Mudanças climáticas ameaçam futuro da banana na América Latina

Barraca de banana ao longo de uma rodovia para São Paulo, Brasil. As mudanças climáticas tornarão grandes áreas da América Latina inviáveis ​​para o cultivo de banana se medidas não forem tomadas em breve. Crédito da imagem: jACK TWO/Flickr , licenciado sob Creative Commons CC BY-NC-ND 2.0

Sua plantação está localizada na região semiárida do estado da Bahia, no nordeste do Brasil.

Há temores de que os próximos meses de seca reavivem os tempos difíceis de 2023, quando uma onda de calor causou uma redução de 15% na colheita do ano seguinte.

Mesmo em condições normais, 60% da fazenda de frutas de 100 hectares de Kogler requer irrigação.

“Mas quando as temperaturas ficam em torno de 40°C e os níveis de umidade estão muito baixos, as plantas param de funcionar, mesmo com irrigação”, diz ele.

Com as temperaturas globais continuando a subir, as perspectivas estão longe de ser promissoras.

Um estudo publicado na Nature Food descobriu que, até 2080, o aumento das temperaturas levará a uma redução de 60% nas áreas adequadas para a produção de banana para exportação na América Latina e no Caribe se medidas urgentes não forem tomadas para combater as mudanças climáticas .

São esperadas quedas de produtividade na maioria das áreas atualmente utilizadas para o cultivo de banana na região.

Ervino Kogler em sua plantação de banana, uma fruta que é uma fonte crucial de renda para países de baixa e média renda. Crédito da imagem: Luiz Neves

Os cientistas também descobriram que fatores socioeconômicos, como disponibilidade de mão de obra e infraestrutura, limitam severamente a adaptação climática.

Pesquisadores usaram imagens de satélite para mapear regiões de produção intensiva de banana, identificando fatores climáticos, socioeconômicos e relacionados ao solo que influenciam a viabilidade da cultura.

Os resultados mostram que a produção de banana está concentrada em regiões de baixa altitude, com temperaturas altas e estáveis ​​e solos levemente ácidos. A maioria das fazendas de banana está localizada perto de portos e centros urbanos, o que dificulta sua localização em áreas mais adequadas.

“Em algumas regiões já está muito quente, perto do limite para produção comercial, e eles ficarão muito quentes”, disse Dan Bebber, professor de ecologia na Universidade de Exeter, Reino Unido, que liderou o estudo, ao SciDev.Net .

“Algumas regiões onde o cultivo de banana ainda era viável sem irrigação, embora com alto risco climático, agora exigem irrigação para mitigar esses riscos.”

Mauricio Coelho, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária

Segundo Bebber, Colômbia e Costa Rica são particularmente vulneráveis , o que é preocupante para a indústria exportadora para Europa e América do Norte.

As únicas regiões com perspectiva favorável são o sul do Brasil, que já tem um clima mais frio, e o Equador, onde as projeções não indicam aquecimento significativo.

“Descobrimos que o monitoramento remoto usando radar de satélite foi muito útil para detectar a produção de banana de alta intensidade”, explicou Bebber.

“No entanto, muitos países insulares do Caribe, como o Haiti, produzem bananas de forma menos intensiva, e não conseguimos detectar com precisão esses sistemas de produção”, acrescentou.

Sua equipe planeja desenvolver outros métodos para monitorar esse tipo de produção.

Onze milhões de dólares

As bananas são um dos produtos agrícolas mais exportados do mundo, com um mercado avaliado em cerca de US$ 11 bilhões anualmente.

Esta fruta é uma fonte crucial de renda para países de baixa e média renda. Na Colômbia, o comércio agrícola representa cerca de 5% do produto interno bruto (PIB) do país e emprega quase 300.000 pessoas, direta ou indiretamente, de acordo com o estudo.

Além disso, como é um alimento básico consumido no mundo todo, as ameaças à sua produção também representam riscos à segurança alimentar em vários países.

Desde 2020, o Brasil incluiu o cultivo de banana no Zoneamento de Risco Climático Agrícola, um sistema de mapeamento que avalia os riscos de plantar e produzir em diferentes condições climáticas.

Mauricio Coelho, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (CBA), conta ao SciDev.Net que o Zoneamento de Risco Climático Agrícola mostrou que regiões do Brasil que antes eram semiúmidas estão se tornando semiáridas.

“Algumas regiões onde o cultivo de banana ainda era viável sem irrigação, embora com alto risco climático, agora exigem irrigação para mitigar esses riscos”, explicou.

Ervino Kogler com uma muda de bananeira. Crédito da imagem: Luiz Neves

Estratégias de mitigação

Várias estratégias foram adotadas para mitigar o impacto das mudanças climáticas na produção de banana. Em sua fazenda de banana, Ervino Kogler aumentou a quantidade de rega diária e direcionou a água para mais partes das plantas.

No entanto, a disponibilidade de água também é afetada pelo aquecimento global. Para resolver esse problema, os cientistas estão estudando variedades de banana tolerantes à seca.

Entre elas estão duas variedades desenvolvidas pela CBA, que requerem 25% menos água do que as cultivares tradicionais.

Segundo Coelho, essas bananas híbridas foram desenvolvidas inicialmente para resistir a doenças fúngicas como a sigatoka preta e a amarela. No entanto, inesperadamente, eles também apresentaram menores necessidades de água.

