Circulação de águas do Atlântico pode enfraquecer de modo inédito até 2100 e impactar chuva na Amazônia

Combinando dados de pesquisa de campo com projeções de modelos climáticos, estudo reconstituiu a atividade da Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico – um dos principais motores do clima terrestre – ao longo de todo o Holoceno. Cenários projetados para o futuro não têm precedentes nos últimos 6.500 anos

Equipe reuniu cientistas da Alemanha, da Suíça e do Brasil: efeitos mais graves podem ocorrer no norte da Amazônia, com redução drástica do regime de chuvas (imagem: CEN/Universität Hamburg)

Por José Tadeu Arantes | Agência FAPESP  

A Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico – conhecida pela sigla em inglês Amoc (Atlantic Meridional Overturning Circulation) – é um dos principais “motores” do clima terrestre. Ela funciona como uma esteira oceânica que transporta calor e nutrientes, conectando águas superficiais da porção tropical com águas profundas da região norte. Alterações nesse sistema sempre estiveram associadas a mudanças abruptas do clima global, como as que marcaram a última era glacial.

Um novo estudo mostra que, nos últimos 6.500 anos, a Amoc se manteve estável, após um período de oscilações durante o início do Holoceno. Mas que essa estabilidade se encontra agora ameaçada. Combinando dados de pesquisa de campo com projeções dos melhores modelos climáticos, o trabalho indica que as mudanças causadas pela ação humana podem levar a um enfraquecimento da circulação sem precedentes no período recente da história da Terra. O norte da Amazônia, justamente a parte mais preservada da floresta, pode ser fortemente afetado, com uma drástica redução do regime de chuvas.

Os resultados foram publicados no periódico Nature Communications.

A equipe internacional que realizou o estudo reuniu cientistas da Alemanha, da Suíça e do Brasil. Utilizando testemunhos de sedimentos marinhos coletados em diferentes pontos do Atlântico Norte e análises de elementos radioativos – tório-230 e protactínio-231 –, os pesquisadores reconstruíram quantitativamente a intensidade da Amoc ao longo de todo o Holoceno – os últimos 12 mil anos.

“Esses elementos radioativos são produzidos de forma constante na coluna d’água a partir do urânio. Como o tório se fixa rapidamente em partículas, enquanto o protactínio permanece mais tempo em circulação, a razão protactínio-tório registrada nos sedimentos fornece um ‘proxy’ da intensidade da circulação oceânica. Valores mais altos indicam enfraquecimento, e valores mais baixos, intensificação”, explica Cristiano Mazur Chiessi, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) e coautor do estudo.


Representação esquemática da Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico (seta em azul claro e vermelho), que transporta, perto da superfície, águas quentes do sul para o norte; e, em profundidades intermediárias, águas frias do norte para o sul. O desenho também mostra uma outra célula (seta em azul escuro), que transporta águas em grande profundidade (imagem: croqui de Cristiano Mazur Chiessi a partir de informações de Voigt et al., 2017)

Para transformar os dados de campo da razão protactínio-tório em valores de fluxo de água, a equipe utilizou o Bern3D, um modelo do sistema terrestre desenvolvido na Universidade de Berna, na Suíça, que simula oceanos, atmosfera e ciclos biogeoquímicos, permitindo converter registros de sedimentos em estimativas quantitativas da circulação oceânica. Isso permitiu estimar a intensidade da circulação em Sverdrups (Sv) – 1 Sv equivalente a 1 bilhão de litros por segundo.

Os resultados mostraram que, após o fim da última glaciação, a Amoc levou cerca de 2 mil anos para se recuperar do estado enfraquecido. Entre 9,2 mil e 8 mil anos atrás, sofreu novo declínio, associado ao aporte de água doce no Atlântico Norte decorrente do derretimento de geleiras e lagos glaciais, como o Lago Agassiz, no Canadá e nos EUA. Esse período incluiu o chamado “evento 8,2 ka”, registrado em testemunhos de gelo da Groenlândia como um dos episódios de resfriamento mais intensos do Holoceno. A partir de 6,5 mil anos atrás, no entanto, a circulação se estabilizou em torno de 18 Sv. E manteve essa intensidade até o presente.

