licenciamento ambiental, incluindo a necessidade de avaliar os impactos da operação das hidrovias em toda a sua extensão, e não apenas de intervenções isoladas;
  • Continuidade do diálogo entre governo e sociedade civil, com propostas para ampliar a participação social na elaboração dos planos setoriais de transporte no âmbito do Planejamento Integrado de Transportes (PIT).

A videoconferência foi um desdobramento da carta enviada em outubro de 2025 por organizações sociais das três bacias, junto ao Grupo de Trabalho Infraestrutura e Justiça Socioambiental (GT Infra), ao Ministério de Portos e Aeroportos (MPOR) e outros órgãos federais. O documento propôs a construção de um diálogo estruturado entre governo e sociedade civil para enfrentar os conflitos associados ao atual modelo de hidrovias e buscar alternativas, começando pela realização de um encontro presencial. A proposta, no entanto, não teve retorno na época.

Nos meses seguintes, os conflitos se intensificaram, especialmente na bacia do Tapajós. No início de 2026, povos indígenas realizaram protestos contra as dragagens previstas para o rio e contra o Decreto nº 12.600/2025, que havia incluído trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização. Em fevereiro, o processo de contratação das dragagens no Tapajós foi suspenso. As intervenções voltaram ao centro do debate em julho, quando um novo plano de dragagem avançou após a dispensa de licenciamento ambiental concedida pela Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (Semas-PA). No mesmo mês, lideranças indígenas do Tapajós levaram suas reivindicações ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em reunião no Palácio do Planalto.

Foi nesse contexto que o MPOR retomou a interlocução com o GT Infra, abrindo caminho para esta videoconferência. O encontro marcou um primeiro passo na construção de um diálogo mais amplo entre sociedade civil e instituições públicas envolvidas no planejamento, licenciamento e concessão de hidrovias na Amazônia. . Participaram representantes do MPOR, da Controladoria-Geral da União (CGU), do Tribunal de Contas da União (TCU), do Ministério Público Federal (MPF), do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), do Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), entre outros órgãos. O Ministério dos Transportes também foi convidado, mas não participou da videoconferência.

Durante uma primeira mesa sobre impactos socioambientais do atual modelo de hidrovias na Amazônia e a infraestrutura que queremos, representantes das três bacias mostraram como diferentes projetos de infraestrutura têm produzido problemas semelhantes. No rio Madeira, Iremar Ferreira, do Instituto Madeira Vivo (IMV), chamou atenção para os efeitos da expansão dos corredores de transporte de grãos e defendeu que a infraestrutura amazônica seja discutida a partir das necessidades de quem vive nos rios e deles depende. No Tapajós, Johnson Portela, do Movimento Tapajós Vivo (MTV), destacou que os impactos da hidrovia se somam às pressões já existentes do agronegócio e da expansão portuária e afetam atividades como pesca, transporte local e turismo.

“Parece que estamos falando do mesmo rio”, resumiu Claudelice Santos, do Instituto Zé Cláudio e Maria (IZM). Segundo ela, problemas encontrados no Madeira, Tapajós e Tocantins se repetem, entre eles o fracionamento dos empreendimentos e de seus processos de licenciamento, dificuldades relacionadas à consulta prévia e a falta de informações acessíveis às comunidades sobre a dimensão das intervenções previstas. No Tocantins, ela lembrou ainda que populações afetadas pela hidrovia convivem com impactos acumulados de outras grandes obras, como a hidrelétrica de Tucuruí e a Transamazônica.

A necessidade de participação dos povos desde as primeiras etapas dos projetos também foi ressaltada pelo cacique Manoel Munduruku, do planalto santareno, região cercada pela monocultura de soja. “Temos que ser consultados antes do projeto ser colocado no papel”, afirmou. Para ele, realizar a consulta quando as principais definições sobre um empreendimento já foram tomadas limita a possibilidade de participação efetiva dos povos afetados.

Planejamento bem antes das obras

Durante o encontro, representantes de organizações da sociedade civil também apontaram que parte dos conflitos relacionados às hidrovias poderia ser enfrentada ainda na etapa de planejamento setorial de transportes, antes da definição de obras e da abertura dos processos de licenciamento.

André Luis Ferreira, diretor-executivo do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), defendeu que os planos setoriais de transporte sejam construídos de forma integrada, com a análise comparativa entre corredores de transporte que tipicamente envolvem modais interconectados (rodovias, hidrovias, ferrovias), considerando riscos socioambientais e questões de viabilidade econômica. Ele lembrou ainda que uma hidrovia não funciona de forma isolada: depende de portos, rodovias e outras estruturas. Por isso, seus efeitos precisam ser analisados no contexto dos corredores logísticos, considerando impactos cumulativos e sinérgicos desde o início do planejamento. Ainda segundo ele, várias infraestruturas propostas no PNL 2050, têm como motivação principal resolver o mesmo problema logísticos, especialmente no que se refere a milho e soja. Ao que parece, será necessário avaliar a real necessidade das de todas infraestruturas planejadas e avaliar alternativas com menores riscos sociais e ambientais.

A assessora técnica do GT Infra, Renata Utsunomiya, apresentou exemplos das hidrovias do Madeira, Tapajós e Tocantins para mostrar limitações do atual modelo de licenciamento ambiental. No Madeira, por exemplo, ela apontou a existência de intervenções próximas a Terras Indígenas e Unidades de Conservação e questionou a ausência de consulta livre, prévia e informada. No Tapajós, destacou que quatro dos sete pontos previstos no plano de dragagem de 2026 não haviam sido dragados anteriormente, questionando sua classificação como meras dragagens de manutenção.

Outro ponto levantado foi a necessidade de avaliar os impactos da operação ao longo das hidrovias, e não apenas das intervenções em trechos específicos dos rios, o que se intensifica com o fatiamento do licenciamento ambiental. As projeções indicam forte crescimento da movimentação de cargas no Tapajós e no Tocantins até 2035, o que reforça, segundo Renata, a necessidade de modelar esses fluxos para compreender a frequência do tráfego e os riscos associados, como o aumento do desmatamento associado à expansão da soja na Amazônia.

Infraestrutura para quem vive nos territórios

Além de mudanças no planejamento de grandes empreendimentos, o debate colocou em pauta a infraestrutura de transporte fluvial necessária para atender às próprias populações amazônicas.

Andressa Neves, do WWF Brasil e do Observatório das Economias da Sociobiodiversidade, destacou que comunidades tradicionais e cadeias produtivas que dependem dos rios ainda são pouco consideradas no planejamento e enfrentam carências de estruturas como portos, trapiches, entrepostos, energia e conexões intermodais.

Para ela, a infraestrutura de transportes fluvial e terrestre pode contribuir para reduzir desigualdades se também estiver voltada às economias locais e às cadeias com impacto socioambiental positivo, em vez de ser planejada quase exclusivamente para o transporte de cargas do agronegócio e da mineração, como ocorre atualmente.

O procurador da República Gabriel de Amorim, do Ministério Público Federal (MPF), defendeu maior protagonismo dos povos indígenas e comunidades tradicionais nas decisões sobre as hidrovias e alertou para a necessidade de não repetir erros de grandes projetos de infraestrutura implantados anteriormente na Amazônia. Segundo ele, a garantia do direito à consulta livre, prévia e informada junto aos povos afetados deve fazer parte de um modelo de governança que considere os rios e seus diferentes usos de forma integrada.

Gabriel também criticou o fracionamento dos processos de licenciamento, que, segundo ele, impede conhecer a totalidade dos custos e impactos do modelo hidroviário. O procurador defendeu que a análise das hidrovias considere impactos acumulados de empreendimentos já existentes, como hidrelétricas, e apontou a necessidade de fortalecer a gestão das bacias hidrográficas, com participação dos povos tradicionais.

Diálogo deve continuar

O secretário nacional de Hidrovias e Navegação, Otto Luiz Burlier, afirmou que a secretaria tem buscado ampliar o diálogo com diferentes setores da sociedade e reconheceu a percepção de que a atuação do poder público no setor hidroviário muitas vezes está associada prioritariamente ao transporte de cargas de grandes grupos econômicos, menosprezando as necessidades de comunidades locais. Segundo ele, o desafio é equilibrar a matriz logística brasileira e construir políticas que promovam desenvolvimento sustentável com inclusão social. O secretário também propôs o alinhamento de próximos passos para a continuidade das discussões.

Ao final, os participantes apontaram a reunião como um primeiro passo para a construção de uma agenda permanente de diálogo. Entre os próximos passos e propostas discutidos estão a continuidade da interlocução entre instituições e organizações, o aprimoramento dos mecanismos de consulta livre, prévia e informada, a incorporação das necessidades das comunidades no debate sobre infraestrutura e a ampliação da participação social na fase de elaboração dos planos setoriais de transporte, no âmbito do Planejamento Integrado de Transportes (PIT). Também foi apontada a necessidade de realização de um encontro presencial, logo após o período eleitoral, para aprofundar os debates e a definição de encaminhamentos.

 

A Amazônia não precisa de novos donos

O mundo descobriu uma nova maneira de lucrar com a Amazônia viva. Mas, a menos que o poder acompanhe o dinheiro, os povos indígenas e as comunidades tradicionais podem se ver servindo a outra economia construída em torno de sua floresta, em vez de moldar uma economia própria

Floresta Amazônica, Rio Amazonas, Brasil. Crédito: Dennis Schmelz/Alamy

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

Aconteceu algo bastante estranho na forma como falamos sobre os povos da Amazônia. 

O conhecimento antes visto como primitivo, atrasado, até mesmo um obstáculo ao progresso, agora está sendo considerado um ativo da bioeconomia e parte da solução para as crises climáticas e da biodiversidade. Dizem-lhes agora que seu conhecimento pode ser a chave para o futuro.

As comunidades indígenas e tradicionais sabem o que cresce em cada lugar, quando as frutas estão seguras, maduras e prontas para o consumo, como uma planta pode ser usada e o que acontece quando um rio é perturbado a montante. Grande parte desse conhecimento foi transmitido através de famílias e comunidades por muitas gerações.

Agora tem outro nome: inovação. E há muito dinheiro nisso.

A bioeconomia da Amazônia está atraindo muitos governos, bancos, empresas, organizações ambientais, entidades filantrópicas e investidores com uma proposta convincente: o desenvolvimento econômico não precisa ocorrer às custas da floresta.

Desejamos muito que isso seja verdade. A Amazônia precisa desesperadamente de um futuro que não dependa de sua destruição.

Valor

A coisa fica bem mais interessante e menos confortável quando você acompanha um produto amazônico desde a floresta até o consumidor.

Uma comunidade pode possuir gerações de conhecimento sobre uma determinada planta: onde ela cresce, como é colhida sem prejudicar a produção futura e como pode ser utilizada. Mas, uma vez que a planta entra em uma cadeia comercial, o equilíbrio muda completamente.

O processamento pode ocorrer em outros locais, juntamente com a pesquisa, o desenvolvimento do produto, o patenteamento, a criação da marca e a distribuição.

Um ingrediente comprado por um preço relativamente baixo em sua origem pode eventualmente estar presente em um produto cosmético, alimentício ou farmacêutico caro, vendido em São Paulo, Londres, Paris, Berlim ou Nova York.

Em algum ponto dessa jornada, o valor aumenta enormemente. Aqueles que forneceram a matéria-prima e o conhecimento que tornaram o produto possível podem permanecer na base da cadeia.

Por isso, perguntar simplesmente se as comunidades estão lucrando com a bioeconomia nos diz muito pouco. Elas podem ganhar muito mais e ainda assim ter muito pouco controle sobre os negócios construídos ao seu redor.

Uma comunidade pode receber renda de um projeto e ainda assim perder parte da autonomia sobre seu território, tornar-se dependente de um único comprador ou até mesmo alterar suas práticas tradicionais para atender às demandas de um mercado externo.

E o conhecimento não é apenas mais uma matéria-prima.

Como atribuir a propriedade de algo desenvolvido coletivamente e transmitido entre gerações? O que acontece quando o conhecimento e o território entram em sistemas construídos em torno do registro, da propriedade intelectual e da propriedade comercial?

O reconhecimento do conhecimento tradicional deve ser celebrado, mas não deve se tornar uma oportunidade para se apropriar dele.

Convidado em

Atualmente, há muitas fotografias de povos indígenas em conferências sobre o clima. Eles aparecem em relatórios de sustentabilidade corporativa, em eventos internacionais e em apresentações sobre conservação florestal. Eles também se tornaram políticos.

A visibilidade melhorou significativamente. Mas a potência é algo completamente diferente.

Muitas das decisões importantes relativas a um projeto podem ser tomadas anos antes de a comunidade ser formalmente consultada.

Frequentemente, essas comunidades aparecem nesses projetos como parceiras, beneficiárias ou guardiãs da floresta, enquanto as decisões estratégicas relativas ao financiamento, ao desenho do programa, aos critérios de sucesso e à distribuição de recursos são tomadas em outro lugar.

A consulta gratuita, prévia e informada visa precisamente evitar isso. “Prévia” não pode significar depois que as decisões importantes já foram tomadas. “Informada” não pode significar entregar às comunidades documentos que elas não tiveram tempo nem aconselhamento independente para avaliar adequadamente.

Existe um enorme desequilíbrio quando as instituições passam anos desenvolvendo um projeto e espera-se que as comunidades tomem decisões em semanas, ou até mesmo em dias.

Eles precisam de seus próprios advogados e consultores independentes quando necessário, e de tempo para conversar entre si, inclusive com anciãos e organizações em que confiam. Também precisam saber quem lucrará com o projeto, e não apenas o que lhes foi prometido.

Acima de tudo, eles precisam poder dizer não. O consentimento não deve ser um cheque em branco assinado no início de um projeto.

As condições podem mudar; os impactos podem ser diferentes dos previstos e novos investidores podem entrar no projeto. O uso de dados ou recursos naturais também pode se expandir.

Deverá haver pontos de revisão formais ao longo de todo o ciclo de vida do projeto, com mecanismos claros para renegociação, reclamações e reparação.

O dinheiro chega com condições

Não há dúvida de que a Amazônia precisa de investimentos. Quem romantiza a pobreza em nome da proteção da floresta não está fazendo nenhum favor às pessoas que vivem lá. Pequenas empresas e cooperativas lutam para obter apoio.

O financiamento misto surgiu em parte como resposta a esses problemas. O dinheiro público e filantrópico pode assumir parte do risco que os investidores privados não estão dispostos a assumir, tornando os projetos mais atraentes para o capital comercial.

Mas se o dinheiro público torna o risco aceitável, enquanto grande parte do retorno é privado, devemos saber como os benefícios estão sendo distribuídos. Mais importante ainda, devemos analisar que tipo de projetos o sistema favorece.

Investidores gostam de coisas que podem ser medidas, reproduzidas e escaladas com um retorno rápido. A floresta é bem menos organizada.

Uma comunidade pode ter uma forma excepcional de gerir um ecossistema específico, desenvolvida em função das condições e da cultura locais, mas essa forma pode nunca se tornar um modelo capaz de ser expandido para milhares de hectares. Um projeto maior e padronizado, com métricas já conhecidas, pode ser muito mais fácil de financiar.

Lentamente, a pergunta pode mudar. Em vez de perguntarmos que tipo de financiamento funciona para a Amazônia, começamos a perguntar que tipo de Amazônia funciona para o setor financeiro.

O que o dinheiro não vê

Os mercados são particularmente ruins em enxergar coisas que não geram receita.

