Ecocídio no Pantanal

Por Luiz Marques*

O Pantanal, “o reino das águas”, Patrimônio Nacional (Constituição de 1988) e Patrimônio da Humanidade e Reserva da Biosfera (ONU, 2000), é tradicionalmente considerado a maior planície alagada do mundo. Esse bioma transfronteiriço se estende por três países: Bolívia (53.320 km2), Paraguai (8.520 km2) e Brasil (151.134 km², segundo o IBGE 2017).[1] Com cerca de 65% desse bioma em território brasileiro no Mato Grosso do Sul e o restante no estado do Mato Grosso, apenas 5,2% do Pantanal brasileiro está protegido em Unidades de Conservação,[2] embora possua uma densidade sem par de biodiversidade descrita: 124 espécies de mamíferos, sendo duas endêmicas, 325 espécies de peixes, 41 espécies de anfíbios, 113 espécies de répteis, 463 espécies de aves e cerca de 3.500 espécies de plantas, muitas com enorme potencial medicinal.[3] Essa riqueza singular de vida está ameaçada, pois o Pantanal é um dos principais teatros do ecocídio perpetrado pelo agronegócio em nosso país desde a ditadura militar. Entre agosto de 2000 e julho de 2025, o agronegócio foi o principal vetor da supressão de 16.470 km2 da vegetação nativa pantaneira, como mostra a Tabela 1.

Perda de vegetação nativa no Pantanal (2001-2025) em km2

Fonte: Inpe, TerraBrasilis, Prodes, Desmatamento.  <https://terrabrasilis.dpi.inpe.br/app/dashboard/deforestation/biomes/pantanal/increments>.  

Como se vê, mais de 10% da cobertura vegetal nativa do Pantanal brasileiro foi completamente suprimida apenas no primeiro quarto do século XXI.

  Extensão do território devastado por incêndios criminosos no Pantanal

Isso posto, muito maior ainda que a área da supressão dessa cobertura foi a da destruição do Pantanal pelo fogo, sobretudo para a expansão da pecuária. Apenas entre janeiro e agosto de 2020, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou um total de 10.153 focos de incêndio no Pantanal, um número superior à soma dos focos de incêndios dos seis anos anteriores, de 2014 a 2019 (10.048).[4] A perícia apurou que o objetivo dos incêndios em ao menos duas áreas pantaneiras foi “a criação de área de pasto para gado”.[5] Além disso, a Polícia Federal reuniu provas suficientes para indiciar quatro fazendeiros em cujas propriedades o fogo iniciara simultaneamente no dia 20 de junho de 2020. De resto, “segundo testemunhas, dias antes de mandar seus funcionários colocar fogo nas propriedades, os fazendeiros providenciaram a retirada de todo o gado”.[6] Os incêndios de 2020 atingiram cerca de um terço de toda a extensão do Pantanal. Eis a estimativa da área queimada no Pantanal apenas nesse ano:[7]

“Os resultados mostraram uma precisão geral de 95,9% e uma estimativa de 44.998 km2 queimados na porção brasileira do Pantanal, resultando em grave destruição do ecossistema e perda de biodiversidade nesse bioma. A área queimada estimada neste trabalho foi superior aos resultados estimados pelos MCD64A1 (35.837 km2), Fire_cci (36.017 km2), GABAM (14.307 km2) e MapBiomas Fogo (23.372 km2), que apresentaram precisões inferiores”.

Quanto aos ecossistemas atingidos nesse ano, “cerca de 31% dos incêndios ocorreram em áreas cobertas por florestas, 32% em pastagens e 28% em áreas úmidas, totalizando 91% de todas as deteções de incêndios”.[8] A mortandade animal causada por esse crime hediondo foi imensa, pois os incêndios de 2020 mataram ao menos 17 milhões de animais. A cada km2, foram calcinados em média mais de 217 vertebrados, em um dos maiores crimes de ecocídio em toda a história do Brasil.[9] Em setembro de 2020, durante uma reunião de Bolsonaro com seus ministros, a pergunta de uma menina sobre os incêndios no Pantanal provocou uma gargalhada geral, tal como dá testemunho um vídeo vazado.[10] Esses incêndios 2020 foram, em grande parte, o resultado do desmonte das políticas ambientais por Bolsonaro, conforme denúncia da Associação Nacional dos Servidores de Meio Ambiente (Ascema Nacional), através do relatório “Cronologia de um Desastre Anunciado”, que reúne evidências a respeito.[11]

Os incêndios pantaneiros continuaram nos anos sucessivos. Segundo o Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (LASA/UFRJ), em 2021 o Pantanal teve 1.945.150 hectares, pouco mais de 19 mil km2, consumidos pelas chamas.[12] Em 2022, sempre segundo o LASA, a área queimada foi de quase 3,2 mil km2, mas em 2023, ela saltou para quase 9,5 mil km2, levando o governo do Mato Grosso a decretar emergência ambiental.[13] Entre 1985 e 2023, os incêndios queimaram 89 mil km2 do Pantanal. Desse total, 72 mil km2 sofreram pelo menos dois incêndios nesse período. E no primeiro semestre de 2024, a área queimada nesse bioma atingiu mais 468.547 hectares, ou quase 4,7 mil km2, em um total de 93 mil km2 ou 62% da área do Pantanal no Brasil.[14] Após uma queda espetacular da área queimada em 2025, o Pantanal deve sofrer outro surto de incêndios em 2026 com o advento do El Niño.

O Pantanal está secando

Eis o diagnóstico de Eduardo Rosa, do MapBiomas (coleção 9, 2024):[15]

“O Pantanal já experimentou períodos secos prolongados, como nas décadas de 1960 a 1970, mas atualmente outra realidade, de uso agropecuário intensivo e de substituição de vegetação natural por áreas de pastagem e agricultura, principalmente no planalto da Bacia do Alto Paraguai, altera a dinâmica da água na bacia hidrográfica.”

Essa advertência foi referendada por um estudo recente,[16] repercutido no Jornal da Unesp, com o título: “Pantanal perdeu cerca de 80% de sua água superficial nos últimos 40 anos”.[17] Os dois mapas da Figura 1 mostram a redução da superfície de água do outrora “reino das águas”.

Figura 1 – Mapas mostrando a superfície das águas superficiais no Pantanal em 1985 e em 2023.

Fonte: Carolina Fioratti, “Pantanal perdeu cerca de 80% de sua água superficial nos últimos 40 anos, mostra estudo da Unesp”, Jornal da Unesp, 1º julho 2026.

Em setembro de 2024, Marina Silva alertou: “O diagnóstico é de que poderemos perder o Pantanal até o final do século”.[18] A avaliação de Carlos Nobre é ainda pior: mantido o ritmo atual de sua destruição e de sua desidratação, o Pantanal pode desaparecer até 2070, posto que já perdeu 30% de sua área.[19] O diagnóstico de Sérvio Justino, primeiro autor do trabalho acima citado, reitera o de Carlos Nobre: “Uma área que antes seria alagável, hoje é uma área de pastagem. (…) Se continuarmos nesse ritmo, infelizmente não teremos mais o bioma daqui 40 ou 50 anos”.[20]

Substituir a Bancada do Boi pela Bancada do Bio

A destruição dos nossos biomas é o projeto do agronegócio para o Brasil. Em 17 de junho de 2026, fazendeiros obstruíram a consulta pública para a criação do Refúgio de Vida Silvestre Delta do Salobra, em Mato Grosso do Sul. Ocuparam o Auditório da Prefeitura de Bodoquena, gritando “Fora!” aos funcionários do ICMBio, de modo a travar qualquer possibilidade de avanço na proteção do que resta do Pantanal.[21] Se a sociedade brasileira não reagir em outubro, de modo a substituir a Bancada do Boi pela Bancada do Bio, será muito em breve tarde demais. Não haverá quase nada a conservar de um das mais preciosos e insubstituíveis tesouros do patrimônio natural do Brasil.

