Amazônia perdeu 9,7% de sua vegetação natural em 37 anos

Os dados mais recentes do MapBiomas Amazônia reforçam a necessidade de uma ação internacional integrada para reverter a atual tendência de destruição que, se persistir, levará o bioma além de seu ponto sem retorno até o final desta década

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Em 1985, apenas 6% (cerca de 50 milhões de hectares) da Amazônia haviam sido transformados em áreas antrópicas, como pastagens, lavouras, garimpos ou áreas urbanas. Em 2021, essa área quase triplicou, chegando a 15% (quase 125 milhões de hectares) de toda a região. Foi uma perda líquida de quase 10% de sua vegetação natural em apenas 37 anos. A magnitude da destruição varia de um país para outro: no Suriname, na Guiana e na Guiana Francesa é de apenas 1,6%, mas no Brasil chega a 19%. Esse percentual está muito próximo do ponto de inflexão ou ponto sem retorno, calculado pelos cientistas na faixa entre 20% e 25% de perda da cobertura vegetal. Se a tendência atual verificada pelo MapBiomas Amazônia continuar, o bioma, que é um sumidouro de carbono de importância planetária, chegará a um ponto sem volta, afetando irreversivelmente seus serviços ecossistêmicos, e poderá se tornar uma savana.

As geleiras dos Andes amazônicos, que fornecem água para milhões de pessoas e alimentam as nascentes dos grandes rios da região, perderam 46% de seu gelo no período analisado. A atividade minerária expandiu-se 1107% (mais de 1.000 por cento, passando de 47 mil hectares em 1985 para mais de 570 mil hectares em 2021).

Como foi feita a medição em uma região tão heterogênea?

Os dados são resultado da Coleção MapBiomas Amazônia 4.0, iniciativa resultante da colaboração entre a RAISG (Rede Amazônica de Informações Socioambientais Georreferenciadas) e a Rede MapBiomas. A iniciativa mapeia com resolução de 30 metros a dinâmica, há mais de três décadas, de 18 classes diferentes de cobertura e uso do solo, como florestas, savanas, manguezais, áreas agrícolas, áreas urbanas, mineração e geleiras, dentro dos 8,4 milhões de km2 da região amazônica, que inclui a Cordilheira dos Andes, a planície amazônica e as transições com o Cerrado e o Pantanal.

Os resultados serão apresentados no dia 2 de dezembro no auditório da Embaixada do Brasil em Lima, com transmissão ao vivo pelo canal da RAISG no Youtube, às 9h. Peru, Equador e Colômbia; 10:00 Bolívia e Venezuela; 11:00 Brasil.

Transformação acelerada das florestas amazônicas

Os resultados das análises preliminares revelam uma transformação acelerada das florestas amazônicas. Segundo os autores, as perdas têm sido enormes, praticamente irreversíveis e sem perspectiva de reversão dessa tendência. Os dados acendem a luz amarela e dão um sentido de urgência à necessidade de uma ação internacional integrada, decisiva e contundente.

“A Coleção MapBiomas Amazônia 4.0 é inestimável para o entendimento da dinâmica de uso dos recursos naturais da região, além de contribuir para a modelagem climática e o cálculo das emissões e remoções de gases de efeito estufa devido às mudanças no uso do solo na região.” , disse Tasso Azevedo, Coordenador Geral do MapBiomas. Beto Ricardo, coordenador geral da RAISG, acrescenta que as informações geradas pelo MapBiomas Amazônia fortalecem a Rede com dados técnico-científicos, mensagens-chave sobre a importância da Amazônia, sua grande contribuição para o mundo na regulação do clima e armazenamento de carbono, ao tempo que alerta sobre as mudanças na cobertura natural causadas por diferentes atividades antrópicas realizadas entre 1985 e 2021. Ricardo destaca que essas atividades colocam em risco o equilíbrio natural dos ecossistemas e, com ele, a estabilidade do clima do planeta. “Publicar a Coleção 4.0 do MapBiomas Amazônia nos permite contribuir com o monitoramento da região com uma visão integral, ajudando-nos a construir e propor estratégias de conservação mais precisas com propostas e informações políticas compartilhadas entre outros países, bem como aspectos socioambientais da grande importância”.

Para María Olga Borja, coordenadora técnica do Equador, esses mapas representam uma grande contribuição para a região e para seu país: “O Equador não tem uma análise temporal tão detalhada. A periodicidade anual destes dados permite-nos medir o pulso das alterações que os ecossistemas estão sofrendo, algumas causadas diretamente pelas atividades humanas, como a conversão das florestas para a agricultura, mas outras que já apresentam sinais evidentes e mensuráveis ​​das alterações climáticas, como a redução de geleiras e a expansão de lagos devido ao degelo, entre outros”.

Os autores destacam o contraste entre a dinâmica acelerada de mudança do uso da terra ocorrida na Amazônia no período estudado, e particularmente nos últimos trinta anos, com a lentidão que caracteriza o ritmo das negociações climáticas, que nas quase três décadas desde a primeira cúpula do clima fizeram progressos modestos.

Para Harlem Mariño, coordenador de um projeto sobre mudanças climáticas liderado pela RAISG, a falta de acordos definitivos na COP27 sobre questões-chave para a mitigação das mudanças climáticas, como o abandono progressivo do uso de todos os combustíveis fósseis, terá repercussões na Amazônia: “Isso significa que as emissões de gases de efeito estufa provenientes do uso de combustíveis fósseis continuam pressionando os sumidouros de carbono, como a floresta amazônica. Além disso, essa falta de acordos pode implicar na continuidade do fomento às atividades de exploração de combustíveis fósseis na Amazônia, com a consequente redução da disponibilidade de sumidouros de carbono e o aumento das emissões de gases de efeito estufa decorrentes da mudança de uso da terra e a consequente queima desses combustíveis fósseis”, observa Mariño.

Sobre a Plataforma MapBiomas Amazônia 

A plataforma MapBiomas Amazônia é uma ferramenta que permite a qualquer pessoa com acesso à Internet entender as mudanças no uso da terra em toda a Amazônia e as pressões sobre suas florestas e ecossistemas naturais. A informação gerada é compatível para todos os países da região e permite conhecer a situação de 18 categorias de análise, denominadas “classes”, que incluem áreas cobertas por florestas, campos naturais, manguezais, agricultura e rios. As informações são gratuitas e estão disponíveis para download.

Ela permite explorar a mais recente coleção de mapas anuais, abrangendo o período entre 1985 e 2021, e identificar mudanças na cobertura e uso da terra em um local (regional, nacional e local) e um período (ano, quinquênio, décadas, etc.) determinado. A ferramenta também apresenta estatísticas em tabelas e gráficos dinâmicos, com as mudanças de uso no período que o usuário requer e permite entender a dinâmica das mudanças dentro e fora de um Território Indígena ou Área Protegida. A plataforma permite ainda explorar dados relacionados a vetores de pressão em coberturas naturais como concessões de mineração, lotes de petróleo, estradas e usinas hidrelétricas.

Sobre o MapBiomas Amazônia

MapBiomas Amazônia é uma iniciativa liderada pela RAISG com o apoio da Rede MapBiomas. A Primeira Coleção (2000 — 2017) foi publicada em 2019; 2020 trouxe a Segunda Coleção (1985 — 2018); em setembro de 2021 foi o lançamento da Terceira Coleção (1985 — 2020). A Quarta Coleção abrange o período de 1985 a 2021.

Inicialmente, a ferramenta de mapdeseamento de uso da terra foi desenvolvida pelo MapBiomas para ser aplicada no Brasil e foi necessário aprimorá-la com a contribuição de organizações associadas à RAISG para adequar os resultados e análises à geografia de cada país. Desta forma, o conhecimento existente a nível local permite melhorar a ferramenta e refinar a interpretação dos dados. O método utilizado nos permitiu padronizar os biomas incluídos na análise, de modo que os nove países amazônicos compartilham o Bioma Amazônia, enquanto Peru, Equador e Bolívia também compartilham o Bioma Andino.

MapBiomas Amazônia leva em consideração as variações altitudinais típicas da Amazônia andina, que vão desde as geleiras andinas até as formações florestais das planícies amazônicas.

Sobre a Raisg

A RAISG é a Rede de Informação Socioambiental Georreferenciada da Amazônia, um consórcio de organizações da sociedade civil de países amazônicos voltado para a sustentabilidade socioambiental da Amazônia, com o apoio da cooperação internacional. A RAISG gera e dissemina conhecimento, dados estatísticos e informações socioambientais geoespaciais sobre a Amazônia, elaboradas com protocolos comunitários para todos os países da região; facilita a visualização da Amazônia como um todo, bem como das ameaças e pressões que pesam sobre ela. A RAISG é resultado da cooperação de oito organizações da sociedade civil que atuam em seis países amazônicos: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela.

Sobre o MapBiomas

O MapBiomas surgiu no Brasil como uma iniciativa multiinstitucional que reúne universidades, ONGs e empresas de tecnologia que se unem para contribuir com o entendimento das transformações do território brasileiro a partir do mapa anual de cobertura e uso da terra no Brasil. Atualmente, esta rede reúne mais de 70 instituições da América Latina e Indonésia em 7 iniciativas e 14 países comprometidos com a geração de dados, métodos, ferramentas e informações que orientem a conservação e a tomada de decisões em torno dos recursos naturais. Em agosto de 2021, o MapBiomas publicou a Coleção 7 de mapas de cobertura e uso da terra de solo do Brasil de 1985 a 2021. As ferramentas desenvolvidas pela rede MapBiomas para todas as suas iniciativas apresentam informações geradas com resolução espacial de no mínimo 30 metros. Os dados são processados ​​usando algoritmos de classificação automática por meio das informações da nuvem do Google Earth Engine. Clique aqui para acessar o site do MapBiomas.

Estudo mostra que JBS, Marfrig e Minerva dificilmente terão como cumprir a futura lei de desmatamento da União Europeia

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Por Chain Reaction Research

O próximo Regulamento de Desmatamento da UE terá um impacto na JBS, Minerva e Marfrig. Uma amostra de 12.461 fornecedores diretos e 26.572 indiretos desses principais frigoríficos mostra o desmatamento recente que pode acabar nos mercados de consumo de carne bovina e couro da União Européia (UE). Qualquer desmatamento após a data limite proposta de 31 de dezembro de 2020 não estaria em conformidade com a futura lei.

