Em tempos de comodificação da ciência, o fluxo dos convites mostra que há mercado para “trash science”

trash science

Em tempos de comodificação da ciência que se traduz em muitos casos em “trash science” não canso de me surpreender com a enxurrada de convites que me chegam para publicar em revistas e conferências de natureza duvidosa. É como se a minha caixa de correio eletrônica tenha se tornado um magneto para todo tipo de publicidade de pseudo ciência e, alguns casos, usando meu nome e sobrenome, o que é incomum.

Vejo o exemplo abaixo que aparenta ser um convite para um congresso mundial sobre Enfermagem e Saúde que deverá ocorrer em Dubai, a cidade mais populosa dos Emirados Árabes Unidos.

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O estranho aqui não é que não possuo qualquer ligação com pesquisas na área do evento, mas que a mensagem me tenha sido enviada de forma formal para o meu endereço eletrônico institucional. 

Mas ao olhar o convite abaixo a disparidade dos convites ficará ainda mais evidente, já que o mesmo vem dos editores de um periódico na área de Microbiologia que, convenhamos, também passa bem longe dos meus interesses.

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A questão que sempre me intriga quando recebo esses convites não é sobre as intenções de quem os envia, mas de quantos pesquisadores brasileiros são atraídos pelos mesmos. É que esses convites da “ciência trash” são. por exemplo, como jogos de futebol, onde time ruim normalmente atrai pouco ou nenhum público. Assim, se os convites continuam chegando é porque o esforço de disseminá-los ainda continua dando lucro.

E depois ainda tem gente que prefere se preocupar em atacar a reputação da “Beall´s List” de editoras e revistas predatórias. É como se atacando o mensageiro se poderia apagar o conteúdo da mensagem. Se for esse o padrão a ser seguido, o Brasil nunca será capaz de produzir ciência com qualidade internacional. Simples assim!

Os riscos e impactos do “trash science”. Entrevista especial com o Professor Jeffrey Beall

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Em meio ao debate sobre os impactos da disseminação do lixo científico na ciência brasileira me deparei com a lista de editoras e revistas predatórias (o que eu chamo de “trash science” ou simplesmente “lixo científico” produzida pelo professor Jeffrey Beall, da University of Colorado-Denver (Aqui! ).  E a partir do conhecimento da Beall´s List (ou Lista de Beall) tenho identificado editoras e revistas predatórias, muitas das quais têm atraído muitos pesquisadores brasileiros.

No intuito de saber mais sobre as origens e objetivos da Beall´ List, enviei um e-mail para o professor Jeffrey Beall solicitando uma entrevista para aprendermos mais sobre a sua lista e ele gentilmente concordou em responder às minhas perguntas. A entrevista com o Professor Jeffrey Beall segue abaixo na íntegra, e creio que a leitura das respostas que ele ofereceu serão bastante úteis para todos aqueles pesquisadores – dos mais jovens aos mais experientes- que desejem evitar ter suas pesquisas publicadas em revistas predatórias a custos nem sempre baratos, apenas para serem confundidas com lixo científico. 

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BLOG DO PEDLOWSKI: Qual é a sua atual filiação institucional, e principais interesses de pesquisa e atividades profissionais?

Jeffrey Beall (JB): Eu sou professor associado com estabilidade (tenure track) na University of Colorado-Denver. Eu faço pesquisas sobre publicações acadêmicas, métricas de publicações científicas e a ética na publicação.  Eu trabalho na biblioteca da universidade onde eu sou o bibliotecário responsável pelas comunicações acadêmicas.

BLOG DO PEDLOWSKI: Por que o senhor decidiu iniciar uma lista de editoras e revistas predatórias?

(JB): Inicialmente eu criei a lista em um blog que eu mantinha e fiz isto apenas por curiosidade. Um ano depois de ter criado a primeira lista, no final de 2011, eu criei a lista atual e ela começou a atrair a atenção. Agora, o objetivo da lista é ajudar pesquisadores a evitarem revistas e editoras predatórias e de baixa qualidade.   

BLOG DO PEDLOWSKI: Muitos dos seus críticos sugerem que o seu nível de treinamento acadêmico e áreas de especialização não o habilitam a atuar como um juiz de integridade científica. Como o senhor responde aos seus críticos?

