
Indígenas e 350.org farão protesto na sede do BTG Pactual por causa da mineração na Amazônia



Uma investigação realizada pelo Bureau of Investigative Journalism, Greenpeace Unearthed, ITV News e Daily Mirror encontrou ligações entre o desmatamento nos biomas Amazônia e Cerrado do Brasil e produtos lácteos britânicos. A trader de soja Cargill, a empresa europeia líder em nutrição animal ForFarmers e várias empresas de bens de consumo estão conectadas à cadeia de suprimentos do Grupo Scheffer, um agronegócio brasileiro com 224.000 hectares (ha) de terras aráveis. O Grupo Scheffer tem sido repetidamente vinculado a incidentes de danos ambientais em fazendas, incluindo a derrubada de faixas de vegetação do Cerrado e o uso de fogo para limpeza de terras.
A investigação revelou que fazendas do Reino Unido que fornecem leite e laticínios Saputo (proprietária da Dairy Crest com marcas de queijos bem conhecidas como Davidstow e Cathedral City Cheddar), Arla UK (parte de uma cooperativa multinacional dinamarquesa) e Cadbury UK (de propriedade da Mondelez International ) obtêm uma parte de sua ração para gado dos produtores de rações ForFarmers e Mole Valley Feeds. Esses produtores, por sua vez, compram soja brasileira exportada pela Cargill, que adquire soja do Grupo Scheffer.
A Cargill está ligada a eventos de desmatamento e incêndios em sua cadeia de suprimentos brasileira há algum tempo. Em março de 2021, a Chain Reaction Research informou que a Cargill tinha a segunda maior exposição ao risco de desmatamento no Cerrado em 2020 (depois da Bunge), totalizando 44.644 ha. Uma pesquisa anterior de CRR descobriu que a Cargill tinha um alto risco de sofrer incêndios dentro de suas zonas de compra potenciais. Como membro do Soft Commodities Forum (SCF), a Cargill e outros comerciantes se comprometeram com uma estrutura comum para relatar e monitorar o progresso na transparência e rastreabilidade de suas cadeias de suprimento de soja no Cerrado. No entanto, ainda não está claro como as promessas do SCF se relacionam com seus compromissos de excluir a conversão de toda a vegetação nativa do Cerrado e a implementação de mecanismos eficazes de não conformidade, inclusive em relação à conversão legal. Nenhum dos comerciantes incluídos na análise do CRR apoia o Manifesto do Cerrado, que prevê a suspensão do desmatamento e a perda da vegetação nativa no bioma. As políticas de desmatamento dos comerciantes podem ser insuficientes para mitigar o risco de desmatamento em suas cadeias de abastecimento.
A Arla e a Saputo apontam as suas compras de créditos de certificação para apoiar a produção de soja responsável. No entanto, os créditos adquiridos com a certificação da Mesa Redonda para a Soja Responsável (RTRS) ou do próprio esquema Triple S da Cargill não estão vinculados a suprimentos físicos. Também permitem a mistura de soja com produto de origem não certificada, o que pode estar vinculado ao desmatamento.
A Arla admitiu que “não monitora os fornecedores escolhidos por nossos proprietários agrícolas para seus negócios”. Portanto, não sabe de onde vem a soja em sua cadeia de abastecimento. Arla, Saputo e Mondelez International são empresas de bens de consumo (FMCGs) de rápido movimento. Este setor é um dos principais beneficiários dos lucros gerados na cadeia produtiva da soja. Esse padrão é muito semelhante à cadeia de lucro do óleo de palma . Na cadeia do óleo de palma, o FMCG e os setores de varejo (incluindo supermercados, serviços de alimentação e restaurantes fast-food) obtêm 66% dos lucros brutos e 52% dos lucros operacionais do óleo de palma incorporado. Essas empresas e seus financiadores enfrentam altos riscos financeiros pela não implementação e execução de políticas de desmatamento. Em particular, financiamento e risco de reputação pode custar-lhes até 30% do valor de sua empresa ou de mercado. Estabelecer a melhor política e execução de desmatamento zero da categoria, incluindo monitoramento / verificação, exigiria que essas empresas aumentassem os preços ao consumidor em menos de 2%.
