Um acerto de contas na Amazônia

Líderes indígenas, comunidades tradicionais e pesquisadores estão resistindo ao desenvolvimento na floresta amazônica, que poderia levar seus ecossistemas a ultrapassar pontos de inflexão irreversíveis

Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil, durante visita às instalações da Regap, no Distrito Industrial Paulo Camilo Sul. Imagem: Ricardo Stuckert /  / Creative Commons 4.0.

Por Monica Piccinini para “The Ecologist” 

Fumaça paira sobre o sul da Amazônia, onde apenas algumas semanas atrás havia floresta. Ao longo de novas rodovias, caminhões de gado passam por rios com níveis de água baixos, e no vasto Cerrado vizinho, a soja se estende em direção a um horizonte antes coberto por vegetação nativa. O que está acontecendo não é um surto isolado de desmatamento, mas um momento decisivo para o modelo econômico que molda o Brasil moderno. 

Da carne bovina aos biocombustíveis, passando por créditos de carbono, blocos de petróleo e mega-represas, esta edição especial traça como práticas extrativistas familiares estão sendo reformuladas na linguagem do crescimento verde. Projetos de infraestrutura como a rodovia BR-319, a expansão das fronteiras dos combustíveis fósseis e o enfraquecimento das salvaguardas ambientais expõem um abismo crescente entre as promessas climáticas e a realidade. Esta não é apenas uma história de perdas, mas também de resistência. 

Líderes indígenas, comunidades tradicionais e pesquisadores resistem a um caminho que pode levar esses ecossistemas a pontos de inflexão irreversíveis. As consequências vão muito além das fronteiras do Brasil. O que acontecer lá terá repercussões nos sistemas alimentares globais, nos ciclos da água e no próprio clima.

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O que está em jogo

O desmatamento e a degradação florestal deixaram de ser fenômenos distantes em grande parte da Amazônia meridional brasileira. Fazem parte do cotidiano. Caminhões transportam gado por estradas recém-abertas; nuvens de fumaça se elevam de campos onde, poucas semanas antes, havia floresta. Durante a estação seca, os rios começam a secar, o horizonte se torna uma linha cinza opaca e o cheiro de madeira queimada se espalha por quilômetros, às vezes por dias. Em conjunto, essas histórias revelam não uma crise isolada, mas uma complexa teia de pressões ecológicas, políticas e econômicas que irão remodelar a Amazônia e o Cerrado nas próximas décadas. Isso não é obra de alguns poucos indivíduos isolados. É o resultado de decisões tomadas em escritórios e salas de negociação distantes, em Brasília, São Paulo, Pequim e capitais europeias. A demanda global, acordos políticos, novas rodovias e pacotes de financiamento convergem aqui, na orla da floresta. 

Na Amazônia e no Cerrado vizinho, forças poderosas colidem. O agronegócio avança cada vez mais em terras intocadas, enquanto projetos de petróleo e gás progridem, barragens são construídas e rodovias como a BR-319 atravessam regiões remotas. Ao mesmo tempo, batalhas por direitos territoriais indígenas e proteção ambiental se desenrolam silenciosamente no Congresso e nos tribunais, muitas vezes longe dos olhos do público, mas com consequências duradouras no terreno. Paralelamente a essa expansão, surge uma nova promessa: um futuro “verde” baseado em  biocombustíveis ,  mercados de carbono e a chamada  bioeconomia . Essas ideias são vendidas como soluções climáticas. Elas atraem investidores e aplausos. Mas muitas comunidades indígenas e tradicionais fazem uma pergunta simples: isso realmente manterá a floresta de pé, ou é extração disfarçada de discurso mais ameno?

As escolhas feitas agora moldarão essas paisagens e as vidas a elas ligadas, por gerações.

As consequências vão muito além do Brasil. A Amazônia e o Cerrado regulam  as chuvas em toda a América do Sul e ajudam a estabilizar o clima global, armazenando imensas quantidades de carbono. Só a Amazônia abriga mais da metade das florestas tropicais remanescentes do mundo e uma parcela extraordinária de sua vida selvagem. Se ela entrar em colapso a ponto de não se recuperar, as consequências serão sentidas nas colheitas, no abastecimento de água, na saúde pública e nas economias em todos os continentes. O que está acontecendo não é uma crise isolada, mas uma complexa teia de pressões políticas, econômicas e ecológicas. As escolhas feitas agora moldarão essas paisagens e as vidas a elas ligadas, por gerações.

Carne bovina e soja

O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de carne bovina, abastecendo os mercados da China, Europa, Oriente Médio, Reino Unido e outros países. No entanto, a pecuária continua sendo o principal  fator de desmatamento e degradação na Amazônia brasileira. Vastos trechos de floresta são desmatados, muitas vezes ilegalmente, e convertidos em pastagens, uma transformação que pode levar semanas, mas cujos efeitos perduram por gerações. Pesquisadores que monitoram os padrões de desmatamento estimam que cerca de 80% das terras desmatadas na Amazônia acabam sendo convertidas em pastagens para gado. As implicações para os gases de efeito estufa são profundas: as emissões provenientes do desmatamento, incêndios,  metano e degradação do solo fazem do setor pecuário um dos maiores passivos climáticos do Brasil.

Os territórios indígenas estão cada vez mais cercados por pastagens. Incêndios provocados para limpar a terra frequentemente se alastram para as bordas das florestas, degradando ecossistemas que evoluíram sem queimadas regulares. Em anos de seca, esses incêndios podem ficar fora de controle. A fumaça não respeita as fronteiras demarcadas nos mapas. Para as comunidades que vivem na floresta, as consequências são imediatas. Os rios ficam obstruídos por sedimentos, os estoques de peixes diminuem e a fumaça aumenta as doenças respiratórias entre crianças e idosos. 

Luciana Gatti, pesquisadora sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), afirmou: “Houve um aumento enorme nas exportações de madeira, carne bovina, soja, milho e minerais. Este é um projeto baseado na destruição da natureza para a venda de commodities primárias.  Os sistemas hídricos são prejudicados por esses modelos de desenvolvimento, com graves consequências para os ecossistemas e para a população brasileira, ao mesmo tempo que concentram riqueza e poder nas mãos de grandes latifundiários.”

Embora a pecuária seja a principal causa do desmatamento e da degradação na Amazônia,  a soja transformou o Cerrado, uma região de pastagens, florestas e savanas que abrange mais de 2 milhões de quilômetros quadrados e alimenta as nascentes de oito das doze principais bacias hidrográficas do Brasil. Nas últimas cinco décadas, metade do Cerrado foi destruída. A soja industrial, grande parte destinada à alimentação animal para abastecer a China, a Europa, o Reino Unido e outros países, continua a se expandir e a destruir as áreas remanescentes. Diferentemente da Amazônia, o Cerrado possui menos proteções legais e menos fiscalização internacional. Com o endurecimento das leis em algumas partes da Amazônia, o agronegócio migrou para o Cerrado, onde a governança é muito mais frágil. Cássio Cardoso Pereira, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), afirmou: 

“Ao contrário da Amazônia, a maior parte do desmatamento no Cerrado ainda é legalmente permitida, o que protege as corporações e as cadeias de suprimentos da fiscalização. A responsabilização internacional falhou porque as estruturas globais de clima e biodiversidade negligenciam amplamente os campos e savanas, tratando-os como paisagens descartáveis ​​em vez de ecossistemas críticos.”

O sistema hídrico do Brasil  depende de uma delicada parceria entre a floresta amazônica e o Cerrado. Juntos, eles formam um vasto sistema hidrológico que transporta umidade pela atmosfera, armazena água subterrânea e estabiliza as bacias hidrográficas em grande parte da América do Sul. A bacia amazônica é o maior sistema de água doce do planeta, e o Cerrado abriga cerca de 80% das bacias hidrográficas do Brasil. Apesar dessa abundância, o Brasil está entrando em uma crise hídrica. Com o desaparecimento da vegetação nativa, os aquíferos recarregam mais lentamente e os rios que alimentam as grandes bacias hidrográficas do continente estão ficando mais secos. Os padrões de chuva se enfraquecem, as secas se prolongam e as ondas de calor se intensificam. O que começa como desmatamento se transforma em algo muito maior: uma lenta desestabilização do ciclo da água. Segundo Gatti, 2024 marcou o maior índice de emissões de carbono já registrado na Amazônia, impulsionado principalmente por incêndios. No entanto, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) do Brasil classifica as emissões dos incêndios na Amazônia como líquidas zero em sua metodologia oficial de contabilização, embora os incêndios sejam agora a maior fonte individual de emissões de carbono da região. 

Augusto Getirana, cientista pesquisador do Laboratório de Ciências Hidrológicas do Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA, falando a título pessoal, disse: “Uma crise hídrica no Brasil que resulta em interrupção da produção nacional de alimentos rapidamente se transforma em uma crise global. Vimos isso em 2021, quando os preços dessas commodities aumentaram substancialmente em todo o mundo.”

Comunidades relatam redução na disponibilidade de água e contaminação por agrotóxicos.

As comunidades tradicionais  de geraizeiros (comunidades tradicionais do Cerrado) e  quilombolas (comunidades formadas por afro-brasileiros fugitivos ou libertos da escravidão), muitas sem títulos de propriedade oficiais, encontram-se cercadas por monoculturas. A transformação não é apenas física, mas também cultural. Não se trata apenas de carne bovina ou soja, mas de um modelo de crescimento que desmata mais rápido do que a terra consegue se recuperar. Os lucros vão para o exterior, enquanto os danos permanecem, visíveis em rios esgotados, solos degradados e comunidades marginalizadas. Se isso continuar, o Brasil corre o risco de enfraquecer os próprios sistemas que sustentam seu povo e sua economia.

A rodovia BR-319

Poucos projetos simbolizam a encruzilhada da Amazônia de forma tão marcante quanto a  BR-319 . A BR-319 é ​​uma rodovia federal de 885 quilômetros que liga Manaus, capital do Amazonas, a Porto Velho, no extremo sul da floresta. Construída na década de 1970, durante a ditadura militar brasileira, e abandonada no final da década de 1980 devido à dificuldade de manutenção, a rodovia tornou-se o centro de um debate acirrado sobre o futuro da Amazônia. Ela corta uma das áreas mais intocadas da região. Os planos atuais do governo para reconstruí-la e asfaltá-la são apresentados como um impulso para o desenvolvimento regional e a conectividade com o restante do país, mas críticos alertam que a BR-319 pode acarretar consequências ambientais, sociais e de saúde de grande escala. Philip Fearnside, professor pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA),  explicou: “Pavimentar a rodovia BR-319 conectaria a Amazônia central, relativamente preservada, à região da AMACRO – um ponto crítico de desmatamento que recebeu o nome dos estados do Amazonas, Acre e Rondônia. Embora a AMACRO seja promovida como uma zona de desenvolvimento sustentável (ZDS), tornou-se um dos principais motores do desmatamento na floresta amazônica.”

