Leonardo DiCaprio usa “10 Years Challenge” do Instagram para denunciar avanço do desmatamento em Rondônia

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Um dos muitos modismos que apareceram nas redes sociais nos últimos tempos é o chamado “10 Years Challenge” onde celebridades e pessoas anônimas mostram fotos pessoais mostram suas mudanças fisionômicas nos últimos dez anos [1].

Pois bem, uma celebridade resolveu usar  hoje (18 de janeiro) sua página oficial na rede Instagram para mostrar duas imagens mostrando mudanças radicais não em sua aparência, mas de um estado da Amazônia brasileira. A celebridade no caso é o ator Leonardo DiCaprio e o estado é Rondônia (ver imagem abaixo).

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Di Caprio duas imagens do satélite Landsat para mostrar o avanço do desmatamento em Rondônia entre 2006 e 2018 no que ele classificou corretamente de sendo uma das regiões que mais perderam cobertura florestal na Amazônia brasileira. E ainda que alguém ache que DiCaprio errou o tamanho do estado de Rondônia, é preciso lembrar que “over” no sentido usado por ele é de “mais de”.  E a área total de Rondônia é de 237,576 km², a maioria coberta por florestas até meados da década de 1970 quando o regime militar começou a expansão da frente pioneira na Amazônia ocidental brasileira.

Esse posicionamento de Leonardo DiCaprio é mais um revés para o governo Bolsonaro e sua política de “libera geral” para o desmatamento e para a degradação dos ecossistemas naturais existentes dentro da porção brasileira da Amazônia. 

É que apenas no Instagram, DiCaprio possui cerca de 25 milhões de seguidores. Deste universo. Em função, em menos de uma hora após a realização da postagem mais de 100 mil de seus seguidores já haviam dado um “like” no momento em que visualizei a imagem que havia recebido 1.425 comentários. Em outras palavras, uma simples postagem de Leonardo DiCaprio já teve uma forte repercussão mundial.

Mas há que se lembrar que o ator estadunidense também criou uma fundação comprometida com a conservação ambiental em escala global, a Leonardo DiCaprio Foundation (LDF).  Criada em 1998, a fundação impulsionada por DiCaprio diz já ter desembolsado US$ 100 milhões para financiar mais de 200 projetos distribuídos em 50 países [2].

Quem examinar a página oficial da LDF poderá verificar que entre as suas linhas mestras de ação estão a proteção das florestas e o esforço para  minimizar os impactos das mudanças climáticas, dois tabus para o governo Bolsonaro.

Assim, ao apontar diretamente para o desmatamento em Rondônia, Leonardo DiCaprio se soma a outras personalidades mundiais (incluindo Gisele Bündchen) que decidiram não deixar barato as anunciadas mudanças para facilitar a expansão da degradação na Amazônia.  No caso de DiCaprio, ele não só é famoso, mas como tem uma ferramenta institucional para influenciar indivíduos e governos. Em suma, o posicionamento público de DiCaprio terá consequências para o Brasil e o governo antifloresta que foi instalado em Brasília no dia 01 de janeiro de 2019.

Gisele Bündchen responde em carta ataques da ministra da Agricultura

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Quem fala o que quer, acaba lendo o que menos espera. Essa máxima vale para a ministra da Agricultura, a deputada federal pelo DEM/MS e eterna musa do veneno Tereza Cristina Dias.  É que na última segunda-feira ela  fez dos microfones da JovemPan para rotular a top model brasileira Gisele Bündchen de “má brasileira” pela defesa que ela faz do meio ambiente.

Pois bem, ainda no dia de ontem, a jornalista Giovana Girardi publicou uma matéria circulanda na íntegra uma resposta de Gisele Bündchen onde a top model afirma que maus brasileiros são aqueles que realizem grilagem de terras e o desmatamento ilegal [1].

Além disso, Gisele Bündchen publicou em sua página oficial na rede social Twitter uma outra nota onde se disse surpresa com o ataque gratuito sofrido por parte da ministra da Agricultura. Gisele Bündchen aproveitou ainda para enfatizar suas posições contra o avanço do desmatamento no Brasil  (ver figura abaixo).