Baixe o PDF aqui: JBS, Marfrig e Minerva Improvavelmente em conformidade com a futura lei de desmatamento da UE

Principais conclusões

  • Os frigoríficos JBS, Marfrig e Minerva precisarão cumprir o próximo Regulamento de Desmatamento da UE assim que for aprovado e implementado. Esses frigoríficos dominam a pecuária brasileira e são os principais exportadores de carne bovina congelada e produtos de couro para a UE. Para exportar para a UE, suas cadeias diretas e indiretas de fornecimento de gado não podem ser associadas ao desmatamento legal ou ilegal, após a data-limite de dezembro de 2020.
  • Uma amostra de seus fornecedores fornece informações sobre os hotspots de produção de carne bovina brasileira ligados ao mercado da UE. A JBS é a compradora dominante de gado em todos os sete estados brasileiros incluídos na amostra, enquanto as zonas compradoras da Marfrig e Minerva estão concentradas em menos estados. Para todos os três frigoríficos, sua base de fornecedores indiretos no estado do Pará, com alto risco de desmatamento, é quase o dobro em comparação com a base de fornecedores diretos.
  • O CRR encontrou conversão de 72.663 hectares (ha) na amostra desde a data limite. Potencialmente, 65.969 ha da Amazônia e 6.694 ha de alertas de desmatamento do Cerrado vinculados aos fornecedores dos três frigoríficos podem não estar em conformidade com a futura lei da UE.
  • O desmatamento ligado a fornecedores indiretos é altamente prevalente. Os fornecedores indiretos são um risco, pois o monitoramento dos frigoríficos de suas cadeias de suprimentos indiretos mostra lacunas e atrasos, e é improvável que estejam prontos para a esperada implementação da lei da UE a partir de 2023.
  • Uma vez que os frigoríficos não monitoram todo o fornecimento indireto, eles não podem garantir o cumprimento da futura lei de desmatamento da UE. Assim, frigoríficos, operadores de couro e FMCGs podem enfrentar riscos legais e reputacionais. Os frigoríficos JBS e Minerva monitoram apenas o desmatamento ilegal vinculado a seus fornecedores, enquanto a próxima Lei também considerará o desmatamento legal brasileiro como não conforme. A Marfrig se comprometeu com o desmatamento zero, inclusive legal.
  • As despesas de devida diligência nas cadeias de carne bovina e couro da UE são relativamente baixas no contexto de riscos financeiros mitigados para os setores relevantes.Em contraste, os financiadores da JBS, Marfrig e Minerva podem enfrentar os maiores riscos de valor (9,5-19%).

Regulamento de desmatamento da UE afetará importações de gado do Brasil

UE importa principalmente carne bovina congelada e produtos de couro do Brasil

Entre os países não pertencentes à UE, o Brasil, um país com alto risco de desmatamento, é o principal fornecedor de carne bovina congelada, couros e peles bovinas curtidas ou crostadas e couro bovino preparado para a UE

As importações de carne bovina e produtos relacionados à carne de origem não pertencente à UE representam apenas uma pequena parcela do consumo europeu. Mas entre eles, o Brasil desempenha um papel principal como fornecedor de carne bovina congelada e ainda mais de produtos de couro bovino para a UE (Figura 1). Tanto a produção de carne quanto a de couro são os principais motores do desmatamento no Brasil. A pecuária está causando o maior desmatamento na Amazônia brasileira, uma área que registrou um novo recorde de perda de floresta durante o primeiro semestre de 2022. Em 2021, a UE adquiriu52 por cento (37.147 toneladas métricas, MT) de suas importações totais de carne bovina congelada do Brasil, bem como 28 por cento (87.344 MT) de suas importações totais de couros e peles curtidos (wet blue) ou crust, e 30 por cento (12.029 MT ) das suas importações totais de couro preparado.

Figura 1: Importações totais da UE em 2021 de produtos pecuários de países não pertencentes à UE, por volume e valor, em verde, predominantemente originários do Brasil

Fonte: estatísticas comerciais da UE27 , 2021, avaliadas em outubro de 2022; Projeto de proposta da Comissão Europeia Notas: Esses produtos representam produtos relacionados ao gado sob o escopo do Regulamento de Desmatamento da UE. Os produtos destacados em verde são predominantemente originários do Brasil. Miudezas comestíveis de bovinos incluem os códigos do Sistema Harmonizado (SH) 020610, 020629 e 020622.

JBS, Marfrig e Minerva são as mais impactadas pela Lei de Desmatamento da UE

Três principais frigoríficos, JBS, Marfrig e Minerva, são os principais exportadores para a UE e dominam a indústria brasileira de gado e a produção de carne bovina e produtos de couro bovino

A JBS é a maior empresa de proteína animal e a segunda maior empresa de alimentos do mundo. A Marfrig é a segunda maior empresa de carne bovina do mundo em capacidade de produção, enquanto a Minerva é uma empresa de carne bovina voltada para a exportação. JBS, Minerva e Marfrig são os maiores exportadores brasileiros de carne bovina congelada para a UE (Figura 2) e estão entre os maiores curtumes brasileiros que fornecem couros e peles curtidas (wet blue) ou crust para o mercado da UE (Figura 3). Para couro preparado, apenas a JBS desempenha um papel direto como principal exportador para a UE (Figura 4). Além disso, matadouros de outros frigoríficos fornecem indiretamente couros e peles para produtores de couro que exportam couro preparado para a UE. Por exemplo, os curtumes dos produtores de couro Durlicouros e Viposa provavelmente obtêm matérias-primas dos matadouros próximos da Marfrig.

Com 63,7% de todas as importações de carne bovina congelada da UE em 2020, a Itália representa o maior destinatário da carne bovina congelada brasileira, seguida pela Holanda (22,1%), Espanha (8,6%) e Alemanha (4,6%). O principal destino europeu de couros e peles bovinas curtidas (wet blue) ou crust do Brasil em 2020 é a Itália (97,7%), que possui uma grande indústria de processamento de couro. Os principais países de destino da Europa para couro bovino do Brasil mais preparado em 2020 incluem Itália (45,7%), Alemanha (29,9%), Holanda (9,1%) e Hungria (8,4%).

Figura 2: Os 10 maiores exportadores brasileiros de carne bovina congelada para a UE (2020)

Fonte: Dados de remessa 2020, com base no código HS 0202. A Prima Foods inclui exportações sob Mataboi.

Figura 3: Os 10 maiores exportadores brasileiros de couros e peles bovinas curtidas ou crust para a UE (2020)

Fonte: Dados de remessa 2020, com base no código HS 4104.

Figura 4: Os 10 maiores exportadores brasileiros de couro bovino preparado para a UE (2020)

Fonte: Dados de remessa 2020, com base no código HS 4107.

Os três frigoríficos precisarão cumprir o próximo Regulamento de Desmatamento da UE, que visa conter o desmatamento legal e ilegal e a degradação florestal resultante do consumo e produção da UE

A proposta de regulamento da Comissão Europeia define “sem desmatamento” como commodities e produtos relevantes que foram produzidos em terras que não foram sujeitas a desmatamento desde 31 de dezembro de 2020 e madeira que foi colhida de florestas sem induzir “degradação florestal” após dezembro 31 de janeiro de 2020. Essa data limite ainda está em discussão . Os produtos de carne bovina e de couro se enquadram no escopo do Regulamento. Um dos pontos centrais do Regulamento é a rastreabilidade total da cadeia de suprimentos das commodities e produtos listados com risco de desmatamento, exigindo que os operadores de carne bovina e couro forneçam informações geográficas ligando commodities e produtos ao local exato de produção. Um relatório recente do CRR concluiu que, embora alguns desafios permaneçam, o requisito de rastreabilidade do Regulamento de Desmatamento da UE é viável nas cadeias de abastecimento de gado brasileiras usando sistemas e ferramentas existentes.

Hotspots de produção de carne bovina dos frigoríficos

Novos dados sobre fornecedores diretos e indiretos dos três frigoríficos fornecem informações sobre as localizações exatas dos hotspots de produção de carne bovina no Brasil, conforme visualizado na Figura 5

Isso é relevante sob o requisito de rastreabilidade do Regulamento de Desmatamento da UE. Para compor a amostra de 12.461 fornecedores diretos e 26.572 indiretos dos três frigoríficos, a CRR utilizou uma metodologia semelhante, com alguns ajustes, conforme utilizamos em nosso paper de 2020 sobre os três frigoríficos . As principais mudanças incluem 1) aumentar significativamente a amostra usando novas técnicas de análise e 2) usar alertas de desmatamento ( DETER ), incluindo desmatamento por incêndio, nesta análise, em oposição aos dados de desmatamento processados ​​anualmente ( Prodes), geralmente resultando em áreas maiores detectadas com desmatamento . Consequentemente, os dados de desmatamento do relatório de dezembro de 2020 e da análise atual não são comparáveis, pois a amostra é diferente e as taxas de desmatamento são calculadas de forma diferente.

Figura 5: Localização dos fornecedores diretos (esquerda) e indiretos (direita) para JBS, Minerva e Marfrig

Fonte: AidEnvironment, mapas de calor são criados com QGIS , e com base em dados do Ministério da Agricultura e licenças de transporte de animais (GTA). Quanto mais vivas as cores, maior a concentração de fornecedores diretos e indiretos na amostra.

Com base no transporte de animais e dados cadastrais rurais, o CRR localizou e monitorou 12.461 fornecedores diretos e 26.572 indiretos conectados aos três principais frigoríficos em sete estados dos biomas Amazônia e Cerrado do Brasil

Esses números representam uma amostra parcial do total de fornecedores para JBS, Minerva e Marfrig. Por exemplo, a amostra com 6.556 fornecedores diretos para os frigoríficos da JBS (Figura 6) cobre apenas 13% da base de fornecimento total estimada da empresa de 50.000 fornecedores diretos. Minerva diz ter mais de 6.000 fornecedores no Brasil; a amostra de 2.820 cobriria 47% de seus fornecedores diretos. Em 2020, a Marfrig diz ter 15.000 fornecedores diretos cadastrados no Bioma Amazônia e estima ter potencialmente 25.000 fornecedores indiretos no total somente no bioma amazônico. A amostra de 3.085 fornecedores diretos e 7.132 fornecedores indiretos cobriria, respectivamente, 21 e 29 por cento. Nenhum dos três frigoríficos divulga informações claras sobre os valores totais de seus fornecedores diretos e indiretos. Uma razão para não publicar as informações pode ser que esses números não sejam conhecidos por eles.

