Pastagens brasileiras ocupam área equivalente a todo o estado do Amazonas

Área de pastagens cresceu 200% na Amazônia nos últimos 36 anos. Neste período a quantidade de pastagens severamente degradadas caiu pela metade em todo o país

pastagens

O principal uso dado ao solo brasileiro é a pastagem: ela ocupa 154 milhões de hectares de norte a sul do país, com presença em todos os seis biomas. Essa área praticamente equivale a todo o Estado do Amazonas, que tem 156 milhões de hectares. Ou 6,2 estados de São Paulo. Ou mais de duas vezes e meia o tamanho da Bahia. Os dados fazem parte de um mapeamento inédito do MapBiomas que será apresentado nesta quarta-feira, 13 de outubro, a partir de 10h30, pelo YouTube.

A área destinada à pecuária é ainda maior se considerar que a ela se somam parte das áreas de campos naturais, principalmente no Pampa e Pantanal, que cobrem 46,6 milhões de hectares no país, e áreas de mosaico de agricultura e pastagem onde o mapeamento não permitiu a separação ou elas ocorrem de forma consorciada, e que cobrem 45 milhões de hectares.

A análise das imagens de satélite entre 1985 e 2020 permitiu também avaliar a qualidade das pastagens brasileiras e constatar uma queda nas áreas com sinais de degradação de 70% em 2000 para 53% em 2020. No caso das pastagens severamente degradadas houve uma redução ainda mais expressiva; representavam 29% das pastagens em 2000 (46,3 milhões de hectares) e agora representam 14% (22,1 milhões de hectares). Essa melhora foi identificada em todos os biomas, sendo que os que apresentaram maior retração nas áreas severamente degradadas foram Amazônia (60%), Cerrado (56,4%), Mata Atlântica (52%) e Pantanal (25,6%).

“A qualidade das pastagens tem importância estratégica para o produtor e para o país. Para o produtor, pela relação direta com a produtividade do rebanho, seja ele de corte ou de leite. Para o país, pela capacidade das pastagens bem manejadas de capturar carbono das. Por outro lado, pastagens degradadas agravam a contribuição do setor agropecuário para as emissões dos gases que estão alterando o clima, com efeitos perversos sobre a própria atividade agropecuária”, explica Laerte Laerte Ferreira, professor e pró-reitor de Pós-Graduação (PRPG) da Universidade Federal de Goiás e coordenador do levantamento de pastagens do MapBiomas.

De 1985 a 2020, pelo menos 252 milhões de hectares são ou já foram pastagem. A partir da análise de imagens de satélite foi possível detectar duas fases distintas no processo de conversão que transformou quase um terço do país em pastagens nesse período. Ele foi mais intenso entre 1985 e 2006, quando se registrou um crescimento de 46,3% na extensão ocupada por pastagens, que passou de 111 milhões de hectares para 162,4 milhões de hectares. Em meados dos anos 2000, a área total de pastagem parou de crescer e até encolheu, registrando uma retração de 5% de 2005 a 2020.

qualidade pastagem

Sobre o MapBiomas

O MapBiomas é uma iniciativa multi-institucional que reúne universidades, ONGs e empresas de tecnologia que se uniram para contribuir para a compreensão das transformações do território brasileiro a partir do mapeamento anual da ocupação e uso do solo no Brasil. Em agosto de 2021, foi publicada a Coleção 6 de MapBiomas com mapas de cobertura e uso do solo do Brasil de 1985 a 2020. A ferramenta desenvolvida pela MapBiomas para todas as suas iniciativas disponibiliza informações geradas com resolução espacial de 30 metros. Os dados são processados usando algoritmos de classificação automática por meio de informações na nuvem do Google Earth Engine. https://mapbiomas.org/

“Nunca encontrei na Amazônia um plano de manejo certo”, diz Alexandre Saraiva, delegado da Polícia Federal

Responsável pela apreensão histórica de madeira ilegal na Amazônia participa de evento sobre o bioma no Instituto de Engenharia de São Paulo

alexandre saraiva

Salvar a Amazônia com foco no Brasil do futuro. Esse foi o foco do evento online “Amazônia e Bioeconomia – Sustentada em Ciência, Tecnologia e Inovação”. O tema é discutido como parte das comemorações dos 105 anos do Instituto de Engenharia de São Paulo, marcado nesta quarta-feira, 13 de outubro.

A ideia é discutir as oportunidades e desafios do País na bioeconomia, além de reações sobre as mudanças climáticas, cooperação entre instituições públicas, governo e iniciativa privada.

Alexandre Saraiva, delegado da Polícia Federal, responsável pela Operação Handroanthus, que fez a história apreensão de madeira ilegal na Amazônia, ano passado, participou das discussões.

Segundo ele, é importante conhecer os problemas para trazer as soluções. Assim, é fundamental priorizar a defesa da Amazônia.

“O que vemos hoje, é um desastre para a biodiversidade amazônica, mas o pior é que nada se muda desde 1500. Essa dinâmica não é nova. Nós não aprendemos nada”, diz Saraiva.

E o delegado conta o que viu em sua experiência naquele local. “Nunca encontrei na Amazônia um plano de manejo certo. Acompanhei pessoalmente mais de mil processos, e outros colegas muitos outros”, revelou.

Assim, Saraiva é direto e garante que “organizações criminosas se apoderaram do esquema da madeira ilegal na Amazônia”. Para ele, esse é o principal ponto a ser combatido hoje.

Carlos Nobre, cientista, pesquisador e professor, fez um panorama da importância do bioma. Ele explicou que entre vários benefícios, a floresta amazônica remove entre 1 e 2 bilhões de toneladas de gás carbônico por ano da atmosfera.

“A Amazônia também recicla o vapor d’água para o Sul do Brasil. É o fenômeno dos ‘rios voadores’. Com isso, por exemplo, 18% das chuvas da bacia do rio Paraná, vem da umidade da Amazônia, o que ajuda para a agricultura”, revela o engenheiro Carlos Nobre.

E para quem não entende a importância, o especialista mostrou que há mais espécies em apenas um hectare da floresta amazônica, do que em toda a Europa. “É a maior biodiversidade do mundo”, relembra.

Marcio Souza, romancista e dramaturgo, autor de várias obras com a temática amazônica, reforça que há questões urgentes: o genocídio planejado das populações e cultura do local, bem como o ataque ao meio ambiente.

“Não é possível dissociar essas questões e ver a falta de diálogo com essas etnias que estão há milênios por lá”, contou o escritor.

É possível evitar os problemas?

Para todos os participantes do evento realizado pelo Instituto de Engenharia de São Paulo, a solução passa pela nova bioeconomia da floresta.

É preciso instalar biofábricas distribuídas no território com alta agregação de valor local. A equação está na soma de sociobiodiversidade, pessoas e alta tecnologia.

Isso é reforçado pelo engenheiro George Paulus, coordenador do Grupo de Trabalho “Amazonia e Bioeconomia” e Conselheiro do Instituto de Engenharia. “Buscamos, assim, um debate para um projeto nacional focado na bioeconomia brasileira. Esse olhar precisa acontecer e é preciso encontrar subsídios para isso”, conclui.

Link para assistir ao evento na íntegra:

Eventos especiais – 105 anos do Instituto de Engenharia

Como parte das comemorações dos 105 anos do Instituto de Engenharia, celebrado neste mês de outubro, serão apresentados eventos com foco em várias áreas do desenvolvimento do Brasil, como o “Lançamento da Cartilha 5G”, “Governança Metropolitana dos Transportes”, e a “Importância da Navegação na Matriz de Transporte”.

As atividades são gratuitas e com transmissão pelo YouTube. Mais informações no site: https://www.institutodeengenharia.org.br .

Sobre o Instituto de Engenharia

O Instituto de Engenharia (IE) é uma sociedade civil sem fins lucrativos. Em outubro completa 105 anos de tradição, credibilidade e comprometimento com o desenvolvimento do Brasil.

O IE realiza estudos e debates temáticos para direcionar o desenvolvimento do país em áreas estratégicas como energia, mobilidade, logística, infraestrutura, tecnologia e agronegócios.

A floresta amazônica está perdendo 80.000 campos de futebol por dia. Logo será tarde demais

Desde 1988, uma área de floresta tropical aproximadamente do tamanho do Texas e do Novo México combinados foi destruída

amazon deforestation‘A Amazônia – historicamente um grande absorvedor de carbono – agora libera mais carbono do que armazena, o que aumenta, em vez ajuda a reduzir, nossa crise climática global.’ Fotografia: Carl de Souza / AFP / Getty Images

Por Kim Heacox para o “The Guardian”

Pouco antes de completar 44 anos, em dezembro de 1988, o seringueiro e ativista ambiental brasileiro Chico Mendes previu que não viveria até o Natal. “No início”, disse ele, “pensei que estava lutando para salvar as seringueiras, depois pensei que estava lutando para salvar a floresta amazônica . Agora eu percebo que estou lutando pela humanidade. ”

Mendes recebia ameaças de morte há anos. As ameaças aumentaram quando um fazendeiro agressivo reivindicou uma reserva florestal próxima, onde pretendia queimar e nivelar árvores para criar pasto para o gado. O fazendeiro contratou pistoleiros para rondar o bairro de Mendes. Mendes se opôs publicamente ao fazendeiro e continuou a defender os direitos humanos dos povos indígenas da bacia amazônica, dizendo que o Brasil deve salvar a floresta de maior biodiversidade do mundo. Destrua-o, disse ele, e nós, a raça humana, acabaremos nos destruindo.

