Clã Bolsonaro e o Bolsa Família: como a família do presidente mudou de discurso em troca de votos

Presidente que determinou aumento no Auxílio Brasil pouco antes das eleições, já defendeu que assistencialismo seria compra de votos

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Por Lucas Maia para a Agência Tatu

O presidente da República Jair Bolsonaro (PL) discursou na cidade de Garanhuns, em Pernambuco, no dia 17 de setembro, para lembrar que o programa Bolsa Família já não existe e defender o Auxílio Brasil, lançado por seu governo durante a pandemia da Covid-19 e que foi ampliado dois meses antes das eleições gerais no Brasil.

No entanto, a relação de Jair Bolsonaro e seus filhos políticos com os programas sociais de transferência de renda nem sempre foi positiva. Os dados, analisados pela Agência Tatu, foram extraídos das redes sociais do Clã Bolsonaro (formado por Jair, Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro) pela plataforma METAMEMO e apontam a mudança nos discursos.

Ataques ao Bolsa Família 

O primeiro dos 216 registros de menção ao programa social identificados pela plataforma  METAMEMO nas redes sociais ocorreu em 2014, quando Jair Bolsonaro utilizou uma reportagem do jornal Estado de S. Paulo para criticar o governo do PT. Na postagem, o então deputado federal vinculava o Bolsa Família a supostos ‘kit gay’ e ‘bolsa crack’.

“Kit-gay, bolsa família, auxílio-reclusão, bolsa crack… o eleitorado do PT cresce e o trabalhador de verdade é taxado e tachado”, publicou Bolsonaro, junto a uma reportagem que falava de um programa paulista para fornecer tratamento a usuários de drogas.

Até 2017, a família presidencial seguiu tecendo críticas ao programa. Em março de 2014, Carlos Bolsonaro, hoje conhecido por ser o estrategista digital da família, dava publicidade a sua atuação como vereador na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. “O único a votar contra a criação do Bolsa Família municipal”, afirmou.

O comentário mais ideológico a respeito do programa apareceu em maio daquele mesmo ano, quando Jair afirmou que um dos principais propósitos seria a compra de votos.

“São inúmeros os absurdos que envolvem esse programa social, a começar por seus principais propósitos: a compra do voto, o controle dos mais fracos e o disfarce do alto índice de desemprego. Uma prova dessa estratégia foi o aumento de 10% no Bolsa Família anunciado recentemente por Dilma Rousseff, tentando claramente reverter sua queda nas principais pesquisas de intenção de voto para presidente”, declarou na época.

Em 2017, o discurso a respeito do Bolsa Família começou a mudar. Mas, antes disso, Bolsonaro e seus filhos políticos ainda fizeram outras declarações negativas a respeito do programa, como quando houve a desfiliação de Jair do Partido Progressista, legenda em que permaneceu 11 anos.

“Durante a convenção nacional do Partido Progressista solicitei minha desfiliação sem perda do mandato. O Brasil é muito mais que “Bolsa Família e Pronatec”, temas preponderantes dos candidatos por ocasião das eleições de 2014. Pretendo estar em um partido onde, de acordo com a vontade de vocês, poderei disputar ou colaborar com propostas que verdadeiramente possam fazer do Brasil um país reconhecido no cenário mundial”, disse.

Modulação do discurso 

A partir de 2017, o discurso do clã Bolsonaro começa pouco a pouco a ser modulado para reduzir os ataques ao programa assistencial. “A crítica não é para o Bolsa Família, a crítica é para as fraudes, pois o programa se tornou eleitoreiro”, diz Eduardo Bolsonaro na primeira postagem da família Bolsonaro naquele ano.

As poucas menções ao programa seguem menos críticas até junho de 2018, quando Eduardo Bolsonaro republica um vídeo do apresentador alagoano Sikêra Jr. “[…]se dá Bolsa Família, que é uma prévia de compra de voto antecipadamente, todo mundo sabe disso. Se você for no Nordeste, ninguém quer emprego, quer Bolsa Família. A compra de votos sempre existiu, mas agora é oficial”, argumenta o apresentador durante entrevista à Jovem Pan.

