Campos dos Goytacazes: a riqueza do petróleo, a pobreza persistente e as contradições reveladas pelas urnas

Com mais de 200 mil moradores inscritos no Cadastro Único, Campos deu uma vitória expressiva a Flávio Bolsonaro no primeiro turno presidencial. A aproximação da família Garotinho com o bolsonarismo ajuda a compreender esse resultado, mas também levanta uma pergunta incômoda: quem assumiria a responsabilidade por eventuais cortes nas políticas sociais?

A riqueza petrolífera e a persistência da pobreza

Os números do Cadastro Único (CadÚnico) revelam uma das contradições mais marcantes de Campos dos Goytacazes. Em um município historicamente beneficiado pelas receitas da exploração petrolífera, aproximadamente 212 mil moradores estão inscritos no cadastro federal, representando mais de 40% da população. Embora a inscrição no CadÚnico não signifique necessariamente o recebimento do Bolsa Família, esses números evidenciam a dimensão da vulnerabilidade socioeconômica em uma cidade onde a riqueza gerada pela exploração dos recursos naturais continua apresentando uma distribuição profundamente desigual.

A questão central não é a existência de políticas de transferência de renda, que representam instrumentos indispensáveis de proteção social, mas a dificuldade histórica de transformar a riqueza petrolífera em condições dignas de vida para a maioria da população. Enquanto os sinais da concentração de riqueza se multiplicam na paisagem urbana campista, milhares de famílias continuam dependendo de políticas públicas para assegurar suas necessidades básicas. Afinal, de que adianta uma cidade ostentar riqueza se uma parcela tão expressiva de seus habitantes permanece economicamente vulnerável?

O que revelam os resultados eleitorais?

Essa realidade ganha contornos particularmente interessantes quando confrontada com os resultados do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026. Em Campos, Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 160.859 votos (59,10% dos válidos), enquanto Lula (PT) obteve 91.105 votos (33,47%). Dos 370.466 eleitores aptos, 80.008 não compareceram às urnas, enquanto 7.954 votaram em branco e 10.340 anularam seus votos. Somadas, as abstenções e os votos brancos e nulos alcançaram 98.302 eleitores, aproximadamente 26,5% do eleitorado municipal.

Esses números revelam uma combinação que merece investigação: uma cidade com elevada vulnerabilidade social, uma vitória expressiva de um candidato identificado com propostas econômicas liberais e um contingente considerável de eleitores que não registraram votos válidos. Evidentemente, não se pode concluir que os beneficiários de programas sociais tenham votado majoritariamente em qualquer candidato. Entretanto, cabe perguntar quais fatores políticos, culturais e econômicos ajudam a explicar essa configuração eleitoral.

A família Garotinho como correia auxiliar do bolsonarismo

Uma parte da resposta pode estar na atuação da família Garotinho, cuja influência política em Campos atravessa décadas. A aproximação de Wladimir Garotinho com Flávio Bolsonaro não foi apenas circunstancial: o ex-prefeito filiou-se ao PL e assumiu papel na coordenação regional da campanha presidencial, colocando sua experiência política e sua inserção territorial a serviço do projeto eleitoral bolsonarista. Anthony Garotinho, apesar de suas divergências com integrantes do PL fluminense, também declarou que votaria em Flávio Bolsonaro em um segundo turno contra Lula.

Nesse sentido, é possível interpretar a atuação de integrantes da família Garotinho como uma espécie de correia auxiliar eleitoral do bolsonarismo em Campos dos Goytacazes. Essa aproximação é especialmente relevante porque a família construiu grande parte de sua trajetória política associando sua imagem ao atendimento das necessidades das camadas populares e à implementação de políticas sociais. A hipótese é que essa transferência de capital político tenha ajudado a aproximar o bolsonarismo de segmentos populares historicamente vinculados aos Garotinho, embora não existam dados suficientes para quantificar esse efeito.

Assim, a aparente contradição entre vulnerabilidade social e preferência eleitoral por Flávio Bolsonaro torna-se menos surpreendente. Afinal, as escolhas eleitorais não decorrem exclusivamente da condição econômica, sendo também mediadas por lideranças locais, relações de confiança e identificações políticas construídas ao longo de muitos anos. A aliança de ocasião entre setores do garotismo e o bolsonarismo oferece, portanto, uma hipótese explicativa relevante para o resultado eleitoral campista.