(JB): A questão parece implicar que para julgar um dado periódico, você deve ser um especialista no campo que o mesmo ocupa, como, por exemplo, Engenharia Elétrica. Mas eu analiso as editoras e as revistas em termos de sua ética e suas normas de publicação. Eu olho para o uso de mentiras, falta de transparência, e desvio dos padrões acadêmicos que prevalecem no ramo das publicações científicas. Eu uso critérios documentados que me guiam na análise dos periódicos.

Ainda assim, muitas revistas publicam lixo científico, e na maioria das vezes sou capaz de identificar quando isso ocorre. Por exemplo, eu vi recentemente um artigo que discutia as civilizações que teriam existido no planeta Marte, e eu não tive a necessidade de ser um especialista em ciência planetária para determinar que tanto o artigo como a revista eram lixo científico.

Editoras predatórias visam enganar pesquisadores honestos para pensar que suas revistas são legítimas. Infelizmente, às vezes eles são bem sucedidos. Então, ocasionalmente, nós vemos boas pesquisas publicadas em revistas ruins.

BLOG DO PEDLOWSKI: Em sua opinião, como o fenômeno das editoras predatórias pode afetar o desenvolvimento futuro de revistas de acesso aberto?

(JB): Editoras e revistas predatórias que estão usando o modelo de ouro (autor paga) do acesso aberto tem um conflito de interesse interno, pois quanto mais artigos eles aceitam, mais dinheiro elas fazem. Muitas pessoas estão promovendo a publicação de acesso aberto, e o modelo tem suas vantagens, mas os defensores do acesso aberto não estão contando a toda à história. O número de publicações acadêmicas de acesso aberto está crescendo rapidamente, mas também o número de revistas e editoras corruptas. O registro científico está sendo cada vez mais contaminado com pseudociência e por ciência de baixa qualidade que serve como “ruído” e torna mais difícil encontrar e acessar ciência de qualidade e outros tipos de pesquisas qualificadas.

BLOG DO PEDLOWSKI: Quais têm sido as principais respostas da comunidade científica à sua lista de editoras e revistas predatórias?

(JB): Estou honrado de ter recebido muitos e-mails me agradecendo por meu trabalho. Eu venho tendo a oportunidade de falar sobre a minha lista em conferências científicas e de conhecer novos colegas. Nem todo mundo gosta de mim, e está tudo bem com isso. Mas eu acho que até meus inimigos usam minhas listas.

BLOG DO PEDLOWSKI: O senhor tem alguma recomendação para cientistas interessados em evitar o risco de ser atraído e/ou enganado por editoras predatórias?

(JB): Sim. Por favor, consultem as minhas listas. Sejam muito cuidadosos com a aceitação de ofertas que cheguem via e-mails do tipo “spam”, incluindo as ofertas de revistas e conferências. Aprendam quais são as principais revistas em seus campos disciplinares, e as leiam. Leiam cada número das principais revistas, e aprendam o estilo delas. Em seguida, façam sua pesquisa, escrevam e submetam seus artigos às revistas que estejam no topo do ranking.

BLOG DO PEDLOWSKI: Existe alguma coisa que o senhor gostaria de acrescentar?

(JB): Sim, existem novas formas de fraude e aqui está uma: muitos periódicos agora afirmam que ganharam um fator de impacto, quando isto realmente não aconteceu Existem hoje novas empresas, principalmente da Índia, que vendem fatores de impacto falsos para as revistas predatórias. Verifique todos os fatores de impacto antes de submeter um manuscrito para uma dada revista.  

Graças à “Lei de Gerson”, trash science está instalado no topo da pirâmide científica no Brasil

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Graças a um colega que me repassou um convite feito por uma das muitas editoras predatórias que existem atualmente no mercado de publicações científicas (a E3Journals Aqui!), resolvi verificar se havia algum pesquisador brasileiro nos corpos editoriais das diversas revistas que a empresa disponibiliza e, bingo!, achei dois bolsistas de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Tecnológico (CNPq). Aliás, um desses pesquisadores é como dizem os franceses da “crème de la crème“, ou seja, o melhor do melhor, já que está no nível 1A, o máximo em que alguém pode ser classificado pelo CNPq, e de onde decorrem vários benefícios financeiros diretos e indiretos. O outro pesquisador vinculado a essa editora predatória também é bolsista de produtividade no nível 2, algo que também não é fácil de se conseguir.