A Cargill é uma empresa privada não listada, mas muitas instituições financeiras estão envolvidas no financiamento de dívidas e emissão de títulos para suas atividades de soja na América Latina. Os principais credores em seu financiamento à soja são BNP Paribas, Itaú Unibanco, JP Morgan Chase, Bank of America e Deutsche Bank. Entre os principais investidores em títulos da Cargill estão Prudential Financial (EUA), Metlife, AIG, Nationwide Mutual Insurance e Wellington Management. Vários deles adotaram políticas de desmatamento zero e têm amplos motivos para se envolver com a Cargill. Dos produtos de dívida identificados e ajustados, 27% vieram de instituições financeiras da União Europeia (UE). As instituições da UE estão cada vez mais expostas a regulamentações financeiras sustentáveis (como o SFDR) e também terão que enfrentar a regulamentação da UE sobre a devida diligência na cadeia de abastecimento (2022).

Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela Chain Reaction Research [Aqui!].
Após três anos sem planos para reduzir efetivamente o desmatamento, o governo promete cortar 15% do desmatamento no ano em que termina o mandato

Vista aérea de um desmatamento na Amazônia para expansão pecuária, em Lábrea, Amazonas / © Victor Moriyama / Amazônia em Chamas
Glasgow, 2 de novembro de 2021 – A COP 26 trouxe uma enxurrada de anúncios sobre a “proteção” das florestas. Entre eles está um novo acordo entre governos, incluindo o Brasil, para conter o desmatamento até 2030. Mas o acordo na prática substitui a Declaração de Nova York sobre Florestas de 2014, que estabeleceu a meta para o ano de 2020 (embora o Brasil não o tenha assinado.
Respondendo de Glasgow ao anúncio, a diretora executiva do Greenpeace Brasil, Carolina Pasquali, afirma que “Há um bom motivo pelo qual Bolsonaro se sentiu confortável em assinar este novo acordo. Ele estende o prazo para acabar com a destruição da floresta em dez anos, não é obrigatório e, quando se trata de limpar as cadeias de abastecimento, parece ter como alvo apenas o desmatamento ilegal. Mas a Amazônia já está à beira do colapso e não pode sobreviver a mais uma década de destruição, legal ou não. Os povos indígenas estão clamando pela proteção de 80% da Amazônia até 2025, e eles têm razão; é o que é preciso. O clima e o mundo natural não têm condições de pagar por esse acordo.”
Após três anos sem planos para reduzir efetivamente o desmatamento, o governo promete agora cortar 15% do desmatamento em 2022, ano que termina o mandato. Se tivermos em 2021 taxas iguais de desmatamento dos últimos dois anos, esse número estaria por volta de 9.000 Km2, um aumento de 22% em relação ao ano de 2018, véspera do início do atual mandato. O governo antecipou também a meta de zerar o desmatamento ilegal até 2028, mas a conta não fecha, até lá o governo estaria admitindo quase 42.200 km2 de desmatamento ilegal, uma área maior que a Holanda ou Suíça, por exemplo.
Enquanto o governo brasileiro se aproveita da visibilidade da COP 26 para lançar diversos programas, anunciar novas metas de redução do desmatamento ilegal, cortes de emissões e um plano para acelerar a economia verde, por trás das cenas – como mostrou a reportagem de investigação jornalística do Unearth -, a intenção é outra. O Brasil, ao lado de outros países, tentou interferir nas recomendações do relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) para excluir as menções à agropecuária como vilão do clima e a importância da adoção de uma dieta baseada em vegetais. É importante lembrar que o desmatamento e a agropecuária representam 72% do total das emissões dos gases do efeito estufa do Brasil. As emissões no país aumentaram 9,5% em 2020, impulsionadas pela destruição da Amazônia — resultado de escolhas políticas deliberadas do governo Bolsonaro.
A falta de ação para reduzir a demanda por carnes e laticínios industriais — uma indústria que está causando a destruição do ecossistema por meio da produção de gado e do uso de soja para ração animal -, nos mostra que há poucas chances do governo cumprir esse acordo e instigar políticas que colocariam o Brasil de volta ao caminho certo para diminuir o desmatamento. Enquanto não adotamos dietas baseadas em vegetais e reduzimos a quantidade de carne industrial e laticínios que consumimos, os direitos dos povos indígenas continuarão a ser ameaçados e a natureza continuará a ser destruída, em vez de ter a oportunidade de se restaurar e se recuperar.
