Maurício Tuffani: incidente, acidente e a retórica sobre a tragédia de Mariana

POR MAURÍCIO TUFFANI

Andrew Mackenzie, CEO da mineradora anglo-australiana BHP Billiton, em pronunciamento no dia 6.nov sobre o rompimaneto de barragens da Samarco em Minas Gerais. Imagem: YouTube/Reprodução

O desastre ambiental que começou em Minas Gerais e agora atinge o Espírito Santo, provocado pelo rompimento de duas barragens de rejeitos de mineração situadas entre Mariana e Ouro Preto (MG) no dia 5, foi chamado de “incident” —que em inglês significa “incidente”— por Andrew Mackenzie, CEO da BHP Billiton, empresa anglo-australiana que, assim como a brasileira Vale, detêm 50% das ações da Samarco Mineração, responsável pelas duas represas.

No entanto, na versão legendada pela Samarco do vídeo com o pronunciamento feito por Mackenzie no dia seguinte ao desastre, a palavra inglesa “incident” foi distorcidamente traduzida como “acidente”.

Curiosamente, essa distorção combinou com a retórica de Ricardo Vescovi de Aragão, diretor-presidente da Samarco Mineração. Em seu pronunciamento também gravado em vídeo, ele se referiu a essa catástrofe de dimensões bíblicas como um “acidente”.

Ricardo Vescovi de Aragão, diretor-presidente da Samarco Mineração, chama de “acidente” o desastre provocado pelo rompimento de duas barragens de rejeitos de sua empresa. Imagem: YouTube/Reprodução

PREJULGAMENTO

A diferença no uso dessas duas palavras não é mero detalhe, inclusive em inglês. Ao qualificar o fato como “incidente”, Mackenzie não descartou a possibilidade de que ele poderia ter sido evitado por meio de um sério trabalho de gerenciamento de riscos.

Por outro lado, ao qualificar a tragédia como “acidente”, o executivo brasileiro a prejulgou retoricamente, dando a ela um caráter de imprevisibilidade, apesar de ele ter afirmado, no mesmo pronunciamento, que naquele momento não era possível “determinar as causas e a coleta extensão do ocorrido”.

Opinião diferente é a do coordenador de Meio Ambiente do Ministério Público de Minas Gerais, promotor de Justiça Carlos Eduardo Ferreira Pinto, em entrevista ao “Jornal da Globo” no dia 9. Um documento da Promotoria indica que havia risco de rompimento das barragens da mineradora, como informaram o telejornal e reportagem da Folha. Nas palavras do promotor,

Não foi acidente. Não foi fatalidade. O que houve foi um erro na operação e negligência no monitoramento.

SIGNIFICADOS

Como ainda não disponho de dados técnicos para concluir sobre as reais responsabilidades pelo desastre, acho que vale a pena levar refletir sobre o uso dessas duas palavras no âmbito do gerenciamento da comunicação de crise. Para isso, recomendo a leitura das seguintes definições apresentadas pela consultora norte-americana Pamela Ferrante Walaski em um webinar (seminário de treinamento pela internet) da Safety.BLR.com.

Incidente: Um evento não planejado e não desejado, que dificulta a conclusão de uma tarefa e pode causar lesões, doenças ou danos à propriedade, ou alguma combinação de todos esses três [efeitos] em diferentes graus, do poco significativo ao catastrófico. Não planejado e não desejado não significa impossível de evitar. Não planejado e não desejado também não significa impossibilidade de preparação para o planejamento.

Acidente: A definição muitas vezes é semelhante à de incidente, mas suporta a ideia de que não poderia ter sido evitado. Um acidente é o oposto das intenções fundamentais de um programa de segurança, que é encontrar perigos, corrigir riscos e prevenir incidentes. Quando aceitamos que os acidentes não têm nenhuma causa, assumimos que eles voltarão a acontecer.

PARA PIORAR

Enquanto incidentes ou acidentes catastróficos acontecem, provocados por atividades econômicas altamente lucrativas que em outros países são submetidas a rigorosos programas de fiscalização e de gerenciamento de riscos e de controle ambiental, desde 7 de agosto está sujeito à apreciação do plenário da Câmara dos Deputados o projeto de lei 37/2011, que prevê criar a ANM (Agência Nacional de Mineração) e também instituir o Código Nacional de Mineração.

Em sua atual versão, o projeto de lei a ser votado é substitutivo apresentado pelo deputado Leonardo Quintão (PMDB-MG), relator da comissão especial. Entre outras proposições, o texto prevê para a agência a ser criada poderes para impedir a criação e a ampliação de parques, estações ecológicas e outras unidades de conservação e outras atividades que tenha “potencial de criar impedimento à atividade de mineração” (artigo 109).

