Girinos da Amazônia já carregam microplásticos, revela estudo

Perereca-de-banheiro. Imagem: Taucce et al., 2022, via Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

Por David Brown para “Mongabay Brasil” 

Pela primeira vez, pesquisadores encontraram microplásticos em girinos e nos corpos d’água que lhes servem de habitat na Amazônia, segundo um novo estudo. A descoberta reforça evidências de contaminação por microplásticos na floresta amazônica, afirmam os pesquisadores.

Estudos anteriores realizados na região já haviam detectado contaminação por microplásticos em peixes, invertebrados, amostras de solo e de água.

No estudo mais recente, a ecologista Fabrielle Barbosa de Araújo, da Universidade Federal do Pará, e seus colegas coletaram amostras de água de cinco poças temporárias no solo do Parque Ecológico do Gunma, na Região Metropolitana de Belém. Essas poças, formadas pelo acúmulo de água da chuva, são importantes áreas de reprodução e desenvolvimento de girinos de várias espécies de anfíbios na Amazônia.

Em cada um dos cinco corpos d’água, os pesquisadores também coletaram cem girinos da perereca-de-banheiro (Scinax x-signatus), espécie encontrada tanto em áreas florestais quanto urbanas com ampla distribuição na América do Sul.

Microplásticos foram encontrados em todas as poças e em todos os girinos analisados. A maioria das partículas era composta por fibras plásticas, como poliéster, principalmente transparentes, azuis e pretas. Estudos anteriores também identificaram fibras semelhantes em diferentes partes da Amazônia, possivelmente oriundas de esgoto sanitário e atividades pesqueiras.

Em entrevista por e-mail à Mongabay, Araújo disse que não ficou surpresa ao encontrar microplásticos nos girinos e em seus habitats. “O que realmente chamou nossa atenção foi a grande quantidade encontrada, principalmente porque esta é uma área com baixa densidade populacional humana e considerada relativamente bem preservada”, afirmou.

Araújo disse estar especialmente preocupada com a presença de microplásticos nos girinos porque “a contaminação pode afetar negativamente a saúde dos anfíbios, causando danos genéticos e morfológicos, como alterações nas células sanguíneas e no próprio DNA”. Segundo ela, as partículas também podem se acumular nos tecidos e provocar alterações fisiológicas nos anfíbios.

Os autores observam que os girinos da perereca-de-banheiro se alimentam de algas, fungos e ovos presentes na água, o que pode ajudar a explicar a ingestão dos microplásticos.

“As pesquisas sobre a presença de microplásticos na Amazônia se intensificaram nos últimos anos, e o nosso objetivo é continuar monitorando essa contaminação, principalmente em girinos de anuros, a fim de entender melhor como esse poluente está afetando a biodiversidade da nossa região”, disse Araújo.

“Este estudo apresenta as primeiras evidências de que microplásticos estão alcançando girinos na Amazônia, uma região sobre a qual temos muito poucos dados”, disse à Mongabay Jess Hua, pesquisadora de ecologia de água doce e de anfíbios que não participou do estudo.

“Isso é importante porque os anfíbios representam o grupo de vertebrados mais ameaçado e, para sua conservação, é fundamental entender as ameaças potenciais, incluindo os microplásticos.”

Hua acrescentou que a contaminação por microplásticos em ecossistemas de água doce ainda é muito menos estudada do que em ambientes marinhos.

Por mais informação informação sobre o problema da contaminação de microplásticos na Amazônia, clicar [ Aqui!].


Fonte: Mongabay Brasil

Reino Unido endurece regras contra o desmatamento ilegal: um sinal de alerta para o modelo agroexportador brasileiro

O anúncio do governo  do Reino Unido de que irá fortalecer a legislação para impedir a entrada de produtos associados ao desmatamento ilegal representa mais um passo na consolidação de um novo padrão de governança ambiental no comércio internacional. A proposta prevê que empresas que comercializam commodities como soja, óleo de palma, cacau, borracha e, potencialmente, café comprovem que suas cadeias de suprimento não estão vinculadas à supressão ilegal de florestas. O governo britânico também pretende reforçar os mecanismos de diligência das empresas e ampliar a rastreabilidade dos produtos importados.

Embora a medida tenha como foco imediato o combate ao desmatamento ilegal, suas implicações vão muito além do mercado britânico. Ela reforça uma tendência já iniciada pela União Europeia de exigir cadeias produtivas livres de desmatamento, deslocando o debate ambiental para o centro das relações comerciais internacionais. Em outras palavras, preservar florestas deixa de ser apenas uma questão ambiental para se tornar uma exigência crescente de acesso aos principais mercados consumidores.

Para o Brasil, esse movimento do Reino Unido deveria soar como um alerta estratégico. Afinal, a expansão recente da produção de commodities agrícolas continua exercendo enorme pressão sobre dois dos principais biomas do país: a Amazônia e o Cerrado. A abertura de novas áreas para o cultivo de soja, milho, algodão e, em determinadas regiões, também de cana-de-açúcar, permanece como um dos principais vetores da conversão de vegetação nativa em áreas cultivadas com commodities agrícolas de xportação. Ainda que parte dessa expansão ocorra em áreas anteriormente ocupadas por pastagens, numerosos estudos demonstram que esse processo frequentemente desencadeia um efeito indireto de deslocamento da pecuária para novas fronteiras agrícolas, alimentando novos ciclos de desmatamento, como foi o caso da soja em Rondônia.

Outro aspecto que merece atenção diz respeito ao café. Embora tradicionalmente associado a regiões consolidadas do Sudeste, a cafeicultura poderá enfrentar exigências muito mais rigorosas de rastreabilidade, sobretudo porque o próprio governo britânico já cita o café entre os produtos sujeitos às novas regras. Isso significa que produtores e exportadores brasileiros poderão ter de demonstrar, com documentação robusta e sistemas georreferenciados, que suas lavouras não resultaram da conversão recente de áreas florestais.

Entretanto, talvez o efeito menos discutido dessas novas exigências recaia justamente sobre a agricultura familiar. A implantação de sistemas de rastreabilidade, certificação e comprovação documental envolve custos financeiros, assistência técnica e acesso a tecnologias que grandes grupos do agronegócio tendem a absorver com relativa facilidade. Pequenos produtores, por outro lado, podem encontrar dificuldades muito maiores para atender a esses requisitos.

Um paradoxo me parece evidente evidente. Uma política concebida para proteger as florestas poderá, caso não seja acompanhada de políticas públicas específicas por parte do Brasil, aumentar a concentração econômica das cadeias produtivas, favorecendo empresas altamente capitalizadas e dificultando o acesso de agricultores familiares aos mercados internacionais.

Essa possibilidade exige uma resposta que vá além do discurso oficial de defesa do agronegócio.  Parece mais do que evidente que será necessário ampliar significativamente a assistência técnica pública, fortalecer sistemas nacionais de rastreabilidade, investir em regularização fundiária e ambiental e criar mecanismos que permitam aos pequenos produtores cumprir as novas exigências sem serem excluídos do mercado.

Mais importante ainda, o Brasil precisa compreender que a crescente preocupação internacional com o desmatamento não constitui uma tendência passageira nem uma simples barreira comercial disfarçada.  Esta é uma transformação estrutural na forma como os mercados globais avaliam risco ambiental, climático e reputacional.

Persistir na expansão desordenada da fronteira agrícola sobre a Amazônia e o Cerrado pode gerar ganhos de curto prazo para os latifundiários, mas tende a ampliar custos econômicos, comerciais e diplomáticos no médio e longo prazo.  Desta forma, o verdadeiro desafio consiste em aumentar a produtividade agrícola sem converter novos ecossistemas naturais — um objetivo que depende muito mais de inovação tecnológica, recuperação de áreas degradadas e planejamento territorial do que da contínua incorporação de novas terras. E de mecanismos de distribuição de crédito que não sejam formas veladas de impulsionamento do desmatamento na Amazônia e no Cerrado.

É importante frisar que este movimento do Reino Unido apenas reforça uma tendência que já se consolidava na União Europeia: daqui em diante, preservar florestas não será apenas uma responsabilidade ambiental, mas uma condição cada vez mais indispensável para permanecer competitivo nos mercados internacionais. O problema é que, se o Brasil insistir em apostar na expansão horizontal da produção agrícola, os custos dessa escolha poderão recair não apenas sobre as florestas brasileiras, mas também sobre milhares de pequenos produtores que dificilmente conseguirão atender, sem apoio estatal, às novas exigências impostas pelo comércio global.

