A contradição de Lula na Amazônia

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

A mais recente vitória eleitoral do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva foi recebida com entusiasmo por ambientalistas e líderes políticos de todo o mundo. Após os ataques de Jair Bolsonaro às instituições ambientais, aos direitos indígenas e à floresta amazônica, o alívio é compreensível.

O retorno de Lula ao poder trouxe consigo promessas renovadas de proteger a floresta e combater as mudanças climáticas.

Os dados mais recentes sobre desmatamento no Brasil são motivo de otimismo. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o desmatamento na Amazônia caiu 41,8% entre agosto de 2025 e julho de 2026, atingindo 3.335 quilômetros quadrados, o menor índice anual desde o início do monitoramento, em 1988.

A fiscalização ambiental também foi reforçada. No entanto, o governo de Lula continua a apoiar a exploração de petróleo, a mineração e grandes projetos de infraestrutura em regiões ambientalmente sensíveis.

Degradação

Uma floresta não precisa ser derrubada para ser destruída. Incêndios, secas e degradação podem matar árvores e liberar grandes quantidades de carbono, deixando florestas danificadas ainda de pé.

Um estudo publicado na revista Biosciences em outubro de 2025 estimou que os incêndios que degradaram as florestas amazônicas liberaram 791 milhões de toneladas de CO₂ em 2024, superando as 625 milhões de toneladas atribuídas ao desmatamento em toda a Pan-Amazônia. Juntas, essas fontes foram responsáveis ​​por aproximadamente 1,42 bilhão de toneladas de CO₂ . O Brasil foi responsável por cerca de 61% das emissões relacionadas à degradação florestal causada pelos incêndios.

As árvores continuam morrendo, as florestas estão ficando mais secas e os incêndios se tornam mais frequentes. Mas o Relatório Nacional de Inventário de Emissões do Brasil de 2024 reconhece que certas emissões provenientes de incêndios que não resultam em mudanças no uso da terra não são totalmente contabilizadas.

Uma pesquisa liderada pela cientista brasileira Luciana Gatti, publicada na revista Nature em outubro de 2026, reforça essas preocupações. Com base em 15 anos de medições atmosféricas, o estudo constatou que a Amazônia era uma fonte líquida de carbono, com os incêndios dominando as emissões e as perturbações humanas amplificadas por diversas secas.

Essas descobertas levantam sérias questões sobre a celebração da queda nas taxas de desmatamento enquanto as perdas significativas de carbono devido à degradação florestal continuam.

Óleo

Em outubro de 2025, a Petrobras, empresa petrolífera estatal brasileira, iniciou a perfuração de um poço exploratório na bacia da Foz do Amazonas, na costa do Amapá. O Ministério de Minas e Energia do Brasil saudou a decisão. E, no início daquele ano, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) ofereceu 172 blocos de exploração de petróleo e gás, tendo concedido 34.

O governo de Lula defendeu a exploração de petróleo como necessária para o emprego, o investimento e a segurança energética. Um poço exploratório não garante a produção comercial, mas cria a possibilidade de extração futura.

A busca incessante do Brasil por mais reservas de petróleo entra em conflito com suas promessas de combater as mudanças climáticas.

BR-319

O apoio de Lula à pavimentação da BR-319, a controversa rodovia que liga Manaus a Porto Velho, é anterior ao seu retorno à presidência.

Em maio de 2021, enquanto estava fora do cargo, ele defendeu a pavimentação da estrada como necessária para o desenvolvimento regional. Ele reiterou sua posição em 2023, argumentando que a estrada poderia ser “reconstruída” com salvaguardas ambientais.

Seu compromisso continuou no cargo. Em maio de 2026, Lula visitou as obras da BR-319 no Amazonas, quando o Ministério dos Transportes autorizou melhorias em um trecho de 120,5 quilômetros. Quatro contratos foram anunciados naquele ano, abrangendo mais de 339 quilômetros de intervenções, com investimentos superiores a R$ 1,45 bilhão.

Há muito tempo que os cientistas alertam que a reconstrução da rodovia pode acelerar o desmatamento, incentivando a grilagem de terras, a exploração madeireira, a pecuária e a construção de estradas secundárias, incluindo a AM-366.

Os riscos vão além do simples desmatamento. As estradas fragmentam os ecossistemas, aumentam o acesso humano e tornam as florestas circundantes mais vulneráveis ​​à degradação e aos incêndios.

A legislação brasileira sobre licenciamento ambiental acirrou ainda mais essa controvérsia. Lula vetou 63 disposições do chamado “projeto de lei de devastação”, plenamente consciente de que o Congresso poderia derrubar esses vetos. E foi exatamente o que aconteceu. O Congresso derrubou 52 desses vetos.

Entretanto, sua administração continua avançando com as obras da BR-319, afirmando que a reconstrução pode prosseguir com salvaguardas ambientais.

Mineração

A mineração continua sendo fundamental para a estratégia de desenvolvimento do Brasil, incluindo projetos que enfrentaram oposição de comunidades indígenas e organizações ambientais.

No Amazonas, a mineradora canadense Potássio do Brasil está desenvolvendo um grande projeto de potássio em Autazes, área tradicionalmente ocupada pelo povo Mura. Lula apoia integralmente o projeto, promovendo-o com o intuito de reduzir a dependência do Brasil em relação à importação de fertilizantes. O projeto atraiu a atenção das autoridades federais de mineração.

O projeto dividiu as comunidades Mura. Alguns representantes apoiam os empregos e as oportunidades que ele promete, mas outros temem os danos ao seu território, aos recursos hídricos e aos meios de subsistência tradicionais.

Procuradores federais contestaram o processo de licenciamento e consulta ambiental, alegando violações dos direitos indígenas.

No Pará, a proposta da mineradora canadense Belo Sun para a mina de ouro Volta Grande, próxima ao rio Xingu, enfrenta anos de contestações judiciais e oposição de comunidades indígenas. O projeto entrou para o programa de minerais estratégicos do Brasil em 2021, durante a presidência de Bolsonaro, e permanece na lista do governo federal.

Em outubro de 2026, o Supremo Tribunal Federal do Brasil restabeleceu a suspensão da licença de instalação da mina, após preocupações com os impactos ambientais e consultas com as comunidades indígenas potencialmente afetadas.

Essas disputas revelam as dificuldades que as comunidades enfrentam ao contestar grandes projetos de extração, independentemente das mudanças na liderança política.

Bioeconomia

O governo de Lula promoveu a bioeconomia amazônica com o intuito de gerar renda e, ao mesmo tempo, conservar a floresta tropical. Essa abordagem atraiu investimentos de bancos de desenvolvimento, empresas e instituições financeiras internacionais interessadas em biodiversidade, mercados de carbono e produtos florestais.

Esses acordos podem conferir aos investidores externos uma influência considerável sobre os recursos florestais e o conhecimento tradicional.

Em alguns projetos, as comunidades indígenas e tradicionais fornecem matérias-primas e conhecimento especializado, enquanto as empresas e os intermediários financeiros mantêm maior controle sobre o processamento, o financiamento e os mercados internacionais.

Empresas de petróleo, mineração e agronegócio também contribuem para fundos de conservação e iniciativas de restauração. Esses investimentos podem melhorar a reputação corporativa enquanto atividades ambientalmente prejudiciais continuam em outros lugares.

As crescentes evidências de degradação florestal também levantam preocupações sobre se os esforços de conservação devem se concentrar apenas em manter as árvores em pé, em vez de proteger a saúde da floresta e sua capacidade de armazenar carbono.

Direitos indígenas

O governo Bolsonaro enfraqueceu as instituições ambientais e as proteções aos povos indígenas. Sua trajetória política continua sendo motivo de preocupação para ambientalistas e organizações indígenas.

Muitos líderes indígenas apoiaram Lula porque temiam um retorno às políticas de seu antecessor.

O apoio político, contudo, não equivale à aprovação de projetos de desenvolvimento individuais . As comunidades indígenas e tradicionais têm o direito de contestar a mineração, a construção de rodovias, a agricultura industrial, a pecuária e a exploração de petróleo e gás que afetem seus territórios, e de exigir uma consulta significativa antes que as decisões sejam tomadas.

O papel do jornalismo

A cobertura jornalística internacional sobre o Brasil tem destacado os compromissos ambientais de Lula, seus discursos em conferências sobre o clima e a redução do desmatamento na Amazônia.

Os relatórios ambientais devem examinar as decisões governamentais com a mesma atenção que as promessas políticas. As melhorias na proteção florestal merecem reconhecimento, mas não devem ofuscar políticas que possam comprometer essas conquistas.

A queda no desmatamento não deve ser confundida com a saúde ecológica geral da Amazônia. Pesquisas sobre incêndios, degradação e emissões de carbono demonstram que as florestas podem permanecer de pé enquanto perdem biomassa, biodiversidade e sua capacidade de absorver carbono.

Durante décadas, sucessivos governos brasileiros prometeram que as estradas, a mineração e o agronegócio trariam prosperidade à Amazônia. Hoje, promessas semelhantes são feitas sob a linguagem da sustentabilidade, do investimento verde e da bioeconomia.

Muitos dos mesmos interesses econômicos permanecem envolvidos, enquanto os povos indígenas e as comunidades tradicionais continuam lutando pelo controle de seus territórios e recursos.

Os jornalistas têm a responsabilidade de investigar esses interesses, apurar quem beneficia dos projetos de desenvolvimento e noticiar as consequências para as comunidades afetadas.

Lula merece reconhecimento por reduzir o desmatamento, mas seu governo também deve ser responsabilizado por suas políticas de desenvolvimento e suas consequências.

Proteger a Amazônia exige mais do que simplesmente diminuir as estatísticas de desmatamento. Exige enfrentar a degradação florestal, os incêndios, as emissões de carbono, além das atividades econômicas que ameaçam a floresta tropical.

Isso também exige jornalismo independente disposto a examinar minuciosamente todos os governos, incluindo aqueles que prometem defendê-los.


Fonte: YourVoiz

Estudo identifica 111 espécies de pequenos crustáceos no plâncton amazônico e revela estratégias alimentares comuns

Fotografia de uma amostra de zooplâncton com diferentes organismos identificados por números. O número 2 corresponde a Temora stylifera, espécie citada no estudo. menico D’Alelio, Maria Grazia Mazzocchi, Marina Montresor, Diana Sarno, LTER-MC team, CC BY-SA 4.0 / Wikimedia Commons 

Um levantamento de pesquisadores da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) e parceiros mostra diferenças na composição do plâncton entre ambientes costeiros, de transição e mais oceânicos da Plataforma Continental Amazônica. Uma análise dos copépodes, pequenos crustáceos que formam o grupo mais abundante nas amostras estudadas, revela que algumas características ecológicas predominantes são compartilhadas entre os ambientes, como onivoria, alimentação mista e captura de presas por emboscada. A diversidade dessas características, por sua vez, varia entre as comunidades analisadas. As constatações estão em artigo publicado na sexta (16) na revista Brazilian Journal of Biology.

