Cacau Sustentável da Amazônia cria oportunidade de ação conjunta para Brasil, Colômbia e Peru

cacau sustentável
Por Fabíola Zerbini
Os olhos do mundo estão voltados para a Amazônia. O desafio que se coloca é o de preservar a maior floresta tropical do mundo e ao mesmo tempo, conservar o território das tantas comunidades e povos indígenas que habitam o local – são cerca de 30 milhões de pessoas nas regiões amazônicas do Brasil, Colômbia e Peru. Uma das oportunidades que se apresenta está relacionada ao cacau, fruto nativo que faz parte da cultura amazônica há mais de 14 mil anos, cultivado e cultuado ao longo do tempo por diversos povos originários, principalmente nos três países destacados.
 

A região amazônica reúne a mais diversificada variedade de cacau do mundo em termos genéticos, de sabor e de espécies. Uma combinação entre genética, práticas agrícolas e qualidades de clima e solo podem significar a obtenção de um cacau de alta qualidade, sob práticas de sustentabilidade, conectividade com a paisagem e respeito a aspectos culturais milenares, com potencial para gerar uma produção de cacau com maior valor agregado e consequentemente, comercializado a preços mais elevados. A partir do consenso entre brasileiros, colombianos e peruanos envolvidos na cadeia de produção do cacau de origem amazônica, está surgindo um Plano Estratégico de Desenvolvimento do Cacau Sustentável da Amazônia, com o intuito de atrair compradores e investidores interessados no combate ao desmatamento por meio de uma cadeia de fornecimento que promova a inclusão social e seja orientada pela bioeconomia.

O cultivo sustentável pode colaborar na restauração de áreas degradadas e na redução do desmatamento, além de proporcionar melhoria de vida para agricultores – em sua maioria, pequenos e médios – e suas comunidades, com atributos de potencial apelo para os mercados globais, abrindo um novo caminho para a proteção da Amazônia. Brasil, Colômbia e Peru podem construir uma estratégia sólida em torno da marca Cacau de Origem Amazonica Sustentável; uma oferta unificada de produção diferenciada de cacau, lucrativa para as famílias produtoras e que contribua para uma relação positiva com as florestas e seu ecossistema. Uma agricultura intensiva na produtividade mas não em extensão de terras. O desafio de construir um mercado para o cacau sustentável está colocado; e deve ser respondido de forma articulada entre os três países, considerando a dinâmica do mercado e suas tendências em escala global.

A inovação se dá na estratégia, na metodologia da produção e também na sua relação com o mercado comprador, visto que o objetivo não é atender a uma demanda existente e sim, construir uma demanda. Trata-se, portanto, do desenvolvimento de um novo produto e de um novo mercado. Para viabilizar este novo cenário, é crucial o diálogo franco entre todos os atores envolvidos no mercado interno e com as comunidades indígenas e famílias agricultoras. É deste intenso compartilhamento de ideias que irá emergir uma proposta estratégica e prática que deve incluir suporte técnico, infraestrutura, crédito, e certificações, resultando em significativas melhorias na logística e em aumento de produtividade e rentabilidade.

No Peru, país que concentra seis das dez famílias genéticas do cacau no mundo, a partir da perspectiva Produção – Proteção – Inclusão, foi firmado recentemente o Acordo Cacau, Bosques y Diversidade, com oferta de assistência e extensão rural integral, acesso à tecnologia e inovação, financiamento em condições favoráveis e incentivos para a conservação e a restauração. Pelo acordo, foram estabelecidos compromissos do setor privado – entre eles, a análise de suas cadeias de fornecimento, o estabelecimento de políticas e metas quantitativas de curto, médio e longo prazos, a promoção da intensificação produtiva sustentável e a restauração produtiva em áreas degradadas -, tendo como marco histórico o ano de 2025 para que a totalidade da produção seja livre de desmatamento, de forma verificável. Por parte do setor público e das organizações da sociedade civil, os compromissos assumidos incluem a mobilização de investimentos para a proteção e a restauração da floresta vinculada à produção de cacau, a promoção de mecanismos de incentivo os pequenos produtores, e a colaboração na geração e transmissão de conhecimento para identificar e promover a adoção de práticas sustentáveis de produção de cacau e o desenvolvimento tecnológico da cadeia.

Na chamada Amazônia Legal brasileira, que inclui os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, e parte do Maranhão, existe sobreposição entre áreas protegidas e municípios com áreas de cultivo de cacau, mas as áreas semeadas de cacau estão aumentando, o que, dependendo do tipo de valor de conservação e usos permitidos, pode representar uma alteração nos ecossistemas ou uma oportunidade de avançar para uma cultura como o cacau agroflorestal, com grande potencial na restauração de paisagens. O Brasil tem capacidade para se tornar autossuficiente em termos de demanda interna de cacau ou mesmo para atingir, em certa medida, ofertas para a demanda externa. É importante que o país avance nas politicas e estruturas de incentivo à produção de um cacau de qualidade e de seu processamento para atender à demanda interna e externa, e alcançar o estabelecimento de cacau de maior qualidade na produção de origem, uma vez que ambos os fatores valorizam o produto. No entanto, para se posicionar no mercado de cacau fino, é preciso melhorar a qualidade do cacau atualmente produzido, otimizando técnicas de pós-colheita, juntamente com políticas públicas que visem ao desenvolvimento da cadeia produtiva nacional e assistência técnica. Só assim será possível obter reconhecimento e aprovação internacional como produtor de cacau de qualidade superior relacionada à origem. Quando essas características são reconhecidas, elas podem ser valorizadas pelo consumidor por meio de um selo ou uma denominação que remeta à origem.

O objetivo primordial do esforço pelo Cacau de origem Amazônica Sustentável é estimular a conservação e recuperação da floresta amazônica por meio de arranjos agroflorestais de cacau que possibilitem a obtenção de preços mais elevados e maior produtividade por hectare. O cacau em arranjos agroflorestais deve considerar as espécies atrativas para a fauna, tornando-se um aliado da conservação das espécies. Da mesma forma, sua colheita deve gerar conectividade entre os fragmentos florestais, o que também permitirá que sejam culturas aliadas de grandes mamíferos que utilizam esses espaços para sua mobilidade. O cacau agroflorestal sustentável tem um impacto positivo no meio ambiente, permitindo a captura de carbono e a sustentabilidade dos ecossistemas, preservando e melhorando os solos, as fontes de água e preservando a biodiversidade.