Os dados da plataforma METAMEMO mostram que entre abril de 2015 e outubro de 2018 todas as menções ao Bolsa Família foram feitas pelos filhos de Jair. O então presidenciável usa as suas redes para voltar a falar do programa apenas em 9 de outubro de 2018, dois dias após o primeiro turno das eleições. “O PT é o partido da demagogia! Manteremos o Bolsa Família e combateremos as fraudes para possibilitar o aumento para quem realmente precisa, como dito várias vezes”, afirmou.

Essa foi a primeira vez que Jair Bolsonaro disse em suas redes sociais que fortaleceria o programa.

De acordo com o cientista político Ranulfo Paranhos, professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), defender a manutenção e até a ampliação do programa foi uma decisão puramente eleitoral.

“Essa mudança no discurso, que se percebe a partir de 2017, com efeitos em 2018 e que se repete agora em 2022, está diretamente relacionada à estratégia de campanha. Não tem como um candidato à vaga de presidente da república sustentar um discurso contrário ao auxílio aos mais necessitados”, explica.

Ainda segundo Paranhos, esta modulação no discurso está diretamente relacionada à intenção de conquistar votos de uma parcela relevante do eleitorado brasileiro.

Assistência social como estratégia eleitoral

Durante a campanha para o segundo turno das eleições de 2018, a família Bolsonaro inicia uma nova promessa: o 13º do Bolsa Família. O argumento mais presente nas postagens é de que existiriam fraudes no programa e o encerramento dessas fraudes permitiria o pagamento de uma parcela extra do benefício. Esse discurso persiste até a aprovação e início dos pagamentos da parcela adicional.

A partir de então, se tornam muito mais frequentes as comparações com os governos petistas e se inicia uma disputa tanto do número de beneficiários, quanto dos valores destinados ao programa em cada governo. Estes comparativos só se tornam mais fortes com a pandemia do coronavírus.

A partir do aumento de gastos com assistência social, a família Bolsonaro começa a propagandear o aumento nos valores e número de beneficiários tanto do Bolsa Família quanto de outros programas sociais, o que se intensifica ainda mais com a criação do Auxílio Brasil. Com isso, em março de 2022, Jair Bolsonaro fez uma publicação em sua conta no Instagram onde defende os programas de assistência social de seu governo.

“Graças ao maior programa assistencial que o mundo já viu, milhões de brasileiros não passaram fome. R$ 355 bilhões pagos diretamente a mais de 68 milhões de pessoas; Se considerarmos que cada pagamento beneficiou ao menos mais uma pessoa, podemos dizer que mais da metade dos brasileiros foram beneficiados pelo auxílio; Em 2020, o valor disponibilizado foi equivalente a 15 anos de bolsa família”, afirma a publicação do presidente, o que gerou, inclusive, diversas manifestações contrárias de seus seguidores na plataforma.

Para o cientista político Ranulfo Paranhos, a modulação do discurso se dá em um contexto onde o presidente da república sabe que a única forma de tentar conquistar votos do estrato social mais pobre da população brasileira é apoiando programas de transferência de renda. “Mesmo modulando o discurso e garantindo que o programa seja mantido e até aumentando o valor, ele não tem conseguido conquistar a parcela do voto desse eleitorado”, pondera.

Ainda de acordo com Ranulfo, estudos estatísticos revelam uma correlação entre votos para governos petistas e regiões com maior número de beneficiários de programas sociais. Pesquisas eleitorais mais recentes revelam, no entanto, que o aumento do Auxílio Brasil por Bolsonaro não se reflete em votos para o candidato a reeleição.

“Na prática, as pessoas reconhecem a política pública e votam naquele que criou a política pública. Nesse caso o PT vai levar a maioria dos votos. E ainda que o presidente chame isso de compra de votos, esse não é o caso”, conclui.

O outro lado

A Secretaria de Comunicação da Presidência da República foi procurada para comentar as postagens, mas até o fechamento desta reportagem não houve qualquer resposta. O espaço segue aberto.