Três dias antes do Natal de 1988, Mendes foi morto a tiros pelo filho do fazendeiro.

Isso surpreendeu o mundo.

O Conselho Nacional dos Seringueiros, cambaleando com o assassinato, fez um apelo para que a Amazônia fosse preservada “para toda a nação brasileira como parte de sua identidade e auto-estima”. O conselho acrescentou: “Esta Aliança dos Povos da Floresta – reunindo índios, seringueiros e comunidades ribeirinhas – envolve todos os esforços para proteger e preservar este imenso mas frágil sistema de vida que envolve nossas florestas, rios, lagos e nascentes, a fonte de nossa riqueza e a base de nossas culturas e tradições. ”

Desde o assassinato de Mendes, quase 1 milhão de km2 da Amazônia, uma área quase do tamanho do Texas e do Novo México juntos, foram destruídos, principalmente no Brasil, mas também no Peru, Colômbia, Venezuela, Suriname, Guiana e Guiana Francesa. Isso equivale a uma média de cerca de 80.000 hectares por dia, ou 40 campos de futebol por minuto. Só no Brasil, que abriga a maior extensão de floresta, a taxa de perda aumentou em mais de 30%. A Amazônia – historicamente um grande absorvedor de carbono, já que as árvores absorvem dióxido de carbono e liberam oxigênio – agora libera mais carbono do que armazena, o que contribui para, em vez disso, ajuda a reduzir nossa crise climática global.

As taxas de desmatamento diminuíram ligeiramente de 2004 a 2012. Mas, desde então, elas voltaram a aumentar, especialmente nos últimos dois anos, desde que Jair Bolsonaro se tornou presidente do Brasil.

Em 2018, enquanto Bolsonaro fazia campanha como um homem patriótico do povo, os cientistas previram que, uma vez que a Amazônia perdesse mais de 25% de sua cobertura de árvores, se tornaria um ecossistema mais seco, tudo porque o desmatamento muda os padrões climáticos (devido à forma como as árvores respiram) , que por sua vez reduz as chuvas. Além disso, à medida que a floresta se torna fragmentada, as áreas cercadas por pastagens perderão espécies em um processo que os biogeógrafos chamam de “decadência do ecossistema”.

Em suma, a Amazônia está morrendo. Bibliotecas genéticas inteiras e sinfonias de espécies – árvores, pássaros, répteis, insetos e muito mais, eras em formação, ajustadas pela seleção natural – estão sendo eliminadas para dar lugar a vacas que expelem metano.

“Bolsonaro é um apoiador poderoso do agronegócio”, relatou o Washington Post antes de ele ganhar a presidência, “e provavelmente favorece os lucros em vez da preservação. [Ele] se irritou com a pressão estrangeira para proteger a floresta tropical amazônica e notificou grupos internacionais sem fins lucrativos, como o World Wildlife Fund, de que não tolerará suas agendas no Brasil. Ele também se manifestou fortemente contra as terras reservadas para tribos indígenas ”.

Escrevendo no Mongabay, um site de ciência, Thais Borges e Sue Branford relataram em maio de 2019 que um “novo manifesto de oito dos ex-ministros do meio ambiente do Brasil … advertem [s] que as políticas ambientais draconianas de Bolsonaro, incluindo o enfraquecimento do licenciamento ambiental, além de varreduras ilegais anistias de desmatamento, podem causar grandes prejuízos econômicos ao Brasil ”.

Robert Walker, geógrafo quantitativo do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade da Flórida, disse que, a menos que algo sem precedentes aconteça, ele prevê que a maior floresta tropical da Terra será destruída em 2064.

Se assim for, terá levado oportunistas locais – armados com motosserras, tratores e gritos de “terra, terra, terra” – pouco mais de um século para destruir uma floresta tropical de 10 milhões de anos e composta por cerca de 390 bilhões de árvores. Talvez então, em um futuro quente, brutal e não muito distante, quando os historiadores narrarem a destruição de seu próprio planeta pela humanidade, a matança da Amazônia chegará ao topo ou próximo disso. E todas as razões pelas quais isso teve que ser feito – tão urgentes na época – parecerão banais até que, retiradas, duas causas fundamentais permanecem: ignorância e ganância.

Entra o Papa Francisco, que não tem medo de abrir precedentes. Junto com o Arcebispo de Canterbury Justin Welby e o Patriarca Ecumênico Ortodoxo Patrick Bartholomew, os três principais líderes cristãos do mundo publicaram recentemente “Uma Mensagem Conjunta para a Proteção da Criação”, pedindo aos cristãos de todo o mundo que “ouçam o clamor da Terra”. Isso inclui todos, ricos e pobres, velhos e jovens, que devem examinar seu comportamento e prometer “sacrifícios significativos pelo bem da Terra que Deus nos deu”. Os três também imploraram aos líderes mundiais programados para participar da Conferência do Clima das Nações Unidas (Cop 26) em Glasgow, que começa em 31 de outubro, para fazer escolhas corajosas – e necessárias.

Se sua saúde permitir, Francis participará da conferência de Glasgow. Welby também planeja comparecer. Esperançosamente, logo depois disso, Francisco, que é o primeiro papa das Américas na história, iria visitar o Brasil, o país católico romano mais populoso do mundo. Ele entraria na Amazônia, abençoaria a floresta – o que resta dela – e pediria ao mundo que ajudasse a virar a maré nas políticas imprudentes do Brasil. Talvez ele pudesse fazer uma homilia sobre Apocalipse 7: 3: “Não faça mal à terra, ao mar ou às árvores …” Uma homilia que inspire os sul-americanos a melhorar seu meio de vida ao mesmo tempo em que protege sua floresta ancestral – os pulmões da terra. Finalmente, Francisco poderia apelar para sua igreja e as nações mais ricas do mundo para gastar parte de sua vasta riqueza para ajudar a reeducar, reequipar e reempregar os fazendeiros, pecuaristas, posseiros e empresários da Amazônia.

Logo depois de ser eleito papa em 2013, Jorge Mario Bergoglio, de Buenos Aires, assumiu seu título papal em homenagem a São Francisco de Assis da Itália, o padroeiro dos animais e pássaros, que, como Chico Mendes, morreu aos 44 anos e falou a verdade ao poder . Henry David Thoreau, o transcendentalista da Nova Inglaterra que escreveu Walden and Civil Disobedience, também morreu aos 44 anos e fez o mesmo.

Não é quanto tempo temos ou dinheiro. É o que fazemos com isso. “Deixe sua vida ser um contra-atrito para parar a máquina”, escreveu Thoreau. Ele acrescentou que sempre que caminhava na floresta, ficava “mais alto do que as árvores”.

O Brasil leva o nome de uma árvore, o Pau-Brasil, assim dada por exploradores portugueses que o valorizavam por seus corantes vermelhos. Conhecido hoje como Pernambuco ou pau-brasil, é listado como uma espécie em extinção e é cuidadosamente plantado e manejado, e colhido seletivamente por homens habilidosos que, com facões pendurados em seus cintos de corda, se movem pela floresta como água e muitas vezes abençoam cada árvore antes cortando a madeira que será entalhada em arcos requintados para violinos, violas e violoncelos.

Diz-se que o povo brasileiro, por mais difícil que seja sua situação, sorri em vez de chorar porque ama a vida. Também se disse que o futuro do Brasil é o futuro do mundo.

Chico Mendes estava certo.

Salve a Amazônia, e talvez possamos nos salvar.

Colaborador frequente do Guardian, Kim Heacox é autora de muitos livros, incluindo The Only Kayak, um livro de memórias, e Jimmy Bluefeather, um livro de memórias, ambos vencedores do National Outdoor Book Award. Ele mora no Alasca

compass

Este artigo foi escrito inicialmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian”  [Aqui!].

Barragem de Belo Monte: apenas uma turbina em operação devido à seca e peixes morrem devido ao aumento da temperatura da água

A estação seca deste ano na Amazônia expõe implacavelmente os erros de cálculo na construção da barragem de Belo Monte 11 GW no rio Xingu, no estado amazônico do Pará

belo monteBelo Monte (vista aérea 2016). Foto: christianrussau

Por Christian Russau para a Kobra

Desde 2011, os críticos da barragem de Belo Monte 11 GW, no rio Xingu, no estado amazônico do Pará, haviam alertado enfaticamente que a construção da barragem não só levaria a enormes consequências sociais e ecológicas, mas para o governo e consórcios de construção e a operadora logo se revelaria perdida. Agora fica claro com clareza implacável que os proponentes daquela que era então a terceira maior barragem do mundo estavam errados e os críticos estavam certos. Infelizmente, isso não é motivo de alegria para ninguém.