Da Amazônia para os jardins da Europa: como a madeira ilegal brasileira continua atravessando oceanos sob o selo da “sustentabilidade”

Investigação da Earthsight revela que madeira oriunda de uma empresa multada, condenada criminalmente e alvo de sucessivas suspensões chegou ao mercado holandês com o respaldo de sistemas de certificação que deveriam impedir justamente esse tipo de fraude

No último Dia Mundial das Florestas Tropicais, a organização investigativa Earthsight publicou uma reportagem que deveria causar constrangimento tanto em Brasília quanto em Bruxelas. O trabalho mostra como milhares de metros cúbicos de madeira extraída na Amazônia brasileira chegaram ao mercado holandês apesar de um histórico de infrações ambientais, multas milionárias, condenações criminais e suspensões administrativas envolvendo a empresa fornecedora. Mais uma vez, a realidade expõe a enorme distância entre os discursos corporativos sobre sustentabilidade e o funcionamento concreto das cadeias globais de commodities.

O foco da investigação é a empresa Samise Indústria, Comércio e Exportação Ltda., uma das maiores exploradoras de madeira da Amazônia brasileira. Segundo a Earthsight, análises de imagens de satélite, documentos oficiais, processos judiciais e registros de transporte revelaram uma longa lista de irregularidades associadas às operações da empresa na Floresta Nacional Saracá-Taquera, no Pará. Entre elas aparecem acusações de fraude, manipulação de identificação de toras, descumprimento de embargos e transporte de madeira durante períodos em que suas atividades estavam oficialmente suspensas pelos órgãos de fiscalização.

O aspecto mais revelador da investigação não é apenas a existência das irregularidades. Afinal, quem acompanha a história recente da Amazônia sabe que a extração ilegal de madeira continua sendo uma das principais portas de entrada para processos mais amplos de degradação ambiental, grilagem de terras públicas e desmatamento. O mais perturbador é que essa madeira conseguiu percorrer toda a cadeia de comercialização internacional e chegar a consumidores europeus ostentando certificados ambientais que, em tese, deveriam funcionar como garantias de legalidade.

Segundo a Earthsight, empresas holandesas adquiriram grandes volumes de angelim-vermelho provenientes da cadeia de fornecimento da Samise. Essa madeira acabou sendo utilizada em decks, passarelas e outras estruturas urbanas na Holanda. Em alguns casos, os compradores declaravam comercializar apenas produtos certificados, reforçando a crença de que a certificação seria suficiente para afastar riscos de ilegalidade. A investigação mostra exatamente o contrário. Mesmo após sucessivas suspensões do certificado FSC da empresa amazônica, a madeira continuou circulando normalmente pelos canais comerciais internacionais.

Esse ponto merece atenção especial porque desmonta uma narrativa que vem sendo repetida há décadas. A certificação florestal foi apresentada como uma solução de mercado capaz de resolver problemas ambientais complexos sem necessidade de ampliar significativamente a capacidade de fiscalização do Estado. A lógica era simples: consumidores conscientes comprariam produtos certificados, empresas seriam recompensadas por boas práticas e o mercado eliminaria gradualmente os infratores. O problema é que essa lógica depende de sistemas de auditoria extremamente rigorosos, independentes e transparentes. Quando esses sistemas falham, a certificação deixa de ser um instrumento de proteção ambiental e passa a funcionar como uma ferramenta de legitimação.

A investigação da Earthsight sugere justamente isso. O FSC, considerado o principal selo de certificação florestal do mundo, manteve válida a certificação da Samise durante grande parte do período em que as acusações e sanções administrativas se acumulavam. O certificado só foi definitivamente cancelado em março de 2026, exatamente quando a Earthsight compartilhava suas conclusões com as entidades responsáveis. A coincidência é, no mínimo, desconfortável.

Mas há uma dimensão ainda mais ampla nessa história. O caso evidencia as limitações da própria governança ambiental internacional. Durante anos, a União Europeia apresentou sua legislação sobre madeira como um modelo global de combate à importação de produtos associados à ilegalidade. Entretanto, a investigação demonstra que a excessiva dependência de certificações privadas abriu brechas significativas para a entrada de madeira de origem duvidosa no mercado europeu. A própria Earthsight argumenta que a nova legislação europeia contra o desmatamento (EUDR) só terá alguma efetividade se as autoridades abandonarem a confiança quase automática nos selos ambientais e realizarem verificações independentes e aprofundadas.

Para nós, brasileiros, o caso oferece uma reflexão adicional. Em um momento em que o governo federal discute a ampliação das concessões florestais na Amazônia, a investigação mostra que a mera existência de planos de manejo e certificações não elimina riscos de fraude, captura institucional e exploração predatória. Pelo contrário. Quando interesses econômicos poderosos se combinam com capacidades limitadas de fiscalização, até mesmo mecanismos concebidos para proteger a floresta podem ser convertidos em instrumentos de sua degradação.

Existe ainda uma ironia difícil de ignorar. Muitos dos países que cobram do Brasil maior responsabilidade ambiental continuam consumindo madeira, minérios, carne e outras commodities oriundas de regiões marcadas por conflitos fundiários, desmatamento e fragilidade institucional. O problema não está apenas na produção. Está também na demanda. Enquanto houver consumidores dispostos a aceitar certificados como substitutos da verificação efetiva da origem dos produtos, o mercado continuará premiando cadeias produtivas que operam nas zonas cinzentas da legalidade.

No final das contas, a investigação da Earthsight reforça uma velha lição da Amazônia: a floresta não é destruída apenas por motosserras. Ela também é destruída por formulários preenchidos de forma conveniente, auditorias complacentes, certificações frágeis e cadeias globais de comércio que transformam a ilegalidade em mercadoria aparentemente legítima. A madeira que hoje compõe elegantes decks e passarelas na Holanda carrega consigo não apenas fibras vegetais amazônicas, mas também as marcas profundas de um sistema internacional que continua encontrando maneiras de lucrar com a destruição da maior floresta tropical do planeta.

Guerra na Amazônia

O candidato presidencial Luiz Inácio Lula da Silva se reúne com pesquisadores, cientistas e lideranças indígenas no Museu da Amazônia (MUSA), em Manaus. Imagem: Alberto César Araújo/Amazônia Real/Creative Commons 2.0. 

Por Angela Mendes e  Pricila Cardoso de Aquino para “The Ecologist”

A Amazônia responde por mais da metade de todos os conflitos rurais no Brasil atualmente. Regiões como o Amacró – que engloba partes do Acre, Amazonas e Rondônia – estão emergindo como novos focos de violência, onde a expansão econômica avança lado a lado com a grilagem de terras, o desmatamento e os assassinatos.

LEITURA ADICIONAL: UM ACERTO DE CONTAS NA AMAZÔNIA

No debate público internacional, a guerra e o meio ambiente ainda são tratados, em grande parte, como questões separadas. De um lado, estão os conflitos armados, as crises humanitárias e as disputas geopolíticas. Do outro, o desmatamento, as mudanças climáticas e as ameaças contra os defensores do meio ambiente. 

Essa separação, contudo, já não reflete a realidade. Na Amazônia, essas dimensões se sobrepõem. A destruição ambiental não é mera consequência — faz parte de um processo ativo de disputa territorial, controle econômico e exercício do poder. 

Histórico

Embora alguns territórios não estejam oficialmente em guerra, seus habitantes vivem em condições mais comumente associadas à guerra. A Amazônia é um dos exemplos mais claros desse fenômeno. 

Na região, a violência raramente é isolada: ela é estrutural. A grilagem de terras, o desmatamento, a mineração ilegal, a extração de ouro em larga escala, o tráfico de drogas, a exploração madeireira ilegal e a lavagem de dinheiro não operam em compartimentos separados. 

Pelo contrário, funcionam de forma coordenada, como engrenagens dentro do mesmo sistema que transforma a floresta em um ativo econômico e o território em uma arena de disputa. Nesse contexto, a floresta deixa de ser meramente um patrimônio ambiental e se torna um sítio estratégico.

Controlar a terra significa controlar os recursos naturais, as rotas logísticas, as cadeias produtivas e o poder político local. Os rios tornam-se corredores para o crime. As áreas desmatadas são convertidas em ocupações irregulares. Os territórios fragilizados pela ausência do Estado transformam-se em zonas de vulnerabilidade institucional.

