Entrevista ao Carbon Report: a floresta amazônica entre perdas, danos e a esquizofrenia governamental

Degradação da Floresta Amazônica é maior que desmatamento e emite tanto carbono quanto

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Por Mariza Louven para o Carbon Report

A notícia de que o Brasil perdeu 15% de suas florestas tropicais primárias, de 2021 para 2022, a maior parte na Amazônia, não surpreendeu o professor Marcos Pedlowski, da Universidade Estadual do Norte Fluminense, de Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro. Este problema, resultante do desmatamento, é a ponta mais conhecida do iceberg. Outro, menos visível e igualmente prejudicial ao meio ambiente e ao clima, é a degradação das áreas remanescentes. Ambos são agravados pelo que ele chama de “uma certa esquizofrenia” governamental.

A degradação florestal não é tão bem documentada quanto o desmatamento e nem recebe a mesma atenção do governo e da sociedade, dificultando seu combate. Isso torna ainda mais relevante a pesquisa científica sobre a extensão dos danos às florestas que ainda resistem em pé.

O fogo, a extração de madeira e outras atividades antrópicas (humanas) provocaram a degradação de 250 mil quilômetros quadrados (km2) da Floresta Amazônica, entre 2001 e 2018, segundo estudos de um pool de pesquisadores do qual Pedlowski faz parte. É uma área maior do que a do Reino Unido (243.610 km²) e equivalente a 38% do bioma.

São danos nem sempre reversíveis e que levam a emissões de carbono comparáveis às provocadas pelo desmatamento. Provocam também diminuição equivalente da biodiversidade e os mesmos impactos negativos sobre o regime de chuvas.

Dados baseados na ciência

Pedlowski é um dos que assinam textos sobre a degradação florestal da Amazônia veiculados por publicações como a Science Magazine. Um deles, Os drivers e impactos da degradação da floresta amazônica”, de janeiro deste ano, revisou trabalhos anteriores sobre os impulsionadores da mudança na Amazônia e mostrou que elas estão ocorrendo muito rapidamente. A emissão de carbono provocada pela degradação florestal é comparável à resultante do desmatamento. Varia de 50.000 a 200.000 toneladas de carbono por ano, comparável à do desmatamento, de 60.000 a 210.000 toneladas.

Os pesquisadores haviam publicado, em 2020, o texto Degradação florestal de longo prazo supera o desmatamento na Amazônia brasileira, baseado em dados de sensoriamento remoto com resolução espacial de 30 metros. Eles descobriram que a extensão e a taxa de degradação florestal eram iguais ou superiores às desmatadas, com implicações importantes sobre a quantidade de carbono estocado pela floresta, a biodiversidade, o equilíbrio energético e a política internacional.

“Esses estudos já deveriam ter gerado uma mudança de paradigma nas ações governamentais em prol do uso sustentável da Amazônia, mas no governo Bolsonaro caíram em ouvidos surdos. E, no governo Lula, não vi mudança de postura até agora. Continua a ladainha do desmatamento zero, enquanto o problema da degradação é negligenciado”, afirma Pedlowski

A degradação florestal alcança atualmente um status tão ou mais grave do que o desmatamento. Ainda assim, os esforços realizados internacionalmente para impedir o avanço da destruição das florestas tropicais mencionam apenas o desmatamento. “É como se o que ainda não foi desmatado estivesse totalmente preservado. Isso não é, absolutamente, a verdade”, acrescenta.

Marcos Pedlowski enxerga avanços no governo Lula, mas também desencontro de ações

Desencontro de ações

Os próximos meses serão decisivos para diferenciar a gestão Lula da anterior. Pedlowski reconhece que qualquer avaliação do governo, agora, será sempre parcial e que houve avanços no controle do desmatamento. Ele vê recuperação de uma certa racionalidade no processo de gestão, inclusive do ministério do Meio Ambiente, e reconhece que, dado o que estava acontecendo antes, isso não é pouco.

Há, entretanto, lentidão na formação das equipes dentro de ministérios e agências, o que prejudica a execução da agenda proposta durante a campanha eleitoral do agora presidente Lula.

Quando fala em esquizofrenia governamental, o professor não está se referindo apenas à demora para reequipar o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), mas ao desencontro de ações.

“Por um lado, dentro do governo, fomentam o desmatamento e a degradação; e, por outro, procuram conter esses processos”, diz ele. Para reforçar esta tese, cita o atraso na formação de equipes do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), enquanto no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) técnicos que atuaram no governo Bolsonaro foram promovidos.

Desmatamento legal

O pesquisador também chama a atenção para o grande peso do desmatamento legal, relacionado às políticas e projetos governamentais que apoiam o crescimento da agricultura em grande escala, extração seletiva de madeira e mineração. “Se olharmos em retrospectiva a ocupação da Amazônia, desde a década de 1970, sempre encontraremos projetos governamentais que estimularam tanto o desmatamento quanto a degradação florestal”, afirma.

Agora mesmo, no governo Lula, continua Pedlowski, existem propostas para a pavimentação da BR-319 e para a construção da chamada Ferrogrão que, se executadas, resultarão na abertura da porta de entrada para áreas ainda relativamente intactas da floresta amazônica.