18 turbinas devem agora girar nas massas de água da barragem de Belo Monte, localizada atrás do reservatório, que retira 80% da água do rio da Volta Grande e a desvia para o reservatório, transformando e fornecendo eletricidade para a economia em expansão do Brasil e sociedade. No momento, uma turbina está girando e só está girando com metade de sua potência. Devido à atual seca na área da bacia do Xingu, o aproveitamento atual do potencial de geração de energia de Belo Monte é de apenas 2,67% desde o início de agosto, de acordo com reportagens da mídiaIsso é exatamente o que os críticos têm enfatizado repetidamente desde a decisão de construção em 2011 que a meta de 11 GW de plena carga só poderia ser atingida por alguns meses do ano, e que o cálculo da lucratividade da usina hidrelétrica ficaria, portanto, obsoleto. E é exatamente isso o que fica evidente no momento no rio Xingu.

Desde a sua conclusão, a usina de Belo Monte produziu menos do que os especialistas calcularam para a estação seca. No momento da construção, presumia-se que a usina geraria em média 690 MW por dia durante os meses de seca. A saída atual é de 300 MW. Esperava-se uma produção média de 4.000 MW para todo o ano. No ano passado era de 3.293 MW médios e em 2019 era de 3.027 MW médios, segundo dados do Operador Nacional da Rede Elétrica (ONS). Então Belo Monte nunca correspondeu às expectativas econômicas e hoje o desempenho é menor do que nunca.

Além disso, a seca fez com que a pouca água que restava esquentasse, levando ao aumento da morte de peixes, conforme a mídia agora está relatando . “Isso é um absurdo, porque são peixes que poderiam servir de alimento para a população, e alguns são peixes ornamentais que têm valor de mercado nas grandes cidades, como a Bandeira do Acará. Aqui temos o pacu que poderia servir de alimento, mas na momento só há comida para urubus ”, disse à mídia o professor de biologia Rodolfo Salm, da Universidade Federal do Pará (UFPA) . Em uma pandemia galopante como a de Corona, isso é ainda mais sério quando as pessoas mal conseguem sobreviver financeiramente e sua segurança alimentar está ameaçada.

Acontece que Belo Monte foi e é e continua sendo um fiasco : moradores: por dentro e também pescadores: por dentro, pescadores ornamentais: por dentro e pequenos agricultores: por dentro foram roubados seus meios de subsistência, os reassentamentos foram insuficientes, as indenizações inadequadas, Volta Grande passou de 100 quilômetros A extensão do rio estava quase esgotada, os índios e ribeirinhos moravam nas proximidades: por dentro não podiam mais usar o rio como área de pesca ou transporte de barcos, as pragas de mosquitos assombram a área, os rotores do turbinas picam peixes, peixes vão para a água aquecida e agora mostram os números da produção nua e crua também todo o fiasco econômico. E tudo isso em nome do “desenvolvimento” e da energia “verde”.

compass

Este texto foi escrito inicialmente em alemão e publicado pela Kooperation Brasilien [Aqui!].

Brasil é o quarto maior emissor histórico de CO2, confirma estudo

Inclusão de dados de emissão por uso da terra empurra país para o alto do ranking, como mostrou Fakebook.eco em abril

tronco queimado

Em artigo publicado nesta terça-feira (5/10), o portal especializado em clima Carbon Brief confirma que o Brasil é o quarto país que mais contribuiu para as emissões históricas de CO2, depois de EUA, China e Rússia. Segundo o estudo, o Brasil é responsável por cerca de 5% das emissões no período 1850-2021, principalmente por causa do desmatamento descontrolado.

A análise do Carbon Brief incluiu as emissões da destruição de florestas e de outras mudanças no uso da terra, atualizando um estudo feito pela própria organização em 2019. Isso empurrou o Brasil para o topo do ranking, juntamente com a Indonésia (5º maior emissor histórico). Antes, eram consideradas apenas as emissões de combustíveis fósseis. O resultado confirma estudos anteriores que apontavam uma parcela maior de responsabilidade histórica do Brasil quando o uso da terra era levado em conta.

Em abril, o Fakebook.eco já havia desmentido afirmação de Jair Bolsonaro em carta ao presidente dos EUA, Joe Biden, de que o Brasil “é responsável por apenas 1% das emissões históricas de gases do efeito estufa, e menos de 3% do total corrente de emissões globais”.

A ideia de que o Brasil é um dos países que menos contribuíram para o aquecimento verificado vem de um estudo da década de 1990, feito por cientistas do governo brasileiro e apresentado pelo país na conferência de Kyoto, em 1997. A análise embasou a chamada “Brazilian Proposal”, ou Proposta Brasileira, que ajudou a sedimentar o entendimento de que a conta climática do Brasil é pequena porque o país não tinha quase nenhuma responsabilidade histórica pelo aquecimento observado hoje. Além de ser antigo, o dado da proposta original só levava em conta gás carbônico emitido por combustíveis fósseis.

Nos séculos 19 e 20, porém, o Brasil praticamente acabou com a Mata Atlântica. E, desde o final dos anos 1970, as emissões brasileiras são dominadas pelo desmatamento na Amazônia – em especial nos anos 1980, quando mais de 300 mil quilômetros quadrados de floresta foram abaixo. Estudos posteriores têm mostrado um quadro bem diferente: em 2014, por exemplo, um grupo de cientistas calculou todos os gases, incluindo uso da terra, e mostrou que o Brasil tinha a quarta maior contribuição histórica absoluta para o aquecimento global e a sétima maior contribuição per capita.

Em 2015, o físico Luiz Gylvan Meira Filho, autor principal do estudo brasileiro original, mostrou no Observatório do Clima um cálculo revisado segundo o qual a contribuição histórica do Brasil para o aquecimento verificado em 2005 era de 4,4% se considerados todos os gases.

Carbon Brief mostra que os EUA liberaram mais de 509 bilhões de toneladas (Gt) de CO2 desde 1850 e são responsáveis pela maior parte das emissões históricas: 20,3% do total global. A China ocupa o segundo lugar no ranking, com 11,4%, seguida por Rússia (6,9%), Brasil (4,5%) e Indonésia (4,1%).

De acordo com a análise, os humanos emitiram cerca de 2,5 trilhões de toneladas de CO2 na atmosfera desde 1850, um número que se alinha com os apresentados pelo IPCC e pelo Global Carbon Project.

Essas emissões cumulativas de COcorrespondem a um aquecimento em torno de 1,13oC – e as temperaturas em 2020 atingiram cerca de 1,2oC acima dos níveis pré-industriais.

“Embora a grande maioria das emissões de CO2 hoje venha da queima de combustíveis fósseis, atividades humanas como o desmatamento tiveram uma contribuição significativa para o total”, destaca o Carbon Brief. “As mudanças de uso da terra acrescentaram cerca de 786 Gt entre 1850 e 2021, o que equivale a quase um terço do total acumulado, com os dois terços restantes (1,718GtCO2) advindos de combustíveis fósseis e de cimento.”

Fonte: Carbon Brief

Este texto foi inicialmente publicado pelo Fakebook.eco [Aqui!  ].

Estudo: Desmatamento na Amazônia pode expor 12 milhões de brasileiros a calor extremo

Sobrevoo no Pará (Foto Marizilda Cruppe/Amazônia Real/17/09/20

Por Lisandra Paraguassu, da Reuters

O desmatamento em larga escala da Amazônia, somado ao aquecimento global, pode elevar as temperaturas na região em até 11,5ºC e colocar a vida, a natureza e a economia sob risco extremo, mostrou estudo feito por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Universidade de São Paulo (USP).

O estudo, publicado nesta sexta-feira (1º) na revista científica Nature, usa modelos matemáticos para prever o que pode acontecer em diferentes condições climáticas, levando em consideração apenas o aquecimento global, apenas a savanização da Amazônia ou ambos.

Um cenário apenas com as mudanças climáticas previstas pelo painel de cientistas da Organização das Nações Unidas (ONU) poderia elevar essas temperaturas em 7,5ºC. Já a combinação das duas situações poderia elevar a temperatura média mais alta da região, à sombra, em 11,5ºC.

As temperaturas máximas na região, mostram as simulações, poderiam ficar acima dos 40ºC à sombra em pelo menos 7% dos dias do ano no final deste século, podendo ultrapassar os 46ºC.

Impacto na saúde humana

Um aumento de temperatura nesse patamar, mostram os pesquisadores, tem efeitos diretos na saúde humana.

“O estresse causado por exposição ao calor excessivo pode ser extremamente perigoso para humanos, incluindo o aumento do risco de condições intoleráveis para trabalhos na sombra e risco intenso de doenças causadas pelo calor”, diz o estudo.

