Bets: o veto precisa ser definitivo

Nunca apostei em bets. Não foi por falta de dinheiro, mas por acreditar que há maneiras mais proveitosas de usar o que conquisto com meu salário do que entregá-lo a plataformas que transformam a esperança de ganho em receitas fabulosas para seus operadores. Por isso, considero correta a decisão do governo Lula de proibir a exploração, a oferta e a publicidade das apostas de quota fixa. Mas ela chegou tarde, depois de anos de expansão acelerada e de um custo social que recaiu, em grande medida, sobre famílias com menos recursos.

A medida provisória assinada em 25 de setembro determina a interrupção dos novos depósitos, o encerramento das plataformas a partir de 6 de outubro e a devolução dos saldos existentes aos apostadores. O texto ainda precisa ser apreciado pelo Congresso em até 120 dias. Portanto, embora a decisão tenha efeito imediato, sua permanência não está garantida.  

O problema, porém, vai além do dinheiro perdido em apostas. Investigações e reportagens recentes levantaram suspeitas de que plataformas do setor possam ter sido usadas para movimentar ou lavar recursos de origem ilícita. Essas suspeitas precisam ser apuradas com rigor, sem transformar acusações em conclusões antecipadas. Mas, se confirmadas, revelariam um dano adicional: além de absorver recursos de famílias endividadas, o sistema teria servido para contaminar a economia com dinheiro de origem criminosa.  

Também é preciso reconhecer a contradição política do percurso até aqui. A autorização das apostas esportivas foi aprovada em 2018, durante o governo Michel Temer, mas a regulamentação que abriu caminho para a expansão das bets foi sancionada no governo Jair Bolsonaro, em 2022. Já no governo Lula, a Lei nº 14.790, de 2023, estabeleceu novas regras para o setor. Portanto, embora o governo Lula tenha participado da consolidação do modelo regulatório, a autorização inicial não começou em sua gestão. Agora, diante do agravamento do endividamento e dos impactos sociais, o governo tenta interromper uma atividade que cresceu, ganhou publicidade ostensiva e se instalou no cotidiano de milhões de brasileiros. A mudança de rumo é bem-vinda, mas não apaga o tempo em que essa expansão ocorreu.

Minha expectativa, portanto, não é que o veto seja apenas uma suspensão temporária, sujeita a negociações e recuos. Espero que o país caminhe para o banimento definitivo desse modelo de negócio, que extrai recursos de famílias — muitas vezes de quem menos pode perder — e concentra os ganhos nas empresas que operam as plataformas. Proteger a população exige mais do que interromper depósitos por alguns dias: exige impedir que esse circuito seja reconstituído sob outro nome, com outras marcas ou por meio do mercado ilegal.

A proibição precisa ser acompanhada de fiscalização efetiva, investigação das suspeitas de lavagem de dinheiro e políticas de cuidado para quem desenvolveu dependência ou sofreu perdas graves. Se o Congresso reverter a medida, ou se o setor apenas encontrar novas formas de operar, os custos continuarão recaindo sobre as mesmas pessoas. A decisão do governo abre uma possibilidade importante; cabe agora à sociedade cobrar que ela se converta em proteção duradoura.

Capitalismo das apostas: os brasileiros ficam com as dívidas, e as multinacionais levam a bolada

A explosão das bets expõe uma nova engrenagem da desigualdade: enquanto milhões de brasileiros comprometem sua renda na esperança de enriquecer, grandes conglomerados internacionais transformam as perdas dos apostadores em lucros bilionários

A decisão anunciada pelo governo Lula de proibir as chamadas bets e os cassinos on-line no Brasil representa uma mudança radical em relação ao caminho seguido pelo próprio Estado brasileiro nos últimos anos. Segundo reportagem de Leticia Moreira e Danilo Moliterno, publicada pela CNN Brasil, a Medida Provisória assinada em 25 de setembro impede imediatamente novos aportes, estabelece prazo até 5 de outubro para retirada voluntária dos saldos e determina que, a partir de 6 de outubro, sites e aplicativos de apostas sejam bloqueados. Os valores que permanecerem nas contas deverão ser devolvidos posteriormente aos apostadores por intermédio das instituições financeiras.