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Restou à ministra da Agricultura proferir uma resposta lacônica à carta de Gisele Bündchen afirmando que “vamos construir juntas uma agenda contra o desmatamento ilegal e a grilagem”. O problema para Tereza Cristina é que se ela ao menos tentar construir tal agenda acabará perdendo o emprego no mesmo dia.  Um problema adicional para a ministra da Agricultura é que só no Twitter, Gisele Bündchen possui mais de 4,5 milhões de seguidores e seus posicionamentos invariavelmente tem impacto. Assim, Tereza Cristina só tem a si para culpar por toda a propaganda negativa que o governo Bolsonaro está recebendo por causa de mais este imbróglio. Afinal, quem mandou mexer com que estava quieta?

Abaixo a íntegra da carta enviada por Gisele Bündchen à ministra da Agricultura.

“Excelentíssima Senhora Ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina 

Escrevo respeitosamente à senhora para me manifestar em relação a alguns comentários que foram feitos e que dizem respeito à minha pessoa em sua entrevista no dia 14 de janeiro ao veículo Jovem Pan. Causaram-me surpresa as referências negativas ao meu nome, pois tenho orgulho de ser brasileira e sempre representei meu país da melhor forma que pude.

Primeiramente, gostaria de dividir com a senhora um pouquinho da minha trajetória. Sou uma apaixonada pela natureza e tenho uma conexão muito forte com a terra. Nasci no interior do Brasil, onde a agricultura sempre foi fundamental para a economia e desenvolvimento de todos os municípios do entorno. Meus avós também praticavam agricultura familiar.

Valorizo e prezo muito o papel tão importante que a agricultura e os agricultores têm para o nosso país e nosso povo, mas ao mesmo tempo acredito que a produção agropecuária e a conservação ambiental precisam andar juntas, para que nosso desenvolvimento possa ser sustentável e longevo.

Desde 2006 venho apoiando projetos e me envolvendo com causas socioambientais no Brasil (através da doação de parte da renda da venda de produtos licenciados com meu nome a diversos projetos relacionados à água e florestas até o apoio e realização de projeto de reflorestamento de mata ciliar na minha cidade natal). Já visitei a Amazônia algumas vezes e conheci de perto a realidade da região norte de nosso país. Em decorrência do meu trabalho relacionado ao meio ambiente fui convidada para ser Embaixadora da Boa Vontade da ONU para o Meio Ambiente e também pelo presidente da França para participar do lançamento do Pacto Global para o Meio Ambiente na Assembleia Geral da ONU nos Estados Unidos, além de ter participado de inúmeros encontros com presidentes de empresas, universidades, cientistas, pesquisadores, agricultores e organizações do meio ambiente, onde pude trocar informações e aprender cada vez mais sobre como cuidar do nosso planeta.

Tendo ciência, através de diferentes fontes de informação, do alto grau de comprometimento e irreversibilidade que algumas ações governamentais poderiam trazer ao meio ambiente, como cidadã brasileira preocupada com os rumos da minha nação resolvi, em algumas oportunidades que entendi críticas e merecedoras de atenção, me manifestar.

A Senhora mencionou a grande quantidade de áreas protegidas no Brasil. Lamento, no entanto, ver notícias, como a do final do ano de 2018, com dados do Governo Federal divulgados amplamente na imprensa, que o desmatamento na Amazônia havia crescido mais de 13%, o que representava a pior marca em 10 anos. Um patrimônio inestimável ameaçado pelo desmatamento ilegal e a grilagem de terras públicas. Estes sim são os “maus brasileiros”.

Precisamos usar a tecnologia e todo conhecimento científico a favor da agricultura e da produtividade para que evitemos que novos desmatamentos possam ultrapassar o ponto de não retorno em que a degradação em curso do clima ameno se tornará irreversível.

Vejo a preservação da natureza não somente como um dever ambiental legal, mas também como uma forma de assegurar água, biodiversidade e condições climáticas essenciais para a produção agrícola.

Cara Ministra Teresa Cristina, seu papel como ministra da Agricultura – em um país onde clima, agricultura e floresta têm papel chave para nossa economia – é fundamental. Sei do desafio que tem pela frente e torço para que em seu mandato possam ser celebradas ações concretas que resultem em um Brasil mais sustentável, justo e próspero.

Ficarei muito feliz em poder divulgar ações positivas que forem tomadas neste sentido.