O Príncipe Charles, herdeiro do trono do Reino Unido, falando na abertura da COP26 em Glasgow, capital da Escócia
Começou hoje em Glasgow a 26a. edição da Conferência para Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas (ONU) com os discursos iniciais dos líderes de governo ali presentes enfatizando a situação crítica em que se encontra o planeta em função das chamadas “mudanças climáticas” (ver vídeo abaixo).
Uma voz que não foi ouvida nessa cerimônia de abertura foi a do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que resolveu fugir das suas responsabilidades sob a alegação pífia de que somente críticas o esperariam na capital escocesa.
Ainda que isto seja verdade, o que além de tudo seria merecido visto o papel desastroso do governo Bolsonaro no agravamento das emissões de gases estufa pelo Brasil, fugir dessa conferência não é, nem de perto, uma opção que um líder minimamente preocupado com o seu país deveria ou poderia adotar. Aliás, dentre os governantes que não estão incapacitados, pelas razões que sejam de estarem em Glasgow para participar da COP26, Jair Bolsonaro é provavelmente o único que optou por não estar lá por vontade própria..
Essa fuga de Glasgow é apenas o corolário de uma trajetória para colocar o Brasil em uma posição de destaque como pária nos debates sobre os esforços para providenciar respostas articuladas para os desafios criados pela crise climática. Essa posição pode até agradar aos frequentadores do “cercadinho” do presidente Bolsonaro em Brasília, mas certamente trará graves dificuldades para os interesses estratégicos do Brasil, inclusive na área comercial.

Protestos antes do início da COP26, em Glasgow, na Escócia / Foto: Ian Forsyth/Getty Images (30.out.2021)
Sobre todos os ângulos, a decisão de fugir da COP26 é um verdadeiro tiro no pé que está sendo dado por Jair Bolsonaro e seu grupo de ministros negacionistas. Deixar os interesses do Brasil a uma delegação composta por verdadeiros desconhecidos (alguém sabe o nome do atual ministro do Meio Ambiente) e por um vice-presidente general que é completamente ignorado pelo presidente capitão trará consequências desastrosas. E isso deverá ficar evidente mais cedo do que tarde. Isso virá porque Jair Bolsonaro conseguiu efetivamente transformar o Brasil em um pária. Simples assim!


Ao mapear as políticas públicas dos nove estados da Amazônia Legal em relação às mudanças climáticas, relatório lançado nesta terça (26/10) revela que nenhum deles possui sistemas de alerta e planos de contingência permanentes para eventos extremos, como inundações, secas, incêndios florestais e ondas de calor. O estudo é de autoria do Achados e Perdidos, iniciativa da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e da Transparência Brasil, realizada em parceria com a Fiquem Sabendo e com financiamento da Fundação Ford.
A implementação de políticas subnacionais para gestão das mudanças climáticas na Amazônia Legal foi analisada a partir de informações obtidas em respostas a pedidos de informações via Lei de Acesso à Informação (LAI), bem como dados disponíveis nos portais dos órgãos ambientais de cada Estado. Os dados foram cruzados com dez indicadores desejáveis para controle da situação de emergência climática na região, divididos em três grupos: governança, mitigação e adaptação.
O relatório indica que, embora os Estados da região tenham desenvolvido políticas e estratégias voltadas para as emergências climáticas, elas se encontram em diferentes estágios de implementação e, com isso, poderiam não ser eficazes no controle de eventuais cenários complexos de meteorologia e hidrologia. A Amazônia Legal corresponde à totalidade dos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins e parte do estado do Maranhão.
A Amazônia foi escolhida para ser analisada por ser uma das regiões mais vulneráveis ao impacto das mudanças climáticas no mundo, que vem sofrendo com a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento. De acordo com relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), o aquecimento na bacia amazônica, a maior bacia hidrográfica do mundo, aumentou entre 0,6 Cº e 0,7 Cº, desde 1979.