Essenciais para a sustentabilidade da vida aquática, os copépodes vivem à deriva na água e têm a função essencial de levar carbono e energia dos microrganismos e das algas para animais maiores. Esses pequenos animais, que costumam ter de 1 a 5 milímetros de comprimento, servem de alimento para larvas de peixes e ajudam a manter os ciclos de nutrientes do planeta.

O trabalho analisou amostras coletadas em 2001, durante três campanhas oceanográficas, em 51 pontos da Plataforma Continental Amazônica e de águas oceânicas próximas, ao largo de Maranhão, Pará e Amapá. As redes percorreram a coluna de água desde a superfície até profundidades máximas entre 12 e 200 metros, conforme o ponto de coleta. Os pesquisadores identificaram 197 grupos de organismos, incluindo 111 espécies de copépodes. Desses grupos, 64 foram registrados nas três campanhas.

Além da identificação dos organismos, a equipe analisou características ecológicas de 101 espécies de copépodes, para as quais havia informações disponíveis. Foram avaliadas suas estratégias de alimentação e reprodução, os tipos de alimento consumidos, os ambientes que ocupam e sua distribuição na coluna de água, organizando essas informações em 29 categorias.

Os dados foram obtidos há mais de duas décadas no âmbito do programa REVIZEE — Avaliação do Potencial Sustentável de Recursos Vivos na Zona Econômica Exclusiva, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA). A base permanece relevante por fornecer uma linha de base histórica indispensável para a avaliação da biodiversidade em um ecossistema tropical onde registros biológicos contínuos são escassos.

“Estas amostras representam um patrimônio científico que continua produzindo conhecimento. Conhecer a diversidade dos copépodes contribui para compreender as relações alimentares que sustentam a vida marinha e pode orientar pesquisas e ações de acompanhamento ambiental”, explica o professor Nuno Melo, da UFRA, autor líder do artigo, que também conta cientistas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e da Universidade de Aveiro, em Portugal.

Segundo o autor, os resultados do trabalho dialogam diretamente com as recomendações do Plankton Manifesto, iniciativa vinculada ao Pacto Global da ONU criada para conscientizar a sociedade e orientar decisões de conservação sobre a vida planctônica. O manifesto internacional pede investimentos contínuos e redes permanentes de observação dos oceanos para acompanhar as mudanças ecológicas ao longo do tempo. Ao mostrar a importância dos pequenos crustáceos para a cadeia alimentar na costa brasileira, o estudo reforça que a proteção dos oceanos também deve incluir os organismos microscópicos, muitas vezes ignorados.

Dando continuidade às pesquisas, os pesquisadores desenvolvem atualmente o Projeto PLUMA, financiado pela Petrobras e executado pela UFRA com apoio da FADESP. Nesta nova fase, os pesquisadores analisam a composição química da água, acompanham o zooplâncton e os organismos que vivem na superfície e reúnem dados históricos sobre a pesca na Bacia da Foz do Rio Amazonas. As expedições e coletas em alto-mar ampliarão o conhecimento atual da região e poderão apoiar comparações com os registros históricos do REVIZEE, respeitando as diferenças entre os levantamentos, completa Melo.


Fonte: Agência Bori

A Amazônia diante do futuro climático: a ciência tenta descobrir até onde a floresta poderá resistir

Experimento apresentado pela revista Nature procura compreender como o aumento do dióxido de carbono na atmosfera afetará a maior floresta tropical do planeta, enquanto o aquecimento global e o desmatamento ameaçam sua capacidade de recuperação

Uma reportagem publicada em 9 de outubro de 2026 pela revista científica Nature apresenta, por meio de uma narrativa fotográfica, o trabalho do pesquisador David Lapola, que procura responder a uma das questões mais importantes e ainda insuficientemente esclarecidas pela ciência climática: como a floresta amazônica reagirá ao aumento contínuo da concentração de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera? 

A pergunta parece simples, mas suas implicações são enormes. Afinal, a Amazônia não é apenas um gigantesco reservatório de biodiversidade. Ela desempenha um papel fundamental na regulação do clima, no armazenamento de carbono e na circulação de umidade que influencia os regimes de precipitação em extensas áreas da América do Sul. Alterações em seu funcionamento ecológico poderão, portanto, produzir consequências que ultrapassam amplamente os limites geográficos da própria floresta.

Um dos aspectos mais relevantes dessa investigação é a tentativa de compreender se o aumento da disponibilidade de CO₂ poderá estimular o crescimento das árvores, por meio do chamado efeito de fertilização por carbono.

Em princípio, concentrações mais elevadas desse gás podem favorecer a fotossíntese. Entretanto, transformar essa possibilidade em uma previsão de maior crescimento florestal seria uma simplificação perigosa. A disponibilidade de nutrientes no solo, especialmente fósforo, as limitações hídricas, as temperaturas elevadas e a intensificação dos eventos climáticos extremos podem restringir ou até anular eventuais benefícios.

É justamente aí que reside uma das grandes contradições do atual momento histórico. Enquanto pesquisadores procuram compreender os limites fisiológicos e ecológicos da resistência da Amazônia, as atividades humanas continuam submetendo a floresta a pressões que comprometem sua integridade. O desmatamento, a degradação florestal, a expansão da mineração, as queimadas e a conversão de áreas naturais em espaços destinados à produção de commodities agrícolas constituem ameaças concretas, cujos efeitos podem ser agravados pelo aquecimento global.

Há também uma dimensão política que não pode ser ignorada. Os conhecimentos produzidos por pesquisas dessa natureza deveriam orientar políticas públicas capazes de reduzir emissões de gases de efeito estufa e proteger os ecossistemas tropicais. Entretanto, persiste uma distância considerável entre o conhecimento científico acumulado e as decisões tomadas por governos e grandes corporações econômicas. Em muitos casos, a floresta continua sendo tratada prioritariamente como uma reserva de terras e recursos naturais a serem incorporados aos circuitos de acumulação de capital.

Outro aspecto que merece atenção é o risco de que resultados eventualmente positivos sobre a capacidade de absorção de carbono pelas árvores sejam apropriados por discursos que procuram minimizar a urgência da redução das emissões. Mesmo que determinadas espécies apresentem respostas favoráveis a concentrações mais elevadas de CO₂, isso não significa que a Amazônia, como ecossistema, esteja protegida das consequências das mudanças climáticas. Muito menos que a floresta possa compensar indefinidamente as emissões provenientes da queima de combustíveis fósseis.

O mérito da investigação apresentada pela Nature está justamente em enfrentar uma incerteza científica fundamental, em vez de oferecer respostas simplistas sobre o futuro da Amazônia. Entretanto, a existência de incertezas sobre a magnitude das respostas ecológicas não deveria servir como justificativa para a inação política. Pelo contrário, quanto maiores forem as incertezas sobre a capacidade de resistência da floresta, mais prudente será evitar a intensificação das pressões que ameaçam seu funcionamento.

A questão central, portanto, não é apenas descobrir como será a Amazônia em uma atmosfera enriquecida por dióxido de carbono. É compreender se estaremos dispostos a modificar os processos econômicos e políticos que contribuem para tornar seu futuro cada vez mais incerto.

Afinal, de pouco adiantará a ciência descobrir os limites de resistência da Amazônia se continuarmos politicamente empenhados em ultrapassá-los.

Antes de restaurar a Amazônia, será melhor parar de destruí-la

Estudo publicado na Science mostra que impedir desmatamento e degradação é mais eficiente e barato do que reconstruir florestas — e lança uma luz incômoda sobre a financeirização da conservação e as promessas da bioeconomia

Um artigo publicado na revista Science em 17 de setembro traz uma conclusão aparentemente óbvia, mas que deveria provocar alguma inquietação entre os formuladores das atuais políticas de conservação: é muito mais eficiente impedir que uma floresta seja destruída ou degradada do que permitir sua destruição para depois gastar grandes quantidades de dinheiro tentando restaurá-la.

O estudo, liderado por Leonardo S. Miranda e realizado por uma ampla equipe de pesquisadores brasileiros e estrangeiros, comparou três estratégias de conservação na Amazônia: evitar o desmatamento, impedir perturbações florestais — especialmente incêndios e exploração madeireira — e restaurar áreas já desmatadas. A análise foi realizada nas regiões de Santarém e Paragominas, abrangendo mais de 3 milhões de hectares e utilizando dados de campo e sensoriamento remoto de alta resolução. 

Primeiro não destruir, depois restaurar

Os resultados são contundentes. Impedir perturbações florestais poderia evitar 68,5% das perdas de biodiversidade, enquanto impedir o desmatamento evitaria 60,8% das perdas de carbono. A restauração utilizada isoladamente compensaria apenas 6,5% das perdas de biodiversidade e 14,7% das perdas de carbono. Mais significativo ainda, somente quando a proteção contra desmatamento e contra degradação foi combinada apareceram ganhos líquidos de biodiversidade e carbono em relação à situação inicial. 

Quando os pesquisadores incorporaram os custos econômicos, a diferença aumentou. Para conservar a biodiversidade, evitar perturbações apresentou relação custo-benefício muito superior à restauração; para preservar carbono, evitar o desmatamento foi a alternativa mais eficiente. Há ainda um resultado particularmente revelador: mesmo simulando uma redução de 95% nos custos da restauração, ela continuou menos eficiente economicamente do que evitar previamente a destruição ou degradação da floresta. 

Isso não significa que restaurar seja desnecessário, pois os autores mostram justamente que os maiores benefícios aparecem quando proteção contra desmatamento, prevenção da degradação e restauração são combinadas. O problema é transformar a restauração numa espécie de substituto tecnológico e financeiro para a conservação, quando o próprio artigo conclui que, isoladamente, ela é incapaz de compensar adequadamente as perdas provocadas pela continuidade da destruição florestal.

Quando a Science encontra Monica Piccinini

É nesse ponto que os resultados do estudo dialogam de maneira interessante com textos recentes da jornalista Monica Piccinini publicados neste Blog. Em suas análises sobre os investimentos destinados à conservação e sobre a chamada bioeconomia, Piccinini vem chamando atenção para uma questão que normalmente desaparece por trás do discurso aparentemente consensual sobre a necessidade de financiar a floresta: quem define as prioridades, quem controla os recursos e, finalmente, quem se apropria economicamente da transformação da natureza em ativo?