Com respeito,

Gisele Bündchen

Cansada de ficar no ostracismo, ministra da Agricultura tenta o estrelato e ataca Gisele Bündchen

 

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A ministra da Agricultura do governo Bolsonaro (também conhecida como Musa do Veneno), Tereza Cristina Dias (DEM/MS), estava conseguindo se manter longe da produção de declarações bizarras que marcaram os primeiros dias de outros membros do gabinete do governo de extrema-direita que hoje governa o Brasil.

Mas sabe-se lá por qual razão, Tereza Cristina resolveu quebrar seu silêncio obsequioso e saiu a público para atacar a modelo brasileira Gisele Bündchen por supostamente ser uma má brasileira por criticar os descaminhos ambientais que ocorrem no Brasil, principalmente no tocante ao desmatamento na Amazônia.

Com esse ataque à Bündchen, Tereza Cristina conseguiu algo que parecia impossível que era superar as bizarrices de Ernesto Araújo, Ricardo Salles e Damares Alves. É que, não sei se alguém para a ministra da Agricultura, Gisele Búndchen é uma personalidade internacionalmente respeitada e bem posicionada em circulos que poderão ter grande influência no tratamento que o Brasil receberá nos próximos anos. Em outras palavras, Tereza Cristina chamou a pessoa errada para a briga.

Posto abaixo um artigo assinado pela jornalista Anna Jean Kaiser e publicado pelo jornal britânico “The Guardian” sobre as declarações de Tereza Cristina que agora ganharão o mundo. O resultado disso será certamente ainda mais descrédito para um governo que acaba de completar apenas duas semanas.

 

Gisele Bündchen é uma ‘má brasileira’, diz ministra da agricultura de Bolsonaro

Tereza Cristina Dias disse que a modelo, que é uma embaixadora da boa vontade do ambiente da ONU, não deveria “criticar o Brasil”

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“Você deve ser uma embaixadora e dizer que seu país conserva … e não criticar o Brasil sem conhecer os fatos”, disse Dias de Bündchen. Foto: Andre Penner / AP

Por Anna Jean Kaiser em São Paulo

A nova ministra da Agricultura do Brasil descreveu Gisele Bündchen como uma “má brasileira” cujo ativismo ambiental contaminou a imagem do país no exterior, convidando a supermodelo a se tornar um “embaixador” para o setor agrícola.

Em entrevista a uma emissora de rádio conservadora na segunda-feira, Tereza Cristina Dias foi questionada sobre os “problemas de relações públicas” que surgiram das críticas de Bündchen às tentativas do governo de reverter as proteções ambientais.

“É absurdo o que eles fazem hoje com a imagem do Brasil”, disse Dias, que liderou a bancada ruralista no congresso antes de ser nomeada para o ministério da Agricultura pelo presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro. “Por algum motivo eles saem e pintam um retrato do Brasil e de suas indústrias que não é verdade.

“Desculpe, Gisele Bündchen”, acrescentou. “Você deveria ser uma embaixadora e dizer que seu país conserva, que seu país está na vanguarda global da conservação e não criticar o Brasil sem conhecer os fatos.”

Bündchen – uma embaixadora da boa vontade do ambiente da ONU – não respondeu imediatamente, mas parece improvável que aceite a oferta.

Vários dias após a eleição de Bolsonaro, Bündchen se pronunciou contra uma proposta de fusão dos ministérios da agricultura e do meio ambiente, descrevendo a medida como “potencialmente desastrosa e um caminho sem retorno”. (Os ministérios permaneceram separados.)

Em 2017, ela se pronunciou contra a proposta de legislação para abrir 600 mil hectares de floresta amazônica para desenvolvimento no Twitter, levando o ex-presidente Michel Temer a vetar o projeto. Mais tarde, ela acusou o governo de “leiloar a Amazônia” para o setor privado.

Bündchen, de 38 anos, também trabalhou em iniciativas de água limpa e combate ao desmatamento e recebeu o prêmio Global Environmental Citizen da Harvard School of Medicine. Ela não respondeu imediatamente aos comentários de Dias.

Após sua entrevista na rádio, Dias escreveu no Twitter: “Eu disse que Gisele Bündchen poderia ser uma embaixadora do Brasil para mostrar que produzimos agricultura para o mundo enquanto preservamos o meio ambiente. O modelo logo receberá nosso convite. ”

A modelo poderá potencialmente desempenhar um papel fundamental na iminente batalha na Amazônia brasileira entre ativistas ambientais e defensores do agronegócio, que detêm um poder considerável no governo após o balanço decisivo do Brasil para a direita nas eleições de outubro.


