Os principais cientistas climáticos do mundo esperam que o aquecimento global ultrapasse a meta de 1,5°C

O planeta caminha para pelo menos 2,5°C de aquecimento com resultados desastrosos para a humanidade, descobriu uma pesquisa com centenas de cientistas

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A crise climática já está  causando danos profundos a vidas e meios de subsistência em todo o mundo. Ilustração: Guardian Design/Halil Kahraman

Por Damian Carrington para o “The Guardian”

Centenas dos principais cientistas climáticos do mundo esperam que as temperaturas globais subam para pelo menos 2,5°C neste século, ultrapassando as metas acordadas internacionalmente e causando consequências catastróficas para a humanidade e para o planeta, revelou uma pesquisa exclusiva do The Guardian.

Quase 80% dos inquiridos, todos do conceituado Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), prevêem pelo menos 2,5°C de aquecimento global acima dos níveis pré-industriais, enquanto quase metade prevê pelo menos 3°C. Apenas 6% consideram que o limite de 1,5°C  acordado internacionalmente será cumprido.

Muitos dos cientistas prevêem um futuro “semi-distópico”, com fomes, conflitos e migrações em massa, impulsionados por ondas de calor, incêndios florestais, inundações e tempestades com uma intensidade e frequência muito superiores às que já ocorreram.

Numerosos especialistas afirmaram que se sentiram desesperados, enfurecidos e assustados com o fracasso dos governos em agir, apesar das claras evidências científicas fornecidas.

“Penso que estamos caminhando para uma grande perturbação social nos próximos cinco anos”, disse Gretta Pecl, da Universidade da Tasmânia. “[As autoridades] ficarão sobrecarregadas com evento extremo após evento extremo, a produção de alimentos será interrompida. Eu não poderia sentir maior desespero em relação ao futuro.”

Quão alto irá o aquecimento global? Quão acima dos níveis pré-industriais você acha que a temperatura média global aumentará entre agora e 2100? Contagem de respostas dadas por especialistas em clima do IPCC

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Mas muitos disseram que a luta climática deve continuar, por mais elevada que seja a temperatura global, porque cada fração de grau evitada reduziria o sofrimento humano.

Peter Cox, da Universidade de Exeter, no Reino Unido, afirmou: “As alterações climáticas não se tornarão repentinamente perigosas a 1,5ºC – já o são. E não será um ‘fim de jogo’ se passarmos de 2ºC, o que podemos muito bem fazer.”

O The Guardian abordou todos os principais autores ou editores de revisão contatáveis ​​dos relatórios do IPCC desde 2018. Quase metade respondeu, 380 de 843. Os relatórios do IPCC são as avaliações padrão-ouro das alterações climáticas, aprovadas por todos os governos e produzidas por especialistas em ciências físicas e sociais. Os resultados mostram que muitas das pessoas mais bem informadas do planeta esperam que a destruição climática se desenvolva nas próximas décadas.

A crise climática já está causando danos profundos a vidas e meios de subsistência em todo o mundo, com apenas 1,2ºC  de aquecimento global, em média, nos últimos quatro anos. Jesse Keenan, da Universidade de Tulane, nos EUA, disse: “Este é apenas o começo: apertem os cintos”.

Nathalie Hilmi, do Centro Científico de Mônaco, que espera um aumento de 3ºC, concordou: “Não podemos ficar abaixo de 1,5ºC”.

Os especialistas afirmaram que os preparativos massivos para proteger as pessoas dos piores desastres climáticos que se avizinham são agora críticos. Letícia Cotrim da Cunha, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, disse: “Estou extremamente preocupada com os custos em vidas humanas”.

A meta de 1,5ºC foi escolhida para prevenir o pior da crise climática e tem sido vista como uma importante estrela orientadora para as negociações internacionais. As actuais políticas climáticas significam que o mundo está no caminho certo para cerca de 2,7ºC , e o inquérito do The Guardian mostra que poucos especialistas do IPCC esperam que o mundo tome as medidas necessárias para reduzir esse valor.

Os cientistas mais jovens foram mais pessimistas, com 52% dos entrevistados com menos de 50 anos esperando um aumento de pelo menos 3°C, em comparação com 38% daqueles com mais de 50 anos. As mulheres cientistas também foram mais pessimistas do que os homens, com 49% pensando que a temperatura global aumentaria pelo menos 3°C, em comparação com 38%. Houve pouca diferença entre cientistas de diferentes continentes.

Dipak Dasgupta, do Instituto de Energia e Recursos de Nova Deli, afirmou: “Se o mundo, inacreditavelmente rico como é, ficar parado e fizer pouco para resolver a situação dos pobres, acabaremos todos por perder.”

Os especialistas foram claros sobre a razão pela qual o mundo não está conseguindo enfrentar a crise climática. A falta de vontade política foi citada por quase três quartos dos inquiridos, enquanto 60% também culparam interesses empresariais instalados, como a indústria dos combustíveis fósseis.

Muitos também mencionaram a desigualdade e o fracasso do mundo rico em ajudar os pobres, que sofrem mais com os impactos climáticos. “Espero um futuro semi-distópico com dor e sofrimento substanciais para as pessoas do Sul global”, disse um cientista sul-africano, que optou por não ser identificado. “A resposta do mundo até à data é repreensível – vivemos numa época de tolos.”

Cerca de um quarto dos especialistas do IPCC que responderam pensam que o aumento da temperatura global seria mantido em 2ºC ou menos, mas mesmo eles moderaram as suas esperanças.

“Estou convencido de que temos todas as soluções necessárias para um caminho de 1,5°C e que as implementaremos nos próximos 20 anos”, disse Henry Neufeldt, do Centro Climático de Copenhaga da ONU. “Mas temo que as nossas ações possam chegar tarde demais e cruzarmos um ou vários pontos de inflexão .”

Lisa Schipper, da Universidade de Bonn, na Alemanha, disse: “A minha única fonte de esperança é o fato de, como educadora, poder ver a próxima geração a ser tão inteligente e a compreender a política.”


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Fonte: The Guardian

Aquecimento do oceano impacta distribuição de corais e ameaça espécies exclusivas da costa brasileira

mussi braziliensisAquecimento do oceano deve impactar sobrevivência de espécie tropical Mussismilia braziliensis, ou coral-cérebro

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O aquecimento do oceano deve provocar mudanças drásticas na distribuição de importantes corais na costa brasileira. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e do Instituto Espanhol de Oceanografia preveem que, até 2050, o litoral do Norte e Nordeste se tornará menos favorável à sobrevivência dos corais, enquanto o contrário ocorrerá nas águas do Sul e Sudeste. As conclusões foram publicadas nesta terça (16) em artigo na revista científica “Diversity and Distributions”.