A justificativa apresentada pelo governo coloca no centro da questão algo que durante muito tempo ficou subordinado ao debate sobre arrecadação tributária, publicidade e patrocínio esportivo: o custo social das apostas. E os números disponíveis ajudam a compreender por que esse mercado deixou de ser uma questão marginal para se transformar em problema econômico e social de grande escala.

Uma gigantesca máquina de circulação — e retenção — de dinheiro

É preciso inicialmente tomar cuidado com os números. Dinheiro depositado numa bet não corresponde automaticamente a dinheiro perdido e muito menos a endividamento. Em levantamento referente a 2024, o Banco Central estimou que aproximadamente 24 milhões de brasileiros haviam realizado transferências para empresas de apostas. Entre janeiro e agosto daquele ano, essas empresas receberam em média R$ 20,8 bilhões por mês, embora aproximadamente 85% retornassem aos apostadores na forma de prêmios. A diferença, cerca de 15%, constituía aproximadamente a receita efetivamente retida pelo sistema.

Dados posteriores mostram que a escala continuou impressionante. Somente no primeiro semestre de 2025, as empresas autorizadas tiveram R$ 17,4 bilhões de receita bruta de jogos (GGR), isto é, dinheiro apostado menos os prêmios devolvidos. Foram 17,7 milhões de apostadores, com perda efetiva média calculada em aproximadamente R$ 164 mensais por apostador.

Em 2026, o universo já havia alcançado proporções ainda maiores. Dados obtidos junto ao Ministério da Fazenda indicavam que 43,8 milhões de brasileiros já haviam realizado apostas até agosto, equivalentes a cerca de 27% da população adulta. Apenas no primeiro semestre deste ano, os depósitos nas plataformas autorizadas chegaram a aproximadamente R$ 88,5 bilhões.  É aqui que começa a aparecer a dimensão distributiva do problema.

A dívida não pode ser confundida com a aposta, mas os dois fenômenos se encontram

O Brasil chegou a abril de 2026 com 83,3 milhões de pessoas inadimplentes, correspondentes a 50,81% da população adulta. Eram 342 milhões de dívidas negativadas, acumulando mais de R$ 568 bilhões. Seria incorreto afirmar que esse endividamento foi produzido pelas bets, pois bancos e instituições financeiras continuam respondendo pela principal parcela das dívidas.

Mas existe uma interseção preocupante. Levantamento citado pela Serasa informa que 58% dos apostadores admitiam possuir dívidas atrasadas há mais de 90 dias. A própria regulamentação federal reconheceu esse problema ao proibir apostas feitas com cartão de crédito e a concessão de crédito pelas próprias plataformas. Em agosto de 2026, aproximadamente 800 mil pessoas que haviam renegociado dívidas já estavam impedidas de apostar; somadas aos beneficiários de programas sociais e às pessoas que solicitaram autoexclusão, representavam cerca de 10% dos 40 milhões de usuários então cadastrados no sistema oficial.

Talvez nenhum número seja tão revelador quanto aquele encontrado anteriormente pelo Banco Central entre beneficiários do Bolsa Família. Em agosto de 2024, aproximadamente 5 milhões de beneficiários transferiram R$ 3 bilhões às bets em apenas um mês. Cerca de 70% dos apostadores identificados eram chefes de família, responsáveis por aproximadamente R$ 2 bilhões dessas transferências. O próprio Banco Central observou que o apelo da promessa de enriquecimento por meio das apostas tende a ser especialmente poderoso entre pessoas em situação de vulnerabilidade econômica.

Assim, ainda que não possamos transformar mecanicamente os bilhões movimentados pelas bets em bilhões de reais de dívida, podemos afirmar algo talvez mais importante: o capitalismo das apostas encontrou um enorme mercado justamente em uma sociedade profundamente endividada e desigual.

Quem fica do outro lado da mesa?

Existe ainda uma dimensão pouco discutida desse processo. Quando milhões de brasileiros perdem pequenas quantias, quem acumula os ganhos? Entre as empresas que lideraram o mercado brasileiro em 2025 estavam Betano, Bet365, Superbet e Sportingbet. A primeira pertence ao grupo grego Kaizen Gaming, liderado pelo fundador George Daskalakis. A própria companhia descreve sua trajetória como a transformação de uma pequena empresa grega numa corporação global do setor de jogos.

