Levantamento mostra que Carrefour distribui carne oriunda de regiões desmatadas ilegalmente na Amazônia

Levantamento da Repórter Brasil aponta que cortes bovinos fabricados em áreas de de alto risco de desmatamento e queimadas estão indo parar nas prateleiras do supermercado, que pode estar vendendo também carne produzida irregularmente em terras indígenas

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Por Isabel Harari e Gil Alessi para a Repórter Brasil

As mais de mil lojas dos supermercados Carrefour no Brasil podem estar levando para o prato do brasileiro carne produzida em áreas de risco ambiental na Amazônia, incluindo terras indígenas e fazendas acusadas de utilizar mão de obra análoga à escravidão.

Desde o ano passado, com a aquisição do Grupo Big, o Carrefour ostenta a posição de maior rede varejista de alimentos do país, abocanhando 25% do mercado nacional. Metas ambiciosas no campo da sustentabilidade foram prometidas. Fora do papel, a realidade é bem mais complexa

Parte da carne comprada pelo Carrefour vem de áreas de alto risco de desmatamento e queimadas na Amazônia Legal. São zonas de fronteira agrícola, locais onde a produção agropecuária pressiona terras indígenas e unidades de conservação. E chegam a todos os recantos do país, incluindo estados do Sul, Sudeste e Nordeste, regiões distantes da Amazônia Legal.

É o que mostram os dados da iniciativa Do Pasto ao Prato, aplicativo para smartphones que monitora a origem da carne a partir de informações coletadas pelos próprios consumidores em supermercados. Análise feita com exclusividade pela Repórter Brasil com base nos dados do aplicativo mostra que ao menos 26 plantas localizadas na Amazônia Legal abasteceram as prateleiras do Carrefour em 2022.

Lojas da rede no sul do país receberam carne de abatedouros com histórico de problemas socioambientais (Foto: Naira Hofmeister/Repórter Brasil)

Dos 498 produtos escaneados em lojas espalhadas pelo Brasil, 148 vieram de frigoríficos localizados no Pará, em Rondônia, no Mato Grosso e no Tocantins. Entre os fornecedores estão duas empresas gigantes do setor: a JBS e a Masterboi.

O aplicativo detectou que um hipermercado Carrefour no centro da cidade de São Paulo, por exemplo, vendeu carne de um frigorífico da JBS em Vilhena (RO) associado a invasões na terra indígena Uru-Eu-Wau-Wau, de acordo com um relatório publicado pela ONG Mighty Earth.

No Nordeste, lojas compraram produtos da Masterboi em Nova Olinda (TO), que, segundo investigações da Repórter Brasil,  pode ter adquirido animais de áreas desmatadas ilegalmente e de um produtor autuado por trabalho escravo.

Em outubro do ano passado, um relatório da Mighty Earth já alertava que, com a compra do Grupo Big, o desmatamento associado à carne comercializada pelo Carrefour poderia chegar a 50 mil hectares em 2022. É uma estimativa baseada na participação de mercado do varejista, já que, segundo a Mighty Earth, a empresa não publica números precisos sobre o volume de carne bovina adquirida dos frigoríficos.

A empresa reforçou que, independentemente do local de abate do animal, “o diferencial do Grupo Carrefour está em analisar todas as fazendas diretas do frigorífico e bloquear as que não estão em aderência à política de compra de carne”. Leia na íntegra. Mas a cadeia da carne é muito mais complexa e pode envolver uma dezena de fazendas antes do abate. Vários estudos mostram que o maior elo com o desmatamento está nos chamados fornecedores indiretos, aqueles que fornecem bezerros para os fazendeiros que vendem diretamente para os abatedouros

Em nota, o Carrefour disse que desde 2016 tem uma política socioambiental para compra de carne bovina. Alegou exigir que seus fornecedores tenham sistema de monitoramento via satélite e garantiu que a própria rede “realiza análises socioambientais e geoespacial de cada fazenda originária”.

Gado ilegal em terra indígena

Um exemplo: no fim de maio de 2022, o Centro para Análise de Crimes Climáticos no Brasil mostrou que as plantas da JBS em Rondônia se abastecem de fazendas irregulares instaladas dentro da terra indígena Uru-Eu-Wau-Wau. O fornecimento era indireto, ou seja, o gado passava por outra propriedade antes de ir finalmente para o abate. Segundo a investigação, mais de 25 mil bois pastam de forma criminosa na terra indígena, que já perdeu 13 mil hectares de floresta para a pecuária

Após a denúncia, o Carrefour anunciou o bloqueio das compras de dois abatedouros da JBS, um em Vilhena e outro em Pimenta Bueno. Mas relatório da Mighty Earth, divulgado meses depois da investigação, apontou que a carne das plantas da JBS em Rondônia ainda chegava nas prateleiras da rede.

Dados obtidos com exclusividade pela Repórter Brasilconfirmam que as vendas continuaram. Em julho, uma loja da rede Carrefour em Garanhuns e outra em Olinda, ambas no estado de Pernambuco, venderam produtos da planta de Pimenta Bueno. Em novembro, outro mercado no centro da capital paulista vendeu um produto com origem em Vilhena. São as duas plantas associadas à invasão no território indígena. Ao todo, o aplicativo Do Pasto ao Prato mostra que dos 148 produtos de carne com origem na Amazônia Legal vendidos em lojas do Carrefour, 97 vieram de abatedouros da JBS na região.

TI Eru-Eu-Wau-Wau, em Rondônia, já perdeu 13 mil hectares de floresta para a pecuária e carne produzida lá pode estar indo parar no prato do brasileiro (Foto: Israel Vale/Kanindé)

“A criação de gado ilegal contribui para aumentar o desmatamento e afeta diretamente os povos indígenas, já que, além de desmatar, facilita a entrada de novos invasores”, explica Ivaneide Bandeira Cardozo, representante da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, organização que atua junto aos povos indígenas da região. Em 2021 a Kanindé já havia denunciado a criação de gado em cima de um cemitério indígena no território Uru-Eu-Wau-Wau.

“O Carrefour tem a mesma responsabilidade da JBS, pois deveria averiguar de onde vem a carne que está adquirindo”, avalia Cardozo.

Mergulhada em denúncias de envolvimento com desmatamento ilegal, incêndiostrabalho escravo e invasão em terras indígenas, a JBS lidera o ranking de frigoríficos com maiores irregularidades no abate de animais no Pará, segundo auditoria do Ministério Público Federal divulgada em dezembro de 2022

Procurada pela reportagem, a JBS disse que “está comprometida com uma cadeia bovina sustentável” e afirmou que, com as informações publicadas nos relatórios anteriores, “não pode avançar em uma análise e verificar se há produtores não conformes aos critérios socioambientais e tomar medidas cabíveis”. Leia na íntegra

Da Amazônia para o Nordeste 

A carne produzida da Amazônia não parece ter dificuldade para chegar às prateleiras das lojas Carrefour no Nordeste. Ao longo de 2022, plantas da Masterboi, o maior frigorífico da região, enviaram 25 produtos para a rede em Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte – além de São Paulo e Distrito Federal.