Figura 6: Características da amostra: zonas de compra da JBS, Marfrig e Minerva por estado brasileiro

Fonte: AidEnvironment, com base em dados do cadastro rural (SIGEF e SNCI), Ministério da Agricultura , licenças de transporte de animais (GTA). MT = Mato Grosso; MG = Minas Gerais; RO = Rondônia; MS = Mato Grosso do Sul; GO = Goiás; PA = Pará; TO = Tocantins. *Para Rondônia, os números podem representar uma pequena superestimação devido a algumas limitações de dados. Para mais explicações, os autores do CRR podem ser contatados.

A JBS é a compradora dominante de gado em todos os sete estados brasileiros incluídos na amostra, enquanto as zonas compradoras da Marfrig e Minerva estão concentradas em menos estados

A maioria dos fornecedores diretos da JBS está no Mato Grosso (46% do total da amostra), mas, no geral, a empresa possui fornecedores diretos espalhados pelos sete estados brasileiros (Figuras 5 e 6). Em contraste, Minerva e Marfrig parecem ter suas zonas de compra mais concentradas em alguns estados. A Marfrig tem relativamente poucos (ou nenhum) fornecedores diretos no Pará, Minas Gerais e Tocantins na amostra, enquanto o Minerva tem uma base de fornecedores diretos nesses estados. Em comparação com Minerva e JBS, o frigorífico Marfrig tem uma base maior de fornecedores diretos no Mato Grosso do Sul (figuras 5 e 6).

Os riscos de desmatamento ligados à base de abastecimento indireto dos frigoríficos são mais relevantes no Pará, um estado da Amazônia brasileira

A amostra revela que, para todos os três frigoríficos, sua base de fornecedores indiretos no Pará é, na maioria dos casos, mais que o dobro de sua base de fornecedores diretos (Figura 6). A maior base de fornecedores indiretos é um risco, uma vez que o monitoramento dos frigoríficos em suas cadeias de suprimentos indiretos mostra lacunas e atrasos significativos. Da mesma forma, em Rondônia, as bases de fornecedores indiretos da Marfrig e da Minerva são pelo menos o dobro de seus fornecedores diretos. Por outro lado, todos os três frigoríficos têm relativamente poucos fornecedores indiretos localizados em Minas Gerais (Figuras 5 e 6). Uma possível explicação é que Minas Gerais opera principalmente na etapa final da cadeia (abate) e não na fase de engorda, caracterizada pelo envolvimento de muitas propriedades fornecedoras indiretas. Essa explicação é corroborada pela concentração dos frigoríficos dos três frigoríficos no triângulo Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso do Sul (Figura 5).

A amostra também revela focos de produção e domínio dos frigoríficos nos municípios brasileiros

Esses municípios podem se tornar uma prioridade para demonstrar conformidade com a futura Lei de Desmatamento da UE. A amostra mostra, por exemplo, que todos os três frigoríficos adquirem carne bovina de um número significativo de fazendas em Cáceres, no Mato Grosso (Figura 7). Enquanto parte desse município já está desenvolvido, a parte sudeste ainda é coberta por vegetação nativa e, portanto, sob risco de desmatamento. Além disso, Parnaíba no Mato Grosso do Sul abriga a maioria das fazendas fornecedoras da Marfrig na amostra, enquanto Minerva, além de Cáceres, concentra principalmente as fontes de Rio Branco no Mato Grosso e Araguaína no Tocantins. Por fim, a Vila Bela da Santíssima Trindade, no Mato Grosso, acomoda um grande número de fornecedores diretos para os três frigoríficos.

Figura 7 : Top 10 municípios da amostra com mais fornecedores diretos para JBS, Marfrig e Minerva

Fonte: AidEnvironment, com base em dados cadastrais rurais (SIGEF e SNCI), Ministério da Agricultura , licenças de transporte de animais (GTA), e com base na amostra. Observação: a tabela “Municípios com fazendas fornecedoras para vários frigoríficos” é baseada nos 20 principais municípios fornecedores de cada frigorífico.

Enquanto quase 80 por cento dos fornecedores diretos na amostra fornecem apenas um dos três frigoríficos, os fornecedores indiretos tendem a fornecer mais regularmente todos os três frigoríficos de uma vez (Figura 8 abaixo)

Dos 12.461 fornecedores diretos da amostra, 79% vendiam para apenas um dos três frigoríficos, 19% forneciam para dois frigoríficos e apenas 2% para os três frigoríficos. Dos fornecedores indiretos da amostra, 37% vendiam para apenas um dos três frigoríficos, 53% forneciam para dois frigoríficos e 10% para os três frigoríficos.

Figura 8 : Localização dos fornecedores diretos e indiretos que atendem aos três frigoríficos

Fonte: AidEnvironment, com base em dados do cadastro rural (SIGEF e SNCI), Ministério da Agricultura , licenças de transporte de animais (GTA).

Conversão significativa desde 2020, data-limite do Regulamento de Desmatamento da UE

Potencialmente 65.969 ha de Amazônia e 6.694 ha de Cerrado são de desmatamento não conforme

Considerando a data limite proposta de 31 de dezembro de 2020, a análise do CRR revela que potencialmente 65.969 ha de desmatamento da Amazônia e alertas de incêndio vinculados a fornecedores dos três frigoríficos da amostra podem não estar em conformidade com a futura Lei de Desmatamento da UE

A perda de vegetação amazônica está conectada a fornecedores diretos e indiretos de todos os três frigoríficos desde a data proposta de corte do Regulamento de Desmatamento da UE (31 de dezembro de 2020) (Figura 9). O desmatamento detectado corrobora outros estudos que mostram que o desmatamento na Amazônia está aumentando e que o desmatamento relacionado à carne bovina continua vindo de áreas protegidas na Amazônia.

A área de desmatamento identificada abrange o desmatamento legal e ilegal de acordo com a legislação brasileira, ambos os quais não estarão em conformidade com o Regulamento de Desmatamento da UE

O desmatamento que é legal sob a lei brasileira se tornará incompatível com o Regulamento de Desmatamento da UE. A área desmatada de 65.969 ha pode ser uma superestimativa, pois se baseia em dados ainda não confirmados ( DETER) alertas de desmatamento. Por outro lado, a área de desmatamento estimada é conservadora, pois a amostra da CRR cobre apenas uma pequena proporção de todos os fornecedores diretos e indiretos ligados aos três frigoríficos. Ao considerar toda a base de abastecimento dos três principais frigoríficos, a CRR estima que as taxas de desmatamento ligadas aos fornecedores dos frigoríficos JBS, Marfrig e Minerva aumentarão. Essa estimativa não denuncia práticas ilegais dos três frigoríficos, uma vez que parte do desmatamento, principalmente no bioma Cerrado, seria legal no âmbito do Código Florestal Brasileiro.

Figura 9: Alertas de desmatamento (ha) em amostra vinculada a fornecedores dos frigoríficos JBS, Marfrig e Minerva de 31 de dezembro de 2020 a julho de 2022

Fonte: AidEnvironment, com base nos alertas de desmatamento do DETER 2022; SIGEF, SNCI, registros 2022 GTA. Nota: Os alertas de desmatamento do DETER 2022 ainda não estão confirmados, portanto, as taxas de desmatamento atreladas a esta amostra podem estar superestimadas. *Nem toda a vegetação nativa do Cerrado (por exemplo, pastagens) está sob o escopo da proposta de Regulamento de Desmatamento da UE.

A amostra demonstra que os fornecedores da Amazônia para os três frigoríficos são responsáveis ​​por mais desmatamento desde 31 de dezembro de 2020 do que os fornecedores do Cerrado

Existem múltiplas explicações para o aumento do desmatamento na Amazônia. Primeiro, observado as taxas de desmatamento no bioma Amazônia aumentaram desde 2019, como resultado de um novo mandato de governança brasileira e ações não favoráveis ​​para combater o desmatamento ou melhorar a conservação da floresta. Em segundo lugar, a nova análise neste relatório inclui o desmatamento por incêndios, com picos de incêndios aumentando consideravelmente na Amazônia nos últimos três anos. As áreas desmatadas por queimadas no pico da temporada de queimadas (aproximadamente do início de agosto ao final de outubro) nem sempre são captadas por análises de satélite no ano seguinte, pois a vegetação já havia voltado a crescer no momento da confirmação dos alertas de desmatamento do Prodes.

No Cerrado, a remoção de 6.694 ha de floresta e savana arborizada pode não estar em conformidade com a futura legislação da UE 

Do total de 15.213 ha de vegetação de Cerrado derrubada em propriedades de fornecedores diretos e indiretos dos três frigoríficos (Figura 9), cerca de 44 %  (6.694 ha) podem não estar em conformidade com o Regulamento de Desmatamento da UE. O âmbito de aplicação do Regulamento inclui os ecossistemas florestais e florestais. Em 2021, o uso da terra no bioma Cerrado mostrou que 14% da vegetação nativa era floresta, 30% savana arborizada e 9% outra vegetação não florestal (ou seja, pastagem).

Desmatamento ligado a fornecedores indiretos de JBS, Minerva e Marfrig mais prevalente

A maior parte do desmatamento calculado pode ser atribuída à base de fornecedores indiretos dos três frigoríficos

Na amostra, os alertas de desmatamento são pelo menos quatro vezes maiores na base de fornecedores indiretos dos três frigoríficos combinados (65.712 ha) em comparação com os fornecedores diretos (15.470 ha) (Figura 9). Além disso, 19 por cento (15.255 ha) dos alertas de desmatamento podem ser atribuídos a fornecedores indiretos que abastecem todos os três frigoríficos, em comparação com apenas 1,5 por cento (1.000 ha) dos alertas de desmatamento na amostra de fornecedores que podem estar vinculados a fornecedores diretos que atendem os três frigoríficos simultaneamente. Esta discrepância confirma que os riscos de desmatamento nas cadeias de suprimentos indiretos são maiores e acrescenta que os fornecedores indiretos vinculados ao desmatamento com mais regularidade tendem a abastecer os três frigoríficos de uma só vez.