Para melhorar os preços de venda do cacau, os produtores podem se associar para reduzir os custos pós-colheita e melhorar a qualidade do grão pela unificação dos processos de fermentação e secagem, para assim obter um melhor preço de venda e certificações, como comércio justo e produção orgânica, o que lhes confere um aumento de preço.

Em conclusão, a região amazônica tem potencial para o desenvolvimento da cultura do cacau e reconhecimento de origem, pois suas condições climáticas e ambientais favorecem o cultivo da planta nativa da região. Para avançar na viabilização do Cacau de origem Amazônica Sustentável, é crucial a interação de organizações públicas e privadas com os produtores locais. União e trabalho conjunto para a valorização da floresta em pé e dos produtores locais, em direção a uma posição de relevância do cacau amazônico nos mercados internacionais. Mãos à obra!

 
Por Fabíola Zerbini é Doutora em Ciência Ambiental pelo PROCAM/USP e Diretora Regional da TFA (Tropical Forest Alliance) para a América Latina

Agricultura ilegal é o principal motor do desmatamento na América Latina e no Caribe

agricultura-deforestacion1-996x567

No Brasil, os principais produtos agrícolas responsáveis ​​pelo desmatamento são a carne bovina e a soja. As pastagens geraram 74% e a soja, 20% da perda florestal. Crédito da imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil , sob licença Creative Commons 3.0

O desmatamento na América Latina e no Caribe é responsável por 44% da perda total das florestas tropicais, e a maior parte da conversão agrícola foi realizada ilegalmente, conclui um estudo global da organização sem fins lucrativos Forest Trends .

De acordo com o relatório, o planeta perdeu 77 milhões de hectares de florestas tropicais entre 2013-2019 na América Latina, Sudeste Asiático e África. Destes, 60 por cento – 46,1 milhões de hectares – foram impulsionados pela agricultura comercial , e pelo menos 69 por cento desta agro-conversão foi realizada ilegalmente.

Commodities como carne bovina, soja e óleo de palma foram responsáveis ​​pela destruição de pelo menos 31,7 milhões de hectares de florestas tropicais no mundo durante os últimos sete anos, um montante que representa 4,5 milhões de hectares por ano e representa 2,7 gigatoneladas de emissões anuais de CO2.

“Não precisamos cortar mais florestas para cultivar alimentos”, disse o ecologista Arthur Blundell, co-autor do novo relatório que lança luz sobre a inter-relação entre a agricultura comercial e o desmatamento ilegal , ao SciDev.Net . “As pessoas precisam entender o papel da agricultura comercial em impulsionar o desmatamento ilegal e a importância das florestas tropicais”, acrescenta.

“Infelizmente, a floresta ainda não é considerada algo viável (economicamente), daí o interesse em desmatar para torná-la produtiva. O agronegócio, por sua vez, tem viabilidade econômica e altos incentivos do ponto de vista financeiro ”, conta o geógrafo Eraldo Matricardi, professor associado da Universidade de Brasília (UnB), que não participou do estudo , à SciDev.Net .

Com base em dados de 23 países, o estudo estima que o desmatamento na América Latina e no Caribe é responsável por 44% (33,9 milhões de hectares) de todas as perdas florestais nos trópicos, e 77% dessa perda foi devido à agricultura comercial.

Na Ásia, as perdas florestais representam 31% do total, 76% das quais causadas pelo agronegócio.

Na África, a extração de madeira é responsável por 25 por cento da perda de floresta tropical do mundo, mas o desmatamento ilegal impulsionado pela agricultura comercial é baixo no continente (10 por cento), com a maior parte da perda devido à agricultura de subsistência.

Embora algum desmatamento seja necessário por razões sociais e econômicas – atividades de subsistência, por exemplo, exigem algum desmatamento, assim como a agricultura comercial – Matricardi explica que a diferença é que o desmatamento legal segue critérios técnicos. Mas “faltam critérios para o desmatamento ilegal”, diz o especialista em mudanças no uso do solo.

De acordo com o relatório, cerca de 81% da extração de óleo de palma da Indonésia, o principal alimento básico do país, é ilegal.

No Brasil, os principais produtos agrícolas responsáveis ​​pelo desmatamento são a carne bovina e a soja. As pastagens geraram 74% e a soja, 20% da perda florestal. No México, a agricultura comercial é a causa de 68% da perda florestal, com uma combinação de grandes fazendas e campos menores para plantações e frutas

“Os produtores agrícolas precisam fazer cumprir suas leis e impedir o desmatamento ilegal, mas os consumidores internacionais também têm um papel a cumprir. Eles têm que ter certeza de que o que compram não tem relação com a perda de florestas ”

Arthur Blundell, ecologista e co-autor principal do relatório Forest Trends

Junto com a soja, o óleo de palma e os produtos da pecuária (carne e couro), outros produtos básicos, como cacau, borracha, café e milho, também são os principais responsáveis ​​pelo desmatamento ilegal.

O estudo também chama a atenção para a responsabilidade dos consumidores dos Estados Unidos, China e União Europeia (UE), principais importadores desses produtos básicos.

“Os produtores agrícolas precisam fazer cumprir suas leis e impedir o desmatamento ilegal, mas os consumidores internacionais também têm um papel a cumprir. Eles devem garantir que o que compram não está relacionado à perda de floresta. Se você está comprando algo no Brasil, por exemplo, há muitas evidências de que pode vir do desmatamento ”, diz Blundell.

Matricardi concorda que a melhor estratégia seria controlar o consumidor e explica que atualmente os países europeus estão mais atentos ao que compram. Isso se reflete nas exportações brasileiras de soja: 70% vai para a China e 13% para a UE, mas enquanto as exportações para a China estão aumentando, as importações da UE do Brasil estão diminuindo.

A ilegalidade é apresentada como o principal motor do desmatamento: a maior parte da conversão agrícola foi realizada em violação às leis e regulamentos nacionais na América Latina (88%), África (66%) e Ásia (41%). Nos 23 países analisados, o percentual de conversação agrícola ilegal varia de 37% na Malásia a 89% na Colômbia e 97% no México.

Os autores apontam que a ilegalidade é consequência dos sistemas corruptos nos países, especialmente no Brasil e na Indonésia.