A crítica de Piccinini não é à conservação em si, mas à formação de uma arquitetura na qual governos, grandes corporações, bancos, fundos, fundações filantrópicas e organizações ambientais passam a convergir em torno de mecanismos de financiamento capazes de transformar carbono, biodiversidade, restauração e bioeconomia em novas oportunidades de investimento. Nesse processo, existe o risco de a floresta deixar de ser considerada primordialmente como território, ecossistema e espaço de reprodução social das populações amazônicas para adquirir valor sobretudo na medida em que possa ser convertida em fluxos financeiros.

Em um texto publicado neste Blog, “A Amazônia não precisa de novos donos”, Piccinini aprofunda justamente esse problema ao discutir quem controla a nova economia da floresta em pé. O risco é que a bioeconomia gere renda sem necessariamente redistribuir poder, mantendo processamento, propriedade intelectual, financiamento e comercialização concentrados longe das comunidades que fornecem território, biodiversidade e conhecimentos tradicionais.

O artigo publicado na Science não analisa essa arquitetura financeira e seria incorreto atribuir essa crítica aos seus autores. Seus resultados, entretanto, acrescentam uma peça importante ao quebra-cabeça ao demonstrar que as intervenções mais eficientes podem ser justamente aquelas menos dependentes da criação de novos mercados ambientais.

E se a solução mais eficiente for justamente a menos financeirizável?

Existe aqui uma contradição que merece ser examinada. Restaurar milhares de hectares pode movimentar fundos de investimento, empresas especializadas, consultorias, créditos de carbono, viveiros, sistemas de certificação, monitoramento por satélite e toda uma nova cadeia de serviços ambientais. A bioeconomia, por sua vez, pode transformar biodiversidade, carbono, recursos genéticos e conhecimentos tradicionais em ativos economicamente mensuráveis. Não derrubar uma floresta que já existe, entretanto, é muito mais difícil de converter em um grande produto financeiro, apesar de os dados apresentados por Miranda e seus colegas mostrarem justamente que proteger a floresta existente oferece resultados extraordinariamente melhores por unidade de dinheiro investido.

Surge daí uma ironia considerável: podemos estar construindo mecanismos financeiros cada vez mais sofisticados para recuperar aquilo que simultaneamente continuamos permitindo que seja destruído. Os próprios pesquisadores lembram que aproximadamente 60 milhões de hectares de terras públicas não destinadas na Amazônia permanecem vulneráveis à grilagem e outras atividades ilegais e alertam que mudanças capazes de enfraquecer o licenciamento ambiental podem criar novas possibilidades legais para o avanço do desmatamento. 

Talvez isso ajude a explicar por que algumas das medidas ambientalmente mais eficientes são também politicamente tão difíceis. Proteger terras públicas, combater a grilagem, fiscalizar a exploração madeireira, impedir incêndios, fazer cumprir a legislação ambiental e conter atividades econômicas responsáveis pela degradação significa confrontar interesses estabelecidos, enquanto criar fundos, mercados e novos instrumentos financeiros pode ser muito mais facilmente apresentado como uma solução capaz de acomodar interesses aparentemente contraditórios.

A floresta não precisa morrer para adquirir valor

O estudo publicado na Science oferece, portanto, uma contribuição que ultrapassa a simples comparação técnica entre diferentes políticas ambientais, pois seus resultados nos obrigam a perguntar onde estamos colocando dinheiro e, principalmente, por quê. Restaurar áreas destruídas continuará sendo indispensável, assim como desenvolver atividades econômicas capazes de gerar renda mantendo a floresta em pé pode ser importante, especialmente quando essas atividades fortalecem a autonomia das populações amazônicas. Mas nenhuma dessas estratégias deveria funcionar como justificativa para tolerar a continuidade do desmatamento e da degradação.

É precisamente nesse ponto que o estudo de Miranda e colaboradores e as análises de Monica Piccinini parecem se encontrar. O primeiro demonstra empiricamente que proteger aquilo que ainda existe pode produzir benefícios ambientais maiores e a custos menores; Piccinini, por sua vez, chama atenção para os limites de uma arquitetura de conservação que tende a privilegiar soluções capazes de gerar ativos, contratos e oportunidades de investimento. A aproximação entre os dois argumentos sugere uma pergunta incômoda: não estaremos desenvolvendo instrumentos cada vez mais sofisticados para financiar as consequências da destruição enquanto deixamos relativamente intocados os mecanismos econômicos que continuam produzindo essa mesma destruição?

A ciência apresentada no artigo da Science nos lembra, afinal, de algo muito mais simples: sai mais barato, conserva mais biodiversidade e mantém mais carbono impedir a destruição e a degradação da floresta que ainda está de pé do que tentar reconstruí-la depois. E talvez seja justamente por essa solução exigir menos engenharia financeira e mais enfrentamento das causas concretas do desmatamento que ela encontre tantas dificuldades para ocupar o centro da chamada economia verde.

Hidrovias na Amazônia: encontro abre diálogo entre comunidades, ministérios e órgãos de controle sobre planejamento de transporte fluvial na região

Após quase um ano desde o envio de carta cobrando diálogo sobre o modelo de hidrovias na Amazônia, encontro aproxima órgãos públicos e sociedade civil para discutir planejamento, licenciamento e direitos das populações afetadas.

Representantes de comunidades e movimentos sociais das bacias dos rios Madeira, Tapajós e Tocantins, organizações da sociedade civil, pesquisadores e órgãos do governo federal e de controle participaram, na última sexta-feira (11), de uma videoconferência organizada pelo Grupo de Trabalho Infraestrutura e Justiça Socioambiental (GT Infra) para discutir caminhos para fortalecer as políticas públicas voltadas à infraestrutura de transportes na Amazônia.

Entre os principais temas discutidos no encontro estiveram:

  • Participação das comunidades nas decisões sobre infraestrutura de transportes, com destaque para a necessidade de ampliar a presença de povos indígenas e comunidades tradicionais nos processos de planejamento, bem como respeitar o direito à Consulta livre, prévia e informada;
  • Planejamento integrado das hidrovias, considerando a relação entre rios, portos, rodovias e ferrovias e os efeitos dos empreendimentos sobre os corredores logísticos, incluindo o desafio de equilibrar o transporte de grandes volumes de commodities com as necessidades de mobilidade, abastecimento e produção das comunidades locais;
  • Infraestrutura de transporte para as populações amazônicas, com discussão sobre a falta de portos, entrepostos, energia e conexões intermodais adequadas às comunidades e às cadeias da sociobiodiversidade;
  • Avaliação de impactos cumulativos e sinérgicos, incluindo os efeitos combinados de diferentes obras e intervenções existentes e planejadas nas bacias hidrográficas;
  • Limitações do atual modelo de licenciamento ambiental, incluindo a necessidade de avaliar os impactos da operação das hidrovias em toda a sua extensão, e não apenas de intervenções isoladas;
  • Continuidade do diálogo entre governo e sociedade civil, com propostas para ampliar a participação social na elaboração dos planos setoriais de transporte no âmbito do Planejamento Integrado de Transportes (PIT).

A videoconferência foi um desdobramento da carta enviada em outubro de 2025 por organizações sociais das três bacias, junto ao Grupo de Trabalho Infraestrutura e Justiça Socioambiental (GT Infra), ao Ministério de Portos e Aeroportos (MPOR) e outros órgãos federais. O documento propôs a construção de um diálogo estruturado entre governo e sociedade civil para enfrentar os conflitos associados ao atual modelo de hidrovias e buscar alternativas, começando pela realização de um encontro presencial. A proposta, no entanto, não teve retorno na época.

Nos meses seguintes, os conflitos se intensificaram, especialmente na bacia do Tapajós. No início de 2026, povos indígenas realizaram protestos contra as dragagens previstas para o rio e contra o Decreto nº 12.600/2025, que havia incluído trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização. Em fevereiro, o processo de contratação das dragagens no Tapajós foi suspenso. As intervenções voltaram ao centro do debate em julho, quando um novo plano de dragagem avançou após a dispensa de licenciamento ambiental concedida pela Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (Semas-PA). No mesmo mês, lideranças indígenas do Tapajós levaram suas reivindicações ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em reunião no Palácio do Planalto.

Foi nesse contexto que o MPOR retomou a interlocução com o GT Infra, abrindo caminho para esta videoconferência. O encontro marcou um primeiro passo na construção de um diálogo mais amplo entre sociedade civil e instituições públicas envolvidas no planejamento, licenciamento e concessão de hidrovias na Amazônia. . Participaram representantes do MPOR, da Controladoria-Geral da União (CGU), do Tribunal de Contas da União (TCU), do Ministério Público Federal (MPF), do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), do Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), entre outros órgãos. O Ministério dos Transportes também foi convidado, mas não participou da videoconferência.

Durante uma primeira mesa sobre impactos socioambientais do atual modelo de hidrovias na Amazônia e a infraestrutura que queremos, representantes das três bacias mostraram como diferentes projetos de infraestrutura têm produzido problemas semelhantes. No rio Madeira, Iremar Ferreira, do Instituto Madeira Vivo (IMV), chamou atenção para os efeitos da expansão dos corredores de transporte de grãos e defendeu que a infraestrutura amazônica seja discutida a partir das necessidades de quem vive nos rios e deles depende. No Tapajós, Johnson Portela, do Movimento Tapajós Vivo (MTV), destacou que os impactos da hidrovia se somam às pressões já existentes do agronegócio e da expansão portuária e afetam atividades como pesca, transporte local e turismo.

“Parece que estamos falando do mesmo rio”, resumiu Claudelice Santos, do Instituto Zé Cláudio e Maria (IZM). Segundo ela, problemas encontrados no Madeira, Tapajós e Tocantins se repetem, entre eles o fracionamento dos empreendimentos e de seus processos de licenciamento, dificuldades relacionadas à consulta prévia e a falta de informações acessíveis às comunidades sobre a dimensão das intervenções previstas. No Tocantins, ela lembrou ainda que populações afetadas pela hidrovia convivem com impactos acumulados de outras grandes obras, como a hidrelétrica de Tucuruí e a Transamazônica.

A necessidade de participação dos povos desde as primeiras etapas dos projetos também foi ressaltada pelo cacique Manoel Munduruku, do planalto santareno, região cercada pela monocultura de soja. “Temos que ser consultados antes do projeto ser colocado no papel”, afirmou. Para ele, realizar a consulta quando as principais definições sobre um empreendimento já foram tomadas limita a possibilidade de participação efetiva dos povos afetados.

