Governo Lula cede à pressão dos lobby pró-veneno e suspende implantação do Programa Nacional de Rastreabilidade de Agrotóxicos e Afins

Conheça a máquina de lobby contra projetos de lei que proíbem pulverização  de agrotóxicos - De Olho nos Ruralistas

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) decidiu adiar por 60 dias a implantação do Programa Nacional de Rastreabilidade de Agrotóxicos e Afins (PNRA), após forte pressão de entidades que representam os interesses de produtores e vendores de venenos agrícolas. A medida foi formalizada pela PortariaNº 817 de  21 de julho de 2025 e amplia o prazo para que empresas e produtores rurais se adequem às novas exigências previstas na Portaria nº 805, de 9 de junho de 2025, incluindo a definição do cronograma de adesão e dos padrões técnicos do programa.

Segundo o Mapa, a decisão também abre espaço para o envio de contribuições até o dia 31 de julho, com o objetivo de revisar aspectos técnicos da norma publicada no mês de junho. Entre os pontos mais criticados está a exigência do uso de etiquetas por radiofrequência (RFID) nas embalagens dos produtos, considerada pela indústria como onerosa e desnecessária para o setor.

Nesse cenário, algumas entidades que fazem lobby em prol da produção e venda de agrotóxicos, tais como a CropLife Brasil e o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg) acabaram elogiando a decisão do governo e reforçaram a importância de um diálogo mais profundo sobre o tema. Ambas as entidades afirmam apoiar a rastreabilidade, mas defendem ajustes que evitem impactos econômicos negativos na cadeia produtiva. “A publicação desta portaria atende um anseio do setor privado e, com certeza, vamos colaborar na construção de uma proposta factível”, afirmouo Sindiveg em nota.

Além disso, a iniciativa do governo Lula ocorre em meio a críticas de parlamentares ligados à bancada ruralista e à apresentação de projetos que visam suspender o PNRA. Isso porque os opositores apontam a falta de consulta ao setor e alertam para o risco de aumento nos custos operacionais, especialmente para pequenos e médios produtores, que são maioria no país.

É sempre bom lembrar que, ao contrário do que afirmam as entidades do lobby pró-venonos agrícolas,  o grosso do uso de agrotóxicos no Brasil ocorre em latifúndios onde se concentra o plantio de monoculturas de exportação que incluem a soja, milho, cana de açúcar e algodão.

Contaminação por glifosato atinge municípios a quilômetros de distância das lavouras

avião agrotóxico

Por Fernanda Wenzel para a Mongabay 

O Brasil é um dos maiores produtores de soja do mundo. Uma potência agrícola movida a toneladas e mais toneladas de agrotóxicos, que colocam o Brasil no topo do ranking mundial de consumos de agrotóxicos. Quase um terço desse consumo se concentra em apenas uma substância: o glifosato, um herbicida usado para matar as outras plantas que insistem em crescer junto aos pés da oleaginosa.

Em 2015, a Organização Mundial de Saúde concluiu que o glifosato era “provavelmente cancerígeno” para humanos. Mesmo assim, quatro anos depois, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reavaliou para baixo o nível de toxicidade do agrotóxico, até então classificado como “extremamente tóxico”.

À época, a agência justificou que “o glifosato apresenta maior risco para os trabalhadores que atuam em lavouras e para as pessoas que vivem próximas a estas áreas”, sugerindo que medidas de proteção na hora da aplicação seriam suficientes para garantir o uso seguro do agrotóxico. Afirmação reforçada pelos produtores do agrotóxico, que afirmam que o produto é rapidamente absorvido no ambiente, limitando sua dispersão.

 Cada vez mais estudos, no entanto, mostram que os efeitos do herbicida podem ser sentidos a dezenas de quilômetros dos locais de aplicação. Pesquisadores já detectaram a presença do agrotóxico em rios do Brasil, Argentina e Estados Unidos, os três maiores produtores de soja do mundo. Na Argentina, a substância foi encontrada mesmo em locais distantes das plantações, enquanto nos Estados Unidos um estudo encontrou a substância em 74% das amostras analisadas.

“O glifosato impacta toda a região, porque, além de contaminar a água superficial, contamina o lençol freático, o ar e a chuva”, afirma Wanderlei Pignati, médico e professor do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT).

Estudo publicado na Review of Economic Studies relacionou a contaminação da água por glifosato a um aumento de 5% nas taxas de mortalidade infantil. Foto: charlesricardo via Pixabay (domínio público)

Uma nova evidência vem de um artigo publicado no final do ano passado na Review of Economic Studiesque analisou as taxas de mortalidade infantil em municípios que não necessariamente produzem soja, mas que são abastecidos por rios vindos de áreas com uso intensivo de glifosato.

“Vimos que, a partir do momento em que algumas regiões a montante utilizam o produto, a mortalidade infantil aumenta rio abaixo. Esse estudo sugere que esse efeito é carregado através de corpos d’água”, afirma Rudi Rocha, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP), e autor do estudo ao lado de Mateus Dias e Rodrigo Soares.

A conclusão é que a contaminação pelo agrotóxico levou a um aumento de 5% nas taxas de mortalidade infantil, o equivalente a 503 bebês mortos por ano. A pesquisa reforça estudos anteriores que apontaram para a contaminação pelo glifosato de células da placenta e do embrião, impactando o desenvolvimento do bebê ainda na barriga da mãe, e também através do leite materno.

Segundo Rocha, o glifosato pode ser carregado pelas águas dos rios por até 100 quilômetros, e a contaminação aumenta em períodos de muita chuva ou em regiões com maior erosão do solo. “Todas as hipóteses foram sendo testadas e concluímos que, de fato, o uso maior do glifosato afeta a saúde infantil de populações que estão rio abaixo.”

Lobby fala mais alto

 Rocha e seus colegas analisaram as taxas de mortalidade de bebês de até um ano de idade em 1.119 municípios das regiões Sul e Centro-Oeste do país entre os anos de 2000 e 2010. No meio deste período, em 2004, o Brasil aprovou o uso de uma semente de soja transgênica resistente ao glifosato.

A tecnologia permitiu a aplicação do veneno não apenas antes, mas também durante o cultivo — com a semente anterior, os pés de soja teriam morrido junto com as plantas indesejadas. A produtividade no campo explodiu, assim como o consumo do glifosato. Segundo algumas estimativas, o uso do produto em todo o mundo aumentou em 15 vezes após a disseminação da semente transgênica.

Liberação de semente resistente ao glifosato aumentou em 15 vezes o uso do pesticida em todo o mundo. Foto: © Bruno Kelly/Greenpeace.

“A adoção de novas tecnologias pode ser capaz de gerar ganhos enormes de produtividade, renda, crescimento econômico, mas é muito difícil medir as consequências disso”, afirma Rocha, que defende uma análise mais criteriosa das substâncias utilizadas no Brasil. “Tem um custo que é relativamente alto, e estamos falando da saúde da população”. 

O que se tem visto no país, no entanto, é um afrouxamento da regulação do uso de agrotóxicos. Após o libera-geral do governo de Jair Bolsonaro, que aprovou 2.182 pesticidas em quatro anos, em 2023 o Congresso brasileiro aprovou o chamado PL do Veneno, projeto de lei que limita o papel da Anvisa e do Ibama no registro de novos agrotóxicos. 

Os pontos mais polêmicos do PL chegaram a ser vetados pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas os vetos foram derrubados pelos parlamentares. “Tem um Congresso dominado pelo agro e que está aprovando estas leis”, lamenta Pignati. “O agro não quer saber se está contaminando água, matando gente, causando má formação, câncer. O agro quer lucro.”

Acoplada à bancada ruralista, a indústria dos agrotóxicos tem um dos lobbies mais fortes de Brasília. Segundo um levantamento da Fiquem Sabendo em parceria com O Joio e O Trigo, representantes do governo federal tiveram 752 encontros com empresas, associações e lobistas do setor entre outubro de 2022 e julho de 2024, o equivalente a um encontro a cada 4 horas e 48 minutos. 

Em meados de agosto, um grupo de ONGs, partidos políticos e sindicatos protocolou uma ação no Supremo Tribunal Federal pedindo a derrubada do PL do Veneno.


Fonte: Mongabay

E agora Marcelo, o rio transbordou e tudo acabou? Reflexões sobre o “day after” da hecatombe climática do RS

rio transbordado

Por João Anschau

“Fala Marcelo”, pede mais uma vez o locutor. E Marcelo convida novamente os plantadores de trigo para um dia de campo.

“E o que mais Marcelo?”, insiste o extraterrestre apresentador. Marcelo então aproveita e dá spoiler das novidades, novos manejos – entenda-se, agrotóxicos e insiste para que os parceiros não percam a janela de plantio das culturas de inverno.