Uma das plantas da companhia, em Nova Olinda, no Tocantins, comprou carne de produtores envolvidos com problemas socioambientais, conforme investigação da Repórter Brasil publicada em 2021.

Antônio Aime Comar é um pecuarista que controla uma grande área de pastagens em Pau D’Arco (TO). Com uma área embargada desde 2008, ele vendeu animais para a Masterboi com origem – pelo menos no papel – de uma propriedade “ficha limpa” vizinha à fazenda com irregularidades e declarada separadamente no Cadastro Ambiental Rural (CAR).

O fracionamento das fazendas em diferentes blocos contraria a regulamentação do CAR e é uma estratégia usada com frequência para driblar restrições para a comercialização de gado.

A reportagem procurou a Masterboi, mas a empresa preferiu não se manifestar. Em 2021, quando a Repórter Brasil publicou a denúncia, a empresa disse que “as informações oficiais constantes nos atributos do vetor geográfico oficial relacionado ao embargo não fazem referência à propriedade em análise”. Leia na íntegra. Não foram localizados contatos do pecuarista Comar.

Além das infrações ambientais, Comar já foi alvo de uma fiscalização trabalhista. Em 2004, uma operação resgatou 16 trabalhadores em condições análogas à escravidão em uma de suas fazendas.

Esse não é o único caso de trabalho escravo que pode estar ligado aos fornecedores da Masterboi em Nova Olinda. Em 2010, 26 trabalhadores foram resgatados em uma fazenda de Emival Ramos Caiado, em Natividade (TO). Desde então o pecuarista trava uma batalha na Justiça para não ser incluído no cadastro dos empregadores que submeteram pessoas ao trabalho escravo.

Fazenda mantinha 26 trabalhadores em condições análogas à escravidão (Foto: Subsecretaria de Inspeção do Trabalho/Ministério do Trabalho

Entre idas e vindas na chamada “lista suja” do trabalho escravo, Emival Caiado continuou comercializando gado e parte de sua produção pode ter abastecido – de maneira indireta, ou seja, passando por outro fornecedor antes de chegar no frigorífico – a planta da Masterboi.
A empresa não respondeu aos questionamentos na época. Primo do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), Emival Caiado se considera “alvo de grande injustiça”. Mas reconheceu que repassou animais para terceiros para que possam ser comercializados sem que seu nome conste nos documentos, estratégia conhecida como “lavagem de gado”.

Boi ilegal na prateleira

Uma série de reportagens publicada pela Repórter Brasil em 2020 mostrou como fazendas na Amazônia e no Cerrado envolvidas em diversas irregularidades estavam ligadas a importantes frigoríficos que, por sua vez, abasteciam grandes redes de varejo, como o  Carrefour.

Em 2019, uma investigação revelou que o varejista comprou produtos de frigoríficos que adquirem gado de pecuaristas responsabilizados por trabalho escravo, mesmo tendo assinado o Pacto Nacional Pela Erradicação do Trabalho Escravo. Após a publicação, o Carrefour suspendeu os contratos.

Dois anos depois, a Repórter Brasil mostrou que uma loja do Carrefour em Manaus comprou produtos do frigorífico Frizam, em Boca do Acre (AM), empresa que havia adquirido gado de uma fazenda embargada. Procurado pela reportagem na época, o frigorífico não respondeu.

O gado criado ilegalmente no Mato Grosso também pode ter chegado até as prateleiras do Carrefour. Isso porque as unidades da Marfrig e da JBS em Pontes e Lacerda e ainda da JBS em Confresa, que abastecem a rede, compraram animais de pecuaristas com áreas embargadas pelo Ibama.

Há mais de uma década, ONGs vêm alertando que o desmatamento da Amazônia tem relação com a pecuária e tentam conscientizar consumidores (Foto: Greenpeace)

Assim como no caso da Masterboi, as vendas dos animais entre 2018 e 2020 eram realizadas por fazendas “ficha limpa”, para onde foram enviados, antes do abate, animais criados nas áreas que haviam sido desmatadas ilegalmente.

Em nota enviada na época, a JBS não respondeu a pergunta sobre o monitoramento de áreas de pastagens contíguas, mas afirmou que “todas as fazendas seguiam a Política de Compra Responsável da Companhia”. Já a Marfrig disse que a fazenda mencionada “não apresentou qualquer inconsistência nas últimas compras de gado”.

Responsabilidade na ponta da cadeia

A carne vendida no mercado interno brasileiro representa 74% da produção do país e movimentou R$ 142,9 bilhões apenas em 2021. Com um volume tão expressivo, as redes varejistas devem pressionar seus fornecedores por melhores práticas na ponta da cadeia, defende Rafael Arantes, coordenador do programa de consumo sustentável do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

“A partir do momento que [os varejistas] comercializam produtos, é de responsabilidade deles procurarem e pressionar os seus fornecedores por maior transparência. A transparência é fundamental para que os diferentes atores e elos da cadeia sejam observados. Só o fato de não haver informação já é algo que gera dúvidas”, avalia Arantes. 

Há mais de uma década atuando junto aos frigoríficos para exigir o monitoramento de seus fornecedores, o Ministério Público Federal enfrenta o desafio de dialogar com as redes varejistas. “Já iniciamos um trabalho junto aos supermercados e esperamos expedir recomendações para que levem em consideração as auditorias do MPF ao realizar suas compras”, afirmou Ricardo Negrini, procurador da República no Pará, no evento de divulgação dos resultados do TAC da Carne.

Em entrevista à Repórter Brasil, na época, disse que pretende “adotar uma postura um pouco mais incisiva” a partir de 2023.


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Este texto foi originalmente publicado pela Repórter Brasil [Aqui!]. 

Petição “Amazônia Livre de Garimpo: a hora é essa!” é lançada hoje pelo Greenpeace Brasil

O abaixo-assinado vai cobrar que as autoridades esvaziem os garimpos situados dentro de terras indígenas, assegurando os direitos dos povos originários.

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Sobrevoo feito pelo Greenpeace, realizado em 05 de dezembro de 2022, localizou quatro escavadeiras no entorno de uma estrada ilegal e clandestina, dentro da Terra Indígena Yanomami. © Valentina Ricardo

Manaus, 13 de fevereiro de 2023  Populações tradicionais contaminadas por mercúrio, rios destruídos, florestas derrubadas e vidas perdidas. Esse é o resultado que o garimpo ilegal levou nos últimos anos para o interior da Amazônia, onde se tornou um problema crônico. Com o objetivo de cobrar do governo federal e dos governadores dos estados que integram a Amazônia a cumprirem com o seu dever de assegurar os direitos dos povos indígenas e esvaziar os garimpos que estão dentro das terras indígenas, o Greenpeace Brasil lança hoje (13) a petição #AmazôniaLivredeGarimpo.

