BBC
‘Para mim, Copa não existe’, diz mãe de operário morto na Arena Corinthians
Gerardo Lissardy, BBC Mundo, Rio de Janeiro
Sueli Dias mostra camisa oficial que seu filho comprou, mas nunca chegou a usar
Enquanto os brasileiros festejam a Copa do Mundo nas ruas, o silêncio impera em uma casa em Diadema, na região do ABC paulista. Ali vivia o operário Fábio Hamilton Cruz, morto após sofrer uma queda no estádio Arena Corinthians, onde trabalhava.
Quem abre o portão é a mãe de Fábio, Sueli Rosa Dias, de 45 anos, uma mulher magra e de cabelo comprido, que gosta de manter preso.
“Desculpe pela casa de pobre”, diz ela enquanto autoriza a entrada da reportagem da BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
Sueli se senta em um sofá preto, o mesmo onde Cruz dormiu pela última vez no dia 29 de março. Ela se lembra de tê-lo coberto naquela noite com uma manta, antes de seu filho, de apenas 23 anos, acordar às 4h30 para ir trabalhar no estádio.
“O Fábio esperava a Copa há muito tempo, principalmente depois de trabalhar no Itaquerão. Porque seu sonho era ver o estádio pronto. Ele estava acostumado a dizer que estava dando seu sangue para construir aquilo do qual se sentia orgulho”, assinala Sueli, que trabalha como empregada doméstica.
O entusiasmo de Cruz vinha de sua paixão pelo Corinthians, que é dono do estádio, e também por ver o Brasil disputar o Mundial em casa. Ele já tinha até comprado a camisa da seleção brasileira.
Sueli tira a camisa amarela do guarda-roupa guardada pela última vez por seu filho, e a observa com o olhar triste.
“Ele não via a hora de ver a Copa começar para poder usar a camisa. Nem chegou a usá-la”, lamenta Sueli. “Não tive coragem de me desfazer dela”.
Naquele sábado fatídico, Cruz caiu de uma altura de oito metros quando trabalhava na montagem das estruturas temporárias da Arena Corinthians. Ele morreu horas depois em um hospital.
Ele foi o último dos oito operários que perderam a vida construindo os modernos e caros estádios que hoje atraem os olhos do mundo inteiro para o Brasil.
“Para mim, a Copa do Mundo não existe”, afirma Sueli. “A dor que estamos sentindo com a morte do Fábio nos impede de comemorar a Copa, não temos como aproveitá-la. Nem sei quais partidas que o Brasil vai jogar”, acrescenta ela.
Momento de reflexão
Ao todo, três operários morreram na construção da Arena Corinthians. Dois deles foram vítimas de um acidente fatal em novembro, quando uma grua caiu de uma das arquibancadas.
Outros quatro trabalhadores morreram na Arena Amazônia e um operário morreu no Mané Garrincha, em Brasília.
No caso de Cruz, sua mãe decidiu entrar na Justiça contra a Odebrecht, responsável pela obra, que custou mais de R$ 1 bilhão.
“Ninguém sabe ao certo o que aconteceu. Uns dizem que foi negligência do Fábio, que estaria sem as cordas de segurança.”
Em novembro, dois operários morreram no estádio de São Paulo após a queda de uma grua.
Sueli conta que as cordas eram muito curtas para mantê-las presas enquanto seu filho se movia pela arquibancada e, por essa razão, acredita que ele devia soltá-las com frequência.
“Foi durante um desses intervalos que ele pegou a corda para prendê-la que ele caiu”, afirma.
“Ao mesmo tempo, fico pensando que se houvesse uma rede de proteção e outros equipamentos de segurança, ele poderia ter sobrevivido. Ele poderia até cair, mas não seria uma queda fatal.”
Após o acidente, o Ministério do Trabalho interrompeu por alguns dias a montagem das arquibancadas temporárias na Arena Corinthians e exigiu maiores medidas de segurança da empresa Fast Engenharia, responsável pelas estruturas, incluindo redes de proteção para os operários.
O calendário de construção da Arena Corinthians teve diversos atrasos e o estádio ficou pronto faltando pouco para receber a primeira partida do Mundial no dia 12 de junho.