A Bet365 é britânica e permanece sob controle da família Coates, com Denise Coates detendo a participação majoritária do grupo. A Sportingbet pertence à britânica Entain, companhia de capital aberto cujos grandes acionistas incluem fundos e gestores financeiros internacionais. Já a Superbet nasceu na Romênia, foi fundada pelo empresário Sacha Dragic e recebeu investimentos da gigantesca gestora norte-americana Blackstone.

Até marcas apresentadas ao consumidor como brasileiras foram sendo incorporadas à estrutura internacional do setor. Em maio de 2025, a multinacional Flutter Entertainment concluiu a compra de 56% da NSX, controladora da Betnacional, por aproximadamente US$ 350 milhões em dinheiro, integrando a empresa brasileira a um dos maiores conglomerados globais de apostas.

Isso não significa que todo o setor seja estrangeiro. Existem operadores nacionais relevantes, como a Esportes da Sorte, além de outras empresas brasileiras autorizadas pelo Ministério da Fazenda. Em agosto deste ano havia 85 empresas habilitadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas.  O que chama atenção é a presença dominante de grandes grupos internacionais justamente entre as marcas de maior participação no mercado. Estimativas para 2025 colocavam Betano, Bet365 e Sportingbet entre as empresas de maior receita bruta obtida no Brasil.

Uma nova geografia internacional da desigualdade

É nesse ponto que a discussão deixa de ser simplesmente moral ou sanitária e adquire uma dimensão de economia política. As plataformas digitais permitem que empresas sediadas na Europa ou controladas por grandes fundos internacionais explorem, em escala gigantesca, mercados consumidores situados em países muito mais desiguais.

O produto vendido não é uma mercadoria convencional. Ele comercializa essencialmente probabilidade, expectativa e esperança de mobilidade econômica. E quanto mais difícil se torna obter essa mobilidade por meio do salário, do emprego ou das políticas sociais, maior pode ser o apelo da promessa de enriquecimento instantâneo.  Desta forma, com isso tudo surge uma espécie de circuito internacional de transferência de renda. De um lado estão milhões de apostadores realizando depósitos relativamente pequenos, muitos deles vivendo em famílias endividadas ou economicamente vulneráveis; do outro, plataformas capazes de agregar essas pequenas transferências em receitas bilionárias, remunerando acionistas, fundos de investimento e controladores empresariais.

Isso ajuda a explicar por que considero insuficiente analisar as bets apenas como problema de ludopatia. Existe evidentemente uma questão de saúde pública, mas existe igualmente uma questão de classe e de geografia econômica.  A periferia não exporta apenas soja, minério de ferro, petróleo ou outras commodities. Na economia digital, ela pode também exportar renda por meio de algoritmos.

O cassino fechou, mas a pergunta permanece

A decisão do governo federal certamente enfrentará resistência econômica, jurídica e política. O futebol brasileiro, por exemplo, tornou-se profundamente dependente dos patrocínios das casas de apostas, e dirigentes já estimam perdas bilionárias de receitas com a proibição. Também existe um argumento relevante de que simplesmente retirar as empresas regulamentadas pode deslocar apostadores para plataformas clandestinas, tornando ainda mais difícil fiscalizar o mercado.

Por isso, bloquear sites não encerra automaticamente o problema. Será necessário acompanhar a migração para operadores clandestinos, bloquear fluxos financeiros ilegais e, principalmente, enfrentar as condições sociais que transformaram dezenas de milhões de brasileiros em consumidores de uma promessa estatisticamente destinada a produzir mais perdedores do que vencedores.

A explosão das bets talvez tenha revelado algo incômodo sobre o Brasil contemporâneo. Em uma sociedade na qual mais de 80 milhões de adultos convivem com a inadimplência, vender a possibilidade de enriquecimento instantâneo tornou-se um negócio extraordinariamente lucrativo.  E quando a esperança dos pobres se transforma em receita de grandes corporações, inclusive multinacionais, talvez já não estejamos falando simplesmente de jogo. Estamos falando de uma nova engrenagem do capitalismo da desigualdade.