Desmatamento na Amazônia explodiu porque a pandemia deixou a vigilância manca

Um aumento no desmatamento ilegal aumenta o risco de incêndios na floresta tropical brasileira ainda mais destrutivos do que aqueles que provocaram indignação global em 2019.

desmata 0Crédito: Victor Moriyama para o New York Times

Por  Ernesto LondoñoManuela Andreoni e 

As consequências da pandemia exacerbaram a degradação ecológica desencadeada pelas políticas do governo de Bolsonaro , que favorece a expansão do desenvolvimento comercial na Amazônia e vê as regulamentações ambientais como um obstáculo ao crescimento econômico. Mas alguns funcionários de carreira ainda estão trabalhando para fazer cumprir as proteções ambientais.

Estima-se que 464 milhas quadradas de cobertura  vegetal na Amazônia foram cortadas de janeiro a abril, um aumento de 55% em relação ao mesmo período do ano passado e uma área aproximadamente 20 vezes maior que Manhattan, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil (Inpe), a agência governamental que rastreia o desmatamento com imagens de satélite.

Já no ano passado, o desmatamento na Amazônia atingiu níveis nunca vistos desde 2008.

Ao mesmo tempo, o coronavírus matou mais de 34.000 pessoas no Brasil, que agora está registrando o maior número diário de mortes no mundo. Também alimentou a polarização política e dominou as manchetes e os debates sobre políticas nos últimos meses, eclipsando o aumento dos danos à floresta tropical.

desmata 4Pessoas que usavam máscaras no mês passado em São Paulo por causa da pandemia de coronavírus.Crédito: Victor Moriyama para o New York Times

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que apóia a flexibilização da regulamentação ambiental por Bolsonaro, disse no final de abril que viu a pandemia como uma oportunidade de reduzir as restrições enquanto a atenção estava concentrada em outros lugares.

“Precisamos nos esforçar aqui durante esse período de calma em termos de cobertura da imprensa, porque as pessoas estão apenas falando sobre Covid”, disse ele durante uma reunião do gabinete em 22 de abril. Um vídeo da reunião foi tornado público.

As declarações, que Salles disse mais tarde que se referiam a seus esforços para simplificar a burocracia, levaram os promotores federais a pedir uma investigação sobre o que eles disseram que resultou em abandono do dever.

A associação que representa os trabalhadores ambientais do governo emitiu uma declaração chamando Salles de “criminoso” que está “esvaziando” seu próprio ministério.

As ações de execução da principal agência de proteção ambiental do país, o Instituto Brasileiro de Recursos Naturais e Renováveis, ou Ibama, caíram acentuadamente durante 2019, primeiro ano de mandato de Bolsonaro, de acordo com um documento da agência obtido pelo The New York Times.

Em 2019, o Ibama registrou 128 casos de crimes ambientais, uma queda de 55% em relação ao ano anterior. A quantidade de madeira extraída ilegalmente apreendida pela agência caiu quase 64% de 2018 a 2019, de acordo com o documento.

desmata 3Agentes do Ibama durante uma ação de fiscalização perto de Rio Pardo no ano passado. Crédito: Victor Moriyama para o New York Times

Funcionários do governo e ativistas ambientais dizem que o aumento do desmatamento está sendo impulsionado pelo senso predominante entre madeireiros e mineiros ilegais de que derrubar a floresta tropical acarreta um risco mínimo de punição e produz recompensas significativas.

O governo Bolsonaro demitiu três altos funcionários do Ibama em abril, depois que a agência realizou uma grande operação visando mineradores ilegais no estado do Pará, no norte.

Em maio, um oficial da lei de uniforme foi agredido por madeireiros ilegais no Pará depois que um caminhão com madeira foi interceptado. Depois que uma pequena multidão atacou o agente, um dos madeireiros o atingiu no rosto com uma garrafa de vidro, de acordo com um vídeo do incidente.

No final de maio, o governo transferiu a supervisão das reservas naturais federais do Ministério do Meio Ambiente para o Ministério da Agricultura, abrindo caminho para o desenvolvimento comercial em áreas protegidas.

O governo também está defendendo iniciativas legislativas que dariam títulos de posse de posse de posse de terras na Amazônia e em outros biomas.

desmata 2A extração de madeira, legal e ilegal, é uma grande indústria no Brasil.Crédito: Victor Moriyama para o New York Times

Aproximadamente 50% da cobertura de árvores perdidas durante os primeiros quatro meses deste ano foram em terras públicas, segundo o Ipam Amazônia, uma organização de pesquisa ambiental. Ane Alencar , diretora de ciências do Ipam Amazônia, disse que grande parte da destruição é de pessoas que esperam ser reconhecidas como donas legítimas da terra.