Sueli relata que seu filho havia trabalhado na segunda-feira anterior ao acidente e só foi à obra no sábado para ganhar um dinheiro extra. Ela diz que conseguiu vê-lo com vida no hospital.
Agora, em meio à festa do Mundial, ela pede um momento de reflexão dos brasileiros.
“As pessoas têm o direito de aproveitar a Copa, de torcer por seu país. Mas as pessoas deveriam pensar também no que há por trás disso.”
“Não é porque eu estou triste que todo mundo deveria estar também. Mas acho que o povo deveria ser unir para exigir de nossos políticos maior segurança, não apenas para os operários da construção civil, mas para todo tipo de empresa e trabalhador.”
FONTE: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/06/140623_mae_operario_copa_wc2014_lgb.shtml?bw=bb&mp=wm&bbcws=1&news=1
BBC mostra repressão policial e cinegrafista ferido por bomba em protesto contra aumento de passagens no Rio de Janeiro

As previsíveis reações ao aumento de passagens de ônibus determinadas pelo (des) prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB), estão sendo reprimidas com a costumeira selvageria pelas tropas da polícia militar. No dia ontem (06/02), a rotina de protesto e repressão selvagem fez uma vítima inesperada: um cinegrafista da Band TV. Felizmente, ainda que ferido gravemente, o cinegrafista não corre risco de vida.
Agora, uma coisa é certa: ainda teremos mortes de manifestantes nas ruas do Rio de Janeiro, caso a PM do (des) governo de Sérgio Cabral não aprenda a se relacionar com a crescente mobilização popular de um jeito menos truculento, visto que as atuais táticas, além de nada corresponder a uma sociedade democrática, coloca a vida de civis (participantes do protesto ou não) em grave risco.
Vídeo da BBC mostra socorro a cinegrafista ferido em protesto
Wyre Davies e Chuck Tayman, da BBC inglesa, prestam os primeiros socorros a cinegrafista feridoDurante uma manifestação contra o aumento das passagens de ônibus na tarde de quinta-feira no centro do Rio de Janeiro, a reportagem da BBC flagrou o momento em que um cinegrafista da TV Bandeirantes foi ferido por um explosivo.
O repórter Wyre Davies e o cinegrafista Chuck Tayman, ambos da BBC inglesa, foram os primeiros a socorrer Santiago Ilídio Andrade. Tayman chegou a tirar a camisa para ajudar a estancar o sangue que escorria da cabeça do cinegrafista.
Segundo um comunicado divulgado pela TV Bandeirantes, ainda não é possível saber se Andrade foi atingido por uma bomba caseira ou por uma bomba de gás lacrimogênio.
O confronto começou do lado de dentro da estação e depois se estendeu mais intensamente nas redondezas da Central do Brasil, a principal estação de trem do Rio de Janeiro, provocando um nó no trânsito e pânico entre os que passavam pelo local.
Policiais atiraram bombas de gás e de efeito moral contra cerca de 1 mil manifestantes, que protestavam contra o aumento da passagem de ônibus de R$ 2,75 para R$ 3. O reajuste, anunciado pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes, passa a vigorar a partir de sábado, 8 de fevereiro.
Andrade, da Band, chegou em coma ao Hospital Souza Aguiar, no centro da cidade, e passou por uma neurocirurgia. Ele teve afundamento do crânio e perdeu parte da orelha esquerda. Segundo o último boletim médico, seu estado de saúde ainda é grave.
Outras seis pessoas também ficaram feridas e 20 foram detidas.
A Associação Brasileira de Jornalismo Investigado (Abraji) divulgou uma nota de repúdio ao ataque sofrido pelo cinegrafista da Band.
Em 2013, 114 profissionais da imprensa foram feridos durante a cobertura de protestos.
BBC: Como a fragilidade das empresas de Eike passou despercebida?
Carisma de empresário, chamado de ‘ímã de dinheiro’ por revista ‘Economist’, boas relações com governo e ‘aura de seriedade’ ajudaram a atrair grandes investimentos de fora de Brasil.

Eike Batista convenceu investidores a apostar em suas empresas (Foto: AFP Photo)
O anúncio nos últimos dias de que a petrolífera OGX e a construtora naval OSX, do grupo empresarial EBX, de Eike Batista, entraram com pedido de recuperação judicial trouxe à tona uma pergunta que era pouco ouvida na época em que as empresas estavam no auge: como o brasileiro conseguiu convencer tanta gente de que seu império era sólido?