“Fala Marcelo e o recado final”, mas antes, o acelerado radialista agradece, num verdadeiro gozo, o tempo dedicado a conversar e trazer luz para os ouvintes carentes de “sabedoria”. E Marcelo não se afrouxa e sentencia: “não podemos se entregar pro tempo”.

O relato descrito anteriormente não é ficção. O informe comercial, tratado como entrevista, aconteceu no mesmo dia em que a UFAL divulgou um estudo mostrando o nível de encharcamento do solo no RS.

Indo para o segundo mês do pós-Veneza, o nosso laranja síndico da massa falida fala somente em reconstruir. É música triste de uma nota só. Ele quer nos fazer crer que temos que continuar para manter o mesmo. Nenhum mea culpa, algo que a direita costuma cobrar vorazmente da esquerda, a respeito do acontecido. Ao contrário, o que mais ouvimos são palavras anêmicas que fogem do problema. O nosso comandante parece estar sem bússola e deixa claro em suas manifestações que emergência climática não tem nada de urgente. Ele parece muito com aqueles desprovidos de criatividade que enxergam na bebida alcoólica o único gancho para as suas sofridas composições. Findando cada dia, eu tenho a impressão de que somos governados por pessoas com deficiência cognitiva severa.

Há algumas semanas, provocado por um grupo de jovens a respeito de minhas esperanças quanto ao futuro (futuro?), respondi que eu aposto num triplo: um meteoro para acabar de vez com esta bagaça; a volta dos dinossauros; ou, finalmente, a dupla de ratos Pink e Cérebro conseguindo dominar o planeta, colocando os ratos humanos em seus devidos esgotos.

Não é o pessimismo que aduba os meus dias. A minha resposta é fruto do descrédito. Estamos carentes e essa falta é resultado de outra: lideranças no plural. Nos acostumamos a ficar no aguardo de uma fala, de um gesto ou uma indicação do mesmo de sempre. Terceirizou-se o articular, conquistar e toda e qualquer iniciativa que necessite pôr as mãos na massa e nas maçãs colhidas direto na fonte alimentar natural. Dizem os especialistas que tudo se faz pelas redes, e esse negócio de juntar gente para conversar, ouvir, trocar uma ideia ou começar uma revolução – nem que seja pra dizer que são contra os “comunistas” -, é papo de analógicos. As redes e a pandemia de COVID-19 realmente nos tornaram “melhores”. PS: Para eu ser justo, de acordo com a revista Science, após a passagem do furacão Maria, os macacos de Porto Rico ficaram menos agressivos e mais solidários. Outra vez os irracionais nos dando a letra. 

Um modo todo estranho de indignação faz com que percamos o senso de prioridade e de responsabilidade. Atualmente, somos envolvidos pela teia chamada comoção, arquitetada pela senhora emoção que não costuma dialogar com a razão. Não são apenas os dejetos ou lixo produzido e reproduzido que fazem parte de nossa paisagem cada vez mais concreta e abstrata de qualquer alteração. Nos tornamos o exército de Brancaleone, nos diferenciando dos originais pela falta de talento e de coragem. 

“Admirável Mundo Novo”, do genial e visionário Aldous Huxley, parece ter sido escrito para o agora. Uma sociedade alienada, sob controle e estruturada em valores pré-definidos, distante da realidade e submissa, além de achar normal a padronização em detrimento da pluralidade, parece muito com o “vale a pena ver de novo”. A obra cai como uma luva para definir o contemporâneo céu, sol, sul, terra embarrada, cor desbotada, onde muito do que se planta não cresce e o que mais floresce são as dúvidas e dívidas.

Em alguns locais alagados na capital gaúcha foram encontradas piranhas – sem necessidade de trocadilhos infames – e essa informação passou batida como se fosse normal. Mexemos com a estrutura bem bolada dos demais que habitam essas paragens e as consequências estão aí, agora, também, mordendo os calcanhares dos desatentos. Parafraseando o saudoso Eduardo Galeano, a injustiça climática é como as serpentes e só morde os pés descalços dos periféricos.

Calma, que tem mais. Em Caxias do Sul, o mesmo vereador que destilou toda a sua estupidez – sóbrio e limpo, eu imagino – xenofóbica contra nordestinos, agora, resolveu demonstrar que ignorância ambiental não é fruto apenas do negacionismo. É um fermento que faz crescer o ódio que mira sempre um “inimigo” indefeso e tido como empecilho. As árvores, na cabeça do edil “e”diota, são as responsáveis pelo evento climático que, diferente de seu mandato parlamentar, não tem hora pra acabar. E nós bancamos esse “democrata” quadrúpede ainda não domesticado. Umberto Eco tem razão. Antes, um viva à liberdade de expressão.

E como passamos pelo mês das festas juninas, pipocam pedidos nada envergonhados de senhores sem-vergonha. O setor privado, representado por estruturas que lhes garante zero questionamento da base da pirâmide, quer dinheiro de quem, na visão deles, só atrapalha o “desenvolvimento”. Quando a água invade as camas dos trabalhadores, o Estado é lembrado para acudir… os mega/maxi empresários. E o prêmio “faz a diferença” vai para… os indiferentes com a aflição alheia. Ou como escreveu Oswaldo Montenegro é “muito deleite pra pouca dor”. 

Para além dos ventos, granizo e chuvas, tudo em excesso, temos também a falta de respostas. As consequências – causas são cristalinas apesar da sujeira – que tornaram o Rio Grande do Sul uma grande fazenda não são discutidas. Tá tudo dominado e bloqueado por um discurso de que a palavra de ordem é união e de que agora é hora de reerguer. Refazer quantas vezes? Uma fórmula que gera divisas para os agraciados de sempre e passivos humanitários para o lumpesinato, também conhecidos como buchas de canhão. Essa movimentação feita no modo prende a corrente e arrebenta o que estiver pela frente em nome do “deus” cifrão tem credores que, ao que parece, já mandaram vários recados e todos foram solenemente ignorados ou colocados na gaveta do um dia se vê o que faz. Senhores dos anéis cravejados de sangue inocente, chegou a hora do encontro de contas. E agora? O trator, o machado e a motosserra não podem ser culpados ou puxar uma “cadeia” sozinhos. São instrumentos que, como nós, legitimam novas tragédias. Campanhas de solidariedade são importantes, mas não podemos ficar apenas no doar itens de primeira necessidade, enquanto outros deram, sem consulta prévia, suas vidas.

Os refugiados ambientais não são frutos do acaso ou obra do divino, mas resultado contábil borrado de um modelo de sociedade que deu, dá e continuará dando ruim. Vida que segue, pra esta gente, não é apenas mais uma frase de efeito, mas efeito comportamental do vamos esticar a corda mais um pouquinho e arranjar um local “mais” seguro pra essa indiada até a próxima enxurrada. Deslocamentos humanos serão romantizados ou transformados em histórias de superação com exibição em horário nobre? 

Pode piorar? Sempre. “Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra…” passou as divisas do rios Mampituba e Uruguai. A bancada ruralista gaúcha, não satisfeita em testemunhar os desastres ambientais e sociais repetidos, agora quer replicar a nossa desgraça para os outros. Um projeto de lei, desconhecido da imensa maioria, como sempre acontece, infelizmente, pretende dar permissão para acabar com quase 50 milhões de hectares de campos nativos. O relator do absurdo é o deputado tucano Lucas Redecker, nascido em uma das regiões mais atingidas no estado. Nobre representante do poder que emana do povo, vide as áreas de proteção ambiental na volta do Rio Taquari que não chegam a um terço do que já foram um dia. O senhor me faz lembrar a modelo Nana Gouvêa que costumava fazer selfies em locais devastados por alguma tragédia e achava que estava tudo certo registrar e faturar com a desgraça alheia. Recentemente elas frearam o ímpeto coronelês de Arthur Lira e o PL – duplo sentido bem oportuno – do estupro. Quem vai puxar o bridão dos senhores do engenho, acionistas e financiados?

Na hora da tormenta, minha mãe, dona Anita, costuma queimar folhas de palma. O faz, segundo ela, para afastar o mau tempo. José Lutzenberger e o padre jesuíta Pedro Balduíno Rambo foram lembrados, há algumas semanas, também na hora do desespero. Mas, ao que parece, o tempo já abriu, e seus préstimos de sabedoria e conhecimento não serão mais necessários por agora. Vale o mesmo para o Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, descoberto pelos pautadores de nossas vidas, como se novidade fosse, após 60 anos de pesquisa, extensão e ensino. O negacionismo não é obra de ‘jair’ apenas. É uma construção simbólica que reza pela cartilha Chacrinha: eu estou aqui para confundir; eu não estou aqui para explicar.