O Bolsa Família e os riscos para a proteção social

Há, entretanto, uma questão que não deveria ficar ausente desse debate. Durante o governo de Jair Bolsonaro, o Bolsa Família foi extinto como programa específico e substituído pelo Auxílio Brasil, mantendo-se as transferências federais de renda sob outras regras. Em 2023, o governo Lula restabeleceu o Bolsa Família. Essa trajetória demonstra que mudanças de governo podem alterar substancialmente o desenho, os critérios e o financiamento das políticas de proteção social.

Embora Flávio Bolsonaro tenha declarado que pretende manter o Bolsa Família, permanecem questões sobre a compatibilidade entre a preservação dos benefícios e propostas de contenção de despesas públicas. Não seria correto afirmar que sua eleição significaria necessariamente o fim do programa, mas é legítimo exigir esclarecimentos sobre as garantias orçamentárias e institucionais de sua continuidade. Afinal, preservar o nome de uma política pública não significa necessariamente preservar seus valores, sua cobertura e suas condições de acesso.

Nesse contexto, cabe formular uma hipótese: como se comportaria o eleitorado campista se houvesse maior conhecimento sobre os possíveis efeitos das diferentes propostas econômicas para o financiamento das políticas sociais? A resposta não pode ser presumida, mas a pergunta ganha importância diante da quantidade de famílias que dependem direta ou indiretamente dessas políticas.

Quem vai levantar a lebre sobre o futuro do Bolsa Família?

A pergunta ganha especial importância em Campos, onde a vulnerabilidade social convive com uma estrutura política marcada pela influência de lideranças tradicionais. A aproximação de integrantes da família Garotinho com o bolsonarismo acrescenta uma dimensão ao problema: como essas lideranças conciliam sua trajetória de identificação com políticas sociais com o apoio a um candidato cujas propostas de ajuste das despesas públicas precisam ser examinadas quanto aos seus possíveis efeitos sobre a proteção social?

Quem pode levantar essa discussão? A imprensa local, os pesquisadores das universidades públicas, as organizações comunitárias, os movimentos sociais e as próprias famílias beneficiárias têm condições de cobrar respostas verificáveis. A responsabilidade também recai sobre os candidatos e suas lideranças locais, que devem explicar como pretendem conciliar seus compromissos sociais com suas propostas fiscais.

A questão já entrou na disputa nacional. Flávio Bolsonaro reafirmou que pretende manter o Bolsa Família e o Farmácia Popular. Ao mesmo tempo, notícias sobre possíveis mudanças nas despesas obrigatórias suscitaram questionamentos sobre o alcance do ajuste fiscal defendido por sua candidatura. A campanha nega que algumas dessas medidas estejam em seu programa. Por isso, o debate precisa ultrapassar tanto as promessas genéricas quanto as acusações sem comprovação.

E se a conta chegar? Quem vai embalar Mateus?

O caso de Campos dos Goytacazes expõe três questões interligadas: por que décadas de exploração petrolífera não foram suficientes para reduzir de maneira mais expressiva a vulnerabilidade social; como essa realidade se relaciona com as escolhas políticas dos habitantes; e em que medida a influência de lideranças tradicionais, como os Garotinho, contribui para organizar e transferir apoios eleitorais.

Mas há uma última questão, que merece uma pitada de ironia. Imaginemos, por hipótese, que Flávio Bolsonaro seja eleito e, contrariando suas declarações atuais, resolva restringir significativamente ou mesmo extinguir o Bolsa Família. Como se comportariam seus aliados nos governos estadual e municipal? Defenderiam a preservação dos benefícios, buscariam recursos próprios para compensar as perdas ou procurariam justificar as decisões tomadas em Brasília?

A questão não seria apenas política. Uma redução expressiva das transferências federais atingiria diretamente a renda das famílias mais pobres e poderia diminuir a circulação de dinheiro nos bairros populares, afetando pequenos mercados, farmácias, padarias e outros estabelecimentos comerciais. Em uma cidade onde a vulnerabilidade social alcança uma parcela tão significativa da população, os efeitos econômicos e sociais poderiam ultrapassar amplamente o universo dos beneficiários diretos.

E quem assumiria a responsabilidade por essas consequências? É nesse ponto que a sabedoria popular oferece duas expressões particularmente apropriadas: “filho feio não tem pai” e “quem pariu Mateus que o embale”. Em um cenário de redução dos benefícios, seria interessante observar se os três níveis de governo assumiriam suas respectivas responsabilidades ou se começaria uma interminável disputa para descobrir quem deveria embalar Mateus.