Para Danicley Aguiar, porta-voz de Povos Indígenas do Greenpeace Brasil, a dinâmica do garimpo está atrelada a um modelo de desenvolvimento econômico ultrapassado, que foca apenas na exploração irracional dos recursos naturais. “Precisamos superar a economia da destruição e substituí-la por uma racionalidade econômica que use, de maneira justa, os recursos das florestas sem esgotá-los. Essa superação envolve o combate à pobreza e a criação de novas alternativas econômicas – pois só assim conseguiremos a floresta em pé e a prosperidade das populações tradicionais”, explicou o porta-voz.

A petição pede a retirada imediata dos garimpeiros de dentro das Terras Indígenas (TIs) do Brasil – com atenção especial para os territórios Yanomami, Munduruku e Kayapó que, juntos, respondem por mais de 90% da área degradada por garimpo ilegal na Amazônia dentro de TIs.

O abaixo-assinado faz parte de uma campanha do Greenpeace Brasil, também chamada Amazônia Livre de Garimpo, que busca chamar atenção para o problema, apoiar a Aliança em Defesa dos Territórios, responsabilizar os envolvidos neste tipo de ilegalidade e mobilizar a sociedade brasileira para a importância de construirmos um novo modelo de desenvolvimento econômico na Amazônia, com novas oportunidades de desenvolvimento e que diminua a desigualdade e mantenha as florestas de pé.

Entre proteger a Amazônia e fazer a guerra: diferentes anúncios mostram com quem está o real compromisso dos EUA

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O anúncio do governo dos EUA liderado por Joe Biden de que pretende, em um futuro indeterminado, doar US$ 50 milhões para o chamado Fundo Amazônia é decepcionante para o governo Lula, mas bastante esclarecedor sobre onde estão depositados os compromissos e interesses da principal potência econômico e militar (ao menos por enquanto) do planeta. É que recentemente, o mesmo presidente estadunidense anunciou a intenção de enviar 31 tanques Abrams para a Ucrânia continuar sua guerra contra a Rússia. A questão aqui é que cada um desses tanques custa US$ 6,21 milhões. Ou seja para fazer a guerra continuar os EUA estão dispondo de US$ 192,5 milhões (ou seja quase 4 vezes mais para fazer guerra do que para proteger a Amazônia e o clima da Terra). Na verdade, essa ninharia prometida por Biden não passa do que os estadunidenses chamam de “money for peanuts” (ou dinheiro para amendoim), o que se traduz melhor como “merreca”.

A saída encontrada pelo governo Lula não ficar tão mal na foto foi anunciar que um esforço será realizado pelos institutos de filantropia do bilionário Jeff Bezos e do ator Leonardo DiCaprioo para captar recursos para que, em apenas 40 dias, ações de emergência sejam implementadas. 

Em minha modesta opinião seria muito melhor e eficiente (e menos vexaminoso para um governo que pretende ser a representação de um Estado-Nação independente) que fosse feito um anúncio de que a partir de agora alguma fração das vultosas reservas cambiais brasileiras (que giram atualmente em torno de US$ 324 bilhões) serão usadas para impulsionar não apenas a proteção da Amazônia, mas também o desenvolvimento científico e tecnológico brasileira, de modo a transformar a rica biodiversidade amazônica em fonte de novos produtos e tecnologias.

Isto seria muito melhor do que ficar usando as reservas cambiais brasileiras para continuar pagando as taxas de juros mais altas do planeta. Ao não mencionar as questões fundamentais que cercam o uso da riqueza gerada pelo Brasil e ficar acenando verdadeiras esmolas para proteger a Amazônia, o que temos é o abandono da luta pela soberania nacional, além de colocar o país para servir como instrumento de Greenwashing para figuras como Jeff  Bezos que enriquecem às custas da ultraexploração do ambiente e dos seus trabalhadores.

Por outro lado, se o governo Biden quizesse mesmo diminuir a destruição da Amazônia só teria que proibir que empresas como a John Deere, Caterpillar e Case parecem de vender os equipamentos pesados que estão sendo usados para facilitar a garimpagem ilegal de ouro em terras indígenas. Será que faria isso para sair de um mero e insuficiente protocolo de intenções? Difcilmente.

Somos Amazônia: saberes, desafios e visão de futuro dos povos da floresta

Jogos Mundiais dos Povos Indígenas

Jogos Mundiais dos Povos Indígenas

Por André Baniwa, Gasodá Paiter Suruí, Beka Munduruku e Nadino Calapucha

Para os povos originários da Amazônia existe uma relação indissociável entre a criação do mundo e da humanidade. Tal relação fundamenta toda explicação dos Povos Indígenas sobre a terra, a floresta, os recursos da natureza, linguagem, crenças, espíritos, criador e criaturas terrestres. Esta relação é ressaltada na visão de mundo de muitos dos Povos Índígenas da Amazônia. Por exemplo, o povo Baniwa, pertencente à família linguística Aruak, se autodeclara “Somos Amazônia”. Os Paiter Suruí de Rondônia se autodenominam gente de verdade ou povo verdadeiro. Os indígenas da Kichwa Amazônica (Amazônia Equatoriana) tratam a floresta como “Madre Selva”, “Madre Terra” ou “Madre Natureza”, sendo uma fonte de conhecimento e ensinamento para a vida. Os Mundurukus, da região do Alto Tapajós, afirmam que tudo na floresta é sagrado e tem espírito. A cultura Indígena é, portanto, intimamente ligada com a floresta e rios.

Por esta intrínseca interação com a floresta, quando há destruição, a floresta sente dor e os indígenas também. Há múltiplas estratégias de ocupação desordenada da floresta e dos territórios Indígenas (TI). O garimpo de ouro tornou-se uma ameaça aos indígenas e outras populações vulneráveis, contaminando a floresta, os rios e peixes, e reduzindo a caça. Como efeito, o povo tem ficado doente. As hidrelétricas deslocam suas populações e alteram as condições básicas de seu sustento, como disponibilidade de peixes. Para muitos, a ocupação desordenada da floresta e das TI resultaram em vidas perdidas. Assassinato, escravidão e genocídios estão no modelo atual de desenvolvimento capitalista, o qual tem resultado em processos violentos contra os Indígenas. De fato, estudos do Conselho Indigenista Missionário mostraram que a cada dois dias um indígena morre por proteger a floresta.