Na opinião dele, estamos diante de um momento que poderá ser paradigmático para o futuro da Amazônia. Se o governo insistir em financiar projetos que poderão ter um efeito dominó em relação ao desmatamento e à degradação florestal, qualquer menção ou discurso ao desenvolvimento sustentável das florestas brasileiras, incluindo aí o Cerrado, será letra morta.

“Há que se levar a sério a necessidade de proteger as florestas brasileiras. Seguramente, elas valem mais em pé do que deitadas”, afirma. Entretanto, para isso, será necessário “superar a mentalidade de que o desmatamento e a degradação justificam uma espécie de destino manifesto do Brasil”.

Diferentes soluções

Como combater, efetivamente, as perdas florestais, que estão levando ao desaparecimento das florestas tropicais primárias? Para ele, a resposta passa por diferentes dimensões.

Uma delas é mais da alçada do governo, como restabelecer o sistema de comando e controle que foi basicamente desmantelado durante a gestão anterior. Isso envolve não apenas recuperar a capacidade de fiscalização no chão, mas também os sistemas de monitoramento que existiam e funcionavam com toda a qualidade, principalmente aqueles instalados dentro do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Outra, é a desmilitarização completa de órgãos como o Ibama e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), “que foram asfixiados pela instalação de chefias militares”, complementa.

Na avaliação de Pedlowski, também será preciso recuperar a sinergia com os órgãos ambientais estaduais, fato que não ocorreu ao longo da administração de Jair Bolsonaro. Sem isso, o professor acredita que não será possível estabelecer processos de cooperação que fortaleçam as ações de fiscalização, o desenvolvimento de políticas positivas e ações de estímulo a setores que vivem da exploração dos recursos florestais para manterem a floresta em pé. Isso passa pela valorização dos produtos não madeireiros.

O engajamento do setor privado

Segundo Pedlowski, o setor privado também deve ter um papel relevante. Sem a participação do setor privado, reconhece, não há como resolver grande parte das dificuldades que existem em torno da proteção da biodiversidade e busca de um crescimento econômico que não potencialize esquemas deletérios para o meio ambiente: “O setor privado tem que contribuir com soluções e não apenas com ferramentas de corporate washing, mantendo o business as usual”.

No caso do desmatamento causado pela expansão das áreas cultivadas com grãos, prevê, não haverá saída se as corporações globais que controlam as cadeias de produção e comercialização não começarem a agir com seriedade. Precisam impor restrições a produtos oriundos de áreas desmatadas ilegalmente, como começará a ser feito pela União Europeia.

Ele inclui a questão da madeira extraída ilegalmente e que tem impacto direto sobre o avanço do processo de degradação florestal em todos os países tropicais. “Sem que esses grandes atores adotem mecanismos efetivos de rastreamento ao longo da sua cadeia de produção, qualquer compromisso será inútil”, prevê.

O engajamento de governos e empresas é fundamental para impedir que as atividades clandestinas sejam premiadas com a inserção de seus produtos nos mercados nacionais e internacionais. Sem esse passo básico e fundamental, na visão de Pedlowski, as estruturas de fiscalização não resolverão o problema sozinhas.

E o mercado de carbono?

O mercado de carbono é uma das muitas ferramentas desenvolvidas para engajar o setor privado nos esforços de harmonizar demandas de crescimento com proteção ambiental. Para Pedlowski, no entanto, existem poucas evidências de que poderá alavancar essa sinergia.

Um dos principais obstáculos, na opinião dele, é a definição de quem irá efetivamente regular o funcionamento do sistema de créditos de carbono, ou ainda se isso é efetivamente viável. Um exemplo citado por Pedlowski é o episódio ocorrido no início deste ano, quando uma investigação liderada pelo jornal britânico “The Guardian” descobriu que compensações de carbono florestal aprovadas pela certificadora Verra, usadas por grandes corporações como a Disney, Shell e Gucci, são em grande parte inúteis e podem piorar o aquecimento global.

O peso do agronegócio e da geopolítica

O professor destaca a agricultura industrial, gerada pela “Revolução verde”, como uma grande emissora de carbono. Como hoje este setor domina a paisagem agrícola brasileira e cobre grandes extensões de terra, não há como pensar em soluções sem que o agronegócio seja parte integrante da equação.

Na opinião dele, o controle de emissões de gases de efeito estufa deve passar por uma combinação de mecanismos de regulação estatal com outros criados pelas relações de mercado. Entretanto, como o mercado é sempre mais pragmático, a questão seria como criar um sistema de incentivos que combine elementos positivos e negativos para, digamos, criar a dinâmica necessária e um controle mais eficiente.

Não se gera mudança em práticas de mercado só com restrições, reforça. É necessário colocar a possibilidades de ganho na equação. Caberia às lideranças multilaterais decidirem como criar um sistema de controle de emissões que combine restrição e incentivo.

“Uma coisa que se pode dizer é que as múltiplas reuniões multilaterais realizadas nas últimas décadas não geraram um sistema confiável para todos os atores envolvidos no processo”, avalia. Quando muito, complementa, produziram soluções parciais, enquanto a destruição das florestas continua avançando.

Mais recursos para a pesquisa

Pedlowski chama a atenção, ainda, para a necessidade de fortalecimento do financiamento para a pesquisa na Amazônia. Lá existem universidades e instituições de pesquisa como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) que têm um largo conhecimento sobre formas de exploração dos recursos das florestas amazônicas.