Um líder indígena do povo Mura, da região do Lago Capanã Grande, compartilhou suas preocupações sobre o impacto da rodovia em sua aldeia. (Seu nome foi omitido para garantir sua segurança.) Ele  disse : “Gostaria de expressar minha indignação perante todos em relação ao impacto da rodovia BR-319 nas terras indígenas do Lago Capanã. Isso nos traz problemas, manipulação de direitos, violação de nossas áreas tradicionais, ocupação por grileiros, poluição de nossos rios, destruição de nossa natureza. E isso está causando grandes problemas no fluxo de nossos rios. Córregos estão sendo soterrados. Aqui, usamos a água do rio. O resultado dessa estrada será uma porta aberta para a entrada de criminosos, traficantes de drogas e todos os tipos de drogas, como já acontece. A população indígena vive de alimentos da natureza; a população indígena não vive da pecuária. Os povos indígenas vivem de seus objetos tradicionais. Eles vivem da subsistência da natureza e extraem da natureza para sua sobrevivência e para proteger sua própria natureza. Sou contra essa pavimentação.”

A reconstrução da rodovia BR-319 é ​​particularmente perigosa porque incentiva a expansão para além da via principal. Uma rede de estradas secundárias não autorizadas já se ramifica do corredor, abertas por madeireiros, mineradores e grileiros. Assim que a rodovia principal estiver totalmente transitável durante todo o ano, espera-se que essas estradas secundárias cresçam rapidamente em um padrão em “espinha de peixe”, penetrando cada vez mais fundo em florestas que permaneceram praticamente intocadas. Os planos oficiais também incluem rodovias estaduais como a AM-366, AM-360, AM-343 e AM-356, projetadas para conectar a BR-319 a áreas florestais remotas como a região de Trans-Purus, abrindo ainda mais áreas que até agora foram amplamente protegidas da atividade humana em larga escala. Comunidades indígenas e tradicionais estão na linha de frente dessas ameaças. Existem 69 territórios indígenas e dezoito mil indígenas ao longo do trajeto da rodovia. Essas comunidades não foram devidamente consultadas, em violação à Convenção 169 da OIT, que exige o consentimento livre, prévio e informado antes que projetos que afetem terras indígenas sejam iniciados. Para essas comunidades, a rodovia não é apenas um projeto de desenvolvimento: ela ameaça seus meios de subsistência, rios, florestas e sobrevivência cultural.

As consequências ambientais seriam enormes. A Amazônia armazena vastas quantidades de carbono e gera os fluxos de umidade conhecidos como “rios voadores”, que sustentam as chuvas em todo o Brasil e além. A construção de uma rodovia pavimentada e a abertura das estradas secundárias planejadas acelerariam o desmatamento, fragmentariam habitats e liberariam grandes quantidades de carbono, comprometendo a capacidade da floresta de funcionar como um ecossistema estável. Cientistas alertam que a infraestrutura combinada poderia levar a Amazônia a um ponto de inflexão climático irreversível.  Os riscos à saúde já são evidentes e provavelmente aumentarão. A fragmentação da floresta e o aumento da atividade humana ao longo da BR-319 têm sido associados ao aumento de casos de malária, enquanto doenças como a febre de Oropouche têm apresentado surtos na região. A expansão para habitats naturais anteriormente intocados aproxima humanos e animais, aumentando o risco de transmissões zoonóticas, quando patógenos passam de animais para humanos, e criando condições para potenciais novas pandemias. “O desmatamento na floresta amazônica e em outras regiões tropicais aumenta o risco de surgimento de novas doenças humanas, intensificando o contato entre a fauna silvestre da floresta e a população humana e seus animais domésticos. Também contribui para as mudanças climáticas, que podem criar condições favoráveis ​​ao surgimento de infecções parasitárias, fúngicas, virais e bacterianas”, explicou Fearnside.

A BR-319 também atrai o crime organizado, que já está em crescimento na região. A grilagem de terras, a extração ilegal de madeira e a mineração prosperam onde a fiscalização é fraca, e uma rodovia pavimentada com múltiplas estradas secundárias tornaria essas atividades mais fáceis e lucrativas. Em vez de trazer benefícios às comunidades locais, a rodovia corre o risco de disseminar deslocamentos populacionais, violência e destruição ambiental. As decisões tomadas em relação à BR-319 e sua rede de estradas secundárias moldarão não apenas o futuro da Amazônia, mas também a estabilidade climática, a biodiversidade e a saúde humana em todo o Brasil, América do Sul e no resto do planeta nas próximas décadas.

Biocombustíveis

O Brasil há muito se posiciona como pioneiro em biocombustíveis. O etanol de cana-de-açúcar e o biodiesel de soja são apresentados como alternativas de baixo carbono aos combustíveis fósseis. Mudanças recentes nas políticas públicas aceleraram a obrigatoriedade da mistura de combustíveis fósseis e incentivaram a produção, mas por trás dos slogans reside uma realidade complexa. O cultivo em larga escala de cana-de-açúcar, palma de óleo, soja e milho, culturas essenciais para a  produção de biocombustíveis , continua a se expandir para áreas ecologicamente sensíveis. Projetos rotulados como “verdes” ou “limpos” muitas vezes replicam a mesma lógica extrativista que definiu as ondas passadas de crescimento agrícola.

Jorge Ernesto Rodriguez Morales, professor e pesquisador do Departamento de História Econômica e Relações Internacionais da Universidade de Estocolmo,  alerta : “Apesar do seu sucesso, a indústria de biocombustíveis no Brasil se desenvolveu dentro de objetivos mais amplos de desenvolvimento e segurança territorial, muitas vezes exercendo pressão significativa sobre ecossistemas e comunidades em um ambiente institucional que geralmente negligenciava as preocupações socioambientais”. Ele acrescentou: “Essa coevolução insustentável de trajetórias de desenvolvimento e bioenergia – marcada pelo desmatamento, pela colonização de terras e pela expansão agrícola – limitou o espaço de adaptação na agricultura”.

Morales explicou que, assim como a produção de alimentos, o etanol requer terra, água e nutrientes, o que significa que uma expansão em larga escala poderia intensificar os efeitos colaterais negativos do crescimento agrícola. Esses efeitos incluem desafios socioambientais significativos relacionados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), como o desmatamento (ODS 15), as emissões de CO2 decorrentes da mudança no uso da terra (ODS 13), as perdas de nitrogênio (ODS 13, 14 e 15), a extração insustentável de água (ODS 14) e os riscos à segurança alimentar (ODS 2), entre outros. Nesse contexto, o boom dos biocombustíveis se assemelha menos a uma solução climática e mais a uma intensificação de conflitos fundiários de longa data e da pressão ecológica. Embora o Brasil produza bilhões de litros de etanol e biodiesel anualmente, a contabilização completa dos impactos climáticos, incluindo as emissões decorrentes da mudança no uso da terra e a intensidade energética do cultivo, mina a alegação de que os biocombustíveis são inerentemente “verdes”.

Créditos de carbono

Créditos de carbono florestais são promovidos para financiar a conservação, permitindo que as empresas compensem as emissões residuais. Projetos de carbono florestal, incluindo os esquemas REDD+ (Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal), multiplicaram-se na Amazônia. Em teoria, os créditos de carbono poderiam canalizar recursos para a proteção das florestas, criando incentivos econômicos para a manutenção da integridade ecológica. Na prática, a realidade muitas vezes fica aquém do esperado. Críticos argumentam que o sistema atual concede aos poluidores o que equivale a um passe livre para continuar emitindo, enquanto os direitos à terra, a governança e a fiscalização são negligenciados.

A ideia de que a compra  de créditos de carbono permite que uma empresa compense sua poluição enquanto as florestas globais permanecem intactas parece simplista, mas é contestada por acadêmicos, que revelam uma realidade muito mais complexa. Projetos que antes conquistaram reconhecimento internacional, como a iniciativa de conservação liderada pelos indígenas Suruí, ruíram sob a pressão da mineração ilegal e da expansão da pecuária, demonstrando que mesmo compensações bem elaboradas são vulneráveis ​​em ambientes legais e de fiscalização frágeis. Além disso, a permanência do carbono florestal é cada vez mais incerta em um mundo em aquecimento. Secas, incêndios e extração ilegal de madeira ameaçam a integridade dos estoques de carbono que sustentam os esquemas de compensação. Thales AP West, professor assistente titular do Instituto de Estudos Ambientais (IVM) da Universidade Livre de Amsterdã e uma das principais vozes entre os pesquisadores que analisam os mecanismos do mercado de carbono, alertou que, a menos que ocorra uma reforma sistêmica, a negociação de carbono continuará priorizando a conveniência em detrimento da integridade climática. Ele  afirmou : “A menos que haja uma mudança de atitude entre empresas, governos e organizações como a ONU, é provável que o mercado continue priorizando a conveniência em detrimento da integridade.”

Para as comunidades indígenas, os mercados de carbono também podem mercantilizar territórios há muito governados por relações culturais e espirituais. As florestas tornam-se unidades de medida e de comércio, enquanto as questões de direitos territoriais e poder permanecem sem solução.

Bioeconomia

O Brasil promove a  bioeconomia como um caminho para o crescimento sem desmatamento. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva descreveu um futuro em que a Amazônia se torna um centro de negócios sustentáveis, utilizando recursos renováveis ​​em vez de desmatar. Essa ideia se tornou um elemento-chave da estratégia climática do governo, atraindo grandes promessas de investimento e atenção internacional. Mas existe uma crescente discrepância entre o discurso otimista e a realidade. O termo “bioeconomia” tem sido usado para descrever tudo, desde pesquisa biotecnológica e mercados de carbono até grandes plantações de biocombustíveis e mineração, sem regras claras sobre proteção ambiental ou direitos das comunidades locais. Enquanto organizações como a Eco Invest Brasil captam bilhões para projetos “verdes”, críticos temem que a fragilidade das salvaguardas possa permitir que grandes empresas avancem sem a devida participação ou fiscalização local.

Ossi Ollinaho, professor da Universidade de Helsinque, alertou que a promessa de produtos verdes pode ser facilmente subvertida quando os incentivos econômicos ainda favorecem grandes monoculturas em detrimento da biodiversidade. Ele  advertiu : “A extensão desse conceito [de bioeconomia] à Amazônia e a contextos semelhantes de alta sociobiodiversidade acarreta o risco inerente de que ela acabe sendo transformada em celulose e vendida para obter lucro”. Em outras palavras, sem um planejamento cuidadoso, a bioeconomia pode acabar prejudicando as próprias florestas e comunidades que alega proteger.