Não há valor comercial óbvio ou retorno financeiro em permitir que uma espécie ameaçada de extinção continue existindo, em limpar o mercúrio de um rio, em proteger uma bacia hidrográfica remota ou em preservar uma relação ecológica que os cientistas mal compreendem. Essas ações podem ser essenciais sem que se produza nada que possa ser vendido.

A natureza não opera segundo o calendário de um fundo de investimento. Um ecossistema danificado pode precisar de décadas para se recuperar.

O carbono ofereceu uma resposta para parte desse problema ao criar algo mensurável que pudesse ser comercializado.

Como resultado, houve um fluxo de dinheiro para projetos florestais, incluindo verbas que, de outra forma, talvez nunca tivessem chegado à conservação.

Mas os mercados voluntários de carbono também expuseram a dificuldade de tentar integrar uma floresta viva em um sistema de contabilidade.

Em muitos projetos florestais, os créditos dependem de uma projeção do que supostamente teria acontecido com aquela floresta se o projeto não tivesse existido. Quanto maior a projeção de desmatamento nesse cenário hipotético, maior o volume potencial de créditos gerados.

Isso cria um sério conflito de incentivos. Se você exagerar o risco futuro de desmatamento, poderá gerar mais créditos. E esses créditos têm valor financeiro.

Além disso, existem outros problemas, como o “vazamento”: você protege uma área específica, mas o desmatamento simplesmente se desloca para outro lugar.

Há também a questão da permanência. Uma floresta que gerou créditos de carbono hoje pode ser destruída por um incêndio, degradada ou desmatada daqui a alguns anos. No entanto, esses créditos podem já ter sido vendidos e utilizados por uma empresa para compensar suas emissões.

Isso evidencia o quão difícil é transformar algo tão complexo e dinâmico como uma floresta em uma unidade financeira perfeitamente mensurável.

Talvez a questão mais preocupante seja esta: uma empresa pode comprar créditos de carbono e alegar ter compensado suas emissões sem necessariamente reduzir a poluição na fonte.

Isso pode criar uma espécie de licença moral para continuar emitindo: continuo queimando combustíveis fósseis aqui enquanto pago alguém para preservar uma floresta do outro lado do mundo. Mas uma coisa não anula necessariamente a outra.

Por isso, é perigoso acreditar que o mercado sozinho resolverá a crise climática.

Existe uma enorme diferença entre pagar pessoas para proteger uma floresta e pagar pessoas para proteger uma floresta para que outra pessoa possa alegar ter eliminado a poluição.

Certificações ecológicas

A nova economia criou algumas alianças muito incomuns.

Empresas dos setores de petróleo e gás, mineração e agronegócio agora atuam ao lado de governos e organizações ambientais em iniciativas de conservação. Algumas financiam programas de restauração e biodiversidade.

Esse dinheiro pode alcançar algo útil. Rejeitar uma floresta restaurada por causa da identidade do financiador não faria sentido.

O que faz menos sentido é analisar a restauração sem analisar a empresa.

Se uma empresa investe milhões em conservação, como isso se compara ao que ela gasta expandindo as atividades responsáveis ​​por seu impacto ambiental? Quais são suas emissões?

Que danos estão associados às suas operações? O que permanece sem solução? Qual a proporção entre o que é destinado à conservação e o que continua a ser destinado às atividades responsáveis ​​pelo problema?

Esses não são argumentos contra o financiamento ambiental corporativo. São questões básicas de proporcionalidade.

A sustentabilidade também se tornou valiosa para as empresas. Ela afeta sua reputação, o relacionamento com os investidores e a licença social para operar. Uma empresa agora pode se associar a um problema ambiental e financiar parte da solução proposta simultaneamente.

O financiamento para a conservação está transformando os modelos de negócio dessas empresas ou está ajudando-as a continuar operando sem uma transformação proporcional de seus modelos de negócio?

Memórias antigas

Há motivos para sermos céticos em relação às grandes promessas econômicas nesta região do Brasil.

A Amazônia foi repetidamente reorganizada em torno de coisas que pessoas de fora decidiram que eram valiosas. A borracha teve seu momento, assim como a madeira, o ouro, os minerais e a terra. Riquezas foram geradas, muitas vezes muito longe das comunidades que ficaram para trás, sofrendo as consequências.

Hoje, as coisas valiosas têm nomes diferentes: carbono, biodiversidade, informação genética e conhecimento tradicional.

Esse valor pode ser gerado enquanto a floresta permanece de pé? Se sim, o valor ainda pode sair da Amazônia mesmo quando as árvores não estiverem mais lá.

Um recurso genético pode se tornar propriedade intelectual em outro lugar. Uma floresta pode gerar um ativo financeiro negociado longe do território. O conhecimento tradicional pode ajudar a criar um produto lucrativo, enquanto as pessoas que desenvolveram esse conhecimento permanecem fornecedoras em vez de proprietárias.

Devemos ter cuidado para não confundir uma mudança no que é extraído com uma mudança em quem detém o poder.

Mais do que beneficiários

O investimento público pode apoiar causas importantes, mesmo que elas nunca gerem um retorno comercial atrativo.

Mais importante ainda, os povos indígenas e as comunidades tradicionais podem ser tratados como atores políticos e econômicos com autoridade sobre seus territórios, e não como beneficiários vinculados a um projeto de terceiros.

Por gerações, essas comunidades protegeram grande parte daquilo que o resto do mundo descobriu repentinamente ser valioso. Fizeram isso muito antes de o carbono ter um preço e a biodiversidade aparecer em apresentações de investimento, frequentemente enfrentando violência, invasões de terras e políticas destinadas a marginalizá-las.

Agora todos querem algo deles e da floresta viva.

Antes de celebrarmos a quantidade de dinheiro que entra na Amazônia, precisamos perguntar:

Que tipo de Amazon queremos deixar para trás depois que todo esse dinheiro tiver passado por ela?

Porque os investimentos vêm e vão. Os governos vêm e vão. As empresas vêm e vão. Os políticos vêm e vão. Mas a floresta tem de permanecer.

Extremos climáticos avançam sobre uma Amazônia que os mapas de risco ainda não enxergavam

Estudo publicado na Communications Earth & Environment mostra que o aquecimento extremo cresce muito mais rapidamente do que as temperaturas médias e identifica uma nova região crítica no centro-norte da Amazônia

Um estudo publicado na revista científica Communications Earth & Environment, do grupo Nature, mostra que as mudanças climáticas na Amazônia são mais rápidas e territorialmente complexas do que indicam as médias anuais. O artigo “Rapid increase of climate extremes reveals new areas of concern in Amazonia” foi produzido por uma ampla equipe internacional e multidisciplinar. Jos Barlow, Nathália S. Carvalho e Cássio Alencar Nunes contribuíram igualmente e lideraram a redação, com a participação de dezenas de pesquisadores vinculados a instituições como INPE, IPAM, INPA, Embrapa, Museu Paraense Emílio Goeldi, Unicamp, UFAM, UFMT, Oxford, Lancaster, Exeter, Yale e NASA.

O principal mérito do trabalho está em deslocar o olhar das médias climáticas para os extremos, justamente as condições que produzem os efeitos sociais e ecológicos mais graves. A equipe analisou aproximadamente 7 milhões de quilômetros quadrados da Amazônia, divididos em cerca de 57,9 mil células com resolução de 11 quilômetros, utilizando dados de temperatura, precipitação, déficit de pressão de vapor e déficit hídrico acumulado entre 1981 e 2023. Os pesquisadores também consideraram as variações regionais do ano hidrológico e da duração dos períodos secos e úmidos.

Os resultados são alarmantes. Enquanto a temperatura média anual aumentou cerca de 0,21 °C por década, as temperaturas máximas extremas durante o período mais seco cresceram 0,49 °C por década. Isso representa aproximadamente 2,11 °C em 43 anos e uma velocidade de aquecimento mais de duas vezes superior àquela revelada pela tendência média anual.

O achado mais preocupante é territorial. A Amazônia meridional continua aparecendo como a região que mais aquece quando se observam as médias, sobretudo por causa do desmatamento e da degradação florestal. Entretanto, a análise dos extremos revelou uma extensa área crítica no centro-norte da Amazônia, até agora pouco destacada nos mapas de risco. Mais de 700 mil quilômetros quadrados registraram aumentos iguais ou superiores a 0,75 °C por década nas temperaturas máximas extremas da estação seca, o equivalente a mais de 3,2 °C durante o período analisado.

Essa região abriga florestas conservadas, savanas nativas, unidades de conservação e importantes territórios indígenas, incluindo áreas dos povos Yanomami e Waimiri-Atroari. Os efeitos dos extremos climáticos já aparecem na mortalidade de mamíferos, na redução de populações de aves, nas alterações das comunidades de peixes, na retração das superfícies aquáticas, nos incêndios em Roraima e nas florestas inundáveis do Rio Negro, além do agravamento da poluição atmosférica e das internações hospitalares em Manaus.

Outro resultado relevante é que o aumento do estresse hídrico está associado principalmente à elevação da temperatura, e não a uma redução generalizada das chuvas. Temperaturas maiores ampliam a demanda evaporativa da atmosfera e podem intensificar a perda de água pelo solo e pela vegetação. Assim, a floresta pode enfrentar condições progressivamente mais secas e inflamáveis mesmo sem uma diminuição proporcional da precipitação.

A equipe reconhece incertezas relacionadas às estimativas de evapotranspiração e às diferenças entre os bancos de dados de chuva. Entretanto, a retirada do episódio extremo de 2023-2024 reduziu a magnitude de algumas tendências sem alterar o padrão espacial principal. O centro-norte continuou concentrando os maiores aumentos das temperaturas extremas e do déficit hídrico, indicando uma transformação acumulada ao longo de mais de quatro décadas.

À luz do conceito de violência lenta elaborado por Rob Nixon, o estudo mostra como a crise climática se acumula em alterações graduais da temperatura, da umidade, da disponibilidade de água, da saúde humana e da sobrevivência das espécies. Os seus efeitos tornam-se visíveis em incêndios, secas e mortandades, mas suas causas permanecem dispersas no tempo e frequentemente distantes das populações atingidas.

A separação entre as principais frentes de desmatamento e a nova área de extremos climáticos também impede que a crise seja atribuída apenas a fatores locais. O desmatamento regional agrava o problema, mas as emissões globais têm papel decisivo. Os países ricos e grandes emissores históricos carregam, portanto, responsabilidade direta pela alteração das condições climáticas de territórios amazônicos que pouco contribuíram para produzi-la.

O artigo deixa uma advertência incontornável: olhar apenas para médias climáticas e mapas tradicionais de desmatamento significa enxergar uma parte cada vez menor do problema. Os extremos avançam mais rapidamente, alcançam territórios antes considerados menos ameaçados e produzem uma nova geografia do risco amazônico. Enquanto o debate público espera o desastre se tornar visível, a violência climática lenta continua preparando as condições para que ele aconteça.

Quando a conservação se torna uma mercadoria

Transporte de toras de árvores da floresta para a serraria rio abaixo, aproveitando a correnteza, exploração madeireira na Amazônia, Brasil. Crédito: Ricardo Beliel / BrazilPhotos / Alamy

Por Monica Piccini para “YourVoiz” 

O Brasil aposta que a Amazônia pode ser protegida tornando suas florestas economicamente valiosas, por meio da exploração madeireira, de produtos florestais e de créditos de carbono. Mas, à medida que mais florestas públicas são abertas ao comércio, o desafio é estabelecer se o uso comercial pode permanecer dentro dos limites ecológicos da floresta.

A Amazônia sempre atraiu pessoas em busca de algo valioso. Desde os tempos coloniais do Brasil, com a chegada dos portugueses em 1500, os recursos naturais, incluindo madeira, açúcar, ouro, diamantes, borracha, café, minerais, gado e terras, têm gerado ondas de extração na floresta.

Atualmente, as florestas públicas podem fornecer óleos, sementes, frutos, madeira, serviços ambientais e, segundo regras mais recentes, créditos de carbono, mantendo-se oficialmente protegidas e em pé.

O Brasil chama isso de manejo florestal sustentável . A ideia é que, se uma floresta viva tem valor econômico , há menos incentivo para destruí-la. A recuperação da floresta, no entanto, ocorre em uma escala de tempo muito maior do que o planejamento comercial. As árvores levam décadas, às vezes séculos, para crescer. O que importa é o que resta após a exploração madeireira e se as árvores de valor comercial se recuperaram antes que a colheita recomece.

Um estudo publicado na revista Forest Ecology and Management testou 27 cenários diferentes de exploração madeireira na Amazônia brasileira para verificar se a produção comercial de madeira poderia ser mantida ao longo de colheitas repetidas.

Em condições semelhantes às utilizadas atualmente nas concessões florestais brasileiras, com colheita de cerca de 15 a 20 metros cúbicos de madeira por hectare e retorno após 35 anos, a produção madeireira poderia ser mantida durante o primeiro ciclo, mas não no mesmo nível posteriormente.

Plinio Sist, cientista florestal sênior da Unidade de Pesquisa Florestas e Sociedades do CIRAD (Centro Francês de Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento Internacional) e principal autor da pesquisa, explicou:

O problema não é necessariamente se a floresta permanece de pé após a exploração madeireira. A biomassa e a biodiversidade florestal podem se recuperar relativamente bem quando a exploração madeireira é cuidadosamente controlada. O problema são as árvores de madeira valiosa. Elas se recuperam muito mais lentamente.

No atual ciclo de colheita, estudos sugerem que apenas cerca de metade do volume original de madeira pode ter se recuperado até o retorno dos madeireiros. Assim, uma floresta pode parecer verde e saudável vista de cima, mas já não conter madeira comercial suficiente para sustentar o mesmo nível de colheita.

O cenário mais sustentável no estudo envolvia a colheita de 10 metros cúbicos por hectare a cada 60 anos. O material explicativo subsequente do CIRAD descreve o ciclo de corte correspondente como sendo de 65 anos. Também assumiu que 90% das espécies de madeira potencialmente colhíveis teriam valor comercial, em comparação com cerca de 20% nas práticas atuais.

Sist argumenta que, para uma produção madeireira verdadeiramente sustentável, a indústria talvez tenha que aceitar extrair consideravelmente menos da floresta e esperar muito mais tempo antes de retornar a ela. Ele disse:

Nossas simulações sugerem que a exploração madeireira deve ser limitada a cerca de 10 metros cúbicos por hectare, que uma gama mais ampla de espécies de madeira deve ser utilizada e que as florestas devem ter um período de cerca de 60 anos antes de serem exploradas novamente.

Nessas condições, a exploração madeireira poderia ser sustentável a longo prazo. Mas há uma contrapartida importante: uma exploração verdadeiramente sustentável produziria muito menos madeira do que o mercado demanda atualmente. Devemos reconhecer que a floresta tem limites ecológicos. Não podemos simplesmente exigir que ela continue produzindo a mesma quantidade indefinidamente.

Uma floresta se torna um investimento

Pau-Rosa faz parte de uma expansão muito maior de concessões florestais na Amazônia. A Floresta Nacional Pau-Rosa abrange cerca de 828.000 hectares e situa-se entre os rios Madeira e Tapajós, uma região de imensa riqueza ecológica. Cerca de 249.000 hectares estão atualmente propostos para concessão de manejo florestal sustentável. Até agosto de 2026, o projeto ainda não havia sido licitado. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) havia programado o edital de licitação para o final de 2026 e o ​​leilão para o primeiro trimestre de 2027.

Os documentos do projeto governamental afirmam que as concessões visam proteger a biodiversidade e apoiar o desenvolvimento sustentável, permitindo, ao mesmo tempo, o uso comercial da floresta. Espera-se que essa mesma floresta seja, simultaneamente, produtiva comercialmente e conservada.