É fundamental, na avaliação dele, que essas instituições e grupos de pesquisa sejam corretamente financiadas, de modo a potencializar o desenvolvimento de estratégias e o uso sustentável dos ecossistemas amazônicos. Existem experiências e evidências científicas de que é possível explorar recursos madeireiros e não madeireiros na Amazônia, de forma eficiente e menos agressiva para as florestas.

“A questão é que, objetivamente, quando se formulam as políticas para a Amazônia, há mais dinheiro para boi e pasto e menos para sistemas agroflorestais, por exemplo. Enquanto isso não for alterado pelas diferentes esferas de governo e por instituições financeiras estatais e privadas, não há como esperar qualquer mudança prática”, completa.

“Participei de um projeto piloto de regeneração florestal em Rondônia, entre 1992 e 2008, e uma das lições que tirei dessa experiência é: muitas vezes, as soluções são geradas por quem vive na região. Posso afiançar que há muito espaço para criatividade e inovação em locais e pessoas que são normalmente invisíveis para quem formula as políticas públicas para a Amazônia”.


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Este texto foi inicialmente publicado pelo CarbonReport [Aqui!]

ABC e Ianas reúnem comunidade científica das Américas para debater futuro sustentável da Amazônia

Encontro em Manaus visa apoiar o desenvolvimento de soluções de longo prazo e ancoradas na ciência

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Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Rede Interamericana de Academias de Ciências(Ianas) reúnem em Manaus as Academias de Ciências das Américas para discutir o desenvolvimento de soluções sustentáveis para a região amazônica. O evento Ciência por e para a Amazônia acontece nos dias 2 e 3 de agosto, no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

“Um encontro como este para promover a ciência feita na Amazônia e pela Amazônia é central neste momento que estamos vivendo de preparação para a COP30, daqui a dois anos. Sem ciência, não é possível construir a sustentabilidade que buscamos para o planeta como um todo, mas especialmente para o bioma amazônico, tão estratégico para as metas que queremos atingir até 2030”, afirma Helena Nader, presidente da ABC e copresidente da Ianas.

Um dos objetivos da reunião intercontinental é gerar contribuições da comunidade científica para a Cúpula dos Países Amazônicos, que será realizada em Belém na semana seguinte, em 8 e 9 de agosto.

Durante o encontro no Inpa, haverá palestras de atores regionais relevantes, como André Baniwa, diretor do departamento de Territórios na Secretaria de Direitos Ambientais do Ministério dos Povos Indígenas, e María Alexandra Moreira López, secretária-geral da Organização do Tratado da Cooperação Amazônica (OTCA).

Representantes do Painel Científico para a Amazônia (SPA, na sigla em inglês) falarão sobre a construção de um futuro sustentável para a Amazônia. E acadêmicos de todos os países com território amazônico apresentarão suas visões sobre como aliar ciência e políticas públicas para levar mais sustentabilidade à floresta. O vice-presidente da ABC para a Região Norte, Adalberto Val, participará deste debate.

No dia 3, as copresidentes da Ianas, Helena Nader e Karen Strier, vão apresentar a Carta de Manaus, na qual as Academias de Ciências e outras organizações científicas do continente se comprometerão a fortalecer parcerias entre países amazônicos e não amazônicos para desenvolver políticas para restauração e conservação da floresta. A versão final do documento será encaminhada às delegações dos países participantes da Cúpula Amazônica, em Belém.

Credenciamento para a imprensa

Clique aqui para acessar a programação completa do evento, que será fechado para convidados. Jornalistas credenciados poderão participar presencialmente. Para se credenciar, o jornalista deve enviar nome, CPF, veículo de imprensa e contato para o endereço carlacamargo@corcovadoestrategica.com.br até às 18h de terça-feira, 1° de agosto. Haverá ainda transmissão ao vivo no canal da ABC no Youtube.

“Science for and by the Amazon”

Data: 2 e 3 de agosto

Local: Bosque da Ciência – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa)

End.: R. Bem-Ti-VI, s/n – Petrópolis, Manaus – AM, 69060-001

Horário: de 9h às 17h40

Cobertos por floresta, manguezais da Amazônia brasileira se mantêm preservados

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FOTO: MARCOS SANTOS / USP IMAGENS

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Os manguezais da costa amazônica brasileira estão bem preservados, aponta artigo publicado na revista “Anais da Academia Brasileira de Ciências” nesta sexta (21) por pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale (ITV) e das universidades federais do Pará (UFPA) e Rural da Amazônia (UFRA). Os principais impactos identificados na região são a expansão urbana e a construção de estradas, mas menos de 1% da área total foi convertida por essas atividades. As florestas de mangue correspondem à maior cobertura, ocupando 92% da área de estudo.

Os pesquisadores analisaram imagens de satélite de alta resolução entre 2011 e 2015 para obter um mosaico de imagens sem nuvens, que foram comparadas com imagens antigas da região. “Os manguezais da Amazônia brasileira são os maiores e mais bem conservados manguezais do planeta”, explica Pedro Walfir Martins e Souza Filho, autor correspondente do trabalho. Trata-se de área de 7820 km², com planícies de maré vegetadas que têm cerca de 30 a 40 quilômetros de largura, descreve o pesquisador do ITV. Além de florestas, a área estudada também conta com a presença de planícies salinas conectadas ao manguezal, conhecidas como apicuns.

