Em plena pandemia, atos públicos contra o governo Bolsonaro ocorrem em todo o Brasil. A democracia brasileira respira

wp-1591565026599.jpgTomada aérea do ato público em defesa da democracia em Brasília.   Foto: Ricardo Stuckert.

Encarando uma pandemia letal, ameaças de truculência policial e pedidos de intelectuais tensos com a possibilidade de um golpe militar, milhares de pessoas saíram às ruas de cidades brasileiras neste domingo em defesa da democracia (ver cenas do ato realizado em Brasília).

Ainda que não seja possível realizar um balanço definitivo em termos numéricos, especialmente na comparação daqueles que saíram às ruas nos últimos meses para defender o fechamento do congresso nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF), o que temos no Brasil é uma situação alvissareira, pois depois de quase um ano e meio de contenções e recuos,  aparecem os primeiros sinais de que haverá reação de massas ao “não projeto”  do governo Bolsonaro (que é só um governo de negações e não de proposições para resolver a grave crise econômica, política e sanitária que temos no Brasil neste momento).

Ato antirracismo na Avenida Presidente Vargas, no Centro do Rio Foto: Bruno MarinhoAto em defesa da democracia na Avenida Presidente Vargas na cidade do Rio de Janeiro. Foto: Bruno Marinho

Um dos aspectos mais óbvios dos atos do dia de hoje é que a maioria deles (a exceção foi no Rio de Janeiro onde a Polícia Militar usou da usual força excessiva contra os manifestantes em um aparente esforço de diminuir a afluência aos atos que acabaram ocorrendo em diferentes pontos da cidade) transcorreu de forma pacífica, sem uma intervenção truculenta das forças policiais, como temia o cientista político Luiz Eduardo Soares (abaixo uma imagem do ato realizado no Largo da Batata em São Paulo mostrando os cantores rap Mano Brown, Thaíde e Dexter)

wp-1591565295544.jpgMano Brown, Thaíde e Dexter participam do ato público no Largo da Batata em São Paulo.

Ainda que seja cedo para fazer maiores análises sobre o porquê da aparente tranquilidade dos atos de hoje, eu me arriscaria a dizer que muito disso teve a ver com a ação desastrada do Ministério da Saúde que criou uma espécie de vazio informacional sobre a situação da pandemia da COVID-19, e colocou o governo Bolsonaro sobre uma pressão cada vez maior perante a maioria da população no tocante à qualidade da gestão realizada para evitar o avanço desenfreado do coronavírus no Brasil.

Esse novo desgaste não só empurrou mais gente para protestar contra o governo federal para as ruas, como também inibiu parte da truculência que se dizia estava preparada para ocorrer, inclusive abrindo as portas para um golpe militar segundo Luiz Eduardo Soares.

O avanço da pandemia e o aumento do número de mortos ainda colocará muita pressão não apenas sobre o governo federal, mas também sobre governadores e prefeitos que decidirem relaxar o isolamento social em um momento em que a curva de contaminação continua em franca ascendência.

Por mais arriscado que tenha sido para os participantes dos atos de hoje, o fato é que essa coragem de enfrentar o vírus e as ameaças de truculência mostra que, como eu já disse aqui, o jogo em defesa da democracia continua sendo jogado. E como mostram as cenas nos EUA e em outras partes do mundo, é bem possível que os opositores do governo Bolsonaro saiam rapidamente da posição defensiva para outra mais questionadora do estado de coisas que vige neste momento no Brasil.