“Reconstituímos o avanço das águas profundas do Atlântico Norte rumo ao Atlântico Sul ao longo de 11.500 anos. E, nos últimos 6.500 anos, não detectamos nenhuma oscilação maior, minimamente próxima daquilo que está projetado para 2100”, afirma Chiessi. “O cenário futuro é muito preocupante. E deve ser levado a sério tanto pelos governos quanto pela sociedade civil, incluída a comunidade científica.”

Segundo o pesquisador, o enfraquecimento projetado vai causar mudanças nas chuvas de todo o cinturão tropical do planeta, especialmente na América do Sul e na África, mas também afetando o sistema de monções da Índia e do Sudeste Asiático.

Impacto sobre a Amazônia

Um dos impactos mais importantes deverá ocorrer na Amazônia. “Projetamos uma marcante diminuição das chuvas no norte da Amazônia, justamente a região mais preservada da floresta. Esse efeito poderá ocorrer porque as chuvas equatoriais tenderão a se deslocar para o sul com o enfraquecimento da circulação do Atlântico. Com isso, o norte da Amazônia, abrangendo áreas do Brasil, da Colômbia, da Venezuela e das Guianas, poderá enfrentar reduções significativas na pluviosidade”, projeta Chiessi.

O pesquisador enfatiza que a gravidade desse cenário é ainda maior porque se trata da porção mais preservada da floresta. Diferentemente do sul e do leste amazônicos, onde o desmatamento e a degradação já avançaram fortemente, o norte tem funcionado como um “porto seguro” de biodiversidade. “É justamente nessa região, até agora menos impactada, que a mudança climática poderá impor uma vulnerabilidade nova e dramática”, observa.


Coleta de coluna sedimentar do fundo do Mar de Labrador, no Atlântico Norte, entre o Canadá e a Groenlândia. A coluna sedimentar coletada nesse local serviu como base para o artigo científico (foto: Stefan Mulitza)

Estudo anterior, publicado em 2024 por Thomas Kenji Akabane e colaboradores, entre eles o próprio Chiessi, já havia alertado para essa possibilidade. Por meio de registros de pólen e carvão microscópico em sedimentos marinhos, os cientistas mostraram nesse trabalho que enfraquecimentos passados da Amoc levaram à expansão de vegetação sazonal em detrimento das florestas úmidas do norte amazônico. E os modelos indicam que um enfraquecimento semelhante no futuro produziria impactos ainda maiores, uma vez que seriam agravados pelo desmatamento e pelas queimadas em outras partes da bacia.

Ponto de não retorno?O arrefecimento da Amoc poderá configurar um ponto de não retorno no sistema climático global. Se confirmadas as projeções, ocorrerá uma ruptura sem precedentes na circulação oceânica que sustenta o equilíbrio do clima do planeta. Há consenso entre os pesquisadores especializados de que o enfraquecimento constitui uma clara tendência. Mas os dados ainda não permitem saber se já está ocorrendo ou não. “Os monitoramentos diretos começaram apenas em 2004 e o oceano responde mais lentamente do que a atmosfera. Por isso, os registros são ainda insuficientes para uma resposta conclusiva. Porém, apesar dessa incerteza, a urgência de agir é inegociável. Ainda existe tempo, mas nossas ações precisam ser robustas, rápidas e conectadas, envolvendo governos e sociedade civil”, alerta Chiessi.

Como já foi dito em evento realizado na FAPESP, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), que ocorrerá em novembro deste ano em Belém, no Pará, constitui uma janela de oportunidade que não pode ser desperdiçada (leia mais em: agencia.fapesp.br/54611 e agencia.fapesp.br/55727).

Os dois estudos contaram com apoio da FAPESP por meio dos projetos 18/15123-419/19948-0 21/13129-8.

O artigo Low variability of the Atlantic Meridional Overturning Circulation throughout the Holocene pode ser lido em: www.nature.com/articles/s41467-025-61793-z.


Fonte: Agência Fapesp

Estudo conclui que colapso da AMOC não é mais de baixa probabilidade

Cientistas dizem que descoberta ‘chocante’ mostra que cortes rápidos nas emissões de carbono são necessários para evitar consequências catastróficas

Um oceano agitado

Novas modelagens sugerem que o ponto crítico que torna inevitável o fechamento da AMOC provavelmente será ultrapassado em poucas décadas. Fotografia: Henrik Egede-Lassen/Zoomedia/PA 

Damian Carrington Editor de meio ambiente, para o The Guardian

O colapso de uma corrente crítica do Atlântico não pode mais ser considerado um evento de baixa probabilidade, concluiu um estudo, tornando cortes profundos nas emissões de combustíveis fósseis ainda mais urgentes para evitar o impacto catastrófico.

