Microplásticos também estão na comida dos animais

Estudo encontrou contaminação em 76% dos alimentos comerciais analisados e revela uma nova rota de circulação dos plásticos entre a indústria, os animais e os ecossistemas

A contaminação planetária por plásticos parece determinada a destruir, uma após outra, todas as fronteiras que imaginávamos capazes de nos separar dos resíduos produzidos pela sociedade capitalista. Depois de estudos científicos encontrarem microplásticos nos oceanos, rios, solos, atmosfera, alimentos e até em diferentes órgãos do corpo humano, um novo estudo mostra que eles também estão presentes na comida oferecida diariamente aos animais domésticos.

O estudo Microplastic prevalence in commercially available petfoods, publicado em maio de 2026 na revista científica Environmental Toxicology and Chemistry, foi realizado por Emily Thrift, Tamara Galloway, David Santillo e Fiona Mathews, pesquisadores das universidades britânicas de Sussex e Exeter e dos Laboratórios de Pesquisa do Greenpeace. O trabalho analisou 38 produtos comercializados no Reino Unido para cães, gatos e ouriços, abrangendo 19 marcas, diferentes faixas de preço e alimentos secos e úmidos. Para reduzir a possibilidade de que os resultados fossem explicados por episódios isolados de contaminação, os pesquisadores analisaram seis unidades de lotes diferentes de cada produto, totalizando 228 amostras.

Os resultados são muito preocupantes. Das 228 amostras analisadas, 27,6% continham microplásticos confirmados. Quando a análise passa para os produtos comerciais, o quadro se torna ainda mais expressivo: 76,3% dos 38 produtos apresentaram pelo menos uma amostra contaminada e quase metade teve duas ou mais amostras positivas. Entre as 19 marcas analisadas, apenas três não apresentaram microplásticos.

E mesmo esses números podem representar uma subestimativa. Os pesquisadores analisaram apenas um grama de alimento por embalagem, e a metodologia empregada não era capaz de detectar as partículas de dimensões muito pequenas. Uma investigação de volumes maiores e com técnicas mais sensíveis poderia, portanto, revelar uma contaminação ainda mais ampla. 

Por outro lado, os pesquisadores  também encontraram 95 partículas confirmadas de microplásticos, com dimensões entre 0,09 e 3,8 milímetros. As fibras representaram 60% das partículas, enquanto os fragmentos corresponderam aos 40% restantes. Entre os polímeros mais frequentes estavam o poliéster, a poliacrilamida, o polipropileno e o polietileno, materiais associados à produção têxtil, aos processos industriais e às embalagens.

Essa diversidade  de microplásticos sugere que não existe uma única fonte de contaminação. Os microplásticos podem estar entrando nos alimentos por meio dos ingredientes utilizados na fabricação das rações, do desgaste de máquinas, dos ambientes industriais e das próprias embalagens. O poliéster, o polímero mais frequente, pode chegar à cadeia alimentar inclusive por meio da aplicação de lodo de esgoto contaminado em solos agrícolas. Já o polietileno e o polipropileno podem ser liberados durante o processamento, o transporte, o manuseio e a abertura dos pacotes.

Um dos resultados mais inquietantes se refere à composição dos alimentos. Dos 21 produtos que continham os chamados “derivados de carne e de origem animal”, 90,4% apresentaram pelo menos uma amostra positiva para microplásticos. Os três produtos com pior desempenho — aqueles nos quais cinco das seis amostras estavam contaminadas — continham esses derivados.

Os autores também encontraram maior frequência de contaminação nos produtos mais baratos. Isso não significa, entretanto, que comprar rações mais caras resolva o problema, pois os microplásticos apareceram em todas as faixas de preço e em diferentes tipos de alimento. O preço parece influenciar a probabilidade de contaminação, mas não oferece qualquer garantia de proteção.

À primeira vista, os alimentos secos pareceriam representar o maior risco, pois apresentaram mais partículas por grama. Entretanto, quando os pesquisadores calcularam a exposição diária efetiva, o quadro se inverteu. Como os alimentos úmidos possuem menor densidade energética, os animais precisam consumir uma quantidade maior para obter a mesma quantidade de energia e, com isso, acabam ingerindo mais microplásticos.

O problema não termina no organismo dos animais. Parte dos microplásticos ingeridos é eliminada pelas fezes, que podem permanecer diretamente no ambiente ou ser destinadas à compostagem. Com isso, a ração contaminada se transforma em uma nova rota de circulação dos plásticos entre a indústria, os animais e os ecossistemas.