Planejamento bem antes das obras

Durante o encontro, representantes de organizações da sociedade civil também apontaram que parte dos conflitos relacionados às hidrovias poderia ser enfrentada ainda na etapa de planejamento setorial de transportes, antes da definição de obras e da abertura dos processos de licenciamento.

André Luis Ferreira, diretor-executivo do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), defendeu que os planos setoriais de transporte sejam construídos de forma integrada, com a análise comparativa entre corredores de transporte que tipicamente envolvem modais interconectados (rodovias, hidrovias, ferrovias), considerando riscos socioambientais e questões de viabilidade econômica. Ele lembrou ainda que uma hidrovia não funciona de forma isolada: depende de portos, rodovias e outras estruturas. Por isso, seus efeitos precisam ser analisados no contexto dos corredores logísticos, considerando impactos cumulativos e sinérgicos desde o início do planejamento. Ainda segundo ele, várias infraestruturas propostas no PNL 2050, têm como motivação principal resolver o mesmo problema logísticos, especialmente no que se refere a milho e soja. Ao que parece, será necessário avaliar a real necessidade das de todas infraestruturas planejadas e avaliar alternativas com menores riscos sociais e ambientais.

A assessora técnica do GT Infra, Renata Utsunomiya, apresentou exemplos das hidrovias do Madeira, Tapajós e Tocantins para mostrar limitações do atual modelo de licenciamento ambiental. No Madeira, por exemplo, ela apontou a existência de intervenções próximas a Terras Indígenas e Unidades de Conservação e questionou a ausência de consulta livre, prévia e informada. No Tapajós, destacou que quatro dos sete pontos previstos no plano de dragagem de 2026 não haviam sido dragados anteriormente, questionando sua classificação como meras dragagens de manutenção.

Outro ponto levantado foi a necessidade de avaliar os impactos da operação ao longo das hidrovias, e não apenas das intervenções em trechos específicos dos rios, o que se intensifica com o fatiamento do licenciamento ambiental. As projeções indicam forte crescimento da movimentação de cargas no Tapajós e no Tocantins até 2035, o que reforça, segundo Renata, a necessidade de modelar esses fluxos para compreender a frequência do tráfego e os riscos associados, como o aumento do desmatamento associado à expansão da soja na Amazônia.

Infraestrutura para quem vive nos territórios

Além de mudanças no planejamento de grandes empreendimentos, o debate colocou em pauta a infraestrutura de transporte fluvial necessária para atender às próprias populações amazônicas.

Andressa Neves, do WWF Brasil e do Observatório das Economias da Sociobiodiversidade, destacou que comunidades tradicionais e cadeias produtivas que dependem dos rios ainda são pouco consideradas no planejamento e enfrentam carências de estruturas como portos, trapiches, entrepostos, energia e conexões intermodais.

Para ela, a infraestrutura de transportes fluvial e terrestre pode contribuir para reduzir desigualdades se também estiver voltada às economias locais e às cadeias com impacto socioambiental positivo, em vez de ser planejada quase exclusivamente para o transporte de cargas do agronegócio e da mineração, como ocorre atualmente.

O procurador da República Gabriel de Amorim, do Ministério Público Federal (MPF), defendeu maior protagonismo dos povos indígenas e comunidades tradicionais nas decisões sobre as hidrovias e alertou para a necessidade de não repetir erros de grandes projetos de infraestrutura implantados anteriormente na Amazônia. Segundo ele, a garantia do direito à consulta livre, prévia e informada junto aos povos afetados deve fazer parte de um modelo de governança que considere os rios e seus diferentes usos de forma integrada.

Gabriel também criticou o fracionamento dos processos de licenciamento, que, segundo ele, impede conhecer a totalidade dos custos e impactos do modelo hidroviário. O procurador defendeu que a análise das hidrovias considere impactos acumulados de empreendimentos já existentes, como hidrelétricas, e apontou a necessidade de fortalecer a gestão das bacias hidrográficas, com participação dos povos tradicionais.

Diálogo deve continuar

O secretário nacional de Hidrovias e Navegação, Otto Luiz Burlier, afirmou que a secretaria tem buscado ampliar o diálogo com diferentes setores da sociedade e reconheceu a percepção de que a atuação do poder público no setor hidroviário muitas vezes está associada prioritariamente ao transporte de cargas de grandes grupos econômicos, menosprezando as necessidades de comunidades locais. Segundo ele, o desafio é equilibrar a matriz logística brasileira e construir políticas que promovam desenvolvimento sustentável com inclusão social. O secretário também propôs o alinhamento de próximos passos para a continuidade das discussões.

Ao final, os participantes apontaram a reunião como um primeiro passo para a construção de uma agenda permanente de diálogo. Entre os próximos passos e propostas discutidos estão a continuidade da interlocução entre instituições e organizações, o aprimoramento dos mecanismos de consulta livre, prévia e informada, a incorporação das necessidades das comunidades no debate sobre infraestrutura e a ampliação da participação social na fase de elaboração dos planos setoriais de transporte, no âmbito do Planejamento Integrado de Transportes (PIT). Também foi apontada a necessidade de realização de um encontro presencial, logo após o período eleitoral, para aprofundar os debates e a definição de encaminhamentos.

 

A Amazônia não precisa de novos donos

O mundo descobriu uma nova maneira de lucrar com a Amazônia viva. Mas, a menos que o poder acompanhe o dinheiro, os povos indígenas e as comunidades tradicionais podem se ver servindo a outra economia construída em torno de sua floresta, em vez de moldar uma economia própria

Floresta Amazônica, Rio Amazonas, Brasil. Crédito: Dennis Schmelz/Alamy

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

Aconteceu algo bastante estranho na forma como falamos sobre os povos da Amazônia. 

O conhecimento antes visto como primitivo, atrasado, até mesmo um obstáculo ao progresso, agora está sendo considerado um ativo da bioeconomia e parte da solução para as crises climáticas e da biodiversidade. Dizem-lhes agora que seu conhecimento pode ser a chave para o futuro.

As comunidades indígenas e tradicionais sabem o que cresce em cada lugar, quando as frutas estão seguras, maduras e prontas para o consumo, como uma planta pode ser usada e o que acontece quando um rio é perturbado a montante. Grande parte desse conhecimento foi transmitido através de famílias e comunidades por muitas gerações.

Agora tem outro nome: inovação. E há muito dinheiro nisso.

A bioeconomia da Amazônia está atraindo muitos governos, bancos, empresas, organizações ambientais, entidades filantrópicas e investidores com uma proposta convincente: o desenvolvimento econômico não precisa ocorrer às custas da floresta.

Desejamos muito que isso seja verdade. A Amazônia precisa desesperadamente de um futuro que não dependa de sua destruição.

Valor

A coisa fica bem mais interessante e menos confortável quando você acompanha um produto amazônico desde a floresta até o consumidor.

Uma comunidade pode possuir gerações de conhecimento sobre uma determinada planta: onde ela cresce, como é colhida sem prejudicar a produção futura e como pode ser utilizada. Mas, uma vez que a planta entra em uma cadeia comercial, o equilíbrio muda completamente.

O processamento pode ocorrer em outros locais, juntamente com a pesquisa, o desenvolvimento do produto, o patenteamento, a criação da marca e a distribuição.

Um ingrediente comprado por um preço relativamente baixo em sua origem pode eventualmente estar presente em um produto cosmético, alimentício ou farmacêutico caro, vendido em São Paulo, Londres, Paris, Berlim ou Nova York.

Em algum ponto dessa jornada, o valor aumenta enormemente. Aqueles que forneceram a matéria-prima e o conhecimento que tornaram o produto possível podem permanecer na base da cadeia.

Por isso, perguntar simplesmente se as comunidades estão lucrando com a bioeconomia nos diz muito pouco. Elas podem ganhar muito mais e ainda assim ter muito pouco controle sobre os negócios construídos ao seu redor.

Uma comunidade pode receber renda de um projeto e ainda assim perder parte da autonomia sobre seu território, tornar-se dependente de um único comprador ou até mesmo alterar suas práticas tradicionais para atender às demandas de um mercado externo.

E o conhecimento não é apenas mais uma matéria-prima.

Como atribuir a propriedade de algo desenvolvido coletivamente e transmitido entre gerações? O que acontece quando o conhecimento e o território entram em sistemas construídos em torno do registro, da propriedade intelectual e da propriedade comercial?

O reconhecimento do conhecimento tradicional deve ser celebrado, mas não deve se tornar uma oportunidade para se apropriar dele.

Convidado em

Atualmente, há muitas fotografias de povos indígenas em conferências sobre o clima. Eles aparecem em relatórios de sustentabilidade corporativa, em eventos internacionais e em apresentações sobre conservação florestal. Eles também se tornaram políticos.

A visibilidade melhorou significativamente. Mas a potência é algo completamente diferente.

Muitas das decisões importantes relativas a um projeto podem ser tomadas anos antes de a comunidade ser formalmente consultada.

Frequentemente, essas comunidades aparecem nesses projetos como parceiras, beneficiárias ou guardiãs da floresta, enquanto as decisões estratégicas relativas ao financiamento, ao desenho do programa, aos critérios de sucesso e à distribuição de recursos são tomadas em outro lugar.

A consulta gratuita, prévia e informada visa precisamente evitar isso. “Prévia” não pode significar depois que as decisões importantes já foram tomadas. “Informada” não pode significar entregar às comunidades documentos que elas não tiveram tempo nem aconselhamento independente para avaliar adequadamente.

Existe um enorme desequilíbrio quando as instituições passam anos desenvolvendo um projeto e espera-se que as comunidades tomem decisões em semanas, ou até mesmo em dias.

Eles precisam de seus próprios advogados e consultores independentes quando necessário, e de tempo para conversar entre si, inclusive com anciãos e organizações em que confiam. Também precisam saber quem lucrará com o projeto, e não apenas o que lhes foi prometido.

Acima de tudo, eles precisam poder dizer não. O consentimento não deve ser um cheque em branco assinado no início de um projeto.

As condições podem mudar; os impactos podem ser diferentes dos previstos e novos investidores podem entrar no projeto. O uso de dados ou recursos naturais também pode se expandir.

Deverá haver pontos de revisão formais ao longo de todo o ciclo de vida do projeto, com mecanismos claros para renegociação, reclamações e reparação.

O dinheiro chega com condições

Não há dúvida de que a Amazônia precisa de investimentos. Quem romantiza a pobreza em nome da proteção da floresta não está fazendo nenhum favor às pessoas que vivem lá. Pequenas empresas e cooperativas lutam para obter apoio.

O financiamento misto surgiu em parte como resposta a esses problemas. O dinheiro público e filantrópico pode assumir parte do risco que os investidores privados não estão dispostos a assumir, tornando os projetos mais atraentes para o capital comercial.