A equipe do Achados e Perdidos identificou que não é satisfatória a transparência nos dados públicos, assim como a acessibilidade às informações sobre governança climática. Além disso, afirmam que, embora existam diretrizes nacionais para a redução dos impactos das mudanças climáticas, estabelecidas por meio da Política Nacional sobre Mudança do Clima, o país ainda carece de uma coordenação do governo federal para orientar as ações em todo o território nacional.
De acordo com a avaliação de Jéssica Botelho, coautora do relatório, é necessário haver uma governança multinível, envolvendo Estados e municípios. “É fundamental termos uma gestão ambiental nacional alinhada com as estratégias subnacionais, de Estados e municípios, de tal forma que agregue ações de impacto global, regional e local, fortalecendo assim as medidas de mitigação e adaptação das mudanças climáticas”, ressalta.

Este material foi originalmente publicado pela Agência Bori [ ].

Em carta enviada ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), mais de 200 entidades questionam políticas ambientais e de direitos humanos da empresa

Cerca de 200 organizações da sociedade civil exigem que o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) não aprove um empréstimo para a Marfrig, segunda maior empresa produtora de carne do mundo. O aporte financeiro tem como objetivo declarado apoiar investimentos em sustentabilidade feitos pela multinacional brasileira.
A Marfrig, segundo as entidades signatárias, acumula uma série de violações aos direitos humanos e ao meio ambiente em sua cadeia produtiva, o que seria “incompatível com o recebimento de investimento de uma instituição comprometida com a responsabilidade social e ambiental e com a obrigação de respeitar os direitos humanos na destinação de recursos públicos”, diz a carta enviada hoje (19) para os diretores do banco.

Em junho, a própria Marfrig admitiu que não possui controle sobre a origem de 40% do gado que compra (Foto: Christiano Antonucci/Secom-MT)
O frigorífico brasileiro espera conseguir um empréstimo de US$ 43 milhões com o BID – o equivalente a R$ 237 milhões, segundo cifras atuais. O valor seria usado na implementação do “Plano Verde +”, programa anunciado pela Marfrig em julho do ano passado, e que prevê melhorias no monitoramento da origem dos animais abatidos pela empresa.
Mais de 800 mil quilômetros quadrados da floresta amazônica já foram desmatados para a implantação de lavouras e pastagens, sendo a criação de gado responsável por 70% do desmatamento em países da América Latina e Caribe, segundo o BID. Na carta, as organizações alertam que o empréstimo à Marfrig viola o compromisso do próprio banco com os objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU e com acordos internacionais sobre o clima.
“O banco falhou em sua análise ao aceitar a proposta da Marfrig. Esse é um exemplo de como os bancos podem facilitar a continuação de violações de direitos humanos e desmatamento por parte de empresas”, afirma Merel van der Mark, da Sinergia Animal, uma das organizações signatárias da carta.
A Marfrig registrou uma receita líquida de R$ 67,5 bilhões em 2020, mesmo ano em que anunciou o investimento de R$ 500 milhões em sustentabilidade no “Plano Verde +”. Recentemente a empresa comprou quase um terço das ações da BRF, uma das maiores produtoras de frangos do mundo. Além disso, gastou US$ 969 milhões para adquirir 81% das ações da National Beef Packing Co, uma das maiores indústrias processadoras de carnes dos Estados Unidos. “Isso deveria ser considerado como evidência de que a Marfrig pode facilmente financiar seus projetos de sustentabilidade sem depender de fundos de investimento públicos”, diz a carta
“Poderíamos usar esse recurso para alimentar a população, e não para financiar a pecuária intensiva. Não é apenas sobre desmatamento, é sobre fome, é sobre entender as necessidades da população. Essa mobilização mostra que a sociedade civil não acredita que essa é a forma correta de gastar dinheiro público”, afirma Kari Hamerschlag, da Friends of the Earth’s.
O BID espera anunciar sua decisão sobre o empréstimo em dezembro deste ano.