Pau-Rosa é apenas um dos vários projetos de concessão em toda a região. A Floresta Nacional de Castanho Glebe , a Floresta Nacional do Amapá , a Floresta Nacional de Jatuarana (quatro Unidades de Manejo Florestal, UMFs), as Florestas Nacionais de Iquiri Anauá Bom Futuro (duas UMFs) e Balata-Tufari três UMFs ) estão entre as outras florestas amazônicas envolvidas em projetos de concessão, embora os projetos estejam em diferentes estágios, desde estudos e preparação de licitações até leilões e concessões contratadas.

Esses projetos são coordenados pelo Serviço Florestal Brasileiro (SFB), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas do Brasil, e contam com o apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em sua estruturação.

Cada concessão tem seus próprios limites e plano de gestão, mas em toda a região, espera-se que mais florestas públicas produzam madeira e outras formas de renda, mantendo-se em pé.

Fonte da imagem: Hub de Projetos BNDES 

Algumas dessas florestas públicas e unidades de concessão estão localizadas dentro da área mais ampla influenciada pela infraestrutura de transporte associada ao corredor da rodovia BR-319, ou são afetadas por ela .

Pesquisas e avaliações ambientais têm identificado repetidamente a melhoria do acesso rodoviário nesta parte da Amazônia como um fator de pressão sobre florestas remotas, áreas protegidas e comunidades indígenas. Estradas existentes e planejadas podem criar vias para extração ilegal de madeira e mineração, grilagem de terras, crime organizado e outras atividades ilícitas, além de aumentar o risco de desmatamento e degradação.

Madeira sustentável

Um plano de gestão pouco significa se a origem da madeira não for confiável.

Um estudo de 2025 publicado na revista One Earth examinou registros de madeira e observações de satélite no estado do Pará, Brasil, entre 2009 e 2019, e constatou lacunas significativas entre o que estava registrado em papel e o que podia ser observado na floresta. Embora 96% do volume de madeira que entrou na cadeia de suprimentos formal pudesse ser vinculado a uma licença de exploração madeireira por localização, apenas 45% da exploração detectada por satélite coincidiu com áreas com autorização legal.

Os pesquisadores também encontraram casos em que a quantidade de madeira declarada como proveniente de uma área autorizada parecia inconsistente com a quantidade de extração madeireira realmente visível no local. Segundo os pesquisadores, essas inconsistências criam oportunidades para que as licenças de exploração madeireira sejam usadas para lavar madeira extraída ilegalmente em outros lugares.

Mas o problema não desapareceu, já que operações de fiscalização e investigações recentes continuam a encontrar evidências de que licenças fraudulentas, créditos florestais e outros documentos podem ser usados ​​para disfarçar a verdadeira origem da madeira extraída ilegalmente.

Em 2025, uma investigação da Agência de Investigação Ambiental (EIA) ligou cerca de 53.000 metros cúbicos de madeira, associados a operações autorizadas ou irregulares, a cadeias de abastecimento que chegavam aos Estados Unidos e à Europa.

A madeira pode parecer rastreável e legal em um banco de dados oficial sem a documentação que comprove que ela realmente veio da floresta indicada nos registros.

Grande parte da Amazônia é remota, e a exploração madeireira sob a copa das árvores pode ser difícil de comparar com o que acontece nos registros oficiais. Um plano de manejo pode definir como a exploração madeireira deve ser feita, mas verificar se essas regras são seguidas na prática é muito mais difícil.

Uma árvore em pé se transforma em mercadoria

A exploração madeireira deixou de ser a única forma de uma floresta gerar renda. Em outubro de 2025, o Serviço Florestal Brasileiro introduziu normas que permitem às concessões de manejo florestal já em vigor a inclusão de atividades voltadas à redução das emissões provenientes do desmatamento e da degradação florestal, com o objetivo de gerar, certificar e comercializar créditos de carbono.

Em 25 de março de 2026, o Brasil realizou seu primeiro leilão federal para concessão florestal com foco em restauração ecológica na Floresta Nacional do Bom Futuro, em Rondônia. A Re.green venceu o leilão para uma unidade de manejo de aproximadamente 51.200 hectares. A concessão tem duração de 40 anos e permite a geração de receita por meio de ativos ambientais, incluindo créditos de carbono e produtos da silvicultura de espécies nativas.

A Re.green foi a vencedora do Earthshot Prize de 2025. Seus clientes e parceiros incluem Microsoft, Nestlé, Vivo e a farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk. Seu investimento e apoio vêm da gestora de ativos Dynamo , da holding privada do Grupo Moreira Salles – Brasil Warrant (BW), da empresa de private equity e investimentos Lanx Capital , da empresa de private equity Principia Capital e da Gávea Investimentos .

O mercado voluntário de carbono adiciona mais uma fonte de receita . Uma árvore em pé pode gerar renda por meio do carbono que armazena. Seu carbono é medido, calculado e transformado em crédito que pode ser negociado. Para projetos de restauração, os créditos de carbono podem fornecer recursos para recuperar terras degradadas, mas também transformam a capacidade natural da floresta de armazenar carbono em algo que pode ser comprado e vendido.

O Dr. Thales AP West, professor assistente titular do Instituto de Estudos Ambientais (IVM) da Universidade Livre de Amsterdã, falou sobre as salvaguardas do mercado de créditos de carbono :

Se as empresas compram créditos de projetos florestais, a floresta precisa estar lá. Se ela desaparecer, os créditos também desaparecem. O problema é que mesmo cálculos certificados e auditados podem carecer de credibilidade — a certificação por si só não garante nada.

A maioria dos projetos dura apenas algumas décadas; uma vez expirados, seus créditos também podem expirar. No entanto, ninguém quer falar sobre isso porque é inconveniente. O mercado voluntário simplesmente optou por não levar a questão da permanência a sério.

Os volumes de madeira e as toneladas de carbono descrevem apenas parte do valor de uma floresta. As florestas sustentam o solo, a água, a vida selvagem e as relações entre as espécies. Para as pessoas que viveram nelas e dependeram delas por gerações, elas também são lar, alimento e remédio.

Os mercados voluntários de carbono atribuem um valor mensurável e negociável a uma função de um sistema mais amplo: o armazenamento de carbono e a mitigação das mudanças climáticas. Os críticos têm um nome para isso: “extrativismo verde”, argumentando que ele pode continuar a definir as florestas por meio do valor econômico que elas geram, mesmo quando as árvores permanecem de pé.

Sist argumenta que atribuir um preço a uma floresta em pé pode ajudar a protegê-la, mas apenas se a conservação não se tornar mais uma justificativa para o crescimento econômico desenfreado. Ele disse:

Sempre existe um perigo quando atribuímos um valor financeiro à natureza. Ao mesmo tempo, gerar renda a partir de uma floresta em pé pode dar às pessoas um forte incentivo para conservá-la.

Acho que o conceito de bioeconomia não é muito útil porque abrange muitas coisas e cada um tem sua própria definição e visão do que é bioeconomia. Penso que a bioeconomia deveria ser implementada dentro de um sistema econômico que defenda o decrescimento, e não como uma solução milagrosa dentro de um sistema capitalista que não pode existir sem crescimento.

Um relacionamento antigo com um nome mais verde

Durante séculos, a floresta amazônica foi explorada, vista como fonte de borracha, madeira de lei, minerais, petróleo, pastagens para gado e terras. As concessões florestais atuais operam sob regulamentação e monitoramento, com normas de gestão destinadas a limitar os danos associados à extração descontrolada.

Essas regras, por si só, não tornam o modelo transparente ou sustentável. Um sistema que valoriza as florestas principalmente por meio da madeira, do óleo, do carbono e de outros produtos comercializáveis ​​ainda corre o risco de negligenciar valores ecológicos e sociais mais difíceis de precificar.

A sustentabilidade dessas concessões dependerá do que acontecer na floresta ao longo do tempo: a recuperação das árvores colhidas, a condição dos rios e solos, a sobrevivência da vida selvagem, a influência das comunidades locais e indígenas nas decisões e quanta da riqueza gerada permanece nos locais onde é produzida.

Em conjunto, eles fornecem uma visão mais significativa da condição da floresta a longo prazo do que o valor de uma concessão ou o número de créditos de carbono que ela produz.

O Brasil precisa de alternativas à extração ilegal de madeira, à grilagem de terras e ao desmatamento. Concessões cuidadosamente gerenciadas poderiam talvez reduzir algumas dessas pressões, mas sua sustentabilidade a longo prazo ainda depende da capacidade de manter a recuperação ecológica e uma fiscalização eficaz ao longo de repetidos ciclos de exploração.

Sist alertou que as concessões não devem ser encaradas como a única solução. Ele disse:

O sistema de concessões florestais do Brasil está entre os melhores do mundo tropical, mas as regras de exploração precisarão ser alteradas para que seja sustentável a longo prazo. E as concessões, por si só, não conseguem suprir toda a demanda de madeira do mercado.

O Brasil precisa de uma abordagem muito mais abrangente: acabar com a extração ilegal de madeira, permitir que comunidades florestais e pequenos agricultores gerenciem as florestas de forma sustentável e restaurar os milhões de hectares de floresta e terra degradadas. Precisamos diversificar não apenas a origem da madeira, mas também quem tem condições de produzi-la.

O verdadeiro teste começa após a assinatura do contrato e o início da exploração madeireira. Os efeitos não podem ser avaliados apenas no próximo ano fiscal ou mesmo durante a vigência de uma concessão de 40 anos. Eles se tornarão mais claros em prazos muito mais longos, observando se as árvores de grande porte continuarão a se regenerar, se os rios e ecossistemas florestais permanecerão saudáveis ​​e se as pessoas que dependem da floresta conquistarão um papel significativo nas decisões sobre o seu futuro.

Direito de resposta: O Serviço Florestal Brasileiro (SFB) foi contatado para entrevistas a fim de discutir algumas das questões levantadas neste artigo. Até o momento da publicação, nenhuma resposta às perguntas enviadas havia sido recebida.


Fonte: YourVoiz

A carne bovina brasileira no centro da máquina global do desmatamento

Novos dados mostram que a pecuária bovina brasileira respondeu sozinha por cerca de um quarto do desmatamento mundial associado à expansão agropecuária entre 2001 e 2023, desmontando também a ideia confortável de que a destruição das florestas brasileiras ocorre principalmente para alimentar consumidores estrangeiros.

Uma nova análise publicada pelo Our World in Data coloca números bastante incômodos sobre uma relação que há décadas é conhecida no Brasil: a expansão da pecuária bovina continua sendo um dos principais motores da conversão de florestas em áreas produtivas. O que chama atenção agora é a dimensão global do fenômeno, pois, segundo os dados compilados a partir do estudo de Chandrakant Singh e Martin Persson, a produção de carne bovina respondeu por 41% do desmatamento mundial associado à expansão agropecuária entre 2001 e 2023, sendo que aproximadamente 63% desse desmatamento relacionado à carne ocorreu no Brasil. Em outras palavras, a carne bovina produzida no Brasil respondeu sozinha por cerca de 26% de todo o desmatamento mundial associado à produção agropecuária nesse período.

A figura produzida pelo Our World in Data torna essa desproporção particularmente evidente. Depois da carne bovina aparecem as oleaginosas, categoria que inclui soja e dendê, com 16%, seguidas pela produção florestal e pelos cereais, ambos com aproximadamente 12%. Nenhuma dessas atividades, entretanto, chega perto da participação da pecuária bovina, e dentro dos 41% atribuídos mundialmente à carne o Brasil ocupa uma posição absolutamente dominante, o que transforma a pecuária brasileira em um componente estrutural do processo global de destruição de florestas, particularmente grave porque essa transformação territorial avança sobre alguns dos ecossistemas de maior biodiversidade do planeta, entre eles a Amazônia e o Cerrado.

O dado mais desconfortável talvez esteja dentro do Brasil

Há, entretanto, outro resultado apresentado pelo Our World in Data que merece tanta atenção quanto o primeiro. A narrativa predominante costuma associar o desmatamento brasileiro à demanda internacional por commodities, especialmente carne e soja, e essa relação existe e evidentemente não deve ser minimizada. Mas os dados sobre o comércio do desmatamento indicam que ela explica apenas uma parcela do problema, pois aproximadamente 85% do desmatamento brasileiro associado à demanda por produtos teria sido impulsionado pelo próprio mercado doméstico, enquanto apenas cerca de 15% estaria relacionado à demanda internacional.

Esse dado muda significativamente a maneira como o problema precisa ser discutido. Se a maior parte da pressão que produz desmatamento está relacionada ao mercado interno, não podemos simplesmente atribuir a destruição da Amazônia e do Cerrado aos consumidores chineses, europeus ou norte-americanos. Existe uma cadeia econômica e territorial profundamente enraizada dentro do próprio Brasil, envolvendo abertura de pastagens, apropriação e valorização fundiária, expansão da fronteira agropecuária, frigoríficos, sistemas de distribuição e consumo de carne. Nesse sentido, uma parte substancial do problema não começa no supermercado europeu, mas dentro do próprio território brasileiro e termina também no mercado brasileiro.

O problema da soja também não desaparece

Outro aspecto importante é evitar uma leitura excessivamente simplificada desses dados, pois o fato de a pecuária aparecer muito à frente das oleaginosas não significa que a expansão da soja tenha importância secundária na transformação territorial brasileira. O próprio Our World in Data lembra que grande parte da soja mundial não é consumida diretamente pelos seres humanos, já que mais de três quartos da produção global é destinada à alimentação animal, especialmente de aves e suínos.

Além disso, os efeitos territoriais podem ocorrer indiretamente. A expansão da agricultura mecanizada sobre áreas anteriormente ocupadas pela pecuária pode deslocar rebanhos e pressionar novas fronteiras de ocupação, tornando insuficiente olhar apenas para a atividade instalada imediatamente depois da derrubada da floresta. As cadeias da carne, da soja, da terra e da infraestrutura encontram-se territorialmente articuladas, e separar artificialmente esses componentes pode acabar ocultando os mecanismos pelos quais a fronteira agropecuária continua avançando.

Há ainda uma importante lição histórica, pois a Moratória da Soja mostrou que mecanismos de controle das cadeias produtivas podem funcionar. Depois de sua implementação na Amazônia, a participação direta da soja na conversão recente de florestas caiu fortemente, embora parte da pressão territorial possa simplesmente migrar para outras regiões, particularmente o Cerrado. Isso reforça a necessidade de políticas que não se limitem a commodities ou biomas isoladamente, mas alcancem o conjunto das cadeias responsáveis pela transformação do território.

A contradição entre potência agropecuária e potência ambiental

Os números também expõem uma contradição que o discurso oficial brasileiro frequentemente prefere contornar. O Brasil apresenta-se simultaneamente como potência agropecuária e potência ambiental, mas essas duas condições somente poderão coexistir se o aumento da produção deixar definitivamente de depender da incorporação contínua de novas terras e da conversão de vegetação nativa.

Não estamos falando de uma questão marginal. Segundo o levantamento utilizado pelo Our World in Data, desde o início deste século foi eliminada globalmente uma área de floresta equivalente a aproximadamente cinco vezes o território do Reino Unido para expansão de terras agrícolas, sendo que somente a produção de carne bovina teria provocado a destruição de uma área superior a duas vezes o tamanho daquele país. É nesse contexto que aparece o dado que deveria provocar particular desconforto no Brasil: aproximadamente uma em cada quatro unidades de área florestal eliminadas no planeta para expansão agropecuária entre 2001 e 2023 esteve associada à produção brasileira de carne bovina.