Entre os investidores internacionais que apostaram na OGX – carro-chefe da EBX – estão gigantes como Pacific Investment Management Company (Pimco) e BlackRock, duas das maiores empresas de gestão de fundos do mercado de renda fixa.
Esses e outros grupos experientes, ao lado de pequenos acionistas e de empréstimos como os do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), financiaram os projetos de Eike baseados em projeções, antes que a OGX produzisse um barril sequer de petróleo.
Segundo o banco UBS, a empresa chegou a ter valor de mercado de US$ 22 bilhões. Hoje é estimada em menos de R$ 1 bilhão. Em 2010, o valor de suas ações chegou a ultrapassar R$ 23. Na semana passada, eram cotadas em torno de R$ 0,15.
Agora que ficou comprovado que a maioria dos campos de petróleo da OGX é improdutiva e que a empresa tem uma dívida calculada em torno de US$ 5 bilhões – sendo US$ 3,6 bilhões em títulos nas mãos de credores internacionais –, analistas tentam compreender como o mercado se deixou iludir.
Entusiasmo
Um dos fatores apontados é o clima de empolgação generalizada com a economia brasileira no final da década passada, quando ela vinha demonstrando bons resultados diante da crise mundial de 2008 e comemorava as descobertas de petróleo na camada do pré-sal.
Em junho de 2008, a revista britânica “The Economist” fez um perfil do empresário brasileiro com o título: “Imã de dinheiro: Eike Batista, a cara do boom de commodities do Brasil”. A reportagem diz que a oferta pública da OGX levantou investimentos na ordem de US$ 3,6 bilhões – um valor semelhante ao obtido pelo gigante da internet Google em 2004.
Em 2008, a OGX havia sido criada há menos de um ano, possuía apenas cem funcionários, não havia começado trabalhos de perfuração ainda e não tinha nenhuma reserva de petróleo comprovada nos seus poços. Mesmo assim, os investidores continuaram atraídos pelo negócio de Eike Batista.
“A OGX pode até não precisar produzir petróleo algum para eles [os investidores] continuarem ganhando dinheiro. Mas se os resultados de exploração nos poços passarem do hipotético para o comprovado, Batista provavelmente passará a atrair grandes empresas de petróleo”, afirma a reportagem.
A revista britânica também se mostrava empolgada com o carisma de Batista e a possibilidade de seu império rivalizar com a Petrobras.
“Se Batista usar [suas vantagens] para chacoalhar as partes da economia brasileira que são dominadas por uma empresa gigante, melhor assim”, dizia a “he Economist” em 2008.
O otimismo contagiou investidores e se disseminou pelo mercado, facilitando a captação de recursos no exterior por parte de empresas brasileiras.
“Havia um sentimento geral de euforia no mercado em relação ao Brasil”, disse à BBC Brasil o analista Jefferson Finch, especialista em América Latina da consultoria Eurasia Group, em Nova York.
“Era a década dos Brics, quando todo mundo estava falando sobre Brasil, Rússia, Índia e China como o futuro de onde o crescimento iria surgir”, observa.
Nesse cenário, Eike, fluente em várias línguas, com vivência europeia, personalidade cativante e um talento de “vendedor” teria sido visto por investidores estrangeiros como uma porta de entrada “confiável” no mercado brasileiro.
“Ele se beneficiou do entusiasmo geral com o Brasil. Muita gente queria entrar no Brasil de qualquer maneira”, afirma Finch.
Para Mansueto Almeida, do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), tanto o BNDES como bancos e investidores privados “acreditaram em suas promessas de grandes lucros”.

Aura de seriedade
Mas o clima de otimismo em relação ao Brasil e o carisma de Eike no exterior não foram os únicos motivos que levaram tantos investidores a apostarem nos projetos de Batista.
“Houve diversos fatores”, disse à BBC Brasil o economista brasileiro Aurélio Valporto, porta-voz de acionistas minoritários da OGX.
