O ar também está contaminado por agrotóxicos, mostra estudo

Artigo científico alerta que a dispersão aérea de agrotóxicos é muito maior do que admitem os modelos regulatórios atuais

O novo artigo publicado no periódico científico Journal of Hazardous Materials lança um alerta contundente sobre um tema que continua sendo sistematicamente subestimado pelas autoridades regulatórias e pelo agronegócio global: a contaminação atmosférica por agrotóxicos. Intitulado “Pesticide fate and transport in the atmosphere and implications for risk assessment”, o estudo coordenado por Carole Bedos e dezenas de pesquisadores europeus demonstra que os agrotóxicos não permanecem confinados às áreas onde são aplicados. Pelo contrário, eles entram na atmosfera em grandes quantidades, circulam por centenas ou até milhares de quilômetros e acabam contaminando ecossistemas, populações humanas, áreas urbanas, reservas ambientais e até regiões remotas como o Ártico.

Os autores explicam que a atmosfera funciona como um enorme reservatório e meio de transporte desses compostos químicos. A contaminação ocorre principalmente por dois mecanismos: a deriva da pulverização durante a aplicação e a volatilização posterior a partir do solo, da vegetação e da água superficial. Em alguns casos, até 60% do volume aplicado pode alcançar a atmosfera imediatamente após a pulverização. Além disso, resíduos presentes no solo podem voltar ao ar por meio da erosão eólica, mantendo o ciclo de contaminação ativo durante dias ou semanas.

O estudo destaca que, durante décadas, acreditou-se que o problema da dispersão atmosférica dos agrotóxicos era apenas local. Hoje, porém, o monitoramento científico mostra algo muito mais grave: resíduos de pesticidas são encontrados em chuvas, poeira doméstica, insetos de áreas de preservação, alimentos orgânicos e solos de propriedades que sequer utilizam produtos sintéticos. A presença desses compostos em áreas distantes dos locais de aplicação demonstra que o transporte atmosférico possui escala continental e global.

Outro aspecto alarmante abordado pela pesquisa é que muitos agrotóxicos sofrem transformações químicas na atmosfera, produzindo compostos secundários potencialmente ainda mais tóxicos. Reações com radicais hidroxila, ozônio e nitratos podem gerar subprodutos associados à formação de ozônio troposférico e aerossóis secundários, elementos diretamente ligados à poluição atmosférica e a doenças respiratórias e cardiovasculares. Em alguns casos, os produtos da degradação podem apresentar toxicidade superior à do composto original.

Os pesquisadores também chamam atenção para um problema quase invisível nos debates públicos: os chamados coformulantes presentes nas formulações comerciais dos agrotóxicos. Esses produtos incluem solventes, surfactantes e hidrocarbonetos aromáticos que podem representar mais de 98% da composição total de determinadas formulações. Muitos desses compostos possuem alta volatilidade e forte capacidade de gerar ozônio e partículas finas na atmosfera, agravando problemas de saúde pública e contribuindo para processos de aquecimento climático.

Segundo os autores, os atuais modelos regulatórios europeus e internacionais subestimam fortemente a dimensão atmosférica da contaminação por agrotóxicos. As avaliações de risco normalmente concentram-se apenas nos impactos locais e imediatos, ignorando o transporte de médio e longo alcance, a formação de produtos de transformação e os efeitos combinados das misturas químicas presentes no ambiente. O artigo afirma que existe uma lacuna crítica entre o conhecimento científico acumulado e os mecanismos regulatórios efetivamente utilizados para autorizar pesticidas.

A revisão científica também ressalta que as mudanças climáticas podem ampliar ainda mais esses processos, embora o tema não tenha sido aprofundado no artigo. O aumento das temperaturas, a intensificação das secas e o crescimento dos eventos extremos tendem a favorecer tanto a volatilização quanto a redistribuição atmosférica dos agrotóxicos, criando novos cenários de exposição humana e ambiental.

O trabalho termina defendendo mudanças urgentes nas políticas de monitoramento e regulação. Entre as recomendações estão o fortalecimento das redes de monitoramento atmosférico, a incorporação obrigatória da análise de produtos de degradação, o desenvolvimento de modelos mais sofisticados para prever transporte de longa distância e a adoção de avaliações de risco cumulativo capazes de considerar a exposição simultânea a múltiplos contaminantes.

Mais do que uma revisão técnica, o artigo desmonta um dos pilares discursivos mais utilizados para justificar o uso intensivo de agrotóxicos: a ideia de que os impactos estariam restritos às áreas agrícolas. As evidências reunidas mostram exatamente o contrário. Quando um agrotóxico é lançado no ambiente, ele rapidamente ultrapassa cercas, propriedades e fronteiras nacionais. A atmosfera transforma-se então em um vetor silencioso de contaminação planetária, conectando lavouras intensivas, centros urbanos, ecossistemas frágeis e populações humanas em uma mesma rede de exposição química difusa e permanente.

