Brasil ainda usa agrotóxicos já proibidos em outros países

Análise de substâncias banidas na Europa e nos EUA se arrasta há anos na Anvisa. Agência restringiu o uso de algumas, mas várias seguem liberadas

Por Deutsche Welle
Kleiber Arantes/Secom
Lavoura

Os pesticidas já foram chamados de o “tempero preferido” dos brasileiros

São permitidos para uso nas lavouras brasileiras 434 ingredientes ativos de agrotóxicos. Entre os 50 mais utilizados, 22 são proibidos em países europeus. Entraves políticos e jurídicos são os principais fatores para que substâncias perigosas continuem a ser empregadas nas plantações do Brasil.

Em 2008, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) passou a reavaliar o uso de 14 substâncias, utilizadas na fabricação de mais de 200 agrotóxicos. Segundo avaliações internacionais, elas podem causar câncer, má formação fetal, problemas pulmonares e distúrbios hormonais.

Dessas 14 substâncias, até agora apenas cinco foram banidas (cihexatina, endossulfam, forato, metamidofós e triclorfom), e duas foram mantidas no mercado, mas com restrições de uso (acefato e fosmete).

“Poucas foram proibidas porque a indústria do agrotóxico, o Ministério da Agricultura e os fazendeiros fazem pressão para o processo de revisão não andar”, critica Wanderlei Pignati, pesquisador da Universidade Federal de Mato Grosso. “Fabricantes de alguns produtos entraram na Justiça e conseguiram liminares para parar a análise.”

A Anvisa é responsável por avaliar se a quantidade de agrotóxico presente nos alimentos é prejudicial à saúde humana. O órgão pode requerer mudanças na formulação e no método de aplicação, restringir o uso ou mesmo suspender o registro do agrotóxico.

“A proposta de nós, pesquisadores, era revisar inicialmente esses 14 para que depois fossem avaliadas outras 50 substâncias, algumas até mais perigosas do que as que estão na lista atual”, afirma Pignati à DW Brasil.

Um pesquisa da Anvisa mostrou que 31% dos alimentos típicos da cesta básica comercializados no Estado de São Paulo em 2014 tinham agrotóxicos proibidos ou em quantidade além da permitida. Entre as amostras de alface analisadas, por exemplo, 60% estavam insatisfatórias. Já com o pimentão, esse número chegou a 90%.

Como funciona a regulamentação pelo mundo

Na União Europeia (UE), cada país-membro possui regulamentações próprias, mas o que prevalece são as regras determinadas pelo bloco. A Alemanha, por exemplo, baniu o uso da substância endosulfan em 1991. Pouco tempo depois, a UE também adotou a proibição, fazendo-a valer em todos os seus países – no Brasil, o ingrediente só foi banido em 2013.

Nos Estados Unidos, quem controla a regulamentação dos agrotóxicos é a Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês). Recentemente, o órgão reavaliou quase todos os ingredientes ativos usados na fabricação de pesticidas. No país, mais de 60 tipos de pesticidas são proibidos.

No Brasil, a responsabilidade pelos agrotóxicos fica nas mãos de três órgãos federais: Ministério da Agricultura, Anvisa (atrelada ao Ministério da Saúde) e Ibama (do Ministério do Meio Ambiente).

Para uma substância ser registrada, e com isso ganhar autorização de comercialização e uso em território brasileiro, ela precisa passar pelo aval dessas três entidades – o Ministério da Agricultura analisa a importância agronômica do pesticida; a Anvisa avalia seus efeitos tóxicos sobre a saúde humana; e o Ibama, os efeitos sobre o meio ambiente.

“Observa-se, porém, uma grande deficiência do Estado em controlar o uso de agrotóxicos, além de uma grande dificuldade em retirar os produtos do mercado depois que eles ganham o registro”, afirma Marcia Sarpa de Campos Mello, toxicologista do Instituto Nacional do Câncer (Inca).

“Isso acontece porque o registro de agrotóxicos não tem validade, é tido como ad eternum“, explica a especialista. No Brasil, o registro de um pesticida é valido por tempo indeterminado – uma reavaliação pode ocorrer quando há alterações de riscos à saúde ou quando o ingrediente é banido em outros países, por exemplo.

Plantação
Por ano, cada brasileiro consome, em média, cerca de cinco litros de pesticidas | Cleverson Beje/FAEP/ Agência Paraná

Nos Estados Unidos, por outro lado, o período da licença de um agrotóxico é de 15 anos e, na UE, de apenas 10 anos. Ambas as legislações exigem que seja provado que não há nenhum dano ao meio ambiente e à saúde humana.”Em outros países, após um tempo de registro, as empresas devem apresentar reavaliações toxicológicas e novos estudos para provar novamente que o produto é seguro. Infelizmente, o mesmo não ocorre no nosso país”, diz Mello.

No Brasil, segundo a toxicologista, as empresas fabricantes de pesticidas devem apresentar estudos que provem a segurança desses produtos para a saúde, mas apenas na ocasião do registro. Além disso, “essas pesquisas são realizadas usando animais de laboratório, como ratos, camundongos e coelhos”.

Riscos à saúde

Os agrotóxicos, como o nome já diz, são substâncias que carregam riscos à saúde, tanto para os trabalhadores expostos a essas substâncias quanto para os consumidores de alimentos tratados com elas. Câncer, impotência, depressão e suicídio são algumas das possíveis consequências.

Por ano, cada brasileiro consome, em média, cerca de cinco litros de pesticidas, afirma a toxicologista do Inca, com base em dados do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag).

Segundo o Ministério da Saúde, foram registradas, entre 2007 e 2014, 34 mil notificações de intoxicação por agrotóxicos no Brasil – pesquisadores estimam, porém, que para cada caso registrado, outros 50 ocorrem sem notificação, ou com notificação errônea.

Um estudo realizado pelo Inca no município de Nova Palma, no Rio Grande do Sul, concluiu que a substância paraquate está associada ao desenvolvimento de câncer de pele em trabalhadores rurais. O herbicida, utilizado em cerca de 25 lavouras brasileiras, é proibido na Europa, mas permitido nos EUA. No Brasil, está em processo de reavaliação.

Confira abaixo alguns agrotóxicos proibidos em outros países que ainda são utilizados no Brasil.

Lista-de-agrotóxicos

Por Karina Gomes e Érika Kokay

FONTE: http://www.cartacapital.com.br/sustentabilidade/brasil-ainda-usa-agrotoxicos-ja-proibidos-em-outros-paises-9823.html

Anvisa faz consulta pública para informar reavaliação do perigoso agrotóxicos “Paraquate”

paraquat

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) está realizando uma consulta pública para todos os que desejarem participar do processo de reavaliação do agrotóxico “Paraquate”. Este produto está banido em muitos países do mundo, incluindo a China) conforme mostrado na Tabela 1 do Parecer Técnico de Reavaliação da própria Anvisa (Aqui!), mas continua sendo vendido abundantemente no Brasil. Aliás, na Tabela 5 deste mesmo relatório são mostrados os casos de pacientes que morreram por causa de intoxicações com este herbicida altamente perigoso para o ambiente e a saúde humana.

Conforme mostra o chamamento da Anvisa que é mostrado logo abaixo,  contribuições serão aceitas até esta segunda-feira (16/11)

Apesar do tempo curto, é importante que seja feitam contribuições a esta consulta pública,  visto que os vendedores de veneno estão participando massivamente, votando pela continuidade do registro deste perigoso agrotóxico no Brasil. Aliás, como até a china proibiu, não é de se estranhar que os estoques excedentes estejam sendo enviados para países que ainda comercializam o Paraquate, começando pelo Brasil.