Essa circulação torna-se ainda mais complexa porque alimentos destinados a cães e gatos também são consumidos por animais silvestres. Raposas, texugos e ouriços visitam jardins urbanos e comem alimentos deixados por seres humanos, enquanto centros de reabilitação da fauna utilizam grandes quantidades de rações comerciais. O que parecia ser apenas uma questão de segurança alimentar dos animais domésticos passa, portanto, a constituir também um problema ecológico.

O fato é que o estudo de Thrift e seus colegas mostra que a poluição por plásticos alcançou um estágio no qual aquilo que descartamos retorna continuamente para dentro dos sistemas vivos. O plástico presente nos ingredientes, máquinas, tecidos ou embalagens entra no alimento, é consumido pelos animais, circula pelos organismos e retorna ao ambiente por meio das fezes. A conclusão talvez seja a mais simples e, ao mesmo tempo, a mais incômoda: não existe um “fora” para onde possamos mandar o plástico. Ele volta. E agora sabemos que também volta na tigela de comida dos animais que vivem conosco.

O artigo “Microplastic prevalence in commercially available petfoods”, de Emily Thrift, Tamara Galloway, David Santillo e Fiona Mathews, foi publicado em 21 de maio de 2026 na revista científica Environmental Toxicology and Chemistry, pode ser baixado [Aqui!].

‘Coquetel tóxico’: estudo encontra quase 200 agrotóxicos em casas europeias

Mais de 40% dos agrotóxicos encontrados na poeira estão associados a efeitos tóxicos, incluindo câncer e distúrbios hormonais

Uma rua estreita e sinuosa com edifícios amarelos em Florença.

O número de agrotóxicos em cada casa variou de 25 a 121. Fotografia: Roland Barat/Alamy

Por Helena Horton para o “The Guardian”

Quase 200 agrotóxicos foram encontrados por um estudo que examina a poeira em casas por toda a Europa , enquanto os cientistas dizem que os reguladores precisam levar em conta os “coquetéis tóxicos” de produtos químicos ao proibir ou restringir o uso destes insumos agrícolas.

Cientistas afirmam que suas pesquisas corroboram a ideia de que os órgãos reguladores devem avaliar os riscos representados pelos agrotóxicos quando reagem com outros produtos químicos, bem como individualmente. Eles afirmam que isso deve se aplicar tanto às substâncias já em uso quanto às que ainda não foram aprovadas.

Em descobertas preliminares do maior estudo desse tipo, cientistas que examinaram a poeira doméstica de casas em 10 países europeus em 2021 detectaram 197 agrotóxicos no total.

Mais de 40% dos agrotóxicos encontrados na poeira foram associados a efeitos altamente tóxicos, incluindo câncer e distúrbios do sistema hormonal em humanos.

O número de agrotóxicos em cada casa variou entre 25 e 121, e os níveis desses produtos tendiam a ser maiores nas casas dos agricultores.

O professor Paul Scheepers, do Instituto Radboud de Ciências Biológicas e Ambientais, disse: “Temos muitos estudos epidemiológicos mostrando que doenças estão associadas a misturas de agrotóxicos”.

Ele disse que os agrotóxicos presentes na poeira chegaram às casas das pessoas por meio dos sapatos, além de cães e gatos. “Se não tirarmos os sapatos na porta de casa, absorvemos muita sujeira de fora. Animais de estimação também são uma fonte”, disse Scheepers.

Há muitos estudos que indicam que os animais coletam certas contaminações, incluindo agrotóxicos, de ambientes externos. Outro grupo são os produtos de consumo que trazemos para casa, quaisquer agrotóxicos que compramos em lojas por determinados motivos, e uma fonte importante são os tratamentos contra pulgas e carrapatos para animais de estimação.

Embora as concentrações de cada agrotóxico na poeira fossem pequenas, as misturas de dezenas de produtos químicos poderiam ter um impacto na saúde, além de aumentar a exposição aos que também eram frequentemente encontrados em concentrações mais altas em frutas, vegetais e flores.

O estudo descobriu que o DDT permaneceu no meio ambiente apesar do produto ter sido proibido em alguns países em 1972.

Scheepers disse que aqueles que autorizam o uso de produtos devem levar em conta a persistência ambiental e que, mesmo que produtos como Pfas fossem proibidos agora, eles provavelmente permaneceriam no meio ambiente.

Os PFAs são conhecidos como “produtos químicos eternos” porque não se decompõem no meio ambiente. OS PFAs são usados ​​em uma ampla gama de produtos de consumo e processos industriais, e alguns têm sido associados a doenças graves em humanos e animais, incluindo câncer.

Scheepers disse: “Produtos como o DDT, que foram proibidos por muito tempo, são tão persistentes que se acumulam no meio ambiente, então estão constantemente circulando. Agora temos também o problema com o Pfas, que é exatamente uma repetição disso.