A região de Bragança, no Pará, concentra pontos de degradação mapeados pelo estudo devido à construção de da Rodovia PA-458, que corta o manguezal por 26 quilômetros, aponta Souza Filho. Por outro lado, observa o pesquisador, a estrada construída entre as décadas de 70 e 80 permitiu maior acesso dos pesquisadores à região, gerando mais conhecimento sobre geoquímica, biodiversidade e conservação desses ecossistemas.

O apicum é a menor porção da área estudada, correspondendo a 12 km² ou 0,15% do total, mas é proporcionalmente mais afetada pela ação humana, que já atingiu mais de 2% dessas áreas salgadas. Souza Filho relata que a vegetação nesses locais é escassa por conta do sal. Assim, o apicum é muito usado para aquacultura, que envolve atividades como a criação de peixes e camarões em tanques. “Já no manguezal, temos uma floresta de 20 metros de altura, então é mais difícil fazer uso desta área em meio a extensos depósitos de lama”, observa.

O pesquisador lembra que o Código Florestal de 2012 permite o uso do apicum, enquanto manguezais são considerados áreas de preservação permanente. O artigo frisa que a preservação dessas florestas também pode ser explicada por fatores como a presença de unidades de conservação ao longo da costa, incluindo 12 reservas extrativistas, e a baixa densidade populacional na região, relacionada à ausência de infraestruturas como estradas e redes de transmissão de energia elétrica.

Souza Filho destaca que o objetivo dos pesquisadores é avaliar o estado de conservação dos manguezais em todo o planeta, já que a literatura tem apontado grandes alterações em manguezais da Índia, Bangladesh e Nova Guiné. “Partimos então da hipótese de que os manguezais da Amazônia precisam de uma política especial para que permaneçam nesse estágio de conservação e que não se permita o avanço da degradação como vem ocorrendo em outros lugares do mundo”, completa o autor.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Repórter Brasil lança documentário em homenagem a Dom Phillips

Repórter Brasil lança documentário em homenagem ao jornalista Dom Phillips e aborda a violência enfrentada na cobertura da Amazônia

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Seguindo o assassinato do repórter inglês, o filme “Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia” trata dos desafios da cobertura da violência na Amazônia

São Paulo, 20 de julho de 2023. “Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia”, novo documentário da Repórter Brasil, é uma homenagem a Dom Phillips, jornalista inglês assassinado em uma emboscada no Vale do Javari junto ao indigenista Bruno Pereira. Com a proposta de refletir sobre a complexa natureza da cobertura da Amazônia, o filme parte da experiência de Daniel Camargos, que foi companheiro de reportagem de Dom, ao cobrir as buscas pelo amigo desaparecido.

A estreia do documentário será no sábado, 22 de julho, às 19h, na mostra Histórias da Amazônia, promovida pelo Pulitzer Center e pela Cinemateca, em São Paulo.

O documentário mergulha nos desafios enfrentados pelos jornalistas que cobrem a violência contra as comunidades indígenas na maior floresta tropical do mundo. A narração em primeira pessoa de Camargos conduz uma reflexão sobre o papel dos repórteres em meio aos conflitos na região. Após ouvir e sofrer com a brutalidade das revelações sobre o que aconteceu com Dom, assassinado e esquartejado, o jornalista se pergunta se “vale a pena seguir adiante”.

Em busca de respostas, o filme acompanha o repórter ao percorrer outros estados e outras terras indígenas, onde observa semelhanças e diferenças no modo como as suas fontes processam o luto. A resistência indígena perante a perda de tantos na disputa pelo território ganha uma nova dimensão para o repórter.

De acordo com Camargos, o filme começa após o trabalho de convencimento frente aos questionamentos sobre os riscos. “O encontro com a morte do amigo, a busca por sentido para a profissão de repórter e a tentativa de dar continuidade ao trabalho do Dom, são passos que dou ao longo do documentário que tem um tom reflexivo”, descreve o jornalista. “Fazer esse documentário foi muito doloroso, sem dúvida. Mas também foi fundamental para encontrar o sentido de ser repórter”.

Com 1h de duração, “Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia” é um filme de Ana Aranha e Daniel Camargos, com fotografia de Fernando Martinho e Caio Castor, montagem de Pedro Watanabe, e realização da Repórter Brasil.

Consórcio em homenagem ao Dom Phillips

O documentário integra o trabalho feito por um consórcio de mais de 50 jornalistas espalhados por 10 países e representando 16 organizações, incluindo os ingleses The Guardian e The Bureau of Investigative Journalism, Expresso (Portugal), Le Monde (França), Ojo Público (Peru), Paper Trail Media (Alemanha), NRC (Holanda), Tamedia (Suíça), Der Standard (Áustria), além dos brasileiros Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Amazônia Real, Folha de São Paulo e TV Globo. Com coordenação da Forbidden Stories, esses veículos realizam diversas publicações entre os dias 1 e 4 de junho, quando a morte de Dom e Bruno completará um ano. O objetivo é dar eco às investigações que Dom Phillips fez em vida e, de certa forma, continuar o seu trabalho.

Sobre a Repórter Brasil

A Repórter Brasil é uma organização fundada em 2001 por jornalistas, cientistas sociais e educadores com o objetivo de fomentar a reflexão e ação sobre a violação aos direitos fundamentais dos povos e trabalhadores no Brasil. Suas reportagens, investigações jornalísticas, pesquisas e metodologias educacionais têm sido usadas por lideranças do poder público, setor empresarial e sociedade civil como instrumentos para combater a escravidão contemporânea, problema que afeta milhares de pessoas. Saiba mais aqui.