Uma das questões é que o termo “bioeconomia” está sendo usado de forma ampla para abranger coisas muito diferentes. Colocar plantações industriais e produtos florestais de pequena escala na mesma categoria esconde o fato de que seus impactos são muito distintos. Culturas como soja, óleo de palma, milho e cana-de-açúcar, mesmo quando chamadas de “bioeconômicas”, ainda podem impulsionar mudanças no uso da terra, deslocar pequenos produtores e prejudicar a biodiversidade. O açaí é o exemplo mais conhecido. Antes um alimento básico local, agora é um produto global que vale mais de US$ 1 bilhão. Muitas vezes é usado como prova de que a bioeconomia funciona, mas a crescente demanda mudou a forma como é cultivado e colhido, remodelando partes da floresta e criando novas pressões sobre as pessoas que vivem ali há gerações. O que antes era visto como trabalho sustentável e comunitário agora faz parte de um sistema comercial maior que nem sempre beneficia aqueles que dependem da floresta.

Líderes indígenas e comunidades locais apontam que sempre viveram em harmonia com os recursos da floresta e dependeram deles. Castanha-do-pará, açaí e outros produtos fazem parte de suas economias há séculos. O que mudou foi a escala e o tipo de dinheiro externo que chega à região. Grandes iniciativas como a Amazônia 4.0, promovidas como caminhos de alta tecnologia para uma bioeconomia moderna, correm o risco de repetir os mesmos padrões de extração e desigualdade que há muito caracterizam a região.

Sem direitos fundiários seguros e poder de decisão para as populações locais, existe um temor real de biopirataria: empresas utilizando conhecimentos tradicionais e recursos genéticos sem justa compensação. O Brasil tem a oportunidade de modelar um tipo de crescimento econômico que realmente apoie tanto as pessoas quanto a natureza. Mas se as políticas permanecerem vagas e as salvaguardas forem frágeis, a bioeconomia poderá acabar sendo pouco mais do que um novo rótulo para padrões de extração já conhecidos. 

Petróleo e gás

Embora o Brasil se posicione como líder climático no cenário global, o país continua expandindo a exploração de petróleo e gás em um ritmo alarmante. Em junho de 2025, pouco antes da COP30, a Agência Nacional do Petróleo e Gás Natural (ANP) anunciou um leilão para direitos de exploração de 172 blocos de petróleo e gás, a maioria em alto-mar, incluindo 47 blocos na bacia amazônica. Essa medida evidencia uma crescente tensão entre os compromissos climáticos e o desenvolvimento contínuo de combustíveis fósseis. A Petrobras já perfura poços na margem equatorial da Amazônia, a apenas 500 km do rio Amazonas. Trata-se de um ecossistema extremamente sensível, lar de recifes de coral e manguezais. Já foram relatados vazamentos de petróleo na região. 

Segundo a Amazônia Real, a exploração planejada na foz do rio ameaça afetar diretamente diversas comunidades indígenas no estado do Amapá. Entre as mais vulneráveis ​​estão os povos Karipuna, Palikur-Arukwayene, Galibi Marworno e Galibi Kali’na, que vivem em três territórios indígenas oficialmente reconhecidos: Uaçá, Juminã e Galibi. Juntos, esses territórios abrangem aproximadamente 518.454 hectares e abrigam cerca de 13.000 pessoas em 56 aldeias, uma região que depende fortemente da floresta e dos cursos d’água para sobreviver.

Mais a oeste, na Amazônia, a Rosneft, empresa estatal russa de petróleo e gás, detém direitos de perfuração em vários blocos na bacia sedimentar do Solimões, perto do rio Purus, trajeto da futura rodovia BR-319. Essa área remota e em grande parte intacta da floresta tropical permanece notavelmente preservada, com ecossistemas e comunidades locais altamente dependentes das terras e rios circundantes. As preocupações ambientais são urgentes, pois novas estradas e infraestrutura podem abrir essas áreas isoladas para atividades industriais, pressionando a floresta por meio do desmatamento, da fragmentação do habitat e da extração de combustíveis fósseis em uma das regiões ecologicamente mais sensíveis da Amazônia.

Em 2025, o Brasil avançou ainda mais na expansão da produção de combustíveis fósseis, com uma produção diária de petróleo e gás natural de pouco menos de 4,9 milhões de barris de óleo equivalente, representando um aumento de 13,3% em relação ao ano anterior. A produção de petróleo, por si só, responde por cerca de 3,7 milhões de barris por dia, dos quais mais da metade é exportada, vinculando a expansão brasileira diretamente à demanda global de energia. As consequências são claras e urgentes. O aumento  da produção de combustíveis fósseis eleva as emissões, intensificando os impactos climáticos já visíveis por meio de tempestades mais fortes, ondas de calor, inundações e perda de ecossistemas. Cada atraso na redução da dependência de combustíveis fósseis agrava os riscos futuros, e a janela para evitar os desfechos mais catastróficos está se fechando rapidamente.

Energia hidrelétrica

A energia hidrelétrica fornece mais de 50% da eletricidade do Brasil e é frequentemente celebrada como uma conquista nacional. Grandes barragens são promovidas como uma fonte de energia limpa, mas os custos sociais e ecológicos contam uma história muito mais dura. Em toda a bacia amazônica,  barragens inundaram vastas áreas de floresta, deslocaram milhares de comunidades indígenas e ribeirinhas e interromperam o fluxo dos rios dos quais essas comunidades dependem para obter alimentos como peixes. Elas desencadearam desmatamento e poluição generalizados e, ironicamente, contribuíram para as emissões de gases de efeito estufa, incluindo metano e dióxido de carbono. A chegada de trabalhadores aos canteiros de obras das barragens muitas vezes impulsiona a urbanização acelerada, sobrecarregando a infraestrutura local e alimentando o aumento da violência, da criminalidade e dos problemas de saúde física e mental. Os efeitos deixam cicatrizes profundas e duradouras em comunidades que já lutam para sobreviver.

Um exemplo marcante é o  complexo hidrelétrico de Belo Monte, no estado do Pará. Sua construção deslocou à força cerca de 40 mil pessoas, incluindo comunidades ribeirinhas e um quarto da população de Altamira, realocando-as para assentamentos remotos na periferia da cidade. Igor Cavallini Johansen, professor do Departamento de Demografia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), explicou: “Precisamos lidar com as persistentes desigualdades criadas pelas grandes barragens hidrelétricas – tanto na região de Altamira quanto em toda a bacia amazônica. Esse legado de desenvolvimento desigual, em que as comunidades locais arcam com os custos ambientais e sociais enquanto centros urbanos distantes colhem os benefícios energéticos, exige uma reparação urgente.”

Para Maria Francineide Ferreira dos Santos, Belo Monte levou mais do que sua casa. Levou seu paraíso. Morando em Paratizinho, ela se manifestou contra a destruição, apenas para ser forçada a ir para a cidade. Mesmo assim, ela nunca parou de lutar. Hoje, ela vive na Volta Grande do Xingu, não apenas como sobrevivente, mas como uma ferrenha protetora do rio e de seu povo. Ela  disse : “Todos os impactos que sofremos são irreparáveis. O primeiro impacto foi o maior crime que Belo Monte cometeu no Xingu, a morte dos peixes e o deslocamento de seu povo, que nasceu e cresceu nesta região, que vivia nas ilhas, sem direitos, sem ser ouvido, sem respeito, tendo suas casas arrancadas e queimadas, violando nossos direitos.”

Outro impacto foi ver nosso povo, que não entendia nada, perder suas casas, sendo transferido para a cidade onde os preços dos terrenos eram exorbitantes, sem nos dar as condições para sobreviver. O governo faz o que quer. Esta tem sido uma luta perdida. Nenhuma justiça foi feita.” Rodolfo Salm, ecologista, ativista e professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), que mora em Altamira, descreveu as consequências mais amplas do projeto: “O projeto hidrelétrico de Belo Monte é um claro exemplo de fracasso ambiental, social e econômico. Longe de trazer prosperidade, o projeto deixou a região economicamente fragilizada e ambientalmente danificada. A produção de energia em Belo Monte é instável, com o Rio Xingu apresentando níveis muito baixos durante a maior parte do ano, uma falha que já era conhecida antes mesmo do início da construção.”

Johansen destacou os danos irreversíveis causados ​​por barragens hidrelétricas em áreas de alta biodiversidade como a Amazônia: “Em primeiro lugar, esses projetos causam danos ecológicos irreversíveis – inundando vastas áreas de floresta tropical intocada, destruindo habitats únicos e potencialmente levando à extinção de espécies. Igualmente preocupante é o padrão consistente de violações dos direitos humanos. Comunidades indígenas e tradicionais enfrentam repetidamente o deslocamento sem consulta adequada ou compensação justa, como demonstrado de forma contundente pelo projeto Belo Monte. O cálculo climático para barragens tropicais também se mostrou falho. Em vez de serem soluções de energia limpa, seus reservatórios se tornam fábricas de metano à medida que a vegetação submersa se decompõe. Isso questiona a própria lógica de priorizar a energia hidrelétrica em regiões de floresta tropical. Talvez a lição mais crucial seja que não podemos mais justificar o sacrifício da riqueza ecológica e cultural da Amazônia por ganhos energéticos questionáveis. As evidências mostram claramente que, em áreas de alta biodiversidade, os custos de grandes barragens quase sempre superam os benefícios – uma realidade que exige uma mudança fundamental na política energética.” Apesar disso, as propostas para novas barragens continuam, frequentemente defendidas como essenciais para a segurança energética e o desenvolvimento industrial.

O campo de batalha legislativo

A expansão da infraestrutura e do agronegócio cresce nas regiões da Amazônia e do Cerrado, em paralelo a  propostas legislativas controversas . O controverso  Marco Temporal , um argumento jurídico que afirma que os povos indígenas têm direito apenas às terras que ocupavam fisicamente em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição brasileira, tem sido alvo de intenso debate. Organizações indígenas argumentam que isso ignora os deslocamentos forçados ocorridos durante a ditadura e períodos anteriores. Essa lei poderia prejudicar as reivindicações de territórios não formalmente demarcados até 1988, abrindo-os para exploração. Os territórios indígenas permanecem entre as barreiras mais eficazes contra o desmatamento e a degradação florestal. Estudos demonstram consistentemente menores taxas de perda florestal dentro de terras indígenas demarcadas em comparação com as áreas circundantes.

Enquanto isso, a Lei de Devastação (15.190/2025), que entrou em vigor em fevereiro deste ano, introduz um sistema de autolicenciamento. As empresas agora podem obter licenças ambientais preenchendo formulários online, dispensando os estudos de impacto ambiental. Anteriormente, o licenciamento podia levar de cinco a sete anos, mas agora pode ser concluído em apenas 12 meses. Isso facilitará projetos de infraestrutura de grande escala, como a reconstrução da rodovia BR-319, mineração, petróleo e gás e barragens. Essa lei também isenta de licenciamento 13 categorias de atividades, que vão desde a manutenção de estradas até o agronegócio. Especialistas em direito ambiental alertam que o enfraquecimento do licenciamento em um momento de expansão da infraestrutura pode exacerbar o desmatamento e a degradação, além de aumentar a poluição e os conflitos sociais. É fundamental destacar que pelo menos 40% das terras indígenas reconhecidas pelo Estado brasileiro estarão expostas ao desenvolvimento industrial, ao desmatamento e à mineração ilegal.

