Incêndios na Califórnia como vitrinas das mudanças climáticas

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O estado da Califórnia está sendo devorado neste momento por pelo menos três grandes incêndios, e pelo menos 22 milhões de pessoas estão sob alerta apenas na região sul do estado, que compreende a cidade de Los Angeles e sua região metropolitana.

O que está acontecendo é atribuído a uma combinação de uma seca prolongada que acelera os efeitos de ressecamento do material caído dentro de suas florestas e a intrusão de áreas urbanas para o interior de regiões onde elas são mais abundantes.

Um aspecto menos divulgado é que a atuação de fenômenos climáticos regionais tem servido como uma espécie de alimentador dos incêndios, na medida em que prevalecem ventos de até 80 km que funcionam como grandes ventiladores que terminam aumentando a capacidade de propagação e a intensidade das chamas [1]. 

Colocados juntos todos esses fatores demonstram a força das modificações que estão ocorrendo no clima da Terra, condição para a qual a maioria dos países ainda não está nem próxima do nível de preparação que a situação já está demandando para que se evitem grandes catástrofes como a que está ocorrendo na Califórnia, com pesadas perdas materiais e humanas.

Mas se a Califórnia parece distante demais para que se tenha a noção do tamanho da encrenca, imaginemos então o que acontecerá no comportamento climático do centro sul do Brasil se o ritmo de perda das florestas na Amazônia continuar no viés de alto com propensão a aumentar. É que a comunidade científica brasileira já produziu conhecimento suficiente para que saibamos que poderemos enfrentar um processo de ressecamento que colocará em risco o fornecimento de água nas principais regiões metropolitanas brasileiras [2]. O problema é que até agora predomina a postura de ignorar o óbvio.

Para piorar ainda teremos um governo comandando por pessoas que não apenas ignoram as evidências científicas, mas como também estão dispostas a adotar uma postura negacionista do que já está estabelecido de forma robusta pela ciência do clima. O resultado para o Brasil poderá ser, no mínimo, desastroso. Aliás, para quem se interessa pelo tema do negacionismo que ampara as refutações pseudo científicas sobre as mudanças climáticas em curso na Terra, sugiro a leitura do artigo intitulado “Learning from mistakes in climate research” de Benestad et colaboradores [3].

 


[1] https://www.theguardian.com/us-news/2018/nov/12/california-fires-latest-what-is-happening-climate-change-trump-response-explained

[2] https://jornal.usp.br/atualidades/cientistas-alertam-que-o-planeta-ainda-esta-longe-de-resolver-o-problema-do-aquecimento-global/

[3] https://link.springer.com/article/10.1007/s00704-015-1597-5

 

Estados membros da União Europeia pedem ação dura contra desmatamento para cumprir meta da ONU 2020

Mostre liderança para deter a perda de florestas por causa do agronegócio, diz grupo da Declaração de Amsterdã à União Européia

 

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Uma vista aérea mostra a área desmatada em Apuí, na região sul do estado do Amazonas, Brasil. Foto: Bruno Kelly / Reuters

Por Arthur Neslen [1]

O Reino Unido, a França e a Alemanha pediram à Comissão Europeia que lance novas ações duras para deter o desmatamento até o final do ano.

Um plano de ação da UE há muito adiado deve ser antecipado “o mais rapidamente possível”, diz uma carta à comissão enviada pelo grupo de países da Declaração de Amsterdã que inclui também a Itália, os Países Baixos e a Noruega.

Para ajudar a cumprir uma meta da ONU de deter o desmatamento até 2020, a UE deve mostrar “um papel de liderança, mobilizando sua alavancagem política e de mercado e promovendo um diálogo e cooperação internacional mais amplos”, diz a carta.

Ações devem ser tomadas para alinhar as “oportunidades econômicas” com a “gestão responsável das cadeias de fornecimento globais”, diz a carta assinada pelo ministro do Meio Ambiente da Dinamarca, Jakob Ellemann-Jensen.