Consulta Pública nº 94, de 8 de outubro de 2015

Prazo para Contribuição: De 16 de outubro de 2015 até 16 de novembro de 2015

Em Aberto

Assunto:

Proposta de Reavaliação Toxicológica do Ingrediente Ativo PARAQUATE

Formulário para envio de contribuições

Novo tutorial do formulário e dúvidas frequentes

Processo : 25351.056773/2013-21
Assunto: Proposta de Reavaliação Toxicológica do Ingrediente Ativo PARAQUATE.
Agenda Regulatória 2015-2016: Subtema nº 67.5
Regime de Tramitação: Comum
Área responsável: Gerência-Geral de Toxicologia – GGTOX
Relator: Renato Alencar Porto

  • Documentos Relacionados:Justificativa
    Proposta de norma em discussão
    Parecer técnico de reavaliação

    Atos relacionados
    Despacho de iniciativa nº 93, de 8 de outubro de 2015 (DOU de 09/10/2015)

  • Importante:A fim de garantir maior transparência ao processo de elaboração dos atos regulatórios editados pela Anvisa, esclarecemos que os nomes dos responsáveis pelas contribuições (pessoas físicas e jurídicas) são considerados informações públicas e serão disponibilizados de forma irrestrita nos relatórios e outros documentos gerados a partir dos resultados dessa Consulta Pública.

    Já o e-mail e o CPF dos participantes são considerados informações sigilosas e terão seu acesso restrito aos agentes públicos legalmente autorizados e às pessoas a que se referem tais informações, conforme preconiza o artigo 31, §1º, inciso I da Lei nº 12.527/2012.

 

Leandro Narloch e a (re) produção do mito do uso seguro de agrotóxicos

agrotóxicos

O jornalista (neo) con e blogueiro da Veja, Leandro Narloch, possui um blog onde se titula um “caçador de mitos” e disseminador de “uma visão politicamente incorreta da história, ciência e economia”. Pois bem, na postagem, Narloch, o autodenominado “caçador de mitos” faz uma tentativa (bisonha diria eu) de refutar o perigo que os agrotóxicos representam para a população brasileira (Aqui!) .

Um leitor mais leigo que ler o subtítulo da postagem de Narloch já vai ser levado a uma falsa compreensão da realidade. É que as amplas evidências dos problemas causados por agrotóxicos sobre os sistemas naturais e a saúde humana não são mero jogo estatístico divulgado por “ONGs e ativistas”. Na verdade, em que pese alguns números divulgados de forma mais solta, os problemas associados ao uso intensivo de agrotóxicos já possuem uma ampla literatura científica, que torna iinevitável até para a indústria produtora de venenos agrícolas ter de reconhecer os efeitos colaterais dos agrotóxicos.

Narloch também nos oferece uma visão simplista do processo de contaminação de alimentos por agrotóxicos ao omitir informações cruciais para que se entenda como se dá a assimilação sistêmica de determinadas substâncias, os herbicidas, até o processo de contaminação “cruzada” que é causada pelo fenômeno da deriva de agrotóxicos, processo esse que implica que mesmo culturas que não foram alvo do uso de agrotóxicos também podem ser contaminadas.

O “caçador de mitos” também nos priva de uma análise mais acabada do que acontece aos agrotóxicos após serem lançados no ambiente. É que ao repercutir de forma acrítica a informação dada pelo  agrônomo Alfredo José Barreto Luiz, da Embrapa Meio Ambiente de que um “prazo  é calculado para que as substâncias químicas ativas dos agrotóxicos já tenham se transformado em outras (pela ação da temperatura, luz, umidade etc.), restando em quantidade tão reduzida e diluída que não oferece mais perigo”, Narloch omitiu a informação crucial de que a maioria das substâncias químicas ativas que compõe os agrotóxicos normalmente geram subprodutos, os quais podem ser ainda mais tóxicos para o ambiente e seres vivos.  Aliás, para não errar dessa forma,  o jornalista (neo) con deveria apenas se lembrar da máxima cunhada em 1777 por Lavoisier de que “na natureza nada se cria, tudo se transforma”.  

Outro fato importante que foi omitido na postagem de Leandro Narloch é que o Brasil hoje é um paraíso de substâncias que foram banidas em outras partes do mundo, principalmente na Europa, por causarem graves danos ambientais e a saúde humana. Assim, ainda que o uso por hectares possa ser aqui maior ou menor do que em outras partes do mundo (uma informação que precisa ser constantemente checada porque há um paulatino abandono dos agrotóxicos por determinados países enquanto aumenta no Brasil), o fato é que aqui estamos consumindo legal e ilegalmente produtos que foram banidos em outras partes do mundo, incluindo a China. Aliás, eu e outras colegas da Universidade Estadual do Norte Fluminense mostramos isso num artigo publicado na revista científica Crop Protection em 2012 (Aqui!).

Para coroar sua suposta tentativa de desconstruir o mito de que estamos sendo envenenados por agrotóxicos por meio do consumo de alimentos contaminados, nos fornece a sugestão de que podemos almoçar tranquilos já que não ingerimos “5 litros de agrotóxicos por ano”. Além dessa sugestão ser uma simplificação do uso do quantidade como elemento demonstrativo do problema que é o uso excessivo de agrotóxicos no Brasil, a mesma esconde o fato de que análises feitas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) vem consistentemente documentando a presença de resíduos de agrotóxicos em vários alimentos fartamente consumidos pelos brasileiros.  Em outras palavras, não há nenhuma razão objetiva para “almoçarmos tranquilos”. Aliás, a situação é, ou deveria ser, de extrema preocupação já que os efeitos documentados do contato prolongadaos com agrotóxicos incluem câncer, autismo, doenças no sistema nervoso, e por ai vai.

Finalmente, há que se frisar que ao nos oferecer uma visão rósea do problema ao sugerir que há algo parecido com o consumo seguro de agrotóxicos, visto que não há. Ao fazer isto, o (des) construtor de mitos nada mais faz do que propagar o mito de que há um uso seguro para esse grupo de substâncias. A verdade é que não há, e qualquer coisa que sinalize o contrário, não passa de mito. Mito esse, frise-se, cuja manutenção interessa apenas à indústria química e ao latifúndio agroexportador. Simples assim!

Reinações de Kátia Abreu: agrotóxico ainda mais nocivo é aprovado pela Anvisa

codigo florestal

Vivemos tempo curiosos, para não dizer outra coisa, no Brasil. De um lado, temos um congresso onde a base do (des) governo comandado por Dilma Rousseff deixa e rola, aprovando em menos de 24 horas aquilo em que foi derrotado numa primeira votação, como foram os casos do financiamento privado das campanhas eleitorais e a redução da maioridade penal. Nesses casos, o neoPT adota uma face de que ainda é o velho PT e assume um discurso de que é oposição ao que ajudou a criar.

Mas um olhar mais apurado para outras áreas de atuação dos ministros e agentes indicados por Dilma Rousseff, veremos que esse suposto ensaio de uma “saída pela esquerda” do PT não passa de encenação pura. 