A pesquisa alerta que espécies limitadas às regiões tropicais, como Mussismilia braziliensis, ou coral-cérebro, e Mussismilia harttii, podem ter dificuldades em migrar para o sul.

Os cientistas analisaram doze espécies de corais, predizendo suas distribuições para os anos de 2050 e 2100 diante um cenário intermediário de emissões de gases causadores do efeito estufa — os quais resultam nas mudanças climáticas que levam ao aquecimento do oceano. Os resultados permitem propor ações de conservação específicas para cada espécie, levando em consideração as tendências observadas nas populações de corais.

Espécies de maior abrangência encontram maior probabilidade de expandir sua presença ao litoral subtropical. Por outro lado, “o resultado que mais nos impressionou foi o grande declínio que previmos para duas espécies de coral-cérebro que só ocorrem na costa brasileira, e que são importantes construtoras do maior complexo recifal do Atlântico Sudoeste, o Banco dos Abrolhos”, explica a primeira autora do estudo, a pesquisadora Melina Martello. “Com a perda dessas espécies, o ambiente deve reduzir a complexidade e biodiversidade associadas”, completa.

Segundo o trabalho, serão os corredores ecológicos que conectam as regiões tropical e subtropical do litoral brasileiro que, se preservados, aumentarão as chances de uma possível expansão e persistência dos corais. A criação de novas áreas de proteção marinhas – e fortalecimento das já existentes – na porção subtropical, por exemplo, podem assegurar a transferência de espécies para locais com clima mais favorável.

Agora, os pesquisadores pretendem investigar até que ponto a expansão dos corais é possível, conforme explica o chefe do Departamento de Oceanografia e Limnologia da UFRN, Guilherme Longo, também autor do estudo. “O coral é um animal que fica fixo no recife. Ele joga larvas na água, que derivam pelas correntes e atingem outro lugar. Então, o próximo passo é justamente incorporar ao modelo a capacidade biológica dos corais se dispersarem como estamos prevendo, e verificar se isso é favorecido pelos sistemas de correntes vigentes na costa brasileira. Assim, poderemos ter uma ideia mais precisa da probabilidade desse cenário, que o estudo prevê, ocorrer ou não”, analisa o cientista.


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Fonte: Agência Bori

A perda global de florestas tropicais continua a uma taxa de 10 campos de futebol por minuto

Apesar dos grandes progressos no Brasil e na Colômbia, o desmatamento liderado pela agricultura ainda desmatou uma área quase igual à da Suíça

desmatamentoFloresta queimada na área de conservação Ñembi Guasu em Charagua, Bolívia. A expansão do cultivo da soja levou a um aumento na perda florestal pelo terceiro ano na Bolívia. Fotografia: David Mercado/Reuters

Por Patrick Greenfield para o “The Guardian”

A destruição das florestas tropicais mais preservadas do mundo continuou a um ritmo implacável em 2023, apesar das quedas dramáticas na perda de florestas na Amazónia brasileira e colombiana, mostram novos números.

Uma área quase do tamanho da Suíça foi desmatada de florestas tropicais anteriormente intactas no ano passado, totalizando 37 mil quilómetros quadrados (14.200 milhas quadradas), de acordo com números compilados pelo World Resources Institute (WRI) e pela Universidade de Maryland. Esta é uma taxa de 10 campos de futebol por minuto, muitas vezes impulsionada pelo aumento de terras cultivadas em todo o mundo.

Embora o Brasil e a Colômbia tenham registado grandes quedas na perda florestal de 36% e 49%, respectivamente, sob as políticas ambientais dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Gustavo Petro, essas quedas foram compensadas por grandes aumentos na Bolívia, Laos, Nicarágua e outros países.

O Canadá também sofreu uma perda recorde de floresta devido ao fogo, perdendo mais de 8 milhões de hectares (20 milhões de acres).

Mikaela Weisse, diretora do Global Forest Watch do WRI, disse: “O mundo deu dois passos para frente e dois para trás no que diz respeito à perda florestal do ano passado.

“Os declínios acentuados na Amazônia brasileira e na Colômbia mostram que o progresso é possível, mas o aumento da perda florestal em outras áreas contrabalançou em grande parte esse progresso”, disse ela. “Temos de aprender com os países que estão a abrandar com sucesso a desflorestação.”

As alterações na utilização dos solos – das quais a desflorestação é uma componente central – são a segunda maior fonte de emissões de gases com efeito de estufa e um dos principais impulsionadores da perda de biodiversidade. Preservar as florestas tropicais é essencial para limitar o aquecimento global a 1,5°C (2,7°F) acima dos níveis pré-industriais, segundo os investigadores.

Uma rodovia atravessa trilhos de trem perto de Phonhong, no Laos

Uma ferrovia que liga Kunming, na China, a Vientiane, no Laos, passa por baixo de uma rodovia perto de Phonhong, no Laos, onde a demanda chinesa alimentou a expansão agrícola. Fotografia: Reuters

Especialistas alertaram que a desflorestação contínua significa que os governos estão perigosamente desviados no que diz respeito ao cumprimento dos seus compromissos climáticos e de biodiversidade. Na conferência climática Cop28, no Dubai, os governos concordaram sobre a necessidade de travar e reverter a perda e a degradação das florestas até 2030, após o compromisso dos líderes mundiais na Cop26, em Glasgow, de pôr fim à sua destruição nesta década.

Mas os novos números mostram que o mundo está muito longe de atingir esta meta, com poucas alterações na perda global de florestas durante vários anos.

Embora o Brasil tenha diminuído significativamente a sua taxa de perda florestal, o país continuou a ser um dos três países com maior perda de floresta tropical primária, ao lado da República Democrática do Congo e da Bolívia. Juntos, foram responsáveis ​​por mais de metade da destruição global total.

A Bolívia registou um grande aumento na perda de florestas pelo terceiro ano consecutivo – apesar de ter menos de metade da floresta de outros grandes países com florestas tropicais, como a RDC e a Indonésia – impulsionado em grande parte pela expansão do cultivo da soja.

O Laos e a Nicarágua perderam grandes pedaços da sua floresta tropical intocada em 2023, desmatando 1,9% e 4,2%, respetivamente, num único ano, o que os investigadores afirmam ser porque florestas altamente fragmentadas em países que já tinham sido desmatadas extensivamente podem muitas vezes ser apagadas mais rapidamente.

No Laos, a expansão agrícola está a ser alimentada pela procura de mercadorias por parte da China, enquanto na Nicarágua a culpa é da pecuária e da agricultura em expansão.