No Brasil, a ilegalidade supõe “impunidade para desmatamento em reservas legais e áreas preservadas, anistia para apreensão de terras e desmatamento acelerado de proteções ambientais, desde a chegada do presidente Jair Bolsonaro ao poder”, diz o relatório. Na Indonésia, políticos corruptos usaram autorizações de concessão para melhorar suas chances nas eleições locais, e as empresas estão evitando impostos de desmatamento e outras taxas.

Olhando para o papel que o desmatamento desempenhou na mudança climática, o relatório mostra que as emissões da agroconversão ilegal respondem por mais de 2,7 gigatoneladas de CO 2 por ano, o que é mais do que as emissões da Índia de combustíveis fósseis em 2018.

“Não podemos lidar com a mudança climática a menos que abordemos o desmatamento ilegal, e não podemos lidar com o desmatamento ilegal sem abordar a alimentação comercial”, conclui Blundell.

Matricardi também alerta sobre os efeitos que as mudanças climáticas podem ter na agricultura comercial. “Existem regiões onde o clima e a redução das chuvas terão grande influência na agricultura. A irrigação será resolvida por um tempo, mas no longo prazo os efeitos serão graves. “

Um problema que os pesquisadores enfrentam é que muitos países não relatam dados sobre o desmatamento ilegal e as informações nacionais confiáveis ​​são escassas.

Link para o estudo Forest Trends

fecho

Este texto foi escrito originalmente em Espanhol e publicado pelo SciDev [Aqui].

Com o espectro do embargo no ar: corporação norueguesa da avicultura exclui soja brasileira de suas rações devido ao desmatamento da Amazônia

cover defor

  • O produtor de aves norueguês Gårdsand desenvolveu uma nova receita de ração que exclui a soja brasileira devido a preocupações com o risco de desmatamento.
  • De acordo com a Rainforest Foundation Norway, Gårdsand reformulou sua ração para aves em resposta ao aumento do desmatamento na Amazônia brasileira.
  • A ação de Gårdsand segue uma decisão no ano passado da Bremnes Seashore, produtora de salmão, de excluir a soja brasileira de sua ração para peixes, enquanto os fornecedores de soja para as empresas de aquicultura norueguesas Caramuru, Imcopa e CJ Selecta indicaram que farão o mesmo.
  • O desmatamento na Amazônia brasileira tem aumentado constantemente desde meados da década de 2010, com a maior aceleração ocorrendo desde que Jair Bolsonaro assumiu a presidência em janeiro de 2019.

gardsand chic

Gårdsand, uma grande empresa produtora de aves da Noruegadesenvolveu uma nova receita de ração que exclui a soja brasileira devido a preocupações com o risco de desmatamento.

De acordo com a Rainforest Foundation Norway, uma organização que faz campanha sobre questões florestais como o desmatamento vinculado a cadeias de suprimentos de commodities, a Gårdsand reformulou sua ração para aves em resposta ao aumento do desmatamento na Amazônia brasileira. Gårdsand agora eliminou completamente a soja de sua cadeia de suprimentos, usando outras fontes de proteína.

“Acompanhamos a situação no Brasil com crescentes preocupações nos últimos anos”, disse May Iren Varlid Aarvold, líder de marketing da Gårdsand, em um comunicado. “Os números dos incêndios florestais e do desmatamento continuam aumentando a um ritmo alarmante. Sabendo que a produção de soja é um impulsionador do desmatamento em curso, achamos que o risco de incluir esta commodity em nosso fornecimento é tão alto que excluímos totalmente a soja de nossa cadeia de fornecimento e mudamos para outras fontes de proteína. ”

Aves alimentadas com a nova receita de Gårdsand são rotuladas como “produzido sem soja – para o bem das florestas tropicais” nos supermercados “Meny” da Noruega sob a marca “Lerstang”.

mata sojaO desmatamento para plantações de soja e fazendas de gado põe em risco os habitats dos primatas da Amazônia e impede seu deslocamento para novos locais. Os rios limitam ainda mais a capacidade de movimentação de pequenos primatas. Foto de Rhett A. Butler

A ação de Gårdsand segue uma decisão no ano passado da Bremnes Seashore, produtora de salmão, de excluir a soja brasileira de sua ração para peixes, enquanto os fornecedores de soja para as empresas de aquicultura norueguesas Caramuru, Imcopa e CJ Selecta indicaram que farão o mesmo. A Noruega também está eliminando o uso de biodiesel à base de óleo de palma devido a preocupações com o desmatamento, com o consumo diminuindo de 317 milhões de litros em 2017 para 118 milhões de litros em 2019 para 2 milhões de litros em 2020.

A Rainforest Foundation Norway diz que a Amaggi, um dos maiores produtores e exportadores de soja do mundo, não se comprometeu com uma data limite de 2020 para eliminar o desmatamento de sua cadeia de abastecimento. A Amaggi é o principal fornecedor de soja para o setor agrícola norueguês, de acordo com a ONG.

“Enquanto os números do desmatamento continuam aumentando no Brasil e a indústria da soja não consegue conter a crise, o risco de estar associado à soja só vai aumentar”, disse Ida Breckan Claudi, assessora sênior da Rainforest Foundation Norway, em um comunicado.

“A nova ração sem soja da Gårdsand envia uma mensagem clara aos comerciantes de soja de que o modelo de negócios atual dos comerciantes é incompatível com as ambições de sustentabilidade das empresas. A menos que os líderes do setor Cargill, Bunge e Amaggi estabeleçam instrumentos para proteger os remanescentes de florestas nativas brasileiras da expansão da soja, eles continuarão perdendo market share, devido ao risco de desmatamento ”.

desmatamento amazonia

Desmatamento mensal alerta dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais INPE e Imazon desde 2010

O desmatamento na Amazônia brasileira tem aumentado constantemente desde meados da década de 2010, com a maior aceleração ocorrendo desde que Jair Bolsonaro assumiu a presidência em janeiro de 2019. O desmatamento nos 12 meses encerrados em 31 de julho de 2020 foi 47% maior do que dois anos antes. A soja tem o maior impacto direto no cerrado, uma floresta tropical encontrada ao sul e leste da floresta amazônica, embora a produção de soja também afete a cobertura florestal na própria floresta.

Imagem do cabeçalho: Desmatamento na Amazônia Brasileira. Crédito da foto: Rhett A. Butler

fecho

Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela Mongabay [Aqui! ].

