Estudo associa agrotóxicos organofosforados a uma série de doenças em fetos e crianças. Banir sería a solução

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Um artigo publicado pela revista PLOS Medicine de autoria de um grupo de pesquisadores de instituições de pesquisa dos EUA e do Canadá liderados pela Dra. Irva Hertz-Picciotto da Universidade da California-Davis traz revelações importantes sobre os impactos trazidos pelo uso intensivo e indiscriminado de agrotóxicos da classe dos organofosforados [1].

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Além dos impactos diretos sobre os agricultores que manipulam e aplicam esta classe de agrotóxicos, os pesquisadores estabeleceram efeitos sobre a saúde até de fetos em desenvolvimento no útero, o que vem a causar problemas cognitivos e comportamentais, bem como deficiências no processo de desenvolvimento neurocomportamentais. Segundo o que apontam os pesquisadores,  os resultados associados à  exposição de fetos a agrotóxicos organofosforados normalmente  incluem a ocorrencia de reflexos primitivos anormais em recém-nascidos; atrasos no desenvolvimento mental e motor entre crianças em nível pré-escolar, bem como  a diminuição da memória de trabalho e visual e na velocidade de processamento, compreensão verbal, raciocínio perceptivo e QI entre crianças em idade escolar. As exposições pré-natais a organofosforados também elevariam os riscos para sintomas ou diagnósticos de transtorno de déficit de atenção / hiperatividade (TDAH) e transtorno do espectro do autismo (TEA)

O mapa abaixo mostra o nível de uso de organofosforados nos países em que a série temporal adotada pelos pesquisadores estava disponível, o que não foi o caso do Brasil que aparece em cinza. Entretanto, se observarmos os níveis de países como Argentina, EUA e Índia é possível afirmar que os efeitos colaterais trazidos por esta classe de produto estão amplamente disseminados em países com este nível de uso.

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Agora imaginemos o que ocorrerá no Brasil caso a plataforma de liberação “ampla, geral e irrestrita” que os latifundiários pretendem impor vier a ser aplicada em conjunção com uma retração nos investimentos em saúde pública. O nosso país certamente se tornará um dos principais epicentros das consequências deletérias do uso descontrolado de agrotóxicos no mundo, sejam eles organofosforados ou não.

Enquanto isso, no que depender das descobertas trazidas por este estudo, outros países serão instados a banir os organofosforados, ampliando as proibições que já estão sendo amplamente aplicadas para esta classe de agrotóxicos.


[1] https://journals.plos.org/plosmedicine/article?id=10.1371/journal.pmed.1002671

O “alarmante” uso de agrotóxicos no Brasil atinge 70% dos alimentos

Mais da metade das substâncias usadas aqui é proibida em países da UE e nos EUA

MARINA ROSSI São Paulo

 

Produtor, em meio a uma plantação. / AFP

Imagine tomar um galão de cinco litros de veneno a cada ano. É o que os brasileiros consomem de agrotóxico anualmente, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA). “Os dados sobre o consumo dessas substâncias no Brasil são alarmantes”, disse Karen Friedrich, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Desde 2008, o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de consumo de agrotóxicos. Enquanto nos últimos dez anos o mercado mundial desse setor cresceu 93%, no Brasil, esse crescimento foi de 190%, de acordo com dados divulgados pela Anvisa. Segundo o Dossiê Abrasco – um alerta sobre o impacto dos agrotóxicos na saúde, publicado nesta terça-feira no Rio de Janeiro, 70% dos alimentos in natura consumidos no país estão contaminados por agrotóxicos. Desses, segundo a Anvisa, 28% contêm substâncias não autorizadas. “Isso sem contar os alimentos processados, que são feitos a partir de grãos geneticamente modificados e cheios dessas substâncias químicas”, diz Friederich. De acordo com ela, mais da metade dos agrotóxicos usados no Brasil hoje são banidos em países da União Europeia e nos Estados Unidos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre os países em desenvolvimento, os agrotóxicos causam, anualmente, 70.000 intoxicações agudas e crônicas.