Essa constatação coloca em perspectiva determinadas narrativas triunfalistas sobre o agronegócio brasileiro. Não se trata de negar sua importância econômica, tampouco de transformar produtores rurais individualmente em responsáveis por um processo histórico muito mais complexo, mas de reconhecer que existe um modelo territorial no qual a expansão da produção continua vinculada à apropriação de novas áreas, à valorização da terra e à conversão da vegetação nativa. Enquanto essa ligação permanecer intacta, recordes de produção e exportação precisarão ser confrontados com os custos ambientais e climáticos que normalmente permanecem fora das contas apresentadas pelo setor.

Quando a floresta entra na conta, a carne deixa de ser barata

Talvez a principal contribuição dos dados apresentados pelo Our World in Data seja justamente retirar o debate do terreno das abstrações. O desmatamento não acontece simplesmente porque existe uma entidade genérica chamada “agronegócio”, mas porque determinadas cadeias produtivas demandam terra, infraestrutura e recursos naturais e porque existem incentivos econômicos, políticos e institucionais que permitem que essa expansão continue acontecendo. No caso brasileiro, os números apontam diretamente para a pecuária bovina e mostram que sua importância na transformação das paisagens ultrapassa amplamente as fronteiras nacionais.

Quando 26% do desmatamento mundial associado à expansão agropecuária pode ser relacionado a uma única commodity produzida em um único país, já não estamos diante de uma externalidade ambiental secundária, mas de uma característica estrutural de determinado modelo de produção e ocupação territorial. Qualquer política brasileira séria de combate ao desmatamento terá, portanto, de enfrentar diretamente a cadeia da carne bovina, incluindo rastreabilidade dos animais, controle da origem dos rebanhos, desmatamento indireto, regularização fundiária, fiscalização ambiental e recuperação de áreas degradadas.

Se o Brasil pretende reivindicar protagonismo mundial no enfrentamento da crise climática e na proteção da biodiversidade, essa é uma conta que não poderá continuar escondida atrás das estatísticas de produção e exportação. A figura publicada pelo Our World in Data praticamente dispensa metáforas, pois mostra que, quando o assunto é desmatamento global, o boi brasileiro ocupa um espaço grande demais no gráfico justamente porque vem ocupando um espaço grande demais sobre o território.

Casos cruciais para a Amazônia chegam ao STF após derrotas de Lula no Congresso

Árvores margeiam o rio Oiapoque, na fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa, em Oiapoque, estado do Amapá, Brasil, 10 de março de 2026. (Foto AP/Eraldo Peres, Arquivo)

Árvores margeiam o rio Oiapoque, na fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa, em Oiapoque, estado do Amapá, Brasil, 10 de março de 2026. (Foto AP/Eraldo Peres, Arquivo)

Por Gabriela Sá Pessoa para “Associated Press” 

SÃO PAULO (AP) — O Supremo Tribunal Federal do Brasil deve analisar nos próximos dias uma série de casos que podem reformular as proteções à floresta amazônica e às comunidades indígenas que dependem dela.

Os casos abrangem desde direitos territoriais indígenas, retrocessos recentes em salvaguardas ambientais e projetos de infraestrutura. Apesar de suas diferenças, compartilham um caminho comum até chegarem ao tribunal.

Nos últimos anos, um Congresso majoritariamente conservador aprovou medidas que, segundo ambientalistas, violam direitos constitucionais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cujo governo tem priorizado uma agenda ambiental, vetou algumas medidas por completo e partes de outras.

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva discursa durante uma coletiva de imprensa na COP30, a Cúpula do Clima da ONU, em 19 de novembro de 2025, em Belém, Brasil. (Foto AP/Andre Penner, Arquivo)

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva discursa durante uma coletiva de imprensa na COP30, a Cúpula do Clima da ONU, em 19 de novembro de 2025, em Belém, Brasil. (Foto AP/Andre Penner, Arquivo)

Os casos ilustram as limitações enfrentadas pelo governo Lula. Apesar das conquistas notáveis ​​na redução do desmatamento e no direcionamento de recursos para fomentar investimentos ecológicos , o governo frequentemente enfrenta dificuldades para se contrapor a um Congresso conservador, onde os interesses do agronegócio exercem influência significativa.

“O governo é muito fraco na arena legislativa”, disse Suely Araújo, coordenadora de políticas do Observatório do Clima, uma rede de organizações ambientais sem fins lucrativos. “Frequentemente se opõe a projetos de lei antiambientais, mas não tem força política para persuadir o Congresso a votar a favor deles.”

O governo Lula não só está em minoria no Congresso, como também tem menos poder de negociação do que os governos brasileiros anteriores. Nos últimos anos, os parlamentares têm conquistado maior controle sobre o orçamento federal, uma ferramenta fundamental de negociação política.

O agronegócio, um dos setores econômicos mais poderosos do Brasil, também detém a maioria no Congresso e impulsionou medidas que enfraquecem as proteções ambientais. Como resultado, o Supremo Tribunal Federal (STF) surgiu como um mecanismo de controle do Congresso, ajudando a preservar partes da agenda ambiental de Lula quando os parlamentares pressionam na direção oposta.

O gabinete do chefe de gabinete do presidente, que coordena as relações do governo com o Congresso, afirmou em comunicado à Associated Press que não comentaria casos pendentes no Supremo Tribunal.

O Brasil é o maior produtor mundial de soja e carne bovina. Embora a maior parte da carne bovina brasileira seja consumida internamente, a maior parte da soja é exportada. De janeiro a julho de 2026, a China, maior parceiro comercial do Brasil, comprou 50% das exportações de carne bovina e 70% das exportações de soja do país, segundo dados oficiais de comércio exterior.

A Frente Agrícola Parlamentar não respondeu ao pedido de comentário. Grupos do agronegócio afirmam há tempos que se opõem ao desmatamento ilegal e apontam para o aumento da produtividade agrícola, mesmo com a redução do desmatamento.

Proteger a floresta tropical é fundamental para combater as mudanças climáticas . A Amazônia ajuda a regular o clima e os padrões de chuva, além de armazenar vastas quantidades de carbono que, se liberadas, poderiam acelerar ainda mais o aquecimento global.

Na sexta-feira, o Supremo Tribunal Federal do Brasil começou a analisar as moções finais que buscavam esclarecimentos sobre uma decisão de 2025 que rejeitou a tese do “Marco Temporal”, uma teoria jurídica apoiada pela bancada do agronegócio que restringiria as reivindicações territoriais indígenas aos territórios que eles ocupavam ou que estavam sob disputa judicial quando a Constituição entrou em vigor em 5 de outubro de 1988.

Os defensores da medida afirmam que o prazo final oferece segurança jurídica aos proprietários de terras. Grupos indígenas argumentam que ele ignora décadas de expulsões e deslocamentos forçados, particularmente durante a expansão agrícola do Brasil no século XX.

Os juízes estão analisando as moções apresentadas pelo governo, partidos políticos, agricultores e organizações indígenas, com votações previstas para 18 de agosto. Entre outras questões, espera-se que abordem as regras de indenização e os possíveis prazos para a conclusão da demarcação de terras indígenas.

Ricardo Terena, advogado da organização de defesa dos direitos indígenas Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, afirmou que algumas das propostas poderiam efetivamente paralisar futuras demarcações, adicionando entraves administrativos e ampliando os direitos de indenização para ocupantes não indígenas, permitindo que permaneçam em terras disputadas até que o pagamento seja efetuado.

Segundo a organização sem fins lucrativos Survival International, os Kawahiva remanescentes são caçadores-coletores nômades que sobreviveram a ataques e doenças e continuam evitando o contato com pessoas de fora.

Na quarta-feira, o Supremo Tribunal Federal do Brasil também deverá analisar outros dois conjuntos de casos importantes: leis estaduais que levaram ao fim da moratória da soja e uma nova lei de licenciamento ambiental que acelerou a aprovação de projetos de infraestrutura estratégicos.

Em janeiro, as principais empresas de comércio de grãos se retiraram da moratória da soja, um pacto de quase 20 anos creditado por reduzir o desmatamento da Amazônia ao proibir o cultivo de soja em terras desmatadas. O acordo ruiu depois que os principais estados produtores de soja aprovaram leis revogando os benefícios fiscais para as empresas participantes. O juiz Flávio Dino emitiu uma liminar suspendendo temporariamente a legislação estadual, e o tribunal pleno agora analisará sua decisão.

Também nesta quarta-feira, o tribunal deverá analisar uma contestação à nova lei de licenciamento ambiental que entrou em vigor em fevereiro. A lei agiliza a emissão de licenças para projetos de grande impacto, incluindo minas, rodovias e instalações industriais.

Araújo, do Observatório do Clima, afirmou esperar que a Suprema Corte derrube pelo menos as disposições da lei que os ambientalistas consideram mais claramente inconstitucionais, incluindo aquelas que permitem a autolicenciamento para projetos com impactos ambientais moderados. Ela acrescentou que a lei já está tendo consequências tangíveis na Amazônia, citando a pavimentação de uma rodovia controversa e os planos de dragagem de um importante rio sem a devida avaliação ambiental prévia.

O Ministério do Meio Ambiente defendeu a moratória da soja, afirmando que ela ajudou a reduzir o desmatamento na Amazônia, mesmo com a expansão da produção brasileira. Sobre a lei de licenciamento ambiental, o ministério disse que o governo tentou vetar as disposições consideradas problemáticas e que continua preocupado em manter os padrões mínimos nacionais.

“O Brasil precisa de um sistema de licenciamento ambiental mais eficiente, previsível, tecnicamente robusto e capaz de enfrentar os desafios de uma economia que precisa expandir os investimentos em infraestrutura, ao mesmo tempo que enfrenta as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade”, afirmou o ministério.

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A cobertura da Associated Press sobre clima e meio ambiente recebe apoio financeiro de diversas fundações privadas. A AP é a única responsável por todo o conteúdo. Encontre os padrões da AP para trabalhar com organizações filantrópicas, uma lista de apoiadores e áreas de cobertura financiadas em AP.org .

Gabriela Sá Pessoa  trabalha como correspondente da Associated Press na região da Amazônia brasileira. Ela reside em São Paulo, Brasil.

O preço do consenso

O Brasil se tornou um campo de testes global para finanças verdes, agricultura regenerativa e restauração florestal. À medida que governos, empresas e organizações filantrópicas se alinham cada vez mais em torno das mesmas soluções, a concentração de influência por trás dessas iniciativas merece uma atenção mais detalhada

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

Poucos países enfrentam um desafio da magnitude do Brasil. Lar de cerca de 60% da floresta amazônica, um dos mais importantes sumidouros de carbono do mundo, o país também é o maior exportador mundial de carne bovina e um dos principais produtores agrícolas. Proteger as florestas sem prejudicar uma indústria que movimenta bilhões de dólares tornou-se um dos principais testes da política ambiental brasileira.

Em vez de desacelerar a expansão agrícola, o Brasil tem buscado conciliar produção e conservação. Governos, multinacionais do setor alimentício, bancos de desenvolvimento , fundações filantrópicas e organizações ambientais estão investindo fortemente em restauração, agricultura regenerativa, rastreabilidade digital do gado, mercados de carbono e bioeconomia. Juntos, argumentam, esses métodos podem reduzir as emissões, permitindo que a produção agrícola continue crescendo.

As parcerias são documentadas publicamente, assim como os acordos de financiamento, os conselhos consultivos e as nomeações governamentais. Menos atenção tem sido dada à frequência com que as mesmas instituições, e por vezes os mesmos indivíduos, reaparecem nessas parcerias. Rastrear essas conexões oferece uma visão mais clara de quem está ajudando a moldar uma das transições ambientais mais influentes do mundo.

A indústria da carne bovina

O Brasil possui o segundo maior rebanho bovino do mundo, com cerca de 239 milhões de cabeças, e lidera as exportações globais de carne bovina há mais de duas décadas. Segundo a Associação Brasileira dos Exportadores de Carne Bovina ( ABIEC ), as exportações ultrapassaram 2,8 milhões de toneladas em 2024, gerando cerca de US$ 12,8 bilhões. A China permaneceu como o maior mercado, respondendo por 46% das exportações brasileiras. A carne bovina é fundamental para o superávit comercial e para a economia rural do Brasil, tornando a pecuária política e economicamente indissociável das políticas ambientais.

Três empresas dominam o setor. A JBS , a maior processadora de carne do mundo, registrou receitas de cerca de US$ 77 bilhões em 2024. A Marfrig , após sua fusão com a BRF, tornou-se parte da MBRF Global Foods, com receitas anuais superiores a US$ 29 bilhões. A Minerva Foods exporta para mais de 100 países e consolidou o abate de cerca de 5,9 milhões de cabeças de gado em 2025. Juntas, as três empresas exercem enorme influência sobre o comércio global de carne bovina e o debate em torno da rastreabilidade, emissões e uso da terra.

Em 2026, a JBS anunciou que estava abandonando sua meta de atingir emissões líquidas zero até 2040.

Gema Hoskins, líder global em clima da ONG Mighty Earth, disse :

Recuar em relação a metas mensuráveis ​​não diminui o escrutínio a que a JBS será submetida por seu histórico de destruição climática e ambiental, incluindo poluição, desmatamento, grilagem de terras, violações dos direitos humanos e corrupção.

A organização sem fins lucrativos Changing Markets Foundation estimou que a JBS sozinha gerou cerca de 241 milhões de toneladas de emissões equivalentes de dióxido de carbono em 2023, mais do que muitas nações industrializadas.

Em seu relatório intitulado “A Agenda da Carne” , a organização escreve:

A realidade é bem diferente da retórica: a indústria é responsável por uma série de crimes bem documentados – do desmatamento às práticas exploratórias, passando pela apropriação de terras e poluição – que permeiam as cadeias de suprimentos de gigantes globais da carne como JBS , Marfrig e Minerva.

Embora a atenção internacional tenha se concentrado principalmente na Amazônia, o Cerrado passou por uma extensa conversão agrícola. Pesquisas da Changing Markets Foundation estimaram que um em cada três bovinos processados ​​pelas três maiores empresas de carne do Brasil provém de áreas desmatadas na região. Grande parte dessa conversão ocorreu em conformidade com o Código Florestal brasileiro, evidenciando a distinção entre conformidade legal e sustentabilidade ecológica.

Os sucessivos governos responderam sem tentar reduzir a produção. No âmbito do Plano Safra 2026/27 , Brasília destinou cerca de US$ 103 bilhões em crédito rural subsidiado para a agricultura comercial e aproximadamente US$ 16 bilhões, por meio do Pronaf, para a agricultura familiar. As linhas de crédito do Programa ABC+ apoiam a restauração de pastagens, sistemas integrados de produção agrícola, pecuária e silvicultura, agricultura de baixo carbono e agricultura de precisão. O objetivo é produzir a partir das terras existentes, em vez de desacelerar a expansão da pecuária brasileira.

A indústria da carne agora apresenta o pastoreio regenerativo, a redução do metano, a restauração florestal e a rastreabilidade digital não apenas como compromissos ambientais, mas como necessidades comerciais, refletindo a crescente pressão de varejistas internacionais e mercados de exportação. Produtividade e sustentabilidade são cada vez mais retratadas como objetivos complementares, e não concorrentes.

Essa mudança vai muito além da pecuária. Com a expansão da agenda ambiental brasileira, profissionais têm transitado entre o governo, organizações ambientais, fundações filantrópicas e o agronegócio, levando consigo conhecimento e influência. Não há nada de incomum em carreiras que abrangem diferentes setores, mas, à medida que a política ambiental se ampliou para incluir finanças sustentáveis, reforma agrária e bioeconomia , essas redes profissionais tornaram-se cada vez mais influentes.