 

Os apuros de Ricardo Salles nas mãos das autoridades ambientais dos EUA não param de crescer

20201231salles

Vivêssemos tempos normais, o ainda ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, não teria apenas sido removido do cargo, mas provavelmente encaminhado para um período de férias no presídio da Papuda. É que as recentes revelações de que um escritório de advocacia do que ele é sócio arrecadou milhões de reais de origem incerta nos tempos em que ele era secretário estadual do meio ambiente já bastaria para que sua remoção estrepitosa do cargo de ministro ocorresse. 

Mas o Brasil não vive tempos normais, e Salles continua sendo saudado pelo presidente da república como sendo “um ministro excepcional que só está sendo denunciado porque é perseguido por supostos esquerdistas que não querem que ele continua seu trabalho “excepcional” no Ministério do Meio Ambiente. E, além de saudado, Salles continua usando agentes do Estado para tentar obter acesso ilícito às investigações dos quais é alvo.

O problema para Ricardo Salles e, por extensão, para Jair Bolsonaro que o mantém no cargo até conta orientações de outros ministros do seu governo é que o ainda ministro aparentemente se tornou alvo do governo dos EUA por causa do contrabando de madeira extraída ilegalmente em diferentes estados da Amazônia (ver abaixo reportagem do Jornal Nacional de ontem).

Erro
Este vídeo não existe

O problema aqui é que a apreensão de 70 toneladas de madeira extraída de forma criminosa na Amazônia e exportadas ilegalmente para os EUA motivaram uma ação pouco usual de apreender para depois retornar a carga para o Brasil parece ser uma mensagem direta de que esse tipo de contrabando chancelado por um governo nacional não será tolerado tranquilamente pelo governo dos EUA. É que, além de ser uma carga que resultado do saque ilegal de recursos florestais que compete com a produção de madeira legal nos EUA , esse é um crime que contribui para acelerar a transformação da Amazônia em uma fonte emissora de CO2, o que contribui para a aceleração das mudanças climáticas do qual o governo Biden já disse a que veio em termos de medidas de combate.

Assim, por mais que o presidente Jair Bolsonaro esteja querendo preservar um ministro que tem sido extremamente útil na aplicação de suas políticas anti-ambientais, a lógica dita que haja mais cautela nas relações políticas e econômicas com os EUA que já mostraram no passado que não possuem qualquer escrúpulo em intervir até militarmente quando veem seus interesses estratégicos e até táticos ameaçados. Por isso, essas apreensões de madeira pelo United States Fish and Wildlife Service (uma espécie de IBAMA de lá) não deveriam ser tomadas de forma casual pelo governo brasileiro. Aliás, como se o IBAMA de lá mexe com peixe, o melhor aqui seria Jair Bolsonaro botar as barbas de molho. Há sempre o risco, guardadas as devidas proporções, de que tenhamos um novo “Manuel Noriega” que ficou preso 20 anos em uma prisão estadunidense por achar que ninguém no governo nos EUA iria se incomodar com suas atividades comerciais.

Estripulias com comércio ilegal de madeira que colocaram Ricardo Salles no alvo da PF foram comunicadas pelos EUA

Ministro do Meio Ambiente e presidente do Ibama são investigados enquanto país tenta se livrar da imagem de “vilão ambiental” e se aproximar do Governo Biden. “Infelizmente quem quiser saber sobre a questão ambiental precisa abrir as páginas policiais”, critica secretário-executivo do Observatório do Clima

salles 1Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, em evento em Brasília neste 19 de maio. JOÉDSON ALVES / EFE

Por Diogo Magri para o El País

Nunca antes na história um ministro do Meio Ambiente brasileiro foi investigado por supostas violações ambientais. O ineditismo foi quebrado nesta quarta-feira, quando Ricardo Salles apareceu entre os investigados da Polícia Federal sob acusação de envolvimento num “grave esquema de facilitação ao contrabando de produtos florestais”. As 35 ordens de busca e apreensão que vasculharam propriedades de Salles e servidores apontados por ele para a pasta aconteceram em São Paulo, no Distrito Federal e no Pará e vem num péssimo momento para o fiel integrante do gabinete Jair Bolsonaro. Enquanto o Governo brasileiro tenta se livrar da imagem de “vilão ambiental” e se aproximar do Governo Joe Biden, foram justamente autoridades norte-americanas que ajudaram a deflagrar a operação da PF, ao denunciar irregularidades em carregamentos de madeira exportados para os Estados Unidos.

O objetivo da Operação Akuanduba, segundo a PF, é apurar crimes de corrupção, advocacia administrativa, prevaricação e facilitação de contrabando por meio da exportação ilegal de madeira que teriam sido cometidos por agentes públicos e empresários do ramo madeireiro. Além de Salles, estão entre os investigados 10 funcionários do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Ministério do Meio Ambiente, que foram nomeados pelo ministro e afastados de seus cargos —entre eles o presidente do Ibama, Eduardo

A investigação de Salles, que tem foro privilegiado por ser ministro, foi autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, um desafeto do bolsonarismo. Além das buscas, apreensões e afastamentos, Moraes determinou “a suspensão imediata”de uma despacho, editado no ano passado, que permitia a exportação de produtos florestais sem a necessidade da emissão de autorizações, e a quebra de sigilo bancário e fiscal de Salles e outros investigados. A justificativa da decisão leva em conta “os depoimentos, os documentos e os dados que sinalizam para a existência” do esquema de contrabando.

“A situação que se apresenta é de grave esquema criminoso de caráter transnacional. Esta empreitada criminosa não apenas realiza o patrocínio do interesse privado de madeireiros e exportadores em prejuízo do interesse público (…) mas, também, tem criado sérios obstáculos à ação fiscalizatória do poder público no trato das questões ambientais com inegáveis prejuízos a toda a sociedade”, afirma a PF, em trecho reproduzido na decisão de Moraes. O mesmo documento cita a frase dita por Ricardo Salles em reunião ministerial, que se tornou pública no fim de maio do ano passado, onde ele afirmou que a pandemia do coronavírus era uma “oportunidade” para “ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas [ambientais] (…) de baciada. Tem um monte de coisa que é só parecer, caneta, parecer, caneta”.