Promessa nova, dívida antiga
Em 2009 a Marfrig se comprometeu a implementar mecanismos para monitorar a origem do gado abatido, evitando assim a compra de animais associados ao desmatamento ilegal, ao trabalho escravo e à invasão de Terras Indígenas. A meta era que, até o final de 2011, houvesse mecanismos para controlar não só os fornecedores diretos – ou seja, as propriedades rurais que encaminham animais para o abate – mas também os chamados “fornecedores indiretos”, como são conhecidos os pecuaristas que vendem bezerros e gado jovem para as fazendas que negociam os animais diretamente com os frigoríficos. O plano, no entanto, nunca saiu do papel.
Uma década depois, a empresa renovou a promessa e esticou o prazo por mais dez anos: a previsão é ter o monitoramento dos animais abatidos, desde o nascimento até o abate, até 2025 na Amazônia e até 2030 no Cerrado.
A própria empresa admitiu, em junho deste ano, que existe um “ponto cego” de quase 40% do rebanho processado – ou seja, faltam garantias que o boi que chega no frigorífico pastou em áreas livres de desmatamento ou trabalho escravo. No Cerrado a taxa é ainda mais alarmante: 53% do rebanho não tem identificação de origem do gênero.
“A Marfrig não se responsabiliza pelo descumprimento de sua promessa. Se o projeto for aprovado é como se o BID passasse um recado que tudo bem desmatar por mais dez anos. E nada garante que em 2030 a empresa vai ter cumprido a meta. Isso é totalmente inaceitável”, comenta Merel van der Mark.
Empréstimo e ‘greenwashing’
No ano passado a Repórter Brasil revelou que um frigorífico da Marfrig abateu animais de fazendeiros com propriedades localizadas ilegalmente dentro da Terra Indígena Apyterewa, a segunda mais desmatada na Amazônia em 2020. Em 2019, outra investigação mostrou que a empresa comprou gado de fazendeiros na APA Triunfo do Xingu, epicentro das queimadas na Amazônia. Mesmo após as denúncias, a empresa continuou comprando de fornecedores diretamente ligados a grandes violações de direitos humanos e trabalhistas na região.
Já uma investigação feito pela Global Witness apontou que entre 2017 e 2019, a Marfrig comprou gado de 89 fazendas responsáveis por mais de 3,3 mil hectares de desmatamento ilegal. Esses são alguns exemplos levantados na carta que colocam em xeque a viabilidade do empréstimo.
As organizações temem que o eventual empréstimo do BID abra brechas para novos investimentos à revelia do passivo socioambiental da Marfrig. “É um empréstimo ‘greenwashing’, que permite que a Marfrig capte mais recursos como se fosse uma empresa sustentável. Sabemos que suas práticas são tudo menos sustentáveis e o BID não deveria fazer parte disso”, aponta Hamerschlag.
A mobilização para que o BID não aprove o empréstimo a Marfrig faz parte da campanha Divest Factory Farm (Desenvistam da Pecuária Industrial, em tradução livre).
Contatada pela Repórter Brasil, a Marfrig não se posicionou sobre a carta até o fechamento da matéria. Após a publicação, a empresa encaminhou uma nota refutando as denúncias de problemas socioambientais em sua cadeia produtiva e que disse que é preciso “esclarecer os supostos casos de falha de compliance descritos no documento enviado ao BID”.
A Marfrig reiterou que está 100% em conformidade com os requisitos auditados de seus fornecedores diretos e que recentemente adotou uma nova ferramenta para identificação de fornecedores indiretos. “A maior parte dos casos apontados foram respondidos pela companhia e exaustivamente investigados pelas autoridades competentes, sem que a Marfrig jamais tenha sido condenada”, afirma a nota, que pode ser lida na íntegra aqui.
*Matéria atualizada às 17h15 do dia 20 de outubro de 2021 para acrescentar o posicionamento da Marfrig.

Este texto foi inicialmente publicado pela Repórter Brasil [Aqui!].
Área de pastagens cresceu 200% na Amazônia nos últimos 36 anos. Neste período a quantidade de pastagens severamente degradadas caiu pela metade em todo o país

A área destinada à pecuária é ainda maior se considerar que a ela se somam parte das áreas de campos naturais, principalmente no Pampa e Pantanal, que cobrem 46,6 milhões de hectares no país, e áreas de mosaico de agricultura e pastagem onde o mapeamento não permitiu a separação ou elas ocorrem de forma consorciada, e que cobrem 45 milhões de hectares.