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Este texto foi inicialmente publicado pela Agência Tatu [Aqui!].

A extinção do “Bolsa Família” sinaliza uma nova etapa na guerra aos pobres no Brasil

bolsa familiaGoverno Bolsonaro extingue “Bolsa Família” e deixa milhões de brasileiros passando fome e sem alternativas à vista

Em meio a mais um caso aparente de caos organizado, o governo Bolsonaro deixou morrer o “Bolsa Família“, sem que haja ainda um programa que permita a entrega de recursos para milhões de brasileiros que hoje passam fome.  Essa extinção por morte desassistida se soma a outras ações do governo Bolsonaro, como o virtual esvaziamento do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)  que tem contribuído para viabilizar a entrega de alimentos produzidos pela agricultura familiar em escolas públicas. Assim, para avançar as políticas ultraneoliberais que alimentam os lucros fabulosos e crescentes dos bancos, está evidente que o governo Bolsonaro decidiu exterminar todas as políticas sociais que, de alguma forma, serviram nos últimos 20 anos para aliviar a pobreza e a fome no Brasil.

Mas enquanto avança sua guerra contra os pobres, Jair Bolsonaro arranja um tempo para ser ignorado na cúpula do G-20 onde vem passando por situações embaraçosas, pois está sendo evitado por quase todo os líderes presentes. Mas nem isso parece ser um problema para o presidente brasileiro que vem aproveitando a agenda sem compromissos para praticar seu turismo de rua em Roma, como se no Brasil não houvessem milhões de pessoas passando fome (ver imagem de passeio de Jair Bolsonaro pelas ruas de Roma).

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A questão que merece ser refletida não é nem a posição de Jair Bolsonaro acerca dos pobres e da necessidade de manter uma estrutura de amortecimento para a crise social que as políticas de seu (des) governo agravaram. Bolsonaro e seu governo são, digamos, incorrigíveis. O problema maior são as elites econômicas que se comportam como se não houvesse nada de ruim ocorrendo sob o “Sol de parador”, pois está claro que se depender dos banqueiros e latifundiários, Jair Bolsonaro não só continuará presidindo o Brasil, mas como haverá cobrança para que aprofunde sua guerra contra os pobres.

Um elemento que também merece reflexão é sobre a posição dos partidos ditos de esquerda que nas suas administrações em estados e municípios não estão se comportando de forma muito diferente do governo federal. Isso revela que mesmo que Jair Bolsonaro seja derrotado eleitoralmente em 2022, haverá necessidade de se organizar a classe trabalhadora para enfrentar a devastação social e ambiental que suas políticas estão criando.  Em outras palavras, não se pode ter qualquer ilusão que a simples vitória eleitoral vai nos tirar do atoleiro em que fomos colocados pela dupla Bolsonaro e Guedes.

Ao olhar para ruas cada vez mais cheias de brasileiros desempregados e passando fome, a certeza que fica é que o caminho de saída não se fará pela via das urnas.

Os invisíveis: 38 milhões ficarão sem assistência com o fim do auxílio emergencial

  • Pesquisa da FGV descreve grupo de trabalhadores “invisíveis” que recebe auxílio emergencial
  • Renda usual de 74% desses trabalhadores não excede R$1.254 mensais.
  • Com auxílio emergencial, ganho médio dos trabalhadores invisíveis foi de 38%

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Por bori

Um contingente de 38 milhões de trabalhadores brasileiros que recebeu o auxílio emergencial do governo federal durante a pandemia não está inscrito no Cadastro Único do governo federal e, por isso, não receberá os benefícios do Bolsa Família quando o auxílio emergencial for extinto. Chamados recentemente de “invisíveis” pelo ministro Paulo Guedes, eles representam 61% dos trabalhadores que receberam auxílio emergencial. Mais da metade desses trabalhadores desempenham atividades informais (64%) e têm um baixo nível de qualificação com, no máximo, ensino fundamental (55%), fatores que os tornam vulneráveis às intempéries do cenário econômico. A análise, de pesquisadores do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira (FGVcemif) da Fundação Getulio Vargas, está em relatório publicado na terça (6).