A circulação meridional de reviravolta do Atlântico (Amoc) é uma parte importante do sistema climático global. Ela traz água tropical aquecida pelo sol para a Europa e o Ártico, onde esfria e afunda, formando uma corrente de retorno profunda. Já se sabia que a Amoc estava em seu nível mais fraco em 1.600 anos, como resultado da crise climática.

Modelos climáticos indicaram recentemente que um colapso antes de 2100 era improvável, mas a nova análise examinou modelos que foram executados por mais tempo, até 2300 e 2500. Eles mostram que o ponto crítico que torna o desligamento da Amoc inevitável provavelmente será ultrapassado dentro de algumas décadas, mas que o colapso em si pode não acontecer até 50 a 100 anos depois.

A pesquisa constatou que, se as emissões de carbono continuassem a aumentar, 70% das execuções do modelo levariam ao colapso, enquanto um nível intermediário de emissões resultaria em colapso em 37% dos modelos. Mesmo no caso de baixas emissões futuras, o desligamento da Amoc ocorreu em 25% dos modelos.

Cientistas já alertaram anteriormente que o colapso da Amoc deve ser evitado “a todo custo” . Isso deslocaria a faixa de chuvas tropicais da qual milhões de pessoas dependem para cultivar seus alimentos, mergulharia a Europa Ocidental em invernos extremamente frios e secas de verão, e adicionaria 50 cm ao já crescente nível do mar.

A circulação de reviravolta do Atlântico Sul está enfraquecendo e entrou em colapso no passado distante

Os novos resultados são “bastante chocantes, porque eu costumava dizer que a chance de a Amoc entrar em colapso como resultado do aquecimento global era inferior a 10%”, disse o professor Stefan Rahmstorf, do Instituto Potsdam de Pesquisa de Impacto Climático, na Alemanha, que integrou a equipe do estudo. “Agora, mesmo em um cenário de baixas emissões, mantendo o acordo de Paris, parece que pode ser algo em torno de 25%.

Esses números não são muito precisos, mas estamos falando de uma questão de avaliação de risco, em que até mesmo 10% de chance de um colapso da Amoc seria muito alta. Descobrimos que o ponto crítico em que o fechamento se tornará inevitável provavelmente ocorrerá nos próximos 10 a 20 anos, aproximadamente. Essa também é uma descoberta bastante chocante e a razão pela qual precisamos agir muito rápido para reduzir as emissões.

Cientistas identificaram sinais de alerta de um ponto de inflexão em 2021 e sabem que a Amoc já entrou em colapso no passado da Terra. “Observações no fundo [extremo Atlântico Norte] já mostram uma tendência de queda nos últimos cinco a dez anos, consistente com as projeções dos modelos”, disse o professor Sybren Drijfhout, do Instituto Real de Meteorologia dos Países Baixos, que também integrou a equipe.

Mesmo em alguns cenários de emissões intermediárias e baixas, a Amoc desacelera drasticamente até 2100 e desliga completamente depois disso. Isso mostra que o risco de desligamento é mais sério do que muitas pessoas imaginam.

O estudo, publicado na revista Environmental Research Letters , analisou os modelos padrão utilizados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Os cientistas ficaram particularmente preocupados ao constatar que, em muitos modelos, o ponto de inflexão é atingido na próxima década ou duas, após o qual o desligamento da Amoc se torna inevitável devido a um feedback autoamplificador.

As temperaturas do ar estão subindo rapidamente no Ártico devido à crise climática, o que significa que o oceano esfria mais lentamente. A água mais quente é menos densa e, portanto, afunda mais lentamente nas profundezas. Essa desaceleração permite que mais chuva se acumule nas águas superficiais salgadas, tornando-as menos densas e retardando ainda mais o afundamento, formando o ciclo de retroalimentação. Outro novo estudo , utilizando uma abordagem diferente, também concluiu que o ponto de inflexão provavelmente será atingido por volta de meados deste século.

Apenas alguns dos modelos do IPCC foram executados além de 2100, então os pesquisadores também buscaram verificar quais dos modelos executados até o final deste século mostravam que a Amoc já estava em declínio terminal. Isso produziu os números de 70%, 37% e 25%. Os cientistas concluíram: “Esses números não correspondem mais ao evento de baixa probabilidade e alto impacto usado para discutir um colapso abrupto da Amoc no [último relatório do IPCC]”.