O caso mais emblemático para mim do abraço com a direita que caracterizou o estelionato eleitoral realizado por Dilma Rousseff e o neoPT não foi a indicação de Joaquim Levy para comandar o ministério da Fazenda. É que há outra ministra ainda mais alinhada com o ultra-reacionarismo no ministério neoliberal de Dilma, a dublê de senadora e latifundiária, a senhora Kátia Abreu. E sejamos sinceros, Kátia Abreu nunca disse que mudou ou que não continuaria incentivando as práticas nefastas que sempre defendeu. Não obstante, Kátia Abreu é seguramente uma das pessoas de maior confiança de Dilma Rousseff no atual ministério, visto que sua presença decorreu de uma escolha pessoal da presidente.

Mas o que tem Kátia Abreu a ver com a notícia abaixo publica pelo jornal Folha de São Paulo sobre a liberação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de um agrotóxico ainda mais nocivo à saúde humana do que os venenos agrícolas existentes no mercado brasileiro? Ora, tudo! É que desde antes de ser ministra, e isso continuou depois de sua posse no ministério da Agricultura, Kátia Abreu vem defendendo a liberação de venenos mais potentes para turbinar a produção de grãos que fazem a festa do latifúndio agro-exportador.

O problema é que se presta mais atenção nos tópicos que são passíveis de debate num congresso claramente tão ultraconservador quanto Kátia Abreu, outras coisas passam no melhor estilo “os cães ladram e a caravana passa”. Lamentavelmente, o que fica de prático é a disponibilização de venenos ainda mais potentes cujos efeitos recairão não apenas sobre a saúde dos trabalhadores e agricultores que os manuseiam diretamente, mas sobre toda a sociedade brasileira.

No caso específico deste veneno é importante notar que o mesmo será provavelmente utilizado no Norte Fluminense, visto que foi liberado pela Anvisa para uso na monocultura da cana-de-açúcar.

Governo contraria a lei e libera agrotóxico mais nocivo à saúde

REYNALDO TUROLLO JR., DE SÃO PAULO

Contrariando a lei, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou a liberação de um agrotóxico mais nocivo à saúde do que outros já existentes no mercado com o mesmo princípio ativo e para o mesmo fim.

À Folha, a agência justificou a liberação como sendo um “erro”. Afirmou que o produto foi classificado como mais tóxico porque não conseguiu fazer os testes corretamente. Agora, mesmo sem parte dos exames, a Anvisa vai reclassificar o produto como menos nocivo, a fim de regularizá-lo (leia texto abaixo).

Para que um defensivo agrícola possa ser comercializado, é necessário aprovação do Ibama (órgão ambiental), da Anvisa (saúde) e do Ministério da Agricultura, que avalia a eficácia agronômica e, por fim, emite o registro.

Editoria de Arte/Folhapress

Os testes da Anvisa nessa etapa analisam a toxicidade aguda, que afeta principalmente o agricultor que manuseia e aplica o agrotóxico, além das comunidades no entorno das plantações.

A fabricante do produto liberado no ano passado, a Ourofino, já havia sido beneficiada de falhas na área de toxicologia da Anvisa em 2012, quando um ex-chefe do setor denunciou irregularidades.

Na ocasião, cinco produtos tiveram problemas, como “pular” a avaliação ou obter a aprovação apesar de serem mais tóxicos que os chamados produtos de referência.

Ao proibir a liberação de defensivos mais tóxicos do que os já existentes (produtos de referência), o objetivo da lei, de 1989, é estimular a indústria a desenvolver tecnologias menos danosas.

Após a Folha publicar uma série de reportagens sobre as irregularidades praticadas em 2012, a AGU (Advocacia-Geral da União) emitiu parecer em fevereiro de 2013 reafirmando que “nenhum agrotóxico pode ter toxicidade maior do que a daqueles já registrados para o mesmo fim”.

O HERBICIDA

Em setembro de 2014, porém, o herbicida para cana-de-açúcar e café MegaBR, da empresa Ourofino, passou pela Anvisa e obteve registro no Ministério da Agricultura apesar de ter sido classificado como mais tóxico que seus produtos de referência, o Metrimex 500 SC e o Gesapax, da Syngenta.

O MegaBR teve classificação toxicológica de nível 2 (altamente tóxico). Já os de referência são de nível 3 (medianamente tóxico) e nível 4 (pouco tóxico), respectivamente. Todos são feitos à base da substância ametrina.

Nas aprovações suspeitas, em 2012, outro produto da Ourofino também se beneficiou pela Anvisa –o inseticida para cana SingularBR. O produto era mais tóxico que seu produto de referência, o Regent 800 WG, da Basf, e continua no mercado, pois o parecer da AGU não foi retroativo.

A empresa é a mesma que, em 2011, emprestou um jatinho ao então ministro da Agricultura, Wagner Rossi. O episódio acelerou a saída dele do governo. A CGU (Controladoria-Geral da União) investigou o caso e concluiu não haver “evidências suficientes” de irregularidade.

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2015/07/1650470-governo-contraria-a-lei-e-libera-agrotoxico-mais-nocivo-a-saude.shtml

Relatório da OMS aponta o glifosato fabricado pela Monsanto como potencial causado de câncer

glifosato

A notícia saiu nos principais jornais do mundo, mas passou despercebida no Brasil, que é atualmente o maior consumidor mundial de agrotóxicos, inclusive os que já foram proibidos em diversas partes do mundo.   O fato é que a Agência Internacional para a Pesquisa do Câncer (AIPC), órgão ligado à Organização Mundial da Saúde publicou e circulou um relatório onde o agrotóxico Round Up (também conhecido como glifosato), produto fabricado pela multinacional Monsanto, é um agente potencialmente causador de câncer, mais precisamente o linfoma Non-Hodgkin. Além disso, o relatório aponta o glifosato como potencial causador de alterações na estrutura do DNA e das estruturas cromossômicas .

A coisa mais importante a se destacar neste caso é não apenas que o glifosato é abundantemente utilizado no Brasil, mas como também sua classificação pela ANVISA em termos de toxicidade humana é de nível IV, o que é o coloca apenas como ligeiramente tóxico. Esta classificação agora se choca diretamente com o relatório da AIPC, e levanta dúvidas sobre quais outros agrotóxicos estão classificados de forma equivocada e para baixo em termos de seu potencial de causar danos à saúde humana.

Quem quiser acessar o relatório completo da AIPC, basta clicar no link abaixo

MonographVolume112

A fragilidade da Anvisa e o uso indiscriminado de agrotóxicos no Brasil

Entrevista especial com Victor Manoel Pelaez Alvarez

 “As agências reguladoras estão em fase de desmanche. Isso faz com que o modelo de regulação e controle seja inviabilizado”, destaca o pesquisador.

Imagine um órgão que tem responsabilidade de fiscalizar o uso de agrotóxicos. Esse mesmo departamento sofre com a falta de corpo técnico qualificado e infraestrutura. É gerado pouco conhecimento cientifico – e há pouco material – que garanta análises de qualidade que poderiam banir substâncias que causem danos ao ser humano e ao meio ambiente. Do outro lado do balcão, multinacionais produtoras de agrotóxicos que lutam com alta tecnologia e grande corpo técnico qualificado contra esse frágil órgão.

Essa é a realidade da Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, o professor da Universidade Federal do Paraná, Victor Manoel Pelaez Alvarez, revela esse cenário. Embora comemore a evolução de um processo que baniu Forato e Parationa Metílica do país, reconhece que a regulação do uso de agrotóxicos precisa melhorar muito.

“O Brasil é o segundo maior mercado consumidor de agrotóxico do mundo, é o maior importador de agrotóxicos no mundo e com a maior taxa de crescimento das importações. Veja que o Brasil tem em torno de 45 técnicos que fazem avaliação. Nos Estados Unidos, são 850 pessoas para fazer a mesma coisa”, complementa.