Notas de referência

[1] Cf. Edvaldo Cesar Moretti & Karoline Batista Gonçalves, “Pantanal Transfronteiriço (Bolívia-Brasil- Paraguai) e as áreas protegidas: desafios da gestão diferenciada na zona de fronteira”. Confins, 47, 2020.

[2] Cf. Cristiane Prizibisczki, “Governo amplia áreas protegidas no Pantanal e fortalece proteção do bioma”, ((o)) eco, 22 março 2026.

[3] Cf. ICMBio, Pantanal, baseado em Cadastro Nacional de UCs, Geoprocessamento ICMBio.  <https://www.icmbio.gov.br/portal/unidadesdeconservacao/biomas-brasileiros/pantanal>.

[4] Cf. André Borges, “Volume de queimadas no Pantanal em 2020 equivale a à destruição dos últimos 6 anos”. UOL, 8 set. 2020.

[5] Cf. “Perícia afirma que incêndio no Pantanal mato-grossense foi intencional”. Agência Brasil,5 set. 2020.

[6] Cf. “PF já tem provas para indiciar fazendeiro de MS por queimadas no Pantanal”. UOL, 25 set. 2020.

[7] Cf. Yosio Edemir Shimabukuro et al., “Assessment of Burned Areas during the Pantanal Fire Crisis in 2020 Using Sentinel-2 Images”. Fire, 6(7), 277, 2023.

[8] Cf. Mikhaela A.J.S. Pletsch et al., “The 2020 Brazilian Pantanal fires”. Letter to the editor. Anais da Academia Brasileira de Ciências, 93(3), 2021.

[9] Cf. Walfrido Moraes Tomas & Christian Niel Berlinck et al., “Distance sampling surveys reveal 17 million vertebrates directly killed by the 2020’s wildfires in the Pantanal, Brazil”. Nature. Scientific Reports, 16 dez. 2021.

[10] Cf. “Ao ser perguntado se Pantanal pega fogo, Bolsonaro ri (vídeo)”. Brasil 247, 8 set. 2020.

[11] Cf. “Servidores divulgam relatório de ações do governo Bolsonaro contra o meio ambiente”. Brasil de Fato”, 5 set. 2020.

[12] Cf. “Comparando os incêndios de 2020 com 2021 no Pantanal: O que mudou?”. SOS Pantanal, 27 dez. 2021.

[13] Cf. “Pantanal em chamas: bioma registra um milhão de hectares queimados em 2023”. G1, 15 nov. 2023.

[14] Cf. Eduardo Rosa et al., Seca extrema e Incêndios no Pantanal em 2024. MapBiomas, 2024.

[15] Cf. “Redução de superfície de água no Pantanal favorece incêndios”. MapBiomas Pantanal Coleção 9, 12 nov. 2024.

[16] Cf. Sérvio Tulio Pereira Justino et al., “Assessment of spatiotemporal variability in surface water and drought variability across the Brazilian Pantanal”. Advances in Space Research, 78, 3, 1 agosto 2026, pp. 2374-2399.

[17] Cf. Carolina Fioratti, “Pantanal perdeu cerca de 80% de sua água superficial nos últimos 40 anos, mostra estudo da Unesp”, Jornal da Unesp, 1º julho 2026.

[18] Cf. “Queimadas e seca histórica: Pantanal pode desaparecer até o fim do século, alerta Marina Silva”. Jornal Nacional, 4 set. 2024.

[19] Cf. “Crise climática está mais rápida. Até 2070, o Pantanal acaba”. O Estado de São Paulo, 11 set. 2024.

[20] Citado por Carolina Fioratti, cit. Jornal da Unesp, 1º julho 2026.

[21] Cf. Duda Menegassi, “Produtores rurais impedem audiência pública sobre criação de UC no Pantanal”. ((o)) eco,  19 junho 2026.


*Luiz Marques (Luiz Cesar Marques Filho) é historiador e professor livre-docente aposentado do Departamento de História da Unicamp. Ele é um dos maiores especialistas brasileiros em história da arte italiana e autor de livros premiados sobre crises socioambientais, como “Capitalismo e Colapso Ambiental

Manguezais renascem e mostram que a natureza ainda resiste à destruição humana

Recuperação de florestas costeiras revela o enorme potencial de regeneração dos ecossistemas, mas também evidencia que sua sobrevivência depende de proteção permanente, políticas públicas e da contenção dos interesses econômicos que continuam ameaçando o litoral

Em um momento em que as notícias sobre a degradação ambiental parecem se suceder em ritmo acelerado, a recuperação de áreas de manguezais em diferentes regiões do planeta surge como um raro e importante sinal de esperança. Conforme mostra reportagem da BBC, ecossistemas que durante décadas foram destruídos pela expansão urbana, pela aquicultura intensiva, pela construção de portos e pela poluição começam a apresentar sinais concretos de regeneração quando recebem proteção adequada e esforços consistentes de restauração.

Essa recuperação vai muito além da volta das árvores. Os manguezais constituem alguns dos ecossistemas mais produtivos do planeta, funcionando como verdadeiros berçários para peixes, crustáceos e inúmeras espécies de aves. Além disso, desempenham um papel estratégico na proteção das zonas costeiras contra tempestades, reduzem processos erosivos e armazenam enormes quantidades de carbono em seus solos alagados, sendo considerados uma das mais eficientes soluções naturais para o enfrentamento das mudanças climáticas.

O aspecto mais interessante da recuperação observada é que ela demonstra a extraordinária capacidade de resiliência desses ecossistemas. Quando as pressões humanas diminuem, os processos ecológicos voltam a operar: sementes são dispersas pelas marés, a fauna retorna e a vegetação recompõe gradualmente a estrutura do ambiente. Em outras palavras, a natureza ainda possui uma impressionante capacidade de cura.

Entretanto, seria um erro interpretar essas histórias de sucesso como sinal de que a crise ambiental está sendo superada. A regeneração dos manguezais dependeu de políticas públicas, fiscalização ambiental, envolvimento das comunidades locais e investimentos contínuos em restauração ecológica. Onde continuam predominando interesses imobiliários, grandes obras de infraestrutura ou modelos predatórios de exploração costeira, os manguezais seguem desaparecendo em ritmo preocupante.

No Brasil, essa discussão é particularmente relevante. O país abriga uma das maiores extensões contínuas de manguezais do mundo, ecossistemas fundamentais para a pesca artesanal, para a segurança alimentar de milhares de famílias e para a manutenção da biodiversidade costeira. Ainda assim, esses ambientes permanecem sob intensa pressão de projetos portuários, expansão urbana, turismo desordenado e atividades industriais que frequentemente recebem licenciamento ambiental flexibilizado.

A recuperação relatada pela BBC deveria servir como inspiração, mas também como alerta. Os manguezais conseguem se regenerar, porém esse processo leva anos ou décadas e depende da manutenção das condições naturais que permitam sua sobrevivência. Destruir um manguezal continua sendo muito mais rápido e barato do que restaurá-lo.