Para piorar a situação, a Moratória da Soja na Amazônia (MSA), de 2006, que impediu empresas de comprarem soja cultivada em áreas recém-desmatadas da Amazônia, está sendo enfraquecida à medida que as principais associações do setor de soja no Brasil, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (ABIOVE) e a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (ANEC), retiram seu apoio à medida. Essas associações representam grandes empresas globais do setor, como Cargill, Bunge, ADM, Louis Dreyfus e COFCO, cujas decisões de compra influenciam fortemente a proteção das florestas. Grupos ambientalistas alertam que, se o acordo ruir, poderá levar a mais desmatamento e violação dos direitos indígenas, enquanto alguns supermercados do Reino Unido e da Europa, incluindo Tesco, Sainsbury’s, Asda, Lidl, Audi, Ocado e Waitrose, pressionam as empresas a manterem regras rígidas de fornecimento sem desmatamento.

Ação coletiva

O Brasil se encontra em um momento decisivo. De um lado, promessas de acabar com o desmatamento ilegal, de proteger o que resta da floresta, de agir em nome do clima. Do outro, poderosos interesses pressionam por mais gado, mais soja, mais mineração, mais estradas que cortam terras ancestrais. A linguagem da proteção é forte, mas a máquina da expansão é ainda mais. O que acontece em Brasília não ficará em Brasília. A fumaça que sobe da Amazônia não para nas fronteiras nacionais: torna-se parte do mesmo ar que todos respiramos. A pressão para desmatar não começa com uma motosserra: começa com a demanda global. O bife servido em Xangai, a soja usada para alimentar o gado na Europa, os minerais dentro dos celulares na Califórnia, a madeira usada para construir hotéis de luxo nos EUA, tudo está ligado de alguma forma ao que acontece nessas florestas. Empréstimos assinados em centros financeiros distantes da orla da floresta. Podemos viver a milhares de quilômetros de distância, mas nossas economias e nosso consumo estão intimamente ligados ao mesmo tecido. A floresta não está caindo isoladamente. Está sendo desmantelado por um sistema global que recompensa a extração e chama isso de progresso. Mas essa história ainda não terminou.

Existem escolhas que poderiam desviar a trajetória da destruição. Proteções mais rigorosas para a soja, compromissos reais de desmatamento zero que signifiquem algo na prática, e não apenas no papel. Projetos de infraestrutura recusados ​​quando ameaçam florestas intactas, leis ambientais aplicadas com a devida seriedade, porque de fato importam. Territórios indígenas reconhecidos e protegidos, não atrasados ​​ou contestados. Inúmeras vezes, as evidências mostram que onde os povos indígenas têm direitos territoriais seguros, a floresta permanece. Mas nem mesmo as melhores políticas nacionais, sozinhas, conseguirão deter o aquecimento global. A menos que o uso de combustíveis fósseis diminua drasticamente e rapidamente, a seca e os incêndios se intensificarão, e a Amazônia e o Cerrado secarão de dentro para fora. Há um ponto de inflexão além do qual a floresta não poderá se recuperar e, uma vez ultrapassado, nenhuma promessa ou cúpula a trará de volta.

A Amazônia e o Cerrado não são “recursos”. São sistemas vivos e pulsantes, vastas comunidades de água, solo, plantas, animais e pessoas, interligadas de maneiras que só agora começamos a compreender. Armazenam carbono, sim, mas também guardam histórias, línguas, remédios, canções. Regulam as chuvas que alimentam as plantações em toda a América do Sul, refrescam um planeta que está em crise. Protegê-los exige mais do que discursos eloquentes. Exige coragem política, ciência que seja ouvida e um profundo respeito pelas comunidades indígenas e tradicionais que defendem essas terras há gerações, muitas vezes correndo grandes riscos pessoais. Exige confrontar a incômoda verdade de que a expansão econômica desenfreada em um planeta finito é uma contradição.

Se falharmos, as consequências serão sentidas em colheitas perdidas e aumento dos preços dos alimentos, na escassez de água, em migrações forçadas, em conflitos por recursos cada vez mais escassos, em culturas e espécies perdidas para sempre. O desmantelamento desses ecossistemas não seria uma tragédia apenas do Brasil. Seria um acerto de contas global. No fim das contas, a Amazônia e o Cerrado são mais do que debates políticos ou slogans de campanha: são uma medida de quem escolhemos ser. Continuaremos trilhando um caminho onde o lucro a curto prazo se sobrepõe aos direitos humanos e à sanidade ecológica? Ou trilharemos um caminho diferente, moldado pela cooperação, justiça e humildade perante o mundo vivo? A janela está se fechando. As decisões tomadas agora reverberarão por gerações. E um dia, a história perguntará se defendemos a floresta quando ainda tínhamos a chance, ou se assistimos à sua queima e a consideramos inevitável.

 

Monica é uma jornalista brasileira-britânica e membro do Sindicato Nacional dos Jornalistas. Ela contribui regularmente para  o The Ecologist e publica no Substack, Medium e em sua própria plataforma,  YourVoiz.org .


Fonte: The Ecologist

Belo Monte e o que vi, o que ficou, o que ainda ameaça correr

Imagens de algumas reportagens que fiz sobre Altamira e Belo Monte

Por Ismael Machado* 

Ando revendo, até por conta desse novo espaço criado, algumas das histórias que relatei nesses 35 anos de trajetória profissional. Algumas coisas testemunhadas nessa Amazônia repleta de complexidades. Belo Monte, por exemplo. Durante cerca de seis anos, entre idas e vindas à região do Rio Xingu, por volta de 2008 a 2013, acompanhei, como repórter, a construção do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte. Não foi uma cobertura contínua, mas uma sequência de retornos — e isso fez diferença. Porque, a cada viagem feita, o que antes era anúncio de desmazelos começava a ganhar forma concreta e o que era dúvida passava a ter consequência direta entre a população local.

O que mais ficou dessas viagens não foram os números do empreendimento, sempre grandiloquentes, mas as vozes de quem seria diretamente afetado por essa obra sonhada desde o regime militar e levada a cabo definitivamente na gestão federal do PT.

Rememoro essas vozes pouco ouvidas. Celso Albertino da Silva, morador de um travessão da Transamazônica, dizia que não se prende um rio como se prende um boi. Não havia ironia na frase. Era uma leitura direta de quem conhecia o comportamento da água. Ele explicava que, ao desviar o curso, o rio encontraria outro caminho. O lugar onde vivia, segundo o projeto, se transformaria numa espécie de cuia — as partes altas permanecendo, o resto submerso.

Em Paratizão, Émerson Nascimento Pessoa não falava de engenharia nem de impacto ambiental. Falava de permanência. “Não tenho vontade de sair daqui.” Tinha três filhos pequenos e uma casa à beira do rio. Ao lado, Silmara Mendes Costa, a Caçulinha, dizia o que talvez fosse mais preciso: sair dali seria uma tristeza. Não havia cálculo nisso.

Os pais de Émerson já tinham ido embora. Deslocados não para outro projeto de vida, mas para não assistir ao que consideravam inevitável. “Saíram antes pra não ver isso aqui perdido”, constatava Émerson. Em vários pontos do Xingu, a decisão de sair antecipadamente aparecia como forma de evitar o testemunho da própria perda.

Mais acima, em Arroz Cru, Francélia Nogueira da Costa insistia numa pergunta que se repetia em diferentes comunidades: o que significava, de fato, a tal “indenização”? Falava-se em assegurar isso às famílias, mas sem clareza sobre como se traduziria na vida concreta de quem sempre viveu da roça e da pesca. Nunca esqueci um casal formado por uma bióloga e um técnico agrícola lá no meio de uma propriedade num travessão da Transamazônica. No meio do almoço que ela fez questão de preparar a mim, ao motorista e ao repórter fotográfico, me endereçou essa resposta quando questionei sobre a indenização da pequena propriedade agroflorestal que eles mantinham há uns dez anos. “Quanto custa o nosso sonho? Qual o valor monetário dele?”. Essa fala me acompanha sempre quando alguma discussão nesse sentido entra em pauta em rodas de conversa.

Ao mesmo tempo, a ativista Antônia Melo denunciava a forma como as negociações eram conduzidas — fragmentadas, diretas, com promessas que circulavam de maneira desigual entre comunidades. Para ela, havia um esforço claro de dissolver resistências.

Na Prelazia do Xingu, Dom Erwin Krautler dizia que o ponto decisivo era impedir a primeira barragem. A leitura era simples: uma vez iniciada, a lógica do empreendimento seguiria adiante.

Enquanto essas falas se acumulavam, Altamira mudava rapidamente.

A cidade recebia trabalhadores, o comércio se movimentava, a promessa de crescimento ganhava corpo. Mas a estrutura não acompanhava. Ali por volta de 2013, o Hospital Municipal São Rafael passou de cerca de 200 atendimentos diários para uma média de 500 em poucos meses. Filas se formavam onde antes havia margem.

Lembro de Elismar Carvalho, dona de hotel, percorrendo hospitais em busca de atendimento e não conseguindo, mesmo com plano de saúde. O relato se repetia em diferentes versões. A cidade crescia mais rápido do que conseguia absorver esse crescimento.

O aumento populacional trouxe também pressão sobre segurança, educação, serviços básicos. A própria Associação Comercial de Altamira, inicialmente favorável à obra, passou a falar em cobranças, em acordos não cumpridos, em falta de planejamento.

No rio, as mudanças começavam a aparecer antes mesmo da conclusão da usina.

 

Na Volta Grande do Xingu, Manoel Juruna dizia não haver compensação possível para a destruição do modo de vida. A preocupação com a redução da água e com a pesca era constante. E não era apenas projeção.

Entre ribeirinhos, a incerteza e o medo eram regras.

Manoel Neves de Araújo sabia que a decisão não passava por ele. “Não é com muita vontade que a gente vai sair daqui.” Albino Pessoa dos Santos, o Fininho, também estava cadastrado para indenização, mas deixava claro: preferia não sair. Manoel Matos da Cruz e Laura de Souza, já idosos, sequer sabiam para onde iriam.

As perguntas estavam todas colocadas ali. Mas as respostas, como na canção de Bob Dylan, ficavam soprando no ar.

Hoje, passados anos da entrada em operação de Belo Monte, é possível olhar para trás e perceber que muitas dessas questões não foram resolvidas, apenas arquivadas no tempo.

A Volta Grande do Xingu convive com redução significativa de vazão em determinados períodos. A pesca, base alimentar e econômica de comunidades indígenas e ribeirinhas, foi profundamente afetada. Espécies diminuíram, rotas migratórias foram alteradas, e a regularidade que organizava a vida ao redor do rio deixou de existir como antes.