Dentro da amostra, a JBS está mais exposta ao desmatamento, tanto em números absolutos quanto relativos, em comparação com as taxas vinculadas à Marfrig e à Minerva

Mas o menor número de fornecedores de Minerva e Marfrig incluídos na amostra pode explicar parte dessa diferença. Os alertas de desmatamento na base de fornecedores indiretos da JBS são mais de três vezes o tamanho de sua base de fornecedores diretos, mas para a Marfrig esse número é mais de sete vezes maior e para a Minerva mais de oito vezes (Figura 9).

Riscos legais e de reputação por violação do Regulamento de Desmatamento da UE

Como os frigoríficos não monitoram todos os seus fornecedores indiretos, eles não podem garantir a conformidade com o próximo Regulamento de Desmatamento da UE

Em particular, os alertas de alto desmatamento desde a data limite de dezembro de 2020 nas cadeias de abastecimento indiretas da JBS, Marfrig e Minerva levantam preocupações sobre o cumprimento da Lei da UE e a conservação das florestas em geral. Embora os frigoríficos tenham feito progressos na conformidade nas cadeias de abastecimento diretas, eles mostraram pouco progresso no monitoramento da cadeia de abastecimento indireta. Os prazos para alcançar a transparência total da cadeia de suprimentos, incluindo as cadeias de suprimentos indiretas – o mais cedo em 2025 ou o mais tardar em 2035— estão fora do ritmo da implementação da Lei de Desmatamento da UE. A Lei provavelmente entrará em vigor em 2023, com a maioria dos requisitos aplicáveis ​​um ou dois anos depois.

Os frigoríficos JBS Minerva monitoram apenas o desmatamento ilegal vinculado a seus fornecedores, enquanto a próxima Lei da UE também considerará o desmatamento legal como não conforme

 Esta parte da Lei é particularmente relevante no Cerrado brasileiro, onde, dependendo da localização, 65 a 80 por cento das propriedades podem ser desenvolvidas e desmatadas da vegetação nativa. Com licença ambiental aprovada, o desmatamento dessas propriedades é considerado legal de acordo com o Código Florestal Brasileiro. Em resposta a uma versão preliminar deste relatório, a Minerva afirma que monitora o desmatamento ilegal de 100% de seus fornecedores diretos e confirma sua conformidade com as regulamentações ambientais brasileiras. No entanto, isso não atenderia às próximas restrições de importação da UE que proíbem as importações legais e ilegais de carne bovina e couro relacionadas ao desmatamento, para cadeias de fornecimento diretas e indiretas de gado.

A Marfrig é a única empresa frigorífica comprometida com o desmatamento zero até 2025 (para a Amazônia, 2030 para o Cerrado), tanto para o desmatamento legal quanto para o ilegal. Este compromisso aumenta a probabilidade da empresa eventualmente cumprir o próximo Regulamento. No entanto, a incapacidade da Marfrig de monitorar atualmente todos os seus fornecedores indiretos mostra uma lacuna no cumprimento dos requisitos previstos no Regulamento.

A JBS se comprometeu a atingir o desmatamento zero em toda a sua cadeia de suprimentos global apenas até 2035.

Violar a próxima lei da UE pode implicar riscos legais para os três frigoríficos

O Regulamento prevê a persecução judicial dos infractores através da aplicação de coimas, nomeadamente coimas proporcionais aos danos ambientais causados ​​e exclusão temporária de processos de aprovisionamento. Embora JBS, Marfrig e Minerva sejam grandes fornecedores para o mercado europeu, ainda não está claro qual proporção da carne bovina e do couro produzidos fora de conformidade acaba nas cadeias de suprimentos europeias.

Violar o Regulamento também pode envolver riscos de reputação para frigoríficos, operadores de couro e empresas de bens de consumo de alta rotatividade (FMCGs)

O Parlamento Europeu propôs a publicação de uma lista de operadores e comerciantes que não cumprem o Regulamento de Desmatamento da UE. Se aprovada nas rodadas finais de votação, a lista será disponibilizada pela Comissão Europeia e, sem dúvida, será usada na defesa e potencialmente em litígio por organizações da sociedade civil (OSCs) e instituições de caridade jurídicas, que têm sido fortemente a favor da inclusão de esta lista de empresas não conformes.

Os riscos de reputação para players downstream aumentarão de OSCs que visam principalmente empresas e varejistas downstream conhecidos que usam carne bovina e couro

Em dezembro de 2021, as cadeias de supermercados europeias J Sainsbury, Lidl, Auchan, Ahold Delhaize e Carrefour descartaram produtos de carne bovina originários da JBS no Brasil após alegações de OSCs de ligações com o desmatamento. Outros têm como alvo os fabricantes de automóveis europeus Volkswagen, BMW, Daimler e Renault por usar couro ligado ao desmatamento e originário da JBS, Marfrig e Minerva. O aumento do escrutínio da conformidade dos fornecedores a jusante com o Regulamento de Desmatamento da UE refletiu-se nos  muitos apelos  por uma ambiciosa lei da UE sobre o desmatamento.

Riscos financeiros mitigados para frigoríficos, FMCGs e instituições financeiras

JBS, Marfrig e Minerva podem enfrentar risco de acesso ao mercado, multas e risco de financiamento. As empresas voltadas para o consumidor sediadas na UE e as instituições financeiras sediadas na UE podem ver risco de valor e risco de reputação

Devido ao próximo Regulamento de Desmatamento da UE, os frigoríficos podem enfrentar dificuldades em exportar carne bovina e couro para o mercado da UE. Ser cortado do mercado da UE afetaria as receitas líquidas, o lucro bruto, o EBITDA e o lucro líquido. Se as empresas continuarem exportando, poderão enfrentar multas. O valor da reputação é a categoria de risco que domina a indústria downstream voltada para o consumidor da UE que obtém carne bovina e/ou couro de frigoríficos da América Latina (LatAm) e indiretamente para seus financiadores.

As exportações dos frigoríficos para a UE representam uma pequena parte de suas receitas totais (Figura 10), resultando em um risco de valor para suas ações. As penalidades máximas são uma baixa porcentagem dos lucros globais

Os frigoríficos não fornecem números detalhados para as exportações de carne bovina e produtos de couro, e os números de exportação ocasionalmente se referem a outras áreas além da América Latina. Como resultado, as exportações de produtos de carne bovina e couro da América Latina podem ter um valor menor do que o calculado na linha 3 da Figura 10. A Marfrig é uma grande exportadora para a UE. De sua receita sul-americana, 58% é exportada. Dessas exportações, 18 por cento são enviados para a UE. Exposição de exportação da JBS para a UE é muito menor, sete por cento. No entanto, esse número inclui exportações para a UE de outras unidades da JBS, como o negócio nos Estados Unidos, que não tem problemas de desmatamento. Devido à grande atividade dessas duas empresas no mercado americano, o percentual de receita das exportações latino-americanas para a UE é relativamente baixo. Os negócios globais da Minerva se originam principalmente na América Latina, e sua exposição total às exportações da UE em relação às receitas globais é a mais alta dos três frigoríficos.

Se as empresas enfrentarem restrições para exportar carne bovina e produtos de couro para a UE, elas podem perder lucros. Com base nas margens EBITDA (Earnings Before Interest, Tax, Depreciation and Amortization), a perda de EBITDA anual (1,8 a 5,3 por cento) é a base de cálculo de um número de valor por um período infinito, com base na metodologia de fluxo de caixa descontado. Esse valor seria relativamente alto para a Marfrig quando comparado à sua atual capitalização de mercado (19,0 por cento), mas muito menor para a JBS (9,5 por cento). Além disso, para a JBS, esse número também inclui exportações para a UE de outras regiões e outros produtos além da carne e couro da América Latina. Assim, o número comparável de JBS versus Marfrig e Minerva pode ser ainda menor.

As penalidades para operadores e comerciantes em caso de descumprimento podem ser no máximo de pelo menos 4% do faturamento nos estados membros da UE. Para os frigoríficos, esse valor seria relativamente baixo, de 0,6 a 2,4% do EBITDA global (Figura 10).

Os investidores parecem céticos sobre o fluxo de caixa futuro dos atuais lucros de carne da JBS, Marfrig e Minerva e já podem descontar os ventos contrários à “sustentabilidade”

Esse ceticismo pode ser concluído a partir da baixa avaliação dos frigoríficos: o múltiplo EV/EBITDA está na faixa de 3,4-5X (Figura 10) versus >10 para a maioria das empresas de bens de consumo em rápida evolução. Não há pesquisas com investidores disponíveis para explicar o motivo da falta de confiança nos fluxos de caixa futuros. Os motivos podem incluir exposição a mercados emergentes, vínculos com desmatamento e falta de bem-estar animal, ambiente de lucro volátil, violações de direitos humanos (direitos dos povos indígenas, direitos dos trabalhadores) e falta de boa governança nas empresas.

Figura 10: Exposição dos frigoríficos ao mercado da UE e risco financeiro

Fonte: Profundo, apresentações de resultados das empresas 2021, Bloomberg ; *DCF = Fluxo de Caixa Descontado, assumindo taxa de desconto de 10% e taxa de crescimento de 0%.

Os frigoríficos enfrentam riscos de financiamento, enquanto as instituições financeiras da UE podem enfrentar riscos de reputação

As instituições financeiras da UE ainda não são diretamente afetadas pelo Regulamento de Desmatamento da UE, e eles podem continuar a financiar as operações de carne e couro dos frigoríficos. No entanto, eles podem enfrentar conflitos com suas próprias políticas e compromissos ESG. Além disso, as campanhas da sociedade civil podem levar ao risco de reputação. Consequentemente, as instituições financeiras da UE ficariam cada vez mais hesitantes em continuar financiando frigoríficos, e os custos de capital podem aumentar para JBS, Marfrig e Minerva, impactando seu valor. Os financiadores da UE contribuíram com aproximadamente 15% para financiar os três frigoríficos em 2013-2022. Em títulos e empréstimos corporativos, os financiadores da UE fornecem 31-46 por cento do total. Como porcentagem de seus ativos totais, o total identificado na Figura 11 (USD 2,4 bilhões) é uma parte muito pequena de todos os ativos dos financiadores da UE (somente os ativos bancários já somam US$ 27 trilhões e excluem ações e obrigações).