“Vejo o oportunismo alimentando a ilegalidade, pois as pessoas se aproveitam da fragilidade do momento em que vivemos, tanto política quanto economicamente”, disse ela. “Essa crise de coronavírus também está se transformando em uma crise ambiental.”

Eduardo Taveira, o principal funcionário ambiental do estado do Amazonas, disse que os madeireiros ilegais, que geralmente se esforçam para evitar serem multados e ter seus equipamentos destruídos por agentes federais, estão operando mais abertamente do que nos anos anteriores.

“Há uma sensação de que o governo está focado apenas no combate ao coronavírus, então esse tipo de atividade ilegal está acontecendo com mais ousadia do que nos últimos anos”, disse ele.

desmata 1Crédito: Victor Moriyama para o New York Times

Depois que o governo do Brasil foi criticado pelos incêndios no ano passado, Bolsonaro mobilizou as forças armadas para apagá-las e impedir que novas fossem colocadas. Isso deixou grande parte da terra limpa em 2019 pronta para ser queimada este ano.

“Isso significa que as áreas que foram cortadas no ano passado, mas não foram queimadas, podem ser queimadas este ano”, disse Haliuc, o promotor federal. Para piorar a situação, acrescentou, este ano foi mais seco que 2019, aumentando o risco de chamas controladas se transformarem em incêndios.

As organizações criminosas parecem estar fazendo investimentos significativos para expandir as operações, acrescentou Haliuc, com base em dados de vendas para o tipo de escavadeira usada para abrir caminhos na floresta densa.

Temendo uma nova onda de condenação internacional, o governo Bolsonaro enviou em maio alguns milhares de soldados para a Amazônia e encarregou-os de impedir crimes ambientais por 30 dias.

desmatamentoCrédito: Victor Moriyama para o New York Times

“Não queremos que o Brasil seja retratado na frente do resto do mundo como um vilão ambiental”, disse o vice-presidente Hamilton Mourão quando a iniciativa foi lançada.

Em uma declaração por e-mail, o Ministério da Defesa disse que havia dedicado 3.800 militares, 11 aeronaves, 11 barcos e 180 veículos para apoiar a missão. A operação, segundo ele, “demonstra claramente a firme determinação do Brasil em preservar e defender a Amazônia”.

Ativistas ambientais dizem que são bem-vindos a qualquer aumento na fiscalização, mas a maioria vê a operação militar como uma manobra de relações públicas que não mudará a trajetória do desmatamento ou levará à punição das pessoas-chave que conduzem a destruição.

O histórico do Brasil em questões ambientais durante a era Bolsonaro desencadeou boicotes às exportações brasileiras e ameaça a implementação de um acordo comercial entre a União Européia e quatro países da América do Sul.

Marcello Brito, presidente da Associação Brasileira de Agronegócios, disse que a falta de controle sobre o desmatamento criminoso pode ser trágica para seu setor.

“Embora exista uma barreira clara entre o bom agro e essas pessoas, a imagem sempre se mantém no agronegócio”, disse ele. “Isso trará prejuízos para nós.”

Adriano Karipuna, líder indígena do estado de Rondônia, onde o desmatamento ilegal aumentou, disse que sua comunidade se sente cada vez mais vulnerável.

“Eles lançam uma grande operação, mas é apenas para divulgá-la”, disse ele. “Eles nunca realmente prendem ninguém.”

Karipuna disse que a facilidade com que madeireiros e mineiros ilegais estão destruindo a floresta está colocando comunidades indígenas remotas – incluindo tribos isoladas – em grave perigo.

“Essa dinâmica pode desencadear um genocídio ao espalhar o coronavírus dentro das áreas indígenas”, disse ele. “O governo brasileiro será responsável se isso acontecer.”

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo “The New York Times” [Aqui!]

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Siemens declara boicote à mineração em áreas indígenas no Brasil

mineração áreas indigenas

A multinacional alemã Siemens informou hoje em sua página oficial na rede social Twitter que não fornecerá equipamentos nem apoio logístico para a realização de atividades de mineração em áreas indígenas  no Brasil (ver imagem abaixo).

siemens

Segundo a declaração bastante sucinta, a Siemens informou que  o respeito pelos direitos humanos seria “um princípio central” nas suas atividades em todo o mundo.