Como já informou este blog em post de 26 de agosto, se essa ideia for levada adiante e incorporada à legislação, o ICMBio, a Funai e os órgãos estaduais de unidades de conservação passarão a depender da nova agência reguladora em boa parte de suas atribuições.

FONTE:http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/11/11/incidente-acidente-e-a-retorica-sobre-a-tragedia-de-mariana/?cmpid=compfb#_=_

Rompimento da barragem em Mariana: DigitalGlobe divulga a PRIMEIRA imagem de satélite de altíssima resolução coletada na região do desastre

No dia 5 de novembro de 2015 as barragens de Fundão e Santarém, da Samarco Mineração, localizadas entres os municípios de Mariana e Ouro Preto, se romperam liberando uma onda de lama que devastou o distrito de Bento Rodrigues.

Veja abaixo as imagens do “antes e depois” da região devastada com mais detalhes:

Imagens do satélite WorldView-2 – Bento Rodrigues – Mariana/MG
A primeira imagem foi coletada no dia 21 de Julho de 2015. Já a segunda, foi coletada no dia 10 de Novembro de 2015, data posterior ao rompimento da barragem.

Passe o mouse em cima da imagem para ver o efeito do desastre na região:

mariana 1mariana 1mariana 2mariana 2a


As imagens foram coletadas pelo satélite WorldView-2 e irão compor o sistema de monitoramento DigitalGlobe FirstLook.

Sobre o FirtsLook:

FirstLook da DigitalGlobe é um serviço de assinatura on-line para gestão de emergência que fornece acesso baseado na web e caracteriza-se pela rápida resposta em pré ou pós eventos extremos. Permite a rápida visualização dos danos em caso de catástrofes mundiais e pode ser entregue em praticamente qualquer ambiente de trabalho ou plataforma de mapeamento baseado na web.Imagens de satélite de alta resolução fornecem a informação essencial necessária para o planejamento de emergência, avaliação de riscos, monitoramento de áreas e rápida resposta de emergência, o que permite avaliação de danos just in time e planos de recuperação de emergência.

Para mais informações sobre o DigitalGlobe FirstLook e imagens de satélites de altíssima resolução, consulte a equipe comercial da Globalgeo.

FONTE: http://www.globalgeo.com.br/rompimento-da-barragem-em-mariana-digitalglobe-divulga-a-primeira-imagem-de-satelite-de-altissima-resolucao-coletada-na-regiao-do-desastre/

O direito ambiental na lama: licenças da barragem de Santarém e da mina de Germano estavam vencidas

A barragem de Santarém, a segunda que foi rompida no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, estava com a licença de operação (L.O.) vencida há quase dois anos e meio. O documento que autoriza o funcionamento da barragem perdeu a validade em 25 de maio de 2013. Desde então, a revalidação está em análise técnica pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Semad).

A mina de Germano, que pertence ao mesmo complexo, está em situação idêntica. A L.O. venceu em 27 de julho de 2013. A barragem de Fundão, que foi a primeira rompida, estava com a documentação em dia. A L.O que venceu em 2013 foi revalidada até 2019.

As informações são da própria Semad. O órgão afirma, no entanto, que o funcionamento da mina e da barragem de Santarém não era irregular, porque a mineradora apresentou o pedido de revalidação das licenças antes de seu vencimento, conforme determina a legislação. De acordo com a assessoria de imprensa da Semad, as duas estruturas poderiam continuar funcionando até que o órgão emitisse seu parecer.

Ainda de acordo com a legislação, a Semad teria um ano para conceder ou não a revalidação das licenças, portanto até maio de 2014 no caso da barragem, e até julho do ano passado para a mina. O órgão diz que uma greve no Sistema Estadual de Meio Ambiente, em 2014, prejudicou a análise.  

A operação de todo o complexo de Germano, que inclui a mina, as barragens e os minerodutos que transportam o material extraído até o Espírito Santo, está embargada desde a última sexta-feira (6), um dia depois do desastre. O embargo é por tempo indeterminado, até que sejam apuradas as causas e consequências do rompimento das barragens para a saúde da população e o meio ambiente.

 

Bastidores de uma tragédia: Os relações públicas da Samarco dão uma surra no Estado brasileiro, que sucumbe ao poder econômico

O rio do Carmo, 50 quilômetros abaixo de onde as barragens romperam!

por Luiz Carlos Azenha

A mineradora Samarco, joint venture da Vale com a australiana BHP Billiton, teve um lucro líquido de R$ 2,8 bilhões em 2014. Ou seja, limpinhos!