O povo

A crescente sobreposição entre governo, filantropia, organizações de conservação e agronegócio se reflete não apenas em parcerias institucionais, mas também nas trajetórias profissionais das pessoas que moldam a agenda ambiental do Brasil.

Carina Pimenta é um exemplo disso . Antes de se tornar Secretária Nacional de Bioeconomia no Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, ela cofundou a Conexsus , que apoia negócios comunitários e cadeias de suprimentos sustentáveis. Anteriormente, trabalhou no Fundo Vale , organização sem fins lucrativos criada pela gigante mineradora Vale para promover a conservação e restauração florestal, bem como a bioeconomia na Amazônia. Sua trajetória profissional reflete um padrão mais amplo, no qual a experiência adquirida em organizações da sociedade civil e filantrópicas contribui cada vez mais diretamente para as políticas públicas.

Valmir Ortega trilhou um caminho intersetorial semelhante. Trabalhou para o Ministério do Meio Ambiente, fundou a Belterra Agroflorestas e cofundou a Conexsus e a Rio Capim Agropastoril , empresa associada a sistemas regenerativos de produção animal. É também membro do conselho da FUNBIO e do WRI Brasil. A própria Belterra Agroflorestas foi criada em 2020 com o apoio do Fundo Vale . Em vez de se limitar ao governo, ao setor privado ou à sociedade civil, a experiência de Ortega abrange os três.

Roberto Waack dedicou décadas à liderança de organizações como a FUNBIO e o Forest Stewardship Council, além de ter atuado nos conselhos da Marfrig , WWF Brasil , Wise Plásticos, Instituto Ethos, Instituto Ipê e Instituto Arapyaú . Ele também integra os órgãos diretivos da Natura, Tupy e re.green. É ainda membro associado da Chatham House .

Os defensores argumentam que a experiência nesses setores ajuda a reduzir a lacuna entre conservação e agronegócio. Os críticos, no entanto, questionam se as instituições podem permanecer totalmente independentes enquanto trabalham tão de perto com as indústrias que buscam influenciar.  

Os cientistas tornaram-se parte da mesma paisagem. A pesquisa de Carlos Nobre sobre os pontos de inflexão da Amazônia moldou a compreensão internacional do desmatamento tropical, e ele tem argumentado consistentemente que a pecuária é responsável por cerca de 90% do desmatamento da Amazônia. Em uma entrevista ao Democracy Now! em novembro de 2025, ele disse :

90% do desmatamento nas terras baixas da Amazônia brasileira está relacionado à pecuária. E quando fazemos os cálculos, o Brasil é o único país do mundo onde 70% das emissões de gases de efeito estufa provenientes de combustíveis fósseis são resultado da mudança no uso da terra, cerca de 70% das emissões, 40% do desmatamento e cerca de 20 a 25% da agricultura, principalmente da pecuária. O gado, em particular, emite muito metano, assim como todos os ruminantes. Portanto, estima-se que 55% das emissões no Brasil estejam relacionadas à pecuária, ou seja, ao desmatamento para a criação de gado e à emissão de metano pelo gado.

Paralelamente ao seu trabalho acadêmico, Nobre integra o conselho consultivo do JBS Fund for the Amazon, uma organização sem fins lucrativos apoiada pela empresa de carnes JBS que promove o desenvolvimento sustentável e a bioeconomia. Ele também faz parte do conselho consultivo da Conservation International Brasil ( CI-Brasil ), é membro fundador do WRI Brasil e tem sido uma das principais forças motrizes por trás da Amazônia 4.0 , uma iniciativa que promove uma nova sociobioeconomia para a Amazônia.

Consideradas individualmente, nenhuma dessas carreiras é incomum. Juntas, elas revelam como a expertise, a influência e a tomada de decisões circulam por um grupo relativamente interconectado de instituições públicas, organizações de conservação, fundações filantrópicas e agronegócio. O mesmo padrão torna-se ainda mais evidente quando se examina o fluxo de financiamento.

O dinheiro

O dinheiro tornou-se tão importante quanto a legislação na definição da agenda ambiental do Brasil. Na última década, bancos de desenvolvimento, fundações filantrópicas, empresas multinacionais e organizações ambientais canalizaram bilhões de dólares para a restauração florestal, a agricultura regenerativa, o financiamento sustentável e a bioeconomia . Embora essas iniciativas sejam gerenciadas de forma independente, elas frequentemente apoiam modelos semelhantes de desenvolvimento rural.

Restaurar Amazônia é um exemplo . Gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social ( BNDES) , por meio do Fundo Amazônia , o programa planeja restaurar 15.000 hectares em Terras Indígenas (TI), Unidades de Conservação (UC), assentamentos de reforma agrária e pequenas propriedades rurais dentro do chamado Arco de Restauração, uma região que abrange 256 municípios onde ocorre a maior parte do desmatamento na Amazônia.

Em vez de ser implementado diretamente pelo Estado, o programa é coordenado por três organizações: o Instituto Brasileiro de Administração Municipal ( Ibam ), a Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável ( FBDS ) e a Conservation International Brasil ( CI-Brasil ), cada uma responsável por uma parte da Amazônia Legal.

O financiamento provém de cerca de 87 milhões de dólares do Fundo Amazônia, juntamente com mais 9,7 milhões de dólares da Petrobras , tornando a petrolífera estatal brasileira uma das principais financiadoras do programa.

Os defensores argumentam que o projeto restaurará florestas degradadas, ao mesmo tempo que criará empregos, fortalecerá as economias locais e ajudará o Brasil a cumprir seus compromissos climáticos. Mas ele também evidencia uma contradição notável.

A Petrobras , cujo negócio se baseia na produção de petróleo e gás, está ajudando a financiar um dos programas de restauração florestal do Brasil. A empresa apresenta o investimento como parte de seu compromisso com soluções climáticas baseadas na natureza. Ao mesmo tempo, seu envolvimento ilustra como as maiores empresas emissoras de gases de efeito estufa e indústrias extrativas do mundo estão se tornando participantes influentes na política ambiental.

Uma investigação recente da jornalista Mirna Wabi-Sabi acrescentou outra dimensão a esse debate. Examinando registros de financiamento, parcerias e declarações públicas, a investigação concluiu que a Petrobras gastou centenas de milhões em patrocínios ambientais que vão além de projetos de conservação, ajudando a fortalecer a reputação pública da empresa. Constatou-se que diversas organizações que recebem financiamento da Petrobras permaneceram praticamente em silêncio sobre os planos da empresa de expandir a exploração de petróleo, inclusive na sensível Margem Equatorial.

Os resultados levantam questões incômodas sobre se o patrocínio ambiental se tornou uma poderosa ferramenta de reputação, obscurecendo a linha divisória entre a conservação genuína e a influência corporativa.

A mesma combinação de políticas públicas e financiamento privado é visível em outros lugares. O Bezos Earth Fund está apoiando o governo do Pará e a The Nature Conservancy (TNC) no desenvolvimento de um sistema digital de rastreabilidade de gado, que deverá abranger mais de 26 milhões de animais. O objetivo é melhorar a transparência em toda a cadeia de suprimentos de carne bovina, reduzir os riscos de desmatamento e fortalecer o acesso aos mercados internacionais.

Organizações de pesquisa têm adotado abordagens semelhantes. O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) promove sistemas de pecuária sustentáveis ​​no estado do Pará, lar do segundo maior rebanho bovino do Brasil. O WRI Brasil, o Conexsus e a Coalizão Brasileira de Financiamento da Restauração e Bioeconomia (BRBFC) estão desenvolvendo mecanismos financeiros destinados a atrair investimentos em restauração, agricultura de baixo carbono e empreendimentos comunitários.

Em conjunto, esses atores revelam um sistema cada vez mais interconectado. Muitos dependem da mesma expertise técnica, atraem financiamento semelhante e envolvem muitas das mesmas instituições. A política ambiental está sendo moldada por uma densa rede de organizações públicas e privadas que trabalham em prol de um modelo compartilhado.

As implicações

A estratégia ambiental do Brasil agora se baseia em um amplo consenso. Restauração florestal, pecuária regenerativa , rastreabilidade digital, finanças sustentáveis ​​e bioeconomia não são mais apresentados como alternativas ao crescimento agrícola, mas como formas de esse crescimento continuar, reduzindo seu impacto ambiental.

Esse consenso aproximou governos, empresas, organizações filantrópicas e ambientalistas como nunca antes. Frequentemente, financiam os mesmos projetos, assessoram as mesmas instituições e promovem políticas semelhantes. Ao fazer isso, também influenciam quais ideias atraem apoio político, autoridade científica e investimentos.

Consequentemente, a política ambiental é influenciada por uma rede relativamente pequena de organizações cujas prioridades ajudam a definir os termos do debate.

É improvável que o Brasil seja um caso isolado. Em todo o mundo, as políticas climáticas estão caminhando para o financiamento misto, parcerias público-privadas e iniciativas voluntárias de sustentabilidade. À medida que esses modelos se expandem, compreender as relações que conectam governos, empresas, pesquisadores e organizações filantrópicas pode se tornar tão importante quanto avaliar os próprios projetos.

Muitas dessas parcerias trouxeram importantes conquistas ambientais, mas quando as mesmas organizações financiam projetos, assessoram governos, produzem pesquisas e ajudam a moldar políticas, a fiscalização torna-se tão importante quanto a cooperação.

A questão é se um sistema construído sobre amplos acordos permanece aberto a contestações, responsabilização e ideias concorrentes. À medida que o consenso se consolida, compreender quem o molda pode se tornar tão importante quanto mensurar os resultados que ele proporciona.

Imagem em destaque: negócios e natureza – conceito de construção de consenso. Crédito: Malp/Alamy 


Fonte: YourVoiz

A reinvenção do gado

A maior indústria bovina do mundo pode se tornar sustentável – ou a própria sustentabilidade está sendo redefinida?

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

Florestas não foram perdidas apenas por motosserras e fogo. Por trás de cada hectare desmatado havia um modelo econômico que recompensava a conversão de florestas vivas em riqueza privada. Estradas abriram regiões remotas, a madeira financiou a primeira onda de desmatamento, o fogo consumiu o que restou, e o gado transformou terras desmatadas em um ativo que podia ser comprado, vendido, hipotecado e defendido. Dentro desse sistema, uma floresta em pé tinha pouco valor financeiro.

Hoje, o gado está sendo reestruturado. À medida que governos, investidores e agroempresas buscam formas de reduzir as emissões agrícolas, a pecuária não é mais apresentada apenas como um motor do declínio ambiental. Atualmente, está sendo promovido como parte da solução climática por meio da criação “regenerativa”, carne bovina “de baixo carbono”, rastreabilidade digital e financiamento verde.

Essa mudança vai além das práticas agrícolas. Reflete mudanças na governança ambiental, onde política climática, mercados financeiros e conservação estão se tornando cada vez mais interligados. A questão não é mais apenas como reduzir o custo ambiental da produção bovina, mas se a indústria pode continuar se expandindo enquanto afirma operar dentro dos limites ecológicos.

Como essa mudança está acontecendo, quem a está conduzindo e o que isso significa para o futuro da Amazônia? A reinvenção do gado representa uma verdadeira transição ambiental ou um modelo financeiro que permite que uma das indústrias mais poderosas do Brasil continue crescendo sob a linguagem da sustentabilidade?

Gado, desmatamento e uma narrativa em constante mudança

Cerca de 80% das terras desmatadas na Amazônia foram convertidas em pastagens. No vizinho Cerrado, um dos biomas mais biodiversos do mundo, a pecuária e a agricultura de mercadorias em grande escala substituíram os ecossistemas nativos em uma área imensa.

Décadas de monitoramento por satélite, pesquisas científicas e investigações governamentais chegam à mesma conclusão: o pasto é o uso dominante da terra estabelecido após o desmatamento amazônico, e a pecuária continua sendo seu principal motor direto. Nem todo hectare foi desmatado exclusivamente para a produção de carne bovina. O gado também serviu para ocupar terras disputadas, consolidar reivindicações especulativas e preparar propriedades para revenda ou conversão para outros usos agrícolas.

As consequências vão muito além da perda de florestas. A limpeza e queima liberam carbono acumulado ao longo de décadas ou séculos. O gado emite metano por digestão, enquanto o manejo de esterco e pastagem gera gases de efeito estufa adicionais. Substituir florestas e savanas nativas por pastagens também degrada os solos, altera sistemas fluviais, fragmenta habitats e acelera a perda de biodiversidade.

Em partes da Amazônia, a expansão do gado permaneceu intimamente ligada à apropriação de terras, reivindicações fraudulentas de propriedade e à ocupação ilegal de terras públicas, protegidas e indígenas. Promotores, jornalistas e organizações de direitos humanos documentaram repetidamente fazendas associadas ao trabalho forçado, intimidação violência contra povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos proprietários. Esses abusos não caracterizam todos os produtores, mas permanecem uma característica persistente e bem documentada da história da indústria.

Dados do Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil, compilados pela Repórter Brasil, revelaram que 65.600 trabalhadores foram resgatados de condições semelhantes à escravidão entre 1995 e 2024. Mais de 17.300 trabalhavam na criação de animais, tornando-se o setor com o maior número de casos registrados. Como observou um trabalhador resgatado: “Aqui, o gado é tratado melhor do que os trabalhadores”.

Por anos, o debate internacional enquadrou a expansão do gado e a conservação florestal como forças opostas. O desafio era limitar os danos ambientais causados por uma indústria cujo crescimento havia se tornado inseparável do avanço da fronteira agrícola.

Na última década, esse debate mudou. Governos, pesquisadores, agências de desenvolvimento, organizações ambientais, bancos, instituições filantrópicas e empresas de carne passaram de questionar se a produção bovina deveria mudar para se perguntar como ela pode ser alinhada com a política climática.

A mudança começou com a linguagem. Relatórios antes focados no desmatamento agora promovem a produção “bovina de baixo carbono”, a criação “regenerativa”, a produção “positiva para a natureza” e “sustentável”. Práticas como restauração de pastagens degradadas, melhoria da nutrição animal, redução da idade do abate e aumento da produtividade são apresentadas junto com financiamento climático, monitoramento via satélite, rastreabilidade digital e investimento ambiental.

Muitas dessas propostas oferecem benefícios ambientais reais. Restaurar pastagens degradadas é preferível a desmatar novas florestas. A rastreabilidade eficaz pode expor abusos que há muito tempo permanecem ocultos nas cadeias de suprimentos. Agências ambientais mais fortes, registros de terras confiáveis e melhor suporte técnico poderiam fortalecer produtores responsáveis, excluindo aqueles que lucram com o desmatamento ilegal.

Maior eficiência, no entanto, não necessariamente reduz o impacto ambiental. Produzir carne bovina com menos emissões por quilograma não reduz automaticamente as emissões totais, o uso da terra ou a pressão ecológica. Os animais podem atingir o peso de abate mais cedo, reduzindo a intensidade do metano, enquanto as emissões gerais continuam aumentando se o tamanho dos rebanhos e a produção continuarem crescendo.

Essa distinção é importante em um país com cerca de 238 milhões de gado, mais do que sua população humana, e a maior indústria de exportação de carne bovina do mundo. O Brasil persegue duas ambições ao mesmo tempo: apresentar a pecuária como parte de sua estratégia climática, ao mesmo tempo em que expande a escala e a competitividade de seu setor bovino.

Por trás dos relatórios, fundos de investimento e parcerias institucionais, outra história começa a surgir. A reinvenção do gado não se trata mais apenas de florestas, pastagens ou metano. Também diz respeito a crédito, dados ambientais, produtos financeiros e o mercado em rápida expansão para investimentos descritos como verdes, alinhados ao clima ou positivos para a natureza.