Até 80% da perda florestal global é impulsionada pelo agronegócio, embora pesquisas mostrem que melhores soluções de manejo florestal e clima natural poderiam fornecer mais de um terço da mitigação climática necessária até 2030.

Os Estados da UE avançaram na questão, uma vez que as preocupações continuam a se sobrepor à recente eleição do Brasil de um defensor de extrema direita da antiga ditadura militar do Brasil.

Jair Bolsonaro prometeu designar ativistas dos direitos da terra como terroristas” e pavimentar uma rodovia através da Amazônia, potencialmente espalhando o desmatamento para uma área de floresta tropical maior que a da Alemanha.

A sua campanha eleitoral foi apoiada por poderosos interesses do agronegócio no Brasil, mas alguns líderes do setor no domingo pediram que ele mostrasse moderação.

 Géraldine Kutas, chefe de assuntos internacionais da Associação Brasileira da Indústria de Cana-de-Açúcar, disse que a importância da Amazônia para o mundo – e para o Brasil – deve ser respeitada. “Estamos perfeitamente bem com as nossas normas ambientais atuais”, disse ela.

“Estamos realmente comprometidos com eles e não apoiaremos nenhuma mudança que possa relaxar as regras”. 

Leis fortes da UE poderiam reduzir a pegada ecológica de commodities como soja, óleo de palma e carne bovina, que impulsionam o desmatamento na Amazônia, segundo o Greenpeace. Sébastien Risso, diretor florestal da UE no grupo, disse: “Ignorar o problema e adiar a ação só nos levará a mudanças climáticas catastróficas e à extinção de uma grande espécie global”. 

Autoridades da UE notaram que Bolsonaro, que toma posse em janeiro, recuou em algumas promessas de campanha e disse que é cedo demais para considerar verificações mais rigorosas para o desmatamento, apesar das declarações e iniciativas do presidente eleito que visam relaxar a regulamentação ambiental na Amazônia

“Nós o tivemos em nosso radar durante os discursos de campanha”, disse uma fonte da UE. “Vamos avaliar as decisões tomadas, uma vez que são tomadas.”


Artigo publicado originalmente em inglês pelo “The Guardian” [1]

New Scientist informa seus leitores sobre os riscos trazidos por Bolsonaro para a Amazônia e seus povos

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A revista “New Scientist” (que é publicada no Reino Unido mas possui versões em diversos países) publicou ontem (07/11) uma matéria assinada pelos jornalistas Mary Menton e Felipe Milanez cujo nada elogioso título é “Brazil’s next president threatens the people and forests of the Amazon” (ou em bom português “O próximo presidente do Brasil ameaça os povos e as florestas da Amazônia” [1].

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Além de informar que o presidente eleito informou que irá extinguir o Ministério do Meio Ambiente e colocar suas tarefas no interior do Ministério da Agricultura (que agora sabemos será comandado pela deputada Tereza Cristina da Costa Dias (DEM/MS) que vem a ser a presidente da bancada ruralista e uma das artífices do chamado Pacote do Veneno que pretende escancarar ainda mais o Brasil ao mercado de agrotóxicos) [2]. Aliás, quem desejar ler uma excelente análise sobre a “Musa do Veneno”, pode acessar este link [3]

Menton e Milanez lembram ainda que o “The New York Times” já apontou que o presidente eleito, apesar de se reclamar como uma espécie de Trump tropical, está mais para uma combinação do presidente estadunidense com o filipino Rodrigo Duterte.

Entretanto, do ponto de vista dos problemas que deverão ocorrer na Amazônia com a implementação do relaxamento ainda maior da proteção dos ecossistemas amazônicas, a matéria traz a informação dada por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que as taxas de desmatamento deverão aumentar em torno de 268%, saltando dos atuais 6,9 mil km² (valores do ano passado) para 25,6 mil km² anuais [4].