Para além dos risco para a saúde, que diminuiriam a capacidade de trabalho e de sobrevivência de uma população que, em muitos casos, já tem dificuldades para viver, uma mudança nesse nível tem impactos diretos na capacidade econômica da região.

A própria atividade que hoje supostamente se beneficia da destruição das florestas — o desmatamento termina por abrir mais terras para a agricultura e a pecuária — seria diretamente atingida.

“O regime de chuva colapsa de tal forma que chega a reduzir em 80% o regime de chuvas no centro da Amazônia. E, no Centro-Oeste, que também é diretamente afetado, a redução das chuvas chega a 50%”, disse Paulo Nobre, pesquisador do Inpe e um dos autores do estudo. “No calor e o solo seco sem chuva, o efeito de amplificação térmica é enorme.”

Efeitos na agropecuária

A agropecuária brasileira, que hoje garante boa parte do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e a balança comercial do país, perderia boa parte da sua efetividade, como já mostrou um outro estudo, esse feito pela think thank Planet Tracker.

Ao analisar relatórios sobre o clima na Amazônia, a Planet Tracker detectou que o desmatamento já está alterando o regime de chuvas no país, o que impacta diretamente na capacidade brasileira de produzir duas, e em alguns casos até três, safras por ano. E é essa capacidade que levou o Brasil a ser um dos maiores produtores de grãos do mundo.

O modelo criado e analisado por Paulo Nobre e os pesquisadores Beatriz de Oliveira, da Fiocruz, Marcus Bottino, também do Inpe, e Carlos Nobre, da USP, apontam para um cenário para 2100. Isso porque foi usado no modelo matemático os dados de aquecimento global que se espera para aquele ano. Paulo Nobre, no entanto, alerta que a savanização da Amazônia já está acontecendo em diversos pontos. O cenário trágico pode chegar muito mais rápido.

Savanização acontece porque floresta não tem mais saúde para se manter viva. E a savanização da Amazônia já está ocorrendo. Já foram vistos lobos-guará na Amazônia, que é um animal do cerrado. Eles estavam lá porque se perderam? Claro que não. É porque o ambiente estava propício a eles

Paulo Nobre, pesquisador do Inpe

Paulo Nobre alerta que quem vê a floresta de cima, tomada por grandes árvores verdes, pode pensar que a transformação da Amazônia em cerrado é impossível, mas não é.

“Não temos como medir isso ainda a não ser com indicadores secundários, como a presença do lobo-guará. Mas indicadores prévios disso já estão presentes”, afirmou.

Recuperação comprometida

Em um artigo publicado em 2018 também na revista Nature, os pesquisadores Carlos Nobre e Thomas Lovejoy, apontaram que, com a combinação de mudanças climáticas previstas, o aumento das áreas desmatadas e o uso de fogo para “limpar” os terrenos na região a capacidade de recuperação da floresta diminui cada vez mais.

O “ponto de não-retorno”, em que talvez a Amazônia não consiga mais recuperar a floresta, estaria em algum momento quando o desmatamento chegasse a algo entre 20% e 25% do total da floresta, apontaram os pesquisadores.

Dados do Inpe de 2020 informam que, até agora, cerca de 729 mil km² já foram desmatados no bioma Amazônia — o correspondente a 17% do território original.

Apesar de outros cientistas contestarem essas previsões, vendo uma margem maior para a destruição total da floresta, há um consenso: não só o desmatamento precisa parar, como partes destruídas da floresta precisam ser recuperadas.

“O risco não é mais pequeno, ele é enorme. E essa é uma responsabilidade planetária”, diz Paulo Nobre.

Não é mais defender o fim do desmatamento por uma questão ética, mas por sobrevivência. Não existe vacina contra excesso de temperatura

compass

Este texto foi inicialmente publicado pela CNN Brasil [Aqui!].

Grandes projetos colocam em risco espaços de vida e povos indígenas amazônicos apelam a bancos suíços que os financiam

O governo brasileiro está planejando grandes projetos de infraestrutura para o transporte de cargas na região amazônica. A população indígena está resistindo – e também apelando para as instituições financeiras suíças

porto amazonia

Outros grandes projetos de infraestrutura estão planejados na região amazônica

Para transportar mercadorias como soja para o exterior de forma mais rápida e barata, grandes projetos de infraestrutura são planejados na Amazônia brasileira. O projeto hídrico do Tapajós com uma hidrovia, sete grandes barragens e 29 hidrelétricas, ou a ferrovia «Ferrogrão», com mais de mil quilômetros de extensão.

Com a hidrovia, uma área de mais de 78.000 hectares seria inundada, como a Sociedade para Povos Ameaçados (STP) escreveu em uma mensagem. Hoje é considerada uma área protegida das comunidades indígenas. A linha férrea também tornaria necessário mudar os limites de uma reserva natural. “Consideramos esses projetos uma sentença de morte do governo”, disse um morador da área afetada em um novo relatório do GfbV.

Como prossegue o relatório, as autoridades brasileiras não se mostraram dispostas a tornar os projetos mais amigos do ambiente e do ponto de vista social. A GfbV, portanto, apela – em conjunto com ativistas da população indígena – às empresas que manifestaram interesse nos projetos e às instituições financeiras que os financiam. De acordo com o anúncio, eles incluem vários bancos suíços, como UBS, Credit Suisse, Zürcher Kantonalbank e o Swiss National Bank (SNB).

“As empresas suíças devem observar as convenções internacionais, mesmo que o governo brasileiro não as cumpra”, continua o STP. Para que projetos como barragens e hidrelétricas sejam sustentáveis, é necessário levar em consideração não apenas o componente ecológico, mas também o social. ( agl )

compass

Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo jornal TagBlatt [Aqui!  ].

Para pesquisador da Fiocruz, agronegócio causa destruição, mudanças ambientais e climáticas

Christovam Barcellos: ‘O modelo exportador de soja e de carne deixa pouco para a população local’

Christovam Barcellos blog fundo preto (1)

Foto: Rodrigo Méxas – Icict/Fiocruz

Por Andrea Vilhena

Os resultados do último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), divulgado em agosto, trazem evidências científicas inquestionáveis de que as emissões de gases a partir da queima de combustíveis fósseis e do desmatamento representam grande ameaça para a saúde do planeta. 

As notícias recentes sobre enchentes destruindo cidades, incêndios florestais desproporcionais e secas, como a enfrentada pelo Brasil esse ano, a maior dos últimos 90 anos, não são cenas de ficção científica, mas de manifestações do aquecimento global, mostrando que caminhamos a passos largos para um mundo distópico, fruto do impacto ambiental produzido pelo homem na sua relação predatória com o planeta. O documento alerta como “extremamente provável” (95% a 100% de probabilidade) que o aquecimento global ultrapasse a perigosa marca de 2ºC até o final do século, com grandes chances de chegar a 1,5% nos próximos vinte anos e que é preciso uma ação imediata para diminuir drasticamente as emissões dos gases poluentes. 

Em entrevista ao blog do CEE,  o geógrafo Christovam Barcellos, coordenador do Observatório de Clima e Saúde e vice-diretor de Pesquisa e Ensino do Icict/Fiocruz, analisa como o Brasil vem contribuindo para essa situação, quais os impactos das mudanças climáticas para o meio ambiente, a saúde e economia e o que pode ser feito em termos de políticas públicas para se tentar reverter essa crescente ameaça. 

Leia a seguir a entrevista.

Como podemos situar o papel do Brasil no trágico cenário apontado no último relatório do IPCC? 

O próprio título do Relatório de Avaliação (AR6) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) fala sobre as bases físicas das mudanças climáticas globais. Essa é a grande dica que eles dão para nós, brasileiros, que estamos interessados na questão . Primeiro, a ênfase é nos processos físicos: temperatura, calor, alterando o regime de precipitação, alterando o círculo hidrológico da água, acumulação de calor em algumas áreas, ondas de calor etc. Segundo,  o documento aborda o planeta como um todo, mas pouco de cada região. Mais de mil páginas, do ponto de vista global sempre. Isso, para nós, é uma grande provocação, porque esses processos físicos desencadeiam outros processos químicos e biológicos que é o que interessa mais a gente da Saúde. Claro, os processos físicos acabam gerando ondas de calor, uma preocupação dos próprios Estados Unidos, mas, além disso, existem processos biológicos envolvidos que podem gerar graves problemas para a saúde. Uma segunda tarefa  será pegar esse relatório e tentar regionalizá-lo, para  detectar as particularidades do Brasil.

O que deve ser observado? 