As organizações envolvidas não compartilham todos os mesmos objetivos, nem isso diminui o trabalho de cientistas, funcionários públicos e profissionais que passaram décadas protegendo florestas e melhorando os meios de subsistência rurais. A questão mais importante é se o gado sustentável representa uma verdadeira transformação da produção pecuária ou um modelo financeiro e tecnológico que permita à indústria continuar se expandindo.

Reescrevendo a linguagem da sustentabilidade

A transformação da indústria pecuária brasileira não começou nos ranchos. Começou com uma mudança de idioma.

Por décadas, o debate sobre a pecuária brasileira centrou no desmatamento, perda de biodiversidade, emissões de gases de efeito estufa, ocupação ilegal de terras e abusos trabalhistas embutidos nas cadeias de suprimentos de carne bovina. O objetivo, mesmo que politicamente difícil, era claro: reduzir os danos ambientais causados por uma das maiores indústrias pecuárias do mundo. Mas essa não é mais a conversa dominante.

Em vez de questionar se a produção pecuária deve continuar se expandindo, a política agora assume em grande parte que o gado continuará sendo central para a economia brasileira. O desafio passou a ser tornar a indústria mais produtiva, mais transparente, mais tecnologicamente sofisticada e mais atraente para investidores conscientes do clima.

A distinção é sutil, mas significativa. Se o problema for a escala da indústria pecuária, as respostas políticas podem incluir limitar a produção em regiões ecologicamente vulneráveis, desencorajar a expansão das fronteiras e reduzir a pressão para o crescimento contínuo. Se o problema for a ineficiência, as soluções passam a ser melhor genética, pastagem restaurada, monitoramento digital, crescimento animal mais rápido e novas formas de crédito rural.

A linguagem importa porque molda políticas. Ela influencia o que os governos medem, onde as instituições financeiras investem e o que conta como progresso ambiental. Termos como carne bovina “de baixo carbono”, pecuária “regenerativa”, produção “positiva para a natureza” e produção “sustentável” fazem mais do que descrever práticas agrícolas; Eles redefinem o próprio problema.

Essa mudança se reflete em pesquisas produzidas por meio da Amazônia 2030, uma colaboração entre o Instituto Amazônico do Homem e do Meio Ambiente (Imazon) e a Iniciativa de Política Climática (CPI). Seu trabalho reconhece o papel que a extensa pecuária, o pasto degradado e o desmatamento desempenharam na transformação da Amazônia, ao mesmo tempo em que argumenta que os investimentos futuros devem se concentrar em áreas de produção existentes, e não em novas fronteiras agrícolas.

As recomendações são práticas: redirecionar o crédito rural para ganhos mensuráveis de produtividade, expandir a assistência técnica, restaurar pastagens degradadas, fortalecer o monitoramento georreferenciado e esclarecer o status legal das florestas públicas vulneráveis à ocupação especulativa. O argumento subjacente é que o Brasil pode produzir mais carne bovina em terras já desmatadas, reduzindo o incentivo para destruir mais florestas.

A lógica é convincente. Se o pasto degradado sustenta apenas um pequeno número de gado, restaurá-lo deve aumentar a produção sem exigir novas terras. Em teoria, maior produtividade poderia poupar terras para conservação ou restauração ecológica. Se isso acontecer depende menos da produtividade do que da governança.

Rendimentos mais altos reduzem a pressão sobre as florestas apenas quando as proteções ambientais impedem a expansão e a terra restaurada é realmente conservada. Quando a fiscalização é fraca, maior eficiência pode ter o efeito oposto, tornando a produção de gado mais lucrativa, atraindo novos investimentos e aumentando a pressão para expandir.

A história não oferece uma resposta simples. A intensificação agrícola reduziu a pressão sobre a terra em algumas regiões enquanto acelerou a expansão em outras. Os resultados dependem da demanda, infraestrutura, crédito, aplicação da lei e se lucros maiores são canalizados para restaurar terras existentes ou adquirir novas propriedades.

Uma estatística ilustra esse ponto. Pesquisas citadas pela Amazônia 2030 sugerem que cada hectare de pastagem restaurada entre 2000 e 2023 coincidiu com aproximadamente 2,35 hectares de novo desmatamento. A figura descreve uma associação histórica em vez de provar que a restauração causou perda florestal, mas desafia a suposição de que ganhos de produtividade automaticamente deslocam a expansão da fronteira.

A questão central, então, não é se a pastagem pode ser tornada mais produtiva. Pode. A questão é se esses ganhos vêm acompanhados de salvaguardas que impedem que lucros maiores financiem um desmatamento adicional.

A mesma tensão permeia a linguagem mais ampla do gado “baixo carbono”.

A IDH, Iniciativa de Comércio Sustentável, promove programas que combinam restauração de pastagens, assistência técnica, financiamento e acesso ao mercado para apoiar a produção de gado de menor emissão. Suas parcerias no Brasil reúnem organizações ambientais, agronegócios, instituições financeiras e agências de desenvolvimento em torno de um objetivo comum: transformar a pecuária por meio do investimento, e não da contração.

Parceiros estratégicos da IDH no Brasil. Fonte: https://idh.org/contact/brazil 

Uma abordagem semelhante aparece no livro do Instituto de Recursos Mundiais para a Nova Economia para a Amazônia brasileira, onde a reforma pecuária faz parte de um programa mais amplo que liga universidades, ONGs, empresas e organizações de políticas públicas em torno do desenvolvimento econômico compatível com o clima.

A Nova Economia para a liderança brasileira da Amazonia. Fonte: https://www.wri.org/research/new-economy-brazil-amazon 

Outras iniciativas seguem o mesmo padrão. A Coalizão Financeira de Restauração e Bioeconomia do Brasil (BRBFC) reúne bancos comerciais, instituições de desenvolvimento, fundações filantrópicas e organizações ambientais para apoiar investimentos em grande escala em empresas de restauração e baseadas na natureza.

Essas organizações diferem em governança, prioridades e perspectiva política, e não devem ser vistas como um único projeto coordenado. Mas seus programas compartilham um vocabulário surpreendentemente semelhante: produtividade, resiliência, restauração, rastreabilidade, impacto mensurável, serviços ambientais e finanças mistas.

Juntas, essas iniciativas revelam uma mudança mais ampla na governança ambiental. A pecuária não é mais enquadrada apenas como uma responsabilidade ambiental que exige uma regulamentação mais rigorosa. Também é apresentado como uma oportunidade para investimento climático, dados ambientais e participação em mercados emergentes para carbono, biodiversidade e serviços ecossistêmicos.

As implicações vão além da pecuária. Florestas, biodiversidade e paisagens restauradas são tratadas como ativos econômicos mensuráveis. Instituições financeiras estão desenvolvendo produtos que recompensam o desempenho ambiental, enquanto as tecnologias digitais geram os dados necessários para verificar e negociar esses ativos.

O Brasil está no centro dessa mudança. Ele contém a maior floresta tropical do mundo, o vasto Cerrado, e milhões de hectares de pastagens degradadas que poderiam ser restauradas ou intensificadas. Essa combinação torna o país não apenas uma prioridade ambiental, mas também um dos maiores mercados potenciais do mundo para investimento climático.

Como o gado ocupa grande parte das terras do Brasil, ele está no centro dessa oportunidade. A pastagem pode ser apresentada simultaneamente como um problema climático, uma oportunidade de restauração e um ativo financeiro aguardando uso mais produtivo.

A reinvenção do gado, então, é muito mais do que reduzir as emissões de metano. Trata-se de reposicionar um dos maiores setores econômicos do Brasil dentro de um mercado de financiamento climático em rápida expansão.

Se isso coloca limites ecológicos acima da expansão econômica permanece a questão definidora.

mercado brasileiro de restauração florestal pode oferecer uma oportunidade de US$ 141 bilhões para empresas e investidores, segundo um relatório da Orbitas.

Seguindo o dinheiro

A reinvenção do gado não está sendo impulsionada apenas pela política ambiental. Também é moldada por uma arquitetura financeira crescente que liga metas climáticas, produção agrícola e investimento global.

Programas que promovem pecuária de baixo carbono raramente operam isoladamente. Em vez disso, elas surgem de parcerias entre governos, agências de desenvolvimento, fundações filantrópicas, bancos comerciais, gestores de investimentos, empresas de carne e organizações ambientais.

Juntos, esses atores estão redefinindo não apenas como a sustentabilidade é financiada, mas também como ela é medida.

Tal cooperação não é incomum nem inerentemente problemática. Restaurar pastagens degradadas, melhorar as cadeias de suprimentos e apoiar produtores responsáveis exigem investimentos de longo prazo que apenas o financiamento público provavelmente não proporcionará. A questão mais significativa é como essas parcerias influenciam a própria definição de sustentabilidade.

Quando os programas ambientais são projetados em torno das expectativas dos mercados financeiros, o sucesso tende a ser medido por meio de retornos de investimento, redução de riscos, escalabilidade e resultados quantificáveis. Valores que resistem a uma simples medição, como sobrevivência cultural, direitos territoriais, biodiversidade ou o valor intrínseco das florestas, podem se tornar mais difíceis de acomodar.

A IDH, Iniciativa de Comércio Sustentável, ilustra esse cenário em transformação. Estabelecida em 2008 por meio da colaboração entre o governo holandês, a sociedade civil e o setor privado, a IDH atua em cadeias globais de suprimentos de commodities, incluindo cacau, café, algodão, óleo de palma, soja e carne bovina. No Brasil, apoia a restauração de pastagens, assistência técnica e mecanismos financeiros projetados para acelerar a produção pecuária de menor carbono.

O financiamento do IDH reflete a amplitude da economia sustentável atual. Junto com o apoio do Ministério das Relações Exteriores da Holanda e da Secretaria de Estado para Assuntos Econômicos da Suíça (SECO), o financiamento estratégico veio do Ministério das Relações Exteriores da Dinamarca (DANIDA), do Ministério do Meio Ambiente da Noruega (NORAD), da União Europeia, da Fundação Bill & Melinda Gates, da Fundação Laudes, da Fundação Mastercard, da Fundação IKEA e do Escritório de Relações Exteriores, Commonwealth e Desenvolvimento do Reino Unido (FCDO).

Isso ilustra uma mudança mais ampla na governança ambiental. A política não é mais moldada apenas por governos e reguladores. Ela surge cada vez mais por meio de parcerias nas quais instituições públicas, filantropia, organizações financeiras e interesses comerciais trabalham juntos para influenciar os resultados ambientais.

Um dos exemplos mais claros é o Fundo Cria da IDHDesenvolvido com a gestora de investimentos Violet, parte do Grupo VERT, o fundo tem como objetivo ampliar o acesso ao financiamento para pequenos e médios produtores de gado em toda a Amazônia brasileira. Combina crédito rural com assistência técnica digital e acesso ao mercado, reunindo terra, dados e capital.

Até 2030, o fundo visa mobilizar US$50 milhões, apoiar 1.000 produtores e cobrir 150.000 hectares sob práticas classificadas como sustentáveis. Um investimento inicial de US$ 10 milhões está previsto para alcançar 250 agricultores que administram aproximadamente 12.000 hectares.

Para muitos produtores, o acesso a financiamento acessível continua sendo uma barreira real. Restaurar pastagens, comprar equipamentos e adotar novos sistemas de produção exigem capital que o crédito rural convencional muitas vezes não consegue fornecer.

Fundo Cria também ilustra uma mudança mais ampla. O desempenho ambiental está se tornando inseparável da participação nos sistemas financeiros. As decisões de empréstimo dependem cada vez mais de dados de produção, monitoramento geoespacial e assistência técnica digital. O acesso ao capital está ligado não apenas às práticas agrícolas, mas também à capacidade de gerar e verificar informações ambientais.

Para os produtores, isso poderia melhorar o acesso aos mercados premium, ao mesmo tempo em que recompensa um melhor desempenho ambiental. Também levanta questões importantes. Quem é o dono dos dados gerados por esses programas? Como essas informações podem influenciar futuras decisões de empréstimo? Quem determina quais sistemas de produção se qualificam como regenerativos? E o que acontece com os produtores que não podem arcar com a tecnologia necessária ou cuja documentação de terra permanece sem solução?

Esses não são argumentos contra dados ambientais ou crédito rural. Em vez disso, mostram como a inclusão financeira pode criar novas formas de dependência junto com novas oportunidades.

A escolha de Violet como parceira de investimento do fundo destaca outra tendência significativa. Empresas especializadas em finanças estruturadas e mercados de capitais estão se tornando atores centrais na política ambiental. Questões antes abordadas principalmente por meio de serviços de extensão agrícola e regulação pública são cada vez mais gerenciadas por meio de finanças mistas, investimento privado e produtos financeiros projetados para atrair capital institucional.

Essa evolução ficou evidente durante a Semana de Ação Climática de Londres 2026, quando IDH, CPI, representantes do Foreign, Commonwealth and Development Office (FCDO) do Reino Unido, investidores e instituições financeiras focaram menos nas florestas em si e mais nos mecanismos financeiros necessários para tornar a pecuária regenerativa comercialmente viável.

A mesma lógica vai além do gado. Lançada durante a Cúpula do G20 em 2024, a Coalizão Financeira para a Restauração e Bioeconomia do Brasil (BRBFCreúne bancos públicos, instituições financeiras privadas, organizações de conservação e agências internacionais de desenvolvimento, com o objetivo de mobilizar pelo menos US$ 10 bilhões para projetos de restauração e bioeconomia até 2030.

Seus membros incluem Banco do Brasil, BNDES, BTG Pactual, Conservation International, IDB Invest, Instituto Arapyaú, Instituto Clima e Sociedade, Mombak, The Nature Conservancy (TNC), re.green, WWF Brasil, o Grupo Banco Mundial, o Fórum Econômico Mundial, entre outros.

Lista de membros do BRB. Fonte: https://brbfc.org/about-us/ 

Em julho de 2025, os membros da coalizão relataram compromissos de US$ 2,6 bilhões. Eles também visam restaurar ou proteger cinco milhões de hectares, enquanto direcionam US$ 500 milhões para projetos envolvendo povos indígenas e comunidades locais.

A ambição é substituir a economia de fronteira por uma que gere valor por meio da restauração, e não do desmatamento. As florestas tornam-se ativos investidos, em vez de obstáculos ao crescimento econômico.

Essa visão tem um potencial genuíno. A restauração de longo prazo exige capital de longo prazo, e organizações indígenas e grupos comunitários frequentemente têm dificuldade em acessar o financiamento convencional.

Mas restauração e bioeconomia continuam sendo conceitos amplos. Elas podem apoiar a recuperação de ecossistemas nativos, mas também podem incluir silvicultura comercial, mercados de carbono e sistemas agrícolas com resultados ecológicos e sociais muito diferentes.

Embora o BRBFC não seja um programa pecuário, ele opera em uma paisagem dominada por gado. Decisões sobre restaurar, intensificar ou reaproveitar pastagens inevitavelmente moldam o futuro do maior setor agrícola do Brasil.

Juntas, essas iniciativas apontam para algo maior do que projetos individuais. A governança ambiental está se tornando mais integrada às finanças globais. Florestas, biodiversidade, pastagens e serviços ecossistêmicos estão sendo convertidos em ativos que podem ser medidos, valorizados e incorporados em estratégias de investimento.

Na maioria dos programas analisados, o futuro proposto não envolve produzir menos carne bovina. Em vez disso, trata-se de produzir carne bovina de forma mais eficiente, monitorá-la mais de perto e conectá-la a novos fluxos de capital.