“O referido modus operandi (’parecer, caneta’) teria sido aplicado na questão das exportações ilícitas de produtos florestais”, descreve a decisão. Segundo explica o documento, o papel de Salles no esquema criminoso foi evidenciado após a apreensão nos Estados Unidos de madeira ilegal exportada do Pará pelas empresas Ebata Produtos Florestais Ltda. e Tradelink Madeiras Ltda. Por conta da apreensão, a Associação Brasileira das Empresas Concessionárias Florestais (Confloresta) e a Associação das Indústrias Exportadoras de Madeira no Pará (Aimex) procuraram Walter Mendes Magalhães, superintendente do Ibama no Pará, e Rafael Freire de Macedo, diretor de Uso Sustentável da Biodiversidade e Florestas do Instituto —ambos nomeados e promovidos por Ricardo Salles— para “resolver a situação”. Ambos teriam emitido certidões e ofício “claramente sem valor” para liberar a exportação. “O que se viu na prática foi a elaboração de um parecer por servidores de confiança [do ministro Salles], em total descompasso com a legalidade”, afirma o texto de Moraes.

As autoridades norte-americanas não aceitaram os pareceres e fizeram a denúncia à Justiça brasileira, o que motivou o início das investigações em janeiro de 2021 e culminou nos mandados desta quarta (19). Os indícios da participação do ministro no contrabando foram reforçados pelo depoimento de outro servidor do Ibama, Hugo Leonardo Mota Ferreira, à Polícia Federal. O depoente, que atua no Instituto desde 2015, destacou a participação Leopoldo Penteado Butkiewicz, assessor especial de Salles, dizendo que “nunca tinha visto um assessor direto do Ministro do Meio Ambiente atuar de forma direta no Ibama (…) tendo por diversas vezes dado ordens diretamente [a Ferreira] e intercedido em favor de autuados”.

Assim que soube da operação, Ricardo Salles compareceu na sede da Polícia Federal em Brasília, por volta das 8h (horário de Brasília), com um assessor armado (que seria militar da reserva e atuaria como segurança do ministro) e cobrando explicações sobre o inquérito ao superintendente. Poucas horas depois, o ministro participou da abertura de um evento sobre desenvolvimento sustentável da indústria em Brasília e classificou operação como “exagerada” e “desnecessária”. “O Ministério do Meio Ambiente, desde o início desta gestão, atua sempre com bom senso, respeito às leis, respeito ao devido processo legal”, prometeu. Também disse que o inquérito induziu Alexandre de Moraes “a dar impressão de que teria havido possivelmente uma ação concatenada de agentes do Ibama e do Ministério do Meio Ambiente para favorecer ou para fazer destravamento indevido do que quer que seja. Essas ações jamais, repito, jamais aconteceram”.

No mesmo evento, Salles disse que explicou ao presidente Jair Bolsonaro que “não há substância em nenhuma das acusações” e que “o assunto pode ser esclarecido com muita rapidez”. Com as atenções voltadas ao depoimento de Pazuello na CPI da Pandemia, nenhum membro do Governo federal se manifestou em suas redes sociais sobre a investigação da Polícia Federal, nem sequer Salles. Somente o filho do presidente e deputado federal, Eduardo Bolsonaro, publicou em seu Twitter que Ricardo Salles “é o melhor ministro do Meio Ambiente da história deste país”.

fecho

Este artigo foi inicialmente publicado pelo jornal “El País” [Aqui!].

Devastação desenfreada: Amazônia sofre maior nível de desmatamento em abril dentro de uma década, e degradação florestal também avança

deforestation

O desmatamento da Amazônia no último mês de abril foi de 778 km², o maior valor para o mês registrado nos últimos dez anos, segundo dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

O índice é 45% maior que o desmatamento registrado em abril de 2020. Em março, também foi registrado um recorde histórico, quando o Imazon constatou 810 km² de floresta devastada.

Os estados com maior área desmatada são: 

  • Amazonas – 28%
  • Pará – 26%
  • Mato Grosso – 22%
  • Rondônia -16%
  • Roraima -5%
  • Maranhão – 2%
  • Acre 1%

“Em Lábrea e Apuí, no Amazonas, municípios que lideram o ranking dos 10 que mais desmataram, houve perda de 126 km² de floresta, o que representa quase 60% de todo o desmatamento do Estado detectado em abril”, diz o Imazon.

Degradação florestal

Os dados do Imazon apontam ainda o total de “degradação florestalna Amazônia Legal, que somaram 99 km² em abril, o que representa um aumento de 60% em relação ao mesmo mês no ano passado, quando a degradação detectada foi de 62 km². O estado do Mato Grosso concentra 75% da área de floresta degradada, seguido pelo Pará (24%) e Roraima (1%).

“O Imazon classifica o desmatamento como o processo de realização do corte raso, que é a remoção completa da vegetação florestal. Na maioria das vezes, essa floresta é convertida em áreas de pasto. Já a degradação é caracterizada pela extração das árvores, normalmente para fins de comercialização da madeira”, explica o instituto.

Com informações do G1.

Universidade de Oxford promove webinário para discutir as crises climática e da COVID-19 no Brasil sob o governo Bolsonaro

wp-1621012733629.jpg

Em 2020, o Brasil registrou o maior nível de desmatamento na Amazônia em 12 anos. Esse aumento preocupante está relacionado ao desmantelamento de importantes políticas e regulamentações ambientais, à redução ou congelamento de recursos para a proteção das florestas e de suas populações tradicionais, e às propostas de legalização da ocupação privada de terras públicas.

O país está agora sob pressão crescente devido à Covid-19, que causou o pior colapso do sistema de saúde da história brasileira  A pandemia da COVID-19 já causou mais de 400.000 mortes de brasileiros, o segundo maior número de mortes causadas pela pandemia no mundo.

O Brasil também enfrenta crises econômicas e de fome. Um estudo lançado recentemente constatou que mais da metade da população vive com algum nível de insegurança alimentar.

Junte-se a nós neste webinar de uma hora e meia para discutir como os brasileiros foram profundamente afetados por este momento catastrófico e conecte-se com o trabalho e as reflexões de organizações ambientais e escritores no Reino Unido.

banner
Palestrantes:
– Adriana Ramos, Coordenadora de Políticas e Leis do Instituto Socioambiental (ISA), membro coordenador do Observatório do Clima
– Douglas Belchior, professor de História, fundador da Uneafro Brasil, membro da Coalizão Negra pelos Direitos do Brasil e do Fundo Brasil de Direitos Humanos
– Eliane Brum, jornalista, escritor e documentarista brasileiro, colunista do El País
– Erika Berenguer, Pesquisadora Associada Sênior do The Environmental Change Institute, membro da Amazon Brazilian the Sustainable Amazon Network
– Jay Griffiths, escritor britânico premiado, autor de ‘Wild, an Elemental Journey’, ‘Kith: The Riddle of the Childscape’, e agora lançando ‘Why Rebel?’
– Niki Mardas, Diretora Executiva da Global Canopy
– Sonia Guajajara, líder indígena brasileira, coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB)

Mediada por Jonathan Watts, Editor de Meio Ambiente Global da Guardian. Hospedado pela Global Canopy e pelo Oxford Centre for Tropical Forests.