Os Indígenas brasileiros viveram entre 2019 e 2022 um período de desrespeito, tempo ápice de destruição física e espiritual desde 1988. Atividades, tais como desmatamento, incêndios florestais, extrativismo insustentável de recursos minerais e biológicos, monocultura, extração de madeira estão desconectando os Indígenas da floresta. O desrespeito aos Povos Indígenas ultrapassou o limite territorial da Amazônia em 08 de janeiro de 2023. O ataque violento aos prédios públicos em Brasília representou uma séria ameaça aos direitos Indígenas e à democracia de modo geral.

A destruição ou ‘fim do mundo-florestas’, segundo a profecia Baniwa, ameaça acabar com os Povos Indígenas e o mundo inteiro. O aquecimento global e a crise climática são provas de que os caminhos de desenvolvimento para a Amazônia têm sido injustos e destrutivos. Isto tem gerado fuga das comunidades Indígenas, desaparecimento de línguas e perda de territórios. O resultado tem sido um perda de conhecimento inestimável, conduzindo a humanidade para um vazio de soluções para problemas que atingem a todos.

A demarcação e homologação das Terras Indígenas (TI) têm sido fundamental para evitar a destruição dos lugares sagrados. Para os Paiter Suruí, as ameaças a seu povo e a seu território surgiram a partir de 1969 após o primeiro contato com o não-indígena. Foi necessário integrar e aprender a cultura ocidental para evitar uma extinção causada pelos colonizadores. Eles conseguiram a demarcaçao do TI Sete de Setembro em 1976, com o reconhecimento de posse chegado sete anos mais tarde em 1983. Este TI de 248 mil hectares, embora represente um reconhecimento dos direitos Indígenas, não foi necessariamente suficiente para garantir todos os meios de subsistência do povo Paiter Suruí. Por exemplo, a taboca (Bambusa spp.) é uma planta essencial para a produção de arco e flecha. As áreas onde a taboca ocorre naturalmente hoje estão dentro de propriedades privadas, em fazendas sendo necessário aos Indígenas solicitar autorização de fazendeiros para extrair a taboca. Isto mostra como os povos Indígenas estão perdendo acesso a lugares sagrados onde espécies de plantas essenciais aos seus meios de vida ocorrem de forma natural.

Há grandes desafios na superação destes problemas, entre eles, a elaboração de planos de manejo para os territórios Indígenas e estratégias para proteção de tudo que descrevemos anteriormente. Os Povos Indígenas buscam alternativas para manter sua cultura. Por exemplo, o diagnóstico etnoambiental participativo da TI Sete de Setembro, realizado no ano de 2000, registrou características históricas, ritualísticas e medicinais dos Indígenas ligadas com a floresta. Atividades como reflorestamento, turismo, artesanato, música, história e pintura corporal foram inseridas nesse planejamento. Embora existam pensamentos divergentes na TI, a gestão destas atividades para fins de conservação da floresta e da cultura é valorizada por estes grupos.

Considerando o contexto do planeta-terra, da humanidade, do Brasil e da Amazônia, descrevemos aqui alguns desejos para Amazônia Indígena fundamentais para reconstrução do bem-viver e viver dos Povos Indígenas e para proteção das florestas, da biodiversidade, do conhecimento tradicional e combate às mudanças do clima.

A educação escolar Indígena é uma ferramenta fundamental para as lutas e diálogos interculturais. A necessidade de aprender o idioma português foi estimulada por gerações passadas na TI Alto Rio Negro, Aldeia Tucumã-Rupitã do rio Içana, em São Gabriel da Cachoeira, estado do Amazonas, Brasil. A construção da escola indígena Baniwa no ano de 2000 em resposta às articulações institucionais ao longo da década de 1990 foi uma vitória do seu povo. Cursos de magistério Indígena foram iniciados. Professores das comunidades receberam capacitação para a educação Indígena e as escolas foram adaptadas. Mais de 100 professores Baniwa foram formados. Alguns Indígenas fizeram mestrado e agora querem fazer o doutorado. O ensino superior Indígena intercultural deve focar em processos de construção da vivência Indígena. Por exemplo, viabilizando o desenvolvimento de cestaria, pimenta, canoa, rede, roça, remo, segurança alimentar, gerando novos conhecimentos e parcerias. Jovens Indígenas têm um papel chave na propagação do conhecimento ancestral, e dão voz aos desejos e necessidades de seus povos. A timidez dos Indígenas, no entanto, em especial durante a juventude, é reconhecida por eles como um desafio intergeracional pela continuidade da luta por direitos, pela manutenção dos lugares sagrados junto com as lideranças.

A Amazônia protegida é uma obrigação moral e política. Queremos sustentar a harmonia com a floresta, Amazônia respeitada, venerada, que seja esperança da humanidade, coração biológico do planeta. É preciso diálogos concretos às questões urgentes, a fim de reconstruir princípios de Estado e sociedade. É preciso compromissos internacionais como o Acordo de Paris, Convenção da Biodiversidade e os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável 2020-2030 que devem ser do tamanho do sonho de conservar a Amazônia.

A participação do Indígena na política é um anseio dos povos originários. A criação do Ministério dos Povos Indígenas no Brasil, como foi descrito pela ministra Sonia Guajajara, sinaliza para o mundo o compromisso do Estado brasileiro com a emergência e justiça climática. Tal ministério é inédito na história do Brasil, assim como uma Indígena na função de ministra de Estado. Não há dúvida que a política é essencial para reconhecer e valorizar o papel dos Povos Indígenas na conservação do clima e da biodiversidade, garantindo seu acesso à educação, saúde integral, demarcação e gestão de território, proteção ambiental e articulações interinstitucionais.

Os direitos Indígenas devem ser igualmente assumidos e respeitados internacionalmente. Os Povos Indígenas não vão salvar a Amazônia sozinhos. A união entre os povos Indígenas da Amazônia deve ser estimulada. O conhecimento Indígena pode sustentar o conhecimento científico. Esta combinação pode oferecer respostas concretas a problemas críticos da Amazônia, criando um esforço intergeracional: Indígenas e não Indígenas caminhando juntos no conhecimento.

A Amazônia preservada é garantia de proteção de vidas. Queremos que os rios e a florestas sejam protegidos para as futuras gerações. Uma Amazônia livre de assassinato Indígena. Uma Amazônia sem destruição e roubo de recursos naturais. Uma Amazônia cujo povo Indígena não seja extinto por proteger seu território. Queremos a sustentabilidade a partir de plantios de espécies nativas (por exemplo, castanha e copaíba) e apoio para organizar cadeias de produtos da floresta com valor agregado que gerem renda e bem-estar social às comunidades.

O sagrado-floresta deve ser cuidado com mais elevado conhecimento que o capitalismo. Pois, manter a floresta em pé e os rios fluindo é importante para a humanidade. Além disso, é preciso mais mensagem ambiental nos meios de comunicação como jornais, livros e teleconferência. A sociedade precisa ouvir Indígenas sobre o que estão dizendo ao mundo. A natureza tem avisado que a degradação ambiental não pode continuar. Que a natureza precisa de alegria. Neste sentido, o desenvolvimento sustentável deve ser com diálogo, respeitando vidas e construindo um futuro melhor para todos.