As duas grandes mentiras do “Ogronegócio”

A de que o “ogro” não é mais o latifúndio improdutivo de algumas décadas e de que ele alimenta o mundo

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Foto: reprodução AgroReset

Por Júlio Miragaya para o BSB Capital

Apresentado pela grande mídia como um setor moderno e tecnológico, o “ogronegócio” continua mostrando sua verdadeira face: o Projeto de Lei do Marco Temporal das Terras Indígenas (PL 490/07); o PL do Veneno (nº 1.459/22); o financiamento dos atos golpistas de 8 de janeiro e a tentativa de criminalização do MST com uma CPI espúria. A falsa imagem (Agro Tec, Agro Pop) apresentada pela Globo assenta-se em duas grandes mentiras: a de que o “ogronegócio” não é mais o latifúndio improdutivo de algumas décadas e de que ele alimenta o mundo.

A primeira questão, posse e exploração da terra, é o que tem dado margem ao questionamento dos ruralistas em relação à extensão das terras indígenas no Brasil. Num misto de ganância e ignorância em relação à cultura dos povos originários, alegam que os indígenas têm terras em demasia para uso algum. Ora, o IBGE acabou de apurar que a população indígena é superior a 1,65 milhão, sendo que cerca de 1/3 (550 mil) reside em áreas urbanas e 2/3 (1,1 milhão) em Terras Indígenas. Como as Terras Indígenas demarcadas (nem todas homologadas) somam 107 milhões de hectares, o resultado é 97 hectares/indígena.

O Brasil tem 115 mil grandes propriedades rurais que ocupam 315 milhões de hectares, o que resulta em 2.740 hectares/propriedade. Mesmo se considerar todos os seus familiares (seriam 310 mil pessoas, 2,7 pessoas/família), o resultado seria de 1.016 hectares/pessoa, mais de dez vezes o espaço médio ocupado por indígenas. A título de comparação, as 4,7 milhões de pequenas propriedades rurais (agricultura familiar) ocupam 130 milhões de hectares – 27,6 hectares/propriedade, 100 vezes menos que um latifúndio. 

A réplica dos ruralistas traz a segunda grande mentira, a de que, sustentando o saldo positivo da balança comercial brasileira com suas exportações, alimentam de 1,5 bilhão a 2 bilhões de pessoas do planeta. Mentira desvairada! O Brasil produz 7,7% da produção mundial de grãos (270 milhões em 3,5 bilhões de toneladas) e suas exportações de grãos somam 140 milhões de toneladas, apenas 4% do consumo mundial.

 Tal volume supriria a demanda de 320 milhões de pessoas (4% de 8 bilhões), uma fração dos 1,5 a 2 bilhões. Mas nem isto é verdadeiro, pois a grande maioria dos grãos exportados pelo Brasil não se destina diretamente à alimentação humana, mas a aves e porcos chineses, coreanos e europeus.

 Quanto a sustentar o saldo da balança comercial do país, se é fato, o seu efeito colateral é devastador para os brasileiros, especialmente os mais pobres. Os ruralistas se dedicaram a expandir a produção de produtos que possam faturar em dólar, deixando de lado os produtos tradicionais da mesa do brasileiro. Assim, a área plantada com soja, milho e cana-de-açúcar) avançou de forma implacável (crescimento de 213% de 1980 a 2022, de 22,4 para 70,2 milhões de hectares), ocupando hoje cerca de 85% da área plantada no País.

Já a área plantada para a produção de alimentos que o nosso povo consome (feijão, arroz, mandioca, hortaliças, legumes, banana), cada vez mais restrita aos agricultores familiares e médios produtores rurais, caiu mais de 50%, de 14,4 para 7,1 milhões de hectares (de 1960 a 2020, enquanto a população brasileira cresceu 200%, a produção de arroz cresceu 130%, a de feijão 67%, a de banana ficou estagnada e a de mandioca caiu 19%).

Daí advém dois sacrifícios para o povo nas cidades: de um lado, a redução da área cultivada com alimentos básicos resulta na estagnação da produção e consequente elevação de seus preços; de outro, a cotação em dólar das exportações gera uma forte alta dos preços de óleo de soja, fubá, açúcar e carnes no mercado interno.

Em suma, sempre posando de patriotas, desfilando nos acampamentos golpistas com a “amarelinha” do Neymala, os ruralistas estão se lixando para a alimentação do povo brasileiro.

E o que fica desses “homens de bem”: grilagem de terras públicas; invasão de unidades de conservação e terras indígenas; frequente uso de trabalho escravo; uso excessivo de agrotóxicos contaminando o ar, o solo e o lençol freático; destruição de matas ciliares; promoção de incêndios criminosos e desmatamento na Amazônia e no Cerrado, e recorrentes calotes de suas dívidas junto ao Banco do Brasil.

O que o Brasil precisa é de uma CPI do “ogronegócio”!


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Este texto foi originalmente publicado pelo BSB Capital [Aqui!].