Gado pasta em Chikova, Zimbábue
‘Não sabemos para onde vai o dinheiro’: os ‘cowboys do carbono’ que ganham milhões com esquemas de crédito

Apesar da falta de progresso geral nos números para 2023, os investigadores disseram que o mundo poderia aprender com os exemplos do Brasil e da Colômbia para cumprir as metas de desflorestação.

O professor Matthew Hansen, especialista em sensoriamento remoto do departamento de geografia da Universidade de Maryland, disse: “Eu realmente acredito que a única maneira de manter as florestas em pé é um fundo de compensação para a conservação das florestas tropicais em pé.

“A Alemanha lançou o Acordo Justo ‘, que pretende pagar desta forma aos países com florestas tropicais. A Noruega envolveu-se com o Gabão de forma semelhante, utilizando o sequestro de carbono como medida. Junte essa abordagem a uma governação robusta e ao envolvimento da sociedade civil e poderá funcionar”, disse ele.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Queda de árvores em áreas urbanas, um problema ambiental prioritário

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No dia 17 de dezembro de 2023, uma tempestade em Buenos Aires (Argentina) causou 13 mortes e milhares de danos, incluindo a queda de 715 árvores e galhos de grande porte. Crédito da imagem: David Bustozoni/Flickr , licenciado sob Creative Commons CC BY-NC-ND 2.0 Deed 

Isso é sugerido por um estudo publicado na revista Urban Forestry and Urban Greening , que oferece algumas recomendações baseadas na análise da cobertura arbórea em São Paulo (Brasil), onde são registradas até duas mil quedas por ano.

Com base nas quedas registradas naquela cidade entre 2016 e 2018, os pesquisadores identificaram as causas e definiram linhas de ação para reduzir os danos.

Durante as tempestades, a água enfraquece os solos e as rajadas de vento produzem falhas mecânicas que podem derrubar árvores, disse Giuliano Locosselli, especialista do Instituto de Pesquisa Ambiental do estado de São Paulo e um dos autores do estudo, ao SciDev.Net .

Em particular, as árvores que crescem nas ruas dentro dos corredores de edifícios altos são mais propensas a cair, devido à canalização dos ventos. Os espécimes mais velhos são especialmente vulneráveis, pois sofrem microfraturas ao longo da vida e ficam expostos a fungos e microorganismos que os degradam.

“Devemos entender as árvores como parte da infraestrutura urbana que traz muitos benefícios às pessoas e à biodiversidade.” Mas também “requerem manutenção para continuarem a proporcionar benefícios sem se tornarem um risco”.

Giuliano Locosselli, Instituto de Pesquisas Ambientais do Estado de São Paulo, Brasil

Com base nessas observações, os pesquisadores utilizaram algoritmos de inteligência artificial para elucidar a importância de cada um dos fatores que influenciam a queda.

Assim, concluíram que os problemas nos galhos representam 46% das causas das quedas – porque se dobram mais facilmente pelo vento -, 33 %respondem a falhas nas raízes – resultado do seu confinamento para evitar que invadam casas ou ruas —e 21% a problemas no tronco, devido à degradação da madeira e a más práticas de poda.

Lições da tempestade

No dia 17 de dezembro de 2023, uma tempestade em Buenos Aires (Argentina) causou 13 mortes e milhares de danos, incluindo a queda de 715 árvores e galhos de grande porte.

Em posterior passeio pela cidade, o agrônomo Carlos Anaya – presidente da Associação Civil de Arboricultura de seu país – ficou surpreso com a quantidade desproporcional de árvores verdes perdidas , algo que atribuiu ao uso “frequente, excessivo e indiscriminado”  de podas que as enfraquece ainda mais.

“A poda deve ser mínima”, insiste ele ao SciDev.Net . “Não se deve sair e podar de acordo com um calendário ou grade, mas sim nas árvores jovens que precisam e com um objetivo claro.” É importante fazer isso nos horários indicados (variam para cada espécie) e com pequenos cortes, evitando avançar quando a árvore estiver estressada por pragas, secas ou enchentes, acrescenta.

“Devemos entender as árvores como parte da infraestrutura urbana que traz muitos benefícios às pessoas e à biodiversidade ”, observa Locosselli. Mas também “requerem manutenção para continuarem a proporcionar benefícios sem se tornarem um risco”.

As iniciativas de planejamento e gestão exigem considerar as variações que podem ocorrer em cada cidade em relação ao clima, topografia e tipo de espécie, destaca Anaya.

O estudo da Urban Forestry também propõe que os governos locais verifiquem rotineiramente a resiliência das árvores, que os órgãos públicos e as empresas privadas revejam as suas práticas de poda e que os cidadãos deixem espaço para o crescimento das raízes na frente das suas casas.

Algumas dessas recomendações estão incluídas no novo Plano Diretor de São Paulo , que inclui treinamento para servidores públicos e prestadores de serviços, conforme detalhado no estudo.

Na mesma linha, o ecologista urbano Cynnamon Dobbs, especialista da Universidade de Connecticut que estudou ecossistemas urbanos na América Latina, lembra que Bogotá (Colômbia), Santiago do Chile e Mendoza (Argentina) mostraram “muito progresso em suas inventários de árvores, que são a base de informações para gerar bons planos de manejo.”

Lembre-se também que Cities4Forests—a aliança global dedicada à conservação das florestas nas cidades—destaca as experiências bem-sucedidas do programa dedicado à Mata Atlântica no Rio de Janeiro (2015), a criação de um cinturão verde ao redor da cidade peruana de Iquitos (2011- 2021) e a iniciativa de construir uma relação harmoniosa entre os cidadãos e o meio ambiente na comuna chilena de Coronel (2009-2050).

No entanto, a nível global e regional, faltam detalhes sobre as ações que levam a uma implementação bem-sucedida com os seus orçamentos correspondentes, afirma Dobbs.

Para tal, recomenda que os programas de plantação sejam geridos à escala do bairro (para melhorar a monitorização) e monitorizem a saúde das árvores no terreno ou remotamente, incluindo a identificação de conflitos com infraestruturas prediais, como cabos aéreos ou o pavimento elevado.

A gestão virtuosa deve também abordar a potencial vulnerabilidade à pragas e doenças de diferentes espécies, para identificar eventuais substitutos. Isto não só melhorará a saúde das árvores, mas também aspectos relevantes como a qualidade do ar e a segurança das pessoas.


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Este artigo escrito originalmente em espanho foi publicado pela edição América Latina e Caribe do  SciDev.Net [Aqui!].