“Talvez os reguladores possam considerar a persistência dos produtos químicos – digamos que estabilidade química significa persistência no ambiente e também acumulação na cadeia alimentar; é provável que no futuro descubramos problemas semelhantes com outros produtos químicos persistentes.”

Os pesquisadores disseram que seu estudo revelou quais misturas de agrotóxicos foram encontradas no ambiente, para que os reguladores pudessem testá-las, bem como as combinações produzidas para uso comercial que eles já testaram.

A descoberta do DDT também significa que avaliações de risco de produtos mais novos podem precisar considerar interações com os mais antigos, eles disseram.


Fonte: The Guardian

Mercado Livre e Magalu vendem agrotóxicos ilegalmente como antipulgas

Plataformas fazem vista grossa a esse tipo de anúncio, proibido por lei. Mercado Livre assinou acordo com o Ministério Público se comprometendo a coibir vendas de agrotóxicos na plataforma

regent

Por Hélen Freitas, edição de Paula Bianchi, para Repórter Brasil

Antipulgas, carrapatos e formigas: essas são as palavras-chave usadas na venda ilegal do agrotóxico Regent 800 WG no Mercado Livre e no Magazine Luiza, dois dos maiores marketplaces do país.

Uma investigação da Repórter Brasilencontrou esse e outros agrotóxicos sendo comercializados irregularmente nas plataformas. Os anúncios são de responsabilidade de terceiros, mas especialistas criticam os sites por falta de monitoramento e não exclusão das ofertas.

Fabricado pela Basf, o Regent é destinado exclusivamente ao uso em lavouras. Seu ingrediente principal, o fipronil, é classificado como possivelmente cancerígeno pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos. Devido ao seu efeito mortal às abelhas, foi banido na União Europeia e teve alguns dos seus usos suspensos no Brasil este ano pelo Ibama.

A legislação brasileira determina que a venda de agrotóxicos só pode ser feita a partir da apresentação de uma receita assinada por um engenheiro agrônomo ou técnico agrícola, e em estabelecimentos comerciais registrados em órgãos agropecuários estaduais e com licença ambiental para a comercialização desses produtos. Além disso, o Mercado Livre assinou um acordo com o Ministério Público se comprometendo a coibir esse tipo de anúncio.

Ao anunciar agrotóxicos como produtos para uso doméstico de dedetização ou até mesmo um antipulgas para cães e gatos, os vendedores conseguem driblar essas regras. Isso porque algumas das substâncias utilizadas para a formulação de agrotóxicos, como o próprio fipronil, são as mesmas usadas em outros produtos do dia a dia e não precisam de receituário. 

Repórter Brasil fez uma simulação de compra no Mercado Livre. Sem surpresas, ela acontece como qualquer outra. Basta escolher o local de retirada, a forma de pagamento e pronto. O agrotóxico é entregue sem qualquer alerta sobre a toxicidade do produto. Inclusive em papelarias parceiras da plataforma. A compra não foi finalizada para não expor os entregadores a eventuais riscos de contaminação.

No Magazine Luiza, a venda também acontece sem nenhuma restrição. É possível encontrar até mesmo o Roundup, agrotóxico feito à base de glifosato e mais vendido no Brasil, classificado como provavelmente cancerígeno para humanos pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), órgão da Organização Mundial da Saúde. 

A reportagem também encontrou ofertas de outros inseticidas de venda restrita a empresas especializadas em desinfecção e dedetização. Alguns foram classificados como suplementos para cavalos e estavam entre os mais vendidos da categoria no Mercado Livre.

O Magazine Luiza disse que proíbe a venda de agrotóxicos em sua plataforma e “retirou do ar os anúncios mencionados”. O Mercado Livre afirmou que “trabalha de forma incansável para combater o mau uso da sua plataforma”. Confira as respostas na íntegra.

Venda fracionada e transporte incorreto

A maioria dos anúncios do Regent no Mercado Livre e no Magazine Luiza trazem a foto da embalagem original do produto, mas informam que ele é vendido de forma fracionada – prática permitida somente em casos específicos pelas fabricantes ou por estabelecimentos agropecuários autorizados pelos órgãos competentes. 

Outra questão é o transporte e o armazenamento. Durante a simulação de compra do agrotóxico feita pela Repórter Brasil, por exemplo, o Mercado Livre emitiu um anúncio avisando que os produtos estariam no centro de distribuição e que o envio seria imediato. As fabricantes, porém, dizem que esses produtos precisam ser armazenados em lugares adequados.

Além disso, não há garantia de que os agrotóxicos venham com a bula, ensinando o modo de uso correto.