Agrotóxicos foram encontrados em 80% das amostras de ar de comunidades agrícolas da Califórnia

pesticidas ar

Por Shannon Kelleher para o “The New Lede”

Quase 80% das amostras de ar coletadas no ano passado nas quatro comunidades com maior uso intensivo de agricultura da Califórnia continham resíduos de agrotóxicos, embora as concentrações fossem “improváveis ​​de serem prejudiciais à saúde humana”, de acordo com um relatório regulatório estadual divulgado recentemente.

O Departamento de Regulamentação de Agrotóxicos da Califórnia (CDPR) coletou 207 amostras de ar em estações em Oxnard, Santa Maria, Shafter e Watsonville uma vez por semana ao longo de 2023, encontrando pelo menos um dos 40 agrotóxicos testados em 163 das amostras,  de acordo com os resultados .

As estações de monitoramento detectaram um total de 19 agrotóxicos diferentes nas amostras de ar, incluindo o herbicida pendimetalina e o fumigante 1,3-dicloroproneno (Telone), ambos associados ao câncer.

Esses produtos químicos e outros detectados pelo CDPR também foram associados a náuseas, falta de ar e irritação ocular e respiratória.

Apesar de ser proibido em 34 países, o Telone é o terceiro agrotóxico mais usado na Califórnia, e o CDPR foi  criticado por não implementar regulamentações  que protegessem adequadamente os trabalhadores rurais, em sua maioria latinos, do produto químico.

Todas as amostras foram coletadas nas dependências da escola, o que gerou preocupações entre defensores do meio ambiente e da saúde sobre riscos à segurança de crianças e outros membros vulneráveis ​​da comunidade.

“Os últimos resultados de amostragem de ar continuam a mostrar que os agrotóxicos pulverizados nos campos se afastam do local e contaminam o ar próximo, uma preocupação séria para aqueles que vivem, estudam ou trabalham perto de campos agrícolas”, disse Alexis Temkin, toxicologista sênior do Environmental Working Group (EWG), em um  comunicado à imprensa .

“Alguns agrotóxicos podem se espalhar por vários quilômetros dos campos, colocando muitas pessoas em risco, incluindo trabalhadores rurais e populações vulneráveis, como crianças pequenas, grávidas e idosos”, disse Temkin.

Nenhum dos agrotóxicos nas amostras de ar de 2023 foi detectado em concentrações iguais ou superiores aos níveis que o CDPR considera ameaçadores à saúde pública, disse o CDPR.

As “detecções de agrotóxicos abaixo das metas de proteção à saúde não indicam riscos para pessoas que vivem, trabalham ou vão à escola perto de campos agrícolas”, disse a agência estadual.

Apesar de detectar a presença de agrotóxicos na maioria das amostras, a agência emitiu um  comunicado à imprensa  no início deste mês afirmando que “95% de todas as análises de amostras não apresentaram agrotóxicos detectáveis”.

A maneira como a agência divulgou publicamente seus dados deturpou as descobertas e pareceu intencionalmente enganosa, disseram os críticos.

“Esta é uma desinformação deliberada com a intenção de enganar o público”, disse Jane Sellen, codiretora da Californians for Pesticide Reform. “É muito a serviço da indústria.”

Como um grande centro agrícola, a Califórnia aplica  mais agrotóxicos do que qualquer outro estado dos EUA . Um  estudo de 2022  publicado no periódico  Science of the Total Environment  descobriu que uma média de 5,7 milhões de libras de agrotóxicos por ano foram pulverizadas somente no Condado de Ventura, Califórnia, de 2016 a 2018, incluindo mais de 60 produtos com ligações conhecidas ao câncer. As seções de municípios dentro do Condado de Ventura onde pessoas de cor constituem a maioria da população tiveram tanto o maior uso de agrotóxicos quanto o uso de  produtoss mais tóxicos, descobriu o estudo.

Mas mesmo os moradores das cidades podem não conseguir evitar a exposição a agrotóxicos, de acordo com descobertas publicadas no início deste mês.

Um  estudo  publicado no periódico Environment International encontrou glifosato, o herbicida mais usado no mundo e o principal ingrediente do herbicida Roundup, em todas as 99 amostras de ar coletadas dentro de residências urbanas em Nova York e 15 outros estados do país, embora o produto químico não seja usado em ambientes fechados.

“Descobrimos a ocorrência onipresente de glifosato e AMPA [seu produto de degradação] na poeira interna de residências em áreas urbanas nos Estados Unidos”, escrevem os autores, observando que a presença generalizada do herbicida na poeira interna “pode ser explicada por sua ampla aplicação nos EUA”.


Fonte: The New Lede