Artigo publicado originalmente em inglês pelo jornal britânico “The Guardian” [Aqui!]

Ricardo Salles viverá muitas agruras se insistir em negar o óbvio

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Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, que foi condenado por fraudar o processo do Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental da Várzea do Rio Tietê, quando foi secretário estadual de SP.  Foto: Giovana Girardi/Estadão

O dublê de advogado e “agroboy” Ricardo Salles que agora virou ministro do Meio Ambiente vai aprender rapidamente que suas declarações serão constantemente checadas seja no Brasil ou no exterior. É que ser ministro do Meio Ambiente do país que contém a maior área contínua de florestas tropicais do planeta coloca o que ele disser sob uma lupa muito maior do que quando era secretário estadual de Geraldo Alckmin (PSDB/SP).

Salles usou seus primeiros dias no cargo para desqualificar a qualidade dos dados do desmatamento e secundarizar a questão das mudanças climáticas. Um exemplo disso foi uma entrevista que ele concedeu à Rádio Eldorado de São Paulo no dia de ontem (11/01) onde reafirmou em linhas gerais as mesmas declarações estapafúrdias em torno dessas duas questões centrais.

Cerca de 24 horas após essa entrevista ser veiculada, a competente jornalista, especializada em questões ambientais, Giovana Girardi produziu uma espécie de checagem acerca das declarações de Ricardo Salles acerca dos percentuais de desmatamento na Amazônia e o papel que o Brasil deverá cumprir no combate às questões resultantes das mudanças climáticas.

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O resultado dessa checagem deixa Ricardo Salles na condição de mais um ministro despido em via pública, como já está ocorrendo com o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Henrique Fraga.  Um dos desmontes mais vexaminosos das declarações de Salles se refere ao montante de desmatamento “ilegal em unidades de conservação que são desmentidas por dados oficiais.

Em outras palavras, Ricardo Salles ou não se preocupou em fazer a tal lição de casa que ele apregoa ser necessário e não leu os dados oficiais ou simplesmente decidiu brincar com a verdade e foi pego no contrapé na checagem feita por Giovana Girardi.

Quem desejar acesso a íntegra da reportagem de Giovana Girardi, basta clicar [Aqui]

Circulando entrevista concedida em Lisboa ao jornal “Diário de Notícias”

Hoje (11/01) foi publicada uma longa entrevista que concedi à jornalista Filomena Naves do jornal português “Diário de Notícias” onde foram abordadas várias questões relacionadas à situação da Amazônia e da ciência brasileira sob a batuta de Jair Bolsonaro e seus ministros, digamos, portadores de opiniões excêntricas sobre várias questões, a começar pelo tema das mudanças climáticas e pela necessidade de controlar o desmatamento que vem crescendo de forma acelerada na maior porção de floresta tropical do planeta.

diário de notícias

Quem desejar ler a íntegra desta entrevista, basta clicar [Aqui!]

Pesquisadores usam torre na Amazônia para investigar relação da floresta com o clima global

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Maria Fernanda Ziegler, em Uatumã  |  Agência FAPESP 

Para fazer ciência na Amazônia, além de enfrentar longos desafios logísticos, também é preciso subir degraus. Muitos deles. Quase 1,5 mil e, se possível, de uma só vez. O esforço vale a pena, pois tem levado a descobertas sobre o impacto tanto das mudanças climáticas na Amazônia quanto da floresta no clima de todo o planeta.

A escadaria em questão está na Torre Alta da Amazônia (ATTO, na sigla em inglês), com 325 metros de altura – ou quase o mesmo que três edifícios Copan empilhados. A torre fica a 150 km de Manaus (AM), na Estação Científica do Uatumã. É lá que cientistas instalam equipamentos capazes de captar informações sobre os fluxos de troca entre a floresta e a atmosfera.

São análises de concentrações de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, do balanço de radiação e de fluxos de ozônio e aerossóis – partículas líquidas ou sólidas em suspensão no ar –, entre outros indicadores importantes para que se forme um panorama da importância da floresta amazônica.

Antônio Huxley do Nascimento sobe até o topo da torre diariamente quando está na Estação Científica, cerca de 10 dias por mês. Ele é técnico em instrumentação do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa) e monitora a operação de alguns dos mais de 100 equipamentos instalados na torre ATTO. Para subir, ele usa equipamento de segurança que inclui cinturão, mosquetões e cordão presos à cintura e ao corrimão da escadaria.