Em um contexto de aceleração das mudanças climáticas e de aumento do nível do mar, proteger os manguezais não é apenas uma questão de conservação da natureza. Trata-se de uma estratégia de adaptação climática, de proteção das comunidades costeiras e de preservação de modos de vida tradicionais que dependem diretamente da saúde desses ecossistemas.

Os manguezais estão demonstrando que a recuperação é possível. Resta saber se a sociedade será capaz de aprender essa lição antes que a destruição avance mais rapidamente do que a capacidade de regeneração da própria natureza.

Pesquisa da UFSCar aponta que peixes invasores estão reconfigurando ecossistemas aquáticos globais

Estudo de pós-doutorado analisou comunidades de peixes em 402 lagos de regiões tropicais, subtropicais e temperadas

(Foto: Magnific)

Espécies invasoras estão alterando profundamente a estrutura de comunidades aquáticas ao redor do mundo, modificando a proporção entre peixes de diferentes tamanhos e reduzindo a biomassa de espécies nativas, sobretudo as menores e juvenis. É o que aponta um estudo desenvolvido na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no âmbito de um pós-doutorado financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).  

A pesquisa analisou 667 comunidades de peixes em 402 lagos distribuídos por regiões tropicais, subtropicais e temperadas do mundo e identificou que os impactos das invasões biológicas variam conforme a temperatura dos ambientes e o nível trófico das espécies invasoras.

A base de dados foi construída a partir de levantamentos em estudos já existentes e do contato com especialistas e grupos de pesquisa nacionais e internacionais. Ao todo, foram compiladas informações sobre o tamanho e peso corporal de quase 637 mil peixes.

“A diferença entre o número de comunidades e o de lagos ocorre porque alguns lagos puderam ser amostrados em diferentes anos. Assim, cada amostragem representa uma comunidade distinta, ou seja, um retrato da estrutura da comunidade, com organismos nativos coexistindo com espécies invasoras em um momento específico. Essa dependência entre amostras do mesmo lago foi posteriormente considerada nas análises estatísticas”, contextualiza Barbbara da Silva Rocha, pesquisadora de pós-doutorado vinculada ao Departamento de Ciências Ambientais (DCAm) da UFSCar, sob supervisão de Victor Saito, docente do DCAm.

Segundo Rocha, para garantir comparabilidade entre os ecossistemas, foram selecionados apenas trabalhos que utilizaram métodos semelhantes de coleta. “Variáveis ambientais, como profundidade, área, temperatura e concentração de nutrientes no lago, também foram incorporadas às análises”, explica a pesquisadora.

O estudo identificou que comunidades submetidas a maior pressão de invasão apresentam uma estrutura de tamanho mais “plana”. Na prática, isso significa que a diferença entre a quantidade de peixes pequenos e grandes diminui. 

“Em ecossistemas saudáveis, normalmente há muitos peixes pequenos e poucos peixes grandes. O que observamos é que as espécies invasoras alteram esse padrão, aumentando proporcionalmente a abundância de peixes grandes ou reduzindo a de peixes nativos menores. Com isso, o número de indivíduos passa a diminuir de forma menos pronunciada à medida que o tamanho dos peixes aumenta, resultando em uma configuração mais ‘plana’ da estrutura de tamanho da comunidade”, detalha Rocha.

Ecologicamente, esse resultado é importante porque o tamanho corporal dos peixes está diretamente relacionado ao funcionamento desses ecossistemas. “Mudanças na distribuição dos tamanhos dos peixes na comunidade podem alterar a intensidade das relações tróficas, a transferência de energia no ambiente e, consequentemente, a estabilidade das comunidades aquáticas”.

A pesquisadora observou que todas as espécies invasoras avaliadas causam impactos negativos sobre as comunidades nativas, mas de maneiras distintas. “Em geral, as invasões tornam a estrutura de tamanho das comunidades mais ‘plana’ e reduzem a biomassa das espécies nativas. No entanto, a intensidade desses efeitos varia conforme o tipo de invasor e a temperatura do ambiente”, relata.

Nos lagos mais quentes, o impacto dos peixes predadores (piscívoros) sobre a estrutura das comunidades foi mais intenso. Já em ambientes frios e menos produtivos, invasores de níveis mais baixos da cadeia alimentar – como herbívoros (que se alimentam de plantas aquáticas), onívoros (que se alimentam principalmente de ambos plantas e pequenos invertebrados) e detritívoros (que consomem matéria orgânica em decomposição) – provocaram reduções mais severas na biomassa das espécies nativas, principalmente por competirem pelos recursos disponíveis.

Segundo Rocha, o aumento da temperatura acelera o metabolismo dos peixes predadores invasores, elevando sua necessidade de alimento e intensificando a pressão sobre as espécies nativas menores. “Como os pequenos peixes nativos são alvos mais abundantes e fáceis de capturar, a pressão de predação se concentra desproporcionalmente sobre eles”, descreve.

Nos ambientes mais frios, por outro lado, o problema parece estar menos relacionado à predação e mais à competição. Como a disponibilidade de recursos na base da cadeia alimentar tende a ser menor, espécies invasoras herbívoras, onívoras e detritívoras conseguem superar os peixes nativos na disputa por alimento, reduzindo significativamente sua biomassa. 

Esse conjunto de impactos afeta principalmente os peixes menores e os indivíduos juvenis das espécies nativas, criando o que os pesquisadores descrevem como uma possível “zona de exclusão ecológica” para essas classes de tamanho. Segundo Rocha, o processo pode interromper a renovação natural das populações ao impedir que indivíduos jovens alcancem a fase reprodutiva, além de ameaçar espécies endêmicas. 

“A perda desses peixes menores pode afetar diretamente a qualidade da água, além de comprometer estoques pesqueiros importantes para a alimentação e subsistência humana”, aponta a pesquisadora.

Para os autores, os dados reforçam a necessidade de estratégias de conservação e manejo que considerem simultaneamente o contexto climático e o papel ecológico das espécies invasoras. 

“Os resultados mostram que estratégias de monitoramento e controle precisam levar em conta tanto as características do ambiente quanto o tipo de invasor presente. Compreender essa interação permite direcionar esforços de conservação de forma mais eficiente e antecipar riscos à biodiversidade antes que os impactos se tornem irreversíveis”, finaliza Rocha. 

O estudo deu origem ao artigo intitulado “Invasive fishes interact with temperature to reshape community size structure across climatic zones“, publicado na revista Global Change Biology, em colaboração com pesquisadores de instituições do Brasil, Espanha, Canadá, Reino Unido e França. O acesso pode ser feito em https://onlinelibrary.wiley.com/doi/pdf/10.1111/gcb.70884, onde também estão disponíveis informações completas sobre os demais autores.

Mesmo impactadas, florestas primárias ainda são principal fonte de biodiversidade na Amazônia

Queimadas e corte seletivo afetam profundamente a variedade de espécies, funções ecológicas e linhagens evolutivas; ainda assim, são mais ricas do que as regeneradas após derrubada total

André Julião | Agência FAPESP

Florestas primárias, que nunca foram desmatadas, são as principais guardiãs da biodiversidade amazônica, mesmo que já tenham sido afetadas por queimadas ou corte seletivo de árvores, segundo um estudo conduzido por pesquisadores do Brasil e do Reino Unido. Os cientistas compararam o impacto de atividades humanas sobre a diversidade de plantas de diferentes composições florestais ao longo do tempo na Amazônia e concluíram que as florestas primárias sempre abrigam uma quantidade maior de espécies do que aquelas que se regeneraram depois de terem sido derrubadas no passado.

