Retrospectiva de um ano que vai ter novo capítulos

retrospectiva

Ao me aproximar do final do calendário de 2023, a impressão que que tenho é que este é um daqueles ano com sequência garantida. Em outras palavras, temos situações pavorosas em diferentes partes do mundo, a começar pela Faixa de Gaza. O massacre em curso na Faixa de Gaza é sinal inequívoco de que o sistema unilateral criado pelos vencedores da Segunda Guerra Mundial está em colapso. O mesmo sinal é dado pela continuidade do conflito armado que ocorre na Ucrânia. O pior é que existe potencial para expansão desses conflitos, e não o contrário.

Se olharmos, por outro lado, para o agravamento da crise climática, que ficou ainda mais explícita com a histórica seca que afetou a Amazônia, veremos que além das guerras, enfrentamos com a confirmação das projeções feitas pela comunidade científica sobre os impacto o aumento da temperatura teria sobre uma nova dinâmica na atmosfera da Terra. Com essa nova dinâmica, a previsão é que passaremos por situações extremas, envolvendo inclusive a abrupta elevação do nível dos oceanos.

No entanto, nem todas as evidências acumuladas pela ciência climática têm servido para criar o senso de urgência que a situação requer. Prova disso foram os pobres resultados de mais uma conferência climática, a COP-28, que terminou com promessas tão vagas quanto as anteriores. Com isso, apesar das declarações de que estamos na véspera de uma transição para um mundo pós-combustíveis fósseis, a verdade é que nada indica que isso seja verdade.

No caso específico do Brasil, a promulgação do Pacote do Veneno aponta que a situação catastrófica que vivemos com o envenenamento de águas e solos, bem como a exposição dos brasileiros a venenos potentes que estão na raiz de uma grave crise sanitária que permanece sendo ignorada pelos governantes e pelo agronegócio, principal beneficiário de um modelo agrícola viciado em agrotóxicos.

Junto com o reinado dos agrotóxicos, o que deveremos ter é o aprofundamento do desmatamento e da degradação das florestas brasileiras, com a Amazônia e o Cerrado no centro das atenções. Com isso, também é muito provável que aumente o nível de violência contra os povos originários e comunidades tradicionais como quilombolas e ribeirinhos. É que esses grupos estão na linha de frente da resistência contra a transformação de nossas florestas em novos territórios do latifúndio agro-exportador.

Se alguém conseguiu chegar até aqui, a pergunta que pode estar sendo feita é se temos alguma saída para tantos problemas.  Como operador deste espaço, penso que a saída para todos os problemas que se avolumam sobre a Humanidade neste momento é a ação política em prol de uma nova forma de relação com a Terra e que se estenda para a relação entre as pessoas.  Essa ação deve ser marcada por uma profunda inquieitação que rejeite a naturalização de um processo de destruição que ocorre para manter uma fração mínima de privilegiados como beneficiários da catástrofe que nos envolve.

Uma coisa é certa: há que se manter a convicção de que sem luta nada se transformará. Até 2024!

Desmatamento cai pelo 8º mês seguido na floresta amazônica, mas sobe no Cerrado

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O desmatamento na Amazônia brasileira diminuiu pelo oitavo mês consecutivo, apesar da região ser afetada por uma grave seca.

De acordo com os últimos dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o desmatamento em novembro totalizou 201 quilômetros quadrados. Isto eleva a perda acumulada nos últimos doze meses na maior floresta tropical da Terra para 5.206 quilómetros quadrados, o que é 51% inferior ao valor registado durante o mesmo período do ano passado.

Desde janeiro de 2023, o desmatamento atingiu 4.977 quilômetros quadrados, marcando uma redução de 50% em relação aos dados do ano passado.

Dados de alerta de desmatamento do sistema DETER do INPE de 1º de janeiro a 30 de novembro desde 2009.
Dados de alerta de desmatamento do sistema DETER do INPE de 1º de janeiro a 30 de novembro desde 2009.
Dados de média móvel mensal e de 12 meses para dados de alerta de desmatamento do sistema SAD do Imazon e do sistema DETER do INPE.  O Imazon é uma ONG brasileira que monitora de forma independente o desmatamento.
Dados de média móvel mensal e de 12 meses para dados de alerta de desmatamento do sistema SAD do Imazon e do sistema DETER do INPE. O Imazon é uma ONG brasileira que monitora de forma independente o desmatamento.

O declínio do desmatamento persistiu apesar de uma das secas mais severas já registradas na Amazônia. Esta seca levou à secagem dos rios, contribuiu para a extinção generalizada das florestas e criou condições propícias à propagação de incêndios na região. Como resultado da crise, as comunidades remotas ficaram isoladas, a poluição atmosférica intensificou-se e a segurança alimentar foi comprometida, conforme relatado por fontes locais .

No entanto, embora o desmatamento na floresta amazónica tenha diminuído, continuou a aumentar no Cerrado – uma savana tropical localizada a sul e a leste da Amazónia. Em novembro, o desmatamento no cerrado totalizou 572 quilômetros quadrados, elevando a perda total no ano passado para 7.594 quilômetros quadrados. Isso representa o nível mais alto registrado desde que o INPE introduziu seu atual sistema de alerta em 2018.

Tanto o cerrado quanto a Amazônia são alvos da expansão agrícola no Brasil.

Dados de média móvel mensal e de 12 meses para dados de alerta de desmatamento para o cerrado do sistema DETER do INPE.