Nessa visão, a sustentabilidade não substitui o crescimento. Torna-se o mecanismo pelo qual se espera que o crescimento continue.

A rastreabilidade pode entregar resultados?

Se uma ideia se tornou central para a promessa de produção sustentável de gado, é a rastreabilidade. Documentos de política, relatórios de sustentabilidade corporativa e estratégias de investimento apresentam isso como a solução para um dos problemas mais antigos da indústria pecuária: saber onde um animal passou sua vida.

Em teoria, cada animal seria identificado desde o nascimento, cada movimento entre fazendas registrado e cada propriedade verificada contra imagens de satélite, embargos ambientais, territórios indígenas e violações trabalhistas. Reguladores, investidores e consumidores poderiam então verificar se a carne vendida em São Paulo, Bruxelas ou Xangai veio de uma cadeia de suprimentos legal e livre de desmatamento.

Sem rastreabilidade confiável, no entanto, as alegações de carne bovina de baixo carbono ou livre de desmatamento continuam difíceis de verificar. O Brasil fez avanços significativos no monitoramento da produção pecuária, mas os sistemas dos quais depende a rastreabilidade permanecem fragmentados, implementados de forma desigual e, em alguns casos, vulneráveis à manipulação.

Três mecanismos formam o quadro atual: o Registro Ambiental Rural (CAR), o Guia de Trânsito Animal (GTA) e acordos entre promotores federais e abatedouros conhecidos como Acordo de Ajuste de Conduta da Indústria Carnívora (TAC da Carne). Juntos, eles representam um avanço importante na transparência, mas também expõem as fraquezas que continuam a limitar a supervisão eficaz.

Criado sob o Código Florestal do Brasil, o CAR é um registro digital no qual os proprietários declaram limites de propriedades, áreas de vegetação nativa, reservas legais e terras agrícolas. Essas declarações podem ser comparadas com imagens de satélite, áreas protegidas e embargos ambientais, tornando a RCA uma ferramenta essencial para a governança ambiental. Sua principal fraqueza é que a informação é inicialmente autodeclarada e só se torna confiável após verificação pelas autoridades ambientais estaduais. Esse processo avançou lentamente, deixando um acúmulo de milhões de registros aguardando validação.

As consequências vão muito além da regulamentação ambiental. Bancos consultam a CAR antes de aprovar crédito rural, empresas de carne a usam para triar fornecedores e investidores dependem dela para avaliar riscos ambientais. Se a informação subjacente for incompleta ou imprecisa, toda decisão baseada nela se torna menos confiável.

Pesquisas do Centro de Análise de Crimes Climáticos, reportadas pelo Repórter Brasil, destacam o problema. Entre 2019 e 2024, 14.223 propriedades na Amazônia Legal alteraram seus registros CAR de formas que removeram áreas ambientalmente restritas. Em meio a essas mudanças, cerca de 4,9 milhões de hectares desapareceram dos limites declarados da propriedade. Tais alterações não provam por si só irregularidades, mas a escala das mudanças, e a remoção, em alguns casos, de embargos ambientais e sobreposições com territórios indígenas, levanta sérias preocupações sobre a integridade do sistema.

Rastrear o território é apenas parte do desafio. Reconstruir a vida de um animal individual é mais complexo porque a indústria bovina do Brasil atua em várias fazendas. Uma propriedade pode criar bezerros; outro os cria e um terceiro os prepara para o massacre. O Animal Transit Guide registra esses movimentos, mas foi criado principalmente para controlar doenças do rebanho, e não para reconstruir a história ambiental de um animal.

Essa distinção tem consequências importantes. Os matadouros tradicionalmente monitoram apenas seus fornecedores diretos, sendo as fazendas que vendem animais imediatamente antes do abate, enquanto as fases iniciais da cadeia de produção frequentemente permanecem fora do sistema. Portanto, um animal pode passar grande parte de sua vida em terras desmatadas ilegalmente antes de ser transferido para uma propriedade conforme pouco antes do abate. A transação final parece legal, mesmo que grande parte da história ambiental do animal permaneça oculta.

A prática, comumente descrita como lavagem de gado, não se baseia necessariamente em documentos falsificados. Em vez disso, explora as lacunas entre sistemas que registram diferentes estágios da cadeia de suprimentos sem se comunicar efetivamente entre si. A fazenda que abastece o matadouro pode cumprir verificações ambientais, enquanto as propriedades onde o animal já viveu permanecem praticamente invisíveis.

Identificação eletrônica, bancos de dados integrados, monitoramento por satélite e análise automatizada de riscos podem ajudar a fechar parte dessa lacuna, tornando muito mais difícil apagar o histórico de um animal. Essas tecnologias representam avanços genuínos em relação aos sistemas fragmentados atualmente em vigor, mas não podem substituir uma governança eficaz. Etiquetas eletrônicas não podem resolver reivindicações fraudulentas de terras, imagens de satélite não podem aplicar a lei ambiental, e plataformas digitais não podem verificar declarações de propriedade imprecisas ou compensar instituições fracas e fiscalização inadequada.

Em última análise, a rastreabilidade é menos um desafio tecnológico do que uma questão de governança. Sua credibilidade depende de registros públicos confiáveis, verificação independente, informações transparentes, reguladores eficazes e consequências significativas para aqueles que violam a lei ambiental.

Os sistemas de monitoramento do Brasil estão se tornando cada vez mais sofisticados, mas sofisticação não deve ser confundida com certeza. Até que o gado possa ser rastreado de forma confiável desde o nascimento até o abate, e cada etapa da cadeia de suprimentos esteja sujeita a uma supervisão eficaz, as alegações de que a carne bovina está livre de desmatamento permanecerão tão fortes quanto o elo mais fraco da cadeia.

Quem define bovino sustentável?

Essa pergunta atravessa todas as etapas do debate.

O termo gado “sustentável” aparece em estratégias governamentais, prospectos de investimento e relatórios corporativos. A carne bovina é descrita como “de baixo carbono”, a pecuária torna-se “regenerativa” e as cadeias de suprimentos são rotuladas como “positivas para a natureza”. A linguagem sugere uma conclusão definitiva, mas o significado de sustentabilidade permanece contestado.

Não existe uma definição científica única que determine se a produção industrial de gado na Amazônia e no Cerrado pode ser considerada sustentável. Uma fazenda pode atender a um padrão porque não desmatou florestas recentemente e falha em outro porque seus animais vieram de fornecedores não monitorados. Pode reduzir as emissões por quilograma de carne bovina enquanto aumenta a produção geral e pode restaurar uma área enquanto sua cadeia de suprimentos se expande para outra.

Grande parte do argumento para o gado “baixo carbono” baseia-se na distinção entre intensidade de emissões e emissões absolutas. Melhor manejo do pasto, nutrição aprimorada, seleção e abate mais precoce podem reduzir as emissões de gases de efeito estufa por quilograma de carne bovina ao reduzir o tempo que o gado gasta emitindo metano. Esses ganhos são significativos, mas a atmosfera responde às emissões totais, e não à eficiência produtiva.

Se as emissões por quilograma caírem enquanto o tamanho dos rebanhos permanece estável ou diminui, as emissões gerais podem diminuir. Se a produtividade melhorar enquanto o número de gado e a produção de gado continuarem crescendo, as emissões totais podem permanecer inalteradas ou até mesmo aumentar. Para um país com o maior rebanho comercial de gado do mundo, essa distinção é fundamental.

O metano torna a questão particularmente significativa. A fermentação entérica continua sendo a maior fonte de metano agrícola no mundo. Embora o metano persista na atmosfera por um período menor do que o dióxido de carbono, seu efeito de aquecimento é especialmente forte nas décadas imediatamente após sua liberação. Reduzir as emissões de metano pode, portanto, desacelerar o aquecimento a curto prazo, mas isso continua sendo politicamente desafiador, pois o gado é central para uma das indústrias exportadoras mais importantes do Brasil.

O debate sobre a contabilidade do metano ilustra o quão controversas essas questões se tornaram. Alguns pesquisadores e grupos industriais apoiam métricas alternativas, incluindo a Global Warming Potential Star (GWP*), argumentando que a contabilidade convencional superestima o efeito de aquecimento a longo prazo de rebanhos estáveis ao tratar o metano como gases de efeito estufa de longa duração. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), no entanto, continua a aconselhar contra o uso do GWP* para a contabilidade nacional de emissões, pois ele não captura totalmente a contribuição para o aquecimento de cada emissão de metano. O debate é técnico, mas suas implicações são políticas porque influenciam como as emissões do gado são interpretadas e, em última análise, como a própria sustentabilidade é medida.

A tecnologia ocupa um lugar igualmente proeminente na reinvenção do gado. Sistemas de satélite detectam desmatamento, etiquetas eletrônicas acompanham os movimentos dos animais, inteligência artificial analisa riscos da cadeia de suprimentos e plataformas digitais integram dados ambientais, financeiros e de produção. Juntas, essas ferramentas transformaram a capacidade de monitorar a produção pecuária em um país do tamanho do Brasil, fornecendo informações que seriam inimagináveis há apenas uma geração.

A tecnologia, no entanto, não pode resolver as questões políticas no cerne do debate. Imagens de satélite podem revelar onde as florestas foram desmatadas, mas não podem processar os responsáveis. Registros digitais podem identificar sobreposições com territórios indígenas, mas não podem garantir que as autoridades irão intervir. As plataformas financeiras podem medir a conformidade com indicadores selecionados, mas não podem determinar se a expansão contínua da produção bovina é compatível com os limites ecológicos.

Um padrão mais amplo emerge. Desafios políticos e sociais são repetidamente reformulados como técnicos, a ocupação ilegal se torna um problema de qualidade dos dados, a fraca aplicação da lei passa a ser uma questão de monitoramento, e os limites ecológicos se tornam questões de eficiência e otimização. Uma tecnologia melhor, sem dúvida, melhora a supervisão, mas não pode substituir uma governança eficaz.

O mesmo padrão ajuda a explicar por que as finanças se tornaram tão entrelaçadas com a política ambiental. Antes que a sustentabilidade possa ser recompensada pelos investidores, ela deve primeiro ser traduzida em dados mensuráveis. Uma vez quantificado, o desempenho ambiental pode ser verificado, precificado e incorporado às decisões financeiras. Nesse processo, a sustentabilidade torna-se não apenas um objetivo ecológico, mas também uma categoria financeira.

Nada disso diminui o valor de restaurar pastagens degradadas, melhorar a rastreabilidade ou apoiar produtores que desejam adotar melhores práticas. Também não sugere que as organizações aqui discutidas compartilhem motivações idênticas. Bancos públicos de desenvolvimento, organizações ambientais, produtores e fundos de investimento frequentemente participam das mesmas iniciativas por razões muito diferentes.

As evidências sugerem, no entanto, que a autoridade para definir sustentabilidade está mudando gradualmente. Ecologistas podem julgar a produção bovina pelo impacto que tem nas florestas, biodiversidade e clima. Os povos indígenas podem julgá-la pela permanência de seus territórios, culturas e direitos intactos. Os agricultores podem julgá-la pela capacidade de manter meios de subsistência viáveis sem perder o controle de suas terras ou se tornar dependentes de novos sistemas financeiros e tecnológicos. Os investidores, por outro lado, tendem a priorizar indicadores mensuráveis, relatórios padronizados e riscos quantificáveis.

A questão não é se uma perspectiva é inerentemente mais legítima que outra. É quem, em última instância, tem autoridade para decidir qual definição molda a política.

Isso importa porque a linguagem orienta a regulação, a regulação direciona investimentos e o investimento remodela o cenário. O sucesso não pode ser medido apenas pelo número de gado equipado com etiquetas eletrônicas, hectares restaurados ou bilhões de dólares comprometidos com financiamento verde.

O teste mais significativo é se as florestas permanecem de pé, as emissões de metano caem em termos absolutos, os povos indígenas mantêm o controle de seus territórios e a prosperidade rural não depende mais de empurrar a fronteira agrícola para ecossistemas naturais.

Se a reinvenção do gado se mostrará uma transição ambiental genuína ou uma justificativa mais sofisticada para o funcionamento do negócio como de costume, não será julgado pela linguagem da sustentabilidade, mas por esses resultados.


Fonte: YourVoiz

O fim da Moratória da Soja abrirá as portas para um novo ciclo de devastação na Amazônia

A reportagem da jornalista Camila Souza Ramos, publicada no Valor Econômico, traz um dado que deveria soar como um alerta para toda a sociedade brasileira: o eventual fim da Moratória da Soja poderá provocar perdas estimadas em US$ 8,2 bilhões em serviços ecossistêmicos ao longo da próxima década.  Um artigo publicado na revista Nature Communications Earth & Environment, demonstra que o desmatamento adicional poderá comprometer funções essenciais da floresta amazônica, como a formação de chuvas, a manutenção da biodiversidade, o armazenamento de carbono e a geração de energia hidrelétrica.

Embora os números econômicos impressionem, o aspecto mais preocupante talvez seja outro. A Moratória da Soja nunca foi um instrumento perfeito. Desde sua criação, em 2006, ela contribuiu para reduzir a expansão direta da soja sobre áreas recentemente desmatadas na Amazônia, mas não impediu outros vetores de destruição florestal. A pecuária continuou avançando sobre vastas áreas, a grilagem de terras públicas permaneceu ativa e a degradação causada pela exploração madeireira, pelos incêndios e pela abertura de estradas seguiu corroendo a integridade da floresta. Em outras palavras, mesmo com a moratória em vigor, o quadro sempre esteve longe de ser satisfatório.

É justamente por isso que sua eventual extinção representa um risco muito maior do que o simples desaparecimento de um acordo setorial. A retirada desse importante mecanismo de controle poderá transmitir ao mercado um sinal de flexibilização das regras ambientais, estimulando uma nova corrida pela conversão da floresta em áreas agrícolas. Num contexto em que a fiscalização ambiental continua sofrendo com restrições orçamentárias e operacionais, essa mudança tende a acelerar tanto o desmatamento quanto a degradação florestal, tornando muito mais difícil conter o avanço da fronteira agrícola sobre a Amazônia.

Os efeitos dessa dinâmica não se restringem à Amazônia. A perda da cobertura florestal reduz a reciclagem de umidade responsável pela formação dos chamados “rios voadores”, afetando a disponibilidade de água e a regularidade das chuvas em boa parte da América do Sul. O prejuízo alcança diretamente a agricultura, a geração de energia hidrelétrica e o abastecimento urbano, comprometendo atividades econômicas muito além da região amazônica. Diversos estudos científicos já demonstraram que a continuidade do desmatamento e da degradação florestal aproxima a Amazônia de um ponto de inflexão ecológica, cujas consequências atingirão de forma particularmente severa a própria produção agropecuária na Amazônia e no Cerrado.

Outro mérito da reportagem é mostrar que os custos da destruição da floresta não podem ser medidos apenas pelo valor da madeira ou da terra convertida em lavoura. Os serviços ambientais prestados pela Amazônia sustentam processos ecológicos que permitem o funcionamento da própria economia brasileira. Quando esses serviços desaparecem, toda a sociedade paga a conta, ainda que ela não apareça imediatamente nos indicadores econômicos tradicionais.

O debate sobre o futuro da Moratória da Soja, portanto, vai muito além dos interesses imediatos do setor exportador.  O que está em jogo é se o Brasil continuará preservando um dos poucos mecanismos que, mesmo com limitações, ajudou a conter parte da expansão da fronteira agrícola sobre a Amazônia, ou se aceitará o risco de entrar em um novo ciclo de devastação. Se com a moratória a situação já era precária, sua eliminação poderá tornar o desmatamento e a degradação florestal praticamente incontroláveis, aprofundando uma crise ambiental que ameaça o equilíbrio climático, a segurança hídrica e o próprio futuro da produção agrícola brasileira.