O Brasil tem uma desigualdade gigantesca, uma das mais graves do mundo  e uma diversidade de paisagem muito grande. Temos um semiárido pertinho da Amazônia com regimes climáticos completamente diferentes. Então, cada lugar desses vai ser alterado de uma maneira e terá respostas diferentes. A matriz energética e a emissão de gases do Brasil  têm características diferentes das dos outros lugares. Por exemplo, alguns países que tiveram a revolução industrial, no século XIX (Segunda Revolução Industrial, quando a industrialização que limitava-se à Inglaterra expandiu-se para outros países) estão diminuindo as emissões de gases pela indústria. Outros países de industrialização mais recente, principalmente do Sudeste Asiático têm uma emissão de gases de efeito estufa muito forte por causa da indústria. Nós, aqui no Brasil, não. Estamos vivendo um processo de desindustrialização importante e, ao mesmo tempo, com uma economia cada vez mais voltada para o agronegócio. Isso significa, muitas vezes, desmatamento, queimada, ocupação de florestas por pastos. Essa é a grande pegada (ecológica), contribuição do Brasil para a emissão de gases de efeito estufa. Geração de energia nem tanto, a matriz energética brasileira ainda é muito baseada em hidroelétrica, o que é bom. Depois falamos da crise da água, mas isso é outro problema. 

Como o Brasil se posiciona no cenário internacional?

O Brasil até bem pouco tempo tinha uma posição muito confortável. O país dava lições para outros países de como controlar a emissão de gases. Era respeitadíssimo nas COPs [Convenções do Clima], exatamente por sua matriz energética razoavelmente limpa e por ter uma emissão baixa (de gases de efeito estufa). As outras formas de emissão, como pasto, gado, desmatamento, são mais facilmente controláveis do que as da indústria, por exemplo, e da frota de veículos [O uso da terra contribui para as emissões de CO2 produzidas pelo homem, principalmente devido ao desmatamento; já a agropecuária gera emissão de metano (CH4) e óxido nitroso (N20), outros gases de efeito estufa]. É muito mais fácil controlar, mas de um tempo para cá, infelizmente, com a crise de água, as hidrelétricas não estão funcionando plenamente, levando à  queima de biocombustível para se gerar energia. Desmatamento, pasto e criação de gado para atender o mercado internacional dispararam no Brasil. E o país começou a adotar infelizmente uma postura negacionista em relação ao clima, argumentando que temos o direito de desmatar, porque a Europa já desmatou, os EUA já desmataram. Infelizmente, viramos o que chamam de pária na negociação internacional sobre mudança climática. Lamentável. Isso vai mudar? Com certeza, porque é insustentável essa posição na diplomacia internacional. Os EUA, também, passaram por isso. Um presidente que negava tudo. Agora teve uma revirada. Até a China que era um dos maiores emissores de gases do mundo está fazendo um esforço para sair dessa lista negra. O Brasil está em um movimento contrário, investindo em termoelétrica, incentivando desmatamento etc.

No Brasil, pratica-se uma atividade pecuária muito extensiva. Se, pelo menos, recuperássemos as áreas já desmatadas e transformadas em pastagens, não seria preciso expandir e ocupar novas áreas de pasto.  Um dos argumentos utilizados por quem defende o desmatamento é que o país precisa investir na atividade econômica representada pela agropecuária. Movimentar a economia é desejo de todos, mas poderia haver um cuidado maior, não? Recuperando-se as pastagens degradadas e aumentando-se a produtividade do uso da terra. 

Lembrei de uma expressão que uma irmã minha usa: existe o agronegócio e o ogronegócio. O ogronegócio é pensar no curto prato: vamos desmatar, enfiar o gado lá dentro, vender logo porque o mercado é agora, o preço da carne está bom.  Acontece que o preço da carne pode cair, a nossa carne pode começar a ser rejeitada em vários países que estão preocupados com as questões ambientais. 

Agora, infelizmente, o Brasil, a economia nacional, vai pagar o preço de gerar renda a qualquer custo

Pensar no rodízio de pastos, em produzir folhagens no período chuvoso e armazenar em silos para garantir a alimentação dos animais no período de seca seriam práticas que talvez pudessem contribuir para um melhor aproveitamento da terra já desmatada, evitando o avanço da fronteira agrícola…

Sim. Pensar nisso como um projeto nacional de desenvolvimento tecnológico na agricultura. A Embrapa serviu durante muito tempo para isso, para aumentar produtividade sem precisar de novas áreas. Produtividade é exatamente isso. O denominador é a área, quanto maior a produtividade, menos área é necessária. Agora, infelizmente, o Brasil, a economia nacional, vai pagar o preço de gerar renda a qualquer custo. E essa renda não é revertida em riqueza para a população local. Esse modelo exportador de soja, de carne, infelizmente deixa pouco para a população local. Claro que é importante para a balança comercial brasileira, não tenho a menor dúvida, mas a própria balança comercial pode ser alterada, se os produtos brasileiros começarem a ser boicotados. E é o que está se passando em alguns países, infelizmente. Existem maneiras de se produzir que não são baseadas na monocultura, que utilizam rodízio, com aumento da produtividade, que tem uma pegada ecológica menor. É uma possibilidade. Outra ação importante é a fiscalização do desmatamento ilegal. A maior parte do desmatamento brasileiro é ilegal. A maior parte da Mata Atlântica, por exemplo, está delimitada por parques, as pessoas têm cota de desmatamento dentro do terreno. A legislação brasileira é bastante razoável nisso, estabeleceu regras para esses biomas: Mata Atlântica, Amazonas, Patanal etc. Então, o que se faz de desmatamento, a maior parte é ilegal. Para combater é preciso de fiscalização e tecnologia. 

Existem maneiras de se produzir que não são baseadas na monocultura, que utilizam rodízio, com aumento da produtividade

E o Brasil dispõe desses recursos…

O Brasil tem tecnologia e tem órgãos de fiscalização, que permitem o combate ao desmatamento ilegal. O Inpe tem tecnologia para identificar foco de queimada, desmatamento, e descobrir em que área está acontecendo o desmatamento. Falta uma mão do Estado nesses lugares. Infelizmente, virou terra de ninguém, parece que é bastante proposital, vide garimpeiro tacando fogo em carros do Ibama. É criminoso, queimando um bem de órgão de fiscalização do Estado. Isso é caso de polícia. E muitas vezes conseguindo anistia. A legislação brasileira existe e tem que ser cumprida, com esses órgãos, um órgão de monitoramento e um de fiscalização – infelizmente desmontados. Estão sofrendo muito com o desmonte mais recente. 

Seria, então, o avanço do desmatamento, da fronteira agrícola a maior contribuição do Brasil para as emissões de gases poluentes? E quais são os principais impactos para o meio ambiente, para a saúde e para a economia dessas emissões? A atual situação hídrica do país, sendo anunciada como a pior seca dos últimos 90 anos, já é consequência das mudanças no clima? E as atuais queimadas, são causa ou consequência?

Claro que as queimadas têm um componente climático. Há os anos mais secos. E a Amazônia, parece que não, mas volta e meia tem anos muitos secos, com déficit hídrico por falta de chuva, e isso favorece o que eles chamam de inflamabilidade, quer dizer, toda a madeira que existe lá fica mais fácil de ser queimada. Esses anos têm sido aproveitados pela indústria da madeira e pela indústria da grilagem para atear fogo na floresta. São muito significativos, os locais onde estão acontecendo queimadas: nas bordas das terras indígenas, nas bordas de cidades, ao longo de estradas recém-construídas. É um processo de devastação planejado. E para quê? Para se conseguir mais terras para pastagem ou, mesmo, para grilagem, para vender ilegalmente, terra pública. O Brasil infelizmente está optando por uma economia devastadora. Ela é frágil do ponto de vista da própria economia, porque, como disse, se cai o preço da carne no mercado internacional ou da soja, a economia brasileira vai para o buraco. Ao mesmo tempo isso causa danos terríveis à saúde.
De que forma a saúde das populações se abala nesse caminho da devastação?

Doenças respiratórias, por exemplo, na Amazônia estão disparando. Todo ano tem um pico de internação ou de atendimento ambulatorial para doença respiratória na Amazônia na época de seca, quando coincidem baixa umidade e exposição à fumaça das queimadas, mas, nos últimos anos, isso vem disparando. Esse pico está cada vez maior, sobrecarregando o SUS, principalmente agora com a Covid. O mesmo leito que seria ocupado por pacientes com Covid, está sendo ocupado por doentes pela exposição à fumaça. E a exposição à fumaça, por sua vez, complica os casos de Covid. Se a pessoa tiver se infectado pelo coronavírus e se tiver sido exposta anteriormente à fumaça da queimada, vai ter um quadro muito pior.

Essa situação afeta principalmente os mais vulneráveis. A pandemia, assim como a crise climática, evidencia e vem acentuar as iniquidades. 