Sobre os autores

André Baniwa é Indígena, amazonense, empreendedor social, formado em Gestão Ambiental e Vice-Presidente da Organização Indígena da Bacia do Içana. Teve papel fundamental na criação da escola intercultural Baniwa e Koripako. É autor do livro Bem Viver e Viver Bem: Segundo o Povo Baniwa no Noroeste Amazônico Brasileiro. André é autor do capítulo 32 do Relatório de Avaliação da Amazônia 2021 produzido pelo Painel Científico para a Amazônia (PCA).

Gasodá Paiter Suruí é indígena do povo Paiter, pertencente ao grupo Gãmeb (maribondo preto). Nasceu na Terra Indígena Sete de Setembro, em Cacoal – Rondônia. Graduado em Turismo com mestrado em Geografia e doutorando em Geografia. Fundador e Coordenador do Centro Cultural Indígena Paiter Wagôh Pakob. Gasodá é autor do capítulo 10 do Relatório do PCA.

Beka Munduruku é Indígena do Povo Munduruku. Mora na Terra Indígena Sawré Muybu, na região do rio Tapajós, próximo dos municípios de Itaituba e Trairão, Pará Brasil. É uma das mais novas vozes da juventude Indígena. Beka é membro do comitê estratégico do PCA.

Nadino Calapucha é Indígena natural de Arajuno, Pastaza, Equador, é da etnia Indígena Kichwas Amazônia e Coordenador das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA). Nadino é autor do capítulo 34 do Relatório do PCA.

Este artigo faz parte de série de artigos publicados, conjuntamente, por Agência Bori e Nexo Políticas Públicas por meio de parceria com o Painel Científico para a Amazônia. Para reproduzi-lo em veículos de comunicação, é preciso informar que o texto foi originalmente publicado na Agência Bori e no Nexo Políticas Públicas [Aqui!  ]. 

Comportamento dos elementos climáticos da Amazônia ao Tibete mostra que há um processo drástico de mudança em curso

Os pontos de inflexão no sistema climático afetam uns aos outros ao longo de milhares de quilômetros e alguns podem ser superados em breve

groenlandiaA camada de gelo o da Groenlândia, com um quilômetros de altura, também está está descongelando.  Por isso, o estado da camada de gelo da Groenlândia é um dos elementos decisivos no sistema climático. Foto: dpa/Sepp Kipfstuhl/AWI

Por Ingrid Wenzl para o “Neues Deutschland”

Se a floresta amazônica secar, isso terá consequências para todo o planeta. Não só desempenha um papel crucial no ciclo global do carbono, como também é caracterizado por uma imensa diversidade de espécies. Assim como os mantos de gelo da Groenlândia e da Antártica Ocidental, a Circulação de Revitalização do Atlântico (AMOC), que também inclui a Corrente do Golfo , e os recifes de corais tropicais, é um dos 16 principais elementos de inclinação no sistema climático. Em algum lugar entre 1,5 e dois graus de aquecimento global médio em relação aos tempos pré-industriais, os primeiros atingem o chamado ponto de inflexão: a partir daí, os processos utilizados não podem mais ser interrompidos. Desta forma  “os pulmões verdes da terra” são transformados em uma espécie de savana, e as camadas de gelo estão derretendo irrevogavelmente. É possível que já tenhamos ultrapassado os primeiros pontos de inflexão, por exemplo, no caso de recifes de corais tropicais moribundos.

Como mostra um estudo publicado recentemente na revista “Nature Climate Change” , mesmo os elementos que estão geograficamente distantes estão mais interconectados do que se pensava anteriormente. Fala-se das chamadas teleconexões. Milhares de quilômetros se estendem entre a bacia amazônica e o planalto tibetano e, no entanto, eles se influenciam. “Se esquentar na Amazônia, esquentará no Tibete. Há, portanto, uma interação positiva para as temperaturas. É diferente com a precipitação. Se chover mais na região amazônica, menos neve cairá no Tibete”, diz o coautor Jürgen Kurths, do Potsdam Institute for Climate Impact Research (PIK), resumindo a descoberta surpreendente.

Os pesquisadores descobriram que campos de fluxo de grande escala transportam campos de temperatura e precipitação para o Tibete: fortes correntes de vento estimuladas por anticiclones sul-americanos – certos tipos de áreas de alta pressão – os transportam para a África do Sul, e o sistema de monções africano os leva de lá para o Oriente Médio e ventos de oeste na região do Himalaia.

Os cientistas também descobriram que o planalto tibetano vem perdendo estabilidade desde 2008 e está se aproximando de um ponto crítico. “Isso foi negligenciado até agora”, diz Kurths. Ao contrário dos depósitos de gelo de lá, havia uma longa falta de dados confiáveis ​​sobre a cobertura de neve do planalto. Até agora, o foco da ciência tem sido principalmente o derretimento dos pólos, o AMOC e a Amazônia. “O derretimento das geleiras no Tibete tem efeitos enormes em todo o sistema de monções da Índia”, explica o pesquisador de complexidade do PIK. Apesar de sua localização remota, o planalto tibetano é de grande importância como reservatório de água para a vida de muitas pessoas.

“Quando os pólos derretem, sabe-se que eles desencadeiam uma reação em cadeia”, diz Kurths. A alta entrada de água doce no oceano circundante leva a mais estratificação porque é menos densa que a água salgada. Normalmente, grandes quantidades de água superficial fortemente resfriada afundam nas profundezas da Groenlândia porque são mais pesadas que a água abaixo e, a partir daí, fluem de volta para o equador como fundo rico em oxigênio ou águas profundas. A entrada de água doce inibe esse processo e, portanto, enfraquece o AMOC. No entanto, o conhecimento de que a Bacia Amazônica e o Tibete estão ligados climaticamente é novo. Pesquisas intensivas estão sendo realizadas atualmente sobre como os elementos de tombamento influenciam uns aos outros. Quando aumentam, como neste caso, significa que a Humanidade caminha para uma catástrofe ainda mais rápido do que se pensava.

O relatório especial de 1,5 grau do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) de 2019 adverte urgentemente contra ultrapassar a marca de temperatura de 1,5 grau. “Qualquer aquecimento adicional, especialmente acima de 1,5 graus, aumenta o risco de mudanças duradouras ou irreversíveis, como a perda de ecossistemas”, citou o pesquisador climático do “Die Zeit” e membro do IPCC, Hans-Otto Pörtner.