Os reassentamentos urbanos, apresentados como solução, trouxeram novos problemas. Muitas famílias deslocadas passaram a viver em áreas com infraestrutura padronizada, distante do rio e das atividades que garantiam sua subsistência. O custo de vida aumentou, a dependência de renda monetária se intensificou, e a promessa de melhoria não se realizou de forma homogênea.

Em Altamira, o ciclo da obra deixou marcas conhecidas. O crescimento acelerado durante a construção, seguido por retração econômica. Parte dos empregos desapareceu com o fim das obras. A pressão sobre serviços públicos não recuou na mesma proporção.

No campo energético, a usina opera, mas as limitações apontadas ainda durante a construção permanecem relevantes. A dependência do regime de chuvas do Xingu faz com que a geração efetiva varie bastante ao longo do ano, distante da potência instalada anunciada.

A energia produzida segue majoritariamente destinada a setores industriais de grande consumo. A relação direta entre o impacto local e o benefício para a população da região continua sendo uma questão aberta.

Nada disso é exatamente novo. Estava, de alguma forma, anunciado nas falas recolhidas ao longo daqueles anos. O que mudou foi o tempo, pois o que era previsão tornou-se condição. E é a partir dessa condição que se projeta o que vem pela frente.

Belo Monte nunca foi um caso isolado. Ela se insere numa lógica mais ampla de ocupação e uso dos rios amazônicos como base para grandes projetos energéticos. Outros rios da região — como o Rio Tapajós, o Rio Madeira e o Rio Tocantins — já foram ou continuam sendo, alvo de propostas semelhantes, em diferentes estágios.

A experiência do Xingu funciona, nesse sentido, como referência concreta.

Ela mostra que os impactos não se encerram com a conclusão da obra. O deslocamento nunca é apenas geográfico. E as compensações financeiras não substituem modos de vida. O que se percebeu é que sistemas urbanos locais dificilmente acompanham o ritmo imposto por grandes empreendimentos. E que os efeitos ambientais se estendem no tempo, muitas vezes de forma irreversível.

Há uma dimensão de Belo Monte não medida em megawatts, cronogramas ou cifras bilionárias. Ela aparece como lembrança incômoda nos alertas que, ainda no período de implantação da usina, foram feitos por pesquisadores, lideranças locais e órgãos públicos, muitos deles ignorados ou relativizados no calor da decisão política.

“Não há na história nenhum registro de construção de barragem que não tenha gerado consequências sérias e irreversíveis para as populações locais”, advertia a antropóloga Sônia Magalhães. Sua afirmação não era retórica. Ela sintetizava um conjunto de incertezas que, à época, cercavam o projeto, sobretudo pela ausência de estudos aprofundados em áreas consideradas sensíveis.

Do ponto de vista ecológico, os dados disponíveis já indicavam um cenário de excepcionalidade. Um estudo conduzido pelo biólogo Hermes Ferreira apontava que a diversidade de peixes na área diretamente afetada pela barragem superava a de todo o continente europeu. Tratava-se de um ecossistema singular, moldado por barreiras naturais como as cachoeiras da Volta Grande do Xingu, que funcionavam como zonas de isolamento e evolução de espécies. Ainda assim, como reconheciam os próprios especialistas, era uma área insuficientemente estudada, o que ampliava o grau de risco. “De qualquer perspectiva que se olhe, social ou ambiental, não se sabe o custo de Belo Monte”, resumia Sônia Magalhães.

Enquanto isso, o consórcio responsável pela obra, a Norte Energia, um grupo formado por diversas empresas estatais e privadas envolvidas na construção de Belo Monte, sustentava que os impactos estavam sendo mitigados dentro do previsto. Em notas oficiais, destacava investimentos em infraestrutura urbana, como a ampliação do saneamento básico em Altamira — onde, até então, apenas 18% da população tinha acesso à água tratada e não havia rede de esgoto estruturada. A empresa também citava ações vinculadas ao Projeto Básico Ambiental (PBA) e ao Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável do Xingu (PDRS-X), que prometia destinar centenas de milhões de reais à região.

Essa narrativa institucional, no entanto, convivia com uma realidade mais desordenada no território. O avanço das obras trouxe consigo um crescimento populacional acelerado, pressões sobre serviços públicos e transformações sociais abruptas. Próximo aos canteiros, surgiam estruturas improvisadas que evidenciavam esse novo contexto — como a chamada “Boate Xingu”, instalada à margem da floresta, símbolo de uma economia paralela que acompanha grandes empreendimentos. Nossa equipe retornava de uma aldeia quando deparamos com essa ‘boate’ armada à margem da floresta, anunciando ‘modelos’ vindas de São Paulo para a inauguração. Mais ‘Bye Bye Brasil’ impossível.

Para as populações diretamente afetadas, o futuro aparecia como uma violenta ruptura. Povos indígenas da Volta Grande do Xingu temiam a redução drástica da vazão do rio, com impactos diretos sobre a pesca, a navegação e os modos de vida tradicionais. “Tampando o rio, como é que nós vamos ficar?”, questionava José Arara, liderança indígena, ao apontar o leito pedregoso que poderia secar. Entre os Juruna da aldeia Paquiçamba, a desconfiança em relação às compensações oferecidas era evidente. “Prometeram muito e cumpriram pouco”, dizia o cacique Manoel Juruna, reforçando a percepção de que não havia equivalência possível entre indenização financeira e perda territorial.

Entre ribeirinhos, o dilema assumia outra forma com o deslocamento compulsório. Comunidades inteiras seriam inundadas, e a indenização oferecida não garantia a reconstrução das condições de vida. “Poder é poder”, resumia Manoel Neves de Araújo, morador do Paratizinho, ao expressar a sensação de impotência diante da obra.

No campo jurídico, as controvérsias eram igualmente intensas. A Advocacia-Geral da União buscava no Supremo Tribunal Federal reverter decisões que haviam suspendido as obras, enquanto a Procuradoria-Geral da República sustentava que não havia base para tal intervenção. No centro da disputa estava um ponto crucial: o direito à consulta prévia, livre e informada dos povos indígenas, conforme previsto na Convenção 169 da OIT. Para o Ministério Público, consultas realizadas após decisões já tomadas eram “mera forma sem substância”, incompatíveis com o princípio da autodeterminação.

As críticas não se restringiam ao campo social ou jurídico. Especialistas em energia também questionavam a lógica econômica do empreendimento. O pesquisador Célio Bermann argumentava que Belo Monte não se justificava pela eficiência energética, mas pelo volume de recursos mobilizados durante sua construção. Segundo ele, a rentabilidade para grandes empreiteiras estava concentrada na execução da obra, não na geração de energia em si.

Os números reforçavam a desconfiança. O custo estimado do projeto saltou de R$ 4,5 bilhões, em 2006, para mais de R$ 26 bilhões — com projeções que ultrapassavam R$ 30 bilhões. Ao mesmo tempo, estudos indicavam que a usina operaria em plena capacidade por apenas alguns meses ao ano, devido ao regime hidrológico do rio Xingu. Durante a estiagem, a produção poderia cair a cerca de um décimo da capacidade instalada.

No campo ambiental, os riscos eram descritos com precisão técnica. Relatórios apontavam para a possibilidade de eutrofização dos reservatórios, com impactos na qualidade da água e na saúde pública. A eutrofização, para os menos afeitos a termos tão técnicos, é o enriquecimento excessivo de nutrientes (especialmente nitrogênio e fósforo em corpos d’água), causando o crescimento descontrolado de algas e cianobactérias. Esse processo, geralmente provocado por esgoto ou fertilizantes, reduz o oxigênio da água, causando a morte de peixes e a degradação do ecossistema.

A redução de até 80% da vazão na Volta Grande do Xingu ameaçava extinguir espécies endêmicas, enquanto a perda de igarapés, fundamentais para a reprodução de peixes, poderia comprometer mais da metade das espécies aquáticas da região. Era um cenário apocalíptico que lentamente foi se desenhando real.

Os próprios técnicos do IBAMA reconheciam limitações nos estudos de impacto ambiental. Em parecer interno, admitiam que análises não haviam sido concluídas com a profundidade necessária, especialmente em relação às populações indígenas e aos efeitos do crescimento populacional. Havia, segundo o documento, um “grau de incerteza elevado” em aspectos essenciais, como a qualidade da água.

Paralelamente, indicadores já mostravam efeitos indiretos do empreendimento. Dados do Imazon apontavam que Altamira liderava o desmatamento na Amazônia naquele período, um sinal claro da pressão territorial associada à obra.

É bom enfatizar, fazendo um extenso parêntesis, que desde pelo menos 2021, vários estudos científicos e análises de indicadores socioambientais mostram que os municípios da Amazônia (e do Brasil como um todo) que mais desmatam tendem a apresentar piores indicadores de qualidade de vida, desenvolvimento social e renda do que aqueles com menor desmatamento. Pesquisas baseadas no Índice de Progresso Social (IPS) — um indicador internacional que considera aspectos como moradia, acesso à educação, inclusão social e bem-estar — revelam que, na Amazônia Legal, os municípios com maiores áreas de floresta derrubada têm pontuações médias significativamente mais baixas no IPS do que tanto a média do Brasil quanto a média regional. Esse padrão sugere que o modelo de desenvolvimento baseado na remoção da floresta não tem trazido melhorias substanciais nas condições de vida das populações locais e pode estar associado à pobreza, exclusão social e baixo progresso social.

Um exemplo emblemático dessa relação é o caso de Altamira, tema principal desse texto, que por muitos anos foi apontado como um dos municípios brasileiros com maiores áreas desmatadas na Amazônia. A intensa pressão sobre a floresta local, historicamente impulsionada por atividades como pecuária e agricultura de corte e queima, se refletiu em desafios sociais e econômicos persistentes e em indicadores de progresso social abaixo da média nacional, conforme levantamentos do Imazon e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O legado de desmatamento intenso ilustra como a simples remoção de floresta dificilmente se traduz em qualidade de vida mais elevada ou desenvolvimento sustentável para as comunidades amazônicas.

E retorno a Belo Monte. O conjunto desses elementos compunha, já naquele momento, um quadro de alertas consistentes. Ainda assim, a resposta institucional frequentemente se apoiava na promessa de que falhas seriam corrigidas em projetos futuros. Como admitiu o então ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, havia problemas no processo, mas a expectativa era de que “o próximo seria diferente”.

Na Amazônia, essa lógica recorrente — de reconhecer erros apenas depois de consumados — revela uma constante histórica. Decisões estruturais são tomadas sob incerteza, enquanto os custos sociais e ambientais se tornam evidentes apenas no decorrer do tempo. Belo Monte, naquele contexto, já carregava todos os sinais de um projeto cujo impacto ultrapassaria, em muito, as previsões oficiais.

Celso Albertino, do alto de sua experiência ribeirinha, dizia que a água não se segura.

O que se tentou fazer em Belo Monte foi reorganizar o curso do rio dentro de um desenho técnico. O resultado não foi um rio contido, mas um sistema em permanente ajuste, com consequências distribuídas ao longo dos anos.