Para explorar a questão dos trabalhadores “invisíveis” e entender como um futuro cenário de ausência de mecanismos de transferência de renda e de falta de recuperação econômica poderia afetá-los, os pesquisadores trabalharam com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Covid-19 de trabalhadores que receberam o auxílio emergencial. Além de descrever as características dos “invisíveis” — que receberam o auxílio, mas não recebem o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) –, os pesquisadores estimaram os efeitos do auxílio emergencial sobre a renda desses trabalhadores e atualizaram estimativas de pesquisas anteriores de efeitos sobre renda de todos os trabalhadores. O governo federal ainda não detalhou como vai inserir esses trabalhadores no programa social Renda Cidadã, anunciado na semana passada (28).

O ganho médio de renda dos trabalhadores “invisíveis” foi semelhante ao ganho de outros tipos de trabalhadores. Dentre os invisíveis, os trabalhadores informais são os que obtêm maior ganho percentual de renda com o auxílio emergencial. No caso das mulheres, o ganho de renda comparado à renda usual anterior à pandemia chega a 52%. Nos homens, o ganho é de 37% comparado à renda anterior. 

Apesar de estarem fora do radar do Cadastro Único e, consequentemente, não poderem acessar o principal programa de transferência de renda do governo, a maioria destes trabalhadores (74%) ganha em torno de R$1.254,00 mensais, o que os coloca em uma posição de vulnerabilidade. “O fato de não serem pobres o suficiente os torna inelegíveis para o Bolsa Família, enquanto outros não atendem aos critérios de elegibilidade do Benefício de Prestação Continuada, destinado a pessoas com deficiência ou aposentados. Também temos falhas de implementação do programa e falta de recursos para expansão que causam essa situação de invisibilidade dessas pessoas”, explica o pesquisador Lauro Gonzalez, autor do estudo.

Para Lauro, o auxílio emergencial escancarou a precariedade de parcela relevante do mercado de trabalho no Brasil e mostra a insuficiência do Bolsa Família como programa de transferência de renda social. “Há um contingente de milhões que, embora não recebam o Bolsa Família ou o BPC, possuem fluxos de renda baixos e variáveis, geralmente oriundos de atividades inseridas na economia do ‘bico’”, diz. Para sair desta situação, segundo ele, “é preciso repensar as políticas de transferência de renda e formular programas que levem em consideração as características da baixa renda e suas formas de inserção no mercado de trabalho”.

Fonte: Agência Bori

Mesmo com profunda crise social e econômica, desmanche das políticas sociais deve continuar em Campos dos Goytacazes

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Apesar da péssima repercussão causada pelo fechamento do Restaurante Popular, do aumento de 100% no valor da passagem de ônibus, e da suspensão do programa Cheque Cidadão, ainda não foi sacia a volúpia da administração do prefeito Rafael Diniz (PPS) de desmantelar o pouco de assistência social aos mais pobres no município de Campos dos Goytacazes.

É que acabo de receber de uma fonte que considero idônea a informação de que o programa “Cheque Cidadão”, ora suspenso, deverá ser substituído por outro programa que será denominado de “Cartão Cooperação”. Na sua nova roupagem, o “Cartão Cooperação” será vedado a cidadãos pobres que já sejam detentores do programa federal conhecido como “Bolsa Família”.  

Se isto de fato se concretizar, a vedação dos detentores do “Cartão Cooperação” ao benefício do Bolsa Família poderá representar um duro golpe a famílias mais pobres que dependem hoje da combinação destes dois programas, cuja soma máxima chega a R$ 395,00.

Interessante notar que este encolhimento nos programas sociais municipais ocorrerá em meio a uma profunda crise econômica no plano nacional, e que localmente tem se traduzido não só no aumento na população de rua, mas principalmente nos níveis de violência, especialmente nas áreas mais pobres do município de Campos dos Goytacazes.