Afinal, não seria surpreendente que, diante de uma eventual deterioração das condições sociais, cada esfera de governo apontasse para outra, enquanto as famílias afetadas continuariam esperando por soluções. O governo federal poderia invocar a necessidade de ajuste fiscal; o estadual, suas limitações orçamentárias; e o municipal, a falta de recursos para compensar as perdas. Tudo isso, evidentemente, em nome da responsabilidade administrativa.

No fim das contas, a ironia seria esta: na hora de celebrar a vitória eleitoral, Mateus teria muitos pais; na hora de enfrentar as consequências sociais de eventuais cortes, talvez ninguém quisesse assumir a tarefa de embalá-lo. E há um detalhe particularmente saboroso nessa história: Anthony Garotinho também é Mateus, ao menos no nome. Resta saber se, diante de uma eventual redução do Bolsa Família, o experiente político campista estaria disposto a embalar o Mateus que ajudou a colocar no colo dos eleitores ou se preferiria recorrer à velha máxima de que filho feio não tem pai. Afinal, quando se trata de repartir os dividendos eleitorais, sempre aparecem muitos parentes; quando chega a conta da pobreza, corre-se o risco de descobrir que Mateus ficou órfão nos três níveis de governo.

Luciano Huck, o Bolsa Família e o preconceito de classe travestido de preocupação fiscal

Enquanto criminaliza um programa social que reduz a fome e consome parcela modesta do orçamento público, o apresentador silencia sobre os privilégios do sistema financeiro, os gastos bilionários com a dívida pública e as conexões com o universo bancário de Daniel Vorcaro e do Banco Master

O recente episódio envolvendo o apresentador Luciano Huck e suas declarações sobre o Bolsa Família revela mais do que uma simples opinião mal formulada sobre políticas sociais. Expõe, na verdade, um preconceito estrutural profundamente arraigado entre parcelas das elites econômicas e midiáticas brasileiras: a ideia de que os pobres seriam naturalmente inclinados à acomodação, à dependência e à fraude, enquanto os privilégios dos muito ricos seriam vistos como expressão legítima de mérito e empreendedorismo.

Durante participação em um fórum empresarial promovido pela Esfera Brasil, Huck afirmou que o Bolsa Família criaria “atalhos” para que famílias permanecessem “ad aeternum” no programa, desestimulando a busca por emprego. A reação negativa foi imediata porque os dados oficiais e os estudos acadêmicos disponíveis contradizem frontalmente essa narrativa.

Segundo levantamento citado pelo próprio UOL, estudos do FMI, Banco Mundial, FGV e Ipea mostram que mais da metade dos beneficiários deixou o Bolsa Família na última década. Além disso, análises reiteradas demonstram que a maioria esmagadora dos beneficiários trabalha — geralmente em empregos precários, mal remunerados e informais — utilizando o programa apenas como complemento mínimo de renda para sobreviver em um país marcado por desigualdades brutais.

O preconceito implícito na fala de Luciano Huck não é novo. Ele ecoa uma longa tradição brasileira de criminalização da pobreza. O pobre que recebe algumas centenas de reais do Estado é imediatamente suspeito de parasitismo social. Já os mecanismos permanentes de transferência de riqueza pública para o sistema financeiro raramente provocam indignação semelhante entre celebridades empresariais e apresentadores de televisão.

E aqui reside uma contradição central que deveria ser debatida publicamente: por que Luciano Huck demonstra tanta preocupação com o Bolsa Família — um programa que representa parcela relativamente pequena do orçamento federal e possui efeitos concretos na redução da fome e da extrema pobreza — enquanto permanece silencioso sobre o gigantesco volume de recursos drenados anualmente pelo pagamento de juros e amortizações da dívida pública?

O debate sobre gastos públicos no Brasil costuma ser profundamente seletivo. O problema nunca parece ser o custo do rentismo financeiro, dos privilégios tributários dos super-ricos, das desonerações empresariais ou dos mecanismos de remuneração da especulação financeira. O alvo preferencial é quase sempre o gasto social destinado aos mais pobres. Trata-se de uma pedagogia ideológica extremamente funcional às elites: convencer a população de que o problema fiscal do país está nos miseráveis, e não nos mecanismos estruturais de concentração de renda.

A situação torna-se ainda mais delicada quando se observa a relação de Huck com o universo financeiro que hoje se encontra no centro de outra grande controvérsia nacional: o colapso do Banco Master e as conexões empresariais de seu controlador, Daniel Vorcaro. Diferentes reportagens apontam que Huck foi garoto-propaganda do Will Bank, instituição ligada ao grupo Master, além de ter mantido relações próximas com Vorcaro. Há ainda relatos de que o apresentador participou de negociações envolvendo possível aquisição do banco digital antes do aprofundamento da crise financeira da instituição.