Como se sabe, o Brasil é uma “mãe” para as mineradoras. A Agência Pública fez uma reportagem interessante a respeito, quando Marina Amaral perguntou: Quem lucra com  a Vale?

O “pai” das mineradoras é Fernando Henrique Cardoso. Em 1996, com a Lei Kandir, isentou de ICMS as exportações de minerais!

O que aconteceu com a Vale, privatizada a preço de banana, é o mesmo que se pretende fazer com a Petrobras: colocar a empresa completamente a serviço dos acionistas, não do Brasil.

O que isso significa?

Auferir lucros a curto prazo, custe o que custar.

A questão-chave está no ritmo da exploração das reservas minerais.

Num país soberano, o ritmo é ditado pelo interesse público. É de interesse da população brasileira, por exemplo, inundar o mercado com o petróleo do pré-sal, derrubando os preços? Claro que não.

Quem lucra, neste caso, são os países consumidores. Os Estados Unidos, por exemplo. Portanto, quando FHC privatizou parcialmente a Petrobras, vendendo ações na bolsa de Nova York, ele transferiu parte da soberania brasileira para investidores estrangeiros. Eles, sim, querem retorno rápido. Querem cavar o oceano às pressas, até esgotar o pré-sal. É a dinâmica do capitalismo!

O Brasil é um país sem memória. Não se lembra, por exemplo, do que aconteceu na serra do Navio, no Amapá. Uma das maiores reservas de manganês do mundo foi esgotada porque interessava aos esforços dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Ficamos com o buraco e a destruição ambiental…

Obviamente, não é um problema brasileiro. Fui pessoalmente às famosas minas de diamante de Serra Leoa, na África, que mereceram uma visita da rainha Elizabeth. Investiguei o entorno. O local de onde sairam bilhões de dólares em diamantes não tinha rede de esgoto, nem de distribuição de água.

O mesmo está acontecendo neste exato momento com o coltan, do Congo, um mineral utilizado pela indústria eletroeletrônica. A exploração do coltan financia uma guerra interminável de milicias, que exportam o mineral para a Bélgica praticamente de graça!

Serra Leoa, Congo, Brasil…

Infelizmente, estamos no mesmo nível.

Como denuncia seguidamente o Lúcio Flávio Pinto, o ritmo da exploração do minério de ferro de Carajás é um crime de lesa-Pátria.

Por que haveria de ser diferente nas reservas de Minas Gerais?

A economia do estado, tanto quanto a brasileira, ainda é extremamente dependente da exportação de commodities. À Vale interessa produzir rápido, derrubar o preço a qualquer custo para apresentar lucro no balanço.

Infelizmente, a elite brasileira até hoje se mostrou incapaz de formular um projeto soberano de país. Isso vale para PSDB, PT e todos os outros, como ficou evidente na tragédia de Mariana.

Não podemos culpar a mineradora Samarco pela tragédia antes de uma investigação independente e rigorosa. Mas, será que ela vai acontecer?

Do prefeito de Mariana ao senador tucano Aécio Neves, passando pelo governador petista Fernando Pimentel, todos deram piruetas para salvaguardar a Samarco. Pimentel deu uma entrevista coletiva na sede da mineradora!

Enquanto isso, milhões de metros cúbicos de lama desceram o rio do Carmo e chegaram ao rio Doce.

A Samarco diz que a lama é inerte, ou seja, não oferece risco à saúde.

Numa situação ideal, não caberia à Samarco dizer isso — com reprodução martelada em todos os telejornais da Globo.

O familiar de um desaparecido comentou comigo que, na Globo, as vítimas da tragédia não tinham rosto…

A Vale, afinal, é grande patrocinadora.

Espanta é que os governos federal, estadual e municipal, que em tese deveriam atuar de forma independente — em nome do interesse público — não o façam.

A primeira providência em um país civilizado seria uma análise de emergência na lama, para determinar se ela oferece algum risco à saúde.

Afinal, milhões de brasileiros podem entrar em contato com os rejeitos, seja nas margens dos rios, seja através da água consumida.

Além disso, o tsunami de lama carregou corpos humanos e de animais por uma longa extensão, de centenas de quilômetros.

No entanto, a não ser pelo esforço de relações públicas da Samarco, as pessoas afetadas, como testemunhei pessoalmente, estão totalmente no escuro.

Mais adiante, outras questões importantes vão surgir.

O rio do Carmo foi completamente destruído, de ponta a ponta. Quem vai pagar a conta? O Estado brasileiro ou a Samarco?

A Samarco fez o que se espera de uma empresa privada que pretende minimizar os impactos econômicos do desastre ambiental que produziu.

De forma competente, acionou seu esquema de relações públicas para deixar no ar a ideia de que o rompimento de duas barragens foi consequência de um terremoto.