“Isso tem que ter transporte especial, não pode ter transporte pelos Correios, pelo carro do Mercado Livre ou qualquer outro carro que não seja um transporte especial. É um produto de alta toxicidade e que, se romper, pode causar morte das pessoas, uma intoxicação aguda”, enfatiza o promotor Alexandre Gaio. 

Parte do Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente, Habitação e Urbanismo do Ministério Público do Paraná (MPPR), Gaio coordenou um acordo sobre a venda de agrotóxicos feito com o Mercado Livre que levou a plataforma a se comprometer a não realizar o anúncio, nem a venda de agrotóxicos. O acordo foi firmado após a Justiça acatar um pedido do Ibama e proibir as vendas. 

A maior parte dos anúncios do Regent trazem a foto da embalagem original do produto, mas informam que ele é vendido de forma fracionada

De acordo com Nilto Mendes, gerente de combate a produtos ilegais da CropLife Brasil, associação que representa as maiores empresas produtoras de agrotóxicos, além de serem vendidos sem a bula e sem nota fiscal, muitos desses produtos são contrabandeados, falsificados e até adulterados. “Esses agrotóxicos não têm garantia de eficiência agronômica, não passam por testes de qualidade e de impactos no meio ambiente. Existe uma infinidade de riscos e impactos que os agrotóxicos ilegais trazem ou podem trazer para o produtor”, afirma.

Risco à saúde e ao meio ambiente

Um anúncio em que o Regent é vendido como antipulgas revela os riscos envolvidos nas vendas ilegais dessas substâncias. Na oferta, compradores questionam se podem passar o produto diretamente em cães e gatos. O vendedor afirma que o “produto não faz mal” e pode ser aplicado nos animais e no local onde eles ficam.

Anunciantes passam informações incorretas sobre os riscos de uso dos agrotóxicos

A Repórter Brasi lenviou algumas perguntas aos vendedores do Mercado Livre, incluindo como deveria ser feita a mistura do produto e se era preciso utilizar máscara e luvas para realizar a aplicação. Somente um dos vendedores disse que o produto poderia trazer riscos por ser um agrotóxico.

Por meio de nota, a Basf afirmou que o Regent 800 WG é um inseticida agrícola, utilizado principalmente no controle de pragas na cana-de-açúcar, e que não é recomendado para uso doméstico e veterinário. “O uso de defensivo agrícola para quaisquer finalidades que não constam na bula do produto pode causar graves consequências para pessoas, animais e meio ambiente, sendo totalmente contraindicado”, afirma a empresa. 

Para Leonardo Pillon, advogado do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), o consumidor acaba sendo vítima dessa situação. “Ele está sendo lesado no seu direito de ter a informação correta, adequada, precisa, verdadeira e completa sobre todos os perigos e riscos que o agrotóxico pode causar à sua saúde”.

O advogado explica que o Código de Defesa do Consumidor estabelece a responsabilidade solidária de toda a cadeia de fornecedores. Ou seja, nesses casos, as pessoas que forem enganadas podem acionar o Mercado Livre, a fabricante do agrotóxico e os órgãos de defesa agropecuária e ambiental para fazer a denúncia da venda ilegal.

Proibição de venda de agrotóxicos

Repórter Brasil monitorou alguns dos vendedores do Regent. Os anúncios chegavam a ficar dias, e até semanas, ativos e grande parte dos anunciantes não eram novos na plataforma, tendo de 100 a 5.000 vendas registradas. Nenhum dos vendedores rastreados pela reportagem teve sua conta suspensa pelas plataformas.

Questionado sobre quanto ao banimento de anunciantes, o Mercado Livre informou apenas que “assim que identificados pela autoridade competente”, os anúncios são excluídos e o vendedor é notificado acerca da violação e pode sofrer as sanções estabelecidas pela plataforma. 

Em outubro, a empresa se reuniu com o Ministério da Agricultura para “discutir os critérios [de] aceitação de anúncios de insumos agrícolas e a aplicabilidade das proibições”. 

Dentre os assuntos abordados na reunião, o órgão informou que o Mercado Livre fez uma proposta de um trabalho em conjunto para derrubar as propagandas ilegais. “A plataforma demonstrou interesse em firmar parcerias com órgãos públicos para permitir que os próprios agentes retirem os anúncios”, diz o Mapa por meio de nota. Leia na íntegra.

O promotor Alexandre Gaio afirma que o termo de compromisso especifica a responsabilidade do Mercado Livre de agir antes mesmo das denúncias. “A empresa tem a responsabilidade de ter uma equipe para fazer triagem e ficar vigilante o tempo todo. Não é a sociedade que tem que ficar descobrindo e mostrando para eles removerem”.


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Fonte: Repórter Brasil