Para Alvarez, mais importante do que repensar a legislação brasileira sobre o uso de agrotóxicos é de fato colocar em prática o que já existe. “Outro problema é que, quando a Anvisa tenta ter critérios mais rigorosos no processo de análise, começa a congestionar em função do grande número de análises que precisa ser feito. Para se ter ideia: há uma fila de 1500 produtos para avaliação, até junho de 2013. É uma fila que cresce com muita rapidez e não há capacidade de avaliação para atender a essa demanda”, destaca. O cenário ainda piora porque, além de deixar a Anvisa de braços amarrados em decorrência do pouco investimento, a Agência é negociada na lógica da lotação de cargos políticos. “O atual governo passou a capturar as próprias agências reguladoras. Isso na medida em que são cargos colocados à disposição de partidos políticos para a barganha política que a gente conhece”.

Como mudar esse cenário e efetivamente reduzir o consumo de agrotóxicos? Além de dar o devido valor à Anvisa, o pesquisador acredita que o debate também passe por novos modelo de produção. No entanto, adverte: “você não consegue introduzir novos modelos agrícolas, novas tecnologias no curto prazo. É logico que se diz que agricultura orgânica não é viável. Não é viável no curto prazo, como não era viável o modelo atual no curto prazo. São escolhas, trajetórias tecnológicas cujo resultado vai se dar no médio e longo prazo”.

Victor Manoel Pelaez Alvarez é graduado em Engenharia de Alimentos, mestre em Política Científica e Tecnológica pela Universidade Estadual de Campinas e doutor em Ciências Econômicas pela Université de Montpellier I. Além de professor da Universidade Federal do Paraná, é membro do Conselho Editorial do International Journal of Biotechnology e da Revista Brasileira de Inovação.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em dezembro do ano passado, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa aprovou o banimento dos agrotóxicos Forato e Parationa Metílica. O que são essas substâncias?

Victor Manoel Pelaez Alvarez – Parationa Metílica é um inseticida usado em várias culturas e o Forato é um fungicida e também acaricida usado também em várias culturas. A questão é que são produtos, no caso do Forato, proibido naUnião Europeia. A Parationa é proibida nos Estados Unidos desde 2013, também na União Europeia e na China.

Essa é a continuidade de um processo que começou em 2008, quando a Anvisa colocou em reavaliação 14 ingredientes ativos e que, até hoje, foram quatro desses ingredientes proibidos. Em 2008, as empresas entraram com processo liminar na Justiça para sustar esse processo de reavaliação.

Em novembro, a Anvisa conseguiu derrubar essa liminar e seguir adiante com a reavaliação de produtos. Boa parte desses produtos é o que consideramos como no fim de um ciclo de vida. Foram produzidos há muito tempo e, na medida em que se descobrem efeitos que não se conheciam, adversos à saúde e ao meio ambiente, é natural que esses produtos sejam descontinuados.

No Brasil e também no mundo inteiro, a estratégia das empresas é sempre buscar formas de adiar ao máximo esse processo. E uma das estratégias é justamente o recurso judicial. E até haver o desfecho do processo judicial, as empresas ganham vários meses e até anos.

IHU On-Line – E qual a alegação das empresas na Justiça para suspender esses processos? Defendem que o produto não tem reações adversas ao ser humano e ao meio ambiente?

“O Brasil é o segundo maior mercado consumidor de agrotóxico do mundo, é o maior importador de agrotóxicos no mundo”

Victor Manoel Pelaez Alvarez – Há vários argumentos. Tanto entram com contraprovas como também dizem que aquilo (o processo) é prejudicial à imagem das empresas. O que não faz sentido nenhum do ponto de vista técnico. Mas, tudo é possível. Ainda mais porque todo processo deavaliação toxicológica é polêmico. Não é perfeito, é cheio de limitações, de critérios de subjetividade. Na realidade, a objetividade surge de uma questão subjetiva.

Por quê? Grupos da comunidade científica entram em acordo sobre determinados critérios a serem adotados. Mas, necessariamente, não são perfeitos, pelo contrário. Uma das imperfeições é justamente que o processo de avaliação é feito caso a caso. Ou seja, o efeito de um único ingrediente ativo sobre as cobaias. Acontece que, na vida real, nos aplicadores ou como a população vai comer (ingerir a substância) há um conjunto de produtos, de resíduos de ingredientes ativos. Então, vai usar uma série de ingredientes na sequencia ou em conjunto. E não é feito nenhum estudo sobre o efeito sinérgico da combinação de diferentes ingredientes ativos. Há uma série de limitações, portanto, nas avaliações que são feitas. De qualquer forma, é um grande avanço poder ver que alguns produtos estão saindo do mercado. Veja que é um processo lento. Isso começou em 2008, mas aconteceu mesmo em 2013. Em março de 2008 mesmo, o próprio Ministério Público entrou com uma ação para que a Anvisa de fato retomasse o processo de reavaliação que ficou parado.

E assim a gente entra num outro aspecto que é importante: a falta de infraestrutura regulatória do país. E o Brasil é o segundo maior mercado consumidor de agrotóxico do mundo, é o maior importador de agrotóxicos no mundo e com a maior taxa de crescimento das importações. Só para comprar, veja que o Brasil tem em torno de 45 técnicos vinculados aos três ministérios que fazem avaliação, que é Agricultura, Saúde e Meio Ambiente. São eles que fazem avaliação de produtos. Nos Estados Unidos, são 850 pessoas para fazer a mesma coisa. Lembrando que os Estados Unidos é o maior mercado de agrotóxico. Veja a defasagem em termos de infraestrutura. Nos Estados Unidos, o custo de umregistro de um novo ingrediente ativo que vai ser utilizado em alimentos para consumo humano chega até 630 mil dólares. No Brasil, o custo máximo é de mil dólares. Nos Estados Unidos, há uma taxa de manutenção de registro anual e no Brasil não é cobrado nada.

IHU On-Line – No Brasil, os registros de agrotóxicos não tem data de validade. Uma vez alcançado o registro, passa a valer eternamente. Ou seja, fica a critério do fabricante e de inspeções da Anvisa buscar reavaliações. Qual a sua avaliação sobre essa forma de concessão de registros de agrotóxicos?

Victor Manoel Pelaez Alvarez – Exatamente. O prazo de registro no Brasil é indeterminado. Nos Estados Unidos, são 15 anos. Na União Europeia, 10 anos. Isso faz com que a cada 15 anos, no exemplo dos Estados Unidos, as empresas sejam obrigadas a atualizar os dossiês. Ou seja, os estudos de avaliação toxicológica tanto em relação ao ambiente quanto a saúde do ser humano. Isso é importante porque há uma evolução natural no conhecimento científico, nos testes que são mais sensíveis e assim por diante. Então, há produtos que estão no mercado há décadas e sem esse processo de reavaliação que é tão fundamental. Além disso, o ônus da prova, no caso do Brasil, cabe ao órgão regulador. Assim, é a Anvisa que tem que financiar estudos, mobilizar recursos, que já são extremamente escassos. E, depois, ainda brigar com o processo legal das empresas retardando o processo de avaliação. Veja a fragilidade de nosso processo regulatório.

IHU On-Line – E há perspectiva de se rever esse processo regulatório?

Foto: infobios.com

Victor Manoel Pelaez Alvarez – É preciso situar. O Marco Regulatório brasileiro é de 1989, a Lei de Agrotóxicos foi criada em 89. Ela tinha grandes avanços em relação a um decreto que era de 1934. Qual o grande avanço? Exigir estudos toxicológicos, de impacto ambiental, que não havia antes. E, inclusive, de avaliação do desemprenho agronômico do produto.