Figura 11: Financiamento de JBS, Marfrig e Minerva (baseado na região)

Fonte: Profundo, baseado em Forests & Finance ; todos os dados baseados em relações financeiras identificadas em 2013-2022. Muitas vezes, as relações financeiras bilaterais não podem ser identificadas.

FMCGs, varejistas e empresas de fast-food podem enfrentar risco de valor de reputação mitigado

O valor da reputação de uma empresa é baseado nas interações com todas as partes interessadas, incluindo fornecedores, clientes, funcionários, financiadores e investidores. Eles podem se desvincular de empresas voltadas para o consumidor que não são proativas na eliminação de produtos de origem ligados ao desmatamento. Um estudo recente sobre a materialidade dos lucros vinculados à carne bovina e soja (incorporada) da América Latina concluiu que a exposição à carne bovina da América Latina, que é fornecida por FMCGs em parte para suas atividades na UE, é alta para o McDonald’s (6,4 por cento), mas relativamente baixa para a Nestlé (0,001 por cento) e Carrefour (1,1 por cento). Para o Carrefour, a maior parte de seus produtos de carne bovina de origem brasileira é vendida na América Latina. Traduzindo esses números embutidos de exposição à carne bovina da América Latina em um valor de risco de reputação pode significar que até um terço da exposição (para o McDonald’s um terço de 6,4 por cento = 2,1 por cento) pode ser perdido no preço da ação devido ao risco de reputação. Como resultado, os valores de risco de reputação serão relativamente pequenos apenas para carne bovina (se for incluído o fornecimento de farelo de soja embutido da América Latina, os números serão maiores). Como resultado, os valores de risco de reputação serão relativamente pequenos apenas para carne bovina (se for incluído o fornecimento de farelo de soja da América Latina (incorporado), os números serão maiores).

Figura 12: Seleção de empresas com fornecimento de carne bovina da América Latina (2021)   

Fonte: Profundo, com base no relatório “Materialidade Financeira no Fornecimento de Soja e Carne na América Latina”, julho de 2022.

Os setores a jusante na cadeia de couro da UE enfrentam risco de valor de reputação, mas pode ser relativamente pequeno em comparação com o valor total na cadeia de abastecimento

Para o couro, não existe nenhum estudo comparável (como o da carne bovina mencionado no parágrafo anterior). O valor das importações da UE é de EUR 1.422 milhões, principalmente de couro da América Latina (Figura 1). Globalmente, cerca de metade do couro exportado pelo Brasil é utilizado no setor automotivo, enquanto a outra metade é distribuída, em grande parte, nos setores de calçados e estofados.

Setores baseados na UE ativos na cadeia de suprimentos de couro estão financeiramente expostos ao couro brasileiro e podem estar sujeitos a risco de reputação

A exposição financeira pode ser significativa, e o valor pode ser estimado calculando-se a elevação do preço em cada etapa da cadeia de abastecimento do couro importado. Por exemplo, o couro usado em carros primeiro vai de uma empresa de couro italiana para uma empresa de assentos tcheca, e esses assentos são vendidos a um fabricante de automóveis e, em seguida, os revendedores de automóveis vendem os carros aos consumidores/clientes. Todas essas etapas levam a um acúmulo de lucros brutos e lucros operacionais sobre o couro brasileiro embutido. Os financiadores (investidores e bancos) podem se desligar, os funcionários podem ficar mais relutantes em trabalhar para as empresas e os consumidores menos ansiosos para comprar os produtos. O setor automotivo da UE, incluindo fornecedores, representa atualmente 7% do PIB da UE (2021, 14,5 trilhões de euros), ou 1,02 biliões de euros. Supondo que metade do couro brasileiro importado (711 milhões de euros) seja usado na cadeia automotiva da UE, isso totaliza apenas 0,07% da contribuição do setor automotivo ao PIB. Semelhante à carne bovina, o valor das importações brasileiras de couro para o setor automotivo da UE é uma quantidade relativamente pequena do produto final comprado pelos consumidores.

O couro é provavelmente um insumo relativamente maior para outras indústrias (calçados, estofamento) do que para o setor automotivo de 1,02 trilhão de euros. Por exemplo, a indústria de calçado da UE gerou um volume de negócios de 28 mil milhões de euros . Assumindo que 25 por cento da importação de couro brasileiro da UE é usado para calçados (356 milhões de euros), a materialidade financeira desse couro (1,3 por cento das receitas de US$ 28 bilhões) na indústria de calçados é maior do que na automotiva (0,07 por cento; veja acima). Mais de 100 marcas de moda poderiam estar ligadas ao couro brasileiro. Para empresas individuais na cadeia de suprimentos de couro, a exposição financeira ao couro brasileiro embutido pode ser significativa, mas requer pesquisa adicional.

Os riscos financeiros podem ser evitados por meio de despesas de due diligence “factíveis”

Em vários relatórios , o CRR calculou os custos de um investimento na melhor execução da política de desmatamento zero para óleo de palma, carne bovina e soja, incluindo auditoria, monitoramento e verificação. Os benefícios potenciais (por exemplo, proteção do valor da reputação) excedem significativamente esses custos. A análise do CRR mostrou que seria necessário um aumento de preço baixo, de um dígito, para repassar esses custos aos clientes e manter intactos os lucros para os acionistas. Também no couro, o grande porte da indústria automobilística e calçadista versus o valor importado do couro brasileiro corrobora tal análise.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Chain Reaction Research [Aqui!].

Amazônia é o bioma com mais pastagens no Brasil

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Nas últimas duas décadas, a área de pastagem cresceu 40% na Amazônia. No mesmo período, esse tipo de cobertura de solo diminuiu substancialmente na Mata Atlântica (28%) e no Cerrado (10%), onde 10,2 milhões de hectares foram transformados em lavouras temporárias. O avanço das pastagens sobre a Amazônia a colocou no topo da lista dos biomas com maior área, em termos percentuais, com 36%. Cerrado (31%), Mata Atlântica (18%), Caatinga (12%) e Pantanal (2%) vêm na sequência. Com exceção de Minas Gerais, com 19,3 milhões de hectares, os outros dois estados líderes em área de pastagens no Brasil ficam na Amazônia Legal: Pará (21,1 milhões de hectares) e Mato Grosso (20,2 milhões de hectares).

Os dados fazem parte de um mapeamento inédito do MapBiomas que será apresentado nesta quarta-feira, 30 de novembro, pelo YouTube. Ele revela que o principal uso dado ao solo brasileiro continua sendo a pastagem: de toda a área desmatada no Brasil, que já se aproxima dos 35% do território nacional, aproximadamente 90% foram ou continuam sendo pastagem. Com presença nos seis biomas, ela ocupa atualmente algo em torno de 151 milhões de hectares de norte a sul do país. Mas a área total pode ser ainda maior porque esse número não integra parte dos campos naturais, principalmente no Pampa e Pantanal, que cobrem 12 milhões de hectares no país, e áreas de mosaico de usos, onde não é possível separar agricultura e pastagem (ou elas ocorrem de forma consorciada), e que cobrem 42 milhões de hectares.

A partir da análise de imagens de satélite é possível identificar uma intensa dinâmica quanto às áreas de pastagens no Brasil, marcada por momentos de expansão e retração territorial. Entre 1990 e 2000, 46,4 milhões de hectares de áreas naturais e antrópicas foram convertidas em pastagem, principalmente nos biomas Amazônia e Cerrado, enquanto 19,2 milhões de hectares de áreas de pastagem foram convertidos para outros usos ou abandonados, notadamente nos biomas Cerrado e Mata Atlântica. Entre 2000 e 2021, as áreas naturais e antrópicas transformadas em pastagens totalizaram 47,1 milhões de hectares e, mais uma vez, Amazônia e Cerrado foram os principais alvos da conversão. Mas a conversão ou abandono da pastagens nesse mesmo período mais que dobrou em relação ao registrado nas duas décadas anteriores: 44,7 milhões de hectares, principalmente nos biomas Cerrado e Mata Atlântica.

Entre 1985 e 2021, a agricultura e pecuária ganharam 85 milhões de hectares — um crescimento de 47%. As atividades agropecuárias cresceram em cinco dos seis biomas brasileiros, com exceção da Mata Atlântica.

Pastagens brasileiras estocam mais de seis gigatoneladas de carbono

De forma inédita, a Coleção 7 do MapBiomas traz estimativas de estoques de carbono no solo associados às áreas de pastagens no Brasil. Considerando as pastagens de todo o Brasil (cultivadas e nativas), o estoque total de carbono orgânico no solo é de 6,43±1,79 gigatoneladas. Especificamente para o bioma Cerrado, a recuperação de cerca de 28 milhões de hectares de pastagens com algum nível de degradação pode resultar em um ganho de aproximadamente 6% nos estoques de carbono no solo até 2030.

Considerando estoques médios de carbono (toneladas por hectare), estes variam de 44 a 22 toneladas por hectare para a camada superficial do solo (0 a 20 cm) nas áreas de pastagens (nativas) do Pampa e Pantanal, respectivamente. Para os demais biomas – Mata Atlântica, Amazônia, Caatinga e Cerrado – estes estoques ficam em torno de 41, 39, 36 e 33 toneladas por hectare, respectivamente.

“A recuperação de pastagens degradadas e adoção de boas práticas de manejo representam um verdadeiro ganha-ganha. Ganha o produtor, com o aumento da produtividade do rebanho. E ganha o país, haja vista o maior potencial de pastagens bem manejadas em sequestrar carbono, contribuindo para a redução das emissões e para tornar a atividade pecuária, como um todo, mais sustentável”, afirma Laerte Ferreira, professor da Universidade Federal de Goiás e coordenador geral do mapeamento das pastagens.