Nascimento verifica dados e o funcionamento dos equipamentos. “São equipamentos que coletam dados complexos o tempo inteiro, não pode haver interrupção. Eles geram uma quantidade enorme de dados e as informações são acessadas pelos pesquisadores em seus laboratórios no Brasil e na Alemanha. Mas é preciso ver constantemente se está tudo funcionando bem na torre”, disse à Agência FAPESP.

Em funcionamento desde 2015, a construção da torre custou € 8,4 milhões, financiados metade pelo governo alemão e pelo Instituto Max Planck e a outra metade pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) do Brasil, com recursos da Financiadora de Inovação e Pesquisa (Finep). Agências de fomento estaduais, como a FAPESP, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e a Fundação da Universidade Federal do Paraná (Funpar), financiam projetos de pesquisa na torre.

Na reserva existem ainda outras duas torres mais baixinhas, com 80 metros cada, usadas para o estudo de gases e aerossóis. Nelas é possível ter uma perspectiva mais próxima do dossel e não sobre a floresta, como ocorre com a torre ATTO.

A copa das árvores chega geralmente até 40 metros de altura, ou um oitavo da torre ATTO. Nessa etapa da subida da torre, é possível sentir a variação da umidade da floresta. Bem mais acima, a uns 170 metros de altura, um vento forte toma a torre. No entanto, ela não balança, pois está fixada também por longos e fortes cabos de aço. No topo, vê-se a imensidão da floresta, geralmente acompanhada por um enorme silêncio. De resto, só alguns pássaros conseguem parar no alto da torre, ou deixar lembranças por lá.

A Amazônia desempenha um papel importante nos ciclos biogeoquímicos globais de gases de efeito estufa. “A floresta amazônica é de extrema importância, principalmente por ser um bioma único no mundo, em região tropical. É a maior extensão de floresta tropical e o único lugar onde a própria floresta tem mecanismos de controle de seu clima interno, impactando muito de nosso planeta”, disse Paulo Artaxo, professor titular no Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IFUSP) e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

Essas características da floresta amazônica permitem que ela tenha mecanismos de regulação climática sobre a região.

“A floresta controla o balanço de energia, o fluxo de calor latente e sensível, o vapor d’água e os núcleos de condensação de nuvem que vão intensificar o seu ciclo hidrológico. E isso só é possível se houver uma extensão muito grande de floresta contígua. Quando ela é fragmentada, deixa de ter essa propriedade”, disse o também membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais.

Artaxo coordena a pesquisa “O ciclo de vida dos aerossóis e nuvens na Amazônia“. Apoiada pela FAPESP, a pesquisa vai calcular o transporte de aerossóis a partir de medidas obtidas na torre ATTO, em Chacaltaya – a 5.250 metros de altitude nos Andes bolivianos – e em barcos e aviões.

O pesquisador também coordenou o href=”https://bv.fapesp.br/pt/376/”>Green Ocean Amazon Experiment (GOAmazon), campanha científica que buscou entender como os ciclos de vida dos aerossóis e das nuvens são influenciados pelo transporte de poluentes de Manaus para regiões de floresta tropical. O GOAmazon foi realizado de 2013 a 2018 e teve apoio da FAPESP, do Departamento de Energia dos Estados Unidos (DoE) e da Fapeam.

A análise de dados coletados na torre ATTO e em outros locais da Amazônia permitiu ao projeto GoAmazon fazer descobertas importantes sobre a dinâmica da floresta amazônica e sua relação com as mudanças climáticas. A partir de dados obtidos na torre, pesquisadores descobriram que o processo de aquecimento global pode ser ainda mais intenso do que o previsto originalmente caso não se consiga frear o desmatamento.

O grupo de pesquisadores reproduziu matematicamente as condições atmosféricas atuais do planeta, incluindo concentrações de aerossóis, compostos orgânicos voláteis (VOCs, na sigla em inglês) antropogênicos e biogênicos, ozônio, CO2, metano e também os demais fatores que influenciam na temperatura global. De acordo com o estudo, essa maior intensidade de aquecimento está relacionada principalmente às mudanças nas emissões de BVOCs (compostos orgânicos voláteis biogênicos) pelas florestas tropicais.