Em alguns meses teremos eleições municipais. Eu estou apostando uma garrafa de vinho produzida sem trabalho escravo que o tema mudanças climáticas receberá o mesmo tratamento dado àquela criança que quer algo e a mãe responde que na volta a gente compra. Por mais que pesquisadores, cientistas, extensionistas, ambientalistas e outros tantos comprometidos com a vida da mãe Terra e seus filhos de todas as espécies batam seus tambores, a triste e covarde melodia da conformidade, da ignorância e da indiferença ditará os passos da maioria. O poder econômico desarma todos os alarmes e conta para isso com o aparato servil e parcial da mídia tradicional, um escudo bem alimentado que faz o trabalho de aquietar mentes e corações. Para além do Município que queremos é oportuno perguntar “que amanhã sua candidatura defende?”

No próximo dia 8 de julho vamos “comemorar” uma década do 7 a 1. Vivemos um grande looping onde derrotas são celebradas e o 20 de setembro guasca não me deixa faltar com a verdade. O senso comum é modulado de tal forma que torna qualquer questionamento um ato de rebeldia. Uma receita básicona e de simples preparo, que prevê subverter a ordem imposta que nos faz acreditar que somos meros passageiros, sem responsabilidades e com o bilhete de partida comprado com destino incerto, é tida como heresia. E na melhor das utopias, faltam pulmões para gritar e apontar o caminho, e no horizonte não aparece, nem que seja, um Dom Quixote para movimentar os moinhos da insurreição.

Tudo se encaminha para que no final não seja a esperança a última a morrer.

Em meio ao caos no RS, bancada ruralista et caterva avançam pacote da destruição ambiental no congresso nacional

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Em meio aos caos criado pelas chuvas que se abateram pelo RS, em uma prova cabal de que as mudanças climáticas chegaram para ficar, a bancada ruralista e seus aliados no congresso nacional continuou avançando com o seu pacote da destruição ambiental, gerando liberações que irão aprofundar os problemas associados a eventos climáticos extremos. Me arrisco a dizer que se a bancada ruralista não for parada, o que vemos hoje no RS é apenas uma espécie de trailer do que acontecerá no resto do Brasil nos próximos anos e décadas.

Os exemplos de uma verdadeira blitz contra o meio ambiente foram abundantes. Por exemplo, na última 4a. feira (08/5), a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei (PL) 1366/22 que exclui a silvicultura (cultivo de árvores com fins comerciais, como pinhos e eucaliptos) do rol de atividades potencialmente poluidoras.  A partir dessa mudança na lei da Política Nacional do Meio Ambiente, a atividade de plantio de monoculturas de árvores para extração de celulose (pinhos e eucaliptos, por exemplo) não precisará mais de licenciamento ambiental e não estará sujeita ao pagamento da Taxa de Controle e Fiscalização Ambiental (TFCA). Com isso, certamente o aumento do desmatamento de florestas nativas, o deslocamento ou diminuição das áreas alocadas para o plantio de alimentos, e, certamente, o uso de agrotóxicos.

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E falando no uso de agrotóxicos, no dia seguinte, o Congresso Nacional iniciou com sucesso a derrubada 8 dos 17 vetos ao Pacote do Veneno (Lei nº 14.785/2023), enfraquecendo ainda mais a legislação brasileira de agrotóxicos. Os demais 9 vetos serão analisados no dia 28/5 e deverão também ser derrubados, o que ampliará o descontrole no uso de agrotóxicos, e ampliará a distribuição de produtos que causam múltiplas doenças, incluindo diversos tipos de câncer.  O Pacote do Veneno enfraquece a competência da Anvisa e do Ibama, deixando o Ministério da Agricultura (MAPA) na função exclusiva de coordenar o processo de reanálise de riscos de agrotóxicos e a possibilidade da concessão do registro provisório de produtos à base de ingrediente ativo em reanálise, ofendendo-se o princípio de precaução.

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Mas a cereja do bolo envenenado da bancada ruralista ainda está sendo discutida, e deverá ser facilmente aprovada no Senado Federal. Falo aqui do PL 3334/23 cuja aprovação permitirá a redução da reserva legal de 80% para 50% em municípios amazônicos cujos territórios sejam mais da metade ocupados por áreas protegidas.  Esse texto visa claramente duas coisas: 1) legalizar desmatamentos cometidos ao arrepio da lei, e 2) ampliar o escopo do que seria “desmatamento legal”, o que irá contribuir, entre outras coisas, para o aquecimento da atmosfera da Terra.

Há ainda que se observar que essa ofensiva ainda não acabou, pois existem outras legislações que estão sendo encaminhadas para enfraquecer as proteções ambientais brasileiras, a despeito das crescentes evidências que o nosso país se tornou um dos epicentros da crise climática global.  O problema é que a bancada ruralista está pouco lixando para essa crise e suas consequências para a maioria da população brasileira que vê aturdida o que está acontecendo no RS neste momento.

E o governo Lula neste história de horrores promovida pela bancada ruralista?

O agro não está à venda', diz liderança da bancada ruralista após Lula  anunciar o Plano Safra – Política – CartaCapital

Uma coisa que salta aos olhos neste momento é a passividade do governo Lula em face dos ataques da bancada ruralista às proteções ambientais.  As votações sempre se dão por ampla margem, com partidos da base do governo Lula votando em massa nessas legislações, sem que haja qualquer temor de que perderão ministérios e a gorda camada de cargos que possuem na Esplanada dos Ministérios e alhures.

Os defensores do governo Lula sempre dizem que esse é um governo de minoria no congresso, e que perder essas votações é meio que parte do jogo de se manter a tal da governabilidade. Essa é uma falácia, pois o presidente Lula pode ter sido eleito com minoria no congresso nacional, mas operou alianças (muitas delas questionáveis) para aprovar matérias de seu interesse, como foi o caso do famigerado “Novo Teto de Gastos”.  

A verdade é que o presidente Lula até faz acenos externos no sentido de um compromisso com as causas ambientais, mas no plano interno a coisa é bem diferente, sendo o governo de composição que ele criou parte intrínseca do desmanche que está sendo operado pela bancada ruralista.

Por exemplo no caso do Pacote do Veneno, bastaria o presidente Lula sinalizar que iria retirar o ministro ruralista Carlos Fávaro e substituí-lo por alguém comprometido com a agricultura familiar para que a bancada ruralista repensasse sua posição de tornar o Ministério da Agricultura o único responsável pela liberação de agrotóxicos.  Mas obviamente isso não aconteceu e nem acontecerá, pois a lógica do governo Lula é de abraçar o latifúndio agro-exportador e não os agricultores familiares que são responsáveis por colocar comida na mesa dos brasileiros.

Há ainda que se notar o silêncio sepulcral da ministra Marina Silva em relação a esse ataque generalizado às leis ambientais.  Se fosse em outro momento, é provável que ela já tivesse pedido o boné e se mandado para cuidar das causas ambientais ao seu jeito, agora Marina parece satisfeita em posar como musa das causas climáticas enquanto a casa na cabeça de milhares de gaúchos.

Mas uma coisa é certa, a resistência necessária aos projetos de flexibilização (mas pode chamar de destruição) da bancada ruralista não está dentro do governo Lula ou na sua bancada no congresso nacional.  

 

Bancada ruralista ignora ciência para defender ultraprocessados no Congresso

Parlamentares colocam em xeque o conceito de ultraprocessados para travar políticas públicas que limitam o consumo desses produtos, associados a mais de 57 mil mortes precoces anuais no Brasil

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Por Pedro Nakamura/ Edição: Paula Bianchi para a Repórter Brasil

Nuggets, suco em pó, salgadinho de pacote, miojo e bolacha. Os chamados alimentos “ultraprocessados” representam uma ameaça à saúde, como mostram os estudos científicos mais recentes. 

No entanto, a bancada ruralista no Congresso Nacional vem abraçando a tese de que esses produtos não são tão ruins assim. Com assessoria técnica de um instituto financiado pela indústria de alimentos e por associações do agronegócio, eles defendem que os ultraprocessados podem até ser saudáveis e não devem ser restringidos por políticas públicas. 

A Repórter Brasil identificou ao menos seis projetos de lei (PLs) em que a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), braço institucional da bancada ruralista, tentou interferir para beneficiar os fabricantes de ultraprocessados nos últimos cinco anos. 

A FPA reúne 374 deputados e senadores, três quintos do Congresso. O discurso a favor dos ultraprocessados contraria uma série de evidências científicas que associam o consumo de produtos do tipo a 32 problemas de saúde, como câncer, diabetes e obesidade, e a 57 mil mortes precoces ao ano só no Brasil. A classificação de alimentos de acordo com seu grau de processamento é adotada pelo Ministério da Saúde desde 2014.