Mesmo ultrapassando temporariamente 1,5 ou 2 graus aumenta o risco de vários elementos do sistema terrestre tombarem em mais de 70% em comparação com um cenário em que as temperaturas permaneçam abaixo desse limite. Esta é a conclusão de Nico Wunderling da PIK e colegas em uma análise de risco publicada na revista Nature Climate Change em dezembro . “Mesmo que conseguíssemos limitar o aquecimento global a 1,5 grau depois de ultrapassar dois graus, isso não seria suficiente, pois o risco de desencadear um ou mais pontos de inflexão global ainda seria superior a 50%”, disse Wunderling.

A equipe de pesquisa usou vários cenários em que a temperatura média global era temporariamente dois a quatro graus mais alta do que antes da industrialização. Isso o aplicou a quatro elementos de inclinação interativos: as camadas de gelo da Groenlândia e da Antártica Ocidental, o AMOC e a floresta amazônica. As camadas de gelo provaram ser particularmente vulneráveis. “Embora demore muito para que a perda de gelo se desenvolva completamente, os níveis de temperatura nos quais essas mudanças são desencadeadas podem ser alcançados em breve”, diz a coautora Ricarda Winkelmann, também do PIK. “Portanto, nossas ações nos próximos anos podem determinar o desenvolvimento futuro das camadas de gelo por séculos ou mesmo milênios.”

De fato, no caso da camada de gelo da Groenlândia, isso é mais avançado do que o esperado: Maria Hörhold, do Alfred Wegener Institute, Helmholtz Center for Polar and Marine Research (AWI) e sua equipe mostram em um estudo publicado na “Nature” em no início do ano, que no norte e centro da Groenlândia foi mais quente na primeira década do século 21 do que nos últimos 1000 anos. »O aquecimento na fase entre 2001 e 2011 difere claramente das flutuações naturais dos últimos 1000 anos. Temíamos isso em vista do aquecimento global, mas a clareza e a concisão são inesperadas”, diz o glaciologista.

A camada de gelo da Groenlândia , com mais de 3.000 metros de altura e um volume de cerca de três milhões de quilômetros cúbicos, desempenha um papel central no sistema climático global. Se continuarmos a emitir tantos gases de efeito estufa quanto emitimos hoje, seu derretimento poderá elevar o nível do mar em 50 centímetros até o final do século.

A destruição da floresta amazônica também está progredindo rapidamente. Em um estudo recente na Science, David Lapola, da Universidade Estadual de Campinas, e sua equipe chegaram à conclusão de que 2,5 milhões de quilômetros quadrados já foram degradados por incêndios, mudanças no uso da terra, desmatamento ou seca extrema. As áreas afetadas agora estão mais secas e, portanto, mais inflamáveis ​​e vulneráveis ​​do que antes, alertam os autores. De sua parte, Kurths vê como principal perigo para a Amazônia sua fragmentação. “Isso significa que toda a floresta tropical está ameaçada”, diz ele.

No entanto, ele está particularmente preocupado com os pontos de inflexão social resultantes das mudanças climáticas: o aumento do nível do mar pode levar milhões de pessoas nas cidades costeiras a fugir. É urgente uma mudança imediata de rumo por parte da política, dos negócios e da sociedade.


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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Estudo na Science mostra que ameaças na Amazônia vão muito além do desmatamento

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A área degradada do bioma (38%) é maior do que a desmatada (17 %). Somados, os dois índices indicam que mais da metade das florestas da Amazônia foram destruídas ou alteradas.

Os autores explicam que “durante o processo de degradação, o uso da terra pode ou não mudar, mas a cobertura do solo não muda (a floresta segue sendo floresta)”. O desmatamento significa a conversão total das florestas para outro tipo de uso do solo, como a agricultura ou a pecuária .

Mas, os pesquisadores avisam que é um erro pensar que a degradação causa danos insignificantes em comparação com o desmatamento. Baseando-se em dados de diversos estudos realizados entre 2001 e 2018, quantificando a acumulação de perturbações que alteraram o ecossistema e o funcionamento do bosque, afetando a sua capacidade de armazenar carbono e água.

“Não podemos falar de prevenir o desmatamento sem falar da degradação. O desmatamento zero não é uma meta otimista. Se requer reajustar a discussão sobre a conservação da Amazônia, o processo de degradação já não pode ser ignorado”.

Marcos Pedlowski, Universidad Estatal del Norte Fluminense, Rio de Janeiro

Segundo o estudo, as estimativas sobre emissão de CO 2 e gases de efeito estufa resultantes da perda gradual de vegetação situam-se entre 50 e 200 milhões de toneladas ao ano, um nível comparável à perda de carbono por desmatamento.

“A taxa de acúmulo de carbono pela floresta diminuiu cerca de 30% nos últimos 30 anos. Se continuarmos com este padrão, em mais ou menos 15 anos teremos uma Amazônia emitindo muito mais CO 2 do que absorve ”, afirmou à SciDev.Net David Lapola, ecólogo e líder do estudo.

Lapola, pesquisador do Centro de Investigações Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura da Universidade Estadual de Campinas, explica que o impacto sobre o estoque de carbono diminui a evapotranspiração da floresta, um processo que devolve a água à atmosfera por meio da transpiração das plantas .

“Quando aumenta o CO 2 , teoricamente a planta transpira menos, provocando menos chuva e umidfade. Com isso, podemos observar uma mudança de vegetação: as árvores com maior afinidade com climas úmidos estão desaparecendo e estão surgindo espécies mais resistentes ao clima seco”, revela.

O trabalho também sugere que a degradação ameaça a biodiversidade e provoca impactos socioeconômicos nas comunidades locais, como a ocorrência cada vez mais frequente de eventos extremos, por exemplo, as secas prolongadas anteriores às inundações recordes ocorridas em 2022 na Amazônia brasileira.

As perturbações na floresta podem ter diferentes origens mas danificam-na severamente, por vezes de forma irreversível. Crédito da imagem: Serfor-Peru, imagem de domínio público.

Ante este panorama, os pesquisadores da Amazônia consideram que se bem a meta de desmatamento zero para 2030 do governo brasileiro –mencionada no Foro Económico Mundial de Davos, Suíça, pela ministra de Meiio Ambiente e  Mudança Climática do Brasil, Marina Silva –é importante dentro da agenda ambiental global, falar apenas de ações para combater o desmatamento na região não é suficiente.

“As políticas públicas na Amazônia não podem cobrir apenas o desmatamento”, disse Marcos Pedlowski, geógrafo da Universidade Estadual do Norte Fluminense, ao SciDev.Net., no Rio de Janeiro, coautor de um dos primeiros estudos brasileiros , também publicado em Science , que chamou a atenção sobre o problema da degradação do bioma.

Para Pedlowski, as projeções das próximas décadas vão depender do modelo econômico e social que o Brasil vai adotar.

De acordo com o relatório do Painel Científico da Amazônia, entre os países da Pan Amazônia, o Brasil é responsável por mais da metade da produção de madeira (52%), seguido pelo Equador (11%), Peru (10%) e Bolívia (10%). Venezuela, Colômbia, Suriname e Guiana representam em conjunto o 17% restante.