O estudo reforça a importância de se frear o avanço do desmatamento na Amazônia – ao mesmo tempo em que se incentiva a regeneração de áreas anteriormente desmatadas –, já que as florestas secundárias não chegam a repor por completo a biodiversidade das matas originais que foram perdidas, segundo os pesquisadores. Os resultados foram divulgados na revista Global Change Biology.

Os pesquisadores catalogaram cerca de 55 mil árvores em duas regiões do Pará, situadas nos municípios de Paragominas e Santarém, representando quatro tipos de florestas: 1) primárias que não sofreram distúrbios; 2) primárias que tiveram corte seletivo de árvores (quando são retiradas apenas espécies de maior valor comercial);  3) primárias que sofreram corte seletivo e queimadas; e 4) florestas secundárias, resultantes da regeneração natural de uma área que sofreu corte raso – ou seja, que foi totalmente desmatada anteriormente.

Os cientistas mediram a diversidade das árvores de três formas diferentes: focando nas espécies, nos grupos funcionais – mensurando características como espessura da casca, densidade da madeira e tamanho da folha – e nas linhagens evolutivas. Além disso, avaliaram a diversidade separando as árvores em grandes e pequenas.

Quando comparados os dados entre as áreas, conclui-se que as modificações humanas explicam 55% da variação na diversidade de espécies e 42% da diferença na composição das comunidades de árvores. A forma como se mede a diversidade (espécies, grupos funcionais ou linhagens evolutivas) e o tamanho das árvores explicam apenas cerca de 5% das diferenças entre florestas.

“Por mais que as florestas primárias degradadas sejam menos diversas e tenham um apanhado de espécies diferentes daquelas que não sofreram impactos, elas são muito mais diversas do que as florestas secundárias. Estas vão demorar séculos para ter árvores de grande porte e os serviços ecossistêmicos fornecidos por essas espécies”, explica Cássio Alencar Nunes, pesquisador da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, e da Universidade Federal de Lavras (UFLA).

A Amazônia abriga até 16 mil espécies de árvores. Um único hectare frequentemente contém mais de 300. Em comparação, toda a Europa tem cerca de 450 espécies nativas de árvores.

Nunes coordenou o trabalho com outra cientista brasileira no Reino Unido, Erika Berenguer, pesquisadora das universidades de Lancaster e de Oxford. Berenguer monitora as áreas analisadas no estudo desde 2010.

“Nossos resultados mostram que, quando se trata de compreender as influências humanas sobre as florestas tropicais, não importa se a abordagem é para medir perda de espécies, de funções ecológicas ou linhagens evolutivas. As influências humanas são tão profundas que todas essas medidas estão mudando”, explica Berenguer em um comunicado da Universidade de Lancaster.

O trabalho teve apoio da FAPESP por meio do projeto “ECOFOR: Biodiversidade e funcionamento de ecossistemas em áreas alteradas pelo homem nas Florestas Amazônica e Atlântica”, no âmbito do Programa BIOTA.

“O estudo demonstra que é preciso continuar investindo em restauração e na proteção das florestas secundárias, uma vez que qualquer área com remanescentes florestais contribui muito mais com os serviços ecossistêmicos do que áreas sem floresta. No entanto, os resultados mostram com bastante clareza que as florestas primárias são imprescindíveis e precisam ser conservadas, mesmo que já tenham sofrido distúrbios”, avalia Carlos Joly, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenador do projeto e coautor do estudo.

Florestas para sempre

Durante a Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (COP30) ocorrida em Belém, em novembro de 2025, estabeleceu-se o TFFF, um fundo global para o financiamento da conservação das florestas tropicais. Para os autores do estudo, mecanismos do tipo são essenciais para oferecer condições para que as florestas sejam conservadas em vez de derrubadas para a exploração de atividades econômicas que contribuem para o agravamento das crises climática e da biodiversidade.

A comparação entre florestas intocadas e que sofreram distúrbios realizada no estudo aponta que mesmo a exploração seletiva de madeira, tida como uma forma de manejo sustentável, tem impactos profundos na diversidade das árvores.

Assim, mecanismos como o TFFF são importantes para garantir a conservação, independentemente de ganhos econômicos possíveis nessas áreas, ainda que ditos sustentáveis, segundo Berenguer.

“Embora o foco da COP30 tenha sido principalmente o carbono, é essencial vincular as discussões climáticas à biodiversidade se quisermos superar as crises climática e de biodiversidade. Em última instância, é a biodiversidade que garante a provisão de serviços ecossistêmicos, inclusive o sequestro e o armazenamento de carbono”, afirma a pesquisadora.

O artigo Multifaceted assessment of amazonian tree diversity reveals pervasive impacts of human modification pode ser lido em: onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/gcb.70595.


Fonte: Revista Fapesp

Pequenos fragmentos florestais isolados são importantes para a preservação das populações de aves

florestas isoladas 1Pequenos remanescentes florestais são frequentemente considerados marginais, mas seu valor pode aumentar se as paisagens circundantes forem menos áridas e a cobertura arbórea próxima for mantida ou restaurada. Crédito da imagem: Alexandre C. Lees.

Por  Rodrigo de Oliveira Andrade para “scidev.net” 

[SÃO PAULO, SciDev.Net] Os pequenos fragmentos florestais que restam após a exploração madeireira e o avanço da agricultura ou a criação de reservatórios hidrelétricos podem ajudar a proteger mais espécies de aves do que se imagina, especialmente quando seu ambiente imediato é menos hostil e abundante em cobertura arbórea.

A conclusão desafia uma premissa ecológica amplamente aceita: a de que remanescentes florestais menores e mais isolados tendem a abrigar poucas espécies e geralmente são considerados de baixo valor para a conservação da biodiversidade. Ela deriva de um estudo publicado recentemente na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

Além disso, a pesquisa se destaca porque “fornece evidências convincentes de que o valor ecológico de um remanescente florestal não pode ser compreendido apenas por sua área de superfície”, disse o ecologista Juan Pablo Ramírez-Delgado, pesquisador da Universidade do Norte da Colúmbia Britânica, Canadá, em um comentário sobre o estudo publicado na mesma revista em 11 de maio.

O trabalho original combinou dados de pesquisas sobre aves em escala de paisagem em regiões tropicais e subtropicais da América Latina, África e Ásia com imagens de satélite da cobertura arbórea ao redor de fragmentos florestais para medir até que ponto um ambiente com maior cobertura florestal pode atenuar o risco de extinção de espécies locais.

Realizada por 58 cientistas de 19 países, a pesquisa comparou dois tipos de remanescentes florestais: ilhas florestais criadas por reservatórios hidrelétricos — consideradas uma das formas mais extremas de fragmentação de habitat — e fragmentos florestais terrestres, geralmente formados por desmatamento e cercados por áreas agrícolas.

Ilhas florestais são uma das formas mais extremas de fragmentação de habitat. Crédito da imagem: Anderson Saldanha Bueno.