Os dados mais recentes da Comissão Pastoral da Terra (CPT) do Brasil ajudam a ilustrar a dimensão desse cenário. 

Em seu relatório anual mais recente, a organização registrou mais de 2.000 conflitos rurais no Brasil — o segundo maior número em sua série histórica — com aumentos significativos em práticas como queimadas criminosas (aumento de 113%) e desmatamento ilegal (aumento de 39%). 

Conflitos

A Amazônia concentra a maioria desses casos (1.180 de um total de 2.185 conflitos), consolidando sua posição como o centro da violência relacionada à terra no país.

Esse cenário não é abstrato. Ele se materializa em pessoas, territórios e histórias. Foi na Amazônia que Chico Mendes foi assassinado por defender a floresta e os povos que nela vivem. Sua morte não foi um episódio isolado — fez parte de um processo que continua em curso.

Foi essa guerra que matou Chico Mendes. E é essa mesma guerra que continua matando hoje. 

Décadas depois, líderes continuam sendo ameaçados, criminalizados e assassinados por protegerem seus territórios. Povos indígenas, comunidades quilombolas, populações ribeirinhas, extrativistas e outras comunidades tradicionais frequentemente estão na linha de frente da proteção. 

Esses grupos conscientizam a população sobre invasões, monitoram o desmatamento, preservam modos de vida sustentáveis ​​e mantêm barreiras reais contra a expansão predatória. Por esse motivo, tornam-se alvos de ameaças, intimidação, criminalização e violência letal.

O aumento da violência na região do Amacró ilustra dramaticamente a continuidade desse conflito. A região representa uma das novas fronteiras da expansão econômica na Amazônia, onde o avanço do agronegócio e da ocupação irregular é acompanhado por conflitos fundiários, violência e assassinatos. Somente em 2023, foram registrados oito homicídios ligados a essas disputas. 

Multiplicador

Esses não são casos excepcionais — são indícios de um padrão que acompanha o avanço desordenado pela floresta.

O Acre, estado onde Chico Mendes viveu e morreu, voltou a ganhar destaque, figurando entre os dez estados brasileiros com o maior número de conflitos fundiários. Em 2024, foram registrados 59 conflitos relacionados à terra, envolvendo despejos, destruição de casas, ameaças e ataques contra comunidades. A violência não desapareceu. Ela se reorganizou.

Quando um líder comunitário é assassinado, a reação pública muitas vezes trata o caso como um incidente isolado. Não é. Em muitos contextos, esses assassinatos representam a eliminação de um “obstáculo” à expansão econômica ilegal ou abusiva. O assassinato de defensores do meio ambiente também deve ser compreendido como um mecanismo de controle territorial.

A crise climática intensifica esse processo. A escassez de água, a pressão sobre a terra, a competição por minerais estratégicos, a expansão das fronteiras agrícolas e o crescente valor dos recursos naturais aumentam as disputas locais e regionais. 

O clima deixou de ser apenas um pano de fundo: tornou-se um multiplicador de tensões. Falar de política climática, portanto, é também falar de segurança pública, governança democrática e prevenção de conflitos.

Proteção

Ainda assim, as respostas institucionais permanecem fragmentadas. Crimes ambientais são frequentemente tratados como infrações administrativas ou delitos menores. Violações de direitos humanos seguem vias institucionais distintas. Corrupção, lavagem de dinheiro e crime organizado são tratados em instâncias isoladas. O resultado é previsível: esses problemas, inerentemente interligados, enfrentam respostas compartimentadas.

Existe também uma grave lacuna de responsabilização. Em muitos casos, a lei atinge o operador local: o invasor, o intermediário, o perpetrador direto. Mas raramente atinge os financiadores, os beneficiários econômicos, as cadeias de suprimentos globais e as estruturas corporativas que lucram com a destruição. Os responsabilizados são a periferia visível do problema; o núcleo econômico permanece protegido.

Esse fracasso não é apenas brasileiro. É global. Os mercados internacionais consomem commodities ligadas ao desmatamento. Investidores financiam atividades com alto risco socioambiental. 

As empresas terceirizam os impactos ao longo de toda a cadeia de suprimentos. As instituições financeiras operam longe dos territórios onde os danos se materializam. Enquanto isso, as comunidades locais arcam com os custos humanos, culturais, sociais e ecológicos.

Por essa razão, o direito internacional e os sistemas jurídicos nacionais devem avançar em três caminhos.

A primeira é reconhecer os defensores do meio ambiente como agentes centrais da proteção climática e da democracia territorial. Isso exige mecanismos de proteção reais e uma investigação rápida das ameaças, visto que o Estado prioriza a prevenção da violência. Homenagens póstumas e declarações de condenação não bastam.

Biodiversidade

A segunda medida é o fortalecimento da capacidade forense e da cooperação internacional. O monitoramento por satélite, a rastreabilidade da cadeia de suprimentos, a perícia financeira, a inteligência territorial e a cooperação transnacional são agora ferramentas indispensáveis. Sem provas robustas, a impunidade continuará sendo o combustível mais barato para a destruição.

A terceira é a ampliação da responsabilidade econômica. Isso inclui obrigações de diligência prévia corporativa, transparência na cadeia de suprimentos, controle dos fluxos financeiros e sanções eficazes contra aqueles que se beneficiam de violações socioambientais. 

O crescente debate internacional em torno do ecocídio — embora ainda em desenvolvimento — reflete uma compreensão cada vez maior de que danos ambientais massivos não podem permanecer sem uma resposta proporcional.

No caso do Brasil, a Amazônia deve ocupar um lugar central em qualquer estratégia séria de desenvolvimento, segurança e posicionamento internacional. Não apenas por sua biodiversidade, mas porque concentra alguns dos desafios mais complexos do século XXI: clima, soberania, crime organizado, desigualdade, direitos territoriais e socioambientais e governança institucional.

Destruição

Persistir na ideia de que isso é meramente uma “agenda ambiental” é um erro estratégico. A Amazônia também representa uma agenda econômica, uma agenda democrática e uma agenda de segurança.

O Brasil possui capacidade técnica, instituições e sociedade civil capazes de liderar respostas inovadoras. O que muitas vezes falta é a disposição para abandonar o pensamento setorial e reconhecer a dimensão sistêmica do problema.

A guerra que o mundo imagina é aquela que aparece nas manchetes acompanhada de tanques, fronteiras militarizadas e declarações formais. A guerra que se desenrola em partes da Amazônia é silenciosa, difusa e persistente. Ela se manifesta por meio de motosserras, dragas, pistas de pouso clandestinas, ameaças não relatadas e corpos caídos longe das câmeras.

Foi essa guerra que matou Chico Mendes. E é essa mesma guerra que continua matando hoje. Pode não ter o mesmo nome. Mas ela produz medo, invasão, morte e destruição territorial. E ignorá-la é uma escolha política muito custosa para o Brasil e para o mundo.

Autoras

Angela Mendes é ativista socioambiental e especialista em gestão ambiental. Atualmente, preside o Comitê Chico Mendes, um movimento criado para preservar e disseminar a memória e os ideais do seringueiro Chico Mendes, assassinado em 1988 enquanto lutava pela conservação da Amazônia e das florestas tropicais do mundo. O Comitê Chico Mendes também integra a Conexão Cipó, uma rede formada por dez organizações da sociedade civil do Acre que atuam na defesa dos direitos socioambientais.

Pricila Cardoso de Aquino é doutoranda em direito socioambiental pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e mestre em meio ambiente e desenvolvimento pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Ela é coordenadora de clima e América Latina no Centro de Defesa do Direito Ambiental (EDLC), que integra a Conexão Cipó, rede formada por dez organizações da sociedade civil do Acre que atuam na defesa dos direitos socioambientais.


Fonte: The Ecologist

Isolamento e desigualdade travam transição energética na Amazônia

Na Amazônia, a energia limpa das hidrelétricas contrasta com comunidades ainda dependentes do diesel. 

Um novo estudo brasileiro, publicado na urbe. Revista Brasileira de Gestão Urbana, revela que a transição energética na Amazônia Legal enfrenta realidades muito distintas, que variam da extrema dependência de fontes fósseis a matrizes altamente diversificadas. A pesquisa foi conduzida por pesquisadores da Universidade do Estado do Pará (UEPA).