Há, porém, um aspecto que torna esse debate ainda mais inquietante. Não é mais possível esperar racionalidade de um segmento do agronegócio que insiste em agir de forma profundamente irracional, mesmo diante do acúmulo de evidências científicas sobre os impactos econômicos do desmatamento e da degradação florestal. Pesquisas científicas  realizadas por instituições brasileiras e internacionais demonstram de maneira consistente que a destruição da Amazônia compromete o regime de chuvas, intensifica secas e ondas de calor, reduz a disponibilidade hídrica e ameaça a produtividade agropecuária tanto na Amazônia quanto no Cerrado. Ainda assim, parcelas influentes desse setor continuam pressionando pelo enfraquecimento dos instrumentos de proteção ambiental em nome de ganhos imediatos, ignorando que essa estratégia destrói justamente as bases ecológicas que sustentam sua própria atividade econômica.

Defender o fim da Moratória da Soja, portanto, não representa apenas um retrocesso ambiental. Representa também uma aposta temerária contra a ciência e contra o futuro da agricultura brasileira. A ironia é evidente: em nome de ampliar a produção no presente, esses setores trabalham para inviabilizar as condições climáticas que permitirão produzir no futuro. É difícil imaginar uma demonstração mais clara de irracionalidade econômica e ambiental.

Águas subterrâneas do Brasil sob pressão

Sob as florestas, fazendas e cidades do Brasil, uma reserva hídrica vital está mostrando sinais de sobrecarga
Projeções visuais impactantes na Madison Avenue, em Nova York, EUA, convocam os bancos de Wall Street a tomarem medidas urgentes para proteger a floresta amazônica. Abril de 2026. Imagem: Michael Nigro / The Illuminator Project / Creative Commons 4.0.
Por Monica Piccinini para “The Ecologist” 

Um novo estudo alerta que os níveis de água subterrânea em algumas regiões do Brasil estão diminuindo a taxas comparáveis ​​às observadas em alguns dos sistemas aquíferos mais explorados do mundo  .

A água sempre foi fundamental para a identidade do Brasil, moldando suas paisagens, economia e ecossistemas. 

Dos rios da Amazônia às cheias sazonais que transformam o Pantanal em uma das maiores áreas úmidas do mundo, a água ajudou a definir tanto a geografia do país quanto seu desenvolvimento.

Observado

Durante gerações, essa abundância criou a crença de que o Brasil jamais enfrentaria uma grave escassez de água. 

No entanto, as evidências que emergem do subsolo sugerem que algumas reservas de água subterrânea estão se tornando cada vez mais vulneráveis ​​às pressões ambientais e humanas.

Um estudo liderado por Augusto Getirana, cientista do Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA, no Laboratório de Ciências Hidrológicas, examinou mais de duas décadas da dinâmica das águas subterrâneas no Brasil, utilizando observações de satélite, ferramentas de inteligência artificial e sistemas de monitoramento de águas subterrâneas.

Os resultados revelam um panorama misto. Enquanto alguns aquíferos continuam a se recuperar naturalmente após períodos de seca, outros apresentam declínios persistentes ligados à expansão agrícola, à atividade de mineração, à variabilidade climática e à crescente demanda por água.

De acordo com os pesquisadores, o declínio das águas subterrâneas observado em alguns aquíferos brasileiros assemelha-se a padrões documentados em sistemas de águas subterrâneas altamente sobrecarregados em Bangladesh, Índia, Irã e Estados Unidos.

Pressupostos

O estudo avaliou as condições das águas subterrâneas nas 12 principais bacias hidrográficas do Brasil e examinou vários sistemas aquíferos importantes, incluindo Alter do Chão, Urucuia, Bauru-Caiuá, Guarani, Pantanal, Solimões e Parecis. 

As águas subterrâneas suprem aproximadamente 55% da demanda hídrica do Brasil e abastecem mais da metade dos municípios do país. Em muitas regiões, elas representam uma importante reserva durante períodos de seca e ajudam a manter o abastecimento de água quando os reservatórios superficiais estão em níveis baixos.  

Apesar de sua importância, o monitoramento de águas subterrâneas permanece limitado. Em um território de aproximadamente 8,5 milhões de quilômetros quadrados, o Brasil opera apenas cerca de 500 poços federais de monitoramento de águas subterrâneas, deixando grandes áreas insuficientemente observadas.

“Eu não diria que o Brasil confundiu abundância com segurança”, disse Getirana em resposta à pergunta sobre se a abundância histórica de água no Brasil pode ter fomentado a complacência.

“O que mudou é que as premissas que funcionavam no passado podem não ser suficientes para o futuro.” 

Agrícola

“Nas últimas décadas, o Brasil passou por uma série de grandes crises hídricas, incluindo a crise de racionamento de energia elétrica de 2001, as severas secas de 2014-2015 e a escassez de água que afetou diversas regiões em 2021. 

As hipóteses que funcionaram no passado podem não ser suficientes para o futuro. 

“Ao mesmo tempo, o crescimento populacional e a expansão econômica aumentaram a demanda por água. As águas subterrâneas têm se tornado cada vez mais parte da solução.” 

Ele acrescentou: “O que me surpreendeu neste estudo foi ver evidências de que o uso de água subterrânea para irrigação e abastecimento público de água se expandiu o suficiente para deixar uma marca detectável no armazenamento de água subterrânea.” 

“O Brasil não enfrenta hoje uma insegurança hídrica em âmbito nacional, mas esses resultados sugerem que a confiança tradicional do país na abundância de recursos hídricos pode precisar ser repensada em um contexto de mudanças climáticas e demanda crescente.”

Alguns dos sinais mais fortes de declínio das águas subterrâneas estão ocorrendo no centro do Brasil, particularmente em partes do Cerrado e nas bacias dos rios São Francisco e Paraná. Essas regiões também passaram por uma extensa expansão agrícola. 

Enfraquecer

Frequentemente ofuscado pela Amazônia, o Cerrado é considerado pelos hidrólogos como uma das paisagens mais importantes da América do Sul em termos de produção de água. Grandes sistemas fluviais nascem ali, incluindo rios que contribuem para as bacias do Amazonas, Paraná e São Francisco. 

A vegetação nativa desempenha um papel crucial na regulação do movimento da água, permitindo que a chuva se infiltre gradualmente no solo, reabastecendo os aquíferos e sustentando o fluxo dos rios além da estação chuvosa.

Nas últimas décadas, milhões de hectares de vegetação nativa foram convertidos em plantações de soja, pastagens para gado e agricultura irrigada. 

O estudo encontrou evidências de que alguns aquíferos sofreram anos com pouca ou nenhuma recarga de água subterrânea. Nesses anos, a precipitação não conseguiu repor as reservas subterrâneas nas taxas históricas. Os pesquisadores identificaram esses padrões em partes do Aquífero Urucuia, na zona de recarga do Aquífero Guarani e em outros sistemas de água subterrânea intensamente utilizados. 

Muitas dessas áreas sustentam a economia agrícola do Brasil. Se as taxas de recarga continuarem a diminuir, a extração de água subterrânea poderá se tornar cada vez mais difícil de manter durante períodos prolongados de seca. 

Variável

A bacia do São Francisco emergiu como uma das regiões que sofrem as perdas mais severas de água subterrânea no Brasil, impulsionadas pelo uso intensivo da água, seca, mudanças na cobertura do solo e alterações nos padrões de chuva. 

Conforme observado por Getirana, as águas subterrâneas podem mitigar os impactos da seca, embora sua confiabilidade esteja diminuindo em muitas regiões. “Durante secas prolongadas, rios, lagos e reservatórios são normalmente as primeiras fontes de água a diminuir”, disse ele.

“As florestas ajudam a manter os recursos hídricos, promovendo a infiltração no solo e nos aquíferos, além de influenciarem a circulação atmosférica regional e os padrões de precipitação. Os aquíferos, por sua vez, frequentemente funcionam como reserva de longo prazo, a poupança do sistema hidrológico.”

“Nossos resultados sugerem que os sistemas de águas subterrâneas estão se tornando menos confiáveis ​​em regiões onde a demanda por água é maior. Os maiores declínios nos estoques ocorrem em regiões densamente povoadas e economicamente ativas, indicando que algumas dessas redes de segurança naturais estão sob crescente pressão.”

A Amazônia abriga algumas das maiores reservas de água doce do mundo. Embora pesquisadores tenham encontrado evidências de que os sistemas de água subterrânea em partes da região estão se tornando mais variáveis , as mudanças não são uniformes em toda a bacia. 

Saturado

Getirana e seus colegas descobriram que grandes porções da Amazônia mantiveram condições estáveis ​​de água subterrânea durante o período do estudo, e algumas regiões até apresentaram aumento no armazenamento de água subterrânea. Essas descobertas sugerem que certos sistemas de água subterrânea permanecem resilientes em condições ambientais favoráveis.

Próximo a Manaus, os níveis de água subterrânea flutuam em resposta à subida e descida sazonal dos rios Negro e Solimões. No entanto, eventos climáticos extremos parecem estar afetando esses ciclos naturais. 

O evento El Niño de 2015-2016 pode ter representado uma mudança significativa no comportamento das águas subterrâneas em diversas áreas, com alguns aquíferos passando de condições relativamente estáveis ​​para declínios mais persistentes.

As secas recentes levaram os rios da Amazônia a níveis historicamente baixos, interrompendo o transporte, isolando comunidades e afetando ecossistemas em toda a bacia.

Ao mesmo tempo, o sul do Brasil sofreu graves inundações. Os pesquisadores observam que as condições das águas subterrâneas podem influenciar o risco de inundações, pois os sistemas subterrâneos saturados perdem a capacidade de absorver chuvas adicionais, aumentando o escoamento superficial.

Fogo

Em conjunto, esses resultados sugerem que os desafios hídricos do Brasil envolvem cada vez mais variabilidade e extremos, em vez de simples questões de abundância ou escassez de água.

Getirana afirmou: “Acho que uma das lições mais importantes é que abundância e sustentabilidade não são a mesma coisa. O Brasil possui alguns dos maiores recursos de água doce do planeta, mas nossos resultados mostram que os sistemas de águas subterrâneas ainda podem sofrer perdas persistentes quando a variabilidade climática, as mudanças no uso da terra e a crescente demanda por água atuam em conjunto.

“Historicamente, muitas sociedades trataram os recursos naturais como praticamente inesgotáveis, por parecerem abundantes em relação às necessidades humanas. O que as observações modernas e os registros de satélite mostram cada vez mais é que mesmo sistemas muito grandes têm limites.”

“As águas subterrâneas são particularmente importantes porque são em grande parte invisíveis. Ao contrário dos rios ou reservatórios, as mudanças subterrâneas podem passar despercebidas durante anos ou mesmo décadas. Estudos como este ajudam a tornar visíveis essas mudanças ocultas antes que se tornem problemas maiores.”

O Pantanal, a maior área úmida tropical do mundo, também está sofrendo pressão crescente. Os pesquisadores identificaram a diminuição da recarga de água subterrânea em partes da região, uma tendência associada à seca, mudanças no uso da terra e temporadas de incêndios cada vez mais severas.

Água doce

Os incêndios podem ter efeitos duradouros nos sistemas hídricos, destruindo a vegetação, alterando a estrutura do solo, reduzindo a infiltração e dificultando a recarga dos aquíferos após períodos de seca.

A atividade de mineração também contribui para o aumento da pressão em algumas áreas. Em partes do estado de Minas Gerais, a água subterrânea é bombeada de sistemas subterrâneos para abastecer as operações de mineração. Isso pode reduzir os níveis dos lençóis freáticos, alterar o fluxo dos rios e afetar as comunidades vizinhas.

Exemplos de outras partes do mundo demonstram como pode ser difícil reverter as mudanças depois que a extração em larga escala altera os sistemas hídricos. 

Ao redor do Mar Morto , décadas de desvio de rios, extração mineral e superexploração de águas subterrâneas contribuíram para uma queda drástica nos níveis de água, acelerando o recuo da linha costeira e a formação de milhares de dolinas. 

Preocupações semelhantes estão surgindo na Amazônia brasileira. Em Autazes, um grande projeto de potássio desenvolvido pela empresa canadense Potássio do Brasil gerou alertas de pesquisadores, organizações indígenas e comunidades locais sobre possíveis impactos nas águas subterrâneas, áreas úmidas e sistemas hídricos interligados. 

Escassez

Avaliações ambientais e revisões independentes destacaram riscos como o aumento do escoamento de sedimentos, maior turbidez da água e pressão sobre os ecossistemas ligados ao rio Madeira, uma das vias navegáveis ​​mais importantes da bacia amazônica. 

Embora as consequências a longo prazo permaneçam incertas, esses casos ilustram como a mineração pode alterar os sistemas hídricos muito além dos limites do próprio local de extração.

O Brasil não está ficando sem água, mas a abundância de recursos não elimina a vulnerabilidade.

O estudo constatou que apenas uma fração da precipitação atinge e reabastece os aquíferos. Em algumas regiões, a recarga permanece robusta, mas em outras, parece estar diminuindo. 

O Brasil enfrentou grandes crises hídricas em 2000-2001, 2014-2017 e 2021. Esses eventos foram frequentemente vistos principalmente como consequência da escassez de chuvas. 

Secas

As novas descobertas sugerem que mudanças mais profundas também podem estar afetando os sistemas hídricos do país. À medida que as mudanças climáticas se aceleram e a pressão sobre os recursos hídricos e terrestres aumenta, as águas subterrâneas provavelmente se tornarão um componente cada vez mais importante da segurança hídrica de longo prazo do Brasil. 

Apesar dos desafios identificados no estudo, Getirana permanece otimista quanto à crescente conscientização pública sobre as questões de segurança hídrica.

Ele disse: “Estudos sobre disponibilidade de água, seca, águas subterrâneas e impactos climáticos estão cada vez mais presentes na mídia convencional e no debate público. O conhecimento científico por si só não muda políticas ou práticas de gestão. A verdadeira mudança acontece quando governos, instituições e a sociedade reconhecem o problema e agem com base nas evidências.”

“O fato de as águas subterrâneas e a segurança hídrica estarem se tornando temas de debate nacional no Brasil é encorajador. Quando a ciência chega ao público e influencia a tomada de decisões, cria oportunidades para aprimorar o monitoramento, o planejamento e a gestão hídrica a longo prazo.”

Ele acrescentou: “Na última década, um número crescente de estudos documentou o declínio das águas subterrâneas e do armazenamento de água em partes do Brasil, particularmente durante grandes secas.

Salvaguarda

“O desafio hoje não é a ausência de sinais de alerta. O desafio é garantir que essa informação faça parte do processo de tomada de decisão.” 

“Daqui a cinquenta anos, suspeito que as pessoas olharão para trás e dirão que os primeiros sinais de alerta surgiram da combinação de observações por satélite, estudos científicos e crises hídricas recorrentes que revelaram vulnerabilidades que antes passavam despercebidas.”

Durante décadas, o Brasil confiou na premissa de que os abundantes recursos hídricos compensariam a crescente demanda e as pressões ambientais. 

As evidências apresentadas neste estudo sugerem que a proteção das águas subterrâneas poderá se tornar tão importante quanto a proteção de rios, florestas e zonas úmidas nas próximas décadas.

Este autor

Monica Piccinini é uma jornalista brasileira-britânica e membro do Sindicato Nacional dos Jornalistas. Ela contribui regularmente para o The Ecologist e publica no Substack, Medium e em sua própria plataforma,  YourVoiz.org .


Fonte: The Ecologist