Outro estudo, publicado na Nature Communications, reforçou a importância da Amazônia na regulação química da atmosfera. Pesquisadores do GoAmazon descobriram que a floresta amazônica emite três vezes mais isopreno do que o estimado anteriormente. A substância é um dos principais precursores do gás ozônio.

Aerossóis e ozônio

Um terceiro trabalho, publicado na revista Science, mostrou que na floresta tropical as partículas ultrafinas de poluição emitidas pelas cidades – e que costumam ser desprezadas para o impacto da poluição urbana – afetam substancialmente a formação das nuvens de tempestade na Amazônia.

Os resultados obtidos ajudam na compreensão de como a poluição urbana afeta os processos relacionados à formação de tempestades na Amazônia.

“É um quebra-cabeça e nós tentamos justamente identificar novas peças para contar a história completa”, disse Luciana Varanda, professora da Unifesp e integrante do GoAmazon.

Varanda faz estudos também na Floresta Nacional do Tapajós, no Pará, e na reserva do Cuieras, que fica a 60 km de Manaus (AM). “Estamos comparando observações no ATTO e nesses outros dois pontos e os resultados são semelhantes. Isso indica que essa floresta, apesar de ser mais próxima de Manaus, na maior parte do tempo tem condições originais da floresta preservada”, disse.

Os cientistas do GoAmazon utilizam equipamentos de última geração instalados nas torres.

“Eles funcionam automaticamente, coletam o ar e analisam com alta precisão a concentração de dióxido e monóxido de carbono – indicadores de ação do homem. Também medimos o ozônio, que é um poluente importante na troposfera. E ainda temos equipamentos que analisam detalhadamente as propriedades físico-químicas dos aerossóis. São análises em tempo real de composição química e de propriedades ópticas que indicam a interação dos aerossóis com a radiação solar e a fotossíntese da floresta”, disse Varanda.

Artaxo explica que as torres foram construídas em locais onde recebem quantidade mínima de poluição urbana.

“A poluição de Manaus atinge a torre ATTO muito esporadicamente, coisa de alguns dias por ano. Na maior parte do tempo, a torre recebe uma das massas de ar mais limpas que temos no planeta, que é transportada por 2 mil quilômetros desde o Atlântico Tropical, ao longo de uma região que não tem nenhuma grande área urbana. Isso é o que faz a torre ser muito especial do ponto de vista de monitoramento atmosférico de gases do efeito estufa, partículas de aerossóis, nuvens, radiação etc.”, disse à Agência FAPESP.

Para Artaxo, medições desse tipo na Amazônia são de extrema importância, tanto que só existem outras duas torres no mundo com características semelhantes à torre ATTO.

“Existe a torre Zotto, que fica na Sibéria, com 302 metros de altura, e uma torre alta que fica em Wisconsin, a WLEF, nos grandes lagos na América do Norte. Elas medem o balanço de carbono e propriedades atmosféricas. A torre ATTO é a única localizada em regiões tropicais, que são regiões estratégicas do ponto de vista de balanço de carbono e hidrologia global”, disse.

“O ATTO é um grande grupo integrado de pesquisadores e o mais importante é que estamos fazendo tudo no mesmo lugar. Há um intercâmbio grande entre os pesquisadores, não só de conhecimento, mas de dados, análises e também de metodologia de pesquisa”, disse Susan Trumbore, pesquisadora do Instituto Max Planck e coordenadora do lado alemão do projeto.

O objetivo é que cada projeto de pesquisa tenha um equilíbrio entre brasileiros e alemães. “Futuramente, pretendemos abrir a pesquisa para cientistas de outras nacionalidades”, disse Trumbore.

Na reserva são feitas pesquisas em fisiologia da vegetação, meteorologia, hidrologia, vegetação, gases do efeito estufa, entre muitas outras áreas.

“É essencial a colaboração entre os pesquisadores. Por exemplo, digamos que estudamos aerossóis e notamos que um gás específico está com concentração alterada. A primeira providência é contatar os colegas que estão medindo essa partícula. Depois, analisamos dados de satélites, de vento e de grande escala da vegetação. É importante estar conectado com diferentes áreas, pois a floresta é um sistema dinâmico complexo”, disse Stefan Wolff, pesquisador do Instituto Max Planck de Química.