Transferiu os desabrigados para hoteis, evitando a ebulição de centenas de pessoas que, conjuntamente, poderiam conjurar contra uma empresa da qual sempre desconfiaram.

Conversei com os sobreviventes de Bento Rodrigues: todos sempre acharam um exagero o crescimento vertical, contínuo, da barragem, para guardar mais e mais lama.

Segundo eles, a Samarco começou a comprar novas áreas de terra porque pretendia construir uma outra barragem, mais próxima do povoado, para dar conta do armazenamento dos rejeitos.

Que a Samarco cuide de seus interesses é parte do jogo.

O espantoso é ver a captura do Estado brasileiro, em todas as esferas, pelo interesse privado.

Basta uma consulta às pessoas comuns, que vivem sob as barragens de rejeitos — que se contam às centenas em Minas — para que elas denunciem: as empresas aumentam indefinidamente as cotas, sem transparência, sem qualquer consulta pública, sem planos de resgate de emergência, sem um básico sinal sonoro para dar o alerta em caso de acidente.

É bem mais barato que construir uma nova barragem, certo? Lembrem-se: estas empresas estão a serviço do lucro de seus acionistas e a maioria deles não mora em Mariana, provavelmente nem mora no Brasil.

Minas Gerais, acossada pela crise econômica, sucumbe à lógica das mineradoras: como denunciou o leitor Reginaldo Proque, está tramitando na Assembleia Legislativa um projeto para simplificar o licenciamento ambiental, de autoria do governo Pimentel.

Em resumo, os desabrigados das margens do rio do Carmo fazem o papel, em carne e osso, da crise de representação da política brasileira.

Ninguém os ouve, nem consulta.

Quando muito, são sobrevoados por helicópteros que “representam” um Estado servil ao poder econômico.

FONTE:http://www.viomundo.com.br/denuncias/bastidores-de-uma-tragedia-os-relacoes-publicas-da-samarco-dao-uma-surra-no-estado-brasileiro-que-sucumbe-ao-poder-economico.html

Presidente da BHP Billiton vem ao Brasil para inspecionar área de desastre em Mariana. Por que isso não é notícia?

samarco

O jornal britânico “The Guardian” informou hoje que o presidente da mineradora anglo-australiana BHP Billiton, Andrew Mackenzie, chegou ao Brasil hoje para visitar Mariana, onde deveria se encontrar com autoridades e representantes da Mineradora Samarco (Aqui!), além de inspecionar as áreas atingidas pelo derramamento de rejeitos tóxicos vindas das duas lagoas de contenção que explodiram em Bento Rodrigues.

A razão desta visita urgente parece não ser por motivos meramente humanitários, visto que as ações da BHP Billiton estavam em queda nesta segunda-feira (09/11) nas bolsas de Londres e da Austrália, num reflexo direto por parte dos investidores em relação às consequências devastadoras que a explosão das duas barragens sobre as comunidades locais, meio ambiente e sobre a própria capacidade da Mineradora Samarco de continuar extraindo minério de ferro nas minas de Mariana.

Agora uma coisa que reforça a minha impressão de que a mídia corporativa brasileira está fazendo uma cobertura propositalmente precária desta tragédia é que ninguém ainda noticiou uma visita tão estratégica da parceira da Vale na Mineradora Samarco. A preferência está numa forma de cobertura generalista, onde apenas filigranas de informação são apresentadas na forma de conta gotas. Por essas e outras que quem quiser se informar talvez ache caminho mais fácil na mídia internacional. 

 

Reuters: Corrida por mineração pode estar por trás de desastre

barragem

Barragem rompida em Minas Gerais: enchentes e o fluxo de lama mataram pelo menos duas pessoas e outras 25 ainda estão desaparecidas

Por Anthony Boadle, da REUTERS, e Alonso Soto e Jeb Blount, da REUTERS

Brasília – As companhias mineradoras frequentemente reclamam que a burocracia sem fim torna os negócios difíceis no Brasil, mas os promotores e ambientalistas dizem que o rompimento das barragens da mina de minério de ferro, que causou uma inundação massiva na semana passada, aponta para lapsos na regulamentação.

As enchentes e o fluxo de lama mataram pelo menos duas pessoas e outras 25 ainda estão desaparecidas em um desastre que aconteceu dois anos após um estudo solicitado por um promotor alertar que as represas do Estado de Minas Gerais, rico em recursos minerais, poderiam entrar em colapso.

“Era evidente que esta barragem estava em risco”, disse à Reuters Carlos Eduardo Pinto, um promotor estadual que investiga a indústria mineradora, referindo-se à primeira barragem que cedeu, levando à ruptura de outra.