Rahmstorf disse que os números reais podem ser ainda piores, porque os modelos não incluem a torrente de água derretida da calota polar da Groenlândia , que também está melhorando as águas do oceano.

A Dra. Aixue Hu, do Laboratório de Dinâmica Climática Global no Colorado, EUA, que não participou da equipe do estudo, disse que os resultados foram importantes. “Mas ainda é muito incerto quando o colapso da Amoc ocorrerá ou quando o ponto de inflexão da Amoc será ultrapassado devido à falta de observações diretas [do oceano] e aos resultados variáveis ​​dos modelos.”

O estudo que concluiu que um colapso total da Amoc era improvável neste século foi liderado pelo Dr. Jonathan Baker, do Met Office Hadley Centre, no Reino Unido. “Este novo estudo destaca que o risco aumenta após 2100”, disse ele. “[Mas] essas porcentagens devem ser analisadas com cautela – o tamanho da amostra é pequeno, portanto, mais simulações [após 2100] são necessárias para quantificar melhor o risco.”

No entanto, disse Baker, “o oceano já está mudando, e as mudanças projetadas na convecção do Atlântico Norte são uma preocupação real. Mesmo que um colapso seja improvável, espera-se um enfraquecimento significativo, e isso por si só poderia ter impactos sérios no clima da Europa nas próximas décadas. Mas o futuro da circulação do Atlântico ainda está em nossas mãos.”


Fonte: The Guardian

Estudo conclui que colapso total das correntes vitais do Atlântico é improvável neste século, mas enfraquecimento preocupa

Os cientistas do clima alertam, no entanto, que mesmo correntes enfraquecidas causariam danos profundos à humanidade

O aquecimento global está enfraquecendo a circulação meridional de reviravolta do Atlântico (Amoc), que desempenha um papel crucial nas condições climáticas globais. Fotografia: Henrik Egede-Lassen/Zoomedia/PA

Por Damin Carrington para o “The Guardian”

É improvável que as correntes vitais do Oceano Atlântico entrem em colapso total neste século, de acordo com um estudo, mas cientistas dizem que um enfraquecimento severo ainda é provável e ainda teria impactos desastrosos em bilhões de pessoas.

A circulação meridional de reviravolta do Atlântico (Amoc) é um sistema de correntes que desempenha um papel crucial no clima global. A crise climática está enfraquecendo o sistema complexo, mas determinar se e quando ele entrará em colapso é difícil.

Estudos baseados em medições oceânicas indicam que a Amoc está se tornando instável e se aproximando de um ponto crítico, além do qual um colapso será imparável. Eles sugeriram que isso aconteceria neste século , mas há apenas 20 anos de medições diretas e dados inferidos de épocas anteriores que trazem grandes incertezas.

Modelos climáticos indicaram que um colapso não é provável antes de 2100, mas eles podem ter sido irrealisticamente estáveis ​​em comparação com o sistema oceânico real.

O estudo mais recente é importante porque usa modelos climáticos para revelar a razão pela qual a Amoc é mais estável: ventos no Oceano Antártico continuam a puxar água para a superfície e a impulsionar todo o sistema. O estudo não descarta um colapso da Amoc após 2100, e outras pesquisas de modelagem sugerem que colapsos ocorrerão após esse período .

“Descobrimos que a Amoc tem grande probabilidade de enfraquecer sob o aquecimento global, mas é improvável que entre em colapso neste século”, disse o Dr. Jonathan Baker do Met Office do Reino Unido, que liderou o último estudo. Ele disse que era reconfortante que uma queda abrupta da Amoc fosse improvável, e que o conhecimento poderia ajudar os governos a planejarem melhor os impactos climáticos futuros. O enfraquecimento da Amoc ainda traria grandes desafios climáticos em todo o mundo, no entanto, com mais inundações e secas e aumento mais rápido do nível do mar, ele acrescentou.

“É claro que improvável não significa impossível”, ele disse. “Ainda há uma chance de que a Amoc entre em colapso [neste século], então ainda precisamos cortar as emissões de gases de efeito estufa urgentemente. E mesmo um colapso no próximo século causaria impactos devastadores para o clima e a sociedade.”

