A guerra suja da Syngenta contra o cientista Tyrone Hayes

por Heloisa Villela, de Nova York

O trabalho de pesquisa do cientista Tyrone Hayes mais parece um roteiro pronto para um diretor como Martin Scorsese.

A jornalista Rachel Aviv, da revista New Yorker, contou a saga de Hayes em nome da Ciência.

Uma pesquisa que bateu de frente com a Syngenta, a gigante suíça que fabrica pesticidas e vende sementes.

Em 1998 Tyrone Hayes já trabalhava no laboratório de biologia da Universidade da Califórnia em Berkeley quando foi convidado, pela Syngenta, para fazer uma pesquisa a respeito do herbicida atrazina, fabricado pela Syngenta. Hayes topou. Ele tinha trinta e um anos e já havia publicado vários trabalhos sobre o sistema endocrinológico dos anfíbios.

Os dois lados, com certeza, se arrependeram da parceria. Hayes descobriu que o atrazina atrapalhava, ou até impedia o desenvolvimento sexual dos sapos. A empresa não gostou do resultado, tentou impedir a publicação do estudo, tentou comprar os dados para mantê-los em segredo e as relações da empresa com o cientista foram rompidas, definitivamente, no ano 2000.

Mas Hayes não é do tipo que trabalha apenas pelo dinheiro. O que ele percebeu na pesquisa atiçou a curiosidade do cientista e ele continuou estudando os efeitos do atrazina sobre os anfíbios por conta própria.

O artigo de dez páginas da revista New Yorker conta como a empresa estruturou e levou a cabo uma ampla campanha de difamação de Hayes com o objetivo de destruir a reputação do cientista.

Estudou todos os aspectos profissionais e pessoais da vida dele para melhor explorar qualquer ponto fraco. Lembra demais a descrição de táticas descritas em detalhes pelo jornalista Rubens Valente no livro Operação Banqueiro.

Como já se desconfiava por aqui, as grandes empresas farmacêuticas e do agronegócio contratam cientistas e pesquisadores para que repitam informações que interessam às empresas. E muitos se prestam, sem pudor, a esse papel.

Pior: o artigo da New Yorker relata as manobras adotadas pela empresa para comprar, também, o apoio dos responsáveis pela aprovação de drogas no mercado norte-americano.

Os riscos que o herbicida atrazina oferece à saúde foram considerados sérios o suficiente para que o produto fosse banido na Europa. Nos Estados Unidos, continua sendo usado em cerca de metade da produção de milho do país.

No Brasil, também é aplicado à vontade nas plantações.

A perseguição a Tyrone Hayes foi tão intensa que ele passou a ser visto, pelos colegas, como um paranoico. Achava que tinha a conta de e-mail monitorada, que era perseguido, que não podia fazer palestras sem a presença de agentes da Syngenta que tentavam intimidá-lo e criar dúvidas a respeito das conclusões que ele apresentava.

Para se prevenir, ele passou a copiar os dados da pesquisa e enviar para a casa dos pais. Usou o e-mail como forma de confundir o adversário, com a ajuda dos alunos que trabalhavam no laboratório com ele. Recentemente, ficou provado que Hayes não era nada paranoico e que a conspiração existia de fato.

Um dos únicos biólogos afro-americanos de destaque do país, Tyrone Hayes era considerado um dos melhores professores de Berkeley e uma das grandes promessas do meio acadêmico e científico.

Ao longo dos últimos 14 anos de guerra aberta contra a Syngenta, ele acabou perdendo o laboratório em Berkeley. Mas de certa forma, foi vingado.

A Syngenta foi processada em uma ação coletiva por 23 municípios do meio-oeste dos Estados Unidos. Eles acusaram a empresa de esconder o perigos reais do atrazina para a saúde.

Por conta do processo, jornalistas norte-americanos tiveram acesso a documentos internos, memorandos e e-mails da empresa. O trabalho de Tyrone Hayes foi a base científica usada pelos advogados dos municípios.

Desde que passou a se dedicar ao estudo dos efeitos do atrazina sobre animais e até sobre humanos, Hayes angariou seguidores.

Outros cientistas seguiram a mesma linha e ampliaram as descobertas do pioneiro na área. E hoje já existem resultados que falam em defeitos de nascimento em humanos. Enquanto os pesquisadores acumularam dados contra o herbicida, a empresa se ocupou em colher informações sobre Hayes.