Pinto está investigando se a barragem, um reservatório para água com rejeitos de mineração, estava muito cheia.

O rompimento das barragens aconteceu na quinta-feira em uma mina operada pela Samarco, uma joint venture entre a BHP Billiton, a maior empresa de mineração do mundo, e a Vale, maior produtora de minério de ferro. Em 2013, quando a Samarco estava buscando a renovação de sua licença de operações, Pinto comissionou um estudo que descobriu um erro de design na barragem de rejeitos. Isto alertou que o aterro poderia ceder se ficasse saturado de água.

O Instituo Pristino, um grupo ambientalista composto por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), recomendou que a companhia conduzisse um estudo sobre o rompimento de barragens e esboçasse um plano de contingências em caso de transbordamento. Mas a agencia estatal licenciadora ignorou as recomendações e renovou a licença das minas uma semana após o estudo ser divulgado, em outubro de 2013.

O órgão ambiental do Estado responsável pela agência de licenciamento disse em um e-mail que o relatório recomendou apenas padrões industriais.

Não disse se solicitou à companhia que reforçasse os padrões antes de renovar as licenças, embora tenha dito que uma auditoria independente na barragem em julho deste ano foi concluída e a estrutura estava estável.

Os promotores estão investigando se o aumento da produção na mina pode ter afetado o volume do reservatório.

A Vale disse que a mina da Samarco aumentou a produção no ano passado em 37 por cento com a adição de uma nova instalação de pelotas de minério de ferro. Pinto disse que a companhia optou por acomodar o crescimento aumentando o muro da barragem, em vez de construir uma nova, o que pode teria sido mais caro, e ainda estava trabalhando nisto quando a barragem se rompeu.

A Samarco confirmou que estava conduzindo um trabalho de expansão na barragem, mas disse que ainda não poderia determinar uma causa para o rompimento.

Um executivo da empresa disse em uma coletiva de imprensa no fim de semana que a Samarco nunca havia visto o relatório de 2013.

No domingo, o governador de Minas Gerais Fernando Pimentel procurou dissipar qualquer falha no processo de licenciamento.

“Não acho que este acidente aconteceu devido a quaisquer erros no licenciamento ambiental”, disse. Entretanto, nesta segunda-feira, o governo de Minas Gerais embargou todas atividades da mineradora Samarco na região de Mariana, segundo nota da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.

REGULAMENTAÇÃO

Como governador do Estado que detém centenas de minas que respondem por cerca de 5 por cento da economia local, Pimentel é a favor do licenciamento mais veloz.

Desde que assumiu em janeiro, ele tem trabalhado em um projeto de lei, agora na assembleia estadual, que visa acelerar grandes projetos de mineração.

Embora um assessor do governo tenha dito que o Estado pode ter que repensar o ritmo acelerado das aprovações, isto é parte de uma diretriz para menos regulamentações em uma indústria que é uma das maiores do país e líder em fonte de receitas de exportação. Os defensores da indústria dizem que regulamentações excessivas causam atrasos e excessos de custos.

A mina de minério de ferro Minas-Rio, de 14 bilhões de dólares, em desenvolvimento em Minas Gerais pela Anglo American, é o maior investimento estrangeiro da história no Brasil e custou mais que o triplo durante os sete anos que levou para conseguir as licenças.

Mas os reguladores e ambientalistas alertam contra a expedição de processos, especialmente considerando o histórico de rompimento em outras barragens de rejeitos nos últimos anos e a resposta inadequada dos governos a eles.

Especialistas dizem que catástrofes de represas e os custos associados com as limpezas estão crescendo ao redor do mundo por que as regulamentações e práticas de segurança não acompanharam as tecnologias modernas que permitem mega projetos em uma escala que não era possível anteriormente.

O Brasil, que abriga uma grande indústria de mineração, teve inúmeros e repetidos desastres, especialmente no chamado “quadrilátero ferrífero”, no qual a Samarco opera.

Em 2001, quando uma barragem de rejeitos de minério de ferro em Nova Lima se rompeu e cinco pessoas morreram, Minas Gerais tinha somente quatro geólogos e quatro engenheiros de minas para coordenar uma resposta, que incluiu a inspeção de centenas de minas ativas e um número desconhecido de instalações desativadas.

Mesmo assim, o Estado em 2007 descentralizou o licenciamento para nove escritórios regionais.

No ano passado, outra barragem de rejeitos na cidade de Itabirito se rompeu, matando três trabalhadores.

Em resposta, Pinto, o promotor estadual, montou uma força tarefa e identificou mais de 200 barragens que precisavam de melhorias de segurança.