Dados de média móvel mensal e de 12 meses para dados de alerta de desmatamento para o cerrado do sistema DETER do INPE

Dados de alerta de desmatamento do sistema DETER do INPE de 1º de janeiro a 30 de novembro desde 2019.
Dados de alerta de desmatamento do sistema DETER do INPE de 1º de janeiro a 30 de novembro desde 2019.

Os dados são divulgados no momento em que o Brasil se posiciona como líder nos esforços de mitigação das mudanças climáticas na cúpula climática COP28. Na semana passada, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, anunciou uma proposta de 250 mil milhões de dólares destinada a proteger as florestas tropicais do mundo.

Os investigadores alertam que, devido aos efeitos combinados do desmatamento e das alterações climáticas, a Amazónia pode estar a aproximar-se de um ponto de inflexão onde vastas áreas da floresta tropical poderão transitar para um ecossistema mais seco, semelhante ao Cerrado. Tal desenvolvimento poderia perturbar os padrões de precipitação regionais e globais, desencadear a libertação de milhares de milhões de toneladas de carbono e levar à extinção de inúmeras espécies.

Imagens de satélite do Rio Negro no Brasil mostrando o efeito da seca de 2023 na Amazônia.  Imagem cortesia do Planeta.Imagens de satélite do Rio Negro no Brasil mostrando o efeito da seca de 2023 na Amazônia. Imagem cortesia do Planeta.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo Mongabay.com [Aqui!].

COP28 será mais um evento para o Brasil passar vergonha

Lula deve levar à COP28 proposta para "proteger floresta em pé"

Com Lula e Marina Silva, o Brasil se prepara para cumprir mais um papelão na COP28

Começa amanhã em Dubai, Emirados Árabes Unidos, a 28a. edição da Conferência das Partes (COP). Essa edição já começa com area de que irá dar tudo errado já que o presidente-executivo da empresa petrolífera estatal dos EAU, Sultan Al Jaber, como presidente das negociações. É como colocar o açougueiro para cuidar de um curral cheio de bois prontos para o abate. Simplesmente não tem como dar certo.

Mas e o Brasil? Será que fará um papel menos bizarro do que fez nas edições em que Jair Bolsonaro comandava o executivo federal? Será que agora com Lula e Marina Silva, o nosso país vai fazer um papel mais alinhado com o que se espera de um estado-nacional que detém a maior floresta tropical do planeta?

Os últimos pronunciamentos de Marina Silva indicam que não. Primeiro a ministra do Meio Ambiente tem insistido na alegação pouco crível de que o desmatamento de nossas florestas entrou em um patamar, digamos, mais controlado.  O problema é que o desmatamento pode ter até diminuído, mas continua muito alto na Amazônia. No bioma Cerrado, a coisa não tem nem como disfarçar, pois os números indicam um forte viés de alta.

Além disso, como venho insistindo aqui, o problema da Amazônia não é só desmatamento, pois o processo de degradação florestal via extração predatória de madeira e incêndios florestais vem emitindo a mesma quantidade de CO2. Com isso, a insistência em se falar apenas de desmatamento serve apenas para mascarar o tamanho gigantesco do problema representado pelo tamanho da destruição em curso na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal.

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Marina Silva aponta para o desmatamento enquanto esconde a degradação florestal

Agrotóxicos como contribuintes do aquecimento global e das mudanças climáticas

Outro elemento para aumentar o descrédito nas negociações da COP28 é a aprovação no dia de ontem do Pacote do Veneno. É que, apesar de pouco comentado, o aumento excessivo no uso de agrotóxicos também contribue para as mudanças climáticas.  O fato é qu os agrotóxicos também podem liberar emissões dos efeitos do efeito estufa (GEE) após a sua aplicação.

Pesquisas científicas já demonstraram que os agrotóxicos podem aumentar significativamente a produção de óxido nitroso nos solos. Além disso, muitos agrotóxicos levam à produção de ozônio troposférico, um gás com efeito de estufa prejudicial tanto para os seres humanos como para as plantas.

A falta de atenção para com a contribuição dos agrotóxicos se deve, entre outras coisas, ao fato de que existe um foco maior nas emissões urbano-industriais, mas certamente o peso dos agrotóxicos nas emissões de GEE ainda será futuramente colocado no seu devido lugar, e o Brasil com responsável por 25% do uso total dos agrotóxicos no planeta vai acabar ficando no centro do debate.

Curiosamente, nunca ouvi nada de substancial de Marina Silva sobre a relação entre agrotóxicos com o desmatamento e o aquecimento global.  Aliás, enquato no cargo de ministra do Meio Ambiente, a postura de Marina Silva tem sido de uma ausência óbvia no debate sobre a aprovação do PL do Veneno que passou ontem em brancas nuvens pelo Senado Federal.

Então é forçoso apontar para aqueles que apontavam ou esperavam que a participação brasileira na COP28 fosse qualitativamente diferente do que foi entre as COP 24 e 27, melhor repensar.  Poderemos não fazer o mesmo papelão, mas estaremos quase lá.

Incêndios florestais no Brasil e na Bolívia: desmatamento ilegal para a instalação de pastagens e cultivo de soja agravam crise climática

pantanal em chamas

Extensão devastadora: mais de 5 mil focos de incêndio já foram contabilizados no Pantanal matogrossense em 2023. Joédson Alves/Agência Brasil/dpa

Por Norbert Suchanek para o JungeWelt

Não é apenas o Pantanal brasileiro que voltou a arder nas últimas semanas. Na vizinha Bolívia, os incêndios florestais também se espalharam de forma tão catastrófica nos últimos dias que o governo boliviano pediu ajuda de todo o mundo para combatê-los.