A região, que concentra uma imensa riqueza de recursos naturais e abriga mais de 30 milhões de pessoas, vive um cenário de contrastes diários na forma como consome energia. Enquanto grandes usinas hidrelétricas instaladas ali exportam eletricidade renovável para o restante do país, milhares de famílias em comunidades isoladas amazônicas ainda dependem da queima rotineira de óleo diesel para iluminar suas casas. Essa limitação estrutural encarece o custo de vida e eleva as emissões de carbono em um bioma vital para o clima global.

Para entender essa assimetria, a equipe analisou indicadores ao longo de duas décadas, unindo dados ambientais, sociais e econômicos. A abundância de rios, ventos e sol não se mostrou suficiente para resolver o problema automaticamente. O grande gargalo regional é a falta de tecnologia acessível, a ausência de infraestrutura de distribuição e a gestão desigual dos recursos gerados.

“Muita gente pensa que a Amazônia é tudo igual, mas cada estado é diferente. Por mais que existam grandes hidrelétricas, como no estado do Pará, a maioria dessa oferta de energia não vai para a Amazônia Legal, mas, sim, para os outros estados. Além disso, as tecnologias de energia renovável ainda são caras para serem custeadas, principalmente pela nossa população”, explica Lucas Nunes, autor principal do estudo.

O mapeamento também expôs o impacto direto do rápido crescimento urbano sobre o meio ambiente amazônico. Municípios que atraem mais habitantes demandam mais transporte, bens e serviços. Sem um planejamento ágil, essa pressão esgota recursos naturais, eleva o consumo energético e multiplica rapidamente a poluição atmosférica regional.

“Quanto mais pessoas crescem em um estado ou num município, mais recursos são necessários para sustentá-las. O problema não é a urbanização em si, mas a urbanização em excesso. É preciso obter tecnologia para ter uma matriz mais diversa, incluindo a eólica, a solar e a biomassa, para minimizar esses impactos”, destaca o pesquisador.

Muitas famílias ficam reféns das opções mais poluentes simplesmente porque o acesso a alternativas seguras depende de redes logísticas complexas. Regiões remotas da bacia amazônica sofrem ainda mais com essa dependência porque não estão conectadas à rede nacional de distribuição de energia elétrica, o que requer soluções de transporte custosas para garantir o básico diário.

“A região amazônica tem uma composição florestal bem densa, e isso dificulta o acesso à energia. Para suprir essa limitação, é preciso investir na geração de energia descentralizada ou distribuída, que está mais próxima de nós e não precisa de grandes áreas, sendo atrelada ao convívio daquela comunidade”, ressalta Nunes.

Para mudar esse quadro, os governos estaduais e o Governo Federal precisam integrar as dimensões econômica, social e ambiental em seus atos normativos. Ferramentas recentes de monitoramento de dados, como o Atlas Brasileiro da Transição Energética, lançado de forma inédita pelo Ministério de Minas e Energia (MME) no primeiro semestre de 2025, auxiliam na coordenação das políticas e no mapeamento de vocações locais. O futuro socioeconômico da Amazônia depende de estratégias descentralizadas que transformem resíduos, luz solar e ventos locais em energia acessível para quem realmente vive no território.


Fonte: Agência Bori

Amazônia e bolsonarismo: um encontro marcado pela contradição

Por IsmaeL machado*

Toda visita de um representante da família Bolsonaro à Amazônia produz uma cena política peculiar. Seus discursos costumam evocar desenvolvimento, soberania nacional e liberdade econômica. Arrastam seguidores vestidos com as cores da seleção brasileira de futebol, a quem inclusive Flavio Bolsonaro teve o desplante de chamar de ‘camisa de meu pai’. À primeira vista, trata-se de conceitos legítimos e desejáveis. Mas basta observar com atenção a história da região para perceber que, muitas vezes, essas palavras carregam significados profundamente distintos daqueles defendidos por quem vive, pesquisa e luta pela Amazônia. É como se fossem o chamado ‘ouro de tolo’. A presença de Flávio Bolsonaro no Pará inevitavelmente reacende um debate que ultrapassa a disputa eleitoral. Trata-se de uma discussão sobre projetos de país e, sobretudo, sobre visões radicalmente distintas a respeito da Amazônia.

A contradição não está apenas em medidas específicas ou em governos determinados. Ela é mais profunda. Trata-se do choque entre duas formas de imaginar a própria existência da Amazônia. E como a família Bolsonaro atende mais a uma chamada necropolítica que a uma política de vida, com o zero alguma coisa, a Amazônia corre mais riscos que nunca. Não que esteja atualmente em boas condições de um olhar maduro sobre si, já que há um desenvolvimentismo latente em Lula que não condiz com o que, pelo menos eu, gostaria que fosse o futuro dessa região.

Historicamente, a região foi tratada pelo Estado brasileiro como uma fronteira a ser conquistada. Nunca como uma sociedade complexa. Desde o ciclo da borracha, passando pelos grandes projetos de integração nacional da ditadura militar, a floresta foi frequentemente percebida como um vazio demográfico e econômico à espera de ocupação. A famosa expressão “integrar para não entregar” sintetizou essa visão.

foto ismael machado

O problema é que a Amazônia nunca foi um vazio. Antes da chegada dos colonizadores, milhões de pessoas habitavam a região. Povos indígenas desenvolveram sistemas sofisticados de manejo ambiental, construíram redes comerciais, produziram conhecimento sobre biodiversidade e transformaram a floresta sem destruí-la. Mesmo após séculos de violência colonial, essas populações continuam presentes e continuam reivindicando seu direito de existir.

O bolsonarismo, entretanto, herda em grande medida uma tradição política que vê esses grupos como obstáculos ao desenvolvimento. Quando lideranças indígenas são acusadas de impedir o progresso ou quando a demarcação de terras é apresentada como um entrave econômico, o que está sendo questionado? No fundo, o próprio direito dessas populações de definir seus modos de vida.

Por trás dessa disputa existe uma questão filosófica fundamental sobre quem tem o direito de decidir o futuro da Amazônia. A visão bolsonarista costuma responder que esse futuro deve ser definido prioritariamente pelo mercado, pela propriedade privada e pelos grandes investimentos econômicos, mas entregando tudo de mão beijada, tirando da frente qualquer sistema regulatório e fiscalizatório. A floresta aparece como recurso. A terra aparece como ativo econômico. Os rios aparecem como potencial energético. A biodiversidade aparece como matéria-prima. Que sejam disponibilizadas a quem tem dinheiro. Outro dia, o Ministério Público interveio para impedir o leilão de uma área de praia em Santarém, que seria privatizada.

Mas existe outra perspectiva, cada vez mais defendida por pesquisadores, movimentos sociais e comunidades tradicionais. Nela, a Amazônia não é apenas um estoque de recursos. É uma rede complexa de relações entre seres humanos, territórios, culturas e ecossistemas. Essa diferença parece abstrata, mas produz consequências concretas. Claro, precisamos achar soluções econômicas para a região, mas não de forma predatória como frequentemente se vê.

Quando a floresta é vista simplesmente como recurso econômico, a destruição pode ser justificada em nome do crescimento. O desmatamento torna-se um efeito colateral aceitável para o desenvolvimento. Os conflitos fundiários passam a ser tratados como inevitáveis. A expulsão de comunidades tradicionais é apresentada como custo do progresso. É essa a promessa dos bolsonaros a monocultores latifundiários, ao garimpo ilegal, aos acusados de trabalho escravo. Vimos isso entre 2019 e 2022.

As políticas defendidas pelo bolsonarismo foram frequentemente criticadas por enfraquecer mecanismos de fiscalização ambiental, questionar demarcações de terras indígenas e estimular uma narrativa segundo a qual a proteção ambiental seria um obstáculo ao desenvolvimento. Essa visão ignora um dado fundamental. A destruição da floresta não representa desenvolvimento sustentável para a Amazônia. Ao contrário, tende a aprofundar conflitos fundiários, ampliar a concentração de renda e acelerar processos de degradação ambiental que atingem diretamente as populações locais.

Quando a floresta é compreendida como condição de existência, porém, a lógica muda completamente. Preservar deixa de ser obstáculo ao desenvolvimento e passa a ser requisito para qualquer projeto econômico duradouro. A própria crise climática mundial tornou essa questão incontornável. Há alguns anos as pautas discursivas sobre a Amazônia passaram a incluir a justiça climática, que basicamente significa compreender que a crise climática não afeta todas as pessoas da mesma forma. Embora o aquecimento global seja um fenômeno planetário, seus impactos recaem de maneira desproporcional sobre populações que historicamente contribuíram muito pouco para a destruição ambiental. Essa é uma das grandes contradições amazônicas.