As temperaturas ‘surpreendentes’ dos oceanos em 2023 intensificaram condições meteorológicas extremas, mostra estudo inédito

Níveis recordes de calor foram absorvidos no ano passado pelos mares da Terra, que têm aquecido ano após ano na última década

Mulheres caminham por uma rua urbana parcialmente inundada com evidências de danos ao seu redor, sob forte chuva

O ciclone Freddy, o ciclone de maior duração alguma vez registado, atingiu Blantyre, no Malawi, no ano passado. Fotografia: Thoko Chikondi/AP 

Por Damian Carrington para o “The Guardian”

As temperaturas “surpreendentes” dos oceanos em 2023 sobrecarregaram o clima “estranho” em todo o mundo à medida que a crise climática continuava a intensificar-se, revelaram novos dados.

Os oceanos absorvem 90% do calor retido pelas emissões de carbono provenientes da queima de combustíveis fósseis, tornando-se o indicador mais claro do aquecimento global. Níveis recordes de calor foram absorvidos pelos oceanos em 2023, disseram os cientistas, e os dados mostraram que, na última década, os oceanos têm estado mais quentes todos os anos do que no ano anterior.

O calor também levou a níveis recordes de estratificação nos oceanos, onde a acumulação de água quente na superfície reduz a mistura com águas mais profundas. Isto reduz a quantidade de oxigénio nos oceanos, ameaçando a vida marinha, e também reduz a quantidade de dióxido de carbono e de calor que os mares podem absorver no futuro.

As medições fiáveis ​​da temperatura dos oceanos remontam a 1940, mas é provável que os oceanos estejam agora no seu nível mais quente dos últimos 1.000 anos e a aquecer mais rapidamente do que em qualquer altura dos últimos 2.000 anos .

A medida mais comum da crise climática – a temperatura média global do ar – também aumentou em 2023, por uma margem enorme . Mas as temperaturas do ar são mais afetadas pelas variações climáticas naturais, incluindo o regresso, no ano passado, do fenómeno de aquecimento El Niño.

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“O oceano é a chave para nos dizer o que está a acontecer ao mundo e os dados pintam um quadro convincente do aquecimento ano após ano”, disse o professor John Abraham, da Universidade de St Thomas, no Minnesota, parte da equipa que produziu os novos dados.

“Já estamos enfrentando as consequências e elas vão piorar muito se não tomarmos medidas”, disse ele. “Mas podemos resolver este problema hoje com conservação de energia eólica, solar, hídrica e energética. Quando as pessoas percebem isso, é muito fortalecedor. Podemos inaugurar a nova economia energética do futuro, economizando dinheiro e o meio ambiente ao mesmo tempo.”

As temperaturas extraordinárias em 2023 levantaram a questão de saber se o aquecimento global estava a acelerar. Mas Abraham disse: “Estamos atentos a isso, mas, atualmente, não detectamos uma aceleração estatisticamente significativa. Neste momento, é basicamente um aumento linear em relação a 1995.”

O novo estudo, publicado na revista Advances in Atmospheric Sciences , utilizou dados de temperatura recolhidos por uma série de instrumentos nos oceanos para determinar o conteúdo de calor dos 2.000 metros superiores, onde a maior parte do calor é absorvido, bem como as temperaturas da superfície do mar. 

Em 2023, 15 zetajoules adicionais de calor foram absorvidos pelos oceanos, em comparação com 2022. Em comparação, a humanidade utiliza cerca de meio zetajoules de energia por ano para alimentar toda a economia global. No total, os oceanos absorveram 287 zetajoules em 2023.

Estes números são baseados em dados do Instituto de Física Atmosférica da Academia Chinesa de Ciências. Um conjunto de dados separado da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA encontrou um aumento semelhante e uma tendência idêntica ao longo do tempo.

Um relatório separado , do consórcio Global Water Monitor (GWM), concluiu que alguns dos piores desastres de 2023 foram devidos a ciclones invulgarmente fortes que trouxeram chuvas extremas para Moçambique e Malawi, Mianmar, Grécia, Líbia, Nova Zelândia e Austrália.

O professor Albert Van Dijk, da GWM, disse: “Vimos ciclones se comportarem de maneiras inesperadas e mortais. O ciclone de maior duração alguma vez registado atingiu o sudeste de África durante semanas. As temperaturas mais altas do mar alimentaram esses comportamentos estranhos, e podemos esperar ver mais desses eventos extremos no futuro.”

Abraham disse que é necessário um rápido fim à queima de carvão, petróleo e gás: “Se não inclinarmos a trajetória das alterações climáticas para baixo, então iremos experimentar condições meteorológicas mais extremas, mais perturbações climáticas, mais refugiados climáticos, mais perda de produtividade agrícola. Teremos custos em dólares e vidas por um problema que poderíamos ter evitado. E, geralmente, os menos responsáveis ​​serão os que mais sofrerão, o que é uma tremenda injustiça.”


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Este artigo escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Brasil está preparado para novas ondas de calor em 2024?

País teve em 2023 quase um quinto do ano com altas temperaturas extremas, mas não conta com infraestrutura necessária para lidar com as mudanças climáticas e suas consequências

praia cheiaFoto: Tercio Teixeira/AFP via Getty Images 

Por Nilson Brandão para a Deutsche Welle

Com nove ondas de calor em 2023 e seguindo uma tendência mundial, o Brasil deverá continuar com uma sucessão de altas recordes de temperatura em 2024, segundo especialistas ouvidos pela DW. O grande problema é que a infraestrutura do país não está preparada para isso.

“Entraremos em um ano em que os extremos se tornarão ainda mais frequentes e, em alguns casos, com maior intensidade”, afirma Gilvan Sampaio, coordenador de Ciências da Terra do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Além do calor forte no Sudeste e no Centro-Oeste, devem haver secas de diversas intensidades no Nordeste e chuvas e inundações na região Sul.

Em 2023, o país somou 65 dias de muito calor, o equivalente a quase um quinto do ano (18%), de acordo com dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Entre julho e novembro, foram cinco recordes seguidos de temperatura média. As novas ondas de calor acontecerão já neste verão e ao longo do primeiro semestre de 2024.

Consequências na saúde

Mas o que ondas de calor cada vez mais frequentes podem representar? O impacto pode ser sentido desde a saúde até problemas na natureza.

“O calor extremo tem consequências para as pessoas e sistemas naturais no Brasil. As ondas de calor em 2023 foram acompanhadas de alta umidade relativa, que impacta as pessoas”, explica Yasna Palmeiro, pesquisadora do Lancet Countdown América Latina, citando riscos de desmaios, doenças cardíacas e até morte.