O Rio Xingu continua correndo.

E sofrendo novas ameaças. De algo que também já havia sido alertado anos atrás. A exploração de ouro, minério detectado quando da construção de Belo Monte.

E voltamos ao mesmo ciclo, já que a tentativa da mineradora canadense Belo Sun Mining Corp. de instalar o projeto Volta Grande, destinado à exploração de ouro na região de Altamira e de Senador José Porfírio, recoloca a Volta Grande do Xingu no centro de uma nova disputa socioambiental. Após idas e vindas judiciais, decisões recentes restabeleceram etapas do licenciamento do empreendimento, permitindo que a empresa avance no processo de instalação da mina. No entanto, a controvérsia está longe de encerrada. O Ministério Público Federal, organizações da sociedade civil e lideranças indígenas seguem questionando a validade dos estudos ambientais apresentados e, sobretudo, a ausência de consulta prévia, livre e informada às populações potencialmente afetadas, algo que, vale repetir, é um direito assegurado pela Convenção 169 da OIT e pela Constituição brasileira.

A proposta da Belo Sun prevê a implantação de uma das maiores minas de ouro a céu aberto do país justamente em uma área já profundamente impactada pela Usina de Belo Monte. A instalação de uma mineração em larga escala, com uso de substâncias químicas como cianeto no processamento do minério, amplia o risco de contaminação da água, do solo e da cadeia alimentar. Para povos que já enfrentam a diminuição da pesca e mudanças no regime do rio, a perspectiva de mais um grande empreendimento representa a sobreposição de impactos em um território fragilizado. O histórico amazônico mostra que a promessa de desenvolvimento raramente se traduz em melhoria estrutural da qualidade de vida da maioria da população local. Insisto nessa tecla, pois como repórter sempre ouvi a frase chantagista ‘ou é isso ou determinado município vai estagnar na miséria eterna’. Sempre foi uma coisa ou outra, no discurso de quem defende sempre os avanços em prol da palavra da moda (progresso, desenvolvimento etc).

A situação em Altamira evidencia, portanto, uma encruzilhada. De um lado, a lógica capitalista de expansão mineral como vetor de crescimento econômico; de outro, a defesa de direitos territoriais, da integridade ecológica e da precaução em uma região já marcada por desequilíbrios produzidos por Belo Monte. A insistência em avançar com um novo megaprojeto na Volta Grande do Xingu, sem que as incertezas acumuladas tenham sido plenamente enfrentadas, reforça a percepção de que a Amazônia continua sendo tratada como fronteira de exploração, e não como território de direitos.

É um filme gasto e repetido. Nas telas outrora verdes hoje cor de terra seca, um bangue-bangue estrelado por John Wayne onde infelizmente os vilões nunca são punidos ao final.

 

Postagem em protesto contra a exploração de ouro pela Belo Sun.


*Ismael Machado é jornalista

Belo Monte: renovação de licença sem mudanças na sua governança é assinar catástrofe, alertam especialistas

BM Bori

O desvio de água do rio Xingu pela usina de Belo Monte (PA) deixou a região de Volta Grande com menos de 30% de sua vazão natural anual

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Optar pela renovação da licença da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, vencida em 2021, sem mudanças expressivas na governança e operação das barragens seria o semelhante a assinar pela continuidade de uma catástrofe ambiental e humana na região. O alerta, publicado em artigo de perspectiva na revista científica “Perspectives in Ecology and Conservation” na sexta (24), é de pesquisadores de dez instituições, entre elas, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a Universidade Federal do Pará (UFPA), a Universidade de São Paulo (USP), o Instituto Socioambiental (ISA) e o Ministério Público Federal (MPF) de Altamira, no Pará.

Além de sugerir mudanças na governança de Belo Monte, os especialistas defendem que hidrelétricas com 10 MW ou mais de capacidade instalada não devem mais ser construídas na região amazônica.

O trabalho contextualiza os impactos da usina hidrelétrica de Belo Monte, que fica próxima ao município de Altamira (PA), com dados da literatura científica e de ações do MPF. Desde a inauguração da última das 18 turbinas, em 2019, a hidrelétrica desvia água do rio Xingu através de um canal que deixou um trecho de 130 quilômetros de uma região do rio, conhecida como Volta Grande, com menos de 30% de sua vazão natural anual. Isso, segundo a análise, evita a inundação em determinada época do ano de 86% da área total originalmente coberta por igapós, um tipo de vegetação sazonalmente inundada.

Dentre as consequências desse desvio, relatadas pelos especialistas, está o declínio da reprodução dos peixes e quelônios da região, diminuindo rendimentos pesqueiros, perda de vegetação adaptada às cheias e aumento do risco de extinção de espécies endêmicas, além de mudanças nos padrões de sedimentação do rio que afetam a qualidade da água. Estima-se, também, que esse processo causou impactos sociais, com o deslocamento de cerca de 40 mil pessoas para assentamentos urbanos na periferia da cidade de Altamira, segundo dados do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

O biólogo Philip Fearnside, pesquisador titular do INPA e coautor do texto, comenta que outro problema urgente é a ameaça à segurança alimentar de três grupos indígenas e diversas populações ribeirinhas que habitam a Volta Grande. “Essas comunidades dependem dos peixes e quelônios para sua alimentação, além de serem grupos evoluídos culturalmente para viver com o ritmo do rio. A água é o recurso-rei desses povos e isso está sendo perdido”, enfatiza.

Segundo explicam os especialistas, o desvio de Volta Grande é mantido para priorizar a plena capacidade de geração da casa de força principal de Belo Monte e faz parte do plano de engenharia original, elaborado pela Norte Energia, empresa que administra o complexo. A legalidade do processo de licenciamento da hidrelétrica, no entanto, é contestada em 22 ações movidas pelo Ministério Público Federal. Em uma delas, de setembro de 2022, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que a construção de Belo Monte violou a lei brasileira ao não realizar consultas com os povos indígenas e tradicionais da Volta Grande para a instalação das barragens.

A preocupação é se o governo atual seguirá com a renovação da licença de Belo Monte, e se alguma mudança na operação da barragem será exigida. “As administrações dos últimos anos têm passado por cima, forçando a continuidade da hidrelétrica, e sem que muitas das condicionantes que a empresa prometeu fazer tenham sido cumpridas. E sem nenhuma penalidade”, diz Fearnside.

Para mitigar os impactos de Belo Monte, segundos os especialistas, seria preciso mudanças na operação que garantam que uma quantidade adequada de água volte a fluir pela Volta Grande, de forma que seu trajeto se aproxime do ciclo e duração natural das cheias do rio. Além disso, uma mudança na governança da hidrelétrica também seria necessária, de modo a envolver povos indígenas e ribeirinhos locais no monitoramento das operações e no processo de licenciamento da hidrelétrica. “É evidente que a barragem não será destruída, mas se quisermos preservar os ecossistemas e povos existentes na região, as comunidades locais e a sociedade civil devem ter maior participação”, finaliza Fearnside.


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Fonte: Agência Bori

Pesquisadores confirmam nova espécie de peixe cascudo em área afetada pela barragem de Belo Monte (PA)

Nova espécie batizada de Scobinancistrus raonii foi descrita pela primeira vez pela ciência

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A construção da barragem da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, alterou o habitat de espécies de peixes nunca descritas pela ciência. Uma nova espécie de peixe cascudo foi descoberta na região por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Universidade Federal do Pará (UFPA). Ela está descrita em artigo publicado na segunda (30) na revista “Neotropical Ichthyology”.

O peixe tem tons de verde-oliva escuro a preto e é coberto por manchas amarelas redondas, atingindo até 17 centímetros de comprimento. Ele foi batizado de Scobinancistrus raonii, em homenagem ao líder indígena Raoni Metuktire, cacique dos caiapós, povo que vive ao longo dos afluentes do rio Xingu, nos estados do Pará e Mato Grosso. Ele é um dos ativistas indígenas mais conhecidos no mundo por sua luta pela preservação da floresta amazônica, se colocando contra, em 2010, à construção da usina de Belo Monte.

Os resultados foram obtidos após a análise de 38 exemplares desta espécie não descrita de Scobinancistrus, coletados em expedições da equipe de pesquisa ao rio Xingu. Esses peixes são conhecidos de comunidades locais e do comércio aquarista desde a década de 1980 e ganharam o apelido de tubarão, por causa do formato roliço do seu corpo. Para que se pudesse confirmar a existência de uma nova espécie, foram analisadas as tonalidades e o formato das manchas, a forma do corpo, os dentes, a boca e outras estruturas que identificam os animais.

Segundo Lúcia Rapp Py-Daniel, uma das autoras do estudo, a descrição da espécie serve para confirmar a novidade. “A gente já conhece esse bicho há muito tempo. Ele já era vendido no comércio de pesca ornamental e era um bichinho muito diferente, mas na época não sabíamos em qual gênero ele se encaixava. Foi uma surpresa ver que não conseguimos encaixá-lo em nada que conhecíamos e que se tratava de uma nova espécie”, afirma a pesquisadora do INPA.

O estudo detalha que a nova espécie de Scobinancistrus habita principalmente a área alterada pela construção da barragem de Belo Monte, em Altamira, indo desde a Volta Grande do Xingu até a confluência com o rio Iriri. A descoberta ajuda a confirmar que existem novas espécies de animais habitando a região afetada pela hidrelétrica e que, por isso, é importante garantir a qualidade da água para protegê-las.

Para Py-Daniel, o trabalho também serve para suscitar o debate em torno do controle hidrológico da região, pois algumas espécies demandam água em abundância para a sobrevivência. “A área da Volta do Grande do Xingu é extensa e tem espécies que só ocorrem lá, então qualquer alteração do ambiente natural é gravíssima”, conclui.

Os pesquisadores seguem monitorando as espécies de peixes cascudos da região. Eles esperam que a documentação contribua para que os órgãos competentes estabeleçam estratégias de conservação, “já que os peixes são muito comercializados e exportados por causa da aparência colorida e atrativa” e agora também sofrem a ameaça de alteração no seu ambiente natural, finaliza a pesquisadora.

Belo Monte e usinas do rio Madeira: bombas-relógio do desenvolvimentismo do século passado 

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Divulgação RO

Quem defende a exploração de petróleo na Margem Equatorial e em particular na foz do Amazonas deveria olhar com atenção os maus exemplos do setor elétrico nacional, que produziu no passado “bombas” que continuam explodindo no colo de toda a sociedade brasileira.

Implantadas sob um argumento desenvolvimentista do século passado que ignorava seus altos custos socioambientais – já apontados à época de suas instalações –, as hidrelétricas de Belo Monte, no Pará, e Santo Antônio, em Rondônia, ambas na Amazônia, são o exemplo claro do que não mais se pode fazer.

Responsável pela operação de Belo Monte, a Norte Energia enviou em março um ofício ao IBAMA informando ter recebido 3.909 pedidos adicionais de reparação por parte de pescadores da região do Rio Xingu onde a usina foi implantada. Com isso, o número de indenizações já atinge o quádruplo do número inicialmente admitido pela empresa, segundo a Folha.