O Prof. Niklas Boers do Instituto de Pesquisa de Impacto Climático de Potsdam (PIK) na Alemanha disse que o estudo apresentou uma melhoria substancial na compreensão da Amoc. “Mas mesmo um enfraquecimento que não seja devido a um ponto de inflexão pode ter impactos igualmente severos, por exemplo, em chuvas tropicais”, disse ele. “Pode-se até dizer que, no curto prazo, não importa realmente se temos um forte enfraquecimento, digamos 80%, ou um colapso.”

O sistema Amoc traz água morna e salgada para o norte, em direção ao Ártico, onde esfria, afunda e flui de volta para o sul. O aquecimento global, no entanto, está elevando as temperaturas da água e aumentando o derretimento da enorme calota de gelo da Groenlândia , que está inundando a área com água doce. Ambos os fatores significam que a água é menos densa, reduzindo o afundamento e desacelerando as correntes.

Já se sabia que a Amoc estava em seu ponto mais fraco em 1.600 anos como resultado do aquecimento global, e pesquisadores identificaram sinais de alerta de um ponto de inflexão em 2021. A Amoc entrou em colapso no passado da Terra, disse Baker. “Então é um risco real.”

Um colapso da Amoc teria consequências desastrosas ao redor do mundo, interrompendo severamente as chuvas das quais bilhões de pessoas dependem para alimentação na Índia, América do Sul e África Ocidental. Aumentaria a ferocidade das tempestades e faria as temperaturas despencarem na Europa, enquanto empurraria para cima os níveis do mar na costa leste da América do Norte e colocaria ainda mais em risco a floresta amazônica e as camadas de gelo da Antártida. Cientistas já disseram que um colapso deve ser evitado a todo custo .

O estudo mais recente, publicado na revista Nature , usou 34 modelos climáticos de última geração para avaliar a Amoc. Os pesquisadores usaram condições extremas – uma quadruplicação dos níveis de dióxido de carbono ou um enorme influxo de água derretida no Atlântico Norte – para que as mudanças nas correntes oceânicas modeladas fossem claras.

Eles descobriram que, embora a Amoc tenha desacelerado entre 20% e 80% neste século, ela não entrou em colapso completamente em nenhum dos modelos. Isso ocorreu porque os ventos no Oceano Antártico continuaram a puxar água para a superfície. Equilibrando isso, para a surpresa dos cientistas, havia novas áreas de downwelling nos oceanos Pacífico e Índico, mas elas não eram fortes o suficiente para compensar totalmente a desaceleração da Amoc, deixando-a significativamente enfraquecida.

“Mesmo uma redução de apenas 50% na força resultaria em uma grande queda no transporte de calor que alteraria os climas regionais e globais”, disse o Dr. Aixue Hu no Laboratório de Dinâmica Climática Global no Colorado, EUA. “Portanto, não há razão para ser complacente sobre o enfraquecimento da Amoc, e todos os esforços ainda devem ser feitos para combater o aquecimento global que o impulsiona.”

O professor Stefan Rahmstorf, especialista em Amoc no PIK, disse que o estudo mais recente considerou um colapso como a cessação total das correntes no Atlântico Norte, enquanto estudos anteriores chamaram uma Amoc muito enfraquecida de colapso.

A Amoc é parcialmente impulsionada pelo afundamento de água densa e parcialmente pelos ventos, e o estudo mais recente fornece insights específicos sobre o último. “Isso não muda, no entanto, a avaliação do risco e do impacto de futuras mudanças na Amoc em resposta ao aquecimento global causado pelo homem, pois isso está ligado à parte [impulsionada pela densidade] da Amoc”, disse Rahmstorf. Sua própria pesquisa sobre o colapso da Amoc pós-2100 , atualmente em revisão, conclui que “um colapso não pode mais ser considerado um evento de baixa probabilidade”.

Apesar das revelações no último estudo, a extensão do futuro enfraquecimento da Amoc e o momento de qualquer colapso permanecem incertos. “Há uma enorme quantidade de trabalho a ser feito, porque ainda há uma enorme variação entre os modelos em quanto a Amoc enfraquecerá”, disse Baker, com o aumento da resolução dos modelos sendo um requisito importante.

“Também mostramos que o Oceano Antártico e o Oceano Pacífico são mais importantes do que pensávamos para a Amoc, então precisamos de melhores observações e modelagem nessas regiões. Isso é crucial para melhorar as projeções para que possamos informar melhor os formuladores de políticas”, disse ele.