Enquanto isso, e a despeito do discurso oficial,  inúmeras evidências no sentido do aumento das nomeações para cargos comissionados, incluindo parentes diretos de vereadores que fazem parte da base de sustentação do prefeito Rafael Diniz na Câmara de Vereadores.

Como já afirmei anteriormente, essa regressão no fornecimento de apoio aos segmentos mais pobres da população não apenas é extremamente insensível, como também tem todo o potencial para gerar situações de profundos conflitos sociais. Se isso realmente acontecer, não será suficiente culpar uma suposta “herança maldita” herdada do governo da ex-prefeita Rosinha Garotinho. É que na idade das redes sociais, não há como esconder ou sequer maquiar a profunda distância que existe entre programa de campanha e ação de governo.  Simples assim.

 

E agora coxinhas? IBGE mostra que crescimento da população é menor entre os beneficiários da Bolsa Família!

Queda de natalidade é maior entre beneficiários do Bolsa Família, diz IBGE

 Carlos Madeiro,  Do UOL, em Messias (AL)

 

Beto Macário/UOL

Maria Eliane, 35, mora em Messias (a 48 km de Maceió), em Alagoas, tem três filhos e acredita que, nos dias de hoje, é muito

Maria Eliane, 35, mora em Messias (a 48 km de Maceió), em Alagoas, tem três filhos e acredita que, nos dias de hoje, é muito.

Já se foi o tempo em que as famílias mais pobres eram sinônimo de filhos e mais filhos. Entre 2003 e 2013, segundo a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o número de filhos de até 14 anos caiu 10,7% no Brasil. No recorte das famílias 20% mais pobres do país, a queda foi de 15,7%. É justamente esse estrato social que inclui os quase 15 milhões de beneficiários do Bolsa Família.

A redução é ainda mais significativa no Nordeste, onde está mais da metade dos beneficiários do programa do governo federal. As famílias 20% mais pobres da região registraram queda de 26,4% no número de filhos –maior redução entre todos os estratos de renda e região.

Em 2013, as mães brasileiras tinham, em média, 1,6 filho até 14 anos. Entre aquelas 20% mais pobres do Nordeste, a média foi de dois filhos –quando era de 2,5 no início do século.

O recorte da Pnad foi divulgado pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, que acredita que os números põem fim ao argumento de que as pessoas mais pobres engravidam para receber valores maiores do Bolsa Família.

“Quem diz isso não pensa quanto custa ter um filho. É óbvio que este valor não paga o leite da criança e as despesas que virão depois. O preconceito parte do princípio de que o que move as pessoas para a maternidade ou a paternidade é apenas uma motivação financeira”, afirmou a ministra Tereza Campello. Segundo o ministério, o valor médio do benefício é de R$ 167 mensais. Para chegar ao valor final, o cálculo leva em conta diversos fatores, como análise se a família está em extrema pobreza, quantidade de filhos e se mulher é gestante.

Menos filhos no Nordeste

Maria Benedita, 30, mora em Messias (a 48 km de Maceió), em Alagoas, e com dois filhos está na média nordestina. Para evitar surpresas, fez uma laqueadura. “Para que ter muito filho? Pobre não é para ter tanto menino não”, diz a beneficiária do Bolsa Família, sendo apoiada pela mãe. “Antigamente, todo mundo tinha trabalho, não faltava emprego. Hoje, os jovens estudam, mas não têm emprego, estão todos de cara pra cima sem ter o que fazer”, disse Cícera da Silva, 55.

Maria Eliane, 35, também mora em Messias e recebe o benefício. Com três filhos, ela explica que o terceiro veio por um motivo especial. “Era para ser só dois, mas, como queríamos um casal e nasceram duas meninas, resolvemos ter o terceiro”, disse.