Mulher se refresca jogando água de uma garrafa pet na cabeça

Sensação térmica de aproximou de 60ºC no Rio de Janeiro em novembroFoto: Silvia Izquierdo/AP Photo/picture alliance

Em novembro, a temperatura beirou os 45ºC em Araçuí, no interior de Minas Gerais, e a cidade do Rio de Janeiro registrou a sensação térmica recorde de 58,5ºC.

O calor extremo aumentou o número de atendimentos médicos e atrasou a manutenção da principal estação de tratamento de água.

O atendimento na rede de saúde aumentou em diagnósticos relacionados ao calor, como mal-estar, fadiga, pressão baixa e síncope. Na segunda semana de novembro, a mais quente daquele mês, o movimento foi 51% maior que na segunda semana do mês anterior. A prefeitura abriu 100 pontos de hidratação, acelerou o reflorestamento e o uso de drones semeadores.

Causas do calor extremo

O ano de calor atípico foi motivado por vários fatores. Um deles foi os impactos do fenômeno El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal e persistente da superfície do Oceano Pacífico na região da Linha do Equador.

Para os especialistas, as ondas de calor cada vez mais frequentes também se devem ao aquecimento global.

“Além da elevação da temperatura dos oceanos, outros fatores têm contribuído para a ocorrência de eventos cada vez mais extremos, como o aumento da temperatura global da superfície terrestre por conta do aumento das emissões de gases do efeito estufa“, registra o Inmet.

“Os oceanos geram mais vapor, o que esquenta a atmosfera, e isso intensifica as ondas de calor”, diz a cientista da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Regina Rodrigues.

Homem sem camisa dentro de uma fonte, de costas para o chafariz de uma fonte

Em 2023, Brasil somou 65 dias de muito calorFoto: PILAR OLIVARES/REUTERS

Dados do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) da ONU mostram que as emissões de gases de efeito estufa devem ser reduzidas em 43% até 2030 (sobre 2019) para limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC até fim do século em relação aos níveis pré-industriais e evitar impactos catastróficos como ondas de calor, secas e chuvas mais frequentes e graves.

“O Brasil tem experimentado os efeitos das mudanças climáticas de forma especial por três razões principais: a grande dimensão geográfica, diversos nichos ecológicos naturais e as megacidades”, explica a pesquisadora Yasna Palmeiro, da Lancet Countdown América Latina.

Documento recente do Lancet Countdown para o Brasil elenca os eventos extremos deste ano, como a onda de calor de inverno que afetou grande parte do país, enchentes catastróficas no Rio Grande do Sul e secas e incêndios florestais recordes na região amazônica.

“Até agora, 2023 foi um ano de extremos meteorológicos no mundo e o Brasil não foi exceção”, prossegue o documento, afirmando que “as alterações climáticas são a maior ameaça à saúde global do século 21”.

Diretora-executiva do Instituto do Clima e Ciência (ICS), Maria Netto explica que a grande novidade é que estes fenômenos estão ocorrendo de forma exacerbada nos últimos cinco anos, com maior frequência e intensidade.

“O Brasil não tinha, historicamente, uma visão muito clara sobre como financiar a adaptação e a resiliência da nossa infraestrutura, da nossa economia a esses eventos climáticos”, afirma Maria Netto.

Despreparo da infraestrutura

A opinião de Netto é compartilhada por todos os especialistas ouvidos pela DW: atualmente, o Brasil não tem a capacidade necessária para lidar com as mudanças climáticas – assim como a maior parte do mundo.

“É muito claro que o país não está preparado para enfrentar o aumento da frequência e intensidade dos eventos climáticos intensos”, destaca o físico Paulo Artaxo, cientista do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU.

Homem sem camisa atira um balde de água na própria cabeça, em uma região muito pobre

Pescador se refresca à beira de um lago, em ManausFoto: BRUNO KELLY/REUTERS

“Não estamos preparados de jeito nenhum para esse tipo de eventos extremos, nem no Brasil, nem no mundo. Mas precisamos nos preparar”, afirmou em um evento recente a secretária nacional de Mudanças Climáticas, Ana Toni.

Para a diretora do ICS, seria necessário uma política integral e análise profunda com formas de promover maior resiliência e resposta aos eventos climáticos. 

“Carecemos de instrumentos financeiros, análise paramétrica de riscos análise fiscal mais profunda sobre custos econômicos que resultem em mecanismos ágeis de compartilhamento de riscos e respostas rápidas aos eventos do clima”, destaca.

O que o Brasil já está fazendo

Netto pondera, entretanto, que o governo está ciente do problema e que já existem estudos setoriais para promover a adaptação, no âmbito do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

“Será fundamental priorizar de forma integrada a necessidade de um plano de adaptação nacional e planos subnacionais que possam impulsionar melhores adaptação, prevenção, resiliência, gestão de riscos e mecanismos de resposta rápida”, explica.

Toni ressalta que os efeitos das alterações climáticas estão chegando mais rápido que o previsto. Segundo Toni, na perspectiva do governo federal, o Comitê Interministerial de Mudança do Clima (CIM) decidiu fazer pelo menos 14 planos de adaptação em diversas áreas, como energia, agricultura, cidades e transporte.

Além do planejamento, maior inclusão de critérios de riscos climáticos e ações operacionais, os especialistas reforçam a necessidade de combater a evolução do efeito estufa.

“As soluções para resolver o problema a gente sabe: acabar com os combustíveis fósseis e com o desmatamento tropical. Parece simples, mas envolve o reordenamento completo da economia mundial”, destaca o coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima, Claudio Angelo.

E os eventos extremos não são uma preocupação apenas dos especialistas: as mudanças climáticas e ameaças ao meio ambiente são motivo de medo para 32% dos entrevistados na seção Brasil da pesquisa O que Preocupa o Mundo, realizada pelo do Instituto Ipsos em outubro – índice bem acima dos 20% registrados na pesquisa anterior.

“É inegável que o brasileiro tem sentido na pele os reflexos destes problemas”, diz o CEO do Ipsos Brasil, Marcos Caliari.


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Este texto foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Seguindo o turbilhão da Zara: a moda aérea de outras marcas e seus impactos nas mudanças climáticas

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Por Public Eye

Atualmente, apenas algumas empresas informam voluntariamente como transportam os seus produtos. E as estatísticas públicas, especialmente dos maiores mercados de importação da Europa e da América do Norte ou dos principais países industriais como a China, não são suficientemente detalhadas para apresentar uma imagem precisa. Portanto, a nossa investigação de acompanhamento sobre a moda aérea não deve ser interpretada como sendo um quadro completo ou mesmo representativo da situação atual. Mas dá uma indicação clara da importância do frete aéreo para marcas individuais. Salvo indicação em contrário, os dados mencionados referem-se aos últimos 12 meses para os quais existem dados disponíveis.