Ao verificar aos currículos acadêmicos desses dois pesquisadores na Base Lattes que é mantida pelo próprio CNPq, notei algo peculiar: ambos os pesquisadores indicam que são membros de não apenas uma revista classificada como predatória pelo professor Jeffrey Beall da University of Colorado-Denver (Aqui!), mas de várias e com localizações e endereços em vários países fora do que se pode considerar de ponta na produção científica mundial. Em outras palavras, a vinculação a editoras predatórias e revistas científicas desqualificadas é feita por dois bolsistas de produtividade (um deles no topo da cadeia meritocrática) sem qualquer parcimônia. É como se a vinculação a revistas “trash” fosse uma medalha ao honra ao mérito, e não o que é realmente, uma nódoa no currículo de qualquer pesquisador sério e comprometido com o avanço da ciência brasileira.

Esse escancaramento do descompromisso com o rigor científico é que me parece mais chocante, já que fica evidente que a chamada “Lei de Gérson” está fortemente entranhada em, pelo menos, parte da comunidade científica e exatamente entre pesquisadores que são considerados como sendo “produtivos” pelo CNPq

Diante dessa situação é que ninguém deve mesmo se sentir surpreendido pelo caso que mostrei aqui mesmo nesse blog sobre a cassação de um título de mestre na Universidade Federal de Viçosa em função de acusações de fraude e plágio (Aqui!). É que o vale tudo da “Lei de Gerson” que está estabelecido entre pesquisadores seniores, como é que se espera que jovens pesquisadores escolham um caminho oposto? Eu pessoalmente só vejo um caminho: o CNPq mudar suas regras de concessão de bolsas de produtividade. O problema aqui é se alguém dentro da agência vai querer mexer nesse vespeiro.

Descaminhos do “trash science”: a falsa pesquisa sobre a dieta do chocolate

Você deve ter lido alguma coisa sobre a suposta dieta que trazia resultados mais rápidos ao incluir chocolate no cardápio. As matérias sobre a tal dieta se baseavam em uma pesquisa do Instituto de Dieta e Saúde (Institute of Diet and Health) e eram de autoria do médico alemão e diretor do instituto Johannes Bohannon. Ela foi publicada por revistas científicas e divulgada mundialmente em sites, revistas e programas de TV. E ela não passou de uma grande mentira.

Johannes Bohannon e o Instituto de Dieta e Saúde não passam de invenções do jornalista John Bohannon. Ele criou o site do instituto e publicou o estudo para expor como é fácil divulgar um estudo científico duvidoso.

O estudo

O jornalista explica no io9 que a pesquisa foi encomendada por um canal de televisão alemão. Uma equipe do canal produzia um documentário sobre a ciência fajuta da indústria da dieta, que transformam ciência ruim, barata e duvidosa em grandes manchetes em jornais. E, tirando os resultados, tudo foi feito como uma pesquisa de verdade: com médicos, um profissional de estatística e objetos de pesquisa — pessoas dispostas a participar da dieta.

Os sujeitos participantes da pesquisa — 5 homens e 11 mulheres, de 19 a 67 anos — receberam 150 euros cada e foram informados que o estudo fazia parte de um documentário sobre dietas e nada mais.

A escolha do chocolate amargo veio do médico responsável pelos exames clínicos da pesquisa. Gunther Frank, clínico geral e autor de um livro contra a pseudociência por trás de dietas, explica: “Chocolate amargo tem gosto ruim, e por isso as pessoas acham que ele faz bem”, diz. “É como uma religião”.

Depois de uma bateria de exames, o clínico separou os participantes em três grupos distintos: o primeiro em uma dieta de baixa caloria, o segundo na mesma dieta de baixa caloria mais a inclusão de 40 g de chocolate por dia e o terceiro grupo continuou com os mesmos hábitos alimentares que já mantinham. Cada indivíduo se pesou diariamente por 21 dias consecutivos e foi submetido a um questionário e mais uma bateria de exames ao final do experimento.

E o resultado? O terceiro grupo manteve ou teve mudanças insignificantes no peso, enquanto cada indivíduo do segundo e do primeiro grupo emagreceram cerca de 2.5 kg, com o segundo grupo, o que incluía chocolate na dieta, perdendo peso 10% mais rápido e com melhores resultados nos exames de colesterol que o primeiro.