Para perceber na prática que o tamanho da família diminuiu no Nordeste, basta conversar com pessoas idosas. Aos 83 anos, o pai de Maria Elaine, o aposentado José Fernando Melo, conta que teve 18 filhos e perdeu as contas de quantos netos tem. “Deve ser uns 30”, brinca. “Naquele tempo, morava em uma fazenda lá em Murici. Era fácil criar criança: deixava solta e tava tudo certo. Hoje é muito trabalho.”

Mas, mesmo em tempos de redução familiar, há quem renegue os métodos anticoncepcionais. Aos 34 anos, Fernanda da Silva esperou ter cinco filhos para fazer a laqueadura. “Nunca usei nenhum anticoncepcional. Os meninos vieram conforme Deus mandava. Não vejo problema em ter muitos meninos”, afirmou. “Eu até gosto.”

Fenômeno “recente” e “complexo”

Para o professor de economia popular da Universidade Federal de Alagoas Cícero Péricles Carvalho, a queda no número de filhos das famílias nordestinas mais pobres é um fenômeno complexo e recente.

Ele aponta a urbanização –75% da população já está nas cidades–, o maior acesso à informação com a chegada da energia elétrica e a entrada da mulher pobre no mercado de trabalho como fatores que explicam os números e o maior acesso a métodos anticoncepcionais.

“Nas zonas urbanas, existem maiores possibilidades na área educacional, de saúde e de acesso a outras políticas públicas. A energia trouxe a televisão, que chega a 96% dos lares nordestinos. Também é importante lembrar o colchão social que representa a combinação Previdência Social e Bolsa Família com 18 milhões de famílias”, explicou.

O professor também vê influência financeira no planejamento familiar das famílias mais pobres. “Existe uma prioridade do pagamento do Bolsa Família às mulheres, que são chefes da família, o que dá maior grau de autonomia ao mundo feminino, assim como melhora sua autoestima. E isso tudo –renda, educação, trabalho, acesso à saúde pública, mais informação– influencia decisivamente na queda do número de filhos por família”, afirmou.

FONTE: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/04/01/queda-de-natalidade-e-maior-entre-beneficiarios-do-bolsa-familia-diz-ibge.htm

Tese sobre impacto do Bolsa Família na alimentação ganha Prêmio CAPES

Estudo de Ana Paula Bortoletto Martins, da FSP/USP, utilizou dados da POF e confirmou o aumento do gasto com alimentação, principalmente de produtos in natura

O objetivo do estudo de Ana Paula foi avaliar o impacto do programa federal na realidade alimentar da população. Para isso, a doutoranda recorreu aos dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no biênio 2008-09 em uma amostra probabilística de 55.970 domicílios brasileiros e distinguiu blocos de domicílios beneficiados e não beneficiados pelo método do ‘pareamento com escore de propensão’. Os indicadores da aquisição de alimentos utilizados incluíram o gasto empenhado, a quantidade adquirida ou sua disponibilidade. Os valores per capita do montante gasto em reais e da disponibilidade em energia foram comparados levando-se em conta o conjunto dos itens alimentares e três grupos criados com base na extensão e propósito do processamento industrial ao qual o item alimentar foi submetido: alimentos in natura ou minimamente processados, ingredientes culinários processados e produtos prontos para consumo (processados ou ultraprocessados).

Como resultado, foi percebido o aumento do gasto total com alimentação, maior disponibilidade de energia proveniente do conjunto de itens alimentares e maior disponibilidade proveniente de alimentos e de ingredientes, principalmente os in natura, como carnes, tubérculos e hortaliças. Ana Paula destaca que o programa de transferência de renda possibilita ainda autonomia na montagem do cardápio das famílias e auxilia no desenvolvimento local e regional: “Acredito que são duas as principais vantagens do Bolsa Família em relação ao impacto na alimentação das famílias são a autonomia das famílias beneficiárias para comprar o que for mais necessário para elas e o estimulo ao comércio local, incluindo a produção de alimentos locais e regionais, diferente de outras políticas que apenas chegam com um “pacote fechado” de produtos que não suprirão as necessidades das famílias”.