Nesse contexto, a pergunta inevitável é: qual a opinião de Luciano Huck sobre os custos já produzidos ao Tesouro Nacional e ao sistema financeiro pela crise envolvendo o Banco Master? Afinal, enquanto o Bolsa Família transfere renda para milhões de famílias pobres, os episódios recorrentes de socialização de prejuízos bancários historicamente transferem bilhões de reais para salvar instituições privadas e preservar interesses do mercado financeiro.

A seletividade moral é gritante. Quando o dinheiro público vai para pobres comprarem comida, fala-se em “dependência”. Quando vai para estabilizar bancos, remunerar rentistas ou salvar instituições financeiras problemáticas, fala-se em “responsabilidade fiscal” ou “estabilidade do sistema”.

No fundo, a polêmica em torno de Luciano Huck ajuda a revelar uma disputa muito maior sobre o próprio significado do Estado brasileiro. Um Estado que segue sendo extremamente generoso com o capital financeiro, mas cuja elite econômica reage com indignação sempre que parcelas mínimas da riqueza nacional são direcionadas para garantir dignidade aos mais pobres.

Talvez o maior mérito involuntário da fala de Huck tenha sido justamente escancarar esse duplo padrão moral. Porque o verdadeiro debate nunca foi sobre “dependência” dos pobres. O Brasil convive há décadas, isto sim, com a dependência estrutural de suas elites em relação ao fundo público.

Pesquisadores atualizam diagnóstico da pobreza no Brasil profundo

Autores de Vozes do Bolsa Família examinam o sofrimento social e a exclusão estrutural no país

Doze anos após a publicação de Vozes do Bolsa Família, os pesquisadores Alessandro Pinzani e Walquiria Leão Rego voltam seu olhar para o Brasil esquecido pelas políticas públicas, onde o sofrimento social se naturaliza e a pobreza extrema se perpetua. Em Vidas roubadas: sofrimento social e pobreza, lançamento da Editora Unesp, os autores atualizam seu diagnóstico sobre as mazelas enfrentadas pelos mais vulneráveis do país, reunindo análises e entrevistas com moradores de regiões historicamente marginalizadas.

“Assim como procedemos em nosso livro Vozes do Bolsa Família, quisemos dar voz aos sem-vozes, às pessoas emudecidas ou não ouvidas pelos políticos, pela opinião pública e até mesmo por uma parcela relevante de cientistas sociais”, anotam os autores na introdução. “Ouvimos os marginalizados, ‘os vencidos’, que sempre ficaram às margens da história brasileira, do progresso econômico, civil e jurídico, que, conquanto de forma precária e com graves retrocessos, tentou se instalar no país desde a sua independência.”

A primeira parte da obra traça um panorama das mudanças e retrocessos no cenário político-social da última década, com ênfase na fragilização dos programas de assistência e na negligência estrutural do Estado. Os autores iluminam as macroestruturas que sustentam a exclusão secular de amplas parcelas da população, revelando como a ausência de políticas públicas eficazes e a gestão desastrosa da pandemia agravaram ainda mais as condições de vida nos chamados “rincões do Brasil”.

Na segunda parte do livro, ganham voz os próprios sujeitos dessa realidade – mulheres e homens cuja existência costuma ser reduzida a estatísticas. Suas falas revelam não apenas a luta cotidiana por sobrevivência, mas também o modo como interiorizam a culpa por sua própria condição, em um processo que os autores denominam “sofrimento de segunda ordem”.

Com forte posicionamento ético, Vidas roubadas questiona a hierarquia de credibilidade que silencia os mais pobres e propõe uma escuta atenta às vozes historicamente desautorizadas, configurando-se como um apelo urgente à reflexão e à transformação social. “O fato de uma parcela majoritária da população brasileira ter ficado quase completamente excluída das vantagens de tal progresso ou de tê-las recebido apenas parcial e descontinuamente dá mostras do caráter social do sofrimento que tentaremos descrever neste livro”, registram. “Fomos movidos pela raiva suscitada por uma sociedade que condena as pessoas que entrevistamos a uma vida de sofrimento socialmente evitável.”
 

Sobre os autores – Alessandro Pinzani (UFSC) é especialista em filosofia política e coautor de Vozes do Bolsa Família. Walquiria