De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), responsável pelo monitoramento florestal por satélite dos biomas florestais brasileiros, já foram contabilizados 5.019 incêndios no Pantanal de janeiro a 21 de novembro deste ano, 355% a mais que no mesmo período do ano passado. Cerca de um milhão de hectares desta zona húmida única do mundo já estavam em chamas.

Já na Bolívia, o INPE contabilizou 40.442 incêndios florestais este ano,  6% a mais que em 2022. Segundo o último relatório do Ministério do Meio Ambiente boliviano, as chamas já destruíram mais de 900 mil hectares de floresta e cerca de dois milhões de hectares de outras áreas. Os departamentos de Santa Cruz, La Paz, Cochabamba e a região amazônica de Beni foram particularmente afetados.

Os incêndios também estão se espalhando inexoravelmente em diversas comunidades indígenas e reservas naturais entre os quais se destacam: o Parque Nacional “Noel Kempff Mercado” de 1,5 milhão de hectares, nas planícies orientais da Bolívia, e o Parque Nacional “Otuquis”, de aproximadamente um milhão de hectares, no Pantanal boliviano, no sudeste do Departamento Santa Cruz; o Parque Nacional “Madidi” com cerca de 1,9 milhão de hectares no noroeste da Bolívia; o Parque Nacional e área indígena protegida “Isiboro Sécure” com 1,2 milhão de hectares entre os departamentos de Beni e Cochabamba; a reserva da biosfera “Pilón Laja” com cerca de 400.000 hectares no sudoeste do país e a reserva natural “San Matías” de 2,9 milhões de hectares a leste de Santa Cruz.

Uma das causas é considerada a agricultura praticada em áreas que foram objeto  de desmatamento ilegal seguido de queimadas, processo esse que  foi realizado aproveitando a seca excepcional deste ano para obter terras para criação de gado ou para o cultivo de soja. O Departamento de Santa Cruz, mais afetado pelos incêndios, é também a principal área produtora de soja na Bolívia.

A Venezuela foi um dos primeiros países a responder ao pedido de ajuda do governo boliviano e enviou 30 bombeiros à reserva natural de Madidi para ajudar a combater um incêndio que ali coorria. Segundo relatos da imprensa, o presidente francês, Emmanuel Macron, também quer enviar um contingente de 100 bombeiros à Bolívia para acabar com os incêndios florestais, especialmente no leste e norte de La Paz e na região de Beni.

No entanto, as comunidades indígenas afetadas, em particular, sentem-se abandonadas pelo governo boliviano  devido às semanas de incêndios. Em nota pública, a Coordenação Nacional de Defesa dos Territórios Indígenas e Áreas Protegidas escreve: “O que nós, o povo do norte de La Paz e da Amazônia, fizemos para que o governo departamental e o governo central da Bolívia nos jogassem no meio deste fogo infernal?

O relator especial das Nações Unidas (ONU) para os direitos humanos e o ambiente, David Boyd, também expressou “profunda preocupação com a situação na Bolívia”  em um comunicado. Os incêndios destruíram florestas e territórios tradicionais dos povos indígenas bolivianos. O governo boliviano deve tomar medidas para apagar os incêndios, prevenir novos incêndios no futuro e respeitar os direitos humanos.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Junge Welt” [Aqui!].

Grande seguradora suíça tem contratos com fazendas responsáveis por desmatamento, violência armada e trabalho escravo no Brasil

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Por Public Eye

O grupo segurador suíço celebrou contratos com fazendas brasileiras que contribuíram para o desmatamento ou estão sob investigação por violência armada e trabalho escravo. É o que mostra uma pesquisa da Repórter Brasil, viabilizada pelo Prêmio Public Eye Investigation. De acordo com o relatório, a Swiss Re venda seguro para fazendas no Brasil cujas terras equivalem aproximadamente à área de Grisões, o maior cantão da Suíça.

Escassez de água na Amazônia, temperaturas recordes nas principais cidades e enchentes com dezenas de mortes no sul do país: o Brasil sofre cada vez mais com fenômenos climáticos extremos . São a principal razão para o aumento acentuado dos seguros agrícolas e pecuários subsidiados pelo Estado . Ao mesmo tempo, porém , a indústria agrícola no Brasil é a que mais contribui para a crise climática global e , portanto , para condições climáticas extremas – devido às suas emissões diretas , mas também através do desmatamento e da assim causada expansão de terras agrícolas. Neste contexto , é escandaloso que a Swiss Re tenha vendido pelo menos 19 apólices entre 2016 e 2022 para grandes explorações agrícolas que as autoridades provaram serem desmatadas ilegalmente . Dado que o cultivo de culturas agrícolas e a pecuária são proibidos nessas áreas restritas , estas apólices de seguro apoiavam de fato atividades ilegais .  

Isso foi revelado pela organização investigativa Repórter Brasil com dados disponíveis publicamente e pesquisas in loco . Esta reportagem foi financiada pelo Prêmio de Investigação apresentado pela Public Eye pela terceira vez . De acordo com estes dados, a Swiss Re, que em muitos países não é apenas uma empresa de resseguros, ficou em quarto lugar no ano passado em contratos agrícolas celebrados no âmbito de um programa de subsídios estatais . A área total segurada pela subsidiária brasileira do grupo sediado em Zurique no âmbito deste programa cobre 659 mil hectares, o que equivale aproximadamente ao cantão dos Grisões. Isto inclui , por exemplo , a fazenda Manto Verde, de 2.400 hectares , para cujo cultivo de soja a Swiss Re contratou impressionantes 17 apólices de seguro desde 2016. Isto independentemente do fato da Manto Verde ter sido declarada uma área restrita pelas autoridades devido a desmatamento ilegal .  