Na prática o que esse artigo numa revista com um amplo público na Europa e na América do Norte é aumentar o senso de desqualificação do Brasil como um parceiro responsável nos esforços para conter a aceleração das mudanças climáticas.  Se o presidente eleito insistir não apenas na extinção do MMA, mas também na saída do Brasil do Acordo Climático de Paris, os custos econômicos e políticos serão tão grandes ou maiores do que os causados pelo anúncio de que a embaixada brasileira em Israel será transferida de Tel Aviv para Jerusalém. 


[1] https://www.newscientist.com/article/mg24032034-500-brazils-next-president-threatens-the-people-and-forests-of-the-amazon/

[2] https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2018/11/07/bancada-ruralista-deputada-dem-tereza-cristina-ministerio-agricultura.htm

[3] https://www.huffpostbrasil.com/2018/11/07/bolsonaro-escolhe-tereza-cristina-a-musa-do-veneno-para-ministerio-da-agricultura_a_23582997/

[4] https://sustentabilidade.estadao.com.br/blogs/ambiente-se/cientistas-estimam-que-desmatamento-da-amazonia-pode-triplicar-em-cenario-bolsonaro/

Desmatamento na Amazônia já estava em curva ascendente. Agora vai explodir!

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Imagens de satélite comparadas com fotos aéreas em áreas desmatadas na Amazônia. Fonte: PRODES/INPE.

A imagem abaixo mostra a volta de altas taxas de desmatamento em 2016, o que já se sabe continuaram subindo em 2017 e 2018. A figura abaixo sintetiza dados do projeto PRODES [1] para o ano de 2016 e o estoque total de desmatamento até 2015.

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Não é preciso ser entendedor mais aprofundado da dinâmica que controla o processo de desmatamento na Amazônia e no Cerrado para se chegar à conclusão de que a extinção do Ministério do Meio Ambiente abrirá as comportas do desmatamento raso e da degradação florestal, com enormes custos sociais, econômicos e ambientais.

Agora quem espera que o resto do mundo assista a este processo de mãos cruzadas, se engana.  Não é à toa que os setores mais modernos do latifúndio agro-exportador já estão expressa suas dúvidas sobre a sabedoria da medida. É que, marquem minhas palavras, essa medida irá fechar portas importantes no comércio internacional do Brasil, com consequências incalculáveis para a já debilitada balança comercial brasileira.

Mas o boicote internacional aos produtos saídos das áreas de desmatadas na Amazônia será a única medida que os ruralistas que pressionam por essa regressão vão ser capazes de entender. E ele virá, tão certo como o dia segue a noite.


[1] http://www.obt.inpe.br/OBT/assuntos/programas/amazonia/prodes

The Guardian: Eleição de Jair Bolsonaro no Brasil ameaça o planeta

Danos irreparáveis ​​à Amazônia podem acelerar irreversivelmente a mudança climática, escreve Esther Gillingham, da Cafod

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A missão do presidente eleito Jair Bolsonaro de “mudar o destino do Brasil” (Report, 29 de outubro) parece destinada a abolir a proteção ambiental e exacerbar o derramamento de sangue ligado à exploração não regulamentada da Amazônia.

Por uma década, o Brasil tem sido o país mais perigoso do mundo para defensores do meio ambiente e da terra. Corajosas comunidades indígenas e sem terra rurais estão sendo mortas com pouco recurso à justiça. A impunidade e a falta de um Estado de Direito exacerbaram essa tendência – dos 1.270 assassinatos desde 1985 ligados ao conflito de terras no Brasil, menos de 10% chegaram ao tribunal.

As propostas políticas do Partido Social Liberal de Bolsonaro para deter a demarcação de terras indígenas, abrir as reservas existentes para minerar e perseguir movimentos sociais que protegem os defensores ambientais afetarão a todos nós. Danos irreparáveis ​​à maior floresta tropical do mundo ameaçam acelerar irreversivelmente as mudanças climáticas para as gerações futuras em todo o mundo.

Esther Gillingham

Oficial de Programa do Brasil da Agência Católica para o Desenvolvimento no Exterior (CAFOD) do Reino Unido


Texto publicado originalmente em inglês [Aqui!