“Como as ilhas representam o cenário mais extremo de isolamento, pudemos avaliar como a melhoria da paisagem circundante influencia o número de espécies de aves em fragmentos florestais”, disse ao SciDev.Net o biólogo Anderson Saldanha Bueno, professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Farroupilha, Rio Grande do Sul, Brasil, e principal autor do estudo publicado na PNAS .

No total, foram analisados ​​mais de 1.000 remanescentes florestais — 336 ilhas florestais e 669 fragmentos terrestres — e cerca de 2.000 espécies de aves. Entre elas, cinco espécies estão criticamente em perigo, 12 em perigo, 44 ​​vulneráveis, 83 quase ameaçadas e 1.810 classificadas como de menor preocupação.

A pesquisa descobriu que o que acontece fora do fragmento — na chamada paisagem circundante — pode influenciar decisivamente a persistência e o número de espécies de aves que o habitam.

Em particular, fragmentos florestais rodeados por áreas agrícolas apresentam taxas de extinção de aves mais baixas em comparação com fragmentos do mesmo tamanho localizados em ilhas formadas por barragens ou reservatórios.

“O número de espécies de aves em remanescentes florestais de até um hectare pode mais que dobrar quando o ambiente imediato é composto por áreas terrestres com um número maior de árvores.”

Anderson Saldanha Bueno, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Farroupilha, Rio Grande do Sul, Brasil

E as perdas de espécies associadas à redução da área — um indicador conhecido pelos ecologistas como relação espécie-área — foram menores tanto em ilhas quanto em fragmentos terrestres quando outros fragmentos florestais estavam próximos, em um raio de até 300 metros.

“O número de espécies de aves em remanescentes florestais de até um hectare pode mais que dobrar quando o ambiente imediato é composto por áreas terrestres com um número maior de árvores”, acrescentou Bueno.

“Em outras palavras, aumentar o número de árvores em apenas 300 metros ao redor de um fragmento reduz significativamente a taxa de extinções locais, especialmente entre as aves dependentes da floresta”, explicou ele.

Segundo Bueno, o número de aves pode duplicar quando o ambiente imediato consiste em áreas terrestres com maior número de árvores. Crédito da imagem: Luis Fábio Silveira.

Segundo o pesquisador, isso ocorre porque as árvores próximas facilitam a movimentação das aves entre os fragmentos e oferecem alimento e abrigo, reduzindo o isolamento das populações.

“A proteção de florestas extensas e intactas continua sendo essencial, mas as descobertas indicam que os esforços de conservação devem ir além”, observou Ramírez-Delgado em seu comentário na PNAS .

“Medidas como o reflorestamento em áreas próximas aos remanescentes, o plantio ou a preservação de árvores dispersas e a promoção de mosaicos agrícolas mais complexos podem contribuir para reduzir o risco de extinção local”, acrescentou.

“O que distingue este estudo é a força, a escala e a clareza da comparação. Em vez de se concentrarem em ilhas oceânicas, os autores usam ilhas de reservatório como um raro experimento natural para explorar como o contexto da paisagem influencia a biodiversidade após a fragmentação”, acrescentou.

Para a bióloga Eliana Cazetta, professora da Universidade Estadual de Santa Cruz, Bahia, Brasil, que não participou do estudo publicado na PNAS , a conclusão é importante para a conservação. “Nem todas as soluções dependem da expansão de áreas protegidas”, disse ela à SciDev.Net . “A melhoria do ambiente imediato de fragmentos florestais existentes também pode contribuir para a redução da perda de biodiversidade.”

Segundo ela, isso pode ser alcançado por meio do plantio de árvores, da restauração da vegetação degradada e da conexão de fragmentos florestais, como reservas legais e áreas de preservação permanente. “Dessa forma, é possível aumentar substancialmente o número de espécies sem expandir a área total de floresta remanescente.”

“Em vez de ignorarmos os pequenos fragmentos florestais, precisamos reconhecê-los como peças-chave para a conservação da biodiversidade”, conclui Bueno.


Fonte:  SciDev.Net

Peixes de recifes de até 150 m de profundidade desenvolvem funções ecológicas altamente especializadas para sobreviver

Peixe Tosanoides aphroditeTosanoides aphrodite, espécie endêmica do Brasil, foi registrada nos dois arquipélagos, onde habita recifes mesofóticos. Foto: Luiz Rocha / Acervo Pesquisadores

Peixes de recifes mesofóticos, que ocorrem entre 30 e 150 metros de profundidade, desenvolvem estratégias altamente especializadas para sobreviver em arquipélagos brasileiros, aponta um novo estudo publicado na revista Neotropical Ichthyology na segunda (27). A pesquisa foi conduzida por pesquisadores do Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (CEBIMar/USP), em parceria com a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e a California Academy of Sciences.

Enquanto Fernando de Noronha apresenta maior riqueza de espécies, com similaridade nos papéis ecológicos, o Arquipélago de São Pedro e São Paulo, mais isolado, abriga menos espécies, mas que tendem a ser mais diferenciadas e especializadas.

A equipe realizou expedições científicas a Fernando de Noronha e ao Arquipélago de São Pedro e São Paulo entre 2017 e 2019. Para mapear 6.982 peixes de 95 espécies, os cientistas realizaram um Censo Visual Subaquático a até 120 metros de profundidade. Em áreas demarcadas de 40 metros quadrados, os pesquisadores anotaram visualmente a espécie, a quantidade e o tamanho de cada indivíduo. A contagem começava no fundo do oceano e continuava gradativamente enquanto eles subiam em direção à superfície.

“Estas amostragens foram realizadas com o uso de mergulho técnico utilizando rebreathers, um sistema de circuito fechado que nos permite mergulhar fundo e por mais tempo”, detalha Julia Marx, pesquisadora da USP e autora do estudo. Ela explica que a técnica exige mais de 100 horas de treinamento, pois requer o uso de misturas gasosas e protocolos rigorosos de paradas longas para descompressão.

Embora Fernando de Noronha seja muito maior e abrigue um número superior de espécies por estar associada à sua maior conectividade com áreas costeiras, foi o isolado conjunto de ilhas de São Pedro e São Paulo que apresentou uma maior riqueza funcional, ou seja, uma maior diversidade de papéis ecológicos exercidos pelas espécies em seu habitat.

A pesquisadora explica que os ambientes mesofóticos apresentam condições ambientais mais restritivas, com menor disponibilidade de luz e diferenças na estrutura do habitat em relação às áreas mais rasas. “Quando isso se soma ao isolamento extremo de São Pedro e São Paulo, apenas espécies com características muito específicas conseguem se estabelecer ali”, comenta.

Assim, as espécies desempenham papéis ecológicos mais diferenciados dentro da dinâmica dos recifes. “Se perdermos essas espécies mais especializadas, podemos perder funções inteiras do ecossistema”, alerta Marx. “Diferente de ambientes onde várias espécies têm papéis semelhantes, aqui essa similaridade parece ser menor, tornando o sistema mais sensível a mudanças na composição de espécies. Isso pode desencadear efeitos em cascata, como desequilíbrios na cadeia alimentar ou mudanças na estrutura do recife”, complementa.

Diante dessa fragilidade estrutural, os achados da pesquisa indicam que as diretrizes ambientais precisam ser atualizadas. Atualmente, a proteção de santuários ecológicos ainda foca predominantemente na biodiversidade visível das partes rasas, tratando as zonas mais profundas apenas como uma extensão do mesmo ambiente. Incorporar o gradiente de profundidade no planejamento e nas leis de Áreas Marinhas Protegidas é um passo decisivo para garantir que a resiliência dos oceanos continue funcionando frente aos desafios do futuro, apontam os autores.