Que evidências existem de que o frete aéreo está sendo utilizado por outros varejistas de moda?

Já destacamos em nossa investigação até que ponto a Inditex e Shein dependem de frete aéreo. Comparado a isso, o padrão que vemos emergir dos dados alfandegários analisados ​​é bastante misto.

  • No que diz respeito a alguns dos principais concorrentes diretos no segmento de fast-fashion, os dados disponíveis indicam uma taxa comparativamente baixa de moda aérea. Em Bangladesh, por exemplo, a taxa atual parece estar abaixo de 2% para grandes clientes, como H&M ou  a Primark, e abaixo de 3% para Bestseller (Jack Jones, Vero Moda). Em comparação, o número da Inditex é superior a 20% este ano.
  • Por outro lado, encontramos evidências de uma maior incidência de moda aérea no grupo Próximo. Das suas importações provenientes do Bangladesh, cerca de 10% vêm por via aérea e das provenientes da Índia cerca de 20%. O terceiro maior grupo de moda do mundo, Fast Retailing (Uniqlo), também envia seus produtos de moda para todo o mundo, com quase 20% das importações provenientes do Vietnã. provavelmente chegará de avião.
  • Entre os principais grupos de moda esportiva, Lululemon se destaca em particular, transportando cerca de 30% dos seus produtos são fabricados no Vietname e no Sri Lanka por avião. Compare isso com os concorrentes Nike e Adidas para os quais observamos uma proporção menor do transporte aéreo a partir do Vietname – menos de 5 por cento. E a Puma nos informou que sua taxa de voo para produtos do Vietnã é atualmente de apenas 0,5%.

Até as roupas íntimas chegam de avião, com cerca de um quarto dos produtos fabricados para a Victoria’s Secret no Vietnã e até um terço dos produtos do Sri Lanka sendo transportados desta forma. A gigante da roupa íntima Calzedonia também possui produtos fabricados na ilha, com a proporção de transporte aéreo na faixa de 5 a 10%.

Transparência? Raramente encontrado

Esta evidência mostra-nos que a moda transportada pelo ar não só prevalece amplamente na Inditex e na Shein, mas também noutras partes da indústria do vestuário. Contudo, o facto de alguns dos principais concorrentes directos utilizarem apenas uma pequena proporção dos voos proporciona uma luz de esperança. A forma como a moda aerotransportada é tratada de forma diferenciada no setor também pode ser percebida na forma como as empresas se comunicam sobre ela.

Next e Victoria’s Secret estão assumindo a liderança de Inditex e Shein e não falam mais do que em termos gerais sobre as suas emissões provenientes dos transportes. A história é semelhante com o Fast Retailing. Esta empresa, que tem Roger Federer como embaixador da sua marca principal Uniqlo, respondeu à nossa consulta, mas não partilhou quaisquer detalhes sobre a moda aérea. A empresa refere-se, em vez disso, aos seus objetivos climáticos globais e ao envolvimento numa iniciativa para reduzir as emissões dos transportes. Contudo, este compromisso não apresentou progressos até agora; muito pelo contrário, já que as emissões dos transportes aumentaram 55% desde 2019.

Outras empresas estão adotando uma abordagem mais proativa em relação ao problema.Bestseller afirma que o uso de frete aéreo vem diminuindo há quatro anos e que sua proporção no total de frete transportado é atualmente de 1,04%. Como resultado disso, as emissões relacionadas aos transportes caíram 55% desde 2018. O relatório de sustentabilidade da H&M também mostra uma redução significativa no frete aéreo. emissões (–51%) no último exercício financeiro. Quando questionada, a Primark explicou que geralmente faz encomendas com longos prazos de entrega e permite tempo suficiente para transportes marítimos. O frete aéreo seria, portanto, usado com pouca frequência. No entanto, a empresa não nos forneceu quaisquer números sobre isso.

A Nike menciona um ligeiro aumento no frete aéreo utilizado para o fluxo de mercadorias em 2022, mas o volume permaneceu baixo e abaixo do nível pré-pandemia. A Lululemon pelo menos identifica o frete aéreo como o principal contribuinte para a elevada proporção de suas emissões totais contabilizadas pelos transportes (25%) e está anunciando uma tarefa forçar a transferência do transporte de mercadorias do ar para o mar. Mas é difícil definir estes anúncios e dados sem ter números específicos para basear. 

Apenas algumas empresas fornecem detalhes mais precisos sobre a proporção atual da sua carga transportada por via aérea. A Calzedonia estima que este valor representa uns impressionantes 20% do volume total, o que significa que as emissões comunicadas são correspondentemente elevadas. Por outro lado, a proporção relatada pela Adidas é significativamente menor: 2% em 2022.

Descobrimos que Puma forneceu as informações mais detalhadas. A empresa reporta uma redução na sua taxa de frete aéreo de 3% antes da pandemia para 1% hoje, fornece números detalhados sobre as emissões para cada modo de transporte e é a única empresa que nos informa a quantidade total de carga aérea que transporta. Sem mencionar que a Puma estabeleceu uma meta de redução específica: reduzir a proporção de frete aéreo pela metade, para 0,5%, até 2025.

As grandes disparidades entre estas empresas sublinham o quão desnecessária a moda aérea é também do ponto de vista empresarial. Apelamos a todas as marcas para que eliminem gradualmente o transporte aéreo e forneçam informações transparentes sobre os meios de transporte que utilizam e as suas emissões.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Public Eye [Aqui!].

Calor recorde deve castigar o Hemisfério Sul com o início do verão

O Hemisfério Norte experimentou um verão sufocante devido aos padrões climáticos e meteorológicos. Os cientistas dizem que o Hemisfério Sul não escapará do mesmo destino

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Uma combinação semelhante de padrões climáticos em 2019-2020 resultou nos devastadores incêndios florestais do “verão negro” na Austrália. Crédito: Carla Gottgens/Bloomberg via Getty

Por Bianca Nogrady para a Nature

O hemisfério sul enfrenta um Verão de extremos, dizem os cientistas, à medida que as alterações climáticas amplificam os efeitos da variabilidade climática natural. Isto surge na sequência de um verão no hemisfério norte que assistiu a ondas de calor extremas em toda a Europa, China e América do Norte, estabelecendo novos recordes de temperaturas diurnas e noturnas em algumas áreas.