Mas se o dinheiro público torna o risco aceitável, enquanto grande parte do retorno é privado, devemos saber como os benefícios estão sendo distribuídos. Mais importante ainda, devemos analisar que tipo de projetos o sistema favorece.

Investidores gostam de coisas que podem ser medidas, reproduzidas e escaladas com um retorno rápido. A floresta é bem menos organizada.

Uma comunidade pode ter uma forma excepcional de gerir um ecossistema específico, desenvolvida em função das condições e da cultura locais, mas essa forma pode nunca se tornar um modelo capaz de ser expandido para milhares de hectares. Um projeto maior e padronizado, com métricas já conhecidas, pode ser muito mais fácil de financiar.

Lentamente, a pergunta pode mudar. Em vez de perguntarmos que tipo de financiamento funciona para a Amazônia, começamos a perguntar que tipo de Amazônia funciona para o setor financeiro.

O que o dinheiro não vê

Os mercados são particularmente ruins em enxergar coisas que não geram receita.

Não há valor comercial óbvio ou retorno financeiro em permitir que uma espécie ameaçada de extinção continue existindo, em limpar o mercúrio de um rio, em proteger uma bacia hidrográfica remota ou em preservar uma relação ecológica que os cientistas mal compreendem. Essas ações podem ser essenciais sem que se produza nada que possa ser vendido.

A natureza não opera segundo o calendário de um fundo de investimento. Um ecossistema danificado pode precisar de décadas para se recuperar.

O carbono ofereceu uma resposta para parte desse problema ao criar algo mensurável que pudesse ser comercializado.

Como resultado, houve um fluxo de dinheiro para projetos florestais, incluindo verbas que, de outra forma, talvez nunca tivessem chegado à conservação.

Mas os mercados voluntários de carbono também expuseram a dificuldade de tentar integrar uma floresta viva em um sistema de contabilidade.

Em muitos projetos florestais, os créditos dependem de uma projeção do que supostamente teria acontecido com aquela floresta se o projeto não tivesse existido. Quanto maior a projeção de desmatamento nesse cenário hipotético, maior o volume potencial de créditos gerados.

Isso cria um sério conflito de incentivos. Se você exagerar o risco futuro de desmatamento, poderá gerar mais créditos. E esses créditos têm valor financeiro.

Além disso, existem outros problemas, como o “vazamento”: você protege uma área específica, mas o desmatamento simplesmente se desloca para outro lugar.

Há também a questão da permanência. Uma floresta que gerou créditos de carbono hoje pode ser destruída por um incêndio, degradada ou desmatada daqui a alguns anos. No entanto, esses créditos podem já ter sido vendidos e utilizados por uma empresa para compensar suas emissões.

Isso evidencia o quão difícil é transformar algo tão complexo e dinâmico como uma floresta em uma unidade financeira perfeitamente mensurável.

Talvez a questão mais preocupante seja esta: uma empresa pode comprar créditos de carbono e alegar ter compensado suas emissões sem necessariamente reduzir a poluição na fonte.

Isso pode criar uma espécie de licença moral para continuar emitindo: continuo queimando combustíveis fósseis aqui enquanto pago alguém para preservar uma floresta do outro lado do mundo. Mas uma coisa não anula necessariamente a outra.

Por isso, é perigoso acreditar que o mercado sozinho resolverá a crise climática.

Existe uma enorme diferença entre pagar pessoas para proteger uma floresta e pagar pessoas para proteger uma floresta para que outra pessoa possa alegar ter eliminado a poluição.

Certificações ecológicas

A nova economia criou algumas alianças muito incomuns.

Empresas dos setores de petróleo e gás, mineração e agronegócio agora atuam ao lado de governos e organizações ambientais em iniciativas de conservação. Algumas financiam programas de restauração e biodiversidade.

Esse dinheiro pode alcançar algo útil. Rejeitar uma floresta restaurada por causa da identidade do financiador não faria sentido.

O que faz menos sentido é analisar a restauração sem analisar a empresa.

Se uma empresa investe milhões em conservação, como isso se compara ao que ela gasta expandindo as atividades responsáveis ​​por seu impacto ambiental? Quais são suas emissões?

Que danos estão associados às suas operações? O que permanece sem solução? Qual a proporção entre o que é destinado à conservação e o que continua a ser destinado às atividades responsáveis ​​pelo problema?

Esses não são argumentos contra o financiamento ambiental corporativo. São questões básicas de proporcionalidade.

A sustentabilidade também se tornou valiosa para as empresas. Ela afeta sua reputação, o relacionamento com os investidores e a licença social para operar. Uma empresa agora pode se associar a um problema ambiental e financiar parte da solução proposta simultaneamente.

O financiamento para a conservação está transformando os modelos de negócio dessas empresas ou está ajudando-as a continuar operando sem uma transformação proporcional de seus modelos de negócio?

Memórias antigas

Há motivos para sermos céticos em relação às grandes promessas econômicas nesta região do Brasil.

A Amazônia foi repetidamente reorganizada em torno de coisas que pessoas de fora decidiram que eram valiosas. A borracha teve seu momento, assim como a madeira, o ouro, os minerais e a terra. Riquezas foram geradas, muitas vezes muito longe das comunidades que ficaram para trás, sofrendo as consequências.

Hoje, as coisas valiosas têm nomes diferentes: carbono, biodiversidade, informação genética e conhecimento tradicional.

Esse valor pode ser gerado enquanto a floresta permanece de pé? Se sim, o valor ainda pode sair da Amazônia mesmo quando as árvores não estiverem mais lá.

Um recurso genético pode se tornar propriedade intelectual em outro lugar. Uma floresta pode gerar um ativo financeiro negociado longe do território. O conhecimento tradicional pode ajudar a criar um produto lucrativo, enquanto as pessoas que desenvolveram esse conhecimento permanecem fornecedoras em vez de proprietárias.

Devemos ter cuidado para não confundir uma mudança no que é extraído com uma mudança em quem detém o poder.

Mais do que beneficiários

O investimento público pode apoiar causas importantes, mesmo que elas nunca gerem um retorno comercial atrativo.

Mais importante ainda, os povos indígenas e as comunidades tradicionais podem ser tratados como atores políticos e econômicos com autoridade sobre seus territórios, e não como beneficiários vinculados a um projeto de terceiros.

Por gerações, essas comunidades protegeram grande parte daquilo que o resto do mundo descobriu repentinamente ser valioso. Fizeram isso muito antes de o carbono ter um preço e a biodiversidade aparecer em apresentações de investimento, frequentemente enfrentando violência, invasões de terras e políticas destinadas a marginalizá-las.

Agora todos querem algo deles e da floresta viva.

Antes de celebrarmos a quantidade de dinheiro que entra na Amazônia, precisamos perguntar:

Que tipo de Amazon queremos deixar para trás depois que todo esse dinheiro tiver passado por ela?

Porque os investimentos vêm e vão. Os governos vêm e vão. As empresas vêm e vão. Os políticos vêm e vão. Mas a floresta tem de permanecer.

Extremos climáticos avançam sobre uma Amazônia que os mapas de risco ainda não enxergavam

Estudo publicado na Communications Earth & Environment mostra que o aquecimento extremo cresce muito mais rapidamente do que as temperaturas médias e identifica uma nova região crítica no centro-norte da Amazônia

Um estudo publicado na revista científica Communications Earth & Environment, do grupo Nature, mostra que as mudanças climáticas na Amazônia são mais rápidas e territorialmente complexas do que indicam as médias anuais. O artigo “Rapid increase of climate extremes reveals new areas of concern in Amazonia” foi produzido por uma ampla equipe internacional e multidisciplinar. Jos Barlow, Nathália S. Carvalho e Cássio Alencar Nunes contribuíram igualmente e lideraram a redação, com a participação de dezenas de pesquisadores vinculados a instituições como INPE, IPAM, INPA, Embrapa, Museu Paraense Emílio Goeldi, Unicamp, UFAM, UFMT, Oxford, Lancaster, Exeter, Yale e NASA.

O principal mérito do trabalho está em deslocar o olhar das médias climáticas para os extremos, justamente as condições que produzem os efeitos sociais e ecológicos mais graves. A equipe analisou aproximadamente 7 milhões de quilômetros quadrados da Amazônia, divididos em cerca de 57,9 mil células com resolução de 11 quilômetros, utilizando dados de temperatura, precipitação, déficit de pressão de vapor e déficit hídrico acumulado entre 1981 e 2023. Os pesquisadores também consideraram as variações regionais do ano hidrológico e da duração dos períodos secos e úmidos.

Os resultados são alarmantes. Enquanto a temperatura média anual aumentou cerca de 0,21 °C por década, as temperaturas máximas extremas durante o período mais seco cresceram 0,49 °C por década. Isso representa aproximadamente 2,11 °C em 43 anos e uma velocidade de aquecimento mais de duas vezes superior àquela revelada pela tendência média anual.

O achado mais preocupante é territorial. A Amazônia meridional continua aparecendo como a região que mais aquece quando se observam as médias, sobretudo por causa do desmatamento e da degradação florestal. Entretanto, a análise dos extremos revelou uma extensa área crítica no centro-norte da Amazônia, até agora pouco destacada nos mapas de risco. Mais de 700 mil quilômetros quadrados registraram aumentos iguais ou superiores a 0,75 °C por década nas temperaturas máximas extremas da estação seca, o equivalente a mais de 3,2 °C durante o período analisado.

Essa região abriga florestas conservadas, savanas nativas, unidades de conservação e importantes territórios indígenas, incluindo áreas dos povos Yanomami e Waimiri-Atroari. Os efeitos dos extremos climáticos já aparecem na mortalidade de mamíferos, na redução de populações de aves, nas alterações das comunidades de peixes, na retração das superfícies aquáticas, nos incêndios em Roraima e nas florestas inundáveis do Rio Negro, além do agravamento da poluição atmosférica e das internações hospitalares em Manaus.

Outro resultado relevante é que o aumento do estresse hídrico está associado principalmente à elevação da temperatura, e não a uma redução generalizada das chuvas. Temperaturas maiores ampliam a demanda evaporativa da atmosfera e podem intensificar a perda de água pelo solo e pela vegetação. Assim, a floresta pode enfrentar condições progressivamente mais secas e inflamáveis mesmo sem uma diminuição proporcional da precipitação.

A equipe reconhece incertezas relacionadas às estimativas de evapotranspiração e às diferenças entre os bancos de dados de chuva. Entretanto, a retirada do episódio extremo de 2023-2024 reduziu a magnitude de algumas tendências sem alterar o padrão espacial principal. O centro-norte continuou concentrando os maiores aumentos das temperaturas extremas e do déficit hídrico, indicando uma transformação acumulada ao longo de mais de quatro décadas.

