A destruição da Amazônia e do Cerrado para expandir monoculturas ameaça os rios, as chuvas e a segurança hídrica de todo o país, enquanto reforça a dependência de um modelo agrícola cada vez mais vulnerável à crise climática
Quando se fala em mudanças climáticas, a atenção costuma se concentrar na queima de combustíveis fósseis. No entanto, no caso brasileiro, a crise climática está intimamente ligada ao modelo agrícola dominante, baseado na expansão de monoculturas, no uso intensivo de agrotóxicos e fertilizantes químicos e no avanço contínuo sobre a Amazônia e o Cerrado.
Segundo o IPCC, a agricultura, a silvicultura e as mudanças no uso da terra respondem por cerca de 22% das emissões globais de gases de efeito estufa, enquanto os sistemas agroalimentares como um todo são responsáveis por aproximadamente um terço das emissões mundiais. Nesse contexto, os agrotóxicos exercem um papel frequentemente negligenciado. Sua produção depende fortemente de combustíveis fósseis, envolve processos industriais intensivos em energia e gera emissões em todas as etapas de sua cadeia produtiva, desde a fabricação até o transporte e a aplicação nas lavouras.
Mas a principal contribuição dos agrotóxicos para a crise climática ocorre de forma indireta. O consumo crescente dessas substâncias está associado à expansão de monoculturas voltadas à exportação, como soja, milho, algodão e cana-de-açúcar, cuja expansão continua sendo um dos principais vetores do desmatamento da Amazônia e do Cerrado.
Na Amazônia, a remoção da cobertura florestal ameaça um dos mais importantes mecanismos reguladores do clima sul-americano. A floresta funciona como uma gigantesca bomba biótica que recicla e transporta umidade por meio dos chamados “rios voadores”, responsáveis por abastecer de chuvas extensas áreas do Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. À medida que a floresta é derrubada, diminui a evapotranspiração, reduzem-se as chuvas e prolongam-se os períodos de seca. Estudos recentes indicam que a combinação entre desmatamento e aquecimento global pode provocar reduções expressivas na precipitação e ampliar significativamente a duração da estação seca em partes da Amazônia.
Entretanto, se a Amazônia é essencial para a produção de chuvas, o Cerrado desempenha papel ainda mais estratégico na segurança hídrica nacional. Conhecido como o “berço das águas” ou a “caixa d’água do Brasil”, o bioma abriga as nascentes que alimentam algumas das principais bacias hidrográficas da América do Sul, incluindo os sistemas Amazônico, Tocantins-Araguaia, São Francisco e Paraná-Paraguai.
A importância do Cerrado decorre de uma característica singular: sua vegetação possui sistemas radiculares profundos, capazes de infiltrar grandes volumes de água no solo e alimentar aquíferos subterrâneos. Essa dinâmica garante a manutenção dos fluxos hídricos durante os períodos secos e sustenta rios que abastecem cidades, hidrelétricas e sistemas de irrigação em grande parte do território brasileiro.
Apesar dessa importância estratégica, o Cerrado tornou-se a principal fronteira de expansão do agronegócio brasileiro. Estima-se que cerca de metade de sua cobertura original já tenha sido destruída. A substituição da vegetação nativa por monoculturas mecanizadas reduz a infiltração de água, aumenta a erosão, diminui a recarga dos aquíferos e compromete a vazão dos rios. Como resultado, observam-se atrasos no início das chuvas, redução da precipitação média e crescente instabilidade hídrica em diversas regiões do país.
O problema torna-se ainda mais grave porque mudanças climáticas e uso de agrotóxicos formam um círculo vicioso. O aumento das temperaturas e das secas favorece a proliferação de pragas agrícolas, levando ao uso crescente desses produtos químicos. Ao mesmo tempo, a expansão das monoculturas dependentes agrotóxicos estimula novos desmatamentos, ampliando as emissões de gases de efeito estufa e aprofundando as alterações climáticas.
As consequências já são perceptíveis: secas mais frequentes, grande redução da vazão de rios, insegurança energética, perda de biodiversidade e crescente competição pelo acesso à água. Em outras palavras, o mesmo modelo agrícola que se apresenta como motor do crescimento econômico está contribuindo para enfraquecer os sistemas ecológicos que garantem a produção de chuvas, o armazenamento de água e a estabilidade climática dos quais depende a própria agricultura.
Por essa razão, a preservação da Amazônia e do Cerrado não deve ser vista apenas como uma questão ambiental, já que se trata de uma condição indispensável para garantir segurança hídrica, estabilidade climática, produção de energia, soberania alimentar e desenvolvimento econômico de longo prazo. Continuar destruindo esses biomas para expandir monoculturas dependentes de agrotóxicos significa comprometer as bases naturais que sustentam o futuro do próprio Brasil.