A Repórter Brasil também documentou vários casos em que a Swiss Re celebrou contratos de seguro com fazendas que cultivam ilegalmente áreas indígenas protegidas e às vezes até recorrem à violência armada. Um desses clientes era réu em um caso de  homicídio quando fez três apólices de seguro e outro está sob investigação por trabalho escravo em sua fazenda de café . Quando confrontada com estes factos , a Swiss Re, que opera em 25 países, limita-se a afirmar que “nos esforçamos para identificar riscos de sustentabilidade em todos os nossos negócios”. De acordo com o relatório de sustentabilidade do ano passado , o Grupo pretende neutralizar as suas emissões de gases com efeito de estufa até 2050. Ao mesmo tempo, porém , está a ignorar qualquer responsabilidade política climática nos seus negócios no Brasil, cujas emissões brutas provenientesde desmatamento em 2021 excederam as emissões totais. de um país como o Japão, segundo o Observatório do Clima . 


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Public Eye [Aqui!]. 

Impacto climático na Amazônia afeta o sul da América do Sul

clima-Amazonia-996x567O aquecimento global e o desmatamento poderiam impactar o transporte de umidade da floresta amazônica para a Bacia do Prata através dos chamados “rios voadores ou aéreos”. Crédito da imagem: Fábio Mitsuka Paschoal/Wikimedia Commons , licenciado sob Creative Commons CC BY-SA 4.0 Deed

Por Nicolás Bustamante Hernández para o SciDev 

O transporte de umidade da floresta amazônica para o sul da América do Sul está sendo seriamente afetado pelo aquecimento global e pelo desmatamento, o que pode gerar um desequilíbrio no clima desta região, que pode até piorar num cenário em que a temperatura do planeta diminuirá e subir acima de 2°C, como previsto para o final deste século.

Isto fica claro num estudo publicado recentemente na revista Science of the Total Environment . O objetivo do grupo de especialistas internacionais que escreveu o artigo foi analisar como o aquecimento global, num cenário de 2°C acima do período pré-industrial, somado ao desmatamento da Amazônia, poderia alterar o clima nas bacias hidrográficas não só desta vital floresta para o planeta, mas de outros ecossistemas relacionados, como no caso da Bacia do Prata (sul do Brasil, Uruguai e leste da Argentina).

Especificamente, os autores avaliaram como ambos os efeitos poderiam impactar o transporte de umidade da floresta amazônica para a Bacia do Prata através dos chamados “rios voadores”.

Esse conceito refere-se às enormes colunas de água que correm sobre o continente sul-americano, transportam umidade e energia e contribuem para precipitações abundantes durante o verão austral (entre dezembro e fevereiro), como explica Murilo Ruv Lemes, membro do INPE e

“Descobrimos que o transporte de umidade é impactado tanto pelo desmatamento da Amazônia quanto pelo aquecimento global (…) No cenário de aquecimento global, os efeitos sobre a fisiologia florestal podem ser mais fortes do que o desmatamento.”

Murilo Ruv Lemes, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Brasil

Para realizar a análise, os pesquisadores realizaram modelagem climática desenvolvida no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) do Brasil.

“Descobrimos que o transporte de umidade é impactado tanto pelo desmatamento da Amazônia quanto pelo aquecimento global, que diminuiu em direção ao sudeste brasileiro e aumentou em direção ao sul da Bacia do Prata. No cenário de aquecimento global, os efeitos na fisiologia florestal podem ser mais fortes que o desmatamento”, acrescentou Ruv Lemes.

“Ou seja, uma alta concentração de CO 2 induz à diminuição da condutância estomática, mecanismo positivo para as taxas de evapotranspiração (processo de reciclagem da água na atmosfera), resultando em um ciclo hidrológico mais fraco”, acrescenta Ruv Lemes.

Segundo o cientista, a relação desses fenômenos com a Bacia do Prata reside no fato de esta depender da umidade transportada da floresta amazônica durante seu período chuvoso por meio de mecanismos aéreos fluviais (rios aéreos ou voadores).

“Basicamente, a umidade que evapora do Oceano Atlântico entra no continente sul-americano pelo norte, chegando à floresta amazônica. A floresta desempenha um papel importante em trazer mais água para a atmosfera através da evapotranspiração. Por fim, por meio de um Jato de Baixo Nível, corrente de vento e topografia elevada (Cordilheira dos Andes), esse transporte é redirecionado para o centro-sul da América do Sul, alimentando seu período chuvoso”, afirma Ruv Lemes.

Para o cientista, “as descobertas são necessárias para orientar as partes interessadas e os tomadores de decisão política a melhorar as suas práticas e planejar um futuro resiliente contra as alterações climáticas, que afetam milhões de pessoas por ano, principalmente as mais vulneráveis”.

Por sua vez, Benjamín Quesada, diretor do programa de Ciências do Sistema Terrestre da Universidad del Rosario (Bogotá, Colômbia), destaca que este estudo mostra como o desmatamento em um lugar pode ter efeitos em outro, até centenas ou milhares de quilômetros de distância.

“Essa é uma área para a qual a ciência está caminhando e teríamos que unir forças para documentar muito mais esse fenômeno. Estudos anteriores já mostraram que se ocorrer desmatamento no Brasil, o ciclo hidrológico da Colômbia ou do Chile,  é afetado, mostrando que a Amazônia deve ser protegida, pois o que acontece nela pode ter efeitos em escala global”, afirma Quesada.

“Precisamos de desmatamento zero daqui para frente”, afirma Ruv Lemes.