O acidente na semana passada já disparou ligações raivosas por legisladores federais para incluir segurança mais rigorosa e controles ambientais em uma proposta de código de mineração que está parada no Congresso há anos.

A proposta, esboçada no auge do recente boom das commodities, focava em royalties e aumento das receitas do governo, sem fazer menção à segurança ambiental.

“Este acidente trará consequências”, disse o senador Delcídio Amaral, um influente político do Partido dos Trabalhadores, sugerindo que pode acelerar uma votação na proposta e pressionar para incluir normas federais mais rígidas. Klemens Laschesfki, professor de Geociência da Universidade Federal de Minas Gerais, disse que o foco no crescimento econômico em vez do rigor na regulamentação levou a consequências que “não surpreendem ninguém”.

Na Samarco, ele adicionou, “os riscou eram conhecidos por todos, desde a empresa até os políticos. O governo aprovou e esperou que nada acontecesse.”

FONTE: http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/corrida-por-mineracao-pode-estar-por-tras-de-desastre

Tragédia de Mariana: Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) exclui imprensa e povo das áreas destruídas

TSUNAMI DE LAMA

Drama invisível

TSUNAMI

 

Por Laura Capriglione, especial para os Jornalistas Livres, com fotos deGustavo Ferreira, em Mariana (MG)

Arrancados de suas casas pelo tsunami gerado pelo rompimento das barragens Fundão e Santarém, repletas de lama tóxica, os moradores de Bento Rodrigues, arraial rural a 35 km do centro de Mariana, sofrem com outro tsunami: o de dúvidas, de mentiras e de dissimulação.

As barragens sinistradas pertencem à mineradora Samarco, fundada em 1977, controlada pela toda-poderosa Vale e pela anglo-australiana BHP Billiton. Décima maior exportadora do país, a empresa faturou R$ 7,6 bilhões em 2014 e apresentou um lucro líquido de R$ 2,8 bilhões. Apesar dessa contabilidade vistosa e de dizer em seu site na internet que preza pela vida “acima de quaisquer resultados e bens materiais”, os moradores de Bento Rodrigues reclamam que não havia nem mesmo uma simples sirene instalada e funcionando para alertar o lugarejo da ruptura das barragens. Poderia ter salvo vidas.

Agora, no rescaldo da tragédia, os habitantes de Bento Rodrigues suspeitam que a empresa esteja priorizando o salvamento de sua imagem institucional em detrimento das vidas humanas e dos animais, atropelados pelo avanço medonho da lama.

“Por que é que estão nos impedindo de entrar em Bento Rodrigues? A gente poderia ajudar na localização e no resgate dos desaparecidos e dos animais, porque conhecemos como ninguém a região, sabemos lidar com o mato. O que é que eles estão querendo esconder?”, perguntava um grupo de moradores indignados com o fato de serem mantidos à força longe de seu bairro.

“Por que não permitem que pelo menos alguns de nós entrem, para ver o que está acontecendo?” 

Foto: Gustavo Ferreira / Jornalistas Livres

Neste sábado, o prefeito de Mariana, Duarte Júnior (PPS), confirmou que 28 pessoas encontram-se “desaparecidas” após o rompimento das barragens. Dessas, 13 são funcionários da Samarco e trabalhadores de prestadoras de serviço. Outros 15 desaparecidos são moradores de Bento Rodrigues, dos quais cinco são crianças.

O prefeito também reconheceu oficialmente uma segunda morte na tragédia. O corpo de um homem, ainda não identificado, foi encontrado no município de Rio Doce, a 100 km de Mariana, à beira de um rio, na lama. A primeira vítima reconhecida oficialmente foi um morador de Bento Rodrigues, que sofreu uma parada cardíaca ao ver o desastre.

Foto: Gustavo Ferreira / Jornalistas Livres

Todas as vias de acesso ao subdistrito de Bento Rodrigues encontram-se fechadas. Só entra e sai quem tem carta de autorização. Dezenas de soldados da PM mineira guardam a estrada principal. A estradinha alternativa está intransitável, cenário caótico de argila, rochas, tocos de árvores e restos de vegetação espalhados. Ninguém passa por lá.

“A Samarco é acusada de um crime ambiental seríssimo, que pode ter causado dezenas de mortes, e é ela que ainda tem moral para cuidar da cena do crime? Que loucura é essa?”, reclama uma ativista ligada ao Movimento dos Atingidos por Barragens, quando um caminhão com gerador e luzes da Samarco ultrapassa tranquilamente a barreira policial que veda o ingresso dos moradores. (detalhe: na porta do caminhão, o logotipo da Samarco está tampado por um papel colado). Também camionetes e funcionários a serviço da empresa e devidamente autorizados por ela têm livre acesso ao local.