Os povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, extrativistas e agricultores familiares da região estão entre aqueles que menos emitem gases de efeito estufa. Seus modos de vida, em muitos casos, são baseados justamente na conservação da floresta, no manejo sustentável dos recursos naturais e em formas de ocupação de baixo impacto ambiental. No entanto, são essas populações que frequentemente enfrentam primeiro os efeitos das mudanças climáticas, como as secas extremas, alterações no ciclo dos rios, perda de biodiversidade, insegurança alimentar, aumento das queimadas e eventos climáticos cada vez mais imprevisíveis.

Hoje sabemos que a Amazônia desempenha papel decisivo na regulação climática do continente sul-americano. Seus rios voadores influenciam o regime de chuvas que sustenta a agricultura em diversas regiões do Brasil. Sua biodiversidade abriga conhecimentos ainda desconhecidos pela ciência. Sua destruição afeta o país inteiro.

O que a ideologia bolsonarista defende? Políticas que flexibilizam controles ambientais ou enfraquecem órgãos de fiscalização. Isso significa apostar num modelo de desenvolvimento cada vez mais questionado pela própria realidade ecológica do século XXI.

Lembremos que a Amazônia é um território marcado por massacres, expulsões e disputas violentas pela terra. O Pará conhece essa história melhor do que quase qualquer outro estado brasileiro. Nomes como a Guerrilha do Araguaia, a violência contra povos indígenas, os conflitos agrários do sul e sudeste do estado e o Massacre de Eldorado dos Carajás, para ficar nesses exemplos simples, revelam um padrão histórico de concentração fundiária e exclusão social.

Por isso, quando determinados discursos exaltam apenas a expansão econômica e silenciam sobre direitos humanos, reforma agrária, proteção territorial ou justiça ambiental, acabam reproduzindo uma lógica antiga. A ideia de que a Amazônia existe para servir a interesses externos, e não para garantir dignidade às populações que nela vivem. Talvez seja justamente nesse ponto que a incompatibilidade entre a Amazônia e o bolsonarismo se torne mais evidente.

A Amazônia contemporânea exige diálogo, diversidade, ciência, proteção ambiental e reconhecimento dos direitos territoriais. O bolsonarismo, por sua vez, consolidou-se politicamente por meio de uma retórica de confronto com quase tudo e todos. Ambientalistas, movimentos sociais, organizações internacionais, universidades e, frequentemente, com os próprios povos indígenas. São concepções distintas de democracia, de natureza e de futuro.

No fundo, a pergunta é simples. Devemos discutir se a Amazônia deve ser tratada como uma fronteira econômica a ser conquistada ou como uma civilização socioambiental a ser preservada e fortalecida? A resposta a essa pergunta define o destino do Brasil. Porque a Amazônia não é um problema a ser resolvido. É uma possibilidade histórica a ser compreendida. E qualquer projeto político que não consiga enxergar essa complexidade corre o risco de repetir os erros que, há décadas, transformam riqueza natural em desigualdade social. O jovem Flávio Bolsonaro representa o que de mais velho e antigo (não no sentido de sabedoria e experiência, mas de ultrapassado e arcaico) pode advir para a Amazônia. Que impeçamos seu avanço sobre nós.

*Ismael Machado é jornalista


Fonte: Medium

Grilagem S.A.: como a privatização ilegal de terras públicas alimenta a destruição da Amazônia

Artigo publicado na revista Environmental Science & Policy mostra que a grilagem funciona como uma engrenagem organizada que conecta especulação fundiária, desmatamento, violência e captura do Estado, transformando a floresta em ativo financeiro

O artigo “Forms of land grabbing in the Amazon: From land deals to illegal land appropriation, assinado por Rayane Pacheco, Natalia Valdivieso Kastner e Amy Penfield e publicado na revista Environmental Science & Policy (Elsevier, 2026), oferece uma das sínteses mais abrangentes já produzidas sobre um dos principais motores da devastação amazônica: a apropriação privada de terras públicas,  popularmente conhecida  como grilagem.

Mais do que uma revisão bibliográfica, o trabalho demonstra que a disputa pela terra na Amazônia não pode ser reduzida à simples expansão da fronteira agrícola ou a conflitos fundiários isolados. Trata-se de um sistema complexo de acumulação de riqueza baseado na privatização ilegal de bens públicos, na expulsão de populações tradicionais e na transformação da floresta em ativo financeiro.

Um dos maiores méritos do artigo é mostrar que o conceito de land grabbing (“apropriação de terras”) precisa ser ampliado para abarcar diferentes modalidades de controle territorial. As autoras identificam duas grandes categorias: os land deals, que envolvem grandes aquisições ou concessões de terras por governos e corporações, e os land seizures ou encroachments, que correspondem à ocupação e apropriação ilegal de terras públicas ou privadas por grupos privados.

Essa distinção é particularmente importante para compreender a realidade brasileira. Enquanto boa parte da literatura internacional associa o land grabbing à compra de grandes extensões por investidores estrangeiros, na Amazônia o fenômeno assume predominantemente a forma da grilagem de terras públicas, realizada por agentes nacionais ligados ao agronegócio, à mineração, à exploração madeireira e à especulação fundiária.

Os dados reunidos pelas autoras são eloquentes. A revisão analisou 219 publicações produzidas entre 1982 e 2026 e constatou que 83% dos estudos concentram-se no Brasil. Entre eles, 44,5% tratam especificamente da apropriação ou ocupação ilegal de terras, sendo a forma mais recorrente a privatização de áreas públicas por atores privados.

O artigo desmonta ainda um dos mitos mais difundidos sobre a ocupação da Amazônia: o de que a destruição da floresta seria resultado da ação espontânea de pequenos agricultores ou posseiros. Pelo contrário, as autoras mostram que a grilagem moderna funciona como uma verdadeira cadeia empresarial.

Existe uma divisão organizada de funções. Há financiadores que aportam capital, gestores responsáveis pela falsificação documental e pela coordenação das operações, pistoleiros encarregados da expulsão violenta de moradores e comunidades tradicionais, “laranjas” utilizados para registrar propriedades fictícias e colaboradores instalados dentro do próprio aparelho estatal, incluindo cartórios, órgãos públicos e agentes políticos.

Essa descrição aproxima-se muito do conceito de máfia da terra, utilizado por diversos pesquisadores brasileiros e estrangeiros e citado pelas autoras. Não se trata de criminalidade difusa, mas de uma estrutura organizada que conecta interesses econômicos, violência privada e fragilidades institucionais.

Outro aspecto extremamente relevante é a descrição da sequência operacional da grilagem.  Primeiro ocorre a ocupação da área pública. Em seguida vem a extração seletiva de madeira de alto valor comercial. Depois realiza-se a derrubada e a queima da floresta, convertendo-a em pastagem. A presença de gado, por sua vez, funciona como demonstração de “uso produtivo” da terra, aumentando seu valor de mercado e fortalecendo futuras reivindicações de regularização fundiária. Finalmente, a área é registrada, subdividida e revendida para grandes empreendimentos agropecuários ou investidores.  Essa sequência revela uma constatação incômoda: o desmatamento não é um efeito colateral da ocupação territorial; ele é parte integrante da estratégia de apropriação da terra.

Nesse sentido, o artigo dialoga diretamente com uma vasta literatura brasileira que identifica a especulação fundiária como um dos principais motores da devastação amazônica. Derrubar a floresta significa produzir uma “benfeitoria” que valoriza economicamente o imóvel e aumenta suas chances de futura regularização.

As autoras também oferecem uma análise particularmente interessante sobre o Cadastro Ambiental Rural (CAR). Criado originalmente como instrumento de monitoramento ambiental, o sistema passou a ser utilizado por grileiros como uma espécie de comprovação informal de posse.

Por ser um cadastro autodeclaratório, o CAR permite que ocupantes ilegais registrem áreas públicas em seu nome, criando uma aparência de legalidade que posteriormente pode servir como argumento para obtenção de títulos definitivos ou acesso a crédito rural. O resultado é um paradoxo institucional: um mecanismo concebido para proteger a floresta acaba sendo apropriado como ferramenta de expansão da grilagem.

O texto também destaca como mudanças legislativas, anistias sucessivas e discursos políticos favoráveis à flexibilização ambiental contribuem para alimentar expectativas de impunidade. Quando invasões passadas são posteriormente regularizadas, cria-se um incentivo permanente para novas ocupações ilegais.