Clique o pdf para mais informações: anexo 1.pdf

Sobre MapBiomas

O MapBioma é uma iniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil, para buscar a conservação e o manejo sustentável dos recursos naturais, como forma de combate às mudanças climáticas. Esta plataforma é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra, em um país, disponível no mundo. Todos os dados, mapas, métodos e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública e gratuita no site da iniciativa.

Queimadas em outubro atingiram área 66% maior do que em 2021

Área de florestas queimada de janeiro a outubro de 2022 foi 80% superior ao total registrado nos 12 meses de 2021

queimadas

O mês de outubro não foi quente apenas por causa do primeiro e do segundo turno das eleições, que aconteceram no começo e no final do mês. Entre o dia 1 e o dia 30 do mês passado, as queimadas no Brasil aumentaram 66%, segundo dados do Monitor do Fogo, do MapBiomas. Em apenas 30 dias, 3,4 milhões de hectares foram queimados — 1,3 milhão de hectares a mais do que no mesmo mês de 2021.

Nenhum bioma queimou tanto em outubro como o Cerrado, onde a área afetada quase triplicou em relação ao mesmo mês do ano passado. 1,8 milhão de hectares foram atingidos pelo fogo no bioma — um crescimento de 196% em relação a outubro de 2021. O aumento das queimadas na Amazônia também foi superior à média nacional: 74% a mais que no mesmo mês de 2021. A área queimada em outubro deste ano nesse bioma totalizou 1,3 milhão de hectares.

Os números entre janeiro e outubro deste ano, por sua vez, mostram que 15,2 milhões de hectares foram atingidos pelo fogo no Brasil — uma área maior que o estado do Ceará. O crescimento em relação aos 10 primeiros meses de 2021 foi de 11%, ou 1,5 milhão de hectares a mais. A maior parte da área consumida pelo fogo (72%) foi de vegetação nativa — em sua maioria, formações savânicas e campestres. As pastagens responderam por 24,5% da área queimada nos dez primeiros meses de 2022. Porém um crescimento expressivo foi observado em florestas: cerca de 2,4 milhões de hectares de florestas foram queimados no Brasil de janeiro a outubro de 2022 — um aumento de 80% em relação ao total registrado nos 12 meses de 2021.

A Amazônia concentrou 85% dos incêndios florestais nos 10 primeiros meses deste ano. Nesse período, as florestas da Amazônia queimaram quase o dobro do que foi queimado em florestas na região em todo o ano de 2021. Quase um terço (29%, ou dois milhões de hectares) do que foi queimado nesse bioma afetou florestas, sendo incêndios ou desmatamento seguido de fogo. Esse número foi mais que o dobro, 111% maior do que a área de floresta afetada por fogo no bioma no mesmo período em 2021 (976 mil ha). Considerando a área total queimada na Amazônia, e não só a de florestas, o crescimento em relação ao ano passado foi de 34%.

Mas o bioma mais afetado pelo fogo no Brasil nos dez primeiros meses de 2021 é o Cerrado. Metade da área queimada no país entre janeiro e outubro (48%, ou 7,2 milhões de hectares) fica no Cerrado. Embora este bioma tenha metade da extensão da Amazônia, ele praticamente empata com ela em área queimada: a Amazônia respondeu por 47% da extensão queimada nos 10 primeiros meses do ano (7,1 milhões de hectares). O aumento na área queimada no Cerrado nesse período foi de 17%.

Sozinho, o Mato Grosso respondeu por um em cada quatro hectares queimados no Brasil entre janeiro e outubro deste, ou 3,4 milhões de hectares. Pará e Tocantins ocupam o segundo e o terceiro lugar no ranking, com 2,5 milhões de hectares e 2,2 milhões de hectares, respectivamente. Juntos, esses três estados respondem por mais da metade (54%) de toda a área queimada no Brasil este ano até outubro.

Os três municípios que mais queimaram este ano ficam na Amazônia: São Félix do Xingu (PA), Altamira (PA) e Porto Velho (RO). Juntos, eles respondem por 1,1 milhão de hectares queimados, ou 8% do total nacional). Trata-se de um crescimento de 131% em relação aos 495 mil hectares queimados no mesmo período de 2021. Esse aumento reflete o avanço do desmatamento no oeste do Pará e em Rondônia.

Boas notícias vieram da Mata Atlântica e do Pantanal. Este último apresentou a menor área queimada nos últimos quatro anos no período entre janeiro e outubro deste ano. O Monitor do Fogo contabilizou uma queda de 87% em relação aos dez primeiros meses de 2021. O mês de outubro, no entanto, trouxe uma área queimada equivalente ao dobro do total queimado nos meses anteriores. A Mata Atlântica, por sua vez, teve a menor área queimada desde 2019, com exceção dos primeiros meses do ano (janeiro e fevereiro), devido a uma queimada na região próxima ao Parque Nacional Ilha Grande.

Outros destaques de outubro de 2022

  • 76% da área queimada em outubro de 2022 foi em vegetação nativa, a maioria em formações savânicas e campestres.
  • Dentre os tipos de formações naturais, as formações savânicas foram as mais afetadas pelo fogo, 37% da área queimada em outubro de 2022.
  • Dentro os tipos de uso agropecuário, as pastagens se destacaram, representando 21% da área queimada em outubro de 2022.
  • Em outubro de 2022, os estados que mais queimaram foram Mato Grosso, Maranhão e Piauí.
  • Os municípios de Cocalinho (MT) e Novo Santo Antônio (MT) foram os que tiveram maior área queimada.

Outros destaques da Amazônia — janeiro a outubro de 2022

  • A formação florestal foi o tipo de vegetação nativa que mais queimou na Amazônia: 29% da área queimada entre janeiro e outubro de 2022.
  • A pastagem foi a classe de uso da terra que mais queimou, com 48% da área total queimada na Amazônia em outubro de 2022.

Outros destaques do Cerrado — janeiro a outubro de 2022

  • Quase metade da área queimada no Cerrado entre janeiro e outubro de 2022 ocorreu em formação savânica (3,5 Mha, 49%).
  • Os estados da região do MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) são os que tiveram maior ocorrência de fogo no mês de Outubro no bioma Cerrado.

Destaques do Pampa — janeiro a outubro de 2022

  • No verão de 2022 foi registrada uma área recorde de queimadas no Pampa, com 28.039 ha.
  • Por outro lado, no período entre março e outubro a área queimada total foi de 1.117 ha, bem abaixo do que foi registrado para esse mesmo período nos três anos anteriores.

Destaques da Caatinga — outubro de 2022

  • Na Caatinga, o mês de outubro foi o que apresentou maior área queimada para todo o ano de 2022, com 300 mil ha queimados e com aumento de 134% em relação ao mês de setembro

Sobre o Monitor do Fogo:

O Monitor do Fogo é o mapeamento mensal de cicatrizes de fogo para o Brasil, abrangendo o período a partir de 2019, e atualizados mensalmente. Baseado em mosaicos mensais de imagens multiespectrais do Sentinel 2 com resolução espacial de 10 metros e temporal de 5 dias. O Monitor de Fogo revela em tempo quase real a localização e extensão das áreas queimadas, facilitando assim a contabilidade da destruição decorrente do fogo. Acesse o Monitor do Fogo e o Boletim Mensal de Outubro 

Sobre MapBiomas

Iniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil, para buscar a conservação e o manejo sustentável dos recursos naturais, como forma de combate às mudanças climáticas. Esta plataforma é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Todos os dados, mapas, métodos e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública e gratuita no site da iniciativa.

Exploração ilegal de madeira na Amazônia é impulsionada por 100 propriedades rurais com CAR, diz estudo

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Cem imóveis rurais concentraram mais da metade da exploração ilegal de madeira apurada entre imóveis com Cadastro Ambiental Rural (CAR) de agosto de 2020 a julho de 2021 na Amazônia brasileira. A categoria respondeu por 70% das áreas exploradas sem autorização no período.

Os dados constam do relatório “Mapeamento da exploração madeireira na Amazônia”, lançado nesta quinta-feira (10) pela Rede Simex (Imazon, Idesam, Imaflora e ICV) durante a COP-27, em Sharm El-Sheikh (Egito).

O estudo inédito identificou e mapeou um total de 377.624 hectares de florestas nativas explorados para fins madeireiros no período em seis dos nove estados da região: Acre, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Roraima – no caso do Amapá, a análise foi impossibilitada pelo alto percentual de cobertura de nuvens nas imagens de satélite.

Mato Grosso respondeu por 73% do total, seguido pelo Pará (15,1%), Rondônia (4,3%), Amazonas (4%), Acre (2,9%) e Roraima (menos de 1%).

“A análise da legalidade mostrou que do total de área de extração de madeira no período, 235.196 hectares (62%) foram explorados mediante autorização de exploração florestal emitida pelos órgãos competentes. Outros 142.428 hectares (38%) ocorreram de forma não autorizada”, diz o estudo, em um trecho.

A atividade madeireira ilegal, de acordo com o documento, ocorreu principalmente em imóveis rurais cadastrados (72%), terras indígenas (11%), vazios fundiários (9%), unidades de conservação (4%), assentamentos rurais (3%) e terras não destinadas (1%).

“Nos imóveis rurais cadastrados, a exploração não autorizada ocorreu de forma concentrada: 100 imóveis responderam por 52% da área explorada ilegalmente nessa categoria”, aponta a Rede Simex.

Essa concentração também se reproduz quando se considera o ranking por municípios. Segundo o estudo, os dez campeões da ilegalidade responderam por 49% de toda a extração não autorizada no período – 8 deles estão localizados em Mato Grosso e dois no Amazonas.

“A ocorrência e a concentração da ilegalidade na exploração madeireira mostram como ela caminha lado a lado com a legalidade na Amazônia brasileira. A madeira que é explorada na área não autorizada precisa de documentação das áreas autorizadas para ser esquentada e movimentada. E essa é uma situação que acarreta prejuízos ambientais, sociais e econômicos, porque desvaloriza a madeira produzida por manejo florestal sustentável e impede a garantia de origem legal da madeira brasileira mudo a fora”.