Quando um projeto de lei menciona o termo “ultraprocessado”, a bancada ruralista usa seus “resumos executivos” – documentos de orientação – para dar pareceres que atacam a própria noção de ultraprocessados, como mostram documentos publicados pela frente parlamentar analisados pela reportagem. 

“A briga é para tirar toda a legitimidade do próprio conceito”, resume o cientista político Pedro Vasconcellos, assessor de advocacy da FIAN Brasil, organização vinculada ao Observatório da Alimentação Escolar (ÓAÊ). “Mencionar ultraprocessados em uma legislação vira um problema”, acrescenta. 

A Política Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), por exemplo, limita em até 20% os gastos na compra de alimentos processados e ultraprocessados para merendas. Porém, o termo “ultraprocessados” só aparece no regramento porque foi incluído em uma resolução do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), que não precisa passar pela aprovação do Congresso.

Guia Alimentar do Ministério da Saúde define ultraprocessados como  “formulações industriais” que envolvem diversas etapas de processamento e que adicionam ingredientes como sal, gorduras, açúcares, entre outras substâncias de uso exclusivamente industrial para imitar sabores, cores ou aumentar a durabilidade do produto. São refeições instantâneas, iogurtes saborizados ou molhos prontos, por exemplo.

No início do mês, o governo federal anunciou a nova composição da cesta básica, sem ultraprocessados.

Arte: Débora De Maio

O agro é refrigerante, embutido e biscoito

Desde 2011, a FPA recebe “assessoria” técnica do Instituto Pensar Agro, uma organização financiada pelas principais entidades representativas da cadeia do agronegócio – entre elas, a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia), que reúne gigantes do setor como Nestlé, BRF, Cargill, Ambev e Coca-Cola. 

À Repórter Brasil, a Abia disse preferir não se manifestar sobre eventuais orientações repassadas à bancada do agro. A FPA, por sua vez, ignorou as tentativas de contato da reportagem.

Um exemplo da interferência do lobby do agro ocorreu em junho de 2023, quando o deputado federal Guilherme Boulos (PSOL-SP) inseriu a diretriz “evitar ultraprocessados” no texto da lei que recriaria o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), do governo federal. Na ocasião, a FPA orientou a bancada a firmar posição contra o trecho. 

“Restringir a aquisição de determinados tipos de alimentos, definidos de forma contestável pela ciência e tecnologia de alimentos, em nada contribui para a formação de hábitos alimentares saudáveis, que só podem ser obtidos por meio da educação alimentar”, disse a nota da entidade, que também negou a ligação entre o consumo de ultraprocessados e a obesidade.

Na sessão que votou o projeto, em julho de 2023, o próprio presidente da FPA, o deputado Pedro Lupion (PP-PR), propôs uma emenda removendo a inserção de Boulos. “A ideia é reduzir o texto, tirar essa menção, até porque há uma problemática na compreensão do que são os alimentos ultraprocessados. Não há uma definição técnica sobre essa terminologia”, disse em plenário o deputado Tião Medeiros (PP-PR) que substituiu Lupion na hora da votação. No fim, a remoção foi aceita e o PAA acabou aprovado pelo Congresso sem a menção aos ultraprocessados, sendo sancionado por Lula naquele mês.

Veja aqui a lista completa com os 6 PLs em que a FPA defendeu os ultraprocessados.

‘Indústria nega e distorce’

Na avaliação da nutricionista Nadine Marques, pesquisadora-assistente da Cátedra Josué de Castro da Universidade de São Paulo (USP), as orientações da FPA são “todas muito parecidas com o discurso da Abia”, a associação de indústrias de alimentos que está entre os apoiadores da bancada ruralista. “Um ponto marcante é a não aceitação da classificação a partir do grau e extensão de processamento de alimentos, que deu origem ao termo ‘ultraprocessados’”, diz Marques. 

Batizada de “NOVA” e desenvolvida por pesquisadores do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde, da Universidade de São Paulo (Nupens/USP), a classificação já é usada em políticas públicas de ao menos seis outros países – como Canadá, Israel e Uruguai. Ela também norteia estudos da Agência Internacional do Câncer (IARC) e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), ambas ligadas à Organização Mundial da Saúde (OMS).

Marques explica que, no início do século 20, a ciência analisava os alimentos pelas moléculas que os compõem, o que criou uma subdivisão entre nutrientes vilões (por exemplo, gorduras saturadas ou açúcar) e mocinhos (vitaminas e minerais) – paradigma que ficou conhecido como “nutricionismo”. 

A partir dos anos 1980, no entanto, os índices de obesidade dispararam,  mesmo com a redução do consumo dos “vilões”. “Se sabíamos quais os nutrientes perigosos e conseguíamos controlá-los, manipulando-os industrialmente, por que os índices de doenças crônicas continuavam aumentando?”, questiona Marques.

A partir dos anos 2010, mais pesquisas passaram a investigar como o grau de processamento de alimentos, e não nutrientes específicos, estava ligado ao surgimento de doenças, o que reforçou a necessidade de se analisar todo um processo de produção que vai do campo à indústria até chegar à mesa do consumidor. “A classificação NOVA é simbólica desse novo paradigma da nutrição, que passa a olhar para os sistemas alimentares como um todo”, diz a nutricionista.

Desinformação no Congresso e nas redes

Para enfrentar esse avanço recente da ciência, a indústria de alimentos mobiliza argumentos “nutricionistas” em seu lobby no Legislativo. Um projeto de lei de 2022 do ex-deputado federal Coronel Armando propunha a criação de advertências em embalagens e restrições à propaganda desses produtos. A proposta era que rótulos e publicidade incluíssem avisos de riscos à saúde. Porém, a FPA orientou a bancada a se opor à ideia.

“Ter uma alimentação saudável significa comer com moderação todos os tipos de alimentos, respeitadas suas características nutricionais”, justificou a nota da FPA divulgada à época. “A proposta tem objetivo de estigmatizar produtos da indústria de alimentos, que são altamente regulados e não possuem, por si próprios, potencial para prejudicar a saúde do consumidor”, concluiu o documento, em frontal oposição aos estudos científicos sobre o tema. O PL está parado sem relatoria em uma comissão da Câmara desde 2022.

A defesa da indústria alimentícia contrasta com o discurso da FPA de reforçar a produção de alimentos saudáveis e de qualidade, no lugar de alimentos prontos e com excesso de ingredientes que fazem mal à saúde. Em janeiro de 2023, por exemplo, um estudo do NetLab, o laboratório de pesquisa em internet e redes sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),  concluiu que a FPA publicava anúncios no Facebook e Instagram – pagos pelo Instituto Pensar Agro – que espalhavam desinformação sobre agrotóxicos, regulação ambiental e movimentos sociais.

“Isso de pensarmos no pequeno produtor quando pensamos em agro é resultado de uma ótima campanha de comunicação”, diz a pesquisadora Débora Salles, coordenadora do NetLab, que realizou o estudo. “Eles tentam reforçar que o agricultor familiar é protagonista, mas existe um movimento simultâneo de esconder os verdadeiros interesses que estão por trás, que são os das grandes corporações”, avalia Salles.


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Este texto foi originalmente publicado pela “Repórter Brasil” [Aqui!].

Com o aval de Lula, bancada ruralista “passa o rodo” e aprova com facilidade o PL do Veneno no Senado Federal

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Ao lado do ruralista e ministro da Agricultura Carlos Fávaro, Lula se tornou uma espécie de avalista do PL do Veneno

Desprezando todas as evidências científicas já recolhidas sobre os graves impactos associados ao uso intensivo de agrotóxicos sobre o ambiente e a saúde humana, a bancada ruralista do Senado Federal aprovou com grande facilidade na tarde desta 3a. feira o famigerado PL do Veneno. Com isso, o Brasil vai vivenciar um grande afrouxamento das regras existentes para pesquisa, experimentação, produção, comercialização, importação, exportação, embalagens e destinação final de agrotóxicos.

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Algo que não foi ainda aprofundado devidamente será a provável transformação do Brasil em uma espécie de parque industrial dos agrotóxicos banidos em outras partes do mundo por causa da capacidade de causar doenças graves, incluindo diversos tipos de câncer.  Essa facilitação para a produção de agrotóxicos com conhecido potencial cancerígeno está alinhada com o esforço de aprovação do acordo comercial Mercosul-União Europeia. É preciso lembrar que as multinacionais europeias como a Bayer e a Basf enfrentam uma oposição crescente em relação a alguns de seus “campeões de venda”  como é o caso do Glifosato, e agora poderão transferir a produção desses venenos para território brasileiro, especialmente se o acordo comercial for assinado.