Cientistas indianos também descobriram que expor as bananeiras Grand Nain — uma das variedades mais comuns — a um aumento gradual de temperatura de 30 a 42 °C pode ajudá-las a suportar temperaturas mais altas no futuro.

Por meio desses experimentos, os pesquisadores identificaram os genes e as vias metabólicas envolvidas na aquisição da tolerância ao calor.

“Eles terão memória molecular para suportar o aumento do estresse”, explicou Kundapura Ravishankar, do Instituto Indiano de Pesquisa Hortícola, ao SciDev.Net .

Ele acrescentou que as descobertas do estudo são relevantes para várias áreas do mundo.

Em outro desenvolvimento tecnológico, a CBA, em colaboração com uma empresa de biofertilizantes, criou um “protetor solar” para plantas, que reduz os danos às folhas e frutos causados ​​pelo calor excessivo.

A substância, diluída em água, pode ser pulverizada com pulverizadores costais, tratores ou até mesmo drones. Segundo Coelho, a camada protetora melhora a capacidade da planta de trocar gases durante a fotossíntese.

Coelho disse que experimentos em andamento em plantações de banana mostraram que plantas sem protetor solar tinham 30% menos clorofila — o pigmento verde essencial para a fotossíntese — do que aquelas tratadas com o produto.


Este artigo foi produzido pela edição da América Latina e Caribe do  SciDev.Net

As duas faces da Anvisa: um lado proíbe vacina, o outro aumenta LMR de agrotóxicos em alimentos

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A mesma Anvisa que suspende testes de vacina contra a COVID-19 é que a aumenta a quantidade de resíduos de agrotóxicos nas frutas que chegam às mesas das famílias brasileiras

Apesar de estar Envolvida em uma grossa polêmica por causa da suspensão dos testes com a vacina Coronavac produzida pela empresa chinesa Sinovac, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) continua sendo bastante ágil em uma área também bastante sensível que envolve não apenas a liberação de agrotóxicos, mas também a fixação da liberação de limites máximos de resíduos para substâncias altamente perigosas que, em muitos casos, já foram banidas nos países em que foram desenvolvidas e produzidas.

Um exemplo dessa agilidade da Anvisa foi a publicação da Resolução No. 4441 de 29 de outubro de 2020 na edição da última 3a. feira (03 de novembro) em que são elevados os limites máximos de resíduos (LMRs) para o fungicida Azoxistrobina (que é classificado como sendo o “medianamente tóxico” para humanos (Classe III) e “muito perigoso ao meio ambiente” (Classe II)).  (ver imagem abaixo).

azoxistrobina lmr

Nessa mesma resolução, a Anvisa elevou os LMRs do Azoxistrobina para diversas frutas incluindo abacaxi, mamão, citros e banana. No caso da manga, por exemplo, o aumento do limite máximo de resíduos foi de 15 vezes, enquanto que para o mamão o valor foi de 20 vezes.

O problema é que em um relatório recém lançado pela própria Anvisa, todas essas frutas já aparecem com as mais contaminadas por resíduos de agrotóxicos, incluindo, obviamente, a presença de Azoxistrobina em todas elas (ver figura abaixo). 

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Então a questão aqui parece ser simples: confrontada com a evidência de que a Azoxistrobina (que apenas no governo Bolsonaro teve liberados 30 agrotóxicos que continham essa substância!) estava presente em valores acima do LMR estabelecido pela legislação brasileira, o que fez a Anvisa? Simples, aumentou o valor legalmente aceitável para o Azoxistrobina nas frutas que chegam não apenas às mesas dos brasileiros, mas de todos os países que importam esses produtos do Brasil.

E aí é que mora um aspecto interessante, pois estudo feito pela geógrafa e docente do Departamento de Geografia da USP, Larissa Miers Bombardi, o Brasil já possui limites máximos de resíduos em alimentos bem acima do que é tolerado, por exemplo, pela União Europeia. Com esse afrouxamento ainda maior dos limites para a presença de resíduos desses venenos agrícolas nos alimentos que são produzidos no Brasil, não será surpresa se o período pós-pandemia da COVID-19 for marcado por um banimento de um grande número de frutas produzidas por aqui.

Racismo cotidiano e a hipocrisia reinante: só comer banana não resolve nada

A ampla repercussão dada pela mídia e por estrelas televisivas ao ato do jogador Daniel Alves de comer parte de uma banana que foi arremessa por um torcedor do Villareal num jogo do campeonato espanhol me parece é um belo exemplo da hipocrisia que reina no Brasil.

O slogan criado por uma agência de propaganda e difundida inicialmente por Neymar Junior (que numa entrevista disse nunca ter sido vítima de racismo por não ser negro!) “Somos todos macacos” está varrendo as redes sociais e páginas da mídia corporativa. Mas em termos práticos, o que os mesmos que abraçam tão rapidamente a bola levantada por Neymar Junior fazem de prático quando os atingidos pelo racismo que impera no Brasil?

A verdade é que surfar na onda levantada por Daniel Alves é uma coisa, e se comprometer com as mudanças estruturais que acabariam com o racismo que impera no cotidiano brasileiro é outra coisa totalmente diferente. Por isso mesmo é que eu desconfio sempre desse tipo de ação midiática cujo fim objetivo é apagar o papel que cada um tem na manutenção das estruturas arcaicas que tornam o Brasil um dos países, senão o mais, desiguais do planeta. E disso os milhares de negros que são vitimizados todos os dias nas comunidades urbanas espalhadas no Brasil sabem perfeitamente.