Em entrevista ao programa DemocracyNow! da jornalista Amy Goodman, Tyrone Hayes contou que as ameaças não paravam na esfera científica.

Ele disse que um representante da empresa o abordou antes de uma palestra e sussurrou que ele podia ser linchado, que ía mandar uns rapazes para mostrar a Hayes como é ser gay e chegaram até a ameaçar a segurança da mulher e da filha dele.

Enquanto isso, vários trabalhos foram apresentados à EPA (Agência de Proteção Ambiental) a respeito dos perigos do atrazina para a saúde e da contaminação do solo e da água nos locais onde ele é usado.

Dados científicos que as autoridades norte-americanas refutaram duas vezes: mantiveram a licença do produto, sem restrições.

Depois também veio à tona que alguns membros do comitê da EPA, que tomou a decisão favorável ao atrazina, tinham relações com a Syngenta.

Este ano, o herbicida, o segundo mais usado nos Estados Unidos, será avaliado novamente. Quem sabe qual será o resultado da análise desta vez…

PS do Viomundo: A pesquisa do cientista demonstrou que o herbicida provoca a mudança de sexo em sapos; na excelente entrevista que deu ao DemocracyNow!, ele estranha que os conglomerados produzam tanto substâncias cancerígenas quanto contra o câncer. Por que $erá?

FONTE: http://www.viomundo.com.br/denuncias/a-guerra-suja-da-syngenta-contra-o-cientista-tyrone-hayes.html

A esquisita ignorância da “Águas do Paraíba” em relação aos micropoluentes emergentes na água que nos vende

O jornal O DIÁRIO traz hoje uma matéria sobre substâncias poluentes que estão presentes na água que é entregue aos campistas todos os dias pela concessionária “Águas do Paraíba” (Aqui!). Entre os compostos encontrados pela professora Maria Cristina Canela do Laboratório de Ciências Químicas da Universidade Estadual do Norte Fluminense estão a cafeína, atrazina e Bisfenol A, que estão presentes, respectivamente, no nosso cafezinho de todos os dias, em agrotóxicos e plásticos.

Esse tipo de micro-poluente das águas de consumo já foi associado a uma série de doenças graves como o câncer de testículo, de mama e de próstata, à queda da taxa de espermatozóides, deformidades dos órgãos reprodutivos, disfunção da tireóide e alterações relacionadas com o sistema neurológico (Aqui!).

A verdade é que essa informação não é nova, como não são novas as pesquisas feitas pela equipe da Profa. Maria Cristina Canela. Essas pesquisas forma objetos de várias matérias na Revista Somos que chegou a entrevistar o Prof. Wilson Jardim da Universidade de Campinas (UNICAMP) que é um dos maiores especialistas neste tipo de contaminação no mundo.

E por que estou citando isso? É que na matéria produzida pelo Jornal O DIÁRIO, há a informação de que “a assessoria de imprensa da concessionária Águas do Paraíba, responsável pelo abastecimento em Campos, solicitou à pesquisadora que apresente a pesquisa, para que a universidade colabore efetivamente com a população.” Se essa alegação for mesmo da assessoria de imprensa da “Águas do Paraíba”, eu diria que estamos diante de um problema mais sério. Afinal de contas, a informação sobre o problema já é de conhecimento da empresa faz quase  dois anos, sem que os pesquisadores envolvidos no projeto tenham sido contactados para que se estabelecesse qualquer tipo de processo de cooperação genuína (Aqui!). Assim, me parece que insinuar que a universidade não está colaborando efetivamente com a população é, no mínimo uma grosseria. Afinal, quem tem a obrigação de nos entregar água de qualidade e nos cobra um preço salgado por isso é a Águas do Paraíba, e nos os pesquisadores que investigam o problema.

A verdade é que se a “Águas do Paraíba” tivesse mesmo interesse de atacar o problema da maneira que o mesmo precisa ser atacado, logo após a primeira matéria publicada pela “Somos Assim” a empresa deveria ter procurado os pesquisadores da UENF. E não foi o que aconteceu. Mas dada essa nova matéria do O DIÁRIO, está ai novamente colocada a possibilidade de que a empresa procure os pesquisadores e não o contrário. Afinal, uma vez divulgada a informação ela se torna pública e notória. E só não age, quem não quer.