Antes que se transfira a responsabilidade toda para a bancada ruralista é preciso lembrar que o governo Lula tem tido uma postura para lá de leniente com a explosiva situação representada pelo uso de venenos agrícolas causadores de doenças graves.  O problema é que em seu terceiro mandato, Lula decidiu claramente aprofundar a aposta no latifúndio agro-exportador e no seu modelo de grandes monoculturas que dependem de grandes doses de agrotóxicos e fertilizantes químicos para terem um mínimo de viabilidade.

Além disso, a busca de assinatura do acordo com a União Europeia mostra que a aposta do presidente Lula é na agricultura de grande extensão onde as empresas europeias que vendem implementos químicos, agrotóxicos, sementes geneticamente modificadas e fertilizantes químicos geram margens fabulosas de lucros. E aquele discurso que seu governo iria apostar na adoção de um modelo agroecológico de produção de alimentos? Aparentemente, um discurso destinado a convencer eleitores indecisos.

Quem acompanha com um mínimo de cuidado o problema dos agrotóxicos sabe que atualmente as áreas que concentram a produção de soja, por exemplo, também se caracterizam por terem taxas extraordinárias de câncer (ver vídeo abaixo).  O problema é que com a aprovação do PL do Veneno, este modelo de agricultura dependente de agrotóxicos vai ser aprofundada em todos os sentidos, incluindo o aumento do desmatamento na Amazônia e no Cerrado. De certa forma, os agrotóxicos servem como uma espécie de bússola da destruição ambiental no Brasil.

Como já venho observando ao longo de 2023, os agrotóxicos são uma espécie de ponto de combustão que ameaça consumir o governo Lula. A questão é que depois de abraçar o latifúndio agro-exportador, a decisão de assistir de camarote a aprovação do PL do Veneno é apenas uma consequência natural.

Greenpeace Brasil emite nota sobre a aprovação do “Marco Temporal” na Câmara dos Deputados

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Sobre a aprovação do PL 490 pela Câmara dos Deputados nesta terça-feira (30), que aprova a tese do Marco Temporal, o porta-voz de Amazônia do Greenpeace Brasil, Danicley de Aguiar afirma:

“A aprovação do PL 490 coroa os esforços da bancada ruralista para relativizar os direitos indígenas e forçar a abertura dos territórios tradicionais ao agronegócio e a outras atividades econômicas incapazes de conviver com a floresta; ignorando o desejo de reparação histórica aos povos originários expresso pela sociedade brasileira nos Artigos 231 e 232 da Constituição de 1988. Em pleno século 21, não podemos tolerar que um punhado de deputados comprometidos com o atraso siga trabalhando para reverter a vontade da maioria dos brasileiros. A bancada ruralista precisa entender que todo ataque aos direitos indígenas é um ataque contra a democracia.”

Agronegócio e congresso agem juntos e misturados para manter retrocessos ocorridos durante o governo Bolsonaro

Autor do livro ‘Formação Política do Agronegócio’, o antropólogo Caio Pompeia explica como o Instituto Pensar Agropecuária multiplicou a influência do setor ao articular associações de fazendeiros a corporações empresariais, ampliando o poder da bancada ruralista no parlamento para interferir em reformas de Estado, políticas de alimentação e até na organização dos ministérios

Fire Monitoring in the Amazon in Brazil in September, 2021
Monitoramento de Queimadas na Amazônia em Setembro de 2021

Gado pasta ao lado de área desmatada e recém-queimada em Candeias do Jamari, Rondônia, em setembro de 2021. Foto: Victor Moriyama/Amazônia em Chamas

Por Cristiane Fontes para o “Sumaúma”

Há quase dez anos, e minuciosamente, o antropólogo Caio Pompeia investiga o agronegócio brasileiro como um fenômeno político, tema de seu livro Formação Política do Agronegócio, lançado em 2021 (Editora Elefante). Em entrevista exclusiva a SUMAÚMA, o pesquisador, de fala suave e palavras escolhidas com cuidado, descreve como se deu a formação e a consolidação do Instituto Pensar Agropecuária (IPA), estratégico para o fortalecimento da atuação política do agronegócio na última década. Com sede em Brasília, equipe especializada, agenda de trabalho permanente e orçamento de mais de meio milhão de reais por mês, o IPA é responsável pela convergência de discursos das elites regionais, nacionais e transnacionais do agronegócio e pela atuação empresarial-parlamentar que fortaleceu a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) no Congresso.

Essa rede sustentou, por exemplo, ações orquestradas contra a demarcação de terras indígenas e a criação de Unidades de Conservação (UCs). Nos últimos anos, passou a tratar ainda de políticas públicas ligadas à alimentação, como sua tentativa de alterar o Guia Alimentar para a População Brasileira, para melhorar a imagem dos ultraprocessados – produtos apresentados como bebidas e alimentos que passam por processos industriais e sofrem a adição de substâncias, estando relacionados ao aumento de várias doenças e a problemas de saúde pública, como a obesidade.

Compreender como a aliança entre associações de fazendeiros e corporações de alimentos se fortalece cada vez mais é essencial para enfrentar a crise climática, que já levou ao aumento do número de eventos extremos, como o que, neste ano, matou e desabrigou pessoas e destruiu casas no litoral de São Paulo, no sudeste do Brasil, e no estado do Acre, na Amazônia. Estudo recém-lançado por cientistas norte-americanos, intitulado Future Warming from Global Food Consumption (Aquecimento futuro devido ao consumo global de alimentos), revela que, se os atuais padrões de consumo forem mantidos até o fim deste século, será adicionado 1 grau Celsius ao aquecimento global até 2100. Se isso acontecer, a meta de redução da emissão de gases de efeito estufa estabelecida pelo Acordo de Paris será severamente afetada. Os principais vilões são os alimentos com alto teor de metano (CH4), como carne e laticínios.

O metano é o segundo gás de efeito estufa mais abundante, depois do dióxido de carbono (CO2) – representa 17,6% das emissões globais. O Brasil é o quinto maior emissor de metano do mundo, e a agropecuária é responsável por 71,8% dessas emissões, geradas, majoritariamente, pelo processo digestivo do rebanho bovino, segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima. Além disso, a agropecuária é a segunda maior fonte de emissões de gases de efeito estufa no Brasil e o principal vetor de desmatamento e de conflitos fundiários, especialmente na Amazônia. De acordo com o último relatório da organização internacional Global Witness, de 2022, o Brasil foi o país mais letal do mundo para ativistas ambientais na última década.

Indígenas protestam contra a PEC 215 Na Esplanada Dos Ministérios, Brasília, Em novembro de 2015. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Atualmente vivendo na Inglaterra, professor visitante do Latin American Centre, da Oxford School of Global and Area Studies, Caio Pompeia pretende, ao longo de 2023, estudar como as diferentes correntes do agronegócio vão se reorganizar a partir da vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se elegeu com um discurso pró-Amazônia e pró-enfrentamento da crise climática. A gestão do petista já começou bastante movimentada. Nas últimas semanas, representantes do agronegócio apresentaram emendas à medida provisória que reestrutura os ministérios sob Lula e que, se aprovadas, enfraquecerão órgãos como o Ministério do Meio Ambiente e aFundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). O setor reagiu à fala do presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), o petista Jorge Viana, sobre a relação do agronegócio com o desmatamento na Amazônia durante recente visita à China e publicou uma nota de repúdio. Também acaba de ser aprovada na Câmara dos Deputados uma medida provisória que permite o desmatamento de vegetação primária e secundária em estágio avançado de regeneração na Mata Atlântica, hoje o bioma mais ameaçado do Brasil.

 

O antropólogo Caio Pompeia investiga o agronegócio brasileiro como um fenômeno político. Ele é autor do livro ‘Formação Política do Agronegócio’, Lançado em 2021 pela Editora Elefante. Foto: Divulgação

Segundo Caio Pompeia, o termo “ruralismo” não dá conta de explicar a complexidade desse bloco de poder que envolve o agronegócio no Brasil e “protege a reputação de corporações que exercem expressiva influência política, mas preferem não estar na vidraça”. “Evidentemente, [o termo ruralismo] tem a sua importância histórica e atual no Brasil, mas está longe de dar conta de identificar a participação, ao lado de fazendeiros, das grandes corporações agroalimentares nos espaços de concertação política em Brasília, que operam para definir posições que depois serão defendidas pela Frente Parlamentar da Agropecuária”, afirma o antropólogo.

Setembro de 2020: homenagem ao então presidente da república, o extremista de direita Jair Bolsonaro, em Sinop, no Mato Grosso. Foto: Clauber Cleber Caetano/PR

SUMAÚMA: O que seu trabalho de pesquisa revela sobre a agenda política do agronegócio no Brasil?