MCTI vai expandir monitoramento dos biomas para identificar causas do desmatamento

Ferramenta TerraClass usada apenas na Amazônia aponta motivos para derrubada de árvores, como garimpo ou pecuária

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Foto: Luara Baggi (ASCOM/MCTI)
 

O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) vai expandir o monitoramento dos biomas para identificar as possíveis causas do desmatamento. O anúncio foi feito nesta quinta-feira (6) pela secretária de Políticas e Programas Estratégicos do MCTI, Marcia Barbosa, durante entrevista coletiva sobre os dados do desmatamento no primeiro semestre de 2023. Segundo ela, a ferramenta TerraClass, que usa como base os dados de satélites, passará a monitorar outros biomas, além da Amazônia.

Enquanto os programas Prodes e Deter fazem o mapeamento das áreas desmatadas, o TerraClass investiga os motivos e aponta as possíveis causas da derrubada de árvores, como garimpo ou pecuária.

“O MCTI é parceiro do Ministério do Meio Ambiente neste controle do desmatamento através dos programas Prodes e Deter. Mas queremos expandir o TerraClass, que permite um outro olhar do que está ocupando o espaço desmatado. O MCTI está expandindo essa ferramenta para outros biomas, e vamos disponibilizar a ferramenta para ter um olhar diferenciado em relação ao desmatamento”, afirmou a secretária.

Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), no primeiro semestre deste ano, o desmatamento na Amazônia caiu 33,6% na comparação com o mesmo período do ano anterior. Por outro lado, foi registrado aumento de 21% no desmatamento no Cerrado.

“A redução do desmatamento na Amazônia se deve a um conjunto de ações que vão desde o aumento da fiscalização, dos embargos feitos pelo Ibama, ações coordenadas juntos com os estados e um processo de dissuasão de que não haverá conivência com a criminalidade. Isto tem um efeito positivo para a redução do desmatamento”, destacou a ministra Marina Silva.

Nacionalismo da motosserra desconhece ideologias para justificar o injustificável

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As últimas declarações irritadas do presidente Lula sobre as demandas da União Europeia por contenção do avanço do desmatamento na Amazônia parecem saídas do mesmo baú de onde Jair Bolsonaro tirava as suas falas. Aliás, se olharmos um pouco mais para baixo e analisarmos a trajetória do ex-comunista Aldo Rebelo também notaremos forte semelhança no discurso.

As falas geralmente incluem uma recriminação para o desmatamento cometido pelos europeus em suas terras, o que objetivamente ignora as discrepâncias de formações florestais de lá e de cá e também os esforços realizados do outro lado do Atlântico para recuperar parte das florestas perdidas ao longo do tempo, o que trouxe ganhos visíveis na cobertura florestal europeia.  Aliás, essas falas desconhecem que os principais desmatamentos cometidos pelos europeus ocorreram em suas colônias na América, África e Ásia.

Mas nada disso importa quando se equaciona desmatamento a desenvolvimento econômico, pois objetivamente o que se diz é que se os europeus puderam desmatar e degradar suas florestas para se desenvolverem, o Brasil também teria que ter esse direito. 

Essas afirmações todas obscurecem ainda que no Brasil já existe terra desmatada o suficiente para que não seja mais desnecessário derrubar mais um centímetro de floresta que seja, e que todo esse discurso que eu chamo de nacionalismo da motosserra” serve pra ocultar a disposição de aceitar que o processo de grilagem de terras e saque dos recursos naturais siga seu curso, em nome do processo de desenvolvimento nacional, é claro.

O problema é que o Brasil é um dos maiores emissores globais de CO2 justamente por causa do desmatamento e queima de suas florestas. Disso decorre que, ao contrário do que prega o nacionalismo da motosserra,  nosso país é um dos “major players” do aquecimento global, e que não é possível tolerar que continuemos devastando nossas florestas em nome de um processo que nada tem a ver com desenvolvimento, já que os beneficiários do saque das riquezas representam uma fração mínima da população brasileira.

Em suma, que ninguém se deixe levar pelo nacioanalismo da motosserra, pois as mudanças climáticas são reais e os próximos meses de El Niño vão deixar isso bastante claro.

O desmatamento avança. Perda florestal aumenta apesar dos votos na Cúpula do Clima

yangambi_Congo_forestUm terreno aberto para agricultura na floresta de Tshopo, República Democrática do Congo. Recentemente, a perda de floresta primária tropical em todo o mundo aumentou dez por cento. Direitos autorais: Axel Fassio/CIFOR , (CC BY-NC-ND 2.0)

As maiores perdas ocorrem no Brasil, na República Democrática do Congo (RDC) e na Bolívia – lar das maiores e mais significativas florestas tropicais do mundo, de acordo com os dados de perda de cobertura de árvores da Universidade de Maryland em 2022, apresentados pelo Instituto de Recursos Mundiais (WRI) Observação Florestal Global.

Os novos dados mostram que em 2022 os trópicos perderam 4,1 milhões de hectares (10,1 milhões de acres) de floresta tropical primária – uma área aproximadamente do tamanho da Suíça – a uma taxa equivalente a 11 campos de futebol por minuto.

“Globalmente, estamos muito longe do caminho certo e indo na direção errada quando se trata de reduzir o desmatamento.”

Rod Taylor, diretor global de florestas, World Resources Institute

Isso representa um aumento de dez por cento em relação a 2021 e resultou em 2,7 gigatoneladas de emissões de dióxido de carbono – equivalente às emissões anuais de combustíveis fósseis da Índia, de acordo com a análise.