À luz do conceito de violência lenta elaborado por Rob Nixon, o estudo mostra como a crise climática se acumula em alterações graduais da temperatura, da umidade, da disponibilidade de água, da saúde humana e da sobrevivência das espécies. Os seus efeitos tornam-se visíveis em incêndios, secas e mortandades, mas suas causas permanecem dispersas no tempo e frequentemente distantes das populações atingidas.

A separação entre as principais frentes de desmatamento e a nova área de extremos climáticos também impede que a crise seja atribuída apenas a fatores locais. O desmatamento regional agrava o problema, mas as emissões globais têm papel decisivo. Os países ricos e grandes emissores históricos carregam, portanto, responsabilidade direta pela alteração das condições climáticas de territórios amazônicos que pouco contribuíram para produzi-la.

O artigo deixa uma advertência incontornável: olhar apenas para médias climáticas e mapas tradicionais de desmatamento significa enxergar uma parte cada vez menor do problema. Os extremos avançam mais rapidamente, alcançam territórios antes considerados menos ameaçados e produzem uma nova geografia do risco amazônico. Enquanto o debate público espera o desastre se tornar visível, a violência climática lenta continua preparando as condições para que ele aconteça.

Quando a conservação se torna uma mercadoria

Transporte de toras de árvores da floresta para a serraria rio abaixo, aproveitando a correnteza, exploração madeireira na Amazônia, Brasil. Crédito: Ricardo Beliel / BrazilPhotos / Alamy

Por Monica Piccini para “YourVoiz” 

O Brasil aposta que a Amazônia pode ser protegida tornando suas florestas economicamente valiosas, por meio da exploração madeireira, de produtos florestais e de créditos de carbono. Mas, à medida que mais florestas públicas são abertas ao comércio, o desafio é estabelecer se o uso comercial pode permanecer dentro dos limites ecológicos da floresta.

A Amazônia sempre atraiu pessoas em busca de algo valioso. Desde os tempos coloniais do Brasil, com a chegada dos portugueses em 1500, os recursos naturais, incluindo madeira, açúcar, ouro, diamantes, borracha, café, minerais, gado e terras, têm gerado ondas de extração na floresta.

Atualmente, as florestas públicas podem fornecer óleos, sementes, frutos, madeira, serviços ambientais e, segundo regras mais recentes, créditos de carbono, mantendo-se oficialmente protegidas e em pé.

O Brasil chama isso de manejo florestal sustentável . A ideia é que, se uma floresta viva tem valor econômico , há menos incentivo para destruí-la. A recuperação da floresta, no entanto, ocorre em uma escala de tempo muito maior do que o planejamento comercial. As árvores levam décadas, às vezes séculos, para crescer. O que importa é o que resta após a exploração madeireira e se as árvores de valor comercial se recuperaram antes que a colheita recomece.

Um estudo publicado na revista Forest Ecology and Management testou 27 cenários diferentes de exploração madeireira na Amazônia brasileira para verificar se a produção comercial de madeira poderia ser mantida ao longo de colheitas repetidas.

Em condições semelhantes às utilizadas atualmente nas concessões florestais brasileiras, com colheita de cerca de 15 a 20 metros cúbicos de madeira por hectare e retorno após 35 anos, a produção madeireira poderia ser mantida durante o primeiro ciclo, mas não no mesmo nível posteriormente.

Plinio Sist, cientista florestal sênior da Unidade de Pesquisa Florestas e Sociedades do CIRAD (Centro Francês de Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento Internacional) e principal autor da pesquisa, explicou:

O problema não é necessariamente se a floresta permanece de pé após a exploração madeireira. A biomassa e a biodiversidade florestal podem se recuperar relativamente bem quando a exploração madeireira é cuidadosamente controlada. O problema são as árvores de madeira valiosa. Elas se recuperam muito mais lentamente.

No atual ciclo de colheita, estudos sugerem que apenas cerca de metade do volume original de madeira pode ter se recuperado até o retorno dos madeireiros. Assim, uma floresta pode parecer verde e saudável vista de cima, mas já não conter madeira comercial suficiente para sustentar o mesmo nível de colheita.

O cenário mais sustentável no estudo envolvia a colheita de 10 metros cúbicos por hectare a cada 60 anos. O material explicativo subsequente do CIRAD descreve o ciclo de corte correspondente como sendo de 65 anos. Também assumiu que 90% das espécies de madeira potencialmente colhíveis teriam valor comercial, em comparação com cerca de 20% nas práticas atuais.

Sist argumenta que, para uma produção madeireira verdadeiramente sustentável, a indústria talvez tenha que aceitar extrair consideravelmente menos da floresta e esperar muito mais tempo antes de retornar a ela. Ele disse:

Nossas simulações sugerem que a exploração madeireira deve ser limitada a cerca de 10 metros cúbicos por hectare, que uma gama mais ampla de espécies de madeira deve ser utilizada e que as florestas devem ter um período de cerca de 60 anos antes de serem exploradas novamente.

Nessas condições, a exploração madeireira poderia ser sustentável a longo prazo. Mas há uma contrapartida importante: uma exploração verdadeiramente sustentável produziria muito menos madeira do que o mercado demanda atualmente. Devemos reconhecer que a floresta tem limites ecológicos. Não podemos simplesmente exigir que ela continue produzindo a mesma quantidade indefinidamente.

Uma floresta se torna um investimento

Pau-Rosa faz parte de uma expansão muito maior de concessões florestais na Amazônia. A Floresta Nacional Pau-Rosa abrange cerca de 828.000 hectares e situa-se entre os rios Madeira e Tapajós, uma região de imensa riqueza ecológica. Cerca de 249.000 hectares estão atualmente propostos para concessão de manejo florestal sustentável. Até agosto de 2026, o projeto ainda não havia sido licitado. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) havia programado o edital de licitação para o final de 2026 e o ​​leilão para o primeiro trimestre de 2027.

Os documentos do projeto governamental afirmam que as concessões visam proteger a biodiversidade e apoiar o desenvolvimento sustentável, permitindo, ao mesmo tempo, o uso comercial da floresta. Espera-se que essa mesma floresta seja, simultaneamente, produtiva comercialmente e conservada.

Pau-Rosa é apenas um dos vários projetos de concessão em toda a região. A Floresta Nacional de Castanho Glebe , a Floresta Nacional do Amapá , a Floresta Nacional de Jatuarana (quatro Unidades de Manejo Florestal, UMFs), as Florestas Nacionais de Iquiri , Anauá , Bom Futuro (duas UMFs) e Balata-Tufari ( três UMFs ) estão entre as outras florestas amazônicas envolvidas em projetos de concessão, embora os projetos estejam em diferentes estágios, desde estudos e preparação de licitações até leilões e concessões contratadas.

Esses projetos são coordenados pelo Serviço Florestal Brasileiro (SFB), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas do Brasil, e contam com o apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em sua estruturação.

Cada concessão tem seus próprios limites e plano de gestão, mas em toda a região, espera-se que mais florestas públicas produzam madeira e outras formas de renda, mantendo-se em pé.

Fonte da imagem: Hub de Projetos BNDES 

Algumas dessas florestas públicas e unidades de concessão estão localizadas dentro da área mais ampla influenciada pela infraestrutura de transporte associada ao corredor da rodovia BR-319, ou são afetadas por ela .

Pesquisas e avaliações ambientais têm identificado repetidamente a melhoria do acesso rodoviário nesta parte da Amazônia como um fator de pressão sobre florestas remotas, áreas protegidas e comunidades indígenas. Estradas existentes e planejadas podem criar vias para extração ilegal de madeira e mineração, grilagem de terras, crime organizado e outras atividades ilícitas, além de aumentar o risco de desmatamento e degradação.

Madeira sustentável

Um plano de gestão pouco significa se a origem da madeira não for confiável.

Um estudo de 2025 publicado na revista One Earth examinou registros de madeira e observações de satélite no estado do Pará, Brasil, entre 2009 e 2019, e constatou lacunas significativas entre o que estava registrado em papel e o que podia ser observado na floresta. Embora 96% do volume de madeira que entrou na cadeia de suprimentos formal pudesse ser vinculado a uma licença de exploração madeireira por localização, apenas 45% da exploração detectada por satélite coincidiu com áreas com autorização legal.

Os pesquisadores também encontraram casos em que a quantidade de madeira declarada como proveniente de uma área autorizada parecia inconsistente com a quantidade de extração madeireira realmente visível no local. Segundo os pesquisadores, essas inconsistências criam oportunidades para que as licenças de exploração madeireira sejam usadas para lavar madeira extraída ilegalmente em outros lugares.

Mas o problema não desapareceu, já que operações de fiscalização e investigações recentes continuam a encontrar evidências de que licenças fraudulentas, créditos florestais e outros documentos podem ser usados ​​para disfarçar a verdadeira origem da madeira extraída ilegalmente.

Em 2025, uma investigação da Agência de Investigação Ambiental (EIA) ligou cerca de 53.000 metros cúbicos de madeira, associados a operações autorizadas ou irregulares, a cadeias de abastecimento que chegavam aos Estados Unidos e à Europa.

A madeira pode parecer rastreável e legal em um banco de dados oficial sem a documentação que comprove que ela realmente veio da floresta indicada nos registros.

Grande parte da Amazônia é remota, e a exploração madeireira sob a copa das árvores pode ser difícil de comparar com o que acontece nos registros oficiais. Um plano de manejo pode definir como a exploração madeireira deve ser feita, mas verificar se essas regras são seguidas na prática é muito mais difícil.

Uma árvore em pé se transforma em mercadoria

A exploração madeireira deixou de ser a única forma de uma floresta gerar renda. Em outubro de 2025, o Serviço Florestal Brasileiro introduziu normas que permitem às concessões de manejo florestal já em vigor a inclusão de atividades voltadas à redução das emissões provenientes do desmatamento e da degradação florestal, com o objetivo de gerar, certificar e comercializar créditos de carbono.

Em 25 de março de 2026, o Brasil realizou seu primeiro leilão federal para concessão florestal com foco em restauração ecológica na Floresta Nacional do Bom Futuro, em Rondônia. A Re.green venceu o leilão para uma unidade de manejo de aproximadamente 51.200 hectares. A concessão tem duração de 40 anos e permite a geração de receita por meio de ativos ambientais, incluindo créditos de carbono e produtos da silvicultura de espécies nativas.