Caio Pompeia: Analiso o agronegócio como um fenômeno político dinâmico e heterogêneo, caracterizado tanto por conflitos quanto por articulações entre seus atores, como, por exemplo, a [articulação] que levou à retirada de Dilma Rousseff do poder [em 2016]. A mobilização contrária ao governo de Dilma começou em segmentos de bovinicultores com posições mais extremistas e distanciamentos mais ideológicos em relação aos governos petistas e levou aproximadamente um ano para ganhar espaço relevante na Frente Parlamentar da Agropecuária [FPA], no Conselho do Agronegócio da Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo] e até na própria Abag [Associação Brasileira do Agronegócio]. Em 2023, vou pesquisar como as diferentes correntes do agronegócio vão se reorganizar a partir da vitória de Lula.

Como se deu o fortalecimento da articulação política do agronegócio em Brasília?

Existia um escritório político ainda informal mantido por representações do algodão e da soja de Mato Grosso, juntamente com alguns poucos deputados da chamada bancada ruralista no Congresso Nacional. Foi esse escritório que, em 2011, se tornou o Instituto Pensar Agropecuária [IPA]. Com a consolidação do IPA, em meados dos anos 2010, houve mudanças importantes na representação de interesses do agronegócio em Brasília. A primeira foi colocar em processo convergente as elites dos sistemas alimentares no Brasil, disciplinando a captação de recursos, unificando os discursos políticos e organizando um aparato técnico mais robusto. Outra mudança importante foi o aluguel de uma grande casa no Lago Sul [bairro nobre de Brasília que concentra a maior renda per capita do país] e a montagem de uma equipe focada na representação de interesses empresariais, que deu impulso à especialização na defesa dos interesses desses atores. A terceira grande mudança foi o fortalecimento do núcleo estratégico da Frente Parlamentar da Agropecuária, composto de aproximadamente duas dezenas de parlamentares. Esse núcleo ampliou sua atuação em uma série de temas em que não tinha tanta capacidade de influência. É por meio do Instituto Pensar Agropecuária que o agronegócio se fortalece de maneira inigualada.

 

Brasília, 6 De outubro de 2021: Bolsonaro toma café da Manhã com a Frente Parlamentar da Agropecuária. Foto: Isac Nóbrega/PR

Mas o agronegócio já era um setor muito forte politicamente mesmo antes do IPA, não?

As elites agrárias detêm, historicamente, muito poder no Brasil, com certeza. Mas a articulação política sustentada delas com representantes de atividades industriais e terciárias, que caracteriza o agronegócio, foi perseguida desde os anos 1980 para enfrentar a perda de influência das cadeias de commodities [produtos primários] agropecuárias na política nacional, em razão de um conjunto de alterações econômicas no país. O IPA representa o êxito mais notável desse programa de articulação política. Com o IPA, o “agro” começa a ter maior incidência em temas nos quais antes era mais defensivo, como a agenda ambiental. Nos últimos anos, ampliou muito a atuação em inúmeros assuntos, passando, por exemplo, a tratar de políticas ligadas à alimentação, inclusive com movimentações para alterar o Guia Alimentar para a População Brasileira. Agora, no terceiro mandato de Lula, o agronegócio tem disputado, por exemplo, os rumos das principais reformas e a própria estrutura organizacional da Esplanada dos Ministérios, como estamos acompanhando.

Qual o papel e a participação das indústrias no Instituto Pensar Agropecuária?

O IPA nasceu como um escritório montado por entidades de representação da agropecuária, de fazendeiros. Durante as discussões sobre as mudanças no Código Florestal, algumas das corporações industriais começaram a participar mais ativamente e a contribuir financeiramente para o fortalecimento do instituto. Em 2015, houve uma mudança bastante relevante quando o Supremo [Tribunal Federal] proibiu o financiamento empresarial de campanhas eleitorais. Foi justamente depois dessa proibição que aumentou de forma significativa a presença de associações industriais que financiam o IPA. A partir de 2017, as indústrias passaram inclusive a ser preponderantes numericamente em comparação com associações de fazendeiros. E isso se revelou também no aumento da participação delas na liderança de algumas das comissões do IPA, como meio ambiente, questões agrárias, relações internacionais e alimentação.

Quais são as principais fontes de financiamento do IPA e qual é seu orçamento anual?

São os recursos transferidos mensalmente por cerca de meia centena de associações ligadas ao agronegócio que são membros do instituto. As transferências, somadas, superam meio milhão de reais mensais.

 

O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, e o deputado federal Pedro Lupion, na Cerimônia de posse da nova diretoria da Frente Parlamentar da Agropecuária, para o biênio 2023-2024. Foto: Divulgação

A atuação dessas comissões do Instituto Pensar Agropecuária tem correlação com a atuação da Frente Parlamentar da Agropecuária no Congresso?

Sim, justamente. A consolidação do IPA amplia a desestabilização das fronteiras entre o público e o privado na representação de interesses. O que ocorre é um processo conjunto de criação de propostas que possam ter efetividade política na capital do país. Anteriormente, atores empresariais do agronegócio tentavam construir uma posição de forma mais individual ou mais coletiva e, a partir disso, engajar o parlamentar A, B ou C para conseguir que aquela posição fosse defendida no Congresso. Agora, com o instituto, ocorre uma construção coletiva desde o começo. Um diálogo que é sistemático, com um conjunto de mediações, dentro desse casarão em Brasília. Há, portanto, uma construção que de saída é empresarial-parlamentar. O IPA é um bloco que organiza as principais elites regionais, nacionais e transnacionais do agronegócio no Brasil, assessoradas por agentes técnicos especializados e atuando juntamente com um núcleo de parlamentares da Frente Parlamentar da Agropecuária. A partir dessas decisões empresariais-parlamentares, as bandeiras defendidas no Congresso se espraiam por meio de negociações com as presidências e lideranças partidárias das duas Casas do Congresso [Câmara e Senado], de trabalhos fragmentados com parlamentares e de negociações com lideranças do governo.

Como essa aliança pragmática do agronegócio se expressou em relação aos direitos territoriais dos povos indígenas e comunidades tradicionais?

A resistência aos direitos territoriais de povos indígenas e populações tradicionais é, obviamente, muito antiga e, regionalmente, envolve as elites agrárias, mas nos grandes fóruns intersetoriais do agronegócio isso ganhou expressividade. O caso da Raposa Serra do Sol [terra indígena situada no estado de Roraima, homologada em 2005, onde vivem os povos Ingarikó, Macuxi, Patamona, Taurepang e Wapichana] foi importante nesse sentido, pois, além de despertar muita animosidade por parte de elites do estado em que as disputas aconteceram, mobilizou líderes do agronegócio de todas as regiões do país que temiam que desdobramentos de decisões relacionadas a esse caso pudessem influenciar seus empreendimentos.

 

Mulher indígena protesta contra o Marco Temporal e o Pacote do Veneno no acampamento Terra Livre (ATL) realizado em Brasília em 2022. Foto: Mídia Ninja

O tema da demarcação dos territórios indígenas passou a ganhar maior notoriedade a partir de dois êxitos políticos [do agronegócio]: o enfraquecimento da criação de assentamentos rurais para fins de reforma agrária e a mudança do Código Florestal. Foi depois disso que eles [lideranças do agronegócio] decidiram que o próximo passo seria uma atuação orquestrada contrária à demarcação de terras indígenas, aos territórios de outras populações tradicionais e à criação de novas unidades de conservação.

Esse processo foi muito bem construído dentro do instituto ao longo dos anos seguintes, a ponto de ser montada, no Instituto Pensar Agropecuária, uma comissão de assuntos relacionados às questões fundiárias. A oposição aos direitos indígenas foi ganhando força na Frente Parlamentar da Agropecuária e passou a exercer uma influência considerável sobre o governo de Dilma Rousseff. É importante lembrar que nessa época teve muita relevância a tramitação no Congresso Nacional da Proposta de Emenda Constitucional [PEC] 215, que transfere os processos demarcatórios do Executivo para o Legislativo [a proposta foi arquivada depois de muita luta de organizações indígenas e socioambientais]. Esse processo ganhou ainda mais ímpeto com Michel Temer [MDB], mas foi durante o governo Bolsonaro que as posições anti-indígenas receberam um espaço de intervenção mais avançado.

Se até 2017 as agendas diziam respeito sobretudo a desmobilizar o reconhecimento dos territórios indígenas, a partir de então começa a ganhar força, em âmbito nacional, o intuito de abrir as terras indígenas já homologadas para a sua inserção em circuitos nacionais e internacionais de produção de commodities agropecuárias. Durante o governo Bolsonaro, como sabemos, houve estímulo à entrada de atores não indígenas com equipamentos, sementes e seus processos de produção em terras indígenas já homologadas.