Bloomberg revela “romance” de Jair Bolsonaro com os tesouros minerários da Amazônia

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O caso de amor de Bolsonaro com mineração visa os tesouros da Amazônia

Por David Biller e R.T. Watson para a agência Bloomberg [1]

Em um voo para Brasília, no ano passado, Jair Bolsonaro  levava na bagagem de mão pouca coisa além de dois pequenos pedaços de metal extraídos no Brasil: um era grafeno, usado em células solares; o outro era nióbio, que serve para reforçar o aço.Na época, ele disse que esperava exibí-los em uma entrevista na TV como prova da promessa da mineração para a atribulada economia do Brasil. Embora algumas das ideias do capitão da reserva tenham mudado ao longo do tempo, o desejo de Bolsonaro de liberar o potencial de mineração da Amazônia, a floresta tropical de 690 milhões de hectares localizada no coração da América do Sul, se manteve firme.

Agora ele está prestes a chegar à presidência, liderando as últimas pesquisas por dois dígitos, e a comunidade da mineração está salivando. “Olha, a gente está esperando há 30 anos”, disse Elton Rohnelt, que fundou algumas mineradoras durante a ditadura militar no Brasil, de 1964 a 1985, e foi colega de Bolsonaro na Câmara dos Deputados na década de 1990. Organizações não governamentais que “não querem mineração” impediram o desenvolvimento, disse Rohnelt, em entrevista por telefone. “O setor mineral do norte está todo aguardando que o governo brasileiro com Bolsonaro regulamente a situação”, disse, e que “diga qual é o caminho que tem que ser tomado”.

Bolsonaro ainda não definiu detalhes para o setor de mineração, e um porta-voz não deu retorno aos pedidos de comentários feitos por telefone e e-mail. Mas declarações passadas do candidato estão deixando ativistas em alerta.

Ele disse, por exemplo, que pode tirar o Brasil do acordo climático de Paris se isso significar sacrificar a soberania da Amazônia, cujo ecossistema é visto por muitos como de importância ecológica mundial. E criticou as agências ambientais do país por impedirem projetos promissores.

O plano de governo de Bolsonaro promete reduzir o tempo de espera para licenciamento de pequenas usinas hidrelétricas a um máximo de três meses, enquanto em alguns casos pode demorar uma década. Ele afirmou também que não destinará nem um centímetro a mais para reservas indígenas e que quer as populações nativas integradas à sociedade brasileira moderna.

Cerca de 30 por cento do território brasileiro é protegido, tanto para efeito de
conservação quanto para grupos indígenas, principalmente na Amazônia, segundo a Embrapa, uma organização de pesquisa agrícola administrada pelo governo.

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As opiniões de Bolsonaro refletem o mesmo caráter nacionalista que o coloca à frente nas pesquisas. Mas também trazem complicações subjacentes tanto para Bolsonaro quanto para o Brasil, e podem afetar grupos indígenas, derrubar mais de uma década de políticas ambientais e abrir uma cara campanha de construção em uma floresta tropical pouco acolhedora.

Ainda assim, pelas palavras de Rohnelt, desenvolver a Amazônia nunca foi tarefa fácil. Quando ele iniciou a prospecção de ouro na região, a falta de estradas o obrigava a explorar com helicópteros com seus colegas paraquedistas, disse. Guerrilheiros colombianos percorriam a floresta, obrigando-o às vezes a andar armado. Na década de 1990, Rohnelt foi colega de Bolsonaro na Câmara dos Deputados, e os dois eram amigos, disse. Mas não conseguiram aprovar uma regulação exigida pela constituição para a realização de atividades de mineração em territórios indígenas. Rohnelt disse que apoiou um projeto a respeito, em 1996, mas que ainda aguarda votação. Há outros 20 projetos pendentes para o setor.

Se Bolsonaro chegar à presidência, a dificuldade para fazer com que os parlamentares aprovem a mineração na Amazônia pode diminuir. O partido do candidato favorito conseguiu mais de 50 cadeiras na Câmara no primeiro turno das eleições, contra apenas oito atualmente, o que o transforma na segunda maior sigla da casa.