A Samarco emitiu uma nota oficial aos investidores internacionais apresentando suas supostas razões para proibir o acesso ao terreno sinistrado:

“Por razões de segurança, a Samarco reafirma a importância de não haver deslocamentos de pessoas no local do incidente, exceto das pessoas e equipes envolvidas no atendimento de emergência.”

Apenas a título de memória e, é claro, considerando a diferença de escala, durante as operações de busca e salvamento que se sucederam ao tsunami que varreu a Tailândia, em 2005, o trabalho corajoso e sem tréguas de centenas de voluntários, inclusive fazendo o resgate de corpos humanos e de animais e, foi imprescindível para que a desgraça não fosse ainda pior. Não se alegaram questões de segurança para impedir o trabalho da solidariedade.

“Como é possível que as vítimas sejam mantidas afastadas e o acusado entre e saia à vontade?”, pergunta Ângela, de 57 anos, que nasceu em Bento Rodrigues e agora vive em Catas Altas, vizinho, apontando para lugar nenhum, no vale entupido de lama. “Ali era a casa dos meus pais.” Só ela sabe onde.

Mas o que perturba mesmo os sobreviventes e faz aumentar a tensão na entrada de Bento Rodrigues é a movimentação de helicópteros da polícia, subindo e descendo da “zona quente”, como denominam os bombeiros a área central e mais perigosa da catástrofe.

Sem informações, proibidos de ver o que acontece no arraial, os moradores suspeitam que cadáveres humanos estejam sendo recolhidos do local e levados nas aeronaves para local ignorado. Duas testemunhas em Santa Rita Durão, localidade de Mariana que é passagem obrigatória para quem quer chegar a Bento Rodrigues, dizem ter visto viaturas do Instituto Médico Legal passando diante da delegacia em direção ao bairro sinistrado.

“Foram fazer o quê? A Defesa Civil não diz que um dos mortos oficiais foi encontrado longe e o outro já foi retirado no primeiro dia? Então, por que os carros funerários?”, indaga-se Maria do Rosário, funcionária em um comércio de alimentos.

Foto: Gustavo Ferreira / Jornalistas Livres

Bombeiros civis, convocados para ajudar a impedir o acesso dos moradores ao arraial, confirmam a existência de muitos animais ainda vivos no local… Mas já registram a presença pesada da morte, que se anuncia pelo cheiro adocicado e repulsivo da carne em putrefação.

Eles saem extenuados do local, depois de ajudar a deter uma moradora que, embrenhada no mato, tentava romper o cerco policial para achar a avó, desaparecida desde a quinta-feira. Segundo os bombeiros, a moça estava com o rosto e braços lanhados pela vegetação fechada, e com lama quase até o pescoço, tentando chegar à casa da parente. Ela resistiu fortemente aos que tentavam impedi-la de fazer sua busca. “Mas conseguimos retirá-la”, disse Paulo César, bombeiro civil de Nova Lima. A reportagem perguntou a ele: “E a avó dela?” O socorrista respondeu: “Infelizmente, está morta. Não tem como. Ali, é só desolação.”

Mas a gente de Bento Rodrigues acha um crime deixar morrer no desespero do atolamento bois, vacas, cachorros, cavalos e galinhas –até passarinhos em gaiolas — que ainda sobrevivem no atoleiro.

E eles existem.

Foto: Gustavo Ferreira / Jornalistas Livres

O passar monótono do tempo, sob sol forte e calor de 42ºC, sobe e desce de helicópteros, caminhões e camionetes entrando e saindo, nenhuma notícia, só é interrompido quando se ouve o grito: “Imprensa! Vem correndo! Aqui!”

Descendo uma pirambeira, logo se vê um grupo de moradores trazendo machucada, mas viva, uma cadela grandalhona, pelo marrom, vira-lata, deitada em um catre feito com dois paus e um lençol marrom que já foi branco. “Ela estava enfiada metade do corpo na lama”. Os homens que a carregavam conheciam o bicho. Era do açougueiro Agnaldo, que havia passado a manhã tentando entrar em Bento Rodrigues para reaver o animal. Proibiram-lhe.

“Tinha essa cachorra viva, podendo ser resgatada. Já vimos uma égua, que também está viva, enfiada até o pescoço na lama. Pode ter gente sofrendo, ainda viva, que foi arrastada pela lama pra longe”, angustia-se um dos salvadores da cadela.

“Avisamos os bombeiros sobre a égua, mas eles nos disseram que não poderiam salvá-la, porque não dispunham de corda para puxá-la. É preciso correr com a ajuda, agora que o barro começou a secar. No entanto, não se viu uma só vez aquelas gaiolas penduradas nos helicópteros, ajudando nas buscas”.