Até então, nenhuma legislação do mundo tinha a chamada análise de perigo. Todos processos de avaliação de agrotóxico começam com a análise de perigo. Só que aí há uma fase seguinte, como no caso dos Estados Unidos. O que faz o veneno é a dose. Então, se a gente controlar a dose, podemos minimizar o efeito e fazer uma análise do risco, a probabilidade de causar dano. A análise de risco é um modelo americano.

Ou seja, primeiro se avalia se tem perigo. Se há perigo, vamos avaliar como minimizar isso por uma análise de risco. Assim, se pode recomendar o uso equipamento de proteção individual, determinar dose diária aceitável, ingestão diária e assim por diante. Acontece que alguns produtos podem causar efeitos em doses muito pequenas. Então, é muito difícil esse controle. Nesse caso, a análise do perigo foi instituída por alguns tipos de efeitos. Por exemplo: causa câncer? Não importa a dose, está proibido. Causa má formação fetal, não importa a dose; causa desregulação endócrina, não importa a dose: está proibido.

Bem, está na lei desde 89. Só que uma coisa é estar na lei e a outra é implementar. E aí faltava um grande caminho para chegar lá. A União Europeia substituiu esse tipo de critério agora em 2013. Inclusive, uma série de substâncias que são comercializadas nos Estados Unidos já não podem ser na União Europeia. Isso é um grande incômodo para a indústria de agrotóxicos, que é uma indústria globalizada. São 13 multinacionais que controlam cerca de 90% do mercado mundial. Portanto, não tem interesse nenhuma que haja essa falta de harmonização. Obviamente clamam e defendem que o modelo de regulação dos Estados Unidos é o melhor.

“Não adianta ter oferta de alimento se não há distribuição da renda. E esse é o grande desafio que ainda permanece”.

Outro problema é que quando a Anvisa tenta ter critérios mais rigorosos no processo de análise começa a congestionar, em função do grande número de análises que precisa ser feito. Para se ter ideia: hoje, naAnvisa, há uma fila de 1500 produtos para avaliação, até junho de 2013. É uma fila que cresce com muita rapidez e não há capacidade de avaliação para atender a essa demanda. Em função disso, começam a surgir demandas por uma mudança na legislação por parte do setor produtivo, dos agricultores, etc. E aí a tendência é sempre minimizar, simplificar o problema.

O que está atravancando? É a atitude da Anvisa? Então, tira fora. Ou seja, coloca tudo num órgão só, centraliza na Agricultura, que historicamente em todos os países sempre foi mais flexível, menos exigente com questões ambientais e de saúde. Há projetos de lei justamente tentando retirar o poder de regulação e de decisão do Ibama e da Anvisa. Ou, ainda, de criar uma agência única, mas também no qual se centraliza o poder no que tange a questão de produção e não de saúde e meio ambiente. O modelo atual também não é satisfatório, nem para as empresas e nem para a população. É um modelo que não tem pessoal suficiente, há sempre conflitos de interesses entre os próprios órgãos que não se entendem, é muito pouco eficiente.

O que é mais impressionante é que o Brasil vai na contramão da tendência histórica, em que os mercados mais exigentes são aqueles em que saúde e meio ambiente são variáveis importantes de mercado. E não o produto mais barato. Negligencia essas variáveis e o coloca como uma oposição à produção. Como se a economia estivesse de um lado e as questões de meio ambiente de outro.

Não são variáveis antitéticas, pelo contrário. As sociedades mais democráticas e evoluídas são aquelas em que essas variáveis estão juntas, porque significa qualidade de vida. E o Brasil volta para décadas atrás ao invés de avançar, estar na liderança, na vanguarda do que seja a preservação da saúde e do meio ambiente.

IHU On-Line – Pelo que o senhor tem afirmado, essa legislação brasileira nem foi efetivamente posta em prática. É preciso reformar a legislação que temos ou bastaria apenas colocar em prática o que já existe?

Victor Manoel Pelaez Alvarez – Um aspecto importante, que faz parte da Revolução Verde – que surgiu num contexto pós-guerra, da Guerra Fria – era a disputa ideológica de como é que o capitalismo vai evitar que países pobres se tornem países socialistas ou comunistas. O aspecto alimentar é fundamental. Ou seja, a população tem que ter acesso a alimentação.

Como é que a gente faz isso? A fórmula capitalista era baratear os alimentos. Faço um alimento mais barato, que foi justamente a Revolução Verde, que assim há um aumento na produtividade. Só que para ter um aumento de produtividade teve de haver um uso intenso de insumos agrícolas, fertilizantes, sementes, agrotóxicos. E para isso é necessário investimento, capitalização. E é aí que há uma concentração dessa produção.

É um modelo já excludente, socialmente e economicamente, caro, tem o efeito de redução do custo do alimento pelo menos da produtividade. No entanto, não adianta ter oferta de alimento se não há distribuição da renda. E esse é o grande desafio que ainda permanece. Se boa parte da população consegue ter acesso a alimentos mais baratos, uma grande parte não consegue ter acesso porque não tem renda.

O modelo tecnológico colocado, de uso intensivo desses insumos, demandava um marco regulatório para tentar minimizar os efeitos adversos. E isso também tem um custo. Para difundir esses alimentos a baixo custo, foi feito a retirada de impostos de insumos e agrotóxicos.

No Brasil, os insumos agrícolas em geral, incluindo agrotóxicos, são isentos de IPI, tem redução de até 60% de ICMS, tem isenção de PIS/Cofins, o que faz com que o custo seja muito barato. Então, é muito barato produzir no Brasil. Ainda mais porque hoje tudo é muito importado da China, com baixo custo e pouco controle. E o setor público cobra muito pouco do setor privado para regular aquilo que o setor privado não controla e assim por diante.

Então, o modelo em si já é falido. E isso está ligado a um processo de democratização da sociedade. Existem sociedades mais democráticas em que esse custo acaba sendo privatizado, recai sobre as empresas. Em sociedade menos democrática esse custo é socializado, ou seja, é a população que paga. Que é o que acontece no Brasil. O poder político das empresas é muito forte, no sentido de evitar que haja taxação e impostos sobre esses produtos.

IHU On-Line – Penando nesse sentido, um caminho para reduzir o consumo de agrotóxicos não seria o governo investir em outros modelos de cultura? A produção de orgânicos é uma saída?

“Só se deve usar o agrotóxico de forma corretiva e não preventiva”.

Victor Manoel Pelaez Alvarez – Com certeza. E isso tudo é investimento de longo prazo. A própria Revolução Verde foi um investimento de longo prazo. Você não consegue introduzir novos modelos agrícolas, novas tecnologias no curto prazo. É um processo lento. Levou décadas até a revolução agrícola de fato se difundir em grande escala, o que envolveu uma grande rede de financiamento público, de pesquisa pública, de extensão rural. Ou seja, da mesma forma, se isso fosse feito com tecnologias agroecológicas ou orgânicas também seria viável. É logico que se diz que agricultura orgânica não é viável. Não é viável no curto prazo, como não era viável o modelo atual no curto prazo. São escolhas, trajetórias tecnológicas cujo resultado vai se dar no medio e longo prazo.

Isso é política publica que passa, por exemplo, por selecionar técnicos para as secretarias de agricultura. Se você seleciona um técnico cujo sistema que conhece está alinhado com o uso de agrotóxicos, não é essa pessoa que vai ter o incentivo de tentar mudar para uma tecnologia menos poluente. Veja que é um grande processo de transformação.