“Além disso, uma transição energética completa ou um novo estado de matriz energética sustentável deve ser implementado o mais rápido possível. O estado climático e a saúde da Terra são críticos e dependem de uma mudança completa no comportamento humano neste momento. A conhecida estrutura econômica não resolverá esse problema”, afirma o especialista.


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Este artigo escrito originalmente em espanhol foi produzido pela edição América Latina e Caribe do SciDev.Net e foi publicado [Aqui!].

A importância das áreas protegidas contra a seca e as mudanças climáticas na Amazônia

Terras indígenas e unidades de conservação desempenham um papel fundamental na preservação da biodiversidade

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A Amazônia enfrenta uma seca histórica de proporções alarmantes. Dados do porto de Manaus revelam que o Rio Negro, um dos principais rios amazônicos, alcançou o menor nível registrado em 121 anos de monitoramento. Fenômenos climáticos, como o El Niño, desempenham um papel crucial na redução das chuvas na região, resultando no esgotamento dos rios, no desaparecimento dos igarapés e na invasão de densas nuvens de fumaça decorrentes das queimadas.

Segundo Fabiana Prado, coordenadora do LIRA/IPÊ – Legado Integrado da Região Amazônica -, essa situação dramática tem efeitos devastadores. “A população local sofre com a escassez de água potável, enquanto a agricultura e a piscicultura enfrentam prejuízos significativos. As queimadas, agravadas pelo clima seco, aumentam a fumaça no ar, prejudicando a saúde das comunidades e levantando preocupações sobre a qualidade do ar”, diz. 

Em meio à crise, as áreas protegidas emergem como um contraponto essencial. “Terras indígenas e unidades de conservação desempenham um papel fundamental na preservação da biodiversidade, na mitigação dos impactos das mudanças climáticas e na promoção da resiliência da região”, afirma Fabiana. Funcionam como verdadeiros refúgios para a fauna e a flora amazônicas, contribuindo para a regulação do clima e a proteção do solo.

O LIRA, uma iniciativa do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, envolve uma rede de 116 organizações da sociedade civil, empresas, cooperativas, instituições de pesquisa e órgãos governamentais, cobrindo uma área de 58 milhões de hectares, com projetos dedicados à conservação de 55 Áreas Protegidas da Amazônia. “O propósito central do LIRA é transformar essas áreas em polos de desenvolvimento regional e territorial, fortalecendo as populações locais e reduzindo a pressão sobre a floresta”, diz Fabiana Prado. Ela destaca ainda a necessidade de ações efetivas para enfrentar essas adversidades.

A seca na Amazônia serve como um alerta urgente para a importância das áreas protegidas e iniciativas como o LIRA. Elas são cruciais para assegurar a sobrevivência da maior floresta tropical do mundo diante de desafios climáticos cada vez mais graves, além de desempenharem um papel fundamental na mitigação dos efeitos das mudanças climáticas. “A conservação da Amazônia é uma causa global, e essas áreas desempenham um papel central na construção de um futuro sustentável”, afirma Fabiana.

Sobre o LIRA

O LIRA é uma iniciativa idealizada pelo IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, Fundo Amazônia e Fundação Gordon e Betty Moore, parceiros financiadores do projeto. Os parceiros institucionais são a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Secretaria Estadual do Meio Ambiente do Amazonas – SEMA-AM e o Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará – IDEFLOR-Bio. O projeto abrange 34% das áreas protegidas da Amazônia, considerando 20 UCs Federais, 23 UCs Estaduais e 43 Terras Indígenas, nas regiões do Alto Rio Negro, Baixo Rio Negro, Norte do Pará, Xingu, Madeira-Purus e Rondônia-Acre. O objetivo do projeto é promover e ampliar a gestão integrada para a conservação da biodiversidade, a manutenção da paisagem e das funções climáticas e o desenvolvimento socioambiental e cultural de povos e comunidades tradicionais. Mais informações: 

https://lira.ipe.org.br/

‘Tudo está seco’: Amazônia luta contra a seca em meio ao desmatamento

A esta altura, os rios já deverim estar cheios. Mas a pecuária em grande escala, a crise climática e eventos climáticos como o El Niño significam que o Brasil está perto do ponto sem retorno

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A indústria de carne bovina do Brasil tem uma pegada de carbono maior do que todo o Japão. Fotografia: Jonathan Watts/The Guardian

Por Jonathan Watts para o “The Guardian”

fluxos, poeira e fumaça. Foi isso que me cumprimentou ao voltar para casa em Altamira, depois de várias semanas na estrada. Uma estação de seca invulgarmente violenta teve um impacto terrível na paisagem amazónica, que já está devastada por fazendas de gado. Juntos, ameaçam a integridade da maior floresta tropical do mundo.

Em breve abordarei a ciência por trás dessa declaração horrível. Mas primeiro, deixe-me descrever o que está acontecendo no terreno, dentro e ao redor da minha casa em Altamira, no estado do Pará, norte do Brasil .

Tudo está ressecado. A vegetação estala sob os pés. Em comparação com a estação chuvosa, a floresta encolheu visivelmente a vários metros da beira da estrada. As árvores mais resistentes estão aguentando, mas nas margens, as palmeiras mais fracas começaram a murchar e a ficar marrons.

Várias áreas do meu bairro estão carbonizadas devido aos incêndios recentes. Os grileiros criminosos estão aproveitando as condições de seca. Todas as manhãs, quando acordo, o ar tem gosto de fumaça. Uma mortalha desfoca o horizonte. Os painéis solares não conseguem funcionar normalmente porque a luz solar não consegue penetrar na neblina.