O uso dessas substâncias está altamente associado à incidência de doenças como o câncer e outras genéticas. Por causa da gravidade do problema, na semana passada, o Ministério Público Federal enviou um documento à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomendando que seja concluída com urgência a reavaliação toxicológica de uma substância chamada glifosato e que a agência determine o banimento desse herbicida no mercado nacional. Essa mesma substância acaba de ser associada ao surgimento de câncer, segundo um estudo publicado em março deste ano pela Organização Mundial da Saúde (OMS) juntamente com o Inca e a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC). Ao mesmo tempo, o glifosato foi o ingrediente mais vendido em 2013 segundo os dados mais recentes do Ibama.

Em resposta ao pedido do Ministério Público, a Anvisa diz que em 2008 já havia determinado a reavaliação do uso do glifosato e outras substâncias, impulsionada pelas pesquisas que as associam à incidência de doenças na população. Em nota, a Agência diz que naquele ano firmou um contrato com a Fiocruz para elaborar as notas técnicas para cada um dos ingredientes – 14, no total. A partir dessas notas, foi estabelecida uma ordem de análise dos ingredientes “de acordo com os indícios de toxicidade apontados pela Fiocruz e conforme a capacidade técnica da Agência”.

Enquanto isso, essas substâncias são vendidas e usadas livremente no Brasil. O 24D, por exemplo, é um dos ingredientes do chamado ‘agente laranja’, que foi pulverizado pelos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã, e que deixou sequelas em uma geração de crianças que, ainda hoje, nascem deformadas, sem braços e pernas. Essa substância tem seu uso permitido no Brasil e está sendo reavaliada pela Anvisa desde 2006. Ou seja, faz quase dez anos que ela está em análise inconclusa.

O que a Justiça pede é que os ingredientes que estejam sendo revistos tenham o seu uso e comércio suspensos até que os estudos sejam concluídos. Mas, embora comprovadamente perigosos, existe uma barreira forte que protege a suspensão do uso dessas substâncias no Brasil. “O apelo econômico no Brasil é muito grande”, diz Friedrich. “Há uma pressão muito forte da bancada ruralista e da indústria do agrotóxico também”. Fontes no Ministério Público disseram ao EL PAÍS que, ainda que a Justiça determine a suspensão desses ingredientes, eles só saem de circulação depois que os fabricantes esgotam os estoques.

O consumo de alimentos orgânicos, que não levam nenhum tipo de agrotóxico em seu cultivo, é uma alternativa para se proteger dos agrotóxicos. Porém, ela ainda é pouco acessível à maioria da população. Em média 30% mais caros, esses alimentos não estão disponíveis em todos os lugares. O produtor Rodrigo Valdetaro Bittencourt explica que o maior obstáculo para o cultivo desses alimentos livres de agrotóxicos é encontrar mão de obra. “Não é preciso nenhum maquinário ou acessórios caros, mas é preciso ter gente para mexer na terra”, diz. Ele cultiva verduras e legumes em seu sítio em Juquitiba, na Grande São Paulo, com o irmão e a mãe. Segundo ele, vale a pena gastar um pouco mais para comprar esses alimentos, principalmente pelos ganhos em saúde. “O que você gasta a mais com os orgânicos, você vai economizar na farmácia em remédios”, diz. Para ele, porém, a popularização desses alimentos e a acessibilidade ainda levarão uns 20 anos de briga para se equiparar aos produtos produzidos hoje com agrotóxico.  

Bittencourt vende seus alimentos ao lado de outras três barracas no Largo da Batata, zona oeste da cidade, às quartas-feiras. Para participar desse tipo de feira, é preciso se inscrever junto à Prefeitura e apresentar todas as documentações necessárias que comprovem a origem do produto. Segundo Bittencourt, há uma fiscalização, que esporadicamente aparece nas feiras para se certificar que os produtos de fato são orgânicos.