Andrew King, cientista climático da Universidade de Melbourne, na Austrália, afirma que há “uma grande probabilidade de vermos temperaturas recordes, pelo menos na média global, e de vermos alguns eventos particularmente extremos em algumas partes do mundo”.

Efeitos do El Niño

À medida que 2023 chega ao fim, meteorologistas e cientistas do clima estão prevendo padrões climáticos que levarão a temperaturas recorde da superfície da terra e do mar. Estes incluem um forte El Niño no Oceano Pacífico e um Dipolo positivo no Oceano Índico.

“Esses tipos de grandes fatores podem ter uma grande influência na seca e nos extremos em todo o hemisfério sul”, diz Ailie Gallant, cientista climática da Universidade Monash em Melbourne, Austrália, e investigadora-chefe do Centro de Excelência para Extremos Climáticos do Conselho Australiano de Pesquisa. Na Austrália, ambos os fenómenos tendem a “causar condições de seca significativas, especialmente no leste do país”.

Durante 2019 e 2020, a mesma combinação de fatores climáticos contribuiu para incêndios florestais que arderam durante vários meses em mais de 24 milhões de hectares no leste e sudeste da Austrália.

Na África Oriental, a combinação do El Niño e de um Dipolo positivo do Oceano Índico está associada a condições mais húmidas do que o normal e a uma maior probabilidade de ocorrência de chuvas extremas e inundações. Prevê-se precipitação acima da média para grande parte da África Austral entre meados e finais da Primavera (Outubro a Dezembro), seguida de condições quentes e secas no Verão.

Um homem carrega um idoso por uma estrada inundada durante fortes enchentes na vila de Sir Lowry, na África do Sul.A África do Sul sofreu inundações na primavera de 2023. Crédito: Rodger Bosch/AFP via Getty

Na América do Sul, o El Niño tem um efeito mais quadriculado. Traz condições húmidas e inundações para algumas partes do continente, particularmente Peru e Equador, mas condições quentes e secas para a Amazónia e regiões do Nordeste.

Antes de 2023, os três anos consecutivos de contraparte do El Niño, La Niña, trouxeram condições relativamente frias e húmidas ao leste da Austrália e conduziram a secas recordes e a clima quente na metade inferior da América do Sul. Mas o “triplo mergulho” do La Niña ajudou a mascarar os aumentos da temperatura global associados ao aumento das emissões de gases com efeito de estufa e às alterações climáticas, diz King.

Ele diz que, juntamente com as condições do El Niño, todo o efeito da mudança climática está “emergindo adequadamente”.

Entretanto, a atividade humana continua a contribuir para os níveis de gases com efeito de estufa na atmosfera.

A cientista climática Danielle Verdon-Kidd, da Universidade de Newcastle, Austrália, diz que as ondas de calor — um dos eventos climáticos mais mortais — são uma grande preocupação para o verão de 2023. “Sabemos que com as condições que temos agora é mais provável que esse tipo de sistema se desenvolva durante o verão”, diz ela

O verão de 2023 no hemisfério norte registou temperaturas elevadas sem precedentes na China, em partes da Europa e no Norte de África, a pior época de incêndios florestais alguma vez registada no Canadá e graves ondas de calor marinhas no Mediterrâneo. As grandes massas de terra no hemisfério norte criam áreas de circulação de ar quente e seco, conhecidas como cúpulas de calor, que bloqueiam os sistemas de baixa pressão que, de outra forma, trariam condições mais frias e húmidas.

No hemisfério sul, as cúpulas de calor são menos preocupantes. “Também temos uma grande massa terrestre na Austrália”, diz Verdon-Kidd, mas o hemisfério sul tem uma proporção oceano-terra muito maior, “portanto, os nossos sistemas são diferentes”.

Além desses fenômenos convergentes, o Sol e o vapor de água atmosférico influenciarão o clima. King diz que o Sol está se aproximando do pico do seu ciclo de atividade de 11 anos, o que poderia contribuir com um pequeno mas significativo aumento nas temperaturas globais. Entretanto, a erupção do vulcão subaquático Hunga Tonga – Hunga Ha’apai em Janeiro de 2022 aumentou a quantidade de vapor de água na alta atmosfera, o que também deverá aumentar ligeiramente as temperaturas globais. As mudanças de temperatura são “centésimas de grau em relação à média global, portanto não são nem de longe tão importantes como as alterações climáticas ou mesmo o El Niño neste momento, mas são um factor pequeno”, diz King.

Aquecimento do planeta.  Gráfico mostrando o aumento da temperatura média global desde 1970.

Fonte: Clima Central

Oceanos quentes

Os oceanos também estão sentindo o calor. As temperaturas médias globais da superfície do mar atingiram um máximo recorde em Julho deste ano, e algumas áreas estiveram mais de 3 ºC mais quentes do que o habitual. Houve também níveis recordes de gelo marinho ao redor da Antártica durante o inverno, o que poderia levar a um ciclo de feedback, diz Ariaan Purich, cientista climático da Universidade Monash. “Grandes áreas do Oceano Antártico que normalmente ainda estariam cobertas por gelo marinho em Outubro, não estão”, diz ela. Em vez de ser refletida no gelo branco, a luz solar que entra tem maior probabilidade de ser absorvida pela superfície escura do oceano. “Isso aquece a superfície e derrete mais gelo marinho, para que possamos ter esse feedback positivo.”

Icebergs derretidos são vistos na Ilha Horseshoe, na Antártica.À medida que o gelo da Antártida derrete, a água mais escura absorve mais luz solar, provocando mais derretimento. Crédito: Agência Sebnem Coskun/Anadolu via Getty

Outro elemento meteorológico presente neste verão é o Modo Anular Sul, também conhecido como Oscilação Antártica, que descreve a mudança para o norte ou para o sul do cinturão de ventos de oeste que circunda a Antártida.

Em 2019, a Modalidade Anular Sul esteve numa fase fortemente negativa. “O que isto significou foi que em todo o leste da Austrália havia muitos ventos muito quentes e secos soprando do deserto para o leste da Austrália, o que realmente exacerbou o risco de incêndios florestais”, diz Purich. Um Modo Anular Sul positivo está associado a maiores precipitações na maior parte da Austrália e no sul da África, mas a condições secas na América do Sul, Nova Zelândia e Tasmânia.

O Modo Anular Sul está atualmente em um estado positivo, mas a previsão é que retorne à posição neutra nos próximos dias, e “eu diria que não esperamos ter um Modo Anular Sul negativo muito forte nesta primavera”, diz Purich. 