Fonte: The Guardian

Crise climática: cientistas detectam sinais de colapso da Corrente do Golfo

Uma paralisação teria impactos globais devastadores e não deve ser permitida, dizem os pesquisadores

amocO derretimento da água doce do manto de gelo da Groenlândia está desacelerando o AMOC mais cedo do que os modelos climáticos sugeriam. Fotografia: Ulrik Pedersen / NurPhoto / REX / Shutterstock

Por Damian Carrington Editor de Meio Ambiente do “The Guardian”

Cientistas do clima detectaram sinais de alerta do colapso da Corrente do Golfo, um dos principais pontos de inflexão em potencial do planeta.

A pesquisa constatou “uma perda quase completa de estabilidade no último século” das correntes que os pesquisadores chamam de Circulação Meridional Virada do Atlântico (AMOC). As correntes  estão em seu ponto mais lento em pelo menos 1.600 anos, mas a nova análise mostra que elas podem estar perto de uma paralisação.

Tal evento teria consequências catastróficas em todo o mundo, interrompendo severamente as chuvas das quais bilhões de pessoas dependem para se alimentar na Índia, América do Sul e África Ocidental; aumento das tempestades e redução das temperaturas na Europa; e elevando o nível do mar no leste da América do Norte. Também colocaria em risco ainda mais a floresta amazônica e os mantos de gelo da Antártica.

A complexidade do sistema AMOC e a incerteza sobre os níveis de aquecimento global futuro tornam impossível prever a data de qualquer colapso por enquanto. Pode ser dentro de uma ou duas décadas, ou vários séculos de distância. Mas o impacto colossal que isso teria significa que nunca deve ser permitido que aconteça, disseram os cientistas.

“Os sinais de desestabilização já visíveis é algo que eu não esperava e que acho assustador”, disse Niklas Boers, do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático, na Alemanha, que fez a pesquisa. “É algo que você simplesmente não pode [permitir que] aconteça.”

Não se sabe qual nível de CO2 desencadearia um colapso do AMOC, disse ele. “Portanto, a única coisa a fazer é manter as emissões o mais baixas possível. A probabilidade desse evento de impacto extremamente alto acontecer aumenta com cada grama de CO2 que colocamos na atmosfera ”.

Os cientistas estão cada vez mais preocupados com os pontos de inflexão – mudanças grandes, rápidas e irreversíveis no clima. Boers e seus colegas relataram em maio que uma parte significativa da camada de gelo da Groenlândia está à beira da borda , ameaçando um grande aumento no nível do mar global. Outros mostraram recentemente que a floresta amazônica agora está emitindo mais CO2 do que absorve, e que a onda de calor da Sibéria em 2020 levou a liberações preocupantes de metano .

O mundo já pode ter cruzado uma série de pontos de inflexão , de acordo com uma análise de 2019, resultando em “uma ameaça existencial à civilização”. Um importante relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, previsto para segunda-feira, deve definir o agravamento da crise climática.

A pesquisa de Boer, publicada na revista Nature Climate Change, é intitulada “ Sinais de alerta antecipado baseados em observação para um colapso do AMOC ”. Núcleos de gelo e outros dados dos últimos 100.000 anos mostram que o AMOC tem dois estados: um rápido e forte, como visto nos últimos milênios, e um lento e fraco. Os dados mostram que o aumento das temperaturas pode fazer o AMOC alternar abruptamente entre os estados ao longo de uma a cinco décadas.

O AMOC é impulsionado pelo afundamento densa e salgada da água do mar no oceano Ártico, mas o derretimento da água doce da camada de gelo da Groenlândia está retardando o processo antes do que os modelos climáticos sugeriam.

Boers usou a analogia de uma cadeira para explicar como as mudanças na temperatura e salinidade do oceano podem revelar a instabilidade do AMOC. Empurrar uma cadeira altera sua posição, mas não afeta sua estabilidade se as quatro pernas permanecerem no chão. Inclinar a cadeira altera sua posição e estabilidade.

Oito conjuntos de dados medidos independentemente de temperatura e salinidade que remontam a 150 anos permitiram que Boers mostrasse que o aquecimento global está de fato aumentando a instabilidade das correntes, não apenas mudando seu padrão de fluxo.