A análise das imagens de satélite entre 1985 e 2020 permitiu também avaliar a qualidade das pastagens brasileiras e constatar uma queda nas áreas com sinais de degradação de 70% em 2000 para 53% em 2020. No caso das pastagens severamente degradadas houve uma redução ainda mais expressiva; representavam 29% das pastagens em 2000 (46,3 milhões de hectares) e agora representam 14% (22,1 milhões de hectares). Essa melhora foi identificada em todos os biomas, sendo que os que apresentaram maior retração nas áreas severamente degradadas foram Amazônia (60%), Cerrado (56,4%), Mata Atlântica (52%) e Pantanal (25,6%).
“A qualidade das pastagens tem importância estratégica para o produtor e para o país. Para o produtor, pela relação direta com a produtividade do rebanho, seja ele de corte ou de leite. Para o país, pela capacidade das pastagens bem manejadas de capturar carbono das. Por outro lado, pastagens degradadas agravam a contribuição do setor agropecuário para as emissões dos gases que estão alterando o clima, com efeitos perversos sobre a própria atividade agropecuária”, explica Laerte Laerte Ferreira, professor e pró-reitor de Pós-Graduação (PRPG) da Universidade Federal de Goiás e coordenador do levantamento de pastagens do MapBiomas.
De 1985 a 2020, pelo menos 252 milhões de hectares são ou já foram pastagem. A partir da análise de imagens de satélite foi possível detectar duas fases distintas no processo de conversão que transformou quase um terço do país em pastagens nesse período. Ele foi mais intenso entre 1985 e 2006, quando se registrou um crescimento de 46,3% na extensão ocupada por pastagens, que passou de 111 milhões de hectares para 162,4 milhões de hectares. Em meados dos anos 2000, a área total de pastagem parou de crescer e até encolheu, registrando uma retração de 5% de 2005 a 2020.
Sobre o MapBiomas
O MapBiomas é uma iniciativa multi-institucional que reúne universidades, ONGs e empresas de tecnologia que se uniram para contribuir para a compreensão das transformações do território brasileiro a partir do mapeamento anual da ocupação e uso do solo no Brasil. Em agosto de 2021, foi publicada a Coleção 6 de MapBiomas com mapas de cobertura e uso do solo do Brasil de 1985 a 2020. A ferramenta desenvolvida pela MapBiomas para todas as suas iniciativas disponibiliza informações geradas com resolução espacial de 30 metros. Os dados são processados usando algoritmos de classificação automática por meio de informações na nuvem do Google Earth Engine. https://mapbiomas.org/

Salvar a Amazônia com foco no Brasil do futuro. Esse foi o foco do evento online “Amazônia e Bioeconomia – Sustentada em Ciência, Tecnologia e Inovação”. O tema é discutido como parte das comemorações dos 105 anos do Instituto de Engenharia de São Paulo, marcado nesta quarta-feira, 13 de outubro.
A ideia é discutir as oportunidades e desafios do País na bioeconomia, além de reações sobre as mudanças climáticas, cooperação entre instituições públicas, governo e iniciativa privada.
Alexandre Saraiva, delegado da Polícia Federal, responsável pela Operação Handroanthus, que fez a história apreensão de madeira ilegal na Amazônia, ano passado, participou das discussões.
Segundo ele, é importante conhecer os problemas para trazer as soluções. Assim, é fundamental priorizar a defesa da Amazônia.
Desde 1988, uma área de floresta tropical aproximadamente do tamanho do Texas e do Novo México combinados foi destruída
‘A Amazônia – historicamente um grande absorvedor de carbono – agora libera mais carbono do que armazena, o que aumenta, em vez ajuda a reduzir, nossa crise climática global.’ Fotografia: Carl de Souza / AFP / Getty Images
Pouco antes de completar 44 anos, em dezembro de 1988, o seringueiro e ativista ambiental brasileiro Chico Mendes previu que não viveria até o Natal. “No início”, disse ele, “pensei que estava lutando para salvar as seringueiras, depois pensei que estava lutando para salvar a floresta amazônica . Agora eu percebo que estou lutando pela humanidade. ”
Mendes recebia ameaças de morte há anos. As ameaças aumentaram quando um fazendeiro agressivo reivindicou uma reserva florestal próxima, onde pretendia queimar e nivelar árvores para criar pasto para o gado. O fazendeiro contratou pistoleiros para rondar o bairro de Mendes. Mendes se opôs publicamente ao fazendeiro e continuou a defender os direitos humanos dos povos indígenas da bacia amazônica, dizendo que o Brasil deve salvar a floresta de maior biodiversidade do mundo. Destrua-o, disse ele, e nós, a raça humana, acabaremos nos destruindo.
