Na posse de Lira e Pacheco, governo Bolsonaro declara guerra ao Brasil

Arthur Lira (à dir.), Rodrigo Pacheco (centro) e Jair Bolsonaro (à esq.) participam da sessão de abertura do ano legislativo, no Plenário do Congresso Nacional, em Brasília - DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO

Na posse de seus aliados Rodrigo Pacheco (DEM/MG) como presidente do Senado Federal e Arthur Lira (PP/AL) como presidente da Câmara de Deputados, o presidente Jair Bolsonaro entregou um pacote de projetos que representam uma declaração de guerra aos trabalhadores brasileiros e aos povos indígenas.  No pacote estão incluídos temas explosivos como a privatização da Eletrobras, a permissão para atividades de mineração em terras indígenas e o homeschooling, mas também houve espaço para apresentar as PEC 32/2020 da Reforma Administrativa que deverá destroçar as carreiras dos servidores públicos, e precarizar ainda mais a qualidade dos serviços prestados aos mais pobres.

Enquanto isso, a direção do PT aparentemente operou para que a deputada Marília Arraes (PT/PE) agisse para inviabilizar a eleição para a mesa diretora da Câmara de Deputados do deputado João Daniel (PT/SE) por ele ser mais ligado à esquerda do próprio partido. Essa rasteira realizada contra João Daniel permite antever qual será o papel do PT nos duros embates que terão de ser de travados nas ruas e no parlamento para impedir que a agenda de destruição do governo Bolsonaro tenha êxito. Em suma: não se poderá contar com a maioria do PT para este combate, pois a opção feita está claramente em conviver pacificamente com um governo que está agindo para desmontar o Estado brasileiro para beneficiar principalmente o grande capital multinacional, a começar pelos grandes bancos que hoje se refastelam com a dívida pública brasileira.

O momento que vivemos é certamente um dos mais complexos da história recente do Brasil, pois o êxito da agenda do governo Bolsonaro tornará o Brasil uma economia cada vez mais dependente do setor primário que não gera empregos e serve apenas para concentrar ainda mais a riqueza, enquanto se produz efeitos devastadores sobre a Natureza e os povos tradicionais.

A opção como sempre será sair às ruas para mobilizar a classe trabalhadora e a juventude. O problema é que com o avanço da pandemia e o surgimento de variantes ainda mais contagiantes do SARS-COV-2, isto implicará em desafios ainda maiores para se gerar o nível de mobilização que será capaz de impedir a aprovação desse pacote que equivale a uma verdadeira declaração de guerra ao Brasil e aos segmentos mais pobres da nossa população.

Bolsonaro está se livrando de possíveis processos de impeachment, mas a conta será salgada

A eleição de seus aliados como presidentes do parlamento dá ao presidente Bolsonaro um impulso na corrida pela reeleição no próximo ano. Porém, a nova aliança com os partidos de centro-direita do Centrão não é grátis

bolso flagO presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, celebra cerimônia para abaixar a bandeira nacional do Brasil durante a noite, no Palácio da Alvorada, em meio ao surto da COVID-19, em Brasília, Brasil, em 15 de julho de 2020. REUTERS / Ueslei Marcelino

Por Thomas Spleen, Rio de Janeiro, para o  Neue Zürcher Zeitung

Quem quiser governar o Brasil deve, mais cedo ou mais tarde, aliar-se aos partidos do chamado Centrão, ou seja, os partidos de centro-direita. Politicamente, você sempre inclina a balança. O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, sabe disso, porque nos trinta anos de sua carreira política foi membro de quase todos esses partidos em algum momento. O mais irônico é que ele jurou na campanha eleitoral de 2018 que a política do pós-xadrez típica do Centrão acabaria de uma vez por todas. Em vez disso, uma “nova política” começa com seu mandato, sem os partidos de centro-direita marcados pela corrupção.

Mas o mais tardar com a vitória dos dois deputados do Centrão Arthur Lira e Rodrigo Pacheco na eleição dos presidentes do Congresso na noite de segunda-feira, Bolsonaro finalmente voltou à rejeitada “velha política”. Ele já havia buscado e encontrado o apoio do Centrão nos últimos meses, quando foi duramente atingido devido à catastrófica corona política e ao envolvimento de seus filhos em diversos escândalos. Os votos deram-lhe uma minoria de bloqueio para evitar possíveis processos de impeachment.

64 pedidos de impeachment provavelmente irão desaparecer na gaveta

Isso só pode ser iniciado pelo presidente da Câmara dos Representantes. Este cargo está nas mãos do confidente do Bolsonaro, Arthur Lira, desde segunda-feira à noite. O advogado, cuja carreira política é orlada por denúncias de corrupção, provavelmente vai colocar na gaveta todas as 64 ações de impeachment contra o Bolsonaro que foram apresentadas até o momento. Ele também ajudará o presidente a finalmente aprovar sua agenda política no Congresso. Isso inclui leis mais flexíveis sobre a aquisição de armas e uma redução nas regulamentações ambientais. Rodrigo Pacheco também preside o Senado com um político do Centrão que enfrenta o Bolsonaro.

Mas o presidente brasileiro pagará caro por esse apoio. Nos últimos dias, ele teria cortejado os favores do Centrão com cargos importantes no governo e orçamentos extras generosos para os constituintes, conforme relatado por fontes internas. Para isso, ele agora terá de dispensar alguns de seus seguidores leais para abrir espaço para os novos amigos no gabinete. Sua promessa feita na eleição de 2018 de encher seu governo de especialistas e não de aliados foi quebrada para sempre.

A crescente influência dos novos aliados é devastadora para a  economia brasileira. Com a entrada do Centrão no governo, o ministro da Economia, Paulo Guedes, pode ter que esquecer a liberalização da economia. Em vez de privatizar as empresas estatais não lucrativas, as posições mais lucrativas agora serão divididas entre os novos aliados. E nos discursos inaugurais dos dois novos presidentes do congresso na segunda-feira, dada a situação de pandemia ainda tensa, outra rodada de ajuda custosa contra a crise causada pelo coronavírus foi solicitada. O Brasil não pode pagar por isso.

Mas desde que a ajuda contra a crise causada pelo coronavírus expirou no final do ano, a popularidade do Bolsonaro diminuiu. Além disso, muitos cidadãos culpam o presidente pela falta de oxigênio para os pacientes da COVID-19 em algumas regiões e pelo lento início da vacinação. No meio da segunda onda corona, mais de mil brasileiros morrem todos os dias. Caso a luta contra a pandemia e, portanto, a recuperação econômica tenha sucesso, o “Centrão” pode servir de base para a reeleição de Bolsonaro no final de 2022. No entanto, os partidos do centro são muito sensíveis ao estado de espírito das pessoas. Se cair contra o Bolsonaro, os lados serão trocados durante a noite. A presidente de esquerda Dilma Rousseff teve recentemente essa experiência dolorosa. Ela foi destituída do cargo em 2016 pelo até então aliado Centrão.

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo  Neue Zürcher Zeitung [Aqui!].