El Niño, 13 mil mortes e o silêncio da política brasileira diante da crise climática

Uma nova projeção divulgada nesta quarta-feira pelo The Guardian deveria estar ocupando um lugar central no debate público brasileiro. Segundo estimativa de pesquisadores do Climate Impact Lab, o atual episódio de El Niño poderá provocar cerca de 451 mil mortes adicionais relacionadas ao calor entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027. O número não inclui outras mortes que poderão decorrer de secas, incêndios florestais, enchentes e outros eventos associados ao fenômeno.

O dado que mais deveria nos preocupar é que o Brasil está entre os cinco países que deverão registrar os maiores números de mortes adicionais relacionadas ao calor nos próximos seis meses. Ou seja, não estamos diante de uma ameaça distante, localizada em alguma região remota do planeta. Estamos falando de uma situação que terá consequências concretas para a população brasileira.

E o problema não termina no calor. O El Niño atualmente em desenvolvimento já alcançou uma intensidade excepcional e ocorre sobre um planeta cuja temperatura média foi significativamente elevada pela acumulação de gases de efeito estufa. Como explicou à reportagem a cientista Friederike Otto, o fenômeno natural passa a produzir consequências mais perigosas quando ocorre sobre uma atmosfera e uma superfície terrestre já muito mais quentes em consequência do aquecimento global.

No Brasil, essa combinação possui características particularmente preocupantes. O próprio Ministério da Saúde informou, em setembro, que o El Niño está em nível forte, com possibilidade de alcançar intensidade muito forte, e que seus efeitos deverão se estender até março de 2027. Para a região Sul, a previsão é de aumento do volume de chuvas e do risco de tempestades, enxurradas e inundações.

Basta observar o que vem acontecendo no Sul do país para compreender que não estamos discutindo uma possibilidade abstrata. As cenas de cidades atingidas por chuvas extremas, inundações e tempestades deveriam funcionar como uma espécie de antecipação concreta daquilo que significa viver em um país cada vez mais exposto à instabilidade climática.

Há, portanto, uma questão que ultrapassa a discussão sobre a intensidade específica deste ou daquele El Niño. O problema fundamental é que eventos climáticos naturais estão ocorrendo sobre uma base climática progressivamente mais quente e, por isso, seus impactos podem se tornar maiores e mais difíceis de administrar.

Isso deveria estar no centro da campanha eleitoral brasileira de 2026. Entretanto, ocorre justamente o contrário. A poucos dias do primeiro turno, a crise climática ocupa um espaço muito menor do que sua importância objetiva exigiria no debate sobre o futuro do país. Uma análise publicada recentemente pela Folha de S.Paulo, com base em levantamento do Observatório do Clima, mostrou que a pauta ambiental aparece de maneira bastante desigual nos programas dos principais candidatos à presidência da república. A análise identificou propostas robustas em apenas uma das candidaturas avaliadas, enquanto nos demais programas o tema aparece de forma mais vaga ou com menor detalhamento.

O contraste é ainda mais significativo quando se considera que uma pesquisa Ipsos realizada para o Observatório do Clima apontou que 91% dos brasileiros consideram importante que os candidatos apresentem propostas para enfrentar a crise climática, enquanto 62% classificaram esse tema como muito importante. Desta forma, existe uma distância considerável entre a dimensão do problema, a preocupação manifestada pela população e o espaço efetivamente dedicado ao tema na disputa eleitoral. E essa distância deverá custar caro. 

O fato é que a questão climática não diz respeito apenas à proteção de florestas ou à redução das emissões de carbono já que ela envolve saúde pública, habitação, mobilidade, produção de alimentos, abastecimento de água, energia, infraestrutura, planejamento urbano, proteção das populações mais vulneráveis e capacidade de resposta do Estado diante de eventos extremos.

No caso brasileiro, isto também significa discutir o futuro da Amazônia, do Cerrado, do Pantanal, da Caatinga e da Mata Atlântica; a expansão de atividades econômicas em áreas ambientalmente frágeis; a política energética; o desmatamento; a ocupação das cidades; a prevenção de desastres; e a preparação do sistema público de saúde para uma realidade de temperaturas cada vez mais elevadas.

Significa, sobretudo, discutir adaptação. É porque mesmo que o mundo interrompesse imediatamente a emissão de gases de efeito estufa, uma parcela importante das mudanças climáticas já desencadeadas continuaria produzindo efeitos durante décadas. A redução das emissões é indispensável, mas não substitui a necessidade de preparar cidades, sistemas de saúde, redes de infraestrutura, áreas rurais e populações vulneráveis para aquilo que já está acontecendo.

O estudo citado pelo The Guardian oferece justamente uma dimensão importante dessa questão: os pesquisadores não estão apenas projetando mortes, mas indicando que parte delas poderia ser evitada por medidas de preparação, como sistemas de alerta para calor extremo, espaços de resfriamento, reforço dos serviços de saúde nos períodos críticos e proteção de trabalhadores expostos às altas temperaturas. Isso deveria nos levar a uma pergunta incômoda: quanto o Brasil está preparado para enfrentar os próximos episódios extremos?

E uma segunda pergunta é ainda mais importante: quanto essa preparação está sendo discutida pelos candidatos que pretendem governar o país? O silêncio relativo da campanha não significa que a crise climática tenha desaparecido. Ao contrário. Ela está se tornando uma presença cada vez mais concreta no cotidiano brasileiro. As chuvas extremas no Sul, as ondas de calor, as secas, os incêndios e os problemas crescentes de abastecimento e infraestrutura são manifestações diferentes de uma mesma transformação das condições ambientais nas quais nossa sociedade está organizada.

O risco é que continuemos tratando cada desastre como uma ocorrência isolada, mobilizando recursos depois que a tragédia aconteceu, em vez de construir políticas permanentes de prevenção, adaptação e redução de vulnerabilidades.O atual El Niño, portanto, deveria ser entendido como mais do que um fenômeno meteorológico excepcional. Ele é também um alerta sobre o tipo de futuro que pode estar se tornando cada vez mais frequente.

Diante disso, a ausência relativa da crise climática no debate eleitoral brasileiro é especialmente preocupante. Não porque faltem assuntos importantes em uma eleição, mas porque nenhum projeto de futuro para o Brasil pode ser considerado completo se não responder à transformação das condições climáticas em que esse futuro terá de ser construído. As cenas dramáticas que estão emergindo da região Sul deveriam ser suficientes para demonstrar que essa discussão não pertence a um futuro distante. Ela já chegou às nossas cidades, às nossas casas e aos nossos sistemas de infraestrutura.

O que está em jogo agora é saber se a política brasileira será capaz de reconhecer essa realidade antes que a sucessão de emergências climáticas transforme a adaptação em uma permanente política de reação às tragédias.

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