Foi à tarde que os heróis anônimos conseguiram burlar a segurança e esgueirar-se pela margens do mar de lama, onde encontraram a cadela machucada. Também encontraram um crucifixo de ouro de um metro de altura, que adornava o altar da igreja de São Bento, a igreja de Bento Rodrigues

Entregue pelos homens humildes (Neimar, Leléu, Lilico, Jerry, pedreiros e mecânicos) à polícia, o crucifixo foi levado de camburão para o quartel da polícia militar de Ouro Preto. “Ficará lá à disposição das autoridades eclesiásticas”, disse o tenente Welby. Da igreja branquinha não se vê mais nem sinal. As mangueiras em torno dela estão lá ainda.

O tenente Welby passava instruções ao soldado no posto de Santa Rita Durão: para este domingo, a zona quente seria ampliada e a barreira policial seria implantada bem antes, como forma de impedir os moradores de fazer seus resgates e salvamentos. E de ver o que se quer manter invisível.

Foto: Gustavo Ferreira / Jornalistas Livres

FONTE: https://medium.com/jornalistas-livres/tsunami-de-lama-1b634bdab459

Tsunami de rejeitos tóxicos em Bento Rodrigues

Luis-Eduardo-FrancoTV-Globo

Para quem ainda não entendeu a extensão da tragédia social e ambiental causada pelo explosão das barragens de rejeitos em Mariana, esse vídeo pode deixar as coisas mais claras.  Para mim, pelo menos deixou!

Depois de ver essas imagens será que alguém vai conseguir concordar com o Sr. Altamir Rôso, secretária estadual de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais, que teve a cara de pau de declarar que a Mineradora Samarco como uma das vítimas no rompimento das duas lagoas de rejeitos tóxicos que varrem a localidade de Bento Rodrigues do mapa? (Aqui!)

Vídeo feito por morador mostra momento em que tsunami de rejeitos invade propriedade rural em Bento Rodrigues

Reproducao-TV-Globo

Recebi via o aplicativo Whatsapp um vídeo feito por um morador da localidade de Bento Rodrigues, subdistrito de Mariana (MG), que mostra o momento em que o tsunami de rejeitos vindos das duas barragens  da Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton).

Tenho apenas uma palavra para descrever o que mostra o vídeo: impressionante!

 

O Tempo: Moradores pediram sirenes à Samarco, mas empresa negou

O assunto teria sido abordado em várias reuniões com a empresa, mas em todas, representantes da Samarco negaram o aparelho.

 

Por DANILO EMERICH, ESPECIAL PARA O TEMPO

SAMARCO 5
Moradores do distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, na Região Central do Estado, principal comunidade atingida pela ruptura da barragem de rejeitos Fundão, afirmam que solicitaram diversas vezes sirenes para alertar possíveis desastres. No entanto, a Samarco, dona da estrutura, teria negado o equipamento no local, alegando não ser necessário.

A informação foi repassada por diversos moradores da região à reportagem do O Tempo. O assunto teria sido abordado em várias reuniões com a empresa, mas em todas, representantes da Samarco negaram o aparelho.

Nesta sexta-feira (7), O engenheiro civil da Samarco Germano Silva Lopes, que participou da entrevista coletiva em Mariana sobre o acidente, informou que a atitude da empresa após a ruptura foi acionar as autoridades e o plano de ação emergencial.

‘Nunca poderia imaginar uma tragédia tão grande’, lamenta prefeitoPresidente da Samarco diz que garantirá integridade das pessoasPresidente da Samarco diz que barragem era monitorada rotineiramenteSamarco ainda não confirma número total de vítimas em tragédiaLama e minério de barragens inundam centro de Barra LongaAções da Vale, controladora da Samarco, caem em bolsas pelo mundo

“Não houve sinal de sirene para a população, houve contato telefônico e contato com as autoridades”, disse o engenheiro civil da Samarco.

O engenheiro afirmou que um tremor foi sentido na unidade às 14h dessa quinta-feira (5). “De imediato, fomos até ao local para fazer inspeções e constatamos que, naquele momento, a barragem não apresentava nenhuma anomalia. Nós não sabemos como se deu o processo de ruptura e foi um momento muito rápido”, afirmou.

O Tempo procurou a assessoria de imprensa da Samarco para se posicionar o motivo para a não instalação das sirenes ou se o equipamento vai ser instalado em outras barragens da empresa, no entanto, a nota oficial enviada não responde aos questionamentos.

FONTE: http://www.otempo.com.br/cidades/moradores-pediram-sirenes-%C3%A0-samarco-mas-empresa-negou-1.1160171