O fato é que o movimento de boicote às relações comerciais com o Brasil está crescendo rapidamente, muito em função das declarações desastradas que estão emanando do interior do governo federal, muitas deles pelo próprio presidente da república. Pelo jeito, só quando o somatório das diversas ações de boicote ficar claro é que o alarme será soado no empresariado nacional. Mas, talvez, quando isso acontecer a vaca já vai ter ido para o brejo.

Estudo denuncia epidemia de garimpos na Amazônia brasileira

Levantamento em seis países amazônicos identifica mais de 2.500 locais de mineração não regulamentada, 453 deles no Brasil. Mercúrio usado no garimpo do ouro contamina fauna e populações locais.

    
Garimpo ilegal na terra indígena KayapóBrasil é o país amazônico com mais área indígenas afetadas pelo garimpo ilegal

 

Apesar de décadas de combate à mineração não regulamentada, a Amazônia ainda abriga mais de 2.500 garimpos ilegais, e quase um quinto deles está localizado no Brasil, aponta um mapa divulgado nesta segunda-feira (10/12) pela Rede Amazônica de Informação Socioambiental (Raisg).

“A incidência de mineração ilegal na Amazônia, especialmente nos territórios indígenas e em áreas naturais protegidas, cresceu exponencialmente em anos recentes, com o aumento do preço do ouro”, afirma o secretário executivo da Raisg, Beto Ricardo.

O mapa foi produzido por uma rede de organizações ambientais e não governamentais de seis países amazônicos: Brasil, Bolívia, Colômbia, Peru, Equador e Venezuela. No Brasil, participaram do estudo o Imazon e o Instituto Socioambiental (ISA). Foram compiladas imagens de satélites e notícias publicadas pela imprensa local até 2017, entre outros dados.

O levantamento identificou 2.312 pontos e 245 áreas – cuja extensão é determinada por meio de sensoriamento remoto – de extração ou garimpo de ouro e outros minerais.

“A busca por minerais de valor parece ser uma epidemia, já que ocorre por toda a Floresta Amazônica. Apesar de a mineração sempre ter sido uma atividade regional, sua proliferação atual não é comparável a nenhum outro período da história da região”, diz o estudo.

A Venezuela é o país onde a situação é mais grave, com 1.899 garimpos ilegais. O Brasil é o segundo do ranking, com 453, sendo 321 pontos, e 132 áreas.

“Há uma epidemia de garimpos no Brasil. Estamos falando do impacto sobre a biodiversidade e as florestas, estamos falando sobre o uso de mercúrio, estamos falando do roubo de riquezas dos povos indígenas e do Brasil”, comentou Nico D’Avila, diretor de campanhas do Greenpeace Brasil, ao jornal britânico The Guardian.

Um total de 37 dos garimpos ilegais identificados no estudo está em áreas indígenas protegidas, 18 deles no Brasil. Além disso, 55 áreas naturais protegidas espalhadas pelos seis países amazônicos abrigam pontos de garimpo. Trinta rios são afetados pela mineração ou servem de rota para a entrada de maquinário e insumos para a prática.

Obter ouro é o principal objetivo da mineração ilegal na Amazônia, e a grande quantidade de mercúrio usada para purificar o mineral está contaminando a região.

“As marcas no solo e as águas turvas dos rios são os impactos óbvios da mineração ilegal, mas há um mal invisível que contamina a fauna amazônica e os habitantes da região”, afirma o estudo. “O mercúrio está afetando populações locais e indígenas que vivem perto ou trabalham em áreas de mineração de ouro, assim como aqueles que consomem peixe amazônico como parte de sua dieta.”

No Brasil, a região do rio Tapajós é uma das mais afetadas, assim como o território yanomami, que se estende até a Venezuela. Num estudo realizado com a comunidade yanomami de Aracaçá, na região de Waikás, 92% das amostras de cabelo coletadas continham altos níveis de contaminação, cita a Raisg.

A entidade aponta que o ritmo de expansão da mineração varia de região para região e que locais hoje considerados pontos de garimpo em breve podem se transformar em áreas mais amplas de exploração.

Além disso, é possível que a metodologia usada não tenha captado mineração de pequena escala que afeta as partes mais remotas da Amazônia. A Raig pretende continuar desenvolvendo e atualizando o mapa divulgado nesta segunda-feira.

LPF/ots

FONTE: https://www.dw.com/pt-br/estudo-denuncia-epidemia-de-garimpos-na-amazônia-brasileira/a-46664874