Exato. A gente tem que pensar que essa fumaça alcança cidades a centenas de quilômetros do foco de queimada e vai atingir, por exemplo, as terras indígenas. Se queimam as bordas das terras indígenas, dentro das aldeias, estão respirando fumaça. Temos cidades distantes do foco de queimadas, como Porto Velho, por exemplo, respirando fumaça gerada a centenas de quilômetros de lá. Ribeirinhos, pessoas com uma condição de acesso à saúde prejudicada há séculos, têm muita dificuldade de chegar principalmente numa emergência, em um serviço de saúde. Essa situação vem se agravando ao longo do tempo. Crianças, idosos, são os mais prejudicados com isso. Então, existe esse processo global muito bem relatado no último relatório do IPCC, mas, pensando em outra escala, existem consequências locais, que precisam ser estudadas por nós brasileiros. Não vai ser o IPCC que vai dizer, as instituições de pesquisa de saúde e de meio ambiente é que vão estudar o que está acontecendo no Brasil. A queimada é apenas o aspecto mais evidente do que está acontecendo na Amazônia. Sabemos que o acontece na Amazônia afeta o continente todo, a América do Sul toda. A circulação de umidade, por exemplo, vem se alterando. Teve aquela famosa chuva de cinzas da Amazônia na cidade de São Paulo. Algo tenebroso, que mostra bem o padrão de circulação de umidade na América do Sul: circula tanto a umidade produzida na Amazônia para a região Sudeste, como também a fumaça, como agora, com a Amazônia mais seca e com mais queimadas. 

Vamos, infelizmente, viver esse drama de escolher entre racionar ou ter que distribuir água suja para a população

Então, queimadas podem ser consideradas causa e consequência das mudanças climáticas?

Exatamente. A queimada é resultado de um ano seco, mas ela provoca, também, uma alteração do balanço de chuvas, na Amazônia e na região Sudeste.

E a questão hídrica, no Nordeste e no Sudeste?

Nós estamos em um ano do fenômeno climático La Niña, que, tudo indica, vai se agravar nos próximos meses. Isso provavelmente vai trazer a seca na Amazônia e consequentemente a seca na região Sudeste. Os reservatórios de água na região Sudeste estão diminuindo de nível. A mídia está falando muito das consequências para a geração de energia, da possibilidade de um apagão ou racionamento de energia na região Sudeste, mas a seca coloca em risco também o abastecimento de água. Muitas cidades na região Sudeste usam rios ou reservatórios para abastecer as cidades. Essa crise já aconteceu na região metropolitana de São Paulo, em 2014-2015, e pode acontecer novamente. Algumas cidades de São Paulo, Minas, Paraná podem ter que fazer racionamento de água ou distribuição de água suja,  uma situação terrível, em que o gestor tem que escolher entre cortar a água ou distribuir água sabidamente poluída. Isso aconteceu em São Paulo. Começaram a usar o volume morto do reservatório, que é sujo, tem muito barro, bactérias e poluentes químicos. Vamos, infelizmente, viver esse drama de escolher entre racionar ou ter que distribuir água suja para a população. Isso tem acontecido pontualmente em alguns desastres, por exemplo, quando se poluiu o Rio Doce por causa do desastre em Mariana,mas pode acontecer agora numa escala muito maior, abrangendo toda a região Sudeste: falta de água e contaminação da água de abastecimento humano. 

A crise é global, mas tem configurações muito particulares no Brasil, com uma cobertura da rede de saneamento bastante razoável, mas de baixa qualidade e insegura

Voltamos à questão da vulnerabilidade, quem tem um pouco mais de reserva financeira pode passar a comprar galões de água, embora, também, de qualidade duvidosa, mas pode adotar o galão de água como alternativa. Quem não tem vai usar água da bica ou de pequenas minas ou do vizinho ou de riacho perto de casa, isso pode ser um desastre para a saúde. O que estou querendo dizer é que a crise é global, mas tem configurações muito particulares no Brasil, muito específicas da situação brasileira que tem uma cobertura da rede de saneamento bastante razoável, mas de baixa qualidade e insegura, que é um chavão que se usa nessa área, um sistema inseguro que pode entrar em colapso com essa crise da água. 

O aparecimento de zoonoses seria uma das consequências dessa devastação da Amazônia, abrindo possibilidades para o surgimento de novos vírus, novas pandemias, não? O que pode ser feito em termos de políticas públicas no Brasil para se tentar reverter os efeitos das mudanças climáticas? Isso já vem sendo pensado?

São dois processos acontecendo ao mesmo tempo. Existe uma perda de biodiversidade em várias áreas, e isso significa o aparecimento de pragas, numa maneira vulgar de falar, o predomínio de uma espécie em relação a outras, podendo gerar um boom de alguma espécie e inclusive de vírus, de alguns animais, mas, também, de vírus carregados por esses animais. Quando se adota uma fonte de alimento, um só lugar para criação de animais para abate, gera-se um circuito muito rápido retroalimentado, podendo aparecer vírus emergentes e mutações que podem ser transmitidos para a espécie humana. Além disso, em algumas cidades, a expansão da fronteira econômica está encostando em áreas que eram protegidas, e isso traz risco de zoonoses, que surgem a partir de contato de pessoas com o vírus que estava dentro do seu ecossistema. Chama-se de salto ecológico, quando ele pula de lá e começa a ser transmitido para as pessoas. São processos nos quais se tem pensado muito pouco. A Fiocruz tem um grupo bastante ativo trabalhando com a questão da biodiversidade, relacionada ao surgimento de vírus emergentes e novas epidemias.

Quem sabe retomar o diálogo entre academia e o setor produtivo, como já aconteceu antes. Desse diálogo é que podem surgir algumas soluções econômicas menos danosas para o Brasil

É possível melhorar isso que a gente está fazendo de errado?

A primeira tarefa é tentar entender como esses processos globais são produzidos no Brasil, qual é a participação do Brasil na emissão de gases e como isso pode ser controlado. É uma tarefa dos brasileiros. A segunda é entender como as mudanças climáticas globais vão se refletir nos vários locais, nas várias regiões do Brasil, a partir desse conhecimento podemos nos adaptar para enfrentar essas situações – a intensificação da seca no Semiárido, as crises hídricas no Sudeste, queimadas na Amazônia – que exigem políticas muito particulares para cada região. É uma tarefa das instituições de pesquisa, das universidades e dos órgãos de fiscalização, que infelizmente estão sucateados ou desacreditados. Desacreditados propositalmente, por ações de boicote. Lamentáveis as ofensas às universidades, e são elas que podem elaborar algum plano de contenção das mudanças climáticas, claro, em acordo com o setor produtivo. Quem sabe o diálogo entre academia e o setor produtivo, como já aconteceu antes. A Embrapa, por exemplo, é uma instituição tipicamente acadêmica, de pesquisa, mas que tem um diálogo muito importante com a produção agrícola. Desse diálogo é que podem surgir algumas soluções econômicas  menos danosas para o Brasil. Infelizmente esse diálogo foi interrompido, mas existe essa possibilidade de retomada inclusive por pressões internacionais. 

Diante da gravíssima situação ambiental, evidenciada pelo relatório do IPCC, que conclama o mundo a atitudes emergenciais para conter o aquecimento global, o Brasil já tem um planejamento para lidar com essa questão? O primeiro plano seria uma conscientização dos brasileiros em relação a essa emergência?

Sim, dos brasileiros representados pelos seus gestores. O brasileiro individualmente até que não é tão danoso. Existe uma crise de representação, de representatividade no Brasil, infelizmente. 

compass

Esta entrevista foi inicialmente publicada pelo Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz [Aqui!].

BR-319: organizações e sociedade civil repudiam ataques sofridos por cientista em audiência pública

Mais de 150 organizações assinam a nota em apoio a Philip Fearnside, um dos mais respeitados pesquisadores da Amazônia que foi vítima de comentários xenofóbicos
dnit
O pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Dr. Phillip Fearnside, foi alvo de ataques xenofóbicos durante uma audiência pública sobre o licenciamento para obras na BR-319. O evento foi realizado pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), na noite da última segunda-feira (27), no Centro de Convenções Vasco Vasques, em Manaus (AM). As ofensas aconteceram após Fearnside apresentar um artigo com argumentos contundentes, a partir de uma análise com bases técnicas e científicas, sobre as obras na rodovia e de seus impactos socioambientais.

O pesquisador, que é norte-americano e vive e atua na Amazônia há mais de 40 anos, é integrante do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU, e foi laureado com o Prêmio Nobel da Paz, em 2007, por sua contribuição na luta contra a crise climática. Philip Fearnside é reconhecidamente uma das maiores autoridades científicas do mundo no que diz respeito à Amazônia. Ele é respeitado internacionalmente e importante referência por seus estudos e pesquisas, que ajudaram a entender a dinâmica ecossistêmica da maior floresta tropical do planeta.

As instituições, entidades de pesquisa e pesquisadores, e organizações da sociedade civil abaixo-assinadas repudiam e consideram inaceitáveis os ataques sofridos pelo cientista, que vem incansavelmente há décadas dedicando sua vida e esforços pela conservação da Amazônia. Um desafio extremo, como sabemos, considerando toda a dificuldade de se empreender pesquisa e ações de conservação no Brasil.