Fumaça no ar em Altamira, Brasil

Os painéis solares não podem funcionar adequadamente porque a luz solar não consegue romper a fumaça. Fotografia: Jonathan Watts/The Guardian

E há também as vacas, pobres criaturas, que vagam por pastagens marrons e doentias em busca das últimas folhas ou pedaços de grama que não tenham sido cobertos de poeira. Embora sejam vítimas inocentes, a sua presença contribuiu para este cenário sombrio. Outubro, novembro e dezembro são geralmente um período de transição. Por esta altura, a estação seca normalmente teria atingido o seu pico e os rios e aquíferos começariam a reabastecer-se. Mas as chuvas se recusam a vir. E a cada dia que passa, a sensação de mau presságio fica mais forte.

O rio Xingu, para onde levamos nossos cães todas as manhãs, fica 4 metros abaixo de seu pico e o pequeno afluente, onde costumo passear de canoa, encolheu para um riacho que chega até os tornozelos. Em casa, as torneiras da cozinha e do banheiro secam algumas horas a cada dois ou três dias. Vespas que normalmente zumbem ao redor da fruteira agora se reúnem perto dos canos, buscando gotas de água antes do néctar. Os sapos procuram refúgio nas tigelas de água dos nossos cães.

Em menor grau, todas essas coisas acontecem em cada estação seca, mas este não é um ano normal, como confirmei com alguns dos principais cientistas do Brasil. Marcelo Seluchi, chefe de modelagem e operações do Centro de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais, disse-me que esta já é uma das piores secas da história da Amazônia, uma área do tamanho da Europa.

Muitos rios da região, incluindo o poderoso Rio Negro, disse ele, caíram para níveis nunca vistos desde que as medições começaram, há mais de um século. Eu mesmo vi essa visão chocante algumas semanas atrás.

As temperaturas em muitas áreas atingiram níveis recordes e a seca está longe de terminar. Seluchi disse que as últimas previsões sugerem que as chuvas não retornarão à maior parte da Amazônia até o final deste mês.

Numa recente reunião de crise organizada pela Agência Nacional de Águas e Saneamento e pelo chefe de gabinete do presidente Luis Inácio Lula da Silva , especialistas alertaram para as ameaças às barragens hidroeléctricas e ao transporte fluvial de produtos essenciais, como alimentos, combustíveis e medicamentos.Os meteorologistas explicaram que a seca amazônica deste ano é anormalmente severa devido ao efeito El Niño , ao aquecimento do Oceano Atlântico e à crise climática.

Esta explicação é precisa, mas limitada, faltando muitas das principais causas deste problema e as soluções mais viáveis. A mais importante delas, comprovada por estudos recentes , é que uma floresta saudável não só gera suas próprias chuvas , mas também atua como um poderoso refrigerador regional . Se limparmos a vegetação, como muitos agricultores continuam a fazer – embora a um ritmo muito mais lento do que fizeram sob o governo do antigo presidente de direita Jair Bolsonaro – então a região tornar-se-á mais quente e seca devido aos efeitos locais e às perturbações climáticas globais.

É aqui que meus vizinhos bovinos entram em cena. A indústria da carne bovina é o maior impulsionador do desmatamento da Amazônia. Nada mais chega perto. Os grileiros usam vacas como exércitos de ocupação para reforçar as suas reivindicações sobre florestas roubadas e desmatadas. Este tornou-se um dos crimes climáticos mais hediondos do mundo. Um novo relatório surpreendente do Observatório do Clima observa que a indústria de carne bovina do Brasil tem agora uma pegada de carbono maior do que a do Japão. Pense nisso por um momento. Este país tem 220 milhões de vacas, 43% das quais estão na Amazônia. As suas emissões de aquecimento global – provenientes dos seus arrotos e peidos, mas principalmente através das ligações dos seus proprietários ao desmatamento florestal e aos incêndios – são agora maiores do que todos os carros, fábricas, aparelhos de ar condicionado, aparelhos eléctricos e outras formas de consumo de carbono de 125 milhões de japoneses. vivendo em uma das economias mais industrializadas do planeta. Quando abatido, o gado rende bilhões de dólares para conglomerados alimentares globais . Através das vacas, estas empresas intensificam a crise climática e, assim, provavelmente ajudam a tornar os El Niños mais prováveis .

Terra seca em Altamira, Brasil

A indústria da carne bovina é o maior impulsionador do desmatamento na Amazônia. Fotografia: Jonathan Watts/The Guardian

Carlos Nobre, um dos climatologistas mais influentes do Brasil, confirmou-me que o desmatamento das explorações pecuárias está a contribuir – juntamente com as principais causas do El Niño e do aquecimento do Atlântico – para a devastadora estação seca deste ano. O perigo, alertou ele, é que tais eventos climáticos extremos, dentro de duas décadas, levem a Amazônia a um ponto crítico, após o qual a região secará e será incapaz de manter-se como uma floresta tropical. Na parte sul do sudeste da Amazônia, disse ele, a floresta está muito próxima daquele ponto sem volta. A estação seca é quatro a cinco semanas mais longa do que em 1979, a mortalidade das árvores está a aumentar e a floresta emite mais carbono do que absorve.

Numa nota mais esperançosa, ele diz que o desmatamento desacelerou rapidamente na maioria dos países amazônicos este ano. Só isso não será suficiente para evitar chegar a esse momento crítico. Os governos regionais também precisarão da ajuda das nações ricas – que são historicamente em grande parte responsáveis ​​pela crise climática – para reduzir os incêndios e a degradação florestal e para embarcar em programas de reflorestação em grande escala. Na Cop28 em Dubai no final deste mês, Nobre ajudará a lançar um desses projetos, denominado Arco da Restauração.