Um exemplo de colaboração entre pesquisadores está no experimento supervisionado por Fernanda da Luz, que acabou de defender mestrado no Inpa. Ela integra a equipe de um estudo sobre a influência da diversidade vegetal e do solo na composição molecular da matéria orgânica dissolvida no solo. O experimento faz parte do projeto de doutorado de um pesquisador do Instituto Max Planck de Biogeoquímica.

De 15 em 15 dias, Luz coleta amostras de água para análise do carbono orgânico. As análises das amostras são realizadas no laboratório de hidrologia do Inpa.

Amazônia como um todo

Trumbore explica que para entender a complexidade da interação da floresta com a atmosfera é necessário também fazer pesquisas de solo e da vegetação. “Particularmente, a minha pesquisa não usa a torre. Ela envolve fazer buracos no solo em vez de subir na plataforma”, disse.

Para ela, o mais positivo do projeto como um todo é tentar entender processos complexos. “Ao mesmo tempo que medimos os fluxos atmosféricos, precisamos entender o porquê. Por isso estudamos solo, árvores, folhas, a relação simbiótica de liquens e muitos outros aspectos. Eu fico com a parte dos porquês. A reserva científica também serve de apoio para pesquisas de vegetação”, disse.

O metano, gás importante para o efeito estufa, é emitido pelo solo e em áreas inundadas. “No nível global a bacia amazônica é uma fonte global de metano. Queremos saber como isso vai se alterar com as mudanças climáticas e o aquecimento global”, disse Trumbore.

Artaxo destaca que a torre ATTO tem que funcionar a médio e longo prazo para fazer diagnósticos precisos do que está ocorrendo com o ecossistema amazônico.

“Ele está perdendo carbono para a atmosfera? Está absorvendo? A chuva está diminuindo ou aumentando? São questões fundamentais tanto para responder questões relacionadas ao Acordo de Paris, do qual o Brasil é signatário, quanto questões para que possamos fazer um diagnóstico preciso e o mais cedo possível do estado atual do funcionamento do ecossistema amazônico”, disse. 

FONTE:  Agência Fapesp

 

Povos indígenas da Amazônia estão sob risco de genocídio por serem guardiões da natureza

povos originários

Em 2005 eu e um grupo de colegas publicamos na revista Environmental Conservation o artigo intitulado “Conservation units: a new deforestation frontier in the Amazonian state of Rondônia, Brazil. Naquele artigo, a partir de análises sobre as taxas de desmatamento no interior de unidades de conservação, identificamos uma tendência por parte de vários atores (madeireiros, produtores rurais, garimpeiros) de tratar as áreas protegidas existentes na Amazônia como a próxima fronteira de exploração dos recursos naturais existentes no interior da Amazônia brasileira [1].

Treze anos depois daquela publicação, estamos testemunhando a uma tentativa de desmantelar o sistema nacional de unidades de conservação, com um especial foco nas reservas indígenas. Em um dos seus discursos de campanha, o agora presidente de república prometeu rever demarcações já feitas e impedir a concessão de novas áreas [2]. Esses discursos de campanha estão agora sendo transformados em ação de governo, implicando em graves riscos para a integridade dos povos indígenas e os territórios que eles ajudam a proteger.

Para que se tenha ideia da importância das unidades de conservação e reservas indígenas na manutenção dos ecossistemas amazônicos, bem como se possa entender o risco que os planos do governo Bolsonaro implica para o futuro das mesmas, mostro abaixo uma animação feita a partir da integração de imagens de satélites que mostram as mudanças da paisagem na região no entorno do Parque Nacional do Xingu entre 1984 e 2018 [3].

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O fato é que quando se anuncia que as demarcações de reservas o que já foram concluídas serão revistas, e que as ainda em andamento não serão concluídas, o que temos realmente é uma sinalização de que será permitida a livre ação para a pilhagem dos ecossistemas naturais que elas ajudam a proteger. E, neste processo, as populações indígenas estarão sob grave risco já que, na ausência da ação efetiva do Estado em prol da proteção dos ecossistemas e recursos nelas contidos, elas são de fato as guardiães dos biomas amazônicos.

povos indigenas

Por essas razões é que considero essencial que seja formada uma rede de apoio aos povos indígenas, de modo a protegê-los dos ataques que certamente virão por parte de atores que desejam avançar legal ou ilegalmente sobre seus territórios. Do contrário, o mundo acabará assistindo a um processo de genocídio indígena em pleno Século XXI.