Além da premiação principal, os estudos “A gênese do programa de incentivo fiscal à alimentação do trabalhador (PIFAT/PAT)”, de Jamacy Costa Souza, doutorando do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA) e “Efeitos adversos da Poluição Atmosférica em crianças e adolescentes devido a queimadas na Amazônia: uma abordagem de modelos mistos em estudos de Painel”, de Ludmilla da Silva Viana Jacobson, doutoranda do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/UERJ) ganharam menção honrosa na área da Saúde Coletiva. Os premiados irão receber os certificados em cerimônia prevista para 10 de dezembro, em Brasília. As teses ganhadoras que fazem parte da grande área das Ciências Biológicas; Ciências da Saúde e Ciências Agrárias estarão habilitadas a disputar o Grande Prêmio Capes de Tese Oswaldo Gonçalvez Cruz. Ana Paula Bortoletto Martins está no páreo. Confira a entrevista com a doutoranda.

Abrasco: Você é graduada em Nutrição e desde o mestrado optou pelo campo da Saúde Coletiva. Em um curso com forte aspecto clínico, o que motivou esta escolha?

Ana Paula: Acredito que as atividades extracurriculares que eu participei, como o movimento estudantil de Nutrição e o centro acadêmico, foram  muito importantes na minha escolha profissional. Apesar do curso ter uma formação forte em clínica, o profissional nutricionista na verdade tem um papel que vai muito além da prescrição dietética que, na minha opinião, inclui uma visão interdisciplinar e abrangente, que é o campo da Saúde Coletiva. Além disso, tive a oportunidade de trabalhar como consultora na área de avaliação e monitoramento de políticas públicas do Ministério do Desenvolvimento Social no final do mestrado, o que me motivou a escolher o tema do doutorado.

Abrasco: O Bolsa Família tem motivado diversos estudos no campo da Saúde Coletiva. Na sua pesquisa, quais traços destacam a efetividade do programa dentre os demais do gênero de transferência de renda?

Ana Paula: Acredito que são duas as principais vantagens do Bolsa Família em relação ao impacto na alimentação das famílias são a autonomia das famílias beneficiárias para comprar o que for mais necessário para elas e o estimulo ao comércio local, incluindo a produção de alimentos locais e regionais, diferente de outras políticas que apenas chegam com um “pacote fechado” de produtos que não suprirão as necessidades das famílias.

Abrasco: Logo no início do Plano Real, foi muito noticiado que essa política econômica permitiu o consumo de iogurte e frango pelas classes populares. Quais seriam os alimentos símbolo do Bolsa Família?

Ana Paula: Difícil responder se existem alimentos símbolo do Bolsa Família… eu diria que existe um favorecimento ao consumo de alimentos in natura ou minimamente processados. Os resultados da minha tese não permitem eleger apenas um ou outro alimento.

Abrasco: Como você entende a premiação dentro do contexto das pesquisas em Nutrição em Saúde Coletiva?

Ana Paula: Entendo que a escolha da minha tese na premiação da Capes representa a valorização de pesquisas epidemiológicas com enfoque na aplicação prática para a avaliação de políticas públicas em Nutrição, que é, na minha opinião, uma área em crescimento. Acredito que outro ponto que pode ter contribuído com a escolha da minha tese foi a aplicação de um método e abordagem pouco usuais nessa área, o que demonstra que as inovações na metodologia também são valorizadas.

Abrasco: Você também é pesquisadora associada do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens/USP). Quais são suas atuais e próximas pesquisas?

Ana Paula: No momento, estou revisando o artigo com os resultados da minha tese para publicação. Agora com o prêmio, fiquei ainda mais motivada para publicá-lo em uma boa revista. Além disso, pretendo dar continuidade nas pesquisas de avaliação da disponibilidade e consumo alimentar na população brasileira com base nas pesquisas de orçamentos familiares (que são bancos de dados riquíssimos, porém ainda pouco explorados pelos pesquisadores) junto com meus colegas do Nupens.

FONTE: http://www.abrasco.org.br/site/2014/10/tese-sobre-impacto-do-bolsa-familia-na-alimentacao-ganha-premio-da-capes/