Parece muito atrasado. A Amazônia não pode sobreviver a menos que as vacas sejam substituídas por árvores, a poeira pelas plantas e a fumaça pela chuva.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Canal France 24 faz matéria sobre causas e efeitos da seca extrema na Amazônia

seca amazonia

O Canal France 24 produziu uma matéria impactante sobre as causas e impactos abrangentes da seca extrema que está ocorrendo na Amazônia brasileira.  A cabo da jornalista Valeria Saccone, a cobertura do France 24, dentro do segmento Enlace Cono Sur, é bastante abrangente e traz os elementos centrais que esta situação está gerando na Amazônia brasileira, e foge do padrão genérico e superficial que esse fenômeno vem sendo tratado pela mídia corporativa brasileira.

Fui informado que outras matérias sobre a seca extrema que ocorre na Amazônia serão veiculadas pelo France 24 nas próximas semanas. Assim que tiver os links, vou postar o material para que os leitores do blog possam acompanhar.

El Niño, mudanças climáticas e desmatamento: cientistas explicam o que pode estar por trás da seca da Amazônia

Região Norte do Brasil tem a pior estiagem do século, com sérios impactos climáticos, econômicos e sociais. Tema foi debatido em evento promovido pela FAPESP no dia 17 de outubro

black riverO rio Negro registrou este mês o nível mais baixo da história (foto: Alex Pazuello/Secom)

Julia Moióli | Agência FAPESP

A situação da Amazônia é crítica: os Estados do Acre, Amapá, Amazonas e Pará tiveram os menores índices de chuva desde 1980 entre os meses de julho e setembro. E o rio Negro registrou este mês o nível mais baixo de água desde 1902, quando teve início a medição. A mais intensa seca na região em cem anos é consequência da influência do fenômeno El Niño, mas também há indícios de estar associada às mudanças climáticas. A avaliação foi feita por especialistas que participaram do webinário “Eventos Climáticos Extremos em Ano de El Niño”, promovido pela FAPESP em 17 de outubro.

O El Niño é um fenômeno que envolve alterações na temperatura do oceano Pacífico Tropical e no comportamento da atmosfera e contribui para alterações nos ventos e na precipitação em várias áreas do planeta. De modo geral, modifica o comportamento dos sistemas frontais (sucessões de frentes), que se tornam mais frequentes e persistentes sobre a região Sul, provocando ali um aumento das precipitações e diminuição das chuvas nas regiões Norte e Nordeste do Brasil.

“Em anos de El Niño, portanto, o fenômeno costuma provocar chuvas abaixo da média na região da Amazônia, não apenas no Amazonas, mas também nos outros Estados da região Norte, bem como na região Nordeste”, explicou Regina Alvalá, diretora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). “Neste ano, observamos ainda que os impactos do El Niño podem estar combinados com a situação do oceano Atlântico Tropical Norte, que influencia no aumento das chuvas acima do Equador, mas diminui ainda mais as precipitações na Amazônia. Portanto, precisamos aprofundar os estudos para avaliar a associação com as mudanças climáticas. A situação da escassez de chuvas precisa ser acompanhada mês a mês, inclusive para subsidiar a adoção de ações adequadas para mitigar os seus impactos.”

Regina Rodrigues, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), destacou um estudo recente que estima perdas econômicas globais – considerando o Produto Interno Bruto (PIB) de diversos países – de aproximadamente US$ 5 trilhões ao ano relacionadas aos El Niños de 1982-1983 e 1997-1998, com efeitos que duram até cinco anos.

“Estamos caminhando para outro evento desse porte”, alertou. “É importantíssimo frisar que, embora seja um fenômeno natural do sistema climático, as mudanças climáticas decorrentes de atividades humanas alteram sua frequência e intensidade. Estudos trazem evidências de que haverá um aumento na magnitude dos El Niños”, disse Rodrigues.

Na avaliação de Gilvan Sampaio, coordenador-geral de Ciências da Terra do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), há uma tendência bastante clara de os eventos extremos se tornarem cada vez mais frequentes e intensos. “Estudos indicam que, até o fim do século, viveremos em um clima de El Niño semipermanente”, afirmou.

“Estudos mostram que o aquecimento da atmosfera se expande da região tropical para médias latitudes, impactando o regime de chuvas”, reforçou Tércio Ambrizzi, coordenador do Grupo de Estudos do Clima do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP).

O desmatamento da Amazônia também agrava a seca, já que diminui a evapotranspiração, isto é, a emissão de vapor d’água pela floresta, que forma as chuvas.

Outros aspectos importantes que merecem atenção este ano na avaliação dos especialistas: antecipação da estação seca, que costuma ocorrer entre novembro e março, para abril a outubro; excesso de chuvas na região Sul, especialmente nos Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina; e temperaturas acima da média em praticamente todo o Brasil.

Impactos sociais e econômicos

A seca já impacta a população local na Amazônia: comunidades ribeirinhas ficam isoladas por conta da diminuição dos níveis dos rios; botos e peixes morrem em razão da temperatura mais alta da água; a produção de energia elétrica é comprometida; e queimadas prejudicam a qualidade do ar.

Embora as consequências econômicas possam durar anos e se complicarem num futuro próximo, alguns problemas são sentidos desde agora: em setembro, 79 municípios da região Norte tiveram mais de 80% de suas áreas agrícolas afetadas, de acordo com o Cemaden.