O resultado

Então o estudo funciona? Bem, sim e não. O estudo mostrou uma aceleração na perda de peso do grupo que comeu chocolate, no entanto, o número de indivíduos testados é muito pequeno para se chegar a qualquer conclusão — os testes foram feitos com apenas 15 pessoas. Mas os responsáveis pelo estudo sabiam disso. Bohannon explica no post:

“Se você medir um grande número de coisas em um número pequeno de pessoas, você quase certamente terá um resultado ‘estatisticamente significativo’”

E adivinha? O estudo conta com dezoito medidas diferentes — peso, colesterol, sódio, níveis de proteína do sangue, qualidade do sono, bem-estar e outros — e apenas 15 pessoas para teste. Eles estavam fadados a receber pelo menos um resultado bom. “Não sabíamos com o que terminaríamos — as manchetes poderiam ser que chocolate melhora o sono ou diminui a pressão arterial — mas sabíamos que nossas chances de ter pelo menos um resultado ‘estatisticamente significativo’ eram boas”, diz o jornalista.

Além disso, Bohannon explica que os hábitos alimentares do terceiro grupo, que não recebeu nenhuma dieta, sequer foi questionado; e alguns fatores, como o ciclo menstrual, que pode oscilar o peso de mulheres em quantidades próximas ao que a dieta prometia eliminar, também não foi levado em consideração.

Publicando e divulgando

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Com os resultados em mãos, Bohannon submeteu a pesquisa para publicação em revistas científicas e dentro de 24 horas diversas publicações mostraram interesse em divulgá-la — a equipe acabou escolhendo a International Archives of Medicine, que, apesar de afirmar revisar cada pesquisa rigorosamente, publicaria o estudo por 600 euros.

Uma vez publicada, era a hora de divulgar a história: um release à imprensa bem explicado, que frisava os pontos fortes da pesquisa – como o chocolate ser um instrumento para perder peso – e omitia possíveis questionamentos, como o pequeno número de participantes da pesquisa. O release era praticamente uma matéria pronta para os jornalistas a publicarem, como diz o próprio Bohannon — e ela serviu perfeitamente para chamar a atenção de revistas e sites dos mais diversos lugares.

Dezenas de mídias de todo o mundo publicaram a história: Irish Examiner, o site alemão da Cosmopolitan, Times of India, o site alemão e indiano do Huffington Post, um telejornal do Texas e um programa matinal da Austrália divulgaram o estudo.

No Brasil, caíram na pegadinha o portal Vírgula, a TV Cultura e o site F5, da Folha de S. Paulo. (Só o F5 corrigiu o texto.)

FONTE: http://gizmodo.uol.com.br/pesquisas-fajutas-midia/

Trash science: depois de negar o problema, CAPES começa a limpar o Qualis Capes

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Após objetivamente negar o problema da contaminação do Qualis Capes por revistas predatórias em matéria feita pelo jornalista Maurício Tuffani (Aqui!), a Capes parece ter começado o necessário esforço para deixar de reconhecer centenas de revistas “trash” como fontes de produção científica qualificada. Esta informação foi passada a todos os coordenadores de programas de pós-graduação reconhecidos pela Capes, numa mensagem tão breve quanto direta:  

Prezados Coordenadores seguem algumas informações sobre os títulos de periódicos suprimidos pelo JCR, Editores e Revistas consideradas predadoras (que sairão do Qualis caso não tenha cites per doc ou JCR)”

A mesma mensagem ainda traz a lista de editoras predatórias organizada pelo professor da University of Colorado-Denver, Jeffrey Beall, o que pode ser entendido como uma indicação aos pesquisadores brasileiros de que evitem várias centenas de revistas pseudo-científicas que vinham engordando a produção científica dos programas de pós-graduação certificados pela Capes.

Como o professor Beall deverá vir ao Brasil no final de maio para participar do 4o. Congresso Mundial de Integridade na Pesquisa, evento que ocorrerá na cidade do Rio de Janeiro, é provável que a Capes esteja evitando novos embaraços públicos frente aos pronunciamentos que esse especialista em “trash science” deverá fazer. 

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De toda forma, vamos esperar que a partir de agora a Capes pare efetivamente de premiar programas contaminados por produções científicas que não valem nem o papel em que são impressos. E, sim, que essa postura saneadora se estenda também ao CNPq, onde o processo de concessão de bolsas de produtividade e concessão de fomentos também deve estar sofrendo com essa contaminação da ciência trash. A ver!