As florestas abrigam mais de 80% das espécies terrestres de animais, plantas e insetos e fornecem abrigo, empregos e segurança para as comunidades que as habitam, diz  a ONU . E estima-se que a perda e os danos florestais causem cerca de  10% do aquecimento global.

Na conferência do clima COP26 da ONU em Glasgow em 2021, 145 países se comprometeram a  interromper e  reverter  o desmatamento até 2030, enquanto na COP27 de novembro passado no Egito,  27 países se uniram para acelerar as ações em relação a essas promessas.

No entanto, o WRI diz que as metas não serão alcançadas na trajetória atual, com declínios na perda de florestas não se concretizando.

“Globalmente, estamos muito longe do caminho e seguindo na direção errada quando se trata de reduzir o desmatamento”, disse Rod Taylor, diretor global de florestas do WRI, em uma coletiva de imprensa em 21 de junho.

“Nossa análise mostra que o desmatamento global em 2022 foi mais de 1 milhão de hectares acima do nível necessário para atingir o desmatamento zero até 2030”, acrescentou.

A perda de florestas é vista como uma questão fundamental no combate às mudanças climáticas , pois o carbono é removido do ar pelas florestas vivas e emitido quando as árvores são derrubadas ou degradadas.

No Brasil, a taxa de perda de florestas primárias aumentou 15% de 2021 a 2022, principalmente na Amazônia. A perda geral do país representou mais de 40% do total global.

Incêndios e exploração madeireira

Marcos Pedlowski, professor associado da Universidade Estadual do Norte do Rio de Janeiro, no Brasil, disse ao Scidev.Net que o desmatamento – a remoção total de árvores – é apenas parte do problema.

“Embora os números possam ser vistos como dramáticos, eles não contam toda a história porque há outro elemento concomitante de mudança na cobertura da terra, que é a degradação florestal”, explicou.

As áreas degradadas, por exemplo, por incêndios e extração seletiva de madeira, são ainda mais comuns do que aquelas que estão sendo desmatadas, disse Pedlowski.

“Como resultado, há muito mais motivos de preocupação em relação ao empobrecimento das áreas florestais”, acrescentou.

Em relação ao Brasil, que abriga a maior área de floresta tropical do planeta, Pedlowski apontou uma combinação de fatores que impulsionam o desmatamento e a degradação.

“Alguns impulsionadores estão diretamente ligados ao que podemos chamar de desmatamento legal… ligados a políticas e projetos governamentais que apoiaram o crescimento da agricultura, extração seletiva de madeira e mineração”, disse ele.

Pedlowski acredita que essas tendências expõem as fraquezas das instituições e conferências multilaterais quando se trata de controlar a mudança florestal.

“Apesar das inúmeras reuniões e conferências, a tendência geral é de mais perdas e não o contrário”, acrescentou.

“Esta situação é ainda mais complicada pela complexa situação econômica global que foi agravada pela pandemia do COVID e pela guerra na Ucrânia e seu efeito na produção de alimentos.

“A menos que os comerciantes globais de grãos, madeira e carne levem a sério suas responsabilidades em relação à rastreabilidade de seus produtos e evitem comprar commodities produzidas em áreas desmatadas ilegalmente, não vejo como conseguir nenhuma mudança positiva”, acrescentou.

Preservação da floresta

Do lado positivo, a Indonésia reduziu sua perda de floresta primária mais do que qualquer outro país nos últimos anos, seguida pela Malásia, de acordo com o Global Forest Watch.

Intervenções do governo e programas corporativos e comunitários permitiram que os dois países mantivessem suas taxas de perda de florestas primárias tropicais perto de níveis recordes.

Os analistas atribuem o sucesso da Indonésia a políticas como a moratória da extração de madeira, monitoramento de incêndios e restauração de turfa, bem como ações corporativas eficazes.

M. Faiz Syuaib, engenheiro agrônomo e diretor de pesquisa, tecnologia e serviços comunitários do Ministério da Educação, Cultura, Pesquisa e Tecnologia da Indonésia, disse que o governo indonésio vem tentando ativamente preservar as florestas do país há mais de uma década.

A extração de madeira é limitada a empresas estatais e novas árvores devem ser plantadas para substituir as derrubadas, disse ele ao SciDev.Net .

Em áreas vulneráveis ​​a incêndios florestais, disse Syuaib, fossos cheios de água estão sendo construídos para impedir que os incêndios se espalhem.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela SciDev.Net [Aqui!].

Enquanto Brasil lidera desmatamento no mundo, governo Lula libera R$ 400 bilhões para o “ogronegócio” continuar sua marcha na Amazônia

Uma área de floresta tropical primária do tamanho da Suíça foi derrubada no ano passado, sugerindo que o compromisso dos líderes mundiais de interromper e reverter o desmatamento até 2030 está falhando

desmatamento fogo

De acordo com dados liberados pelo World Resources Institute no dia de ontem, o Brasil foi o campeão de desmatamento no mundo, com as perdas de florestas nativas representando 43% de tudo o que desmatado no planeta em 2022, com o impressionante desaparecimento de 1,4 milhões de hectares.  Com isso, as emissões de carbono do Brasil em função da mudança da cobertura vegetal  foram de 1,2 Gt C02 sendo emitidas, ou 2,5 vezes as emissões anuais de combustíveis fósseis do nosso país.

total deforestation

Brasil, República Democrática do Congo e Bolívia ficaram entre os três primeiros em perda de floresta tropical primária em 2022

Some-se a esses dados, o fato de que em 2022 (último ano de Jair Bolsonaro no poder), a variação em relação a 2021 aumentou em 20%, o que implica a maior perda de floresta primária sem fogo aumentou  desde 2005  (ver figura abaixo).

desmatamento 2002 2022

E sabemos que no Brasil os responsáveis por essas taxas astronômicas são os membros do chamado “ogronegócio” que avançam a franja de desmatamento na mesma velocidade em que deixam terras abandonadas para trás, visto que não há qualquer compromisso com a adoção de formas minimamente sustentáveis de uso da terra.