Mais da metade da seleção extrativa de madeira dos países amazônicos está sendo realizada no Brasil. O país é seguido por Equador, Peru e Bolívia. Crédito da imagem: Serfor-Peru, imagem de domínio público

“Na Amazônia brasileira, a extração seletiva afeta uma grande área de floresta, sendo o segundo fator mais comum de degradação florestal, somente atrás dos chamados efeitos de borda”, destaca o informe.

“Toda essa suposta renda cria muito mais problemas e não gera tanto quanto as pessoas pensam. Os ganhos são superados pelos prejuízos”, garante Pedlowski.

E David Lapola acrescenta que “a degradação favorece alguns, mas oprime muitos”.

Os pesquisadores coincidem em recomendar o desenvolvimento de um sistema de monitoramento das perturbações florestais – imagens medianas de satélite combinadas com um escapamento laser de superfície – e de um modelo de “bosque inteligente”, com a instalação de dispositivos no bosque para monitorar o degradação, especialmente a tala seletiva.

Link para o resumo do estudo na Science


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Este artigo foi produzido pela edição de América Latina e Caribe de  SciDev.Net [Aqui! ].

O calvário lento e doloroso dos Yonamami

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Enock Taurepang* para o “Uma gota no oceano”

“O que os olhos não veem, o coração não sente”, diz um ditado do homem branco. As últimas imagens da campanha de extermínio contra os Yanomami ganharam páginas de jornais, sites e emissoras de TV do planeta. São cenas que preferíamos que não fossem reveladas, em respeito aos que sofrem e porque elas também nos envergonham como seres humanos – sim, nós fazemos parte da mesma espécie de quem nos faz mal. Não fomos todos gerados por Omama? Tínhamos nossas razões para não querer olhar para aquilo; vimos 570 de nossas crianças morrerem nos últimos anos. O resto do mundo, não. Este tinha o dever.

Agora, diante das fotos de anciãos e crianças esqueléticos, não faltaram comparações ao horror nazista. A diferença é que o Holocausto que assassinou milhões judeus, homossexuais, ciganos, negros, durou 12 anos e o os seus carrascos foram derrotados e julgados; enquanto o Yanomami é uma lenta agonia, como uma doença dolorosa e incurável, de número incerto de perdas. Esse sentimento de empatia é bem-vindo, pois nós, indígenas, não somos apenas Guardiões da Floresta, mas também pais, mães, filhos, filhas, avôs e avós que choram a perda de seus entes queridos.

A ideia de Brasil grande nunca foi para todos. Os garimpeiros começaram a chegar 20 anos depois, mas a invasão de garimpeiros se acelerou na década de 1970, graças à construção de estradas e de projetos de mineração pela ditadura. Não é possível calcular o número de vítimas, mas obras como a da BR-210 causaram contatos involuntários entre trabalhadores e Yanomami. Segundo a Comissão da Verdade, não se pode afirmar quantos se foram por doenças transmitidas por essa proximidade ou por conflitos, mas se sabe que a vacinação dos indígenas foi negligenciada. 

Hoje, calcula-se que haja por volta 20 mil garimpeiros ilegais na Terra Indígena (TI) Yanomami – mais ou menos quanto a população indígena no território. Mas, acredite: já foi muito pior. A partir de 1987 eles começaram a entrar aos milhares, de uma vez. Mais de 100 aeroportos clandestinos foram abertos em meio à mata e acredita-se que, em 1990, 40 mil garimpeiros haviam invadido. A situação se tornou insustentável e a Terra Indígena Yanomami, que cobre uma área de 96.650 km², na fronteira com a Venezuela, foi homologada em 25 de maio de 1992. 

A ironia é que quem assinou o documento foi Jarbas Passarinho, então ministro da Justiça de Collor, que já havia servido à ditadura – tão exaltada por Bolsonaro. O relatório da Comissão da Verdade responsabilizou não apenas o regime militar, mas também o governo do ex-presidente José Sarney pelas invasões. Mas nada disso foi o suficiente para manter a segurança do povo. A chacina de 12 Yanomami por garimpeiros, em 1993, gerou a primeira condenação por genocídio no Brasil. O julgamento do massacre de Haximu durou três anos. Em 1996, Pedro Emiliano Garcia, Eliézio Monteiro Neri, Juvenal Silva, João Pereira de Morais e Francisco Alves Rodrigues foram condenados por tentativa de extermínio de etnia, e não só por homicídio. Mas, atualmente, os assassinos se vangloriam do que fizeram e ganharam o respeito e a admiração dos demais criminosos. 

Um laudo recente da Polícia Federal revelou que quatros rios da Terra Indígena Yanomami têm uma contaminação por mercúrio absurda: 8.600% maior que o permitido. Em 2019, um estudo de pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz) constatou uma contaminação de 56% das mulheres e crianças Yanomami na região de Maturacá, no Amazonas. Não podemos regar hortas, beber água, nem comer peixe de nossos rios. Dá para imaginar morrer de fome e sede na maior concentração de água doce e biodiversidade do planeta? Não é exagero afirmar que a população da capital de Roraima também se encontra já com um grau de contaminação por mercúrio, uma vez que os rios que cortam a TI Yanomami são os mesmos que desaguam no principal rio que abastece a capital Boa Vista.

Bolsonaro está mais próximo de Haia do que imagina. Sua própria obsessão o condena; a compulsão de produzir provas contra si é incalculável. “Torna sem efeito o Decreto de 25 de maio de 1992, que homologa a demarcação administrativa da terra indígena Yanomami”, diz o projeto de decreto legislativo 365/1993, escrito por ele de próprio punho, no estilo lacônico que caracterizou sua passagem pela presidência. Ele, que iniciava seu primeiro mandato, não se deu ao trabalho de inventar uma justificativa qualquer. 

O documento foi arquivado e o ex-presidente tentou levá-lo mais três vezes à votação. “A Cavalaria brasileira foi muito incompetente”, afirmou na Câmara, em 16 de abril de 1998. “Competente, sim, foi a Cavalaria norte-americana, que dizimou seus índios no passado e hoje em dia não tem esse problema no país”, continuou. Só em 2007 a ideia foi sepultada de vez. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) vai acrescentar o Holocausto Yanomami à denúncia que apresentou em 2021 a Haia, e que está em processo de avaliação. Entre as provas apresentadas há 21 ofícios com pedidos de ajuda dos Yanomami que foram ignorados.