Haverá interpretação ao vivo para inglês e português.

Os interessados em se increver neste evento, podem clicar [Aqui!].

Grilagem em florestas públicas responde por um terço do desmatamento na Amazônia

defore1

Brasília, 13 de maio de 2021 – Um novo estudo do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) mostra que a invasão de florestas públicas não destinadas impulsiona o desmatamento ilegal e as queimadas na região. No primeiro trimestre de 2021, um terço da derrubada registrada na Amazônia aconteceu nessas áreas, segundo dados do sistema Deter.

Um dos indícios da grilagem é o aumento do Cadastro Ambiental Rural (CAR) sobre essas florestas: a área pública declarada como imóvel rural particular aumentou 232% desde 2016, chegando a 18,6 milhões de hectares em 2020. É mais que três vezes o território do Distrito Federal e 32% de todas as florestas públicas não destinadas na Amazônia.

No primeiro trimestre de 2020, 75% do desmatamento registrado nessas áreas aconteceu onde existe CAR; em 2021, o índice foi para 79%. A quantidade de focos de calor também é superior, 2,2 vezes maior, nos terrenos declarados irregularmente como propriedade particular.

Os números reforçam a conexão entre invasão por particulares e derrubada da floresta. “Como o CAR é um registro eletrônico e autodeclarado, é frequentemente usado para simular uma titularidade da terra que não existe na realidade”, explica o pesquisador sênior do IPAM, Paulo Moutinho. “É uma grilagem institucionalizada, que usa sistemas oficiais para legitimar a invasão de um patrimônio natural coletivo e que deveria ser preservado.”

Ilegalidade

As florestas públicas não destinadas da Amazônia somam 57,5 milhões de hectares, uma área maior do que o território da Espanha e 14% do bioma. Espalhadas na região, elas são patrimônio público e deveriam ser designadas para conservação ou uso sustentável, como regra uma lei desde 2006. O atraso nesta destinação abre caminho para a grilagem.

A maior parte das florestas estão sob responsabilidade estadual (56%). Contudo, é naquelas de domínio federal que a grilagem mais avança, com 73% dos cadastros irregulares, ou 13,6 milhões de ha, em 2020, e 93% do desmatamento registrado no mesmo ano.

“O combate ao desmatamento ilegal na Amazônia começa nas florestas públicas. É preciso avaliar e cancelar imediatamente o CAR nessas áreas, sem prejudicar as comunidades tradicionais”, diz a diretora de Ciência do IPAM, Ane Alencar, principal autora do estudo.

O projeto de lei 510/2021, sobre regularização fundiária, atualmente em discussão no Senado, pode ter impacto direto sobre a situação dessas florestas. Se aprovado, ele pode anistiar ocupações realizadas até 2014, mas principalmente dar a indicação de que a grilagem vale a pena. “De tempos em tempos, as leis no Brasil são reformadas para acomodar irregularidades passadas. Esse é o tipo de incentivo positivo que a grilagem entende, e que precisamos combater”, afirma Moutinho. “Os impactos do desmatamento e do fogo para o clima são terríveis, assim como a redução de chuvas para o agronegócio. É hora de tratar as florestas como ativos, que precisam ser conservados.”

Com a precarização do licenciamento ambiental, Brasil abre caminho para mais desastres e violência

batatas

Ao aprovar por esmagadora maioria uma lei que fragiliza enormemente o processo de licenciamento ambiental ao isentar, por exemplo, e licenciamento ambiental sistemas e estações de tratamento de água e de esgoto e usinas de triagem de resíduos sólidos, além de pecuária extensiva, semi-intensiva e intensiva de pequeno porte e cultivos agrícolas, a Câmara Federal também declarou guerra aos povos indígenas e quilombolas que agora terão suas terras ainda mais acossadas por uma série de atores que veem nas suas terras preservadas como um obstáculo à predação desenfreada da natureza no Brasil.

Curiosamente, esse projeto anti-ambiental começou a tramitar tendo como autor o deputado federal Luciano Zica (PT/SP) e teve sua costura final realizada pelo deputado Neri Geller (PP-MT), ex-ministro da Agricultura no governo de
Dilma Rousseff (PT).  Assim, ainda que se fale que a passagem desse projeto de destruição ambiental foi operada com inaudita maestria por Arthur Lyra (PP/AL), as digitais petistas estão presentes nessa verdadeira declaração de guerra ao meio ambiente e às comunidades que o defendem enquanto forma de preservação suas formas peculiares de produção e reprodução social.

Um dos detalhes mais vexaminosos dessa aprovação é que essa fragilização ocorre na esteira de dois grandes desastres ambientais causadas pela mineração de ferro em Minas Gerais (i.e., Mariana e Brumadinho), estado que hoje vive a antessala de novos mega desastres ambientais causados pela forma relaxada com que o processo de licenciamento ambiental tem sido aplicado pelo governo estadual daquele estado, em clara combinação com o governo federal, independente de quem seja o presidente.

A ideia de que o processo de licenciamento ambiental é uma barreira ao processo de desenvolvimento econômico reflete apenas uma forma primitiva de retirar recursos dos sistemas naturais. Já está mais do que demonstrado que o que se precisa mesmo é de sistemas de proteção ambiental que tenham processos técnicos rígidos para impedir que atividades poluidoras causem prejuízos sociais e ambientais maiores do que a renda que eventualmente os empreendimentos aprovados possam gerar. 

Um bom exemplo local, e que eu tive o desprazer de olhar “in loco” como tem sido realizado o licenciamento ambiental do Porto do Açu, que teve e continua tendo um processo de avaliação de impactos altamente fracionado e com praticamente qualquer salvaguarda para sequer monitorar os danos ambientais que estão ocorrendo no V Distrito de São João da Barra. A simples ideia de que vários dos componentes ainda em fase de planejamento sendo dispensados de licenciamento torna o Porto do Açu em uma espécie de bomba relógio que irá explodir bem longe dos especuladores financeiros que controlam o fundo de “private equity” que controla a Prumo Logística, o chamado EIG Global Partners cuja sede se localiza em escritórios para lá de confortáveis em Washington DC.  Este conforto que é negado a centenas de famílias de agricultores familiares que não só tiveram suas terras tomadas, como hoje tem que conviver com a salinização de suas águas.