Fonte: Agência Bori

Incêndios, secas e tempestades de vento tornam vegetação da Amazônia menos diversa, mostra estudo publicado na PNAS

Estudo liderado por brasileiros mostra substituição de espécies por generalistas, sem tendência de savanização; porém, áreas recuperadas são mais vulneráveis

Pesquisa foi realizada com base em 20 anos de monitoramento de campo (foto: Paulo Brando).

Por Luciana Constantino  para “Agência FAPESP” 

Mesmo após incêndios, secas severas e tempestades de ventos, a vegetação de florestas degradadas na Amazônia demonstra alta capacidade de regeneração, incluindo espécies arbóreas. A recuperação, no entanto, ocorre sob novas condições ecológicas, com perda de diversidade e aumento de vulnerabilidade a novos distúrbios.

Pesquisa publicada na segunda-feira (20/04) na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), uma das revistas científicas mais citadas no mundo, mostra que há substituição de espécies vulneráveis por outras generalistas, mais resistentes. Indica, assim, segundo os autores, a formação de florestas homogêneas, mas não uma tendência à savanização, como parte da literatura científica vinha apontando. Esse processo reforça a resiliência do bioma.

Por outro lado, o estudo, realizado com base em 20 anos de monitoramento de campo e liderado por brasileiros, destaca que as áreas recuperadas são mais vulneráveis a eventos extremos cada vez mais frequentes no bioma e aos impactos do desmatamento e das mudanças climáticas. Além de intensificar secas e incêndios, o aquecimento global prejudica os serviços ecossistêmicos, como a regulação de água e a captura de carbono.


O grupo documentou a perturbação e a recuperação em uma floresta experimental em Mato Grosso, chamada Tanguro, localizada em uma região de transição entre os biomas Amazônia e Cerrado. Foram acompanhadas três parcelas de 50 hectares cada – uma de controle sem queima, outra queimada anualmente (entre 2004 e 2010) e a terceira com queimas trienais (2004, 2007 e 2010) (foto: Paulo Brando)

De acordo com os pesquisadores, essa compreensão é fundamental para orientar a conservação florestal e as estratégias de mitigação, especialmente frente a eventos como o El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento do oceano Pacífico na faixa equatorial que provoca alterações na circulação atmosférica e no regime de chuvas em escala global.

“A principal mensagem do nosso estudo é que, mesmo altamente degradadas, as florestas conseguem se recuperar. No entanto, estão muito vulneráveis a novos distúrbios. Elas são resilientes, mas, mesmo assim, é preciso preservar. No sítio experimental, temos o controle e o fogo não ocorre mais na área, o que não é possível fazer na Amazônia toda”, pondera à Agência FAPESP o biólogo Leandro Maracahipes, primeiro autor do artigo juntamente com o engenheiro florestal Paulo Brando.

O trabalho é resultado do pós-doutorado de Maracahipes no Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp). Atualmente, ele é pesquisador na Yale School of the Environment (Estados Unidos) e também colaborador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). O biológo e Brando têm apoio da FAPESP, respectivamente, por meio de Bolsa de Pós-Doutorado e Projeto Temático.

Acompanhamento

O grupo documentou a perturbação e a recuperação em uma floresta experimental em Mato Grosso, chamada Tanguro, localizada em uma região de transição entre os biomas Amazônia e Cerrado. Foram acompanhadas três parcelas de 50 hectares cada – uma de controle sem queima, outra queimada anualmente (entre 2004 e 2010) e a terceira com queimas trienais (2004, 2007 e 2010). Cada uma delas está próxima a áreas agrícolas, que eram utilizadas como pastagem com gramíneas exóticas.

“A escolha do lugar é chave, já que modelos climáticos consideram que a região de transição da Amazônia para o Cerrado será a primeira a sofrer mudanças com os impactos do aquecimento global. Essa pesquisa é inovadora porque integra múltiplos fatores estressantes, como fogo, vento forte e seca, e mostra que a floresta sofreu, se degradou e depois voltou. Mais empobrecida de espécies, porém ainda com características de floresta”, explica o ecólogo e professor do IB-Unicamp Rafael Silva Oliveira.


Com o passar do tempo e aumento da cobertura arbórea (fechamento do dossel), especialmente a partir de 2016, as gramíneas reduziram drasticamente. Para os pesquisadores, isso sugere que os danos causados à floresta não a transformaram em uma paisagem definitiva do tipo savana (foto: Paulo Brando)

Também autor do artigo e então supervisor de Maracahipes no pós-doutorado, Oliveira complementa: “Outro ponto importante é que as árvores cresceram e as gramíneas saíram, sem evidência de savanização. Os modelos criados pelos climatólogos foram úteis para alertar sobre os riscos à Amazônia, mas simplificaram os ecossistemas tropicais, reduzindo-os à floresta ou à savana. Isso ajudou a fortalecer a ideia de um ‘ponto de não retorno’, ainda pouco sustentada por dados de campo. Na prática, a Amazônia é muito mais diversa, com diferentes tipos de florestas e vulnerabilidades. Ao incorporar esse olhar biológico, mostramos uma Amazônia menos previsível e mais resiliente em algumas regiões do que os modelos sugerem”.

Oliveira também teve apoio da FAPESP por meio do Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE).

Passo a passo

Os resultados mostraram que, com a suspensão das queimadas, a recuperação da estrutura e do funcionamento da floresta foi rápida em seu interior, com diversidade de espécies relativamente estável.

Já nas áreas de borda o processo foi mais lento, com riqueza de espécies caindo de 20% a 46%, entre 2004 e 2024. O efeito de borda é uma alteração ecológica que ocorre nas margens de áreas desmatadas, onde a floresta passa a ter contato direto com ambientes abertos, como pastagens, estradas ou lavouras, alterando o clima e a biodiversidade.

Apesar da recuperação de alguns serviços ecossistêmicos, como fluxos de carbono e de água, com o crescimento de vegetação após os incêndios a composição de espécies mudou. Passou a ter mais generalistas, com características de tolerância à seca, mas que estão operando em limiares perigosos. A composição original de espécies não retornou mesmo após 14 anos, principalmente das consideradas especialistas de floresta.

As gramíneas foram fator-chave para promover fogos de alta intensidade e impediram a regeneração de árvores, tendo inicialmente se expandido ao longo das bordas. Foram observadas espécies ligadas a áreas de pastagens, como Aristida longifolia e Imperata sp, de origem africana. Após incêndios de alta severidade, gramíneas invasoras, especialmente Andropogon gayanus, entraram nas bordas, atingindo o pico em 2012.

Com o passar do tempo e aumento da cobertura arbórea (fechamento do dossel), especialmente a partir de 2016, elas foram reduzidas drasticamente, ficando apenas manchas de gramíneas tolerantes à sombra. Para os pesquisadores, isso sugere que os danos causados à floresta não a transformaram em uma paisagem definitiva do tipo savana.

“Olhando para a parte biológica, quando analisamos a composição de espécies de gramíneas na floresta que passou por distúrbios, vemos que são espécies utilizadas em pastagem, como braquiária e andropogon. Se o aumento fosse de espécies nativas, poderíamos dizer que o componente graminoso seria um fator importante na recuperação de florestas degradadas. Além disso, não há chegada de espécies lenhosas de savana. Nosso sítio experimental está a cinco quilômetros de áreas de savana do Cerrado, podendo ter fonte de propagação, e mesmo assim não registramos essa savanização”, complementa Maracahipes, que fez análise da composição das espécies ao longo dos anos no local.