IHU On-Line – E em termos de Brasil, como estamos nesse processo?

Victor Manoel Pelaez Alvarez – Diria que estamos andando para trás em alguns casos. Houve um processo de desmanche do marco regulatório, que foi um avanço com relação aos anos 30. No entanto, esse marco não foi concluído porque não foi implementado de fato. E as agências têm cada vez mais restrições de ações, de incentivo. Para se ter ideia: uma agência reguladora tem o grande desafio que é lidar com a assimetria de informação. Ela regula um setor que é o que desenvolve a tecnologia, é o que tem conhecimento e que investe muito. Para ela conseguir regular, tem que investir muito em capacitação de pessoal para conhecer a fundo aquele setor que está sendo regulado.

A Agência de Proteção Ambiental nos Estados Unidos é a maior agência reguladora de lá. São cerca de 50 agências reguladoras no país, tanto é que chamado de quarto poder. Essa Agência que tem orçamento de certa de dez bilhões de dólares, tem 17 mil funcionários, dos quais três mil são pesquisadores de tempo integral com formação de doutorado. Isso é muito importante para reduzir essa assimetria de informação, pois tem que lidar com profissionais das empresas multinacionais que são altamente gabaritados. Esses funcionários vão gerar um conhecimento que interessa as empresas e que, por sua vez, vão ter muito mais argumentos num processo de litígio ambiental.

No Brasil, não existe esse processo de qualificação das agências reguladoras. Pelo contrário, elas estão em fase dedesmanche. Isso faz com que esse modelo de regulação e controle seja inviabilizado no Brasil.

IHU On-line – Então, sem investir pesado nas agências, tanto tecnicamente como materialmente, não tem como evoluir nesse modelo de regulação?

Foto: Anvisa

Victor Manoel Pelaez Alvarez – Não, não tem. Pelo contrário, está em franco retrocesso. Até porque o atual governo passou a capturar as próprias agências reguladoras. Existe a captura pelo setor provado, mas, no caso que a gente está vendo aqui no Brasil é a captura pelo próprio governo. Isso na medida em que são cargos colocados à disposição de partidos políticos para a barganha política que a gente conhece. Infelizmente estão num processo de retrocesso, numa involução no que seria o marco regulatório, ou a chamada regulação social.

IHU On-Line – Porque ainda se consome tanto agrotóxico no Brasil? Porque ainda se insiste em substâncias que já foram banidas de outros países?

Victor Manoel Pelaez Alvarez – São várias causas. O Brasil tem dimensões continentais, é o segundo maior produtor de alimentos no mundo. E não é por acaso. Os Estados Unidos são o primeiro e é o maior consumidor de agrotóxicos. O Brasil é o segundo maior consumidor. E aonde que se consome? 90% dos agrotóxicos são consumidos nas grandes commodities agrícolas para exportação, algodão, milho, café, cana-de-açúcar. O consumo é muito mais pela extensão, não pela intensidade. Ou seja, em quilos por hectare, o consumo de hortaliças e frutas é muito maior do que o da soja. Enquanto que a soja, por exemplo, vai consumir 18 quilos de agrotóxicos por hectare, a maçã pode consumir 60.

O grande consumo se dá pelas grandes extensões de plantio. E não por acaso que, justamente nos anos 2000, principalmente pela forte demanda de milho e soja pela China, o Brasil aumenta muito sua produção. E, obviamente, com isso vai aumentar também o consumo de agrotóxicos. O Brasil também tem vários estados em que se utiliza de suas safras por ano, o que também contribui para aumento do consumo.

E há justamente falta de controle. A fiscalização é extremamente frágil e precária e os impostos que não incidem acabam reduzindo os custos dos insumos. E aí não há um cuidado, por exemplo, em calibrar os bicos injetores, deracionalizar o uso desses produtos e ainda não se faz o manejo adequado de pragas. Ou seja, só se deve usar o agrotóxico de forma corretiva e não preventiva. Mas os agricultores acabam trabalhando numa estratégia de prevenção. E, usando as palavras de um agrônomo da Embrapa Soja: “é como você fazer um tratamento preventivo de um câncer que ainda não teve”. É uma coisa que não faz sentido.

O próprio manejo adequado de pragas, que é essa racionalização, pode levar a redução do consumo em mais de 50%. Então, tudo isso falta ao Brasil. Estamos num processo extremamente precário, com raras exceções. O grande crescimento acelerado de commodities e o custo relativamente barato desses produtos faz com que haja um incentivo a sua utilização e não a sua racionalização. É uma tecnologia de saturação e não de precisão. É o caso da pulverização, que acaba contaminando áreas ao redor. Assim, vemos principalmente casos de contaminação em escolas vizinhas às plantações.

IHU On-Line – Acreditava-se que o uso de sementes geneticamente modificadas poderia reduzir a necessidade de altas cargas de agrotóxicos. Mas, hoje, sabe-se que o cenário não é esse. Correto?

Victor Manoel Pelaez Alvarez – Recentemente avaliamos o custo de produção das grandes commodities, algodão, milho, em comparação com o trigo, que não tem ainda semente geneticamente modificada. O objetivo é ver como evoluíram os custos. Uma coisa interessante é justamente isso: os custos com agrotóxicos permanecem basicamente os mesmos, tanto em culturas transgênicas como não-transgênico, e o que mais aumenta são os custos das sementes. Chega a mais de 200% num período. E são as mesmas empresas, que fornecem sementes e agrotóxicos. Qual é a estratégia? Criaram a primeira geração de transgênico, geração de uma semente resistente ao herbicidaglifosato. Ou seja, passou-se a poder usar o que antes não era usado (já que as sementes não resistiam a essa substância).

Então não houve uma redução e sim um aumento. E ainda mais: com o único uso de uma substância, um único princípio ativo, gera resistência de ervas daninhas, assim como inseticidas geram resistências a insetos e assim por diante. E na sequencia tem que usar em mais quantidade ou tem que usar produtos que já estavam no fim de linha, no final do seu ciclo de vida. E ainda desenvolvem sementes geneticamente modificadas para resistirem a esses produtos que são extremamente tóxicos. Um exemplo é o paraquat, já proibido inclusive na China. E aqui no Brasil a estratégia de fazer uma mistura de glifosato com paraquat justamente para combater o efeito da resistência das erva daninhas.

Tudo aquilo que se dizia que era tecnologia de vanguarda porque iria utilizar só um ingrediente ativo com menos toxidade, de repente, com resistência e uso continuado, tem que voltar atrás no tempo. Há retrocesso tecnológico de usar produtos que, inclusive, já deveriam estar fora do mercado. Na realidade, tudo é uma estratégia de venda e convencimento que vai dar resultado.

Mas dá resultado no curto prazo, na fase seguinte já leva a ter que usar mais agrotóxico, mais agrotóxicos e mais tóxicos. Há alguma exceções como é o caso das variedades resistentes a insetos. Porém, hoje, se não houver uso continuado ou estrutura muito sofisticada de refúgios para evitar que haja uma geração de insetos resistentes em grande escala isso também vai acontecer. E pensar nessas estruturas com a fiscalização e controle que temos hoje Brasil é irreal. As nossas estruturas não tornam viáveis esse tipo de gestão tecnológica. Há outros recursos que poderiam ser utilizados, mas tudo depende de pesquisa e investimento.