A quantidade de solicitações chegou a 6.015, segundo nota emitida pelo órgão ambiental. Até então, a operadora de Belo Monte havia se comprometido a pagar uma reparação de R$ 20 mil a 1.976 pescadores. Mas a Norte Energia passou a fazer análises que incluem um questionário “contendo questões e aspectos culturais da pesca local”. Se os pedidos forem validados, o número de pescadores com direito a reparação chegará a 7.991.

A reparação a milhares de trabalhadores que ficaram sem ter o que pescar no rio Xingu após a instalação da usina foi uma recomendação do IBAMA no curso do processo que analisa o pedido para renovação da licença de operação da hidrelétrica. O documento venceu em 25 de novembro de 2021 – há um ano e meio, portanto. Mas certamente tal reparação não vai apagar o estrago que Belo Monte fez na região, uma das mais violentas do país.

Outra mega-hidrelétrica no foco do IBAMA é Santo Antônio, instalada no Rio Madeira, em Rondônia, também fruto da “onda desenvolvimentista”.  O órgão ambiental investigará os impactos que a construção da usina causou em comunidades ribeirinhas no estado. A investigação foi recomendada pelo Ministério Público Federal (MPF), que identificou no processo de licenciamento ambiental da UHE que a comunidade de Vila de Paulo Leal não foi considerada diretamente impactada, relata o g1.

Segundo o MPF, a vila sofre com a falta de estradas, transporte, acesso à saúde e pragas de insetos por causa da operação da usina. E o IBAMA também se comprometeu a avaliar os prejuízos gerados nos serviços públicos de saúde e educação na Vila Nova de Teotônio e os danos nas atividades pesqueira e comercial na Vila Paulo Leal.

ClimaInfo, 19 de junho de 2023.


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Este texto foi originalmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

Cheiro de Belo Monte no ar

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Há uma grande diferença entre ambição e cobiça: a primeira pode ser uma coisa boa; a segunda, jamais. Exemplos práticos: o atual governo tem a ambição de transformar o Brasil na maior potência ambiental de fato; porém, o mesmo grupo político que hoje está no poder foi movido pela cobiça quando construiu Belo Monte. A hidrelétrica, que gera mais prejuízos que energia, está lá, desde 2016, como lição a ser aprendida – para que erro igual não seja repetido. Por isso, causa preocupação a declaração do presidente Lula de que “se explorar esse petróleo tiver problema para a Amazônia, certamente não será explorado, mas eu acho difícil, porque é a 530 km de distância da Amazônia”. Esses “mas” costumam ser prenúncio de más notícias.

O Ibama negou a autorização, porque os senões são muitos. Para começar, a região já tem cerca de 100 poços perfurados e não se encontrou nada que justificasse novas explorações – vários deles, por sinal, foram fechados por causa de acidentes. Nesse quesito particular, o Brasil tem um currículo nada invejável: foram nove desastres do tipo de 2011 a 2022, quase um por ano. Ficar a “530 km de distância da Amazônia” não é nenhuma vantagem, pois a Petrobras levaria quase dois dias para chegar ao local em caso de vazamento. Além disso, a empresa não está habituada com as correntes marítimas locais, que são bem diferentes das bacias de Campos (RJ) e Santos (SP). Mas o argumento definitivo é que se estima que a produção na região seria pelo menos três vezes menor que as das reservas marinhas do Sudeste. Não tem um cheirinho de Belo Monte no ar?

E esse odor desagradável se espalha floresta adentro. Lula se comprometeu a zerar o desmatamento no país até 2030. Mas, até lá, muito verde pode vir abaixo. Um desses projetos, asfaltar a BR-319, que liga Manaus a Porto Velho, serviria de tapete vermelho para toda sorte de malfeitor: invasores de terras protegidas, traficantes, grileiros, mineradoras e garimpeiros ilegais, milicianos, contrabandistas de madeira etc. A rodovia, que tem 885 km de extensão, pode impactar 69 terras indígenas – onde vivem 18 etnias e povos isolados –, 41 unidades de conservação e a última grande área contínua de mata virgem da Amazônia brasileira. A estrada é uma ideia de jerico da ditadura, reabilitada pelo governo anterior; isso já seria motivo de sobra para ser descartada pelo atual. 

O traçado da BR-319 já existe, mas só um pequeno trecho, em condições precárias, está aberto. O impasse recai sobre o asfaltamento do chamado “trecho do meio”, que conectaria os dois extremos da rodovia – do Amazonas a Rondônia. Ainda assim, a estrada serve de porteira aberta para criminosos em geral. Bastou Bolsonaro anunciar que ela receberia asfalto novo para que o desmatamento disparasse: o número vinha caindo desde 2001. Em 2020, foi de 216 km²; em 2021, deu um triplo-carpado para 453 km²; no ano passado, chegou a 480 km². A estrada era inviável de nascença, mais um elefante branco, como a usina no Rio Xingu: “A BR-319 não tinha nenhum raciocínio econômico. Era tudo paranoia de que a Amazônia seria tomada pela cobiça internacional”, diz o biólogo Philip M. Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). 

Esse delírio pode impactar uma área de 39 mil km² (maior que Alemanha e Holanda juntas) e bagunçar mais os regimes de chuva naquelas regiões. Em 2021, 15% dos 10,3 km² devastados em toda Amazônia Legal aconteceram na área e a estrada sequer se presta ao transporte de cargas. “Se for asfaltada, a rodovia BR-319 irá beneficiar até mesmo quadrilhas de roubo de carros. Além disso, as estradas vicinais ilegais ao longo da rodovia estão abrigando vários tipos de atividades criminosas, como grilagem de terras, desmatamento ilegal e garimpo”, diz Lucas Ferrante, também biólogo do Inpa. Uma pesquisa de 2020, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), estima que, com o asfaltamento, as emissões de gases do efeito estufa quadruplicariam na região nos próximos 30 anos, chegando a 8 bilhões de toneladas, o quádruplo do que o país emite em um ano. 

A EF-170, vulgo Ferrogrão, também fede um bocado. A ferrovia, que ligaria Sinop (MT) ao porto de Miritituba (PA), serviria somente para escoar a soja do Centro-Oeste; no fim da linha, a produção seguiria por uma hidrovia no Rio Tapajós. Para construí-la, seria necessário tirar um naco do Parque Nacional Jamanxim, que é uma Unidade de Conservação de Proteção Integral. Em 2017, o presidente Michel Temer sancionou a Lei 13.452 exclusivamente para este fim. Calcula-se que 2 mil km² de verde sumiriam de cara. 

O pior é que a lei, que está no centro do julgamento prestes a ser realizado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), pode criar jurisprudência para outras obras. E a estrada de ferro abriria caminho para outros portos, hidrovias e rodovias. Essa infraestrutura exigiria mais energia; e aí quem garante que novas hidrelétricas também não seriam construídas? Os 993 km da Ferrogrão ainda impactariam mais duas Florestas Nacionais (Flonas) e os povos Kayapó, Munduruku e Panará – que não tiveram respeitado seu direito de consulta e consentimento livre, prévio e informado. É ou não é puro suco de Belo Monte? Depois disso tudo, com que moral o Brasil se sentaria à mesa de negociação climática? Precisamos relembrar ao governo que o caminho da cobiça não rende só mau cheiro.


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Este texto foi inicialmente publicado pelo site “Uma Gota no Oceano” [Aqui!].

Farsa ou tragédia: ainda no Japão, Lula ameaça repetir o desastre de Belo Monte na Foz do Amazonas

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A usina hidrelétrica de Belo Monte é provavelmente um dos piores cometidos sob a batuta dos governos do PT que foram comandados pelos presidentes Lula e Dilma Rousseff.  Atualmente já existe uma considerável literatura científica documentando todos os efeitos perversos causados pela decisão de construir Belo Monte ao arrepio das evidências técnicas que mostravam o erro que seria cometido com a implantação deste projeto.

Ao longo da última eleitoral, o então candidato Lula emitiu palavras de compromisso com a sustentabilidade socioambiental da Amazônia, reconhecendo (ainda que de forma subliminar) os múltiplos erros que marcaram a construção e marcam o funcionamento de Belo Monte. Em seu discurso de posse, Lula alinhavou uma série de intenções em prol de um tênue compromisso com o desenvolvimento sustentável na Amazônia, o qual teria compromisso com a manutenção dos modos de vida das populações tradicionais, a começar pelos povos originários.

Mas passados pouco menos de cinco meses de governo, o agora presidente Lula parece inclinado a rasgar a fantasia da sustentabilidade e apoiar o insustentável projeto de exploração de petróleo na foz do Rio Amazonas. Em declarações dadas no Japão durante o encontro do G-7, Lula sinalizou “que pode contrariar a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, e tomar partido em favor da ala do governo que apoia a autorização da exploração de petróleo na foz do Rio Amazonas. O curioso é que o presidente Lula se pretende fazer de árbitro em uma questão em que sabidamente ele não tem conhecimento técnico, e quem tem já mostrou que o projeto apresentado pela Petrobras está mais cheio de furos que queijo suiço.

É importante destacar que, ao contrário dos primeiros dois mandatos presidenciais, Lula neste momento não possui nada que se possa chamar de um projeto de desenvolvimento econômico, muito menos de desenvolvimento econômico que não causa ainda mais destruição ambiental em uma região que já se encontra sob fortíssimo pressão após quatro anos de completa desregulamentação ambiental pelo governo de Jair Bolsonaro.

Pelo jeito, ao contrário do que muitos pesquisadores e ambientalistas esperavam, o novo governo está ficando cada vez mais parecido com o anterior no que toca à Amazônia.  Como Marina Silva já viu esse filme antes, ela provavelmente opte por pedir o boné muito antes do que eu imaginava.

Barragem de Belo Monte: apenas uma turbina em operação devido à seca e peixes morrem devido ao aumento da temperatura da água

A estação seca deste ano na Amazônia expõe implacavelmente os erros de cálculo na construção da barragem de Belo Monte 11 GW no rio Xingu, no estado amazônico do Pará

belo monteBelo Monte (vista aérea 2016). Foto: christianrussau

Por Christian Russau para a Kobra

Desde 2011, os críticos da barragem de Belo Monte 11 GW, no rio Xingu, no estado amazônico do Pará, haviam alertado enfaticamente que a construção da barragem não só levaria a enormes consequências sociais e ecológicas, mas para o governo e consórcios de construção e a operadora logo se revelaria perdida. Agora fica claro com clareza implacável que os proponentes daquela que era então a terceira maior barragem do mundo estavam errados e os críticos estavam certos. Infelizmente, isso não é motivo de alegria para ninguém.