A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura é favorável à demarcação de territórios indígenas. Qual o significado disso como contraponto à agenda do agronegócio no Congresso?

A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, que nasceu entre 2014 e 2015, não mencionava os territórios indígenas em seu manifesto de lançamento. A iniciativa passou a tratar desse tema principalmente no fim de 2018 e, desde então, tem chamado a atenção para isso em alguns de seus posicionamentos. Essa é uma mudança bastante relevante quando comparada às posições de representações do agronegócio que estão fazendo pressão contrária aos processos demarcatórios. Entretanto, não se notou até o presente momento uma atuação efetiva, com os instrumentos de pressão em Brasília, em prol desses direitos. É preciso que os posicionamentos sobre o tema ganhem maior concretude, sobretudo nos grandes embates travados no Congresso ou nos julgamentos do Supremo, e haja interlocução ampla e horizontal com os povos tradicionais. Em 2023, a Frente Parlamentar da Agropecuária tem como um de seus principais objetivos defender a “tese do marco temporal”, que condiciona as demarcações à comprovação de que os povos indígenas ocupavam suas terras em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal. É importante que a coalizão mobilize seus instrumentos de influência, juntamente com sua inserção privilegiada na esfera pública, para fazer oposição efetiva a isso.

Como descreveria os posicionamentos de correntes do agronegócio nas eleições de 2022 e o que esperar nos próximos anos?

Uma boa parte das bases da agropecuária lideradas por sojicultores e bovinocultores teve uma adesão quase que irrestrita às agendas de Jair Bolsonaro no governo. Esses atores e suas entidades representativas, como a Aprosoja [Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso], são os que têm mostrado maior animosidade ao governo Lula. As principais razões de sua oposição ao atual governo são ideológicas, mas também estão ligadas a agendas fundiárias e ambientais.

A segunda corrente importante é formada por algumas das principais associações nacionais da agropecuária, com uma posição um pouco mais modulada, que eu chamaria de conservadora. Elas nutrem desconfiança significativa em relação a agendas do governo, mas são mais pragmáticas e menos fechadas a negociações.

Uma terceira corrente de atores, que eu tenho chamado de volúvel, é composta de grandes agroindústrias, tanto as nacionais quanto as transnacionais. Entre Lula e Bolsonaro, muitas preferiram Bolsonaro, mas foram hábeis politicamente, como costumam ser sempre, para dialogar e manter canais abertos com as duas candidaturas. Para elas, foi muito importante o aumento dos preços das commodities agrícolas. Esse aumento operou para contrabalançar algumas insatisfações com o governo Bolsonaro, como algumas derrapadas diplomáticas em relação à China. Existe, por parte das indústrias, uma preocupação com as relações capital-trabalho, como elas podem ser modificadas durante um governo petista.

Já os descarbonizadores, como tenho chamado a atuação de algumas associações nacionais do agronegócio, como a Abag [Associação Brasileira do Agronegócio], fizeram críticas claras ao governo Bolsonaro, principalmente a suas políticas antiambientais, porque são muito suscetíveis a riscos de imagem e a pressões de investidores, importadores e segmentos organizados da sociedade civil, em especial na Europa. Se elas rechaçavam Bolsonaro, tampouco queriam Lula. Esses atores optaram por fortalecer o que se convencionou chamar de terceira via, a candidatura de Simone Tebet [MDB], que apoiaram de maneira muito firme. Não que esperassem que ela pudesse vencer, mas achavam que ela contribuiria para levar as eleições para o segundo turno, o que de fato ocorreu, e, com seu apoio a Lula, se inserisse como líder influente dentro do governo.

Como poderá avançar a agenda de direito à terra no Brasil nos próximos anos, considerando-se o tamanho e a força da bancada ruralista?

É fundamental que os valores e as expectativas das pessoas que subiram a rampa do Planalto em 1º de janeiro de 2023 sejam de fato respeitados, entre eles os direitos territoriais dos povos indígenas e das populações tradicionais. Que o governo, nos momentos em que sofrer pressões ou tiver que arbitrar entre conflitos internos e dificuldades com sua base no Congresso, priorize esses direitos, porque, obviamente, são esperados conflitos.

É importante também que o governo implemente, já no início de seu mandato, ações vigorosas e de longo prazo para a promoção de atividades econômicas que sejam ambientalmente sustentáveis e socialmente justas. O anúncio, neste início de ano, da retomada dos processos demarcatórios em algumas terras indígenas é muito bem-vindo.

Seria muito pertinente também a criação de um centro estratégico estatal, como a Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária], com uma equipe especializada e com recursos substanciais, para que o país dê um salto, que pode dar, para fomentar atividades econômicas que contribuam para fortalecer a biodiversidade, manter as florestas em pé e respeitar os modos de vida e os mundos das populações tradicionais.

Durante um evento no ano passado, você afirmou que tem muita coisa misturada no que a gente chama hoje de Agricultura de Baixo Carbono (ABC), práticas agrícolas mais sustentáveis e com baixa emissão de carbono. Que problemas você identifica no Plano e no Programa Agricultura de Baixo Carbono, que fazem parte da Política Nacional de Mudanças Climáticas?

Chamo a atenção para a necessidade de que sejam adotadas métricas mais claras quanto às práticas abrangidas na expressão “agricultura de baixo carbono”. Houve avanços muito expressivos com relação ao plantio direto na palha [técnica de semeadura na qual a semente é colocada no solo não revolvido], mais até do que no sistema de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta. Há ainda muito espaço para ampliar a recuperação de pastagens degradadas. Todas essas ações têm relevância. Elas não são só questões técnicas, seus aspectos políticos também precisam ser considerados. É salutar, por exemplo, que pastagens que estão sendo subutilizadas pela pecuária extensiva possam ser incorporadas em outros processos produtivos, e espero que isso aconteça em escala. Agora, como está muito bem descrito na literatura nacional e internacional, parte dos atores que operam de forma muito significativa com ganhos de produtividade não abre mão da incorporação de novas terras. O que eu quero dizer com isso é que a ação específica de “baixo carbono” em si não garante que a pressão pela expansão horizontal [sobre florestas e outros ecossistemas] vá diminuir. É importante, portanto, que iniciativas técnicas que são bem avaliadas sejam tratadas em conjunto com ações políticas que desestimulem a especulação imobiliária em áreas rurais e a continuidade do avanço sobre vegetações nativas e territórios tradicionais. Além disso, como sabemos, os recursos para o Programa ABC+ e as linhas de financiamento do Plano ABC ainda são muito pouco representativos em relação ao total de crédito rural disponibilizado. Em 2023, é possível que a recuperação de pastagens degradadas ganhe impulso. Vamos ver como isso se traduzirá no Plano Safra [a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, e o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, têm discutido a inclusão de critérios do ABC no Plano Safra].

 

Uma grande Castanheira se mantém em pé cercada de campos desmatados para plantação, em Sinop, Mato Grosso. Foto: Pablo Albarenga

Com exceção dos movimentos sociais, tem havido um desuso proposital de termos adotados para descrever o setor agropecuário, como “latifúndio”?

As palavras, dependendo de como são mobilizadas, têm muito poder político-econômico. Vou dar outro exemplo. “Ruralismo” é um termo muito usado na esfera pública brasileira. Evidentemente, tem a sua importância histórica e atual no Brasil, mas está longe de dar conta de identificar a participação, ao lado de fazendeiros, das grandes corporações agroalimentares nos espaços de concertação política em Brasília, que operam para definir posições que depois serão defendidas pela Frente Parlamentar da Agropecuária. Ou seja, esse termo está longe de dar conta do bloco de poder que lidera o agronegócio no Brasil e assim protege a reputação de corporações que exercem expressiva influência política, mas preferem não estar na vidraça.

Com o aumento da participação de mulheres indígenas na política institucional e a centralidade dada ao combate à crise climática no novo governo, como o setor deve se movimentar para manter o mote “o agro é pop”?

Elites dos sistemas alimentares lideram, desde o começo dos anos 2010, uma estratégia organizada para cativar corações e mentes no país. Com isso, disputam o imaginário nacional, com notórios desdobramentos políticos, econômicos, sociais e culturais. Essa tem sido uma operação parcialmente exitosa. É esperado que tais elites deem maior impulso às iniciativas comunicacionais, adaptando-as à nova configuração de forças no Brasil.

Revisão ortográfica (português): Elvira Gago
Tradução para o espanhol: Meritxell Almarza
Tradução para o inglês: James Young

 


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Este texto foi inicialmente publicado pelo “Sumaúma” [Aqui! ].