Um fato que os deputados federais e os grupos que impulsionaram este ataque frontal à regulação ambiental é de que a maioria das grandes corporações hoje é obrigada a responder a sistemas internas de governança que impedem o seu envolvimento direto em projetos que degradem o ambiente.  Assim, restará para o Brasil depender de empresas que não possuem estes sistemas  e que por isso tendem ter menos freios para os danos ambientais que suas atividades causa. Além disso, a passada de boiada ambiental significará o aumento dos conflitos sociais nas áreas mais sensíveis ecologicamente para onde se quer levar o gado e a soja. Tudo isso somente aumentará o isolamento político e econômico do Brasil. Mas por hoje que se repita o que dizia o personagem Quincas Borba do livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis “Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas“.

Bolsonaro transformou a Amazônia em ‘parque de diversões para criminosos’, diz ambientalista

O desmatamento da Amazônia segue batendo recordes e coloca o Brasil sob pressão internacional e risco de perdas econômicas substantivas. Para discutir o assunto, a Sputnik Brasil conversou com o secretário-executivo do Observatório do Clima, que alertou que criminosos agem à vontade na Amazônia atualmente

bolso salles 1

Por Solon Neto para a Sputnik News

O desmatamento da Amazônia segue batendo recordes e coloca o Brasil sob pressão internacional e risco de perdas econômicas substantivas. Para discutir o assunto, a Sputnik Brasil conversou com o secretário-executivo do Observatório do Clima, que alertou que criminosos agem à vontade na Amazônia atualmente.

Na sexta-feira (7), dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) mostraram que o Brasil bateu o recorde de alerta de desmatamento na Amazônia em abril deste ano, com o pior resultado para o mês desde 2016. No total, a área sob alerta de desmatamento na região foi estimada em 581 km² pelo Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter) do INPE. Somente em abril, ao menos 58 mil hectares de floresta foram desmatados, um aumento de 43% em relação ao mesmo mês de 2020.

O quadro foi divulgado poucas semanas após o presidente brasileiro Jair Bolsonaro assumir compromissos de redução do desmatamento diante do mundo na Cúpula do Clima. Durante a conferência, Bolsonaro afirmou que o Brasil acabará o desmatamento ilegal até 2030.

Desde o início do atual governo, os números do desmatamento no Brasil têm gerado crescentes pressões internacionais. Recententemente, o governo dos Estados Unidos tem exercido esse papel, sendo que Washington exigiu de Bolsonaro a apresentação de uma postura mais ativa no combate ao crime ambiental durante a Cúpula do Clima. A postura ambiental do atual governo brasileiro também já recebeu reprimendas de diversos países europeus.

Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, explica que o aumento do desmatamento no Brasil gera uma série de problemas sérios não só para o meio ambiente, como também para economia brasileira.

“São muitos os impactos do desmatamento para o setor do agronegócio brasileiro. Existem impactos de curto e impactos de médio prazo. Entre os impactos de curto prazo a gente pode citar nitidamente o impacto da imagem negativa que o desmatamento provoca para o Brasil e, consequentemente, para os produtos brasileiros, principalmente aqueles que são produzidos na Amazônia. Ninguém, no mundo inteiro, quer consumir produtos derivados do desmatamento”, afirma Astrini em entrevista à Sputnik Brasil.

Um exemplo da consequência pontada por Astrini ocorreu no início de maio, quando um grupo de cerca de 40 empresas britânicas do setor alimentício divulgou uma carta aberta ameaçando boicotar a compra de produtos brasileiros caso o projeto de lei 510/2020 seja aprovado, alegando que a legislação incentiva o avanço sobre a Amazônia. O projeto, que conta com apoio do governo Bolsonaro, abre caminho para que áreas desmatadas possam passar para a posse de desmatadores.O ambientalista Marcio Astrini ressalta que esse tipo de pressão internacional pela preservação do meio ambiente no Brasil não é novidade e lembra da introdução da moratória da soja no início dos anos 2000 como exemplo de políticas anteriores que refletiram movimentações externas. A moratória da soja proíbe a compra de soja proveniente de áreas desmatadas.

“Cada vez, portanto, que o desmatamento aumenta no Brasil, aumenta essa desconfiança, a insegurança de compradores internacionais, e isso acaba prejudicando os negócios brasileiros ou colocando para alguns produtos, principalmente do Brasil, uma pressão ainda maior para que eles sejam comercializados mundo afora”, explica, lembrando que o país já sofreu boicotes internacionais ligados ao desmatamento e também ameaças de retirada de investimentos.

Astrini aponta que, além do impacto comercial, a degradação ambiental também pode trazer prejuízos econômicos diretos para atividades agropecuárias brasileiras, que aparentemente se beneficiam do desmatamento. Um estudo divulgado na revista Nature nesta segunda-feira (10), aponta que o desmatamento no Brasil pode custar US$ 5,7 bilhões (cerca de R$ 30 bilhões) anualmente ao país devido ao impacto na produção agrícola.

“Existe um impacto de médio prazo que é um impacto mais sustentado, provocado pelo desmatamento da Amazônia, que é a alteração dos padrões climáticos do Brasil e dos serviços essenciais que a floresta amazônica presta para toda agricultura nacional. Existem muitas regiões do Brasil em que grande, ou quase que a totalidade das chuvas que irrigam as produções brasileiras, advém diretamente da Amazônia”, aponta.

Área desmatada na Amazônia.Área desmatada na Amazônia. © REUTERS / Ueslei Marcelino

A mudança no padrão climático, explica o ambientalista, pode provocar secas mais prolongadas, alterando o regime das chuvas que irrigam plantações e abastecem reservatórios em todo o país. Dessa forma, o impacto sobre a produção é agrícola pode se estender a longo prazo.

Na contramão do mundo

A manutenção do desmatamento no Brasil, destaca Astrini, coloca o país em rota de colisão com a política climática de grandes potências, tais como a China, os Estados Unidos e também países da Europa, cujas agendas, hoje, incluem a proteção do meio ambiente.