“O estudo é de extrema importância, pois foi a primeira vez que conseguimos definir a porcentagem de ilegalidade e legalidade na produção madeireira na Amazônia. E isso só foi possível graças a obtenção de bases de dados ambientais dos estados, sendo a transparência das informações vital para que a gente consiga fazer análises mais acuradas e realísticas, possibilitando pensar em estratégias não só de comando e controle em locais onde a ilegalidade é mais concentrada, mas também pensar de forma mais efetiva no planejamento de projetos, programas e práticas que promovam a legalidade e o manejo florestal sustentável na Amazônia”, diz Marcelo de Medeiros, Coordenador de Projetos do Imaflora.

Áreas protegidas

O estudo identificou que 15% das áreas de exploração ilegal estão em terras indígenas (11%) e unidades de conservação (4%). O total explorado em áreas protegidas alcançou 21.487 hectares.

“As 10 áreas protegidas com mais exploração madeireira não autorizada representaram 80% da área total explorada nessa categoria. Dessas áreas, sete estão localizadas em Mato Grosso”, aponta o estudo.

Nas 21 terras indígenas com exploração ilegal identificada, destacam-se a TI Aripuanã (4.039 hectares) e a TI Tenharim Marmelos (3.509 hectares). Juntas, essas áreas representaram 47% do total explorado ilegalmente em terras indígenas e 35% da exploração de madeira não autorizada em áreas protegidas.

Nas 14 unidades de conservação com extração de madeira identificadas no estudo, as cinco mais exploradas concentraram 91% da área total. A Reserva Extrativista Guariba/Roosevelt, no noroeste de Mato Grosso, foi a mais impactada, com 1.398 hectares.

Combate à ilegalidade

Recentemente, a Rede SIMEX também publicou o relatório “A evolução do setor madeireiro na Amazônia entre 1980 a 2020 e as oportunidades para seu desenvolvimento inclusivo e sustentável na próxima década, um panorama do setor madeireiro com recomendações para mitigar a ilegalidade no bioma.

Entre elas, estão a integração dos sistemas estaduais de monitoramento e controle florestal ao Sinaflor e o combate à impunidade por meio de tecnologias já existentes e regulamentadas para autuação remota.

“Para mitigar a exploração madeireira não autorizada na Amazônia é primeiramente necessário prover informações centralizadas, atualizadas e acessíveis pelos sistemas de controle florestal que permitiriam a implementação de rotinas de monitoramento em tempo real e a adoção de ferramentas para o controle de fraudes, incluindo a rastreabilidade dos produtos de madeira”.

Brasil teve 80% mais incêndios florestais em 2022, mostra Monitor do Fogo

Cerca de 2,4 milhões de hectares de florestas foram queimados entre janeiro e outubro de 2022, área 80% maior que a queimada em 2021; maioria do fogo foi na Amazônia

unnamed (7)Fogo associado a desmatamento na Amazônia, norte de Mato Grosso (Foto: Illuminati Filmes/IPAM)

O Brasil teve 80% mais incêndios florestais entre janeiro e outubro de 2022 em relação ao mesmo período de 2021. Foram 2.426.597 milhões de hectares de floresta queimados neste ano, sendo 85% na Amazônia. Os dados são do Monitor do Fogo, iniciativa do MapBiomas Fogo com parceria e coordenação do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), divulgados nesta sexta-feira (11) na COP27, a Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas que ocorre este ano em Sharm El-Sheikh, no Egito.

Acesse o boletim mensal do Monitor do Fogo com os destaques de outubro.

Nas florestas da Amazônia o aumento nos incêndios foi de 111%, com 2 milhões de hectares queimados – mais do que o dobro de 2021 (976 mil hectares).

“Durante o período das eleições, testemunhamos recordes de derrubadas na região, o que tem impacto direto nas florestas ao redor, que acabam ficando mais expostas, degradadas e suscetíveis ao escape do fogo. Mesmo um único evento de fogo tem impactos gigantescos na estrutura da vegetação, pois florestas degradadas armazenam 25% menos carbono por pelo menos 30 anos”, comenta Ane Alencar, diretora de Ciência no IPAM e coordenadora do MapBiomas Fogo.

A área total queimada no país, de janeiro a outubro de 2022, é de 15,2 milhões de hectares, maior que o estado do Ceará, considerando todas as vegetações dos biomas brasileiros e todos os tipos de uso do solo, como pastagem, por exemplo. É um aumento de 11%, ou de 1,5 milhões de hectares queimados, comparado ao mesmo período em 2021.

Para Alencar, os dados são alarmantes e distanciam o Brasil de cumprir as metas para a redução das emissões de gases do efeito estufa, firmadas em 2015 no Acordo de Paris. Assinado por 196 países, o Acordo de Paris tem o objetivo em comum de limitar o aumento da temperatura média do planeta em 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais. Quase metade das emissões brasileiras (49%) estão ligadas a desmatamento e fogo associado.

Cerrado é o bioma que mais queimou

O Cerrado concentra 48% de toda a área queimada no Brasil até outubro e é o bioma que mais queimou no período. A alta do fogo no Cerrado é de 17% em comparação com o ano anterior, totalizando 7,4 milhões de hectares queimados em 2022. O maior impacto está em vegetações do tipo savânica (representam 49% da área queimada, ou 3,5 milhões de hectares). Em outubro, o Cerrado também foi o bioma que mais pegou fogo, com 1,8 milhões de hectares, um aumento de 196% em relação ao mesmo mês do ano passado.

Depois do Cerrado, o segundo bioma mais queimado é a Amazônia, com 7,1 milhões de hectares ou 47% da área total queimada no país. Em outubro, 1,3 milhões de hectares pegaram fogo na Amazônia, uma alta de 74% em relação ao mesmo mês do ano anterior.

“Vale a pena destacar que o Cerrado é um bioma que tem metade do tamanho da Amazônia, ou seja, quando falamos que o Cerrado foi o que mais queimou no ano até agora, estamos falando de um impacto que tem dimensões para a sobrevivência desse ecossistema. Outro motivo de alerta é que parte desse fogo está acontecendo com frequência e intensidade diferente do regime natural esperado para o Cerrado”, explica Vera Laísa Arruda, pesquisadora no IPAM e responsável pelo Monitor do Fogo.

Fogo nos estados e municípios

Mato Grosso foi o estado que mais registrou ocorrências de incêndios até outubro, com 3,4 milhões de hectares queimados, quase ¼ da área total queimada no Brasil no período. Pará e Tocantins estão na sequência, com 2,5 e 2,2 milhões de hectares, respectivamente. Juntos, os estados concentram 54% da área queimada no Brasil no período.

São Félix do Xingu (PA), Altamira (PA) e Porto Velho (RO) são os três municípios que mais queimaram, somando 1,1 milhões de hectares que pegaram fogo, ou 8% do total queimado no país. No mesmo período de 2021, esses municípios queimaram juntos 495 mil hectares, o que significa um aumento de 131% para o ocorrido em 2021 – reflexo do avanço do desmatamento que tem no oeste do Pará uma das suas fronteiras mais ativas.

Sobre o Monitor do Fogo

 Monitor do Fogo é o mapeamento mensal de cicatrizes de fogo para o Brasil, abrangendo o período a partir de 2019, e atualizados mensalmente. Baseado em mosaicos mensais de imagens multiespectrais do Sentinel 2 com resolução espacial de 10 metros e temporal de 5 dias. O Monitor de Fogo revela em tempo quase real a localização e extensão das áreas queimadas, facilitando assim a contabilidade da destruição decorrente do fogo. Acesse o Monitor do Fogo.

Sobre MapBiomas

Iniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil, para buscar a conservação e o manejo sustentável dos recursos naturais, como forma de combate às mudanças climáticas. Esta plataforma é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Todos os dados, mapas, métodos e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública e gratuita no site.

Sobre o IPAM

Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) é uma organização científica, não governamental, apartidária e sem fins lucrativos que desde 1995 trabalha pelo desenvolvimento sustentável da Amazônia e do Cerrado.

Volta da inflação desmascara ainda mais a dupla Bolsonaro/Guedes

INFLAÇÃO SUBIU

Os veículos da mídia corporativa noticiam hoje que após poucos meses de retração, a inflação do mês de Outubro tomou um perfil de alta, ainda que relativamente pequena. O problema, alertam alguns analistas sérios como o economista Eduardo Moreira (ver vídeo abaixo), é que a inflação de outubro representa apenas uma retomada do que deveria ser o normal, mas que ficou escondida por uma série de manobras de cunho eleitoral que foram adotadas pelo dublê de banqueiro e ministro da Economia, o sr. Paulo Guedes.

Agora que Jair Bolsonaro já perdeu a eleição e, mais importante ainda, a capacidade de interferir no andamento das coisas, o que se vê é a perspectiva não apenas de que a inflação continue subindo e voltando para o patamar onde deveria estar, mas também uma continua depreciação da capacidade produtiva do Brasil, o que se refletirá em uma diminuição do valor do Produto Interno Bruto (PIB).

A verdade que teima em aparecer, agora que a fumaça dos piquetes da extrema-direita está baixando, é que as medidas ultraneoliberais de Paulo Guedes, que incluíram a privatização criminosa de várias estatais estratégicas,  colocaram a economia em um estado de paralisia, a qual foi fortemente agravada pelas políticas anti-ambientais que expulsaram investidores internacionais que não quiseram estar relacionados ao processo de desmatamento que hoje come solto na Amazônia e no Cerrado.

O resumo desta ópera bufa montada por Jair Bolsonaro e Paulo Guedes é que o presidente eleito terá um primeiro ano de mandato muito complicado, já que a situação econômica deixará pouco espaço para erros.

Lula promete priorizar clima e ciência em meio à crise

Lula_Brazil_MAINLula da Silva prometeu apoio à ação climática, à ciência. Copyright: Fórum Econômico Mundial , (CC BY-NC-SA 2.0).

Mas reviver a ciência, a tecnologia e a inovação e enfrentar as crises ambientais não será uma tarefa fácil, após vários anos de cortes orçamentários recorrentes em educação e ciência sob o presidente Jair Bolsonaro.

O manifesto de Lula promete acabar com o desmatamento na Amazônia, conter as emissões de gases de efeito estufa, apoiar a agricultura de baixo carbono e a agricultura familiar, reconstruir os órgãos de fiscalização e controle do desmatamento e acabar com a mineração ilegal em terras indígenas.

“Será importante uma estratégia econômica que inclua a promoção da ciência e a exploração sustentável dos recursos naturais.”