Embora os obstáculos legislativos restrinjam parte dos investimentos, a selva da
burocracia também desanima bastante. A empresa canadense Belo Sun Mining pretendia construir a maior mina de ouro do Brasil na Amazônia, mas no ano passado teve a licença suspensa quando a Fundação Nacional do Índio (Funai) afirmou que a empresa não havia realizado os estudos necessários. A Potássio do Brasil, um projeto de US$ 2 bilhões, tem quase uma década e sofreu diversos atrasos,segundo o presidente da empresa, Hélio Diniz.

Diniz diz que não tem candidato preferido. Mas reconheceu que o conhecimento militar pode ser útil para o desenvolvimento da Amazônia daqui para frente, e Bolsonaro prometeu nomear generais para alguns cargos ministeriais. “Temos tido muito apoio deles”, disse Diniz, por telefone. “Eles sabem que precisamos de desenvolvimento lá para ajudar as pessoas. Não apenas desenvolvimento do governo. Eles tiveram que levar empresas para lá.”

Outros líderes do setor têm reclamado que o excesso de zelo das autoridades judiciais complica os negócios desde o desastre do rompimento da barragem de rejeitos da Samarco Mineração, que matou 19 pessoas em 2015. A burocracia assola o setor de mineração nacionalmente, não apenas na Amazônia, disse Murilo Ferreira, ex-CEO da Vale, a maior produtora de minério de ferro do mundo e a única grande mineradora com presença considerável na Amazônia graças às reservas do Carajás.

Gigantes da mineração como Rio Tinto, BHP Billiton e Glencore têm presenças limitadas ou estão ausentes, disse Ferreira, por telefone. “As empresas têm tido muitas dificuldades”, o que significa que “procuram outros lugares onde a situação é muito mais fácil”, disse.

Houve um declínio significativo nos novos pedidos para pesquisa mineral, segundo João Orestes, secretário de planejamento e desenvolvimento do Estado do Amazonas, que supervisiona a mineração. Nas décadas de 1980 e 1990, a esfera local do órgão regulador da mineração recebia cerca de 2.000 solicitações por ano envolvendo três estados da Amazônia. Neste ano, receberam menos de 100, disse.

Os últimos três presidentes eleitos “nunca falaram em mineração, nunca consideraram importante”, disse Orestes por telefone. “Bolsonaro tem esse entendimento.” –

Com a ajuda de Flavia Said


Publicado originalmente em inglês [1]

Futuro da Amazônia sobre grave risco

Artigo no “New York Times” alerta sobre os impactos da vitória de Jair Bolsonaro sobre florestas e povos tradicionais

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O jornal estadunidense “The New York Times” publicou hoje um artigo assinado pela jornalista especializada sobre questões relacionadas ao clima da Terra, Somini Sengupta, onde é assinalado que o futuro da floresta Amazônica deverá ser uma das principais vítimas da vitória de Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais de 2018 [1].

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Somini Sengupta lembrou aos leitores do “New York Times” que Bolsonaro que durante a atual campanha, Bolsonaro prometeu patrocinar o poderoso setor de agronegócio de seu país, que busca abrir mais florestas para produzir a carne bovina e soja que o mundo exige.  Ela lembrou ainda que Bolsonaro já aventou  a possibilidade de sair do Acordo Climático de Paris.  Sengupta aponta que mesmo que Bolsonaro não cumpra esta meta, suas promessas de campanha podem ter conseqüências terríveis para a Amazônia e, portanto, para o resto do planeta.  É que estendendo-se por dois milhões de quilômetros quadrados, a maior parte no Brasil, a Amazônia atua como um gigantesco sumidouro para as emissões de dióxido de carbono que o mundo como um todo produz.