Discriminação é um comportamento abominável, criminoso e inconstitucional, se considerarmos que a Constituição Federal proíbe qualquer tipo de discriminação racial, étnica, religiosa, de gênero ou por nacionalidade. Dessa forma, repudiamos fortemente os ataques e manifestações desrespeitosas e xenofóbicas dirigidas ao Dr. Fearnside durante a audiência pública citada.

Esse fato e seus desdobramentos, demonstram a fragilidade e despreparo das instituições públicas responsáveis pelo processo de licenciamento das obras de repavimentação da BR-319. As audiências públicas de um licenciamento são uma exigência legal que muitas vezes têm sido realizadas pró-forma, quando devem ser ocasiões para debates críticos e construtivos, com dinâmica e metodologia adequadas que permitam que ajustes, melhorias e mesmo que questionamentos ao projeto sejam propostos e considerados, de modo que o ele seja reavaliado, melhorado ou mesmo cancelado.

Um processo tão longo como este, que se arrasta há anos justamente pela falta de seriedade na sua condução, não pode ser discutido agora de forma superficial. Muitos trabalhos científicos comprovam que a repavimentação da BR-319, da forma como está sendo proposta, é um risco enorme para a integridade da Amazônia e afetará profundamente a vida de milhões de pessoas. Foi justamente este alerta que o Dr. Fearnside tentou expor na audiência. No entanto, em vez de encontrar no evento um espaço democrático para apresentar este alerta, o cientista sofreu uma tentativa de silenciamento e descredibilização, em um ambiente hostil e truculento, bastante fragilizado pela baixa audiência.

Acreditamos que a ciência é um elo fundamental do nosso destino comum e uma oportunidade para construir uma sociedade mais justa, diversificada e sustentável. Pesquisadores renomados como o Dr. Fearnside vêm alertando há tempos sobre os possíveis impactos da reconstrução da BR-319 no bioma Amazônia, que serão irreversíveis e podem nos jogar no abismo do ponto de não retorno, onde espécies e uma série de benefícios e serviços ecossistêmicos, hoje proporcionados pela floresta, serão perdidos, afetando a vida de toda a humanidade.

Alertamos, ainda, que os estudos de impacto ambiental sobre a rodovia, apresentados pelo Dnit e pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) na audiência, estão incompletos e com graves problemas técnicos, uma vez que não delimitam a área de influência do projeto e foram realizados de forma superficial e sem a qualificação requerida para uma avaliação tão importante. É inacreditável que mesmo existindo dezenas de instituições públicas de grande qualificação e experiência na região como Inpa, Ufam, UEA, Ifam, Ufir, nenhuma delas tenha sido convidada a participar ou avaliar os estudos realizados.

Somado à precariedade dos estudos ambientais, ainda há o agravante de que as demandas das populações indígenas e das comunidades tradicionais estão sendo sistematicamente ignoradas. Os estudos do componente indígena, bem como a realização das consultas prévias, livres, informadas e de boa-fé, como preconiza a Organização Internacional do Trabalho (OIT) em sua Convenção nº 169, têm sido proteladas e deveriam ocorrer antes das audiências públicas gerais.

Por fim, reiteramos nosso repúdio ao modo de condução da audiência pública por seus organizadores, que, ao não se posicionarem contra as agressões sofridas pelo Dr. Fearnside, permitiram que o debate público fosse desvirtuado de sua finalidade de informar ao público, para se transformar em palco de negacionismo, desinformação e de campanha política com fins eleitoreiros.

Agressões não são argumentos válidos e não podem ser aceitas em discussões públicas, ainda mais em audiências promovidas pelo Poder Público, que deveria conduzir o debate primando pelo respeito aos diferentes pontos de vista. É dever do Poder Público não admitir e rechaçar imediatamente o discurso de ódio promovido e que tem sido sistematicamente ampliado. Assim, solicitamos providências para que estas agressões sejam formalmente repudiadas pelos responsáveis por essa audiência, que, a rigor, deveria ser reagendada e novamente realizada em condições apropriadas. Esperamos que seja revisto o método de aplicação e condução das audiências públicas e que os próximos eventos tenham melhor dinâmica e preparo. As audiências públicas devem ser espaços verdadeiramente democráticos que de fato contribuam com a discussão qualificada sobre obras na BR-319 e outras que estão por ser apreciadas e licitadas.