Alvalá reforça também que a navegabilidade dos rios vem sendo afetada, causando transtornos em uma região que depende de navegabilidade para transporte de diversos insumos. Fabricantes da Zona Franca de Manaus enfrentam dificuldades para receber componentes para a produção e distribuição de produtos para o resto do país.

“Como não é possível garantir que as chuvas voltarão a níveis normais, é preciso atuar na gestão da crise imposta pela seca para diminuir seus impactos”, ponderou Alvalá. “Designar equipes para a fiscalização das queimadas e o combate ao fogo contribui para reduzir a poluição atmosférica que impacta a saúde das pessoas e, consequentemente, reduz a demanda por insumos importantes para a área de saúde”, exemplificou.

Embora esse tipo de ação imediata pareça trivial, vale lembrar que a região da Amazônia se insere em uma área de mais de 3 milhões de quilômetros quadrados, o que demanda ações coordenadas envolvendo diversos órgãos e atores. Nesse sentido, Alvalá destacou os esforços do governo federal, que tem organizado reuniões periódicas para monitoramento da seca na região Norte e articulação e ações no âmbito do poder executivo federal.

Os pesquisadores apontam a necessidade de intensificar as estratégias de planejamento: “Temos um conhecimento muito claro dos impactos climáticos e do ônus que o El Niño ocasiona”, afirmou Ambrizzi. “Portanto, é possível se preparar com antecedência de três a seis meses, especialmente no caso das defesas civis.”

Os cientistas ressaltaram a importância de estratégias focadas no planejamento urbano, com planos diretores mais eficientes, para que a população possa conviver com o clima mais seco nos próximos anos.

Sampaio citou, por exemplo, possíveis alterações nas variedades agrícolas cultivadas. “O plantio de milho e feijão no Nordeste, que demanda quantidade considerável de água, provavelmente precisará ser substituído.”

Difusão do conhecimentoPromovido pela equipe do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG https://mudancasclimaticas.fapesp.br/), o webinário analisou a intensificação dos eventos climáticos extremos nas últimas décadas e sua associação com fenômenos meteorológicos recorrentes, entre eles o El Niño.

Apresentado por Maria de Fátima Andrade, membro da coordenação do PFPMCG, e moderado por Ambrizzi, o evento foi transmitido pelo canal da Agência FAPESP no YouTube.

Em sua apresentação, o professor do IAG-USP Ricardo Trindade destacou a importância estratégica do PFPMCG, que, há 15 anos, busca entender como as alterações climáticas acontecem, como mitigá-las e qual é o papel do ser humano nos eventos relacionados.

Outros palestrantes, além dos já mencionados, foram Renata Tedeschi Coutinho, pesquisadora do Instituto Tecnológico Vale; e Marcelo Romero, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP e membro do Comitê de Mudanças Climáticas da Prefeitura do Município de São Paulo.

Eventos extremos no Brasil e o impacto nas cidadesGilvan Sampaio, que é autor de uma série de livros sobre mudanças climáticas, e Renata Coutinho, que desde 2002 estuda a influência dos fenômenos El Niño e La Niña sobre a precipitação e seus extremos na América do Sul, dividiram a apresentação, que comentou estudos recentes sobre a importância do El Niño na situação climática extrema atual. Trataram ainda do fenômeno chamado de “Super El Niño”, que deve ser o caso deste ano, com anomalias da temperatura da superfície do mar acima de 2° C ou mais.

Na sequência, Romero expôs o painel “Medidas de mitigação e resposta a eventos extremos nas cidades”: “As cidades são o local escolhido pela maior parte da população mundial para viver, e essa tendência vem aumentando”, afirmou.

Romero chamou atenção para dois relatórios elaborados pelo United Nations Environment Programme (Unep), o programa para o meio ambiente da Organização das Nações Unidas (ONU): o primeiro sobre tendências do clima e medidas de mitigação, com destaque para aspectos como energias renováveis (indústria, transporte, edifícios); e o segundo sobre medidas de adaptação para tornar as mudanças climáticas menos agressivas, sobretudo nos ambientes urbanos. E, considerando que o Acordo de Paris dificilmente será cumprido, destacou a importância de medidas de crosscutting, ou seja, que unem estratégias de mitigação e adaptação, como é o caso do plantio de áreas verdes, restauração de rios e agricultura urbana.

Coube a Regina Alvalá apresentar um panorama dos impactos dos eventos extremos mais recentes, associados ao El Niño atualmente em curso. A pesquisadora citou números alarmantes: “Entre os dias 1 e 4 de setembro, foram registrados aproximadamente 300 milímetros de chuvas, que impactaram 103 cidades da região do Rio Grande do Sul. Isso é praticamente o dobro da média climatológica esperada para o mês de setembro”.

Além disso, o Cemaden emitiu para o mês de setembro 173 alertas, 75% deles para municípios da região Sul, e registrou 194 eventos, dos quais 87% estavam associados a inundações e deslizamentos de terra.

Alvalá trouxe ainda dados sobre o monitoramento das condições atuais de seca, e sobre o risco de seca na agricultura familiar, este incluindo a severidade e a vulnerabilidade socioeconômica que varia de região para região (apesar de ser mais impactante no Nordeste, também é significativa no Norte, mas menos expressiva no Sul); sobre o volume de energia armazenada para diferentes sistemas de reservatórios (diminuição do volume de energia armazenada nas regiões Norte e Nordeste e aumento na região Sul); e sobre o risco de fogo, com mais de 340 municípios com níveis de alerta alto.

O webinário Eventos Climáticos Extremos em Ano de El Niño está disponível na íntegra em: www.youtube.com/watch?v=_1ddjHDQhNk.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Fapesp [Aqui!].