A pesquisa mostrou ainda que a vulnerabilidade da floresta ao fogo aumenta por causa da casca fina das árvores; enquanto a baixa densidade da madeira prejudica mais em tempestades de vento. Nas secas severas algumas espécies operam próximo ao potencial de perda da condutividade hidráulica.

Um ponto que se mostrou importante na regeneração florestal foi a presença de fauna local, sendo mamíferos (como antas e macacos) e aves agentes-chave para promover o reaparecimento de árvores consideradas “especialistas de florestas”, ou seja, com alta densidade de madeira e de vida longa.

Cenário

Mesmo com uma queda significativa do desmatamento na Amazônia principalmente nos últimos dois anos, o bioma vem sofrendo com degradações constantes. O fogo tem sido o principal fator. Enquanto o desmate remove totalmente a cobertura de vegetação, a degradação enfraquece a floresta sem destruí-la por completo.

Entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, o desmatamento na Amazônia Legal afetou uma área de 1.324 quilômetros quadrados (km²), com uma redução de 35% em comparação ao ciclo anterior (agosto de 2024 a janeiro de 2025). Já a degradação florestal atingiu uma área de 2.923 km² no período.

Nos primeiros três meses de 2026, foi registrado o segundo menor nível para o primeiro trimestre do ano – 399,59 km², o que representa queda de cerca de 7% em relação a 2025. Os dados são do Deter, sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) de alerta de desmatamento em tempo real.

Para este ano, outra preocupação é com a possibilidade de um “super El Niño” a partir do segundo semestre até 2027. Novas projeções do Centro Europeu de Previsão Meteorológica de Médio Prazo apontam para a possibilidade de um fenômeno com potencial para ser o mais intenso em 140 anos. Em 2024, a seca que afetou a Amazônia foi provocada pelo El Niño e seus efeitos vêm sendo estudados até hoje.

“Apesar da resiliência da floresta, a preservação ainda é o caminho que precisamos buscar”, conclui Maracahipes.

O artigo Forest recovery pathways after fire, drought and windstorms in southeast Amazonia pode ser lido em: pnas.org/doi/10.1073/pnas.2532833123.


Fonte: Agência Fapesp

Redução de espécies marinhas coloca em risco saúde de comunidades pesqueiras do litoral nordestino

Foto: Luiz Rocha / Integramar

A segurança nutricional de comunidades pesqueiras do litoral nordestino pode correr risco diante da redução de espécies marinhas ameaçadas de extinção pelas mudanças climáticas, ambientais e pelo crescimento da pesca comercial. Isso é o que alerta artigo de pesquisadores brasileiros da Rede Integramar, das universidades federais do Rio Grande do Norte (UFRN), de Santa Maria (UFSM) e do Pará (UFPA), em parceria com universidades internacionais, e publicado na segunda (16) na revista People and Nature.

A pesquisa mostra que os pescados são a principal fonte de proteína animal das famílias pesqueiras nordestinas, representando de 30% a 40% da ingestão mensal, seguida de ovos (15-20%) e frango (8-15%). Além disso, correspondem a mais de 70% da oferta dos nutrientes avaliados, em especial cálcio, selênio e ômega-3. Diante da iminente redução do consumo de peixes (ricos em cálcio, ferro, selênio e ácidos graxos Ômega 3), a saúde dos moradores locais pode ser afetada, aumentando o risco de desnutrição, anemia, doenças cardiovasculares e problemas cognitivos.

Para chegar a estes dados, em 2024, a equipe entrevistou 111 famílias de pescadores, de seis comunidades dos estados do Rio Grande do Norte (Touros, Rio do Fogo e Baía Formosa) e Pernambuco (Ipojuca, Tamandaré e São José da Coroa Grande) – todas com amplo potencial de pesca comercial e artesanal. O estudo também listou 122 espécies mais capturadas e consumidas e simulou a potencial extinção delas em cenários climáticos futuros com base em características como tamanho, vulnerabilidade e nível na cadeia alimentar. A partir dessas informações, os pesquisadores estimaram o impacto na saúde nutricional das famílias.

Por exemplo, a possível extinção de 25% das espécies de peixes poderia reduzir em mais de 70% a oferta dos nutrientes avaliados. Quando se trata de espécies mais nutritivas perdidas, a redução de nutrientes poderia ultrapassar 90%. “Se o peixe desaparecer, as famílias não necessariamente vão passar fome, pois restam ainda as outras opções de alimentos, mas podem ficar mal nutridas. Ou seja, não se trata apenas de comida na mesa, mas da qualidade dessa comida”, observa o pesquisador Fabrício Albuquerque, um dos autores do artigo.

Albuquerque explica que o estudo mostra que conservar a biodiversidade tem impacto direto na saúde das comunidades tradicionais e que a partir deste levantamento é possível orientar políticas públicas de proteção também de espécies com alto valor nutricional (ou seja, para além do valor econômico), como peixes papagaio e sardinhas, e de áreas de interesse ambiental, como recifes e manguezais. “A perda de biodiversidade atinge de forma desigual quem mais depende dela. Assim, proteger os peixes do Nordeste brasileiro é também proteger as pessoas que vivem do mar e sua cultura”, conclui o pesquisador.


Fonte: Agência Bori

Biodiversidade em perigo: agrotóxicos causam diminuição na quantidade de aves

En route pour les alternatives aux pesticides - Natura Sciences

Por Ulrike Bickel para “Amerika21”

Paris. Um novo estudo da França mostra o declínio das populações de aves com o uso frequente de agrotóxicos. O resultado é particularmente relevante para a América Latina, já que a região consome mais agroquímicos do mundo. Somente entre 2000 e 2020, a participação da região no consumo global de pesticidas aumentou de 44 para 51%, segundo a Organização das Nações Unidas para as Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Isso foi apontado pelo estudo “Eles nos envenenam” do Center for Reproductive Rights.

Na América Latina, a conexão entre o uso de agrotóxicos e a extinção de espécies também é conhecida há anos, não apenas desde o relatório da Plataforma Intergovernamental de Ciência-Política sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) sobre polinizadores, serviços ecossistêmicos e produção de alimentos em 2016. O uso de agrotóxicos sintéticos tem sido associado ao declínio das populações de insetos, aves e outros animais benéficos na América Latina há décadas.

O novo estudo francês, publicado em 14 de janeiro na revista Proceedings of the Royal Society B, compara dados sobre vendas de agrotóxicos com observações de espécies comuns de aves na França. Para 84% das espécies estudadas, quanto mais pesticidas eram vendidos, menor a população. O estudo demonstra o papel direto e indireto dos pesticidas no declínio da biodiversidade, como destacado pelo jornal Le Monde e por agências europeias.

Diversos estudos já mostraram que agrotóxicos podem ter efeitos prejudiciais em uma ampla variedade de espécies, incluindo abelhas, minhocas e aves, bem como na saúde humana. Já em 2021, um estudo documentou que a população de aves de campo e urbanas na França havia diminuído 30% nas últimas três décadas.