“Obviamente que a Amazônia faz parte de uma preocupação global nesse tema de mudanças climáticas, afinal de contas a Amazônia retém um estoque de carbono, ela retém nas suas árvores, no seu solo, o equivalente a oito anos de todas as emissões globais de gases de efeito estufa. Então, aquilo é um verdadeiro estoque, uma bomba de carbono estocada na Amazônia. Se o desmatamento continuar avançando esse carbono todo que existe estocado na Amazônia vai sendo liberado para a atmosfera”, aponta.

O secretário-executivo do Observatório do Clima alerta que o desmatamento agressivo, como o detectado pelo INPE em abril na Amazônia, pode mover a floresta na direção de um colapso, colocando em risco os esforços globais contra o aquecimento global.

Presidente Jair Bolsonaro e membros do governo federal ouvindo a fala do líder norte-americano Joe Biden durante a Cúpula do Clima, 22 de abril de 2021Presidente Jair Bolsonaro e membros do governo federal ouvindo a fala do líder norte-americano Joe Biden durante a Cúpula do Clima, 22 de abril de 2021. © AFP 2021 / Marcos Correa/Presidência do Brasil

Astrini lembra que o Brasil “coleciona problemas” em diversas questões como decorrência da má gestão ambiental. Um deles está atrelado à submissão do pedido de entrada na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que entre outros pontos, requer uma política ambiental adequada. Outro prejuízo da atual política ambiental, lembra Astrini, é em relação ao acordo entre Mercosul e União Europeia (UE) que envolve bilhões de euros.

“Talvez o caso mais claro de impacto econômico, impacto na relação diplomática e comercial do Brasil, esteja no tratado Mercosul-União Europeia, um tratado que teve a sua assinatura política realizada há cerca de um ano e meio atrás e que de lá para cá ficou esperando um gesto, um gesto positivo, a entrega de resultados por parte do governo brasileiro de diminuição do desmatamento da Amazônia e de uma melhoria da governança ambiental no Brasil. Nunca foi apresentado pelo atual governo brasileiro nenhum resultado e nenhuma ação concreta, ou medida satisfatória, nesse sentido de melhorar a forma como o Brasil trata o meio ambiente”, aponta.

Governo Bolsonaro protege quem desmata

Há diversas especulações sobre as razões que levam o governo do presidente brasileiro Jair Bolsonaro a manter a política ambiental mesmo em meio aos prejuízos iminentes desta prática e às pressões internacionais. Para Astrini, o governo simplesmente não tem interesse em barrar o desmatamento.

“Eu diria que o principal é que o governo não quer. O governo Bolsonaro realmente não adota uma postura de governo que esteja interessado em combater o crime ambiental – que é o principal causador hoje que nós temos do desmatamento da Amazônia – e tomar medidas efetivas para proteger a floresta e para tratar o crime ambiental de forma severa e com o rigor da lei”, avalia.

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, participam da Cúpula do Clima virtual por meio de um link de vídeo em Brasília, Brasil, em 22 de abril de 2021.

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, participam da Cúpula do Clima virtual por meio de um link de vídeo em Brasília, Brasil, em 22 de abril de 2021. © Reuters/ Marcos Correa/Presidência do Brasil

Para o ambientalista, o governo atual, ao invés de impedir o desmatamento, está incentivando essa prática.

“O governo [Bolsonaro], muito pelo contrário, em muitas, ou na grande maioria das medidas que tomou até hoje, toma medidas para facilitar o crime ambiental na Amazônia. É um governo que congelou as multas ambientais, é um governo que diminuiu a capacidade do Estado brasileiro de combater o crime [ambiental], cancelando operações de campo, diminuindo muito o orçamento das agências de fiscalização do desmatamento da Amazônia, tomou medidas em favor de madeireiros ilegais, em favor de grileiros de terras, em favor de invasores de terras públicas”, afirma, acrescentando nesse rol entra ainda a simpatia do governo com o garimpo ilegal na região amazônica.

Astrini também recorda que há relatos de que a atual política ambiental do governo Bolsonaro persegue servidores interessados em combater o desmatamento.

“Nós temos uma série de depoimentos de pessoas que trabalham na fiscalização ambiental no Brasil dizendo que elas são perseguidas e intimidadas pelo atual governo. Há alguns dias atrás, inclusive, os servidores públicos que praticam fiscalização no Brasil acusaram o governo de tentar implementar medidas que praticamente inviabilizam a fiscalização ambiental no país”, aponta.

Criminosos atuam à vontade na Amazônia

O representante do Observatório do Clima lembra que o governo federal tem capacidade financeira e técnica à disposição para executar amplas ações de combate ao desmatamento, mas escolhe “proteger quem desmata”.

“Então, existem uma série de medidas, uma série de ações do próprio governo que vão no sentido de proteger quem desmata e não de proteger a floresta. Exatamente por isso, o crime se sente extremamente à vontade e vê, em ações e em palavras, que o governo não vai tomar nenhuma iniciativa, assim como não tomou até agora, no sentido de coibir esse crime ambiental. Hoje, na verdade, a Amazônia se transformou em um verdadeiro parque de diversões para criminosos do meio ambiente, eles atuam de forma muito à vontade”, aponta.

Carregamento de madeira extraída da Amazônia transportado em quatro embarcações sendo apreendido pela Operação Verde Brasil 2, das Forças Armadas brasileiras, no estado do Pará

Carregamento de madeira extraída da Amazônia transportado em quatro embarcações sendo apreendido pela Operação Verde Brasil 2, das Forças Armadas brasileiras, no estado do Pará. © Foto/Divulgação/Ministério da Defesa

Astrini afirma que o Brasil tem pelo menos três bilhões de reais parados no Fundo Amazônia que não são empregados pelo governo de forma deliberada. Dessa forma, na opinião do ambientalista, o que impede o aumento do combate ao desmatamento no Brasil é o governo.

“O que falta no Brasil não é nem conhecimento de como se diminuir o desmatamento, mesmo porque o Brasil já fez isso alguns anos atrás. Entre os anos de 2004 e 2012, o desmatamento na Amazônia caiu na casa de 80%. Portanto, nós sabemos que não é um problema de dinheiro – o dinheiro está depositado no Fundo Amazônia. É realmente um problema de governo, o que nos falta é vontade e o que falta é compromisso da atual gestão pública no Brasil do governo federal em atacar o problema e reduzir o desmatamento da Amazônia”, conclui.

fecho

Este texto foi originalmente publicado pela agência Sputnik News [ Aqui! ].