A Re.green foi a vencedora do Earthshot Prize de 2025. Seus clientes e parceiros incluem Microsoft, Nestlé, Vivo e a farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk. Seu investimento e apoio vêm da gestora de ativos Dynamo , da holding privada do Grupo Moreira Salles – Brasil Warrant (BW), da empresa de private equity e investimentos Lanx Capital , da empresa de private equity Principia Capital e da Gávea Investimentos .

O mercado voluntário de carbono adiciona mais uma fonte de receita . Uma árvore em pé pode gerar renda por meio do carbono que armazena. Seu carbono é medido, calculado e transformado em crédito que pode ser negociado. Para projetos de restauração, os créditos de carbono podem fornecer recursos para recuperar terras degradadas, mas também transformam a capacidade natural da floresta de armazenar carbono em algo que pode ser comprado e vendido.

O Dr. Thales AP West, professor assistente titular do Instituto de Estudos Ambientais (IVM) da Universidade Livre de Amsterdã, falou sobre as salvaguardas do mercado de créditos de carbono :

Se as empresas compram créditos de projetos florestais, a floresta precisa estar lá. Se ela desaparecer, os créditos também desaparecem. O problema é que mesmo cálculos certificados e auditados podem carecer de credibilidade — a certificação por si só não garante nada.

A maioria dos projetos dura apenas algumas décadas; uma vez expirados, seus créditos também podem expirar. No entanto, ninguém quer falar sobre isso porque é inconveniente. O mercado voluntário simplesmente optou por não levar a questão da permanência a sério.

Os volumes de madeira e as toneladas de carbono descrevem apenas parte do valor de uma floresta. As florestas sustentam o solo, a água, a vida selvagem e as relações entre as espécies. Para as pessoas que viveram nelas e dependeram delas por gerações, elas também são lar, alimento e remédio.

Os mercados voluntários de carbono atribuem um valor mensurável e negociável a uma função de um sistema mais amplo: o armazenamento de carbono e a mitigação das mudanças climáticas. Os críticos têm um nome para isso: “extrativismo verde”, argumentando que ele pode continuar a definir as florestas por meio do valor econômico que elas geram, mesmo quando as árvores permanecem de pé.

Sist argumenta que atribuir um preço a uma floresta em pé pode ajudar a protegê-la, mas apenas se a conservação não se tornar mais uma justificativa para o crescimento econômico desenfreado. Ele disse:

Sempre existe um perigo quando atribuímos um valor financeiro à natureza. Ao mesmo tempo, gerar renda a partir de uma floresta em pé pode dar às pessoas um forte incentivo para conservá-la.

Acho que o conceito de bioeconomia não é muito útil porque abrange muitas coisas e cada um tem sua própria definição e visão do que é bioeconomia. Penso que a bioeconomia deveria ser implementada dentro de um sistema econômico que defenda o decrescimento, e não como uma solução milagrosa dentro de um sistema capitalista que não pode existir sem crescimento.

Um relacionamento antigo com um nome mais verde

Durante séculos, a floresta amazônica foi explorada, vista como fonte de borracha, madeira de lei, minerais, petróleo, pastagens para gado e terras. As concessões florestais atuais operam sob regulamentação e monitoramento, com normas de gestão destinadas a limitar os danos associados à extração descontrolada.

Essas regras, por si só, não tornam o modelo transparente ou sustentável. Um sistema que valoriza as florestas principalmente por meio da madeira, do óleo, do carbono e de outros produtos comercializáveis ​​ainda corre o risco de negligenciar valores ecológicos e sociais mais difíceis de precificar.

A sustentabilidade dessas concessões dependerá do que acontecer na floresta ao longo do tempo: a recuperação das árvores colhidas, a condição dos rios e solos, a sobrevivência da vida selvagem, a influência das comunidades locais e indígenas nas decisões e quanta da riqueza gerada permanece nos locais onde é produzida.

Em conjunto, eles fornecem uma visão mais significativa da condição da floresta a longo prazo do que o valor de uma concessão ou o número de créditos de carbono que ela produz.

O Brasil precisa de alternativas à extração ilegal de madeira, à grilagem de terras e ao desmatamento. Concessões cuidadosamente gerenciadas poderiam talvez reduzir algumas dessas pressões, mas sua sustentabilidade a longo prazo ainda depende da capacidade de manter a recuperação ecológica e uma fiscalização eficaz ao longo de repetidos ciclos de exploração.

Sist alertou que as concessões não devem ser encaradas como a única solução. Ele disse:

O sistema de concessões florestais do Brasil está entre os melhores do mundo tropical, mas as regras de exploração precisarão ser alteradas para que seja sustentável a longo prazo. E as concessões, por si só, não conseguem suprir toda a demanda de madeira do mercado.

O Brasil precisa de uma abordagem muito mais abrangente: acabar com a extração ilegal de madeira, permitir que comunidades florestais e pequenos agricultores gerenciem as florestas de forma sustentável e restaurar os milhões de hectares de floresta e terra degradadas. Precisamos diversificar não apenas a origem da madeira, mas também quem tem condições de produzi-la.

O verdadeiro teste começa após a assinatura do contrato e o início da exploração madeireira. Os efeitos não podem ser avaliados apenas no próximo ano fiscal ou mesmo durante a vigência de uma concessão de 40 anos. Eles se tornarão mais claros em prazos muito mais longos, observando se as árvores de grande porte continuarão a se regenerar, se os rios e ecossistemas florestais permanecerão saudáveis ​​e se as pessoas que dependem da floresta conquistarão um papel significativo nas decisões sobre o seu futuro.

Direito de resposta: O Serviço Florestal Brasileiro (SFB) foi contatado para entrevistas a fim de discutir algumas das questões levantadas neste artigo. Até o momento da publicação, nenhuma resposta às perguntas enviadas havia sido recebida.


Fonte: YourVoiz

A carne bovina brasileira no centro da máquina global do desmatamento

Novos dados mostram que a pecuária bovina brasileira respondeu sozinha por cerca de um quarto do desmatamento mundial associado à expansão agropecuária entre 2001 e 2023, desmontando também a ideia confortável de que a destruição das florestas brasileiras ocorre principalmente para alimentar consumidores estrangeiros.

Uma nova análise publicada pelo Our World in Data coloca números bastante incômodos sobre uma relação que há décadas é conhecida no Brasil: a expansão da pecuária bovina continua sendo um dos principais motores da conversão de florestas em áreas produtivas. O que chama atenção agora é a dimensão global do fenômeno, pois, segundo os dados compilados a partir do estudo de Chandrakant Singh e Martin Persson, a produção de carne bovina respondeu por 41% do desmatamento mundial associado à expansão agropecuária entre 2001 e 2023, sendo que aproximadamente 63% desse desmatamento relacionado à carne ocorreu no Brasil. Em outras palavras, a carne bovina produzida no Brasil respondeu sozinha por cerca de 26% de todo o desmatamento mundial associado à produção agropecuária nesse período.

A figura produzida pelo Our World in Data torna essa desproporção particularmente evidente. Depois da carne bovina aparecem as oleaginosas, categoria que inclui soja e dendê, com 16%, seguidas pela produção florestal e pelos cereais, ambos com aproximadamente 12%. Nenhuma dessas atividades, entretanto, chega perto da participação da pecuária bovina, e dentro dos 41% atribuídos mundialmente à carne o Brasil ocupa uma posição absolutamente dominante, o que transforma a pecuária brasileira em um componente estrutural do processo global de destruição de florestas, particularmente grave porque essa transformação territorial avança sobre alguns dos ecossistemas de maior biodiversidade do planeta, entre eles a Amazônia e o Cerrado.

O dado mais desconfortável talvez esteja dentro do Brasil

Há, entretanto, outro resultado apresentado pelo Our World in Data que merece tanta atenção quanto o primeiro. A narrativa predominante costuma associar o desmatamento brasileiro à demanda internacional por commodities, especialmente carne e soja, e essa relação existe e evidentemente não deve ser minimizada. Mas os dados sobre o comércio do desmatamento indicam que ela explica apenas uma parcela do problema, pois aproximadamente 85% do desmatamento brasileiro associado à demanda por produtos teria sido impulsionado pelo próprio mercado doméstico, enquanto apenas cerca de 15% estaria relacionado à demanda internacional.

Esse dado muda significativamente a maneira como o problema precisa ser discutido. Se a maior parte da pressão que produz desmatamento está relacionada ao mercado interno, não podemos simplesmente atribuir a destruição da Amazônia e do Cerrado aos consumidores chineses, europeus ou norte-americanos. Existe uma cadeia econômica e territorial profundamente enraizada dentro do próprio Brasil, envolvendo abertura de pastagens, apropriação e valorização fundiária, expansão da fronteira agropecuária, frigoríficos, sistemas de distribuição e consumo de carne. Nesse sentido, uma parte substancial do problema não começa no supermercado europeu, mas dentro do próprio território brasileiro e termina também no mercado brasileiro.

O problema da soja também não desaparece

Outro aspecto importante é evitar uma leitura excessivamente simplificada desses dados, pois o fato de a pecuária aparecer muito à frente das oleaginosas não significa que a expansão da soja tenha importância secundária na transformação territorial brasileira. O próprio Our World in Data lembra que grande parte da soja mundial não é consumida diretamente pelos seres humanos, já que mais de três quartos da produção global é destinada à alimentação animal, especialmente de aves e suínos.

Além disso, os efeitos territoriais podem ocorrer indiretamente. A expansão da agricultura mecanizada sobre áreas anteriormente ocupadas pela pecuária pode deslocar rebanhos e pressionar novas fronteiras de ocupação, tornando insuficiente olhar apenas para a atividade instalada imediatamente depois da derrubada da floresta. As cadeias da carne, da soja, da terra e da infraestrutura encontram-se territorialmente articuladas, e separar artificialmente esses componentes pode acabar ocultando os mecanismos pelos quais a fronteira agropecuária continua avançando.

Há ainda uma importante lição histórica, pois a Moratória da Soja mostrou que mecanismos de controle das cadeias produtivas podem funcionar. Depois de sua implementação na Amazônia, a participação direta da soja na conversão recente de florestas caiu fortemente, embora parte da pressão territorial possa simplesmente migrar para outras regiões, particularmente o Cerrado. Isso reforça a necessidade de políticas que não se limitem a commodities ou biomas isoladamente, mas alcancem o conjunto das cadeias responsáveis pela transformação do território.

A contradição entre potência agropecuária e potência ambiental

Os números também expõem uma contradição que o discurso oficial brasileiro frequentemente prefere contornar. O Brasil apresenta-se simultaneamente como potência agropecuária e potência ambiental, mas essas duas condições somente poderão coexistir se o aumento da produção deixar definitivamente de depender da incorporação contínua de novas terras e da conversão de vegetação nativa.