Talvez a principal contribuição do artigo seja demonstrar que a grilagem não pode ser interpretada apenas como um problema fundiário ou ambiental. Ela representa um mecanismo de acumulação de capital baseado na privatização de patrimônio público, articulando especulação imobiliária, expansão do agronegócio, exploração madeireira, mineração, lavagem de dinheiro e violência contra povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos agricultores.

As recomendações apresentadas pelas autoras são claras: destinar imediatamente as florestas públicas ainda não designadas para unidades de conservação ou territórios indígenas; fortalecer os sistemas de regularização fundiária sem premiar ocupações ilegais; integrar cadastros ambientais e registros de propriedade; interromper sucessivas mudanças legais que enfraquecem a proteção territorial; e investigar os esquemas financeiros que sustentam a grilagem e a lavagem de dinheiro.

O trabalho de Pacheco, Kastner e Penfield é particularmente oportuno porque evidencia que a Amazônia continua sendo tratada como uma fronteira aberta para a acumulação privada, onde o patrimônio coletivo é convertido em riqueza particular por meio da violência, da fraude documental e da captura das instituições públicas.

No fim das contas, a grilagem não é apenas uma disputa pela terra. É uma disputa pelo futuro da Amazônia. Enquanto a apropriação privada de terras públicas permanecer sendo um negócio altamente lucrativo e politicamente tolerado, o avanço do desmatamento continuará sendo menos um problema ambiental do que uma consequência previsível de um modelo de desenvolvimento baseado na mercantilização da floresta e na expulsão daqueles que historicamente a preservaram.

Água subterrânea do Brasil sob pressão

Sob as florestas, fazendas e cidades do Brasil, uma reserva hídrica vital mostra sinais de tensão. Um novo estudo indica que os níveis de água subterrânea em partes do país estão caindo em taxas comparáveis às observadas em alguns dos sistemas de aquíferos mais explorados do mundo.

Parintins, Brasil, setembro de 2023. Barcos ficam à beira de um rio cujo nível de água caiu devido à seca. Crédito: Aguilar Abecassis/dpa/Alamy Live News

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

A água sempre foi central para a identidade do Brasil, moldando suas paisagens, economia e ecossistemas. Dos rios do Amazonas às enchentes sazonais que transformam o Pantanal em um dos maiores pântanos do mundo, a água ajudou a definir tanto a geografia do país quanto seu desenvolvimento.

Um estudo liderado por Augusto Getirana, cientista do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA, no Laboratório de Ciências Hidrológicas, examinou mais de duas décadas de dinâmica do lençol freático no Brasil usando observações de satélite, ferramentas de inteligência artificial e sistemas de monitoramento de águas subterrâneas.

Os resultados revelam um cenário misto. Enquanto alguns aquíferos continuam a se recuperar naturalmente após períodos de seca, outros apresentam quedas persistentes ligadas à expansão agrícola, atividade mineradora, variabilidade climática e crescente demanda por água.

Segundo os pesquisadores, o declínio da água subterrânea observado em alguns aquíferos brasileiros se assemelha a padrões documentados em sistemas de água subterrânea fortemente estressados em Bangladesh, Índia, Irã e EUA, revelam pesquisadores.

estudo avaliou as condições das águas subterrâneas nas 12 principais bacias hidrográficas do Brasil e examinou vários sistemas aquíferos importantes, incluindo Alter do Chão, Urucuia, Bauru-Caiuá, Guarani, Pantanal, Solimões e Parecis.

A água subterrânea fornece aproximadamente 55% da demanda hídrica do Brasil e sustenta mais da metade dos municípios do país. Em muitas regiões, ela fornece um amortecedor crítico durante secas e ajuda a manter o abastecimento de água quando os reservatórios superficiais diminuem.

Apesar de sua importância, o monitoramento das águas subterrâneas continua limitado. Em um território de aproximadamente 8,5 milhões de quilômetros quadrados, o Brasil opera apenas cerca de 500 poços federais de monitoramento de águas subterrâneas, deixando grandes áreas insuficientemente observadas.

Sobre a questão de saber se a abundância histórica de água do Brasil pode ter incentivado a complacência, Getirana disse:

Eu não diria que o Brasil confundiu abundância com segurança. O que mudou é que as suposições que funcionaram no passado podem não ser suficientes para o futuro.

Nas últimas décadas, o Brasil enfrentou uma série de grandes crises de água, incluindo a crise do racionamento de eletricidade em 2001, as severas secas de 2014–2015 e a escassez de água que afetaram várias regiões em 2021. Ao mesmo tempo, o crescimento populacional e a expansão econômica aumentaram a demanda por água.

A água subterrânea tem se tornado cada vez mais parte da solução. O que me surpreendeu neste estudo foi ver evidências de que o uso de água subterrânea para irrigação e abastecimento público de água aumentou o suficiente para deixar uma pegada detectável no armazenamento de água subterrânea.

O Brasil não enfrenta insegurança hídrica em todo o país atualmente, mas esses achados sugerem que a confiança tradicional do país em recursos hídricos abundantes pode precisar ser reconsiderada em um clima em mudança e sob demanda crescente.

Pressão sob o Cerrado

Alguns dos sinais mais fortes de declínio da água subterrânea ocorrem no centro do Brasil, especialmente em partes do Cerrado e nas bacias de São Francisco e Paraná. Essas regiões também passaram por extensa expansão agrícola.

Frequentemente ofuscado pela Amazônia, o Cerrado é considerado por hidrólogos como uma das paisagens mais importantes produtoras de água da América do Sul. Grandes sistemas fluviais têm origem ali, incluindo rios que contribuem para as bacias da Amazônia, Paraná e São Francisco.

A vegetação nativa desempenha um papel crucial na regulação do movimento da água, permitindo que a chuva se infiltre gradualmente no solo, reabastecendo os aquíferos e sustentando o fluxo dos rios além da estação chuvosa.

Nas últimas décadas, milhões de hectares de vegetação nativa foram convertidos em plantações de soja, pastagens para gado e agricultura irrigada.

O estudo encontrou evidências de que alguns aquíferos passaram por anos em que pouca ou nenhuma recarga de água subterrânea ocorria. Naqueles anos, a chuva não conseguiu repor as reservas subterrâneas em taxas históricas. Pesquisadores identificaram esses padrões em partes do Aquífero Urucuia, na zona de recarga do Aquífero Guarani e em outros sistemas de água subterrânea muito utilizados.

Muitas dessas áreas sustentam a economia agrícola do Brasil. Se as taxas de recarga continuarem a enfraquecer, a extração de água subterrânea pode se tornar cada vez mais difícil de sustentar durante secas prolongadas.

A bacia de São Francisco emergiu como uma das regiões que experimentaram as maiores perdas de água subterrânea no Brasil, impulsionadas pelo uso intensivo de água, seca, mudanças na cobertura do solo e mudanças nos padrões de chuva.

Como observado por Getirana, a água subterrânea pode mitigar os impactos da seca, embora sua confiabilidade esteja diminuindo em muitas regiões:

Durante secas prolongadas, rios, lagos e reservatórios são tipicamente as primeiras fontes de água a diminuir. As florestas ajudam a sustentar os recursos hídricos promovendo a infiltração no solo e nos aquíferos, além de influenciar a circulação atmosférica regional e os padrões de chuva. Aquíferos frequentemente servem como reserva de longo prazo, a conta de poupança do sistema hidrológico.

Nossos resultados sugerem que os sistemas de água subterrânea estão se tornando menos confiáveis em regiões onde a demanda por água é maior. As quedas mais fortes no armazenamento ocorrem em regiões densamente povoadas e economicamente ativas, indicando que algumas dessas redes naturais de segurança estão sendo pressionadas por um aumento crescente.

A Amazônia

A Amazônia abriga algumas das maiores reservas de água doce do mundo. Embora os pesquisadores tenham encontrado evidências de que os sistemas de água subterrânea em partes da região estão se tornando mais variáveis, as mudanças não são uniformes em toda a bacia.

Getirana e colegas descobriram que grandes porções da Amazônia mantiveram condições estáveis de água subterrânea durante o período do estudo, e algumas regiões até experimentaram ganhos no armazenamento de água subterrânea. Esses achados sugerem que certos sistemas de água subterrânea permanecem resilientes sob condições ambientais favoráveis.