A análise concluiu: “Este declínio [da AMOC nas últimas décadas] pode estar associado a uma perda quase completa de estabilidade ao longo do século passado, e a AMOC pode estar perto de uma transição crítica para seu modo de circulação fraca.”

Levke Caesar, da Maynooth University na Irlanda, que não esteve envolvido na pesquisa, disse: “O método de estudo não pode nos dar um momento exato de um possível colapso, mas a análise apresenta evidências de que o AMOC já perdeu estabilidade, o que considero como um aviso de que podemos estar mais perto de uma gorjeta da AMOC do que pensamos. ”

David Thornalley, da University College London no Reino Unido, cujo trabalho mostrou que o AMOC está em seu ponto mais fraco em 1.600 anos, disse: “Esses sinais de estabilidade decrescente são preocupantes. Mas ainda não sabemos se ocorrerá um colapso, ou quão perto podemos estar dele.”

fecho

Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

A mudança climática será repentina e cataclísmica. Precisamos agir rápido

geloO derretimento do gelo polar pode causar um ponto crítico. Imagem: REUTERS / Hannah McKay

Por Peter Giger, Diretor de Risco do Zurich Insurance Group

  • Os pontos de inflexão podem perturbar fundamentalmente o planeta e produzir mudanças abruptas no clima.
  • Uma liberação em massa de metano pode nos colocar em um caminho irreversível para o derretimento total do gelo terrestre, fazendo com que o nível do mar suba em até 30 metros.
  • Devemos tomar medidas imediatas para reduzir o aquecimento global e construir resiliência com esses pontos de inflexão em mente.

A velocidade e a escala da resposta ao COVID-19 por parte de governos, empresas e indivíduos parecem dar esperança de que possamos reagir à crise das mudanças climáticas de uma maneira igualmente decisiva – mas a história nos diz que os humanos não reagem a movimentos lentos e ameaças distantes. Nossa evolução selecionou o instinto de “lutar ou fugir” para lidar com as mudanças ambientais, então, como a metáfora do sapo em água fervente, tendemos a reagir muito pouco e tarde demais às mudanças graduais.

A mudança climática é freqüentemente descrita como aquecimento global, com a implicação de mudanças graduais causadas por um aumento constante nas temperaturas; de ondas de calor ao derretimento de geleiras.

Mas sabemos por evidências científicas multidisciplinares – da geologia, antropologia e arqueologia – que a mudança climática não é incremental. Mesmo em tempos pré-humanos, é episódico, quando não é forçado por uma aceleração humana das emissões de gases de efeito estufa e do aquecimento.

Existem partes do ciclo do carbono em nosso planeta, as formas como a Terra e a biosfera armazenam e liberam carbono, que podem ser acionadas repentinamente em resposta ao aquecimento gradual. Esses são pontos de inflexão que, uma vez ultrapassados, podem perturbar fundamentalmente o planeta e produzir mudanças abruptas e não lineares no clima.

Um jogo de jenga

Pense nisso como um jogo de Jenga e o sistema climático do planeta como a torre. Por gerações, removemos lentamente os bloqueios. Mas, em algum momento, removeremos um bloco fundamental, como o colapso de um dos principais sistemas de circulação do oceano global, por exemplo, a Circulação Meridional de Virada do Atlântico (AMOC), que fará com que todo ou parte do sistema climático global caia em uma emergência planetária.

Mas, pior ainda, pode causar danos descontrolados: onde os pontos de inflexão formam uma cascata semelhante a um dominó, onde a violação de um provoca violações de outros, criando uma mudança imparável para um clima em mudança radical e rápida.

Um dos pontos de inflexão mais preocupantes é a liberação em massa de metano. O metano pode ser encontrado no armazenamento de congelamento profundo no permafrost e no fundo dos oceanos mais profundos na forma de hidratos de metano. Mas o aumento das temperaturas do mar e do ar está começando a descongelar essas reservas de metano.

Isso liberaria um poderoso gás de efeito estufa na atmosfera, 30 vezes mais potente do que o dióxido de carbono como agente de aquecimento global. Isso aumentaria drasticamente as temperaturas e nos precipitaria em direção ao rompimento de outros pontos de inflexão.