Por João Vitor Santos

FONTE: http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/539242-fragilidade-da-anvisa-e-o-uso-indiscriminado-de-agrotoxicos-no-brasil-entrevista-especial-com-victor-manoel-pelaez-alvarez

Agrotóxicos: o veneno está na mesa e a abobrinha é a bola da vez!

Abobrinha é o alimento com mais resíduos de agrotóxicos

Amostras foram coletadas em 2012 em supermercados e feiras, em todos os estados brasileiros

A abobrinha foi o alimento no qual foram encontrados mais resíduos de agrotóxicos, segundo pesquisa divulgada hoje (14) no relatório final do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Entre as amostras de abobrinha, alface, feijão, fubá de milho, tomate e uva, 25% apresentaram irregularidades.

As amostras foram coletadas em 2012 em supermercados e feiras, em todos os estados brasileiros. O levantamento mostra que 1,9% dos alimentos tem uma quantidade de agrotóxico acima do limite, e em 23% foram encontrados resíduos de produtos não autorizados para a cultura do alimento.

Entre as 229 amostras de abobrinha, 48% foram consideradas insatisfatórias, 45% por terem ingredientes ativos não autorizados. Segundo a gerente-geral de toxicologia da Anvisa, Ana Maria Vekic, isso pode acontecer porque existem poucos produtos registrados para o cultivo da abobrinha.

Das 240 amostras de alface 45% foram reprovadas, o feijão, das 245, teve 7,3% insatisfatórias, o fubá de milho, das 208 amostras apresentou 2,9% insatisfatórias; no caso do tomate, das 246 amostras, 16% e a uva, das 229, teve 29% com irregularidades.

Apesar dos resultados, a superintendente de toxicologia da Anvisa, Sílvia Cazenave, assegura que os benefícios de consumir alimentos in natura superam os riscos da ingestão de resíduos de agrotóxicos. “A melhor recomendação é que as pessoas devem variar muito o tipo e de alimento que consomem”, recomendou Sílvia.

Esta é a segunda parte do levantamento de 2012. Na primeira, morango apareceu com 59% de irregularidades nas amostras e o pepino, que em 2011 tinha sido líder no ranking de agrotóxicos, com 42%.

O objetivo da Anvisa é rastrear o alimento e chegar até o produtor para orientá-lo a usar os agrotóxicos da forma adequada.

FONTE: http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2014-11/abobrinha-e-o-alimento-com-mais-residuos-de-agrotoxicos

Ações do Ministério Público Federal questionam registro de nove agrotóxicos

Entre as substâncias contestadas estão o glifosato e o 2,4-D, herbicidas de maior utilização no país

O Ministério Público Federal entrou nesta segunda, dia 24, com uma ação na Justiça Federal pedindo que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) suspenda os registros de oito agroquímicos utilizados amplamente nas lavouras brasileiras, entre eles o glifosato. A outra ação exige que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reavalie a utilização do defensivo 2,4-D, aplicado para combater ervas daninhas de folha larga nas plantações de milho e soja.

AGROTOXICOS
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A primeira ação questiona oito princípios ativos que fazem parte de uma lista de 14 ingredientes apontados pela própria Anvisa, ainda em 2008, como potencialmente nocivos à saúde e ao meio ambiente. São eles: parationa metílica, lactofem, forato, carbofurano, abamectina, tiram, paraquate e glifosato. Com exceção deste último, que é o mais utilizado no Brasil, os demais já foram proibidos na União Europeia, Estados Unidos ou China. Mesmo assim, continuam presentes em agrotóxicos empregados em diferentes tipos de lavoura no país.

Na segunda ação civil, o MPF contesta o registro do herbicida 2,4-D e pede que a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) seja proibida de liberar a comercialização de sementes transgênicas resistentes à substância até um posicionamento definitivo por parte da Anvisa.

Em resposta à recomendação expedida pelo Ministério Público Federal em dezembro do ano passado, a agência reguladora se comprometeu a concluir o trabalho até o final do primeiro semestre de 2014. O 2,4-D é um dos componentes do chamado agente laranja, utilizado pelos Estados Unidos durante a guerra do Vietnã.

Perigo

Em relação aos oito ingredientes constestados na primeira ação do MPF, a Anvisa admitiu a necessidade de promover sua reavaliação toxicológica ao publicar a Resolução RDC 10/2008. Dos seis ingredientes reavaliados, quatro foram banidos do país por serem altamente tóxicos: triclorfom, endossulfam, cihexatina e metamidofós. A substância fosmete foi reclassificada como extremamente tóxica, o que restringiu seu uso no mercado nacional, assim como o ingrediente ativo acefato, que teve seu registro mantido, mas com restrições.

O caso do herbicida 2,4 D é igualmente relevante, alega o MPF. Investigações realizadas pelo órgão apontam a existência de fortes dúvidas científicas sobre os efeitos nocivos do princípio ativo no meio ambiente e na saúde humana. Estudos e pesquisas recentes associam potencialmente o consumo do agrotóxico a mutações genéticas, má-formação embrionária, contaminação do leite materno, distúrbios hormonais e câncer, entre outros problemas.

A necessidade de reavaliação do registro do agrotóxico no Brasil também já foi reconhecida pela Anvisa, ainda em 2006, durante reunião com representantes do Ibama, Ministério da Agricultura, Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Agrícola e Ministério Público Federal. Até hoje, no entanto, a agência não emitiu informações conclusivas sobre a interferência endócrina, metabólica e reprodutiva provocada pelo 2,4-D.

Transgênicos

Informações colhidas pelo MPF em inquérito civil e audiência pública indicam que a liberação comercial de sementes de soja e milho geneticamente modificadas para resistir ao 2,4-D pode desencadear um efeito multiplicador no emprego e consumo do agrotóxico. Diante disso, e baseado no princípio da precaução, o MPF recomendou, em dezembro de 2013, que a CTNBio aguardasse as conclusões da Anvisa para decidir sobre o tema.

• Confira a íntegra das ações:

Processo 0021371-49.2014.4.01.3400

Processo 0021372-34.2014.4.01.3400

FONTE: http://agricultura.ruralbr.com.br/noticia/2014/03/acoes-do-ministerio-publico-federal-questionam-registro-de-nove-agrotoxicos-4455376.html

TCU aponta falhas graves e risco à saúde na liberação de agrotóxicos no Brasil

Uma das mais graves é a ausência de documentos e de estudos que a indústria de veneno deve apresentar quando pede ao País o parecer que determinará se produto pode ser comercializado

Por Vasconcelo Quadros – iG São Paulo 

Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) encontrou falhas gritantes no setor responsável pela avaliação de riscos dos agrotóxicos para a saúde da população. Uma das mais graves é a ausência de documentos e resultados de estudos que a indústria de veneno deve apresentar quando requisita o parecer que determinará se um produto pode ou não ser comercializado.

A Gerência Geral de Toxicologia (GGTOX) da Anvisa, segundo o TCU, liberava o Informe de Avaliação Toxicológica (IAT) – parecer imprescindível para registro e comercialização dos produtos – mediante um simples termo de compromisso, sobre o qual não há comprovação de cumprimento em muitos dos casos analisados. Em pelo menos 17 processos analisados, foram encontrados pareceres favoráveis a registros amparados em singelos termos de compromisso.

O procedimento é uma espécie de “gambiarra” e, segundo o TCU, contraria frontalmente o que prevê a legislação sobre a emissão de pareceres toxicológicos. Também leva riscos à população na medida em que produtos são liberados sem a comprovação de análise laboratorial – como estudos de resíduos, intervalo de segurança e limites -, que a indústria de produtos formulados deve apresentar quando requisita o registro.