‘PL do Veneno coloca em risco Direitos Humanos e meio ambiente’, avalia relator da ONU

Senado realiza audiência pública para debater projeto que tenta flexibilizar regras sobre agrotóxicos; especialistas temem que ele seja votado ainda este ano

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Hélen Freitas | Agência Pública/Repórter Brasil

Os Direitos Humanos no Brasil e a proteção do meio ambiente correm risco com a aprovação do PL do Veneno, é o que avalia Marcos A. Orellana, relator especial da ONU (Organização das Nações Unidas) para tóxicos e direitos humanos. Nesta manhã (22), o Senado realiza uma audiência pública sobre o projeto de lei que flexibiliza as regras para avaliação e uso de agrotóxicos no país.

Apesar de a audiência ser um pedido da sociedade civil e de parlamentares que se opõem à aprovação do PL, ela também é um motivo de preocupação. “O PL pode ser votado a qualquer momento, inclusive logo após o debate”, afirma o assessor de advocacy da FIAN Brasil, Pedro Vasconcelos.

O projeto de lei não tem seguido os trâmites normais do Congresso. Após anos parado, em fevereiro o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), o colocou em votação a toque de caixa – foram 301 votos a favor e 150 contra. Assim que chegou ao Senado, as manobras continuaram. O presidente da Casa encaminhou o PL apenas para apreciação da Comissão de Agricultura, um espaço dominado pela Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), a chamada bancada ruralista – que apoia a flexibilização dos agrotóxicos no país. Normalmente, os projetos de lei tramitam em pelo menos três comissões.

‘O alto uso de  agrotóxicos no Brasil resulta em pessoas adoecendo’, lamenta Marcos Orellana, relator especial da ONU para tóxicos e direitos humanos

“O fato de esse projeto de lei estar sendo discutido apenas na comissão agropecuária do Senado é motivo de preocupação, porque os pesticidas não são apenas para o cultivo, eles também geram impactos na saúde, no meio ambiente e definitivamente dizem respeito ao gozo dos Direitos Humanos”. O relator da ONU complementa dizendo, que para ter um debate mais rico, é preciso que outras comissões, como a de meio ambiente, direitos humanos e assuntos sociais, também façam parte dessa discussão.

Orellana é um dos convidados a participar da audiência pública no Senado. Além dele, estarão presentes o diretor do Departamento de Sanidade Vegetal e Insumos Agrícolas do Ministério da Agricultura, Carlos Goulart, e a gerente de monitoramento e avaliação do risco da Anvisa, Adriana Pottier. O Ibama, que também será afetado pela aprovação do PL, decidiu não participar do debate. O órgão não respondeu às perguntas enviadas pela Repórter Brasil sobre o motivo de sua ausência.

O relator da ONU avalia que a audiência será uma ótima oportunidade para apresentar o posicionamento do órgão internacional sobre a aprovação do PL do Veneno. Em junho, diversos especialistas escreveram uma carta ao Senado pedindo para que o projeto de lei seja rejeitado por apresentar um retrocesso para o Brasil. “Em vez de retroceder nas proteções existentes, o Brasil deveria fortalecer sua legislação para proteger os direitos humanos e o meio ambiente”, pontua Orellana.

Novo governo

Não é apenas o encerramento do ano legislativo que preocupa a bancada ruralista, mas também o fim do governo Bolsonaro. Durante os seus quase 4 anos de gestão, foram registrados 1.801 agrotóxicos no país, um número recorde. A maior parte é produzida na China, cerca de 50% têm ingredientes ativos proibidos na União Europeia e a maioria dos produtos são usados em plantações de soja, milho, cana-de-açúcar e algodão.

“O alto uso de pesticidas no Brasil resulta em pessoas adoecendo, perdendo suas vidas, na retirada de povos indígenas de suas terras e em uma série de violações de direitos humanos que exigem uma mudança de direção que torne os padrões mais fortes, e não mais fracos”, afirma o relator da ONU.

Apesar da pressa para aprovação na Comissão de Agricultura, o debate não está ganho, segundo o assessor da FIAN Brasil. De acordo com ele, ainda é uma incógnita como o presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSD-MG) irá se posicionar e se colocará o projeto em votação na Casa. “Pacheco não faz parte da bancada FPA, apesar de ter atendido até agora as demandas do grupo, então acho que vai ter um outro campo de disputa política e que com certeza vai envolver diretamente atores da equipe de transição”.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem realizado diversos discursos em que se propõe a ter um olhar mais voltado ao meio ambiente. Na COP27 (Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas), o presidente chegou a afirmar que o país estará mais aberto para discutir as questões ambientais, reatar laços internacionais e combater a fome.

“Quando a gente ouve o presidente eleito Lula falando na conferência sobre mudanças climáticas que o Brasil está de volta, em relação à proteção ambiental, é minha sincera esperança que esse compromisso com as lideranças ambientais não seja apenas em relação às mudanças climáticas e ao desmatamento, mas em respeito à crise tóxica que o planeta enfrenta e à perda da biodiversidade”, comenta esperançoso Orellana.

O relator afirma que independentemente do resultado sobre o PL do Veneno, ele e os outros relatores especiais da ONU vão continuar denunciando e monitorando a situação dos agrotóxicos no Brasil. “O planeta enfrenta uma tripla crise de mudança climática, perda de biodiversidade e poluição tóxica que precisa ser abordada em soluções integradas.


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Este texto foi originalmente publicado pelo site “Por trás do Alimento” [Aqui!].

Senado Federal debate em audiência riscos do “Pacote do veneno”

Em audiências na Câmara, pesquisadores e representantes da ONU já haviam recomendado rejeição ao projeto

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Ativistas do Greenpeace foram até o Congresso Nacional manifestar a voz de dois milhões de brasileiros que já disseram: CHEGA DE AGROTÓXICOS! © Bárbara Cruz / Greenpeace

Brasília, 21 de novembro de 2022 – Amanhã, terça-feira (22), o texto do “Pacote do Veneno” (PL 1.459/2022) será debatido em audiência no Senado Federal e contará com a presença do relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para resíduos tóxicos e direitos humanos, Marcos A. Orellana. Apesar dos graves riscos socioambientais já alertados por cientistas e especialistas, o projeto está tramitando apenas na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária (CRA), de maioria ruralista, sem previsão de passar pela Comissão de Meio Ambiente (CMA) ou de Assuntos Sociais (CAS). O PL é de relatoria do senador e presidente da CRA, Acir Gurgacz (PDT/RO). 

“As pessoas precisam de comida no prato e compromissos firmes para conter o desmatamento e os impactos das mudanças climáticas, e isso só será alcançado com menos veneno e uma mudança no atual modelo de produção de alimentos. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, precisa se lembrar do compromisso que assumiu com a sociedade durante o Ato pela Terra de garantir o debate devido a este tema. Depois de tantas alterações na Câmara dos Deputados, é indispensável que este projeto passe pelas comissões que de fato têm condições de avaliar o que mais nos interessa: seus prejuízos para o meio ambiente e para a saúde.” declara Marina Lacôrte, porta-voz de Agricultura e Alimentação do Greenpeace Brasil.

Para Karen Friedrich, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), o PL apresenta diferentes dispositivos que vão impactar negativamente a saúde das pessoas e a biodiversidade. “O PL retira a Anvisa e o Ibama de várias etapas dos processos regulatórios e dá mais chances para que produtos cancerígenos e que causam problemas hormonais e reprodutivos, sejam registrados no país.”

O Pacote do Veneno visa revogar a atual lei de agrotóxicos e alterar uma série de medidas importantes na regulação destas substâncias, como a transferência de todo o poder decisório sobre liberação de um produto para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), tornando praticamente consultivas partes fundamentais do processo de avaliação e aprovação, como a Anvisa e o Ministério do Meio Ambiente (MMA), órgãos responsáveis pelos aspectos da saúde e do meio ambiente.

O Projeto de Lei 1.459/2022 (que tramitava como PL 6299/2002 na Câmara dos Deputados) foi aprovado na Comissão Especial da Câmara em 2018, sob relatoria do Dep. Luiz Nishimori e pela presidência da Comissão da então Dep. Tereza Cristina (atual Ministra da Agricultura), mesmo sob intensa pressão da sociedade, a exemplo das quase 2 milhões de pessoas e diversas organizações públicas (como a Fiocruz, Abrasco, Inca, Ibama) e mais de 320 organizações da sociedade civil que se posicionaram contra o projeto. Ele é de autoria do ex-senador Blairo Maggi e há forte interesse de que seja votado e aprovado na Comissão de Reforma Agrária e Agricultura, ficando pronto para ir ao plenário da casa.