“Primeiro, a própria presidente da República era uma garota-propaganda”, afirma Valporto, referindo-se as vezes em que Dilma Rousseff apareceu ao lado do empresário, elogiando sua atuação e falando em parceria com a Petrobras. Em abril de 2012, Dilma apareceu ao lado de Eike Batista vestindo um macacão da OGX, em solenidade que marcou o começo da exploração da empresa no Rio de Janeiro.
A proximidade com o governo e a empolgação com que autoridades se referiam aos projetos do grupo EBX pode ter criado no mercado a falsa impressão de que Eike teria apoio do governo e acesso facilitado a recursos financeiros.
Além disso, Valporto lembra que a OGX tinha como membros independentes de seu conselho pessoas como os ex-ministros Pedro Malan (Fazenda), Rodolpho Tourinho Neto (Minas e Energia) e Ellen Gracie (Supremo Tribunal Federal), o tipo de associação que aos olhos de investidores pode atestar credibilidade ao projeto.
“Pessoas que davam aos investidores e credores uma certeza de que, se houvesse alguma mentira, eles iriam questionar. Era inclusive a função deles.”
“Tinha uma aura de seriedade, e as pessoas acreditavam”, afirma.
“Se houve alguma voz dissidente, a gente nem tomou conhecimento. Ele anunciava que tinha petróleo, todo mundo acreditava”, diz Valporto.
Um perfil da revista especializada Infrastructure Investor, em março de 2010, chamava Eike Batista de “o homem mais bem relacionado do Brasil”, citando suas boas ligações com autoridades brasileiras e investidores no mercado.
Ações
Valporto faz parte de um grupo de cerca de 70 acionistas minoritários que pretendem entrar com ações acusando Eike por manipulação de mercado, arrolando ainda alguns conselheiros do grupo, a CVM e a BM&F Bovespa, por não terem alertado para os problemas da empresa que segundo ele, teria supervalorizado suas reservas de petróleo.
Ele calcula que as perdas do grupo cheguem a R$ 50 milhões. “É muito difícil saber o prejuízo de cada um. Estamos deixando para o juiz definir no final”, diz.
Valporto discorda das declarações de Eike, que afirma ter sido quem mais perdeu com a queda de seu império.
“Ele arrecadou seu patrimônio vendendo ações. Ele sai dessa aventura com mais dinheiro do que quando entrou”, acredita.
“A fortuna dele foi toda fictícia, baseada em cotações em bolsa que não eram factíveis no mercado. Era uma fortuna absolutamente teórica. Oitavo, sétimo homem mais rico do mundo, só na teoria.”
Minas-Rio
Um dos casos mais notórios de erros de avaliação sobre o império de Eike Batista é o de Cynthia Carroll, que já foi considerada a mulher mais importante do mundo dos negócios pela revista Forbes.
Em 2007, ela se tornou a primeira mulher a dirigir a AngloAmerican, uma das maiores multinacionais de mineração do mundo. Naquele mesmo ano, a executiva fechou um negócio bilionário com Eike Batista no projeto Minas-Rio – uma das maiores minas de ferro do mundo, mas de difícil extração por estar localizada muito abaixo da superfície.
No ano seguinte, a AngloAmerican comprou o restante do Minas-Rio, totalizando mais de US$ 5 bilhões no negócio. O projeto para extração do minério de ferro e transporte de trem até o porto de Açu, no litoral do Rio de Janeiro, era considerado bastante complexo.
Analistas acreditam que a AngloAmerican foi otimista demais na sua avaliação sobre o projeto de Eike Batista. Atrasos elevaram muito o custo do projeto, afetando os dividendos pagos aos acionistas da multinacional. No ano passado, Carroll acabou pedindo demissão do grupo.
“A impressão que ficou é que Batista, um notório vendedor audacioso, se aproveitou de Carroll”, escreveu na época o jornal britânico “Sunday Times”.
* Colaborou Daniel Gallas, de Londres
Rede BBC produz matéria sobre o colapso de Eike Batista

No dia de ontem tive a oportunidade de me encontrar com uma equipe da rede inglesa BBC que veio até o Porto do Açu produzir uma matéria sobre o anunciado, e hoje confirmado, colapso do Império de empresas da franquia “X’.
O link abaixo permite acesso a matéria que resultou dessa visita da BBC

