Brasil em tempos de Minority Report: Lava Jato prendeu Palocci por falta de provas

Há uma semanas atrás a polícia do estado de São Paulo (mais conhecido como tucanistão) armou uma cilada e prendeu dezenas de estudantes sob a acusação de que iriam cometer crimes. Essa novidade que remonta ao filme de ficção científica estrelado por Tom Cruise, o Minority Report (Aqui!), foi considerado por muitos analistas políticos como mais um dos muitos exageros da polícia comandada por Geraldo Alckmin.

Mas não! Agora, graças ao site CONJUR, ficamos sabendo que o ex-ministro Antonio Palocci teve sua prisão decretada pelo inusitado fato de que inexistem provas contra ele no tocante ao recebimento de propinas que teriam sido pagas pela construtora Odebrecht (Aqui!).

Como assim? Preso por falta de provas é da mais absoluta novidade num país onde normalmente ninguém era preso sem provas, mesmo que se preciso fosse fabricá-las.

Essa novidade é uma pequena adaptação do tema do Minority Report, mas representa uma ameaça muito grande para as liberdades individuais, especialmente dos brasileiros mais pobres. É que enquanto Palocci e sua turma possuem advogados bastante caros e capacitados para defendê-los, o brasileiro pobre normalmente é desprovido da condição de sequer pagar um rábula para tratar de seus interesses legais.

Aos que vibram com a prisão de Palocci, lembro que todos os presos da tal Operação Arquivo X já foram colocados em liberdade pelo juiz Sérgio Moro. Agora, os muitos ladrões de galinha que estão presos pelo Brasil afora por crimes completamente bisonhos continuam enjaulados, com ou sem provas. Entretanto, com o padrão Minority Report que a Lava Jato está consolidando, os ladrões de galinha continuarão sendo mantidos presos mesmo sem provas. É que se pode com o Palocci, pode com qualquer um.

Ação da Lava Jato é claramente partidária. Mas não haverá bateção de panelas por causa disso

coxinhas

A prisão hoje do ex-ministro Antonio Palocci (PT) é mais uma das demonstrações cabais que a chamada Operação Lava Jato é dotada de uma forte seletividade partidária e com efetivo senso de influência eleitoral.

Não que eu morra de amores por Antonio Palocci com quem militei na mesma organização nos 1980. Vejo sempre nele um quê de traição a ideais e causas. Mas que ele teve sua prisão premonizada ontem em um comício do PSDB em sua cidade pelo atual ministro da (in) justiça Alexandre Barros, isso ele teve.

Não é de hoje que há uma forte conotação seletiva nas ações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal na apuração dos caso conhecido como “Petrolão”. E mais o uso corriqueiro da prisão preventiva que normalmente recai sobre dirigentes do PT é algo que já se tornou escancarado. Por isso, até juristas que defenderam a suposta capacidade higienizadora da Lava Jato já se mostram preocupados com as ações de exceção que marcam as suas ações de delação, prisões e julgamentos.

O fato é que se ilude quem acha que a corrupção é debelada pela justiça agindo de forma solitária e seletiva.  O maior exemplo disso foi a chamada Operação Mãos Limpas na Itália que fez e aconteceu, mas não tornou o sistema político italiano menos corrupto.  

A verdade é que corrupção é um dos muitos mecanismos de apropriação privada dos bens públicos  e é uma marca do sistema capitalista. Não há país capitalista que não tenha seu nível de corrupção, ainda que uns sejam mais afetados do que outros. A saída contra a corrupção é, contraditoriamente, política. E passa mais pela organização coletiva da sociedade do que pela crença de que um grupo de messias bem intencionados vão limpar o sistema político e econômico.

Mas nada disso vai trazer aquelas massas coxinhas que iam às ruas vestidas com um dos maiores símbolos mundiais de como hospedar corruptos em quadros dirigentes,  a CBF. É que os “coxinhas” que se indignam com os casos de corrupção envolvendo o PT estão se lixando quando a coisa vai para partidos que representam os seus interesses públicos e privados. É uma forma bem brasileira de indignação seletiva que apenas reforça o fato de que a direita brasileira ama corruptos “bem nascidos” e detesta com a mesma intensidade quem ouse se intrometer nos seus nichos de bem vivência.