Isso poderia incluir a aceleração do degelo em todos os três grandes mantos de gelo terrestres do globo – Groenlândia, Oeste da Antártica e a Bacia de Wilkes no Leste da Antártica. O colapso potencial do manto de gelo da Antártica Ocidental é visto como um ponto de inflexão importante, já que sua perda poderia eventualmente elevar os níveis globais do mar em 3,3 metros, com variações regionais importantes.

Mais do que isso, estaríamos no caminho irreversível para o derretimento total do gelo terrestre, fazendo com que o nível do mar subisse até 30 metros, aproximadamente a uma taxa de dois metros por século, ou talvez mais rápido. Basta olhar para as praias elevadas ao redor do mundo, na última elevação do nível do mar global, no final do período Pleistoceno por volta de 120.000 anos atrás, para ver a evidência de um mundo tão quente, que era de apenas 2 ° C mais quente do que hoje.

Cortando a circulação

Além de devastar áreas baixas e costeiras em todo o mundo, o derretimento do gelo polar pode desencadear outro ponto de inflexão: a desativação do AMOC.

Esse sistema de circulação impulsiona um fluxo de água quente e salgada para o norte nas camadas superiores do oceano, dos trópicos para a região nordeste do Atlântico, e um fluxo para o sul de água fria nas profundezas do oceano.

A correia transportadora oceânica tem um grande efeito no clima, nos ciclos sazonais e na temperatura no oeste e no norte da Europa. Isso significa que a região é mais quente do que outras áreas de latitude semelhante.

Mas o gelo derretido do manto de gelo da Groenlândia pode ameaçar o sistema AMOC. Isso diluiria a água salgada do mar no Atlântico Norte, tornando a água mais leve e menos capaz ou incapaz de afundar. Isso diminuiria a velocidade do motor que impulsiona a circulação do oceano.

Pesquisas recentes sugerem que a AMOC já se enfraqueceu em cerca de 15% desde meados do século XX. Se isso continuar, pode ter um grande impacto no clima do hemisfério norte, mas particularmente na Europa. Pode até levar à cessação da agricultura arável no Reino Unido, por exemplo.

Também pode reduzir as chuvas na bacia amazônica, impactar os sistemas de monções na Ásia e, ao trazer águas quentes para o Oceano Antártico, desestabilizar ainda mais o gelo na Antártica e acelerar o aumento do nível do mar global.

A Circulação de Virada Meridional Atlântica.
A Circulação de Virada Meridional do Atlântico tem um grande efeito no clima.
Imagem: Praetorius (2018)

É hora de declarar uma emergência climática?

Em que estágio, e em que aumento nas temperaturas globais, esses pontos de inflexão serão alcançados? Ninguém está totalmente certo. Pode levar séculos, milênios ou pode ser iminente.

Mas, como COVID-19 nos ensinou, precisamos nos preparar para o esperado. Estávamos cientes do risco de uma pandemia. Também sabíamos que não estávamos suficientemente preparados. Mas não agimos de maneira significativa. Felizmente, conseguimos acelerar a produção de vacinas para combater o COVID-19. Mas não há vacina para as mudanças climáticas, uma vez que ultrapassamos esses pontos de inflexão.

Precisamos agir agora em nosso clima . Aja como se esses pontos de inflexão fossem iminentes. E pare de pensar nas mudanças climáticas como uma ameaça lenta e de longo prazo que nos permite chutar o problema adiante e deixar que as gerações futuras lidem com ele. Devemos tomar medidas imediatas para reduzir o aquecimento global e cumprir nossos compromissos com o Acordo de Paris e criar resiliência com esses pontos de inflexão em mente.

Precisamos planejar agora para mitigar as emissões de gases de efeito estufa, mas também precisamos planejar os impactos, como a capacidade de alimentar todos no planeta, desenvolver planos para gerenciar o risco de inundações, bem como gerenciar os impactos sociais e geopolíticos humanos migrações que serão consequência de decisões de luta ou fuga.

Romper esses pontos de inflexão seria cataclísmico e potencialmente muito mais devastador do que COVID-19. Alguns podem não gostar de ouvir essas mensagens ou considerá-las no reino da ficção científica. Mas se isso injeta um senso de urgência para nos fazer responder à mudança climática como fizemos com a pandemia, então devemos conversar mais sobre o que aconteceu antes e acontecerá novamente.

Caso contrário, continuaremos jogando Jenga com nosso planeta. E, no final das contas, haverá apenas um perdedor – nós.

fecho

Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo “World Economic Forum” [Aqui!].