E, por mais quente que seja o verão, o pior ainda pode estar por vir. O cientista atmosférico David Karoly, da Universidade de Melbourne, que foi membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, afirma que o maior impacto do El Niño provavelmente será sentido no verão de 2024–25. “Sabemos que o impacto nas temperaturas associado ao El Niño acontece um ano após o evento”, diz Karoly.

doi : https://doi.org/10.1038/d41586-023-03547-9


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Nature [Aqui!].

Últimos 12 meses foram os mais quentes de história, diz estudo

Estudo de atribuição aponta que o aquecimento global ultrapassou a marca de 1,3ºC acima dos níveis pré-industriais entre novembro de 2022 e outubro de 2023

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O mundo atingiu um novo recorde de temperatura nos últimos 12 meses, ultrapassando a marca de 1,3ºC acima dos níveis pré-industriais entre novembro de 2022 e outubro de 2023, afirma uma nova análise de dados internacionais divulgada nesta quinta-feira (09) pela organização Climate Central. A partir dos dados coletados, a análise conclui que este se tornou o período de um ano mais quente já registrado na história.

O estudo de atribuição revela que, em 170 países, 7,8 bilhões de pessoas – 99% da humanidade – foram expostas a um calor acima da média. Somente a Islândia e o Lesoto registraram temperaturas mais frias do que o normal.

Durante o período, 5,7 bilhões de pessoas foram expostas a um mínimo de 30 dias de temperaturas acima da média, que se tornaram pelo menos três vezes mais prováveis pela influência da mudança climática. Essa exposição incluiu quase todos os residentes do Brasil, além de México, todas as nações do Caribe e da América Central, Japão, Itália, França, Espanha, Reino Unido, Indonésia, Filipinas, Vietnã, Bangladesh, Irã, Egito, Etiópia e Nigéria.

“Esse registro de 12 meses é exatamente o que esperamos de um clima global alimentado pela poluição por carbono”, diz Andrew Pershing, vice-presidente de ciência da Climate Central. “Os recordes continuarão a ser superados no próximo ano, expondo bilhões de pessoas a um calor incomum. Embora os impactos climáticos sejam mais graves nos países em desenvolvimento próximos ao Equador, o fato de vermos ondas de calor extremo provocadas pelo clima nos Estados Unidos, na Índia, no Japão e na Europa ressalta que ninguém está a salvo das mudanças climáticas.”

Durante o período analisado, mais de 500 milhões de pessoas em 200 cidades experimentaram ondas de calor extremo. A onda de calor intenso mais longa foi registrada em Houston (EUA), com duração de 22 dias consecutivos entre 31 de julho e 21 de agosto. Nova Orleans e duas cidades da Indonésia – Jacarta e Tangerang – vieram em seguida, com 17 dias consecutivos de calor extremo.

Sobre a Climate Central

A Climate Central é uma organização científica e jornalística sem fins lucrativos que fornece informações confiáveis para ajudar o público e os formuladores de políticas a tomar decisões acertadas sobre clima e energia.

A maioria das compensações de carbono da Chevron são no minimo”inúteis” ou pior, diz relatório

E o plano “net-zero” da gigante do petróleo ignora aproximadamente 90% de suas emissões finais

Vladimir Sindeyeve/NurPhoto/AP

Esta história foi originalmente publicada pelo  The Guardian  e é reproduzida aqui como parte da  colaboração Climate Desk.

Por Nina Lakhani 

Uma nova investigação sobre a promessa climática da Chevron descobriu que a empresa de combustíveis fósseis depende de compensações de carbono “lixo” e tecnologias “inviáveis”, que fazem pouco para compensar suas vastas emissões de gases de efeito estufa e, em alguns casos, podem realmente estar causando danos às comunidades.

A Chevron, que registrou US$ 35,5 bilhões em lucros no ano passado, é a segunda maior empresa de combustíveis fósseis dos EUA, com operações que se estendem do Canadá e Brasil ao Reino Unido, Nigéria e Austrália.

Apesar das grandes expansões nos cinco continentes, a Chevron disse que “aspira” a atingir zero emissões líquidas de upstream até 2050. tecnologias de captura e armazenamento (CCS).

Uma nova pesquisa da Corporate Accountability , uma organização transnacional sem fins lucrativos de vigilância corporativa, descobriu que 93% das compensações que a Chevron comprou e contou para suas metas climáticas de mercados voluntários de carbono entre 2020 e 2022 eram ambientalmente problemáticas demais para serem classificadas como algo que não fosse inútil ou lixo. .

Uma compensação de carbono é caracterizada como tendo baixa integridade ambiental, ou sem valor, se estiver vinculada a uma floresta ou plantação ou projeto de energia verde, incluindo os que envolvem hidrelétricas, que não leva a reduções adicionais de gases de efeito estufa, exagera benefícios ou riscos emissões, entre outras medidas. Muitas das compras de compensação da Chevron concentram-se em florestas, plantações ou grandes barragens.

De acordo com o relatório compartilhado exclusivamente com o Guardian , quase metade das compensações “inúteis” da Chevron também estão ligadas a supostos danos sociais e ambientais – principalmente em comunidades no sul global, que também são frequentemente as mais afetadas pela crise climática.

“A agenda de ações climáticas inúteis da Chevron é destrutiva e imprudente, especialmente à luz da ciência climática que ressalta que o único caminho viável a seguir é uma eliminação gradual e equitativa dos combustíveis fósseis”, disse Rachel Rose Jackson, da Corporate Accountability.

O relatório, A destruição está no centro de tudo o que fazemos, ocorre em meio a uma semana de protestos globais de comunidades afetadas pelos negócios de petróleo e gás da Chevron, enquanto a empresa sediada na Califórnia se prepara para sua reunião anual de acionistas em 31 de maio.

No domingo, em Richmond, uma cidade de maioria negra e parda com 115.000 habitantes, a nordeste de San Francisco, ativistas se reuniram em frente à extensa refinaria de petróleo da Chevron. Em 2012, 15 mil pessoas precisaram de atendimento médico após um grande incêndio causado por  negligência criminosa da empresa. As taxas de asma são muito mais altas em Richmond do que as médias estadual e nacional.

O relatório argumenta que o uso generalizado de compensações sem valor prejudica severamente a ambição de ação climática da Chevron, que em qualquer caso é limitada a uma pequena fração de seus negóciosA aspiração de zero líquido da Chevron   se aplica apenas a menos de 10 por cento da pegada de carbono da empresa – as emissões a montante da produção e transporte de petróleo e gás, excluindo as emissões a jusante ou de uso final da queima de combustíveis fósseis para aquecer casas, fábricas de energia e dirigir carros.

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Este texto foi retirado do site “Mother Jones” [Aqui!].