Luiz Antônio Elias, ex-secretário executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Brasil

“O Brasil está pronto para retomar sua liderança na luta contra a crise climática”, disse Lula a apoiadores em São Paulo após sua vitória nas eleições. “O Brasil e o planeta precisam de uma Amazônia viva.”

A política ambiental foi uma grande vítima do governo Bolsonaro, instaurado em janeiro de 2019.

De 2019 a 2022, o desmatamento na Amazônia brasileira cresceu 56% em comparação com o período de 2016 a 2018, segundo artigo de Paulo Artaxo , professor de física ambiental da Universidade de São Paulo.

Houve também um aumento de 80% no desmatamento em áreas protegidas, como terras indígenas e áreas de conservação. Além disso, houve uma escalada recorde de incêndios.

A ciência de forma mais ampla também sofreu um grande golpe sob Bolsonaro. Em 2014, o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico teve um orçamento de cerca de 4,6 bilhões de reais (US$ 900 milhões), enquanto em 2022 esses recursos cairão para US$ 480 milhões no orçamento de seu governo. E mais da metade desse valor foi destinado ao pagamento da dívida pública porque, segundo o governo Bolsonaro, os recursos para a ciência não estavam sendo utilizados.

Além disso, uma medida provisória emitida por Bolsonaro em agosto impõe limites ao uso de parte dos recursos do Fundo, medida que antes era proibida por lei.

“Foram anos de intensa deterioração dos investimentos em ciência e tecnologia, e a vitória de Lula traz a perspectiva de recuperação”, diz Renato Janine, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), ao SciDev.Net .

“No entanto, como [Bolsonaro] promulgou vários mecanismos legais usando o veto presidencial (ou seja, sem possibilidade de alteração pelo legislativo), será necessário revogar essas leis e medidas provisórias.”

O financiamento e o investimento em universidades federais e institutos de pesquisa também caíram por cento desde o fim da presidência de Dilma Rousseff, de R$ 10,3 bilhões (cerca de US$ 2 bilhões) para cerca de US$ 900 milhões, mostram números oficiais.

Os orçamentos das principais agências de fomento à pesquisa do Brasil — o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior — também caíram por cento nesse período, impactando a oferta de bolsas para mestrandos e doutorandos.

A biomédica Helena Nader, presidente da Academia Brasileira de Ciências, diz que as vagas de pesquisa apoiadas são cruciais para o avanço da ciência.

“Mais de 90 por cento da ciência brasileira é feita em universidades e institutos públicos de pesquisa”, disse ela ao SciDev.Net . “Sem educação não há ciência, e o novo governo terá que levar isso em conta.”

Janine diz que o governo Lula terá que tomar decisões difíceis, pois ele herda uma crise econômica. O presidente eleito, que tomará posse em 1º de janeiro de 2023, já disse que sua prioridade será acabar com a fome que assola 33 milhões de pessoas, o equivalente a mais de 15% da população.

“Existe uma expectativa de soluções rápidas, mas infelizmente não podemos esperar que sejam tão rápidas”, disse o presidente da SBPC.

Nader concorda: “O dano é muito grande. Vamos precisar de pelo menos um ou dois anos para nos organizarmos.”

O economista Luiz Antônio Elias, ex-secretário-executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação nos governos Lula e Dilma Rousseff, acredita que será fundamental reconstruir o sistema nacional de ciência, tecnologia e inovação “com uma visão integrada da política científica”.

O “ programa de reconstrução e transformação do Brasil ” de Lula reconhece que a reconstrução do sistema será “pela inovação tecnológica e social, bem como pelo uso sustentável das riquezas do país, pela geração de empregos qualificados e pelo combate às mudanças climáticas e ameaças à saúde pública”.

“Será importante uma estratégia econômica que inclua a promoção da ciência e a exploração sustentável dos recursos naturais”, acrescenta Elias.

Para Janine, aproximar a ciência da sociedade será fundamental. “Precisamos mostrar às pessoas o quanto a ciência é importante para o desenvolvimento do país, e como ela está presente em seus alimentos, roupas e celulares”, disse.

Em seu primeiro discurso como presidente eleito, Lula prometeu a retomada das conferências nacionais, incluindo uma de ciência e tecnologia, para facilitar a participação social no planejamento de políticas científicas.

Este artigo foi produzido pelo escritório da América Latina e Caribe da SciDev.Net e editado para ser conciso e claro [ Aqui!].

Após estímulo do atual governo e das Forças Armadas à destruição da Amazônia, Brasil deve investir na sociobiodiversidade da floresta

rio amazonicoAgência de Notícias do Acre / Flickr

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Há uma visão dominante entre membros do atual governo de que a Amazônia precisa ser ocupada, de forma rápida e através de atividades agropecuárias e extrativistas, para garantir a soberania do território brasileiro. Tais atividades são defendidas pelas Forças Armadas, influenciada por discursos consolidados no período da ditadura militar, de que a proteção viria da exploração. Esta concepção vai na contramão de uma economia de conhecimento da natureza, que poderia trazer diversos benefícios econômicos, sociais e ambientais ao país, incluindo o combate à criminalidade, a valorização da cultura, o aumento de investimentos estrangeiros para preservação e oportunidades de uso sustentável da floresta. Este panorama é descrito por Ricardo Abramovay, professor sênior na Universidade de São Paulo (USP), em artigo publicado na segunda (31) na revista “Estudos Avançados”.

O artigo traz uma narrativa que, nas palavras de Abramovay, funciona quase como uma denúncia. Trechos de discursos evidenciam a visão do governo brasileiro, resumida na fala do vice-presidente Hamilton Mourão no Webinar Brasil 2020 – 200 anos de Independência: “Uma das maiores questões que ameaça a soberania é a sustentabilidade.” O autor descreve o panorama da precariedade da governança florestal no Brasil, ilustrando a visão governamental e as reações da sociedade civil, ativistas, cientistas, empresas e governos estaduais ao aumento da destruição visto nos últimos anos.

Para Abramovay, tal visão vem do desconhecimento aliado a compromissos políticos e resulta na intensa destruição da Amazônia, acompanhada pelo fortalecimento de atividades ilegais e criminosas. Este processo envolve o desvirtuamento da função das Forças Armadas: “Em vez de protegerem a floresta e as populações da Amazônia, estão, sob o pretexto da soberania nacional, protegendo e estimulando a criminalidade, a destruição da floresta, o tráfico de madeira, o garimpo de ouro e a grilagem de terras.”

O pesquisador cita o combate à criminalidade como um dos possíveis benefícios de olhar a floresta amazônica de forma mais sustentável. O combate à emissão de gases emissores de efeito estufa também seria beneficiado pela redução do desmatamento, uma de suas principais causas. Além disso, a grande sociobiodiversidade das florestas tropicais detém alto potencial de geração de renda, luta contra a pobreza e inovação científica e tecnológica: “Estes militares preconizam formas de uso do território que não são capazes de aproveitar conhecimentos de povos da floresta e aquilo que a ciência hoje tem de mais avançado para dizer a respeito do uso sustentável da biodiversidade”, diz Abramovay.

Diante da destruição acentuada nos últimos anos, ativistas, empresários e outros atores relevantes têm se posicionado a favor de um novo olhar para a Amazônia. Para Abramovay, a unidade crescente entre os diversos setores da sociedade é fundamental neste cenário: “As práticas econômicas destrutivas são norteadas por uma cultura, por um jeito de olhar para o território, que tem de mudar e vai mudar, as vantagens de uma nova visão tem de aparecer e isso é fundamental”.


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Este texto foi originalmente publicado pela agência Bori [Aqui! ].

Outubro registra 13.911 focos de queimadas na Amazônia

O mês também encerra com a marca de 101.215 focos de queimadas no acumulado do ano, número 33% maior do que foi registrado em todo 2021

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O Greenpeace realizou sobrevoos no sul do Amazonas e no norte de Rondônia para monitorar o desmatamento e queimadas na Amazônia em julho de 2022. © Christian Braga / Greenpeace

Manaus, 1º de novembro de 2022 Dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) nesta terça-feira (1º) revelam que o mês de outubro, de 1º a 31 de outubro, registrou 13.911 focos de queimadas no bioma Amazônia, um aumento de 20,4% em relação ao mesmo mês de 2021. Os maiores números de focos foram registrados no estado do Pará com 7.469 (54% do total), seguido pelo Amazonas com 1.503 (11% do total), Maranhão que registrou 1.269 (9% do total), Acre com 1.127 (8% do total) e Mato Grosso com 903 (6%). Já no acumulado do ano, até o dia 31 de outubro, foram 101.215 focos de queimadas registrados.

Para Rômulo Batista, porta-voz de Amazônia do Greenpeace Brasil, os números são mais um reflexo do “padrão Bolsonaro”, de destruição, resultado de uma visão retrógrada de desenvolvimento que acredita no usufruto dos recursos naturais de forma predatória e que não conversa com a necessidade de frear o desmatamento na Amazônia para conter a crise climática “É icônico que um dia antes do 2° turno das eleições foram atingidos 100.000 focos de queimadas na Amazônia. Isso é o reflexo de todo o descaso do atual governo com a floresta e seus povos. Agora com um novo governo eleito continuaremos trabalhando e cobrando, como fizemos durante todos os governos anteriores, para que a Amazônia, nossa maior riqueza seja protegida, seus povos respeitados e que a paz seja soberana na floresta.”

Os desafios que o governo eleito tem pela frente não são triviais e exigirão a absoluta reconstrução de tudo aquilo que foi enfraquecido pelo atual governo. Também sabemos que boa parte dos parlamentares eleitos para o Congresso Nacional continua representando ameaças à pauta social e ambiental. Será preciso que os compromissos assumidos pelo governo Lula saiam do campo das promessas e sejam concretizados.

Dentre esses desafios, está a reconstrução dos órgãos e as políticas ambientais de fiscalização, preservação e regeneração das nossas florestas e demais ambientes naturais; a garantia dos direitos, territórios e proteção dos povos indígenas e das comunidades tradicionais; a produção, distribuição e acesso dos brasileiros à comida de verdade, a um preço justo e sem veneno e recriação de espaços de participação da sociedade civil e a retomada do diálogo com os movimentos sociais.