Assinam este documento pesquisadores e sociedade civil:
Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS)
Greenpeace Brasil
GT Infraestrutura
Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável (Idesam)
Movimento Ficha Verde (MoFV)
Observatório BR-319 (OBR-319)
Transparência Internacional Brasil (TI-Brasil)
WCS Brasil
Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM)
Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB)
Operação Amazônia Nativa (OPAN)
Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora)
Instituto Mapinguari (IMAPIN)
Instituto Ecos de Gaia (EGA)
Instituto Socioambiental – ISA
WWF-Brasil
Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPE)
Instituto Salve Mar (Movimento Salve Maracaípe)
Instituto Juruá
Rede Sustentabilidade Amazonas
Movimento Ecotrabalhismo PDT AM
Mater Natura – Instituto de Estudos Ambientais
Instituto Regeneração Global
Associação de Pós-graduandos da Universidade Federal do Amazonas (APG-UFAM)
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade (ANPPAS)
Associação dos(as) Pós-graduandos(as) do INPA – MigAPG/INPA
Rede Transdisciplinar da Amazônia (RETA)
Articulação Parintins Cidadã
Teia de Educação Ambiental e Interação em Agrofloresta
Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular e Saúde
Comissão Pró Índio do Acre (CPI-Acre)
Espaço de Formação Assessoria e Documentação – São Paulo
Abraço Guarapiranga – São Paulo
Rede Barragens Amazônicas / Amazon Dams Network (RBA/ADN)
Fundação Grupo Esquel Brasil FGEB
Associação Toxisphera de Saúde Ambiental
Associação SOS Amazônia
Associação de Defesa Etnoambiental – Kanindé
Comitê Chico Mendes
Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Desenvolvimento e o Meio Ambiente
Instituto Diadorim para o Desenvolvimento Regional e Socioambiental/iD (MG)
Observatório do Clima – OC
Rede de ONGs da Mata Atlântica- RMA
Movimento “Eu rejeito barragens em Sabará”
Professores do Curso de Arqueologia da Universidade Federal do Oeste do Pará
Helder Lima de Queiroz – IDSM/SCM
Gleice Oliveira – Historiadora e professora
Neiva Araujo – Grupo de Pesquisa Direito, Território & Amazônia – Diterra/Unir
Angélisson Tenharim – liderança do povo Tenharim
Davyd Spencer R. de Souza, Sociólogo, DCiS-UFAM
Maria Anete Leite Rubim
Anete Rubim
Daniel de Paiva Silva – IF Goiano, campus Urutaí
Steffanie Schmidt – Jornalista – DRT/MT 1329
Yuri Breno da Silva e Silva
Carlos Edwar de Carvalho Freitas, Universidade Federal do Amazonas
Rita Mesquita – INPA
Maria Cecília Wey de Brito – Instituto Ekos Brasil
Ivaneide Bandeira Cardozo – Kanindé
Camila C. Ribas – Pesquisadora INPA
Taiguã Corrêa Pereira – doutorando PPGBot / INPA
Fernanda de Pinho Werneck – Pesquisadora INPA
Cecilia Veronica Nunez – INPA
Eron Bezerra – Professor Doutor UFAM
Anete Rubim – UFAM
Albertina Lima
Kaio Cesar Marinho da Cunha – INCT-INPA
Vincenzo Lauriola – MCTI
Sidineia Aparecida Amadio, Pesquisadora aposentada/INPA
Jansen A. S. Zuanon, Biólogo, Pesquisador da COBIO/INPA
Jussara Santos Dayrell, Bióloga, Doutoranda ECO/Inpa
Gabriel Costa Borba, Biólogo, Doutorando na Virginia Polytechnic Institute and State University (Virginia Tech)
Neliton Marques da Silva – FCA/UFAM
Nágila Alexandre Zuchi – Doutoranda -PPG-BADPI/INPA
Mauro Scarpinatti – Economista, professor universitário
Andrea V. Waichman – UFAM
Lucia Rapp Py-Daniel – INPA, pesquisadora
Rosana Barbosa de Castro – DCF/FCA/UFAM
Virgílio Maurício Viana – Superintendente Geral da Fundação Amazônia Sustentável
Miguel Petrere Junior – Universidade Federal do Pará
José Eurico Ramos de Souza – IFAM-CMZL
Iolanda da Silva Moutinho – Mestranda PPG-ECO /INPA
Flora Magdaline Benitez Romero – INPA
Cristine Luciana de Souza Rescarolli – FAS
Alberto Vicentini – INPA-CODAM, pesquisador
Luiza Magalli Pinto Henriques – INPA/COPES, Analista em C&T
Carolle Alarcon – UICN Brasil
João Ferraz – Pesquisador INPA
Patricia Marques do A. Oliveira – Mestranda PPGBA/UFPE
Carolina Ramirez Mendez – SDSN Amazônia
Solana Meneghel Boschilia- UFPA
Pedro Murilo Sales Nunes – professor adjunto – UFPE
Rosa dos Anjos – FAS
Paulo Braga Mascarenhas Júnior- UFPE
Layon Oreste Demarchi – Doutorando PPG-Bot-INPA
Aretha Alves Pereira – FAS
Anne Rapp Py-Daniel – Universidade Federal do Oeste do Pará
Thereza Beatriz Lira Melo – UFPE
Paulo Maurício Alencastro Graça – Pesquisador INPA
Maria Teresa Fernandez Piedade – Pesquisadora INPA
Manuela Carneiro da Cunha – Antropóloga, Professora Titular aposentada da USP e Professora Emérita da Universidade de Chicago
José Sabino – Professor e pesquisador, Uniderp
Aurelio Michilies – Cineasta
Marcos Antonio Isaac Júnior – Pós-doutorando INPA
Thomas M. Lewinsohn – Professor Titular aposentado da Unicamp e Pesquisador Sênior CNPq
Isabela Freitas Oliveira – Doutoranda PPG/ECO INPA
Luciana Rebellato – OPAN
Ricardo de Oliveira Perdiz – Biólogo
Carlos Alfredo Joly – Professor Titular aposentado da Unicamp
Luciney Araújo Leitão – Professor de Sociologia EBTT da UFAC
Brunno Freire Dantas de Oliveira – Ecólogo e pós-doutorando em University of California – Davis, USA
Thais de Nazaré Oliveira Novais – Mestranda PPG-CFT/INPA
José Henrique de Andrade Lima – PPGBA- UFPE
Maria Nazareth F. da Silva – Pesquisadora INPA
André Pereira Dias – CGMA/SEMA-MT
Davor Vrcibradic – Professor adjunto – UNIRIO
Adriana Ramos – ambientalista
Daniel Brandt Galvão – Professor IFCE
Pedro Bruzzi Lion – FUNATURA
Camila Julia Pacheco Ramos – Doutoranda PPG CFT/INPA
Lucirene Aguiar de Souza-Ufam
Deputado Federal Rodrigo Agostinho (PSB/SP) – Coordenador da Frente Parlamentar Ambientalista
Deputado Federal Nilto Tatto (PT/SP) – Coordenador da Frente Parlamentar Mista em Defesa dos ODSs
Carla Gheler-Costa – Bióloga, Dra.
Fábio Henrique Comin – Biólogo, Dr.
Iris Roitman – Pesuisadora Colaboradora -UJ
Valério De Patta Pillar – Professor Titular, UFRGS
José Celso de Oliveira Malta – Pesquisador INPA
Annelyse Rosenthal Figueiredo – UFOPA
Elineide E. Marques – UFT
Rubens Harry Born – Engenheiro civil com especialização em engenharia ambiental, advogado, mestre e doutor em Saúde Pública
José Ribamar Bessa Freire – Coordenação do Programa de Estudos dos Povos Indígenas da UERJ e pesquisador no Programa de Pós-Graduação em Memória Social da UNIRIO
Lucas Rodrigues de S. Santos – Doutorando em Ciência do France Rodrigues, PPGSOF/UFRR
Sistema Terrestre – Universidade da Califórnia Irvine, EUA
Gustavo T. Gazzinelli – jornalista e ambientalista e Belo Horizonte (MG)
Aurora Miho Yanai Nascimento – Pós-doutoranda/INPA
Beatriz Figueiredo Cabral – Mestranda PPG/CFT-INPA
Reinaldo Imbrozio Barbosa – Pesquisador do INPA/ Núcleo Roraima
Flávia Nogueira de Sá – Professora Universidade de Brasília
Célio U. Magalhães Filho – Pesquisador aposentado do INPA/ Pesquisador colaborador da FFCLRP/USP
Fatima Monteiro – Africultora Familiar FEATRAF AM
Carol Monteiro – Agricultora Familiar CONTRAF BRASIL CUT
Rodrigo Guedes – Vereador CMM
Ana Karina Moreyra – Bióloga
Angela Galvão – Advogada
Miguel Scarcello
Renato Mattareli
Márcio Zikán Cardoso – Professor Associado UFRJ
Gabriela Borges Vedovello – Mestranda PPG/ECO INPA
Nathalia de Toledo Marinho – mestranda PPG ECO/INPA
Apoena Presidente Epitácio SP
Djalma Weffort
Debora Martins Nakayama
Erika Berenguer – Pesquisadora University of Oxford/ Lancaster University/Rede Amazônia Sustentável
Wilson Roberto Spironello – Ecólogo – Pesquisador e líder do Grupo de Pesquisa de
Mamíferos Amazônicos do INPA

Path Amazônia terá ingresso colaborativo e mais de 70 horas de conteúdo online com foco na regeneração do planeta

Organização do evento sobre inovação, diversidade e sustentabilidade, realizado nos dias 30 e 31 de outubro, irá sugerir o preço do ingresso solidário, mas o público poderá contribuir com o valor que desejar ou assistir gratuitamente. Estão no line-up nomes como Kaká Werá, Karina Olani, Gustavo Montezano, Nina Silva, Ana Fontes, Fê Cortez, Edu Lyra, Marko Brajovik, João Farkas e Vivi Duarte

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São Paulo, 29 de setembro de 2021: Estão abertas as pré-inscrições para o Path Amazônia, edição especial do Festival Path, que acontecerá de forma virtual nos dias 30 e 31 de outubro. Com mais de 70 horas de conteúdo sobre inovação, diversidade e sustentabilidade – muitos deles produzidos diretamente da região Amazônica – o evento terá um novo formato na cobrança de ingresso. A organização vai sugerir um preço, mas cada um que fizer sua inscrição poderá contribuir com valor que desejar ou assistir gratuitamente. Para garantir o acesso à plataforma é preciso se inscrever por meio do site ondemand.festivalpath.com.br

O Path Amazônia vai colocar em pauta os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU e contará com um time de especialistas para curadoria de cada um dos temas, incluindo especialistas renomados de cada ODS, lideranças de povos tradicionais e instituições sociais. “Estamos convocando um time de parceiros e profissionais engajados e com ideias inovadoras, de diversas áreas, para ajudar a dar luz a assuntos como saúde e bem-estar, meio ambiente, democracia, consumo consciente, alimento, energia limpa, empoderamento social, econômico, turismo, ciência e povos tradicionais”, adianta Fabio Seixas, fundador e diretor de conteúdo do Path.

Kaká Werá, Karina Oliani, Gustavo Montezano, Nina Silva, Mariana Ferrão, Ana Fontes, Fê Cortez, Edu Lyra, Marko Brajovik, Kênia Maria, Ailton Krenak, Patricia Tavares, Irina Bulara, João Farkas, Xexeu Tripoli, Tia Dag, Marquito Abreu e Vivi Duarte são alguns dos convidados já confirmados.

Path em ação na Amazônia

O Path Amazônia irá arrecadar ainda fundos para construção de uma escola, que será doada pelo evento à Fundação Almerinda Malaquias, e vai atender as comunidades do Amazonas. A escola será assinada por Marko Brajovic. O objetivo é impactar 50 comunidades com melhorias em infraestrutura local e ofertas pedagógicas. Brajovic é especialista em construções sustentáveis e representante brasileiro na Bienal de Arquitetura de Veneza deste ano.

Inicialmente planejado para ser transmitido de um navio na Amazônia, agora por conta do agravamento da variante delta e por recomendações das autoridades locais o Path será 100% online, impactando milhões de pessoas. Diversos dos conteúdos seguem sendo produzidos também na Amazônia onde serão gravados em formas de palestras, documentários, podcasts e mais.

O Path já conta com patrocínios do grupo Heineken, Mastercard e da Volvo Car Brasil, além de parceiros e apoiadores como TRIP, Catraca Livre, Vida Simples e YAM. A programação completa será divulgada em breve. Para inscrições e outras informações, acesse o site do Path: https://www.festivalpath.com.br ou o instagram @FestivalPath

Sobre o Path

O Path é reconhecido pela sua excelência em design de experiências e curadoria de conteúdos relacionados à inovação e diversidade que atingiram dez milhões de pessoas nos últimos anos. Mais de 2.000 pessoas renomadas de diferentes áreas passaram pelos palcos do festival, como Marina Silva, Alex Atala, Monique Evelle, David Schurmann, Regina Casé, Djamila Ribeiro, Pedro Paulo Diniz, Max Fercondini, Camila Coutinho, Alok, Rony Meisler, Dona Onete, entre muitos outros.

Desde a sua criação em 2013, a missão foi inspirar para gerar transformação positiva. A atuação é ligada diretamente à educação em suas mais variadas formas, entendendo que de grão em grão construímos um legado para um mundo com ideias inovadoras e mais diversas que gerem transformação positiva. Seja ela individual ou coletiva.