Entretanto, nem esse cenário de terra arrasada detém a influência do “ogronegócio” em abocanhar pesadas fatias de dinheiro público para subsidiar suas atividades destruidoras.  Uma prova disso é o fato de que nesta terça-feira, dia 27, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Agricultura e Pecuária (Mapa), Carlos Fávaro, lançam o Plano Safra 2023/2024.  Segundo fontes ligadas  ao “ogronegócio”, informações de bastidores indicam que será um plano histórico, que deve ultrapassar os R$ 400 bilhões.

O ato de lançamento de mais essa rodada de entrega de dinheiro para destruir os principais biomas florestais deverá ocorrer às 10 horas, em Brasília. E que soem as motosserras em festiva celebração, e junto com elas as bombas costais para despejar agrotóxico!

Mortes, ameaças e invasões

violencia

O relatório “Na linha de frente: violência contra defensores de direitos humanos no Brasil”  da Justiça Global e Terra de Direitos divulgado dia 15 de junho, mapeou 1.171 violações ocorridas de 2019 a 2022. Do total, 169 são assassinatos.

Quase metade (47%) dos casos violência contra defensoras e defensores de direitos humanos foram registrados na Amazônia Legal. O Maranhão é o estado com maior número de assassinatos de lideranças indígenas (com 10 casos),  Amazonas e Roraima (7, cada um).

Os dados do levantamento destacam que defensores indígenas foram alvos de grande parte das violências sofridas por defensores de direitos humanos:  346 casos, sendo 50 assassinatos e 172 ameaças. O quadriênio foi marcado pela adoção de uma política anti-indígena pelo governo federal e aumento da invasão e exploração dos territórios tradicionais pelo garimpo, desmatamento e agronegócio.

O estudo classifica defensoras e defensores de direitos humanos como sujeitos, povos, movimentos populares ou coletivos que atuam em defesa de direitos humanos, mesmo que alguns desses direitos ainda não tenham assumido uma forma jurídica. A maioria das vítimas foi morta com armas de fogo 29,6% dos 169 ativistas de direitos humanos assassinados são indígenas e 17,8% dos ativistas assassinados correspondiam a negros.

O caderno de Conflitos no Campo Brasil da Comissão Pastoral da Terra, divulgado em abril, destaca que a federação com índices mais elevados de conflitos por terra, quatro integram a Amazônia Legal. A região concentrou, em 2022, um total de 1.107 conflitos no campo, o que representa mais da metade de todos os conflitos ocorridos no país (54,86%), aponta o relatório. Outro dado alarmante é que, dos 47 assassinatos no campo registrados no Brasil no ano passado, 34 ocorreram na Amazônia Legal, o que representa 72,35% de todos os assassinatos no país.

Irmã Laura Vicuna afirma que a Igreja, com o compromisso do Papa Francisco,  assume na Amazônia,  ser aliada dos povos originários e amazônicos “Defender os direitos, os territórios indígenas e a vida, hoje se tornou uma ameaça aos grupos econômicos e ao crime organizado,  que invadem unidades protegidas e pequenas propriedades de camponeses. Na Amazônia é toda uma máquina anti-indígena e anti-direito, que ameaça a integridade física,  cultural e territorial, dos povos originários e amazônicos.”

Os desafios são muitos, estamos vindo de um período de muita destruição, incentivada pelo garimpo, a destruição, a invasão de terras indígenas. As lideranças da Igreja Católica manifestam preocupação em relação à defesa da Amazônia e ao desmatamento. Com o objetivo de promover reflexões da sociedade civil sobre os desafios da proteção do bioma.

Para Dom Ionilton,  bispo de Itacoatiara (AM) e presidente da CPT, “nos últimos tempos a Amazônia virou ação de quem quer tomar a terra para crescer a área do agronegócio e mineradoras, resultado também de uma falta de política pública deixando os quilombolas, pescadores, seringueiros a mercê da própria segurança, os órgão de segurança com Funai, IBAMA, ICMbio perderam sua falta de atuação o que ocasionou o incentivo desta prática de tomar as terras e o aumento de conflitos na área de trabalho escravo. As causas decorrem do incentivo ao porte de armas, quem tem poder econômico facilita fazer o enfrentamento”.

O papel da Igreja, através do conjunto de entidades da Igreja, tem sido fundamental: defender o direito ao território, o protagonismo dos povos indígenas, a diversidade cultural e espiritual dos povos indígenas, suas próprias formas de organização social. A REPAM nasce também com esta mesma perspectiva, agora no âmbito panamazônico, articulando todas as forças eclesiais da Pan-Amazônia para a defesa dos direitos dos povos indígenas.