“Estamos apreensivos, para além de nossa própria vida, com a da terra inteira, que corre risco de entrar em caos. Os brancos não temem, como nós, ser esmagados pela queda do céu. Mas um dia talvez tenham tanto medo disso quanto nós!”, alertou um sábio do povo Yanomami, Davi Kopenawa. Muitos já perceberam que o céu já está caindo. Nenhuma pessoa sensata não acredita nas mudanças climáticas e em seus efeitos devastadores. Nós, povos indígenas, ajudamos a sustentar o céu desde tempos imemoriais. Mas há uma minoria que não entende que, quando se mata o indígena, está também matando sonhos e a possibilidade de um futuro. E que vidas indígenas importam.

* Enock Taurepang, vice-coordenador geral do Conselho Indígena de Roraima (CIR), organização que atua nas 35 terras indígenas de Roraima, atendendo uma população de 58 mil indígenas das etnias Macuxi, Wapichana, Ingarikó, Patamona, Sapará, Taurepang, Wai-Wai, Yanomami, Yekuana e Pirititi.


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Este texto foi originalmente publicado pelo site “Uma gota no oceano” [Aqui!].

Science: Ação humana pode afetar Amazônia milhares de vezes mais rápido que processos naturais

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As mudanças causadas pela ação humana na Amazônia são capazes de afetar todo o continente em questão de séculos ou décadas. São, portanto, centenas a milhares de vezes mais rápidas quando comparadas a processos climáticos e geológicos naturais, que se estendem por milhões a dezenas de milhões de anos. Os principais fatores de degradação do bioma relacionados à atividade humana são desmatamento, incêndios florestais, erosão do solo, represamento de rios e desertificação devido à mudança climática global. É o que afirmam cientistas de instituições nacionais e internacionais, como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e a Universidade de Louisiana, nos Estados Unidos, em artigo publicado na revista “Science” nesta quinta (26).

O pesquisador Pedro Val, um dos autores do estudo, explica que os dados foram compilados a partir do primeiro Relatório de Avaliação da Amazônia, documento lançado em 2021 pela rede de cientistas do Painel Científico da Amazônia. O artigo complementa esse conhecimento com dados de estudos publicados mais recentemente sobre impactos ambientais na América do Sul e no mundo.

A transição da paisagem florestal para a paisagem agrícola por meio do desmatamento em larga escala ocorre de forma acelerada na Amazônia, explicam os autores. Isto é preocupante porque o bioma tem papel fundamental no ciclo hidrológico planetário, e as interferências humanas provocam a degradação do regime climático global. Essas transformações geram consequências múltiplas para o bem-estar humano, como insegurança no acesso à água e alimentos, o que pode provocar migrações em massa e instabilidade política.

O artigo alerta que gestores públicos devem agir imediatamente para proteger biodiversidade, população e serviços ecossistêmicos globais associados à Amazônia. “Dentre as principais medidas destacadas, estão a parada completa de desmatamento através de políticas e leis de conservação existentes. As políticas públicas devem desincentivar o desenvolvimento de novas hidroelétricas e de novas exportações de commodities que dependam do desmatamento da Amazônia, como as derivadas da agricultura e mineração. Na esfera global destaca-se a necessidade de migrar para fontes de energia limpa e eliminar o uso de fontes como derivados do petróleo. É necessário migrar para energia eólica e solar”, explica Val.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Mais de um terço da floresta amazônica sofre com degradação causada por humanos, aponta estudo

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Foto tirada em 2015 de uma floresta em chamas em Belterra, na Amazônia brasileira

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O processo de degradação da Amazônia é bem maior do que os cientistas acreditavam ser, segundo um estudo publicado nesta quinta-feira (26) na revista “Science” e assinado por 35 autores de instituições nacionais e internacionais, como Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (IPAM), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e Universidade de Lancaster, do Reino Unido. O artigo aponta que cerca de 38% do que resta da área de floresta sofre com algum tipo de degradação, o que provoca tanto ou mais emissões de carbono quanto o desmatamento.

O trabalho é fruto do projeto AIMES (Analysis, Integration and Modelling of the Earth System), ligado à iniciativa internacional Future Earth, que reúne cientistas e pesquisadores que estudam a sustentabilidade. As conclusões resultam de uma revisão analítica de dados científicos baseados em imagens de satélite e dados do chão já publicados anteriormente sobre mudanças na região amazônica entre 2001 e 2018. Os autores definem o conceito de degradação como sendo mudanças transitórias ou de longo prazo nas condições da floresta causadas por humanos. A degradação difere do desmatamento na medida em que este envolve mudanças na cobertura do solo – ou seja, no desmatamento, a floresta deixa de ser floresta.

Foram considerados quatro fatores principais de degradação: fogo na floresta, efeito de borda (as mudanças que acontecem em áreas de floresta ao lado das áreas desmatadas), extração seletiva (como desmatamento ilegal) e secas extremas. Diferentes áreas de florestas podem ser atingidas por um ou mais desses fatores, que têm diferentes origens. “Apesar da incerteza sobre o efeito total desses distúrbios, está claro que o efeito total pode ser tão importante como o efeito de desmatamento para emissões de carbono e a perda de biodiversidade”, diz Jos Barlow, pesquisador da Universidade de Lancaster, na Inglaterra, e coautor do estudo.

Além dos efeitos sobre o clima e das perdas de biodiversidade, os cientistas avaliam que a degradação da Amazônia tem impactos socioeconômicos significativos que devem ser investigados de forma mais profunda futuramente. “A degradação favorece poucos, mas leva fardos a muitos”, afirma David Lapola, pesquisador do CEPAGRI (Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura), da Unicamp e líder do estudo. “Poucas pessoas lucram com esse processo e muitas perdem em questões de saúde, de qualidade de vida, de se identificar com o lugar onde vivem”, completa Patricia Pinho, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e coautora do estudo.

Em uma projeção feita pela equipe para 2050, os quatro fatores de degradação continuarão sendo as principais fontes de emissão de carbono na atmosfera, independentemente do crescimento ou cessão do desmatamento da floresta. “Apesar de parecer óbvio, mesmo em um cenário otimista, quando não existe mais desmatamento, a degradação continua sendo fator de emissão de carbono, principalmente pelas mudanças climáticas”, diz Lapola. Para o cientista, impedir o avanço do desmatamento pode contribuir para que mais atenção seja direcionada a outros fatores de degradação da floresta.

Os autores do artigo propõem a criação de um sistema de monitoramento para a degradação, além de prevenção e coibição do corte ilegal de madeira e controle do uso do fogo. Uma das sugestões é o conceito de “smart forests” que, assim como na ideia de “smart cities” (cidades inteligentes), usaria diferentes tipos de tecnologias e de sensores para coletar dados úteis a fim de melhorar a qualidade do ambiente. “Ações e políticas públicas e privadas para coibir desmatamento não necessariamente vão resolver degradação também”, avalia Lapola. “É preciso apostar em estratégias inovadoras”, completa.

Síntese dos processos de degradação explicados pelo estudo. Fonte: os autores


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [ Aqui!].