O estudo traz novas percepções sobre as causas: a análise conecta dois bancos de dados sobre a venda de agrotóxicos na França e a observação de aves comuns. Segundo a primeira autora Anne-Christine Monnet, pesquisadora do Centro de Ecologia e Ciências da Conservação do Museu Nacional de História Natural da França, a correlação é negativa para 84,4% das espécies estudadas: quanto mais agrotóxicos são vendidos, menor a abundância da espécie e de sua população. O efeito é muito forte, e muitas espécies são afetadas.

O estudo examina pela primeira vez os efeitos de 242 diferentes ingredientes ativos de agrotóxicos em toda a França. Foca em todos os tipos de aves comumente encontradas em áreas agrícolas, incluindo rouxinolos, pintassilgos e falcões. Além disso, os pesquisadores separaram o efeito direto dos agrotóxicos de outros fatores relacionados à intensificação da agricultura, como tamanho das parcelas, diversidade paisagística, sebes, tipo de cultura e uso de arado.

Os cientistas do Museu Nacional de História Natural da França e da Universidade de Poitiers utilizaram dados de 2017 do Registro Nacional de Vendas de Pesticidas por Distribuidores Autorizados por CEP.

Para confirmar que o volume de vendas refletia a poluição local, os pesquisadores compararam os dados com outro banco de dados de resíduos de agrotóxicos em águas superficiais. Eles encontraram muitas correlações positivas: quanto mais substâncias tóxicas eram aplicadas, mais resíduos eram encontrados na água.

Os dados foram cruzados com o monitoramento em tempo real de aves comuns, um programa científico que captura variações na biodiversidade na França. Das 64 espécies de aves que utilizam regularmente os habitats agrícolas estudados, 54 foram estatisticamente significativas ou quase significativamente menos comuns nas regiões onde os pesticidas eram mais vendidos. A contaminação dos campos afeta todas as espécies de aves.

De acordo com a Fundação para Pesquisa em Biodiversidade, que não participou do estudo, os resultados são muito significativos. A maioria das espécies estudadas reagiu negativamente ao aumento do uso de pesticidas. Os agrotóxicos afetam as aves tanto diretamente quando comem sementes tratadas ou insetos ou plantas contaminadas, quanto indiretamente ao reduzir as fontes de alimento disponíveis, como insetos.

O estudo, portanto, comprova descobertas da América Latina, onde os efeitos negativos do uso de agrotóxicos na saúde e no meio ambiente são há muito tempo documentados em regiões agrícolas intensivas (relatou o Amerika21).


Fonte: Amerika21

Mais agrotóxico, menos pássaros: estudo francês comprova efeito de venenos agrícolas na biodiversidade

Um estudo francês publicado nesta quarta-feira (14) cruza dados sobre vendas de pesticidas e monitoramento de aves comuns e revela que, nas regiões onde os produtos fitossanitários são mais usados, a abundância de aves cai significativamente. Para 84% das espécies analisadas, quanto mais pesticida vendido, menor sua população. A pesquisa evidencia o papel direto e indireto dos pesticidas no declínio da biodiversidade, destacou o jornal Le Monde e as principais agências europeias

Desde a década de 1990, cerca de um terço das populações de aves que vivem em áreas agrícolas teria desaparecido. (imagem ilustrativa) FRANCOIS NASCIMBENI / AFP

Por RFI 

Abelhas, minhocas, pássaros… Diversos estudos já demonstraram que os agrotóxicos podem causar efeitos prejudiciais em uma ampla variedade de espécies. Ainda assim, entender e medir com precisão o impacto desses produtos sobre a biodiversidade continua complexo. A pesquisa publicada nesta quarta-feira na revista Proceedings of the Royal Society B traz novos elementos: na França, a população de aves é menor nas áreas onde os pesticidas são mais comprados.

A análise que cruza duas bases de dados — sobre a comercialização de agrotóxicos na França e o acompanhamento de aves comuns — mostra o papel dos produtos fitossanitários no colapso da biodiversidade. 

“Para 84,4% das espécies analisadas, a correlação é negativa: quanto mais pesticidas vendidos, menor a abundância de espécies e população”, resume Anne‑Christine Monnet, primeira autora e pesquisadora do Centro de Ecologia e Ciências da Conservação (Museu Nacional de História Natural da França/CNRS/Sorbonne).

“O efeito é muito forte. Muitas espécies são afetadas.” Na França, a população de aves comuns do campo e de áreas urbanas caiu quase 30% nas últimas três décadas”, atestou a pesquisadora.

Diferentemente de estudos anteriores, esta pesquisa analisa os efeitos de 242 substâncias diferentes, cobrindo toda a França metropolitana, e não apenas de um ou dois pesticidas específicos. Ela se concentra em todas as espécies de aves comuns que frequentam ambientes agrícolas, e não apenas naquelas especializadas nesses habitats. Além disso, os pesquisadores tentaram separar o efeito direto dos pesticidas de outros fatores ligados à intensificação da agricultura, como o tamanho das propriedades e a diversidade da paisagem.

Rouxinóis, pintassilgos e gaviões

Para chegar a esses resultados, os cientistas do Museu Nacional de História Natural da França (MNHN) e da Universidade de Poitiers usaram dados de 2017 do Registro Nacional de Vendas de Produtos Fitossanitários por distribuidores autorizados. Essa base pública, criada em 2006 e acessível desde 2019, reúne informações sobre vendas de agrotóxicos associadas aos códigos postais dos compradores.

Para confirmar que o volume de vendas refletia a contaminação ambiental local, os pesquisadores compararam os dados com outra base sobre resíduos de pesticidas em águas superficiais. “Encontramos muitas correlações positivas”, diz Anne-Christine Monnet. “Quanto mais substâncias tóxicas, mais resíduos aparecem na água.”

Os dados foram cruzados com o monitoramento em tempo real de aves comuns, um programa de ciência que registra variações na abundância de espécies na França. Entre os 64 tipos de aves presentes em ambientes agrícolas analisados — como rouxinóis, pintassilgos e gaviões — 54 apresentaram menor abundância nas regiões onde os pesticidas eram mais vendidos, de forma estatisticamente significativa ou próxima disso. “A contaminação dos campos afeta não apenas as espécies altamente dependentes desses habitats, mas todas as que os utilizam regularmente”, explicam os pesquisadores.

“Os resultados são muito fortes, mesmo quando análises desse tipo costumam ter limitações”, observa Stanislas Rigal, pesquisador da Fundação para a Pesquisa sobre a Biodiversidade, que não participou do estudo. A maioria das espécies analisadas responde negativamente ao aumento do uso de pesticidas.

Como os agrotóxicos afetam as aves

O impacto pode ser direto, quando os pássaros ingerem sementes tratadas ou se alimentam de insetos ou plantas contaminadas. Também há efeito indireto, ao reduzir recursos disponíveis, como insetos que serviriam de alimento.

Para garantir que os efeitos observados não fossem confundidos com outros fatores da agricultura intensiva, os pesquisadores incluíram em seus modelos variáveis como tipo de cultivo, tamanho das parcelas, extensão de cercas vivas, uso de arado, entre outros. “Assim, podemos verificar se os efeitos negativos dos pesticidas estão realmente ligados ao produto, e não ao tipo de cultura, por exemplo”, explica Monnet.

Os autores destacam ainda que, embora o acesso ao registro de vendas de pesticidas represente um avanço importante para estudar seu impacto, a base poderia ser aprimorada ao relacionar as vendas com as parcelas específicas onde os produtos são aplicados.


Fonte: RFI