No mês passado, o prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT) sancionou uma lei que obriga o uso de produtos orgânicos ou de base agroecológica nas merendas das escolas municipais. A nova norma, porém, não tem prazo para ser implementada e nem determina o percentual que esses alimentos devem obedecer.

Segundo um levantamento da Anvisa, o pimentão é a hortaliça mais contaminada por agrotóxicos (segundo a Agência, 92% pimentões estudados estavam contaminados), seguido do morango (63%), pepino (57%), alface (54%), cenoura (49%), abacaxi (32%), beterraba (32%) e mamão (30%). Há diversos estudos que apontam que alguma substâncias estão presentes, inclusive, no leite materno.

No ano passado, a pesquisadora norte-americana Stephanie Seneff, do MIT, apresentou um estudo anunciando mais um dado alarmante: “Até 2025, uma a cada duas crianças nascerá autista”, disse ela, que fez uma correlação entre o Roundup, o herbicida da Monsanto feito a base do glifosato, e o estímulo do surgimento de casos de autismo. O glifosato, além de ser usado como herbicida no Brasil, também é uma das substâncias oficialmente usadas pelo governo norte-americano no Plano Colômbia, que há 15 anos destina-se a combater as plantações de coca e maconha na Colômbia.

Em nota, a Anvisa afirmou que aguarda a publicação oficial do estudo realizado pela OMS, Inca e IARC para “determinar a ordem prioritária de análise dos agrotóxicos que demandarem a reavaliação”.

Os alimentos mais contaminados pelos agrotóxicos

Em 2010, o mercado brasileiro de agrotóxicos movimentou 7,3 bilhões de dólares e representou 19% do mercado global. Soja, milho, algodão e cana-de-açúcar representam 80% do total de vendas nesse setor. 

Segundo a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), essa é a lista da agricultura que mais consome agrotóxicos:
Soja (40%)
Milho (15%)
Cana-de-açúcar e algodão (10% cada)
Cítricos (7%)
Café, trigo e arroz (3 cada%)
Feijão (2%)
Batata (1%)
Tomate (1%)
Maçã (0,5%)
Banana (0,2%)

As demais culturas consumiram 3,3% do total de 852,8 milhões de litros de agrotóxicos pulverizados nas lavouras brasileiras em 2011.

Incidência de autismo pode estar relacionada ao uso de agrotóxicos

Novo estudo liga ocorrência de autismo a pesticidas agrícolas

  (Foto: wikimedia commons)

(FOTO: WIKIMEDIA COMMONS)

Um estudo publicado essa semana pela Universidade da Califórnia mostra uma nova e preocupante relação entre poluentes ambientais e a incidência de autismo. De acordo com os pesquisadores, mulheres grávidas que vivam a até cerca de 1,5 quilômetros de fazendas ou plantações que usam pesticidas têm 60% mais chances de ter filhos autistas. O risco pode dobrar se a mulher for exposta aos poluentes no último trimestre da gravidez.

A ciência já investiga há algum tempo a relação entre substâncias tóxicas como mercúrio, diesel, pesticidas e outros subprodutos de produções industriais em massa e a alteração do desenvolvimento cerebral de fetos que sejam contaminados. Mas esse estudo é um dos que aponta mais claramente essa relação. “Pesticidas são a substância tóxica que parecem ter a maior associação com autismo”, afirmou ao site The Verge o especialista em autismo Dan Rossignol.

Nos EUA, 1 a cada 68 crianças tem algum tipo de autismo. Esse número chega a triplicar se as mães são expostas a contaminação por pesticidas durante a gravidez. De acordo com especialistas, o estudo é um pontapé inicial para que os estudos relacionando autismo e poluição ambiental sejam aprofundados. Richard Frye, pesquisador sobre autismo da Universidade de Arkansas, diz que é importantes que mulheres que planejem ter filhos ou que estejam grávidas evitem contato com pesticidas agrícolas.

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