Além disso, o artigo lembra que Bolsonaro disse que vai descartar o Ministério do Meio Ambiente, que tem o mandato de proteger o meio ambiente, e, ao invés disso,  colocar as questões ambientais sob a autoridade  do Ministério da Agricultura,  uma opção que tende a favorecer os interesses daqueles que convertem florestas em terras agrícolas.

Segunda lembra Segunpta, ainda que  Bolsonaro rejeita a ideia de separar as terras cobertas por florestas para os povos indígenas que  há séculos vivem na Amazônia, prometendo que “não haverá um centímetro quadrado demarcado como uma reserva indígena” se ele for eleito.

A jornalista lembra que estudos recentes mostram que as reservas florestais controladas por povos indígenas em muitos países fornecem algumas das melhores defesas contra o desmatamento.  Mas ela aponta que Bolsonaro vê outros usos da floresta. “Onde há terra indígena”, ele disse, “há riqueza debaixo dela”. Segunda aponta que, de fato, muito antes de Bolsonaro declarar sua candidatura à presidência, o Brasil estava recuando em suas políticas ambientais.  Políticos de esquerda têm tido cada vez menos voz  para reivindicar recursos em terras indígenas, por exemplo,  mas que a demarcação de reservas diminuiu com a ex-presidente Dilma Rousseff, enquanto as taxas de desmatamento começaram a subir paulatinamente. Além disso, uma recessão incapacitante também causou danos, resultando na redução drástica do financiamento para o Ministério do Meio Ambiente. 

Em conclusão, Sengupta lembrou ainda que uma análise feita por cientistas brasileiros descobriu que se as atuais tendências ambientais continuarem no país, o Brasil não cumprirá suas metas de redução de emissões sob o Acordo de Paris. E a Global Witness, em colaboração com o jornal The Guardian, considerou o Brasil o lugar mais letal para os defensores dos direitos ambientais.

De minha parte, lembro que em 2003 escrevi um artigo logo após uma visita do ex-presidente Lula onde ele fez uma série de considerações sobre o que seria depois chamado de “Neodesenvolvimentismo” e de suas repercussões para a floresta amazônica. Disse naquele artigo que nas declarações de Lula estava antecipada mais uma morte anunciada da Amazônia em função do que poderia ser a retomada de uma visão desenvolvimentista na década de 1950. 

Quinze anos depois me vejo defrontado não com a possibilidade de retorno a 1950, mas ao início do Século XVI quando os portugueses chegaram inicialmente às costas da Bahia. É que a visão não apenas de Bolsonaro mas também dos generais que o assessoram assemelha-se ao que o pesquisador estadunidense denominou de paradigma da “Economia de Fronteira” [2].  Com base nesse paradigma não estarão ameaçadas as florestas amazônicas, mas principalmente os povos indígenas e comunidades tradicionais que vivem no seu interior e margens. Esses serão vítimas inevitáveis do avanço de madeireiros, garimpeiros e latifundiários que se sentirão livres para pilhar tudo o que for possível, antes que qualquer medida possa ser tomada para contê-los.

Meus quase 20 anos de experiência com trabalhos de campo em diferentes partes da Amazônia brasileira não deixam dúvidas que teremos um avanço inédito nas mortes de membros dos povos tradicionais e de lideranças ambientais. E, claro, um aumento explosivo nas taxas de desmatamento e degradação nas florestas amazônicas. Os custos sociais, econômicos e ambientais dessa aplicação da “Economia de fronteiras”  serão altíssimos. Não tenho dúvidas ainda de que caso esse cenário seja confirmado, o Brasil passará a ser tratado com um pária pela maior parte dos países com que hoje comercializa suas commodities agrícolas e minerais. É que, a despeito da economia demandar os produtos brasileiros, a geopolítica ditada pelas mudanças climáticas que estão em curso tornarão inevitáveis a aplicação de medidas punitivas contra o Brasil.


[1] https://www.nytimes.com/2018/10/17/climate/brazil-election-amazon-environment.html?action=click&module=Discovery&pgtype=

[2]  https://pdfs.semanticscholar.org/a009/5c7512bef739455a6980a73ca52d458a7d6c.pdf