18 turbinas devem agora girar nas massas de água da barragem de Belo Monte, localizada atrás do reservatório, que retira 80% da água do rio da Volta Grande e a desvia para o reservatório, transformando e fornecendo eletricidade para a economia em expansão do Brasil e sociedade. No momento, uma turbina está girando e só está girando com metade de sua potência. Devido à atual seca na área da bacia do Xingu, o aproveitamento atual do potencial de geração de energia de Belo Monte é de apenas 2,67% desde o início de agosto, de acordo com reportagens da mídiaIsso é exatamente o que os críticos têm enfatizado repetidamente desde a decisão de construção em 2011 que a meta de 11 GW de plena carga só poderia ser atingida por alguns meses do ano, e que o cálculo da lucratividade da usina hidrelétrica ficaria, portanto, obsoleto. E é exatamente isso o que fica evidente no momento no rio Xingu.

Desde a sua conclusão, a usina de Belo Monte produziu menos do que os especialistas calcularam para a estação seca. No momento da construção, presumia-se que a usina geraria em média 690 MW por dia durante os meses de seca. A saída atual é de 300 MW. Esperava-se uma produção média de 4.000 MW para todo o ano. No ano passado era de 3.293 MW médios e em 2019 era de 3.027 MW médios, segundo dados do Operador Nacional da Rede Elétrica (ONS). Então Belo Monte nunca correspondeu às expectativas econômicas e hoje o desempenho é menor do que nunca.

Além disso, a seca fez com que a pouca água que restava esquentasse, levando ao aumento da morte de peixes, conforme a mídia agora está relatando . “Isso é um absurdo, porque são peixes que poderiam servir de alimento para a população, e alguns são peixes ornamentais que têm valor de mercado nas grandes cidades, como a Bandeira do Acará. Aqui temos o pacu que poderia servir de alimento, mas na momento só há comida para urubus ”, disse à mídia o professor de biologia Rodolfo Salm, da Universidade Federal do Pará (UFPA) . Em uma pandemia galopante como a de Corona, isso é ainda mais sério quando as pessoas mal conseguem sobreviver financeiramente e sua segurança alimentar está ameaçada.

Acontece que Belo Monte foi e é e continua sendo um fiasco : moradores: por dentro e também pescadores: por dentro, pescadores ornamentais: por dentro e pequenos agricultores: por dentro foram roubados seus meios de subsistência, os reassentamentos foram insuficientes, as indenizações inadequadas, Volta Grande passou de 100 quilômetros A extensão do rio estava quase esgotada, os índios e ribeirinhos moravam nas proximidades: por dentro não podiam mais usar o rio como área de pesca ou transporte de barcos, as pragas de mosquitos assombram a área, os rotores do turbinas picam peixes, peixes vão para a água aquecida e agora mostram os números da produção nua e crua também todo o fiasco econômico. E tudo isso em nome do “desenvolvimento” e da energia “verde”.

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Este texto foi escrito inicialmente em alemão e publicado pela Kooperation Brasilien [Aqui!].

Barragem de Belo Monte enfrenta fiasco econômico

belo monteBarragem de Belo Monte (a Volta Grande, vindo da esquerda abaixo). Foto: Christian Russau (2016)

Por Christian Russau para a Kooperation Brasilien

O operador da barragem de Belo Monte alerta para enormes prejuízos econômicos se a redução da drenagem de água da área da barragem até a grande curva do Volta Grande, que foi decidida recentemente pelo órgão ambiental do Ibama, for implementada para proteger os interesses dos  moradores locais.  A empresa quer reverter decisão do Ibama. Mas mesmo antes do início da construção, anos atrás, os críticos alertaram para o conflito da “lucratividade da barragem contra os interesses dos moradores locais”.

Ao longo de uma década, muitos críticos da barragem monstro de Belo Monte repetidamente apontaram que ela transformaria a grande curva da Volta Grande para a operação lucrativa da barragem de 11 GW,  apontando para o fato de que a natureza e as pessoas no local serem maciçamente afetadas, porque uma redução de até 80% na quantidade de água de um rio de quase 100 km traria estagnação do corpo hídrico, com todas as consequências, tais como falta de oxigênio, mortandade de peixes, aumento da formação de mosquitos. Os críticos repetidamente apontaram que apesar da estação das chuvas sempre houve estações secas e que, portanto, o conflito entre a rentabilidade da barragem e os interesses dos moradores locais da Volta Grande era inevitável. Agora, o conflito anunciado ameaça chegar ao auge.

Depois que moradores uniram forças para realizar um protesto em novembro do ano passado e  bloquearam a Transamazônica  para exigir um aumento do volume mínimo de vazão livre para a Volta Grande, o  Ibama decidiu que no canal que se ramificava em frente à primeira barragem do Pimental, a máximo de 10.900 metros cúbicos por segundo deve ser desviado para a barragem de Belo Monte a fim de garantir uma vazão mínima de 16.000 m3 /s na Volta Grande do Xingu, de modo a permitir a reprodução da fauna e da flora durante o período Piracema.

Mas agora a operadora Belo Monte Norte Energia confronta essa decisão em uma notificação formal ao Ibama. A redução do volume de água para 10.900 metros cúbicos por segundo para a operação da barragem de Belo Monte não seria suficiente para garantir uma produção lucrativa de energia elétrica, segundo a revista IstoÉ Dinheiro. Segundo o relatório, essa objeção formal também foi encaminhada aos ministérios federais em Brasília. O relatório cita fontes segundo as quais está em risco não apenas a lucratividade da maior barragem de Belo Monte, mas também a da barragem menor de Pimental que fica a montante. Um dos outros argumentos do operador da barragem agora inverte o argumento da proteção dos peixes: Uma redução na quantidade de água a ser fornecida ao reservatório da barragem acarreta o risco de que os níveis de água impactem as áreas de lagoas fechadas em que os peixes então capturados morreriam ou ficariam impossibilitados de realizar a tão importante desova, afirma IstoÉ Dinheiro. Um aumento abrupto do fluxo de água em Pimental também acarreta o risco de uma formação repentina de inundação na Volta Grande, o que significa inundação e destruição de propriedades e posses das pessoas, bem como uma ameaça à flora e fauna. 

O conflito chegará ao ápice. Como se nada disso tivesse sido avisado com antecedência

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pela Kooperation Brasilien [Aqui!].

Especialista internacional em segurança de barragens reprova projeto técnico apresentado pela Belo Sun para a mineração de ouro em Belo Monte

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A pedida da Rede Xingu +, o especialista em segurança de barragens, Steven Emerman, preparou um relatório sobre os possíveis impactos do rompimento da barragem de rejeitos que a mineradora canadense Belo Sun pretende construir para conduzir a mineração de ouro em Volta Grande na região de Belo Monte (ver figura abaixo).

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O convite a Steven Emerman se justifica pelo fato dele ser um especialista com alta experiência internacional,possuindo um PhD em Geofísica pela Universidade Cornell, e 31 anos de experiência no ensino de hidrologia e geofísica, com 66 publicações revisadas por pares nessas áreas. O Dr. Emerman é atualmente o proprietário da Malach Consulting, especializada em avaliar os impactos ambientais da mineração para empresas de mineração, bem como organizações governamentais e não-governamentais.”

Em seu relatório, o Dr. Emerman aponta que a Belo Sun Mining  está propondo que o armazenamento permanente de 35,43 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minas e água seja realizado em uma barragem de rejeitos de 44 metros de altura às margens do Rio Xingu.

Mas após avaliação criteriosa da proposta da Belo Sun,  o Dr. Emerman conclui que “a reciclagem do lixiviado de cianeto entre o reservatório de rejeitos e a planta de processamento de minério tem o potencial de enriquecer a água de rejeitos em antimônio, arsênico e mercúrio“. Além disso, Steven Emerman concluiu que a “barragem não foi desenhada com nenhum critério de segurança sísmica e sem estudo de sismicidade local ou regional. No provável cenário de falha, o fluxo inicial de rejeitos cobriria 41 km com impacto significativo na terra indígena Arara de Volta Grande do Xingu“.

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Um dos fatores considerados pelo Dr. Emerman em suas análises sobre a viabilidade técnica do projeto técnico apresentada pela Belo Sun se refere à análise da estrutura geológica na região próxima ao empreendimento, onde ficou demonstrada a presença de falhas geológicas que poderiam ter influência na ruptura da barragem de rejeitos (ver figura abaixo).

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Com base em suas análises acerca da proposta apresentada pela Belo Sun, o Dr. Emerman concluiu que:

  • 1) O uso do reservatório de rejeitos para captura do escoamento superficial é contrário à  tendência do setor de mineração de reduzir a água armazenada nos reservatórios de rejeitos, a fim de reduzir tanto a probabilidade e quanto as consequências da falha da barragem.
  • 2) A barragem de rejeitos não foi desenhada para nenhum critério de segurança sísmica, violando os regulamentos brasileiros das barragens de rejeitos.
  • 3) Não houve estudo da sismicidade local ou regional, embora falhas geológicas cruzadas tenham sido mapeadas no local da barragem de rejeitos proposta, o que também viola os regulamentos brasileiros das barragens de rejeitos.
  • 4) A reciclagem do lixiviado de cianeto pode resultar em água de rejeitos altamente enriquecida em antimônio, arsênico e mercúrio.
  • 5) No cenário mais provável da falha de barragem (liberação de 28% dos rejeitos armazenados), o fluxo inicial de rejeitos cobriria 41 quilômetros ao longo do rio Xingu, com impacto significativo na terra indígena Arara de Volta Grande do Xingu. No pior cenário (liberação de 100% dos rejeitos armazenados), o fluxo inicial cobriria 98 quilômetros ao longo do rio Xingu. Após o evento inicial, processos fluviais normais transportariam os rejeitos para o rio Amazonas e para o oceano Atlântico.
  • 6) Não há planos para o fechamento seguro da barragem de rejeitos, exceto a drenagem da água livre para um lago de contenção de água.
  • 7) A probabilidade anual de falha da barragem de rejeitos seria de pelo menos 0,5%, o que é inaceitavelmente alta.
    8) Embora a Belo Sun tenha declarado aos investidores que abandonarão o plano atual de armazenamento de rejeitos úmidos em favor de rejeitos filtrados, ainda existem desafios técnicos significativos para o armazenamento de rejeitos filtrados em áreas com alta precipitação.
  • 9) É inquietante que a  Belo Sun tenha fornecido as informações contraditórias  sobre seu plano de armazenamento de rejeitos aos investidores e às autoridades reguladoras brasileiras.

Com base em todas essas observações, o Dr. Emerman recomendou que “com base na alta probabilidade de falha da barragem de rejeitos proposta, o Projeto de Ouro Volta Grande deve ser rejeitado pelas autoridades reguladoras brasileiras sem consideração
adicional” E adicionou ainda que o simples “fornecimento de informações conflitantes aos investidores e às autoridades reguladoras brasileiras deve ser motivo suficiente para rejeição“.

Quem desejar ler a íntegra do relatório do Dr. Emerman em inglês pode clicar [Aqui!] ou em português [Aqui!].