Perto de Manaus, os níveis de água subterrânea flutuam em resposta à subida e descida sazonal dos rios Negro e Solimões. No entanto, eventos climáticos extremos parecem estar afetando esses ciclos naturais.

O evento El Niño de 2015-2016 pode ter representado uma mudança significativa no comportamento das águas subterrâneas em várias áreas, com alguns aquíferos passando de condições relativamente estáveis para declínios mais persistentes.

Secas recentes levaram os rios Amazonas a níveis historicamente baixos, interrompendo o transporte, isolando comunidades e afetando os ecossistemas em toda a bacia.

Ao mesmo tempo, o sul do Brasil sofreu inundações severas. Os pesquisadores observam que as condições da água subterrânea podem influenciar o risco de enchentes porque sistemas subterrâneos saturados perdem a capacidade de absorver chuva adicional, aumentando o escoamento.

Em conjunto, esses achados sugerem que os desafios hídricos do Brasil envolvem cada vez mais variabilidade e extremos, em vez de simples questões de abundância ou escassez de água.

Refletindo sobre a importância mais ampla das descobertas, Getirana disse:

Acho que uma das lições mais amplas é que abundância e sustentabilidade não são a mesma coisa. O Brasil possui alguns dos maiores recursos de água doce do mundo, mas nossos resultados mostram que os sistemas de água subterrânea ainda podem sofrer perdas persistentes quando a variabilidade climática, a mudança no uso do solo e o aumento da demanda por água atuam juntos.

Muitas sociedades historicamente trataram os recursos naturais como efetivamente inesgotáveis porque pareciam abundantes em relação às necessidades humanas. O que as observações modernas e registros de satélite mostram cada vez mais é que mesmo sistemas muito grandes têm limites.

A água subterrânea é particularmente importante porque é em grande parte invisível. Ao contrário de rios ou reservatórios, mudanças no subsolo podem passar despercebidas por anos ou até décadas. Estudos como este ajudam a tornar essas mudanças ocultas visíveis antes que se tornem problemas maiores.

Incêndio, mineração e extração de água subterrânea

O Pantanal, o maior pântano tropical do mundo, também está enfrentando pressão crescente.

Os pesquisadores identificaram a diminuição da recarga de água subterrânea em partes da região, uma tendência associada à seca, mudanças no uso do solo e temporadas de incêndios cada vez mais severas.

Incêndios podem ter efeitos duradouros nos sistemas hídricos, destruindo vegetação, alterando a estrutura do solo, reduzindo a infiltração e dificultando a recarga dos aquíferos após períodos secos.

A atividade de mineração também contribui para pressão adicional em algumas áreas. Em partes do estado de Minas Gerais, a água subterrânea é bombeada de sistemas subterrâneos para apoiar as operações de mineração. Isso pode reduzir o nível da água subterrânea, alterar o fluxo dos rios e afetar as comunidades vizinhas.

Exemplos de outras partes do mundo demonstram como pode ser difícil reverter as mudanças depois que a extração em grande escala alterou os sistemas de água.

Ao redor do Mar Morto, décadas de desvio de rios, extração mineral e superexploração do lençol freático contribuíram para uma queda dramática nos níveis da água, acelerando o recuo da linha costeira e formando milhares de dolinas.

Preocupações semelhantes estão surgindo na Amazônia brasileira. Em Autazes, um grande projeto de potássio desenvolvido pela empresa canadense Potássio do Brasil levantou alertas de pesquisadores, organizações indígenas e comunidades locais sobre possíveis impactos nos lençóis freáticos, áreas úmidas e sistemas conectados de água doce.

Avaliações ambientais e revisões independentes destacaram riscos como aumento do escoamento de sedimentos, maior turbidez da água e pressão sobre os ecossistemas ligados ao Rio Madeira, uma das vias navegáveis mais importantes da Bacia Amazônica. Embora as consequências de longo prazo permaneçam incertas, esses casos ilustram como a mineração pode alterar sistemas hídricos muito além dos limites do próprio local de extração.

Um desafio emergente

O Brasil não está ficando sem água, mas recursos abundantes não eliminam vulnerabilidades.

O estudo constatou que apenas uma fração da chuva chega, em última análise, alcança e repõe as reservas de água subterrânea. Em algumas regiões, a recarga permanece robusta, mas em outras, parece estar enfraquecendo.

O Brasil enfrentou grandes crises hídricas em 2000-2001, 2014-2017 e 2021. Esses eventos muitas vezes são vistos principalmente como escassez de chuva.

As novas descobertas sugerem que mudanças mais profundas também podem estar afetando os sistemas hídricos do país. À medida que as mudanças climáticas aceleram e a pressão sobre os recursos de terra e água aumenta, é provável que a água subterrânea se torne um componente cada vez mais importante da segurança hídrica de longo prazo do Brasil.

Apesar dos desafios identificados no estudo, Getirana permanece otimista quanto ao crescente conscientização pública sobre questões de segurança hídrica:

Estudos sobre disponibilidade de água, seca, água subterrânea e impactos climáticos estão cada vez mais alcançando a grande mídia e o debate público. O conhecimento científico sozinho não muda políticas ou práticas de gestão. A verdadeira mudança acontece quando governos, instituições e a sociedade reconhecem o problema e agem com base nas evidências.

O fato de que a segurança das águas subterrâneas e da água estão se tornando temas de conversa nacional no Brasil é animador. Quando a ciência alcança o público e informa a tomada de decisões, cria oportunidades para melhorar o monitoramento, o planejamento e a gestão da água a longo prazo.

Quando questionado sobre o que as pessoas poderiam ver, daqui a décadas, como a primeira indicação de que os sistemas de água subterrânea do Brasil estavam sob pressão, Getirana disse:

O desafio hoje não é a ausência de sinais de alerta. O desafio é garantir que essas informações façam parte do processo de tomada de decisão. Daqui a cinquenta anos, suspeito que as pessoas olharão para trás e dirão que os primeiros sinais de alerta vieram da combinação de observações de satélite, estudos científicos e crises hídricas recorrentes que revelaram vulnerabilidades que antes passavam despercebidas.

Por décadas, o Brasil baseou-se na suposição de que recursos hídricos abundantes compensariam a crescente demanda e as pressões ambientais. As evidências apresentadas neste estudo sugerem que proteger as águas subterrâneas pode se tornar tão importante quanto proteger rios, florestas e áreas úmidas nas próximas décadas.


Fonte: YourVoiz

Agrotóxicos, desmatamento e crise hídrica: como o agronegócio aprofunda as mudanças climáticas no Brasil

A destruição da Amazônia e do Cerrado para expandir monoculturas ameaça os rios, as chuvas e a segurança hídrica de todo o país, enquanto reforça a dependência de um modelo agrícola cada vez mais vulnerável à crise climática

Quando se fala em mudanças climáticas, a atenção costuma se concentrar na queima de combustíveis fósseis. No entanto, no caso brasileiro, a crise climática está intimamente ligada ao modelo agrícola dominante, baseado na expansão de monoculturas, no uso intensivo de agrotóxicos e fertilizantes químicos e no avanço contínuo sobre a Amazônia e o Cerrado.

Segundo o IPCC, a agricultura, a silvicultura e as mudanças no uso da terra respondem por cerca de 22% das emissões globais de gases de efeito estufa, enquanto os sistemas agroalimentares como um todo são responsáveis por aproximadamente um terço das emissões mundiais. Nesse contexto, os agrotóxicos exercem um papel frequentemente negligenciado. Sua produção depende fortemente de combustíveis fósseis, envolve processos industriais intensivos em energia e gera emissões em todas as etapas de sua cadeia produtiva, desde a fabricação até o transporte e a aplicação nas lavouras.

Mas a principal contribuição dos agrotóxicos para a crise climática ocorre de forma indireta. O consumo crescente dessas substâncias está associado à expansão de monoculturas voltadas à exportação, como soja, milho, algodão e cana-de-açúcar, cuja expansão continua sendo um dos principais vetores do desmatamento da Amazônia e do Cerrado.

Na Amazônia, a remoção da cobertura florestal ameaça um dos mais importantes mecanismos reguladores do clima sul-americano. A floresta funciona como uma gigantesca bomba biótica que recicla e transporta umidade por meio dos chamados “rios voadores”, responsáveis por abastecer de chuvas extensas áreas do Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. À medida que a floresta é derrubada, diminui a evapotranspiração, reduzem-se as chuvas e prolongam-se os períodos de seca. Estudos recentes indicam que a combinação entre desmatamento e aquecimento global pode provocar reduções expressivas na precipitação e ampliar significativamente a duração da estação seca em partes da Amazônia.