Não estamos falando de uma questão marginal. Segundo o levantamento utilizado pelo Our World in Data, desde o início deste século foi eliminada globalmente uma área de floresta equivalente a aproximadamente cinco vezes o território do Reino Unido para expansão de terras agrícolas, sendo que somente a produção de carne bovina teria provocado a destruição de uma área superior a duas vezes o tamanho daquele país. É nesse contexto que aparece o dado que deveria provocar particular desconforto no Brasil: aproximadamente uma em cada quatro unidades de área florestal eliminadas no planeta para expansão agropecuária entre 2001 e 2023 esteve associada à produção brasileira de carne bovina.

Essa constatação coloca em perspectiva determinadas narrativas triunfalistas sobre o agronegócio brasileiro. Não se trata de negar sua importância econômica, tampouco de transformar produtores rurais individualmente em responsáveis por um processo histórico muito mais complexo, mas de reconhecer que existe um modelo territorial no qual a expansão da produção continua vinculada à apropriação de novas áreas, à valorização da terra e à conversão da vegetação nativa. Enquanto essa ligação permanecer intacta, recordes de produção e exportação precisarão ser confrontados com os custos ambientais e climáticos que normalmente permanecem fora das contas apresentadas pelo setor.

Quando a floresta entra na conta, a carne deixa de ser barata

Talvez a principal contribuição dos dados apresentados pelo Our World in Data seja justamente retirar o debate do terreno das abstrações. O desmatamento não acontece simplesmente porque existe uma entidade genérica chamada “agronegócio”, mas porque determinadas cadeias produtivas demandam terra, infraestrutura e recursos naturais e porque existem incentivos econômicos, políticos e institucionais que permitem que essa expansão continue acontecendo. No caso brasileiro, os números apontam diretamente para a pecuária bovina e mostram que sua importância na transformação das paisagens ultrapassa amplamente as fronteiras nacionais.

Quando 26% do desmatamento mundial associado à expansão agropecuária pode ser relacionado a uma única commodity produzida em um único país, já não estamos diante de uma externalidade ambiental secundária, mas de uma característica estrutural de determinado modelo de produção e ocupação territorial. Qualquer política brasileira séria de combate ao desmatamento terá, portanto, de enfrentar diretamente a cadeia da carne bovina, incluindo rastreabilidade dos animais, controle da origem dos rebanhos, desmatamento indireto, regularização fundiária, fiscalização ambiental e recuperação de áreas degradadas.

Se o Brasil pretende reivindicar protagonismo mundial no enfrentamento da crise climática e na proteção da biodiversidade, essa é uma conta que não poderá continuar escondida atrás das estatísticas de produção e exportação. A figura publicada pelo Our World in Data praticamente dispensa metáforas, pois mostra que, quando o assunto é desmatamento global, o boi brasileiro ocupa um espaço grande demais no gráfico justamente porque vem ocupando um espaço grande demais sobre o território.

Casos cruciais para a Amazônia chegam ao STF após derrotas de Lula no Congresso

Árvores margeiam o rio Oiapoque, na fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa, em Oiapoque, estado do Amapá, Brasil, 10 de março de 2026. (Foto AP/Eraldo Peres, Arquivo)

Árvores margeiam o rio Oiapoque, na fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa, em Oiapoque, estado do Amapá, Brasil, 10 de março de 2026. (Foto AP/Eraldo Peres, Arquivo)

Por Gabriela Sá Pessoa para “Associated Press” 

SÃO PAULO (AP) — O Supremo Tribunal Federal do Brasil deve analisar nos próximos dias uma série de casos que podem reformular as proteções à floresta amazônica e às comunidades indígenas que dependem dela.

Os casos abrangem desde direitos territoriais indígenas, retrocessos recentes em salvaguardas ambientais e projetos de infraestrutura. Apesar de suas diferenças, compartilham um caminho comum até chegarem ao tribunal.

Nos últimos anos, um Congresso majoritariamente conservador aprovou medidas que, segundo ambientalistas, violam direitos constitucionais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cujo governo tem priorizado uma agenda ambiental, vetou algumas medidas por completo e partes de outras.

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva discursa durante uma coletiva de imprensa na COP30, a Cúpula do Clima da ONU, em 19 de novembro de 2025, em Belém, Brasil. (Foto AP/Andre Penner, Arquivo)

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva discursa durante uma coletiva de imprensa na COP30, a Cúpula do Clima da ONU, em 19 de novembro de 2025, em Belém, Brasil. (Foto AP/Andre Penner, Arquivo)

Os casos ilustram as limitações enfrentadas pelo governo Lula. Apesar das conquistas notáveis ​​na redução do desmatamento e no direcionamento de recursos para fomentar investimentos ecológicos , o governo frequentemente enfrenta dificuldades para se contrapor a um Congresso conservador, onde os interesses do agronegócio exercem influência significativa.

“O governo é muito fraco na arena legislativa”, disse Suely Araújo, coordenadora de políticas do Observatório do Clima, uma rede de organizações ambientais sem fins lucrativos. “Frequentemente se opõe a projetos de lei antiambientais, mas não tem força política para persuadir o Congresso a votar a favor deles.”

O governo Lula não só está em minoria no Congresso, como também tem menos poder de negociação do que os governos brasileiros anteriores. Nos últimos anos, os parlamentares têm conquistado maior controle sobre o orçamento federal, uma ferramenta fundamental de negociação política.

O agronegócio, um dos setores econômicos mais poderosos do Brasil, também detém a maioria no Congresso e impulsionou medidas que enfraquecem as proteções ambientais. Como resultado, o Supremo Tribunal Federal (STF) surgiu como um mecanismo de controle do Congresso, ajudando a preservar partes da agenda ambiental de Lula quando os parlamentares pressionam na direção oposta.

O gabinete do chefe de gabinete do presidente, que coordena as relações do governo com o Congresso, afirmou em comunicado à Associated Press que não comentaria casos pendentes no Supremo Tribunal.

O Brasil é o maior produtor mundial de soja e carne bovina. Embora a maior parte da carne bovina brasileira seja consumida internamente, a maior parte da soja é exportada. De janeiro a julho de 2026, a China, maior parceiro comercial do Brasil, comprou 50% das exportações de carne bovina e 70% das exportações de soja do país, segundo dados oficiais de comércio exterior.

A Frente Agrícola Parlamentar não respondeu ao pedido de comentário. Grupos do agronegócio afirmam há tempos que se opõem ao desmatamento ilegal e apontam para o aumento da produtividade agrícola, mesmo com a redução do desmatamento.

Proteger a floresta tropical é fundamental para combater as mudanças climáticas . A Amazônia ajuda a regular o clima e os padrões de chuva, além de armazenar vastas quantidades de carbono que, se liberadas, poderiam acelerar ainda mais o aquecimento global.

Na sexta-feira, o Supremo Tribunal Federal do Brasil começou a analisar as moções finais que buscavam esclarecimentos sobre uma decisão de 2025 que rejeitou a tese do “Marco Temporal”, uma teoria jurídica apoiada pela bancada do agronegócio que restringiria as reivindicações territoriais indígenas aos territórios que eles ocupavam ou que estavam sob disputa judicial quando a Constituição entrou em vigor em 5 de outubro de 1988.

Os defensores da medida afirmam que o prazo final oferece segurança jurídica aos proprietários de terras. Grupos indígenas argumentam que ele ignora décadas de expulsões e deslocamentos forçados, particularmente durante a expansão agrícola do Brasil no século XX.

Os juízes estão analisando as moções apresentadas pelo governo, partidos políticos, agricultores e organizações indígenas, com votações previstas para 18 de agosto. Entre outras questões, espera-se que abordem as regras de indenização e os possíveis prazos para a conclusão da demarcação de terras indígenas.

Ricardo Terena, advogado da organização de defesa dos direitos indígenas Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, afirmou que algumas das propostas poderiam efetivamente paralisar futuras demarcações, adicionando entraves administrativos e ampliando os direitos de indenização para ocupantes não indígenas, permitindo que permaneçam em terras disputadas até que o pagamento seja efetuado.

Segundo a organização sem fins lucrativos Survival International, os Kawahiva remanescentes são caçadores-coletores nômades que sobreviveram a ataques e doenças e continuam evitando o contato com pessoas de fora.

Na quarta-feira, o Supremo Tribunal Federal do Brasil também deverá analisar outros dois conjuntos de casos importantes: leis estaduais que levaram ao fim da moratória da soja e uma nova lei de licenciamento ambiental que acelerou a aprovação de projetos de infraestrutura estratégicos.

Em janeiro, as principais empresas de comércio de grãos se retiraram da moratória da soja, um pacto de quase 20 anos creditado por reduzir o desmatamento da Amazônia ao proibir o cultivo de soja em terras desmatadas. O acordo ruiu depois que os principais estados produtores de soja aprovaram leis revogando os benefícios fiscais para as empresas participantes. O juiz Flávio Dino emitiu uma liminar suspendendo temporariamente a legislação estadual, e o tribunal pleno agora analisará sua decisão.

Também nesta quarta-feira, o tribunal deverá analisar uma contestação à nova lei de licenciamento ambiental que entrou em vigor em fevereiro. A lei agiliza a emissão de licenças para projetos de grande impacto, incluindo minas, rodovias e instalações industriais.

Araújo, do Observatório do Clima, afirmou esperar que a Suprema Corte derrube pelo menos as disposições da lei que os ambientalistas consideram mais claramente inconstitucionais, incluindo aquelas que permitem a autolicenciamento para projetos com impactos ambientais moderados. Ela acrescentou que a lei já está tendo consequências tangíveis na Amazônia, citando a pavimentação de uma rodovia controversa e os planos de dragagem de um importante rio sem a devida avaliação ambiental prévia.

O Ministério do Meio Ambiente defendeu a moratória da soja, afirmando que ela ajudou a reduzir o desmatamento na Amazônia, mesmo com a expansão da produção brasileira. Sobre a lei de licenciamento ambiental, o ministério disse que o governo tentou vetar as disposições consideradas problemáticas e que continua preocupado em manter os padrões mínimos nacionais.

“O Brasil precisa de um sistema de licenciamento ambiental mais eficiente, previsível, tecnicamente robusto e capaz de enfrentar os desafios de uma economia que precisa expandir os investimentos em infraestrutura, ao mesmo tempo que enfrenta as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade”, afirmou o ministério.

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Gabriela Sá Pessoa  trabalha como correspondente da Associated Press na região da Amazônia brasileira. Ela reside em São Paulo, Brasil.