Três dias antes do Natal de 1988, Mendes foi morto a tiros pelo filho do fazendeiro.
Isso surpreendeu o mundo.
O Conselho Nacional dos Seringueiros, cambaleando com o assassinato, fez um apelo para que a Amazônia fosse preservada “para toda a nação brasileira como parte de sua identidade e auto-estima”. O conselho acrescentou: “Esta Aliança dos Povos da Floresta – reunindo índios, seringueiros e comunidades ribeirinhas – envolve todos os esforços para proteger e preservar este imenso mas frágil sistema de vida que envolve nossas florestas, rios, lagos e nascentes, a fonte de nossa riqueza e a base de nossas culturas e tradições. ”
Desde o assassinato de Mendes, quase 1 milhão de km2 da Amazônia, uma área quase do tamanho do Texas e do Novo México juntos, foram destruídos, principalmente no Brasil, mas também no Peru, Colômbia, Venezuela, Suriname, Guiana e Guiana Francesa. Isso equivale a uma média de cerca de 80.000 hectares por dia, ou 40 campos de futebol por minuto. Só no Brasil, que abriga a maior extensão de floresta, a taxa de perda aumentou em mais de 30%. A Amazônia – historicamente um grande absorvedor de carbono, já que as árvores absorvem dióxido de carbono e liberam oxigênio – agora libera mais carbono do que armazena, o que contribui para, em vez disso, ajuda a reduzir nossa crise climática global.
As taxas de desmatamento diminuíram ligeiramente de 2004 a 2012. Mas, desde então, elas voltaram a aumentar, especialmente nos últimos dois anos, desde que Jair Bolsonaro se tornou presidente do Brasil.
Em 2018, enquanto Bolsonaro fazia campanha como um homem patriótico do povo, os cientistas previram que, uma vez que a Amazônia perdesse mais de 25% de sua cobertura de árvores, se tornaria um ecossistema mais seco, tudo porque o desmatamento muda os padrões climáticos (devido à forma como as árvores respiram) , que por sua vez reduz as chuvas. Além disso, à medida que a floresta se torna fragmentada, as áreas cercadas por pastagens perderão espécies em um processo que os biogeógrafos chamam de “decadência do ecossistema”.
Em suma, a Amazônia está morrendo. Bibliotecas genéticas inteiras e sinfonias de espécies – árvores, pássaros, répteis, insetos e muito mais, eras em formação, ajustadas pela seleção natural – estão sendo eliminadas para dar lugar a vacas que expelem metano.
“Bolsonaro é um apoiador poderoso do agronegócio”, relatou o Washington Post antes de ele ganhar a presidência, “e provavelmente favorece os lucros em vez da preservação. [Ele] se irritou com a pressão estrangeira para proteger a floresta tropical amazônica e notificou grupos internacionais sem fins lucrativos, como o World Wildlife Fund, de que não tolerará suas agendas no Brasil. Ele também se manifestou fortemente contra as terras reservadas para tribos indígenas ”.
Escrevendo no Mongabay, um site de ciência, Thais Borges e Sue Branford relataram em maio de 2019 que um “novo manifesto de oito dos ex-ministros do meio ambiente do Brasil … advertem [s] que as políticas ambientais draconianas de Bolsonaro, incluindo o enfraquecimento do licenciamento ambiental, além de varreduras ilegais anistias de desmatamento, podem causar grandes prejuízos econômicos ao Brasil ”.
Robert Walker, geógrafo quantitativo do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade da Flórida, disse que, a menos que algo sem precedentes aconteça, ele prevê que a maior floresta tropical da Terra será destruída em 2064.