Entretanto, se a Amazônia é essencial para a produção de chuvas, o Cerrado desempenha papel ainda mais estratégico na segurança hídrica nacional. Conhecido como o “berço das águas” ou a “caixa d’água do Brasil”, o bioma abriga as nascentes que alimentam algumas das principais bacias hidrográficas da América do Sul, incluindo os sistemas Amazônico, Tocantins-Araguaia, São Francisco e Paraná-Paraguai.

A importância do Cerrado decorre de uma característica singular: sua vegetação possui sistemas radiculares profundos, capazes de infiltrar grandes volumes de água no solo e alimentar aquíferos subterrâneos. Essa dinâmica garante a manutenção dos fluxos hídricos durante os períodos secos e sustenta rios que abastecem cidades, hidrelétricas e sistemas de irrigação em grande parte do território brasileiro.

Apesar dessa importância estratégica, o Cerrado tornou-se a principal fronteira de expansão do agronegócio brasileiro. Estima-se que cerca de metade de sua cobertura original já tenha sido destruída. A substituição da vegetação nativa por monoculturas mecanizadas reduz a infiltração de água, aumenta a erosão, diminui a recarga dos aquíferos e compromete a vazão dos rios. Como resultado, observam-se atrasos no início das chuvas, redução da precipitação média e crescente instabilidade hídrica em diversas regiões do país.

O problema torna-se ainda mais grave porque mudanças climáticas e uso de agrotóxicos formam um círculo vicioso. O aumento das temperaturas e das secas favorece a proliferação de pragas agrícolas, levando ao uso crescente desses produtos químicos. Ao mesmo tempo, a expansão das monoculturas dependentes agrotóxicos estimula novos desmatamentos, ampliando as emissões de gases de efeito estufa e aprofundando as alterações climáticas.

As consequências já são perceptíveis: secas mais frequentes, grande redução da vazão de rios, insegurança energética, perda de biodiversidade e crescente competição pelo acesso à água. Em outras palavras, o mesmo modelo agrícola que se apresenta como motor do crescimento econômico está contribuindo para enfraquecer os sistemas ecológicos que garantem a produção de chuvas, o armazenamento de água e a estabilidade climática dos quais depende a própria agricultura.

Por essa razão, a preservação da Amazônia e do Cerrado não deve ser vista apenas como uma questão ambiental, já que se trata de uma condição indispensável para garantir segurança hídrica, estabilidade climática, produção de energia, soberania alimentar e desenvolvimento econômico de longo prazo. Continuar destruindo esses biomas para expandir monoculturas dependentes de agrotóxicos significa comprometer as bases naturais que sustentam o futuro do próprio Brasil.

Mesmo impactadas, florestas primárias ainda são principal fonte de biodiversidade na Amazônia

Queimadas e corte seletivo afetam profundamente a variedade de espécies, funções ecológicas e linhagens evolutivas; ainda assim, são mais ricas do que as regeneradas após derrubada total

André Julião | Agência FAPESP

Florestas primárias, que nunca foram desmatadas, são as principais guardiãs da biodiversidade amazônica, mesmo que já tenham sido afetadas por queimadas ou corte seletivo de árvores, segundo um estudo conduzido por pesquisadores do Brasil e do Reino Unido. Os cientistas compararam o impacto de atividades humanas sobre a diversidade de plantas de diferentes composições florestais ao longo do tempo na Amazônia e concluíram que as florestas primárias sempre abrigam uma quantidade maior de espécies do que aquelas que se regeneraram depois de terem sido derrubadas no passado.

O estudo reforça a importância de se frear o avanço do desmatamento na Amazônia – ao mesmo tempo em que se incentiva a regeneração de áreas anteriormente desmatadas –, já que as florestas secundárias não chegam a repor por completo a biodiversidade das matas originais que foram perdidas, segundo os pesquisadores. Os resultados foram divulgados na revista Global Change Biology.

Os pesquisadores catalogaram cerca de 55 mil árvores em duas regiões do Pará, situadas nos municípios de Paragominas e Santarém, representando quatro tipos de florestas: 1) primárias que não sofreram distúrbios; 2) primárias que tiveram corte seletivo de árvores (quando são retiradas apenas espécies de maior valor comercial);  3) primárias que sofreram corte seletivo e queimadas; e 4) florestas secundárias, resultantes da regeneração natural de uma área que sofreu corte raso – ou seja, que foi totalmente desmatada anteriormente.

Os cientistas mediram a diversidade das árvores de três formas diferentes: focando nas espécies, nos grupos funcionais – mensurando características como espessura da casca, densidade da madeira e tamanho da folha – e nas linhagens evolutivas. Além disso, avaliaram a diversidade separando as árvores em grandes e pequenas.

Quando comparados os dados entre as áreas, conclui-se que as modificações humanas explicam 55% da variação na diversidade de espécies e 42% da diferença na composição das comunidades de árvores. A forma como se mede a diversidade (espécies, grupos funcionais ou linhagens evolutivas) e o tamanho das árvores explicam apenas cerca de 5% das diferenças entre florestas.

“Por mais que as florestas primárias degradadas sejam menos diversas e tenham um apanhado de espécies diferentes daquelas que não sofreram impactos, elas são muito mais diversas do que as florestas secundárias. Estas vão demorar séculos para ter árvores de grande porte e os serviços ecossistêmicos fornecidos por essas espécies”, explica Cássio Alencar Nunes, pesquisador da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, e da Universidade Federal de Lavras (UFLA).

A Amazônia abriga até 16 mil espécies de árvores. Um único hectare frequentemente contém mais de 300. Em comparação, toda a Europa tem cerca de 450 espécies nativas de árvores.

Nunes coordenou o trabalho com outra cientista brasileira no Reino Unido, Erika Berenguer, pesquisadora das universidades de Lancaster e de Oxford. Berenguer monitora as áreas analisadas no estudo desde 2010.

“Nossos resultados mostram que, quando se trata de compreender as influências humanas sobre as florestas tropicais, não importa se a abordagem é para medir perda de espécies, de funções ecológicas ou linhagens evolutivas. As influências humanas são tão profundas que todas essas medidas estão mudando”, explica Berenguer em um comunicado da Universidade de Lancaster.

O trabalho teve apoio da FAPESP por meio do projeto “ECOFOR: Biodiversidade e funcionamento de ecossistemas em áreas alteradas pelo homem nas Florestas Amazônica e Atlântica”, no âmbito do Programa BIOTA.

“O estudo demonstra que é preciso continuar investindo em restauração e na proteção das florestas secundárias, uma vez que qualquer área com remanescentes florestais contribui muito mais com os serviços ecossistêmicos do que áreas sem floresta. No entanto, os resultados mostram com bastante clareza que as florestas primárias são imprescindíveis e precisam ser conservadas, mesmo que já tenham sofrido distúrbios”, avalia Carlos Joly, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenador do projeto e coautor do estudo.

Florestas para sempre

Durante a Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (COP30) ocorrida em Belém, em novembro de 2025, estabeleceu-se o TFFF, um fundo global para o financiamento da conservação das florestas tropicais. Para os autores do estudo, mecanismos do tipo são essenciais para oferecer condições para que as florestas sejam conservadas em vez de derrubadas para a exploração de atividades econômicas que contribuem para o agravamento das crises climática e da biodiversidade.

A comparação entre florestas intocadas e que sofreram distúrbios realizada no estudo aponta que mesmo a exploração seletiva de madeira, tida como uma forma de manejo sustentável, tem impactos profundos na diversidade das árvores.

Assim, mecanismos como o TFFF são importantes para garantir a conservação, independentemente de ganhos econômicos possíveis nessas áreas, ainda que ditos sustentáveis, segundo Berenguer.

“Embora o foco da COP30 tenha sido principalmente o carbono, é essencial vincular as discussões climáticas à biodiversidade se quisermos superar as crises climática e de biodiversidade. Em última instância, é a biodiversidade que garante a provisão de serviços ecossistêmicos, inclusive o sequestro e o armazenamento de carbono”, afirma a pesquisadora.

O artigo Multifaceted assessment of amazonian tree diversity reveals pervasive impacts of human modification pode ser lido em: onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/gcb.70595.


Fonte: Revista Fapesp