O pior, diz o TCU, é a possibilidade do pedido de registro ser rejeitado quando o produto já tiver sido despejado nas lavouras. 

Como se trata de uma exigência explicitamente exigida pela lei dos agrotóxicos, o TCU não contemporiza com a irregularidade. “Tal iniciativa afronta a legalidade pela qual o agente público deve se pautar. Não lhe é dada a faculdade de ignorar exigências normativas, nem exigir documentos não previstos em substituição a outros”, diz um dos trechos do relatório do acórdão.

A fragilidade é tão visível que a própria Anvisa, nos processos por ela auditados, não encontrou nenhum laudo laboratorial demonstrando a composição quantitativa e qualitativa dos produtos para os quais havia pedido de registro. O documento previsto em lei foi substituído por uma declaração de compromisso que, conforme lembra o TCU, pode representar riscos à saúde pública.

No acórdão 2303/2013, publicado depois de uma auditoria operacional especial solicitada pelo Congresso Nacional diante de denúncias de irregularidades na Gerência de Toxicologia da Anvisa, o TCU esmiuça uma série de irregularidades encontradas no setor e é contundente em relação à fragilidade na emissão dos IATs.

O TCU determina então que o órgão “abstenha-se de emitir Informe de Avaliação Toxicológica sem que todos os documentos e estudos exigidos pelo Decreto 4.074/2002 e necessários à avaliação toxicológica estejam disponíveis no processo, abolindo o uso de Termo de Compromisso para entrega a posteriori de documentos”.

Nos três meses que passaram na Anvisa, os técnicos do TCU encontraram um setor sucateado, carente de recursos humanos e de meios tecnológicos, um contraste com sua função reguladora dos insumos usados no agronegócio. Retrato da fragilidade, havia até pessoas estranhas ao quadro de servidores do setor realizando “atividades finalísticas” de processos abertos para emissão de IATs. Pelo menos cinco pessoas que não pertenciam ao GGTOX foram identificadas atuando nas etapas de “regulamentação, controle e fiscalização dos limites de contaminantes orgânicos e resíduos de agrotóxicos”.

Outra falha, segundo o TCU, é o modelo de registro de resultados dos estudos de produtos com pedido de registro. Em vez do Sistema de Informações sobre Agrotóxicos (SAI), que permitiria fluxo e auditagem, mas que, embora previsto em lei, nunca chegou a ser implantado, ou do Sistema de Produtos e Serviços sob Vigilância Sanitária (Datavisa), desenvolvido para cadastrar, tramitar e gerenciar documentos no âmbito da agência, a GGTOX se utiliza de planilhas Excel.

Esse sistema permite, por exemplo, que uma mesma pessoa insira, altere ou exclua dados e fica arquivado em ambiente que compartilha outras informações do mesmo setor.

“A falta de segregação nesta atividade prejudica os controles internos e, consequentemente, permite a utilização indevida da fila de análise”, diz o relatório do TCU.

A auditoria foi instaurada depois que o ex-gerente do GGTOX Luiz Cláudio Meirelles denunciou adulteração em seis processos sobre pedidos de registro de agrotóxicos – um deles com sua assinatura falsificada. Além do TCU, o caso está sendo investigado por uma sindicância interna da Anvisa cujo resultado o órgão está mantendo em sigilo, e por dois inquéritos, um na Polícia Federal e outro no Ministério Público Federal, ainda não encerrados. Os inquéritos apuram suspeitas de corrupção envolvendo servidores na liberação ilegal de pareceres sobre agrotóxicos.

Na conclusão do relatório, em agosto do ano passado, os ministros Aroldo Cedraz, presidente do TCU, e Walton Alencar Rodrigues, relator do acórdão, determinam que a Anvisa promova mudanças estruturais para fortalecer o setor de toxicologia.

Também deram um prazo de 180 dias, que expira na próxima terça-feira, para que a Anvisa informe se as mudanças foram implantadas e entregue cópias da conclusão das sindicâncias internas que apuraram as irregularidades.

Procurada pelo iG, a assessoria de imprensa da Anvisa informou que os seis casos denunciados por Meirelles estão sendo investigados na devassa interna que abrange todos os processos concluídos desde 2008. Sobre o relatório do TCU, não se manifestou.

FONTE: http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2014-03-07/tcu-aponta-falhas-graves-e-risco-a-saude-na-liberacao-de-agrotoxicos-no-brasil.html

O perigo dos agrotóxicos

Anvisa revelou que 36% das amostras de alimentos estavam impróprias para o consumo

Por FERNANDO CARNEIRO

O agronegócio brasileiro vem pressionando a Presidência da República e o Congresso para diminuir o papel do setor de saúde na liberação dos agrotóxicos. O Brasil é o maior consumidor desses venenos no planeta e a cada dia se torna mais dependente deles. Qual o impacto que essas medidas terão na saúde da população brasileira?

No Brasil, a cada ano, cerca de 500 mil pessoas são contaminadas, segundo o Sistema Único de Saúde (SUS) e estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS). Os brasileiros estão consumindo alimentos com resíduos de agrotóxicos acima do limite permitido e ingerindo substâncias tóxicas não autorizadas.

Em outubro, a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) revelou que 36% das amostras analisadas de frutas, verduras, legumes e cereais estavam impróprias para o consumo humano ou traziam substâncias proibidas no Brasil, tendência crescente nos últimos anos.

Os agrotóxicos afetam a saúde dos consumidores, moradores do entorno de áreas de produção agrícola ou de agrotóxicos, comunidades atingidas por resíduos de pulverização aérea e trabalhadores expostos. Mesmo frente a esse quadro, mais dramática é a ofensiva do agronegócio e sua bancada ruralista para aprofundar a desregulamentação do processo de registro no país.

Qualquer agrotóxico, para ser registrado, precisa ser analisado por equipes técnicas dos ministérios da Agricultura, Saúde e Meio Ambiente. Inspirados na CTNBIO, instância criada para avaliar os transgênicos, que até hoje autorizou 100% dos pedidos de liberação a ela submetidos, os ruralistas querem a criação da CTNAGRO, na qual o olhar da saúde e meio ambiente deixaria de ser determinantes para a decisão.

Quem ganha e quem perde com essa medida? Não há dúvida que entre os beneficiários diretos está o grande agronegócio, que tem na sua essência a monocultura para exportação. Esse tipo de produção não pode viver sem o veneno porque se baseia no domínio de uma só espécie vegetal, como a soja. Por isso, a cada dia, surgem novas superpragas, que, associadas aos transgênicos, têm exigido a liberação de agrotóxicos até então não autorizados para o Brasil. O mais recente caso foi a autorização emergencial do benzoato de amamectina usado para combater a lagarta Helicoverpa, que está dizimando as lavouras de soja de norte a sul do país. A lei que garantiu a liberação desse veneno tramitou e foi aprovada em um mês pelo Congresso e pela Presidência da República.

A pergunta que não quer calar é: no momento em que a população brasileira espera um Estado que garanta o direito constitucional à saúde e ao ambiente, por que estamos vendo o contrário? Na maioria dos estados brasileiros os agrotóxicos não pagam impostos.

O Estado brasileiro tem sido forte para liberalizar o uso de agrotóxicos, mas fraco para monitorar e controlar seus danos à saúde e ao ambiente. Enquanto isso, todos nós estamos pagando para ser contaminados…

FONTE: http://oglobo.globo.com/opiniao/o-perigo-dos-agrotoxicos-11386588#ixzz2rPd3MVMf