Se assim for, terá levado oportunistas locais – armados com motosserras, tratores e gritos de “terra, terra, terra” – pouco mais de um século para destruir uma floresta tropical de 10 milhões de anos e composta por cerca de 390 bilhões de árvores. Talvez então, em um futuro quente, brutal e não muito distante, quando os historiadores narrarem a destruição de seu próprio planeta pela humanidade, a matança da Amazônia chegará ao topo ou próximo disso. E todas as razões pelas quais isso teve que ser feito – tão urgentes na época – parecerão banais até que, retiradas, duas causas fundamentais permanecem: ignorância e ganância.
Entra o Papa Francisco, que não tem medo de abrir precedentes. Junto com o Arcebispo de Canterbury Justin Welby e o Patriarca Ecumênico Ortodoxo Patrick Bartholomew, os três principais líderes cristãos do mundo publicaram recentemente “Uma Mensagem Conjunta para a Proteção da Criação”, pedindo aos cristãos de todo o mundo que “ouçam o clamor da Terra”. Isso inclui todos, ricos e pobres, velhos e jovens, que devem examinar seu comportamento e prometer “sacrifícios significativos pelo bem da Terra que Deus nos deu”. Os três também imploraram aos líderes mundiais programados para participar da Conferência do Clima das Nações Unidas (Cop 26) em Glasgow, que começa em 31 de outubro, para fazer escolhas corajosas – e necessárias.
Se sua saúde permitir, Francis participará da conferência de Glasgow. Welby também planeja comparecer. Esperançosamente, logo depois disso, Francisco, que é o primeiro papa das Américas na história, iria visitar o Brasil, o país católico romano mais populoso do mundo. Ele entraria na Amazônia, abençoaria a floresta – o que resta dela – e pediria ao mundo que ajudasse a virar a maré nas políticas imprudentes do Brasil. Talvez ele pudesse fazer uma homilia sobre Apocalipse 7: 3: “Não faça mal à terra, ao mar ou às árvores …” Uma homilia que inspire os sul-americanos a melhorar seu meio de vida ao mesmo tempo em que protege sua floresta ancestral – os pulmões da terra. Finalmente, Francisco poderia apelar para sua igreja e as nações mais ricas do mundo para gastar parte de sua vasta riqueza para ajudar a reeducar, reequipar e reempregar os fazendeiros, pecuaristas, posseiros e empresários da Amazônia.
Logo depois de ser eleito papa em 2013, Jorge Mario Bergoglio, de Buenos Aires, assumiu seu título papal em homenagem a São Francisco de Assis da Itália, o padroeiro dos animais e pássaros, que, como Chico Mendes, morreu aos 44 anos e falou a verdade ao poder . Henry David Thoreau, o transcendentalista da Nova Inglaterra que escreveu Walden and Civil Disobedience, também morreu aos 44 anos e fez o mesmo.
Não é quanto tempo temos ou dinheiro. É o que fazemos com isso. “Deixe sua vida ser um contra-atrito para parar a máquina”, escreveu Thoreau. Ele acrescentou que sempre que caminhava na floresta, ficava “mais alto do que as árvores”.
O Brasil leva o nome de uma árvore, o Pau-Brasil, assim dada por exploradores portugueses que o valorizavam por seus corantes vermelhos. Conhecido hoje como Pernambuco ou pau-brasil, é listado como uma espécie em extinção e é cuidadosamente plantado e manejado, e colhido seletivamente por homens habilidosos que, com facões pendurados em seus cintos de corda, se movem pela floresta como água e muitas vezes abençoam cada árvore antes cortando a madeira que será entalhada em arcos requintados para violinos, violas e violoncelos.
Diz-se que o povo brasileiro, por mais difícil que seja sua situação, sorri em vez de chorar porque ama a vida. Também se disse que o futuro do Brasil é o futuro do mundo.
Chico Mendes estava certo.
Salve a Amazônia, e talvez possamos nos salvar.
Colaborador frequente do Guardian, Kim Heacox é autora de muitos livros, incluindo The Only Kayak, um livro de memórias, e Jimmy Bluefeather, um livro de memórias, ambos vencedores do National Outdoor Book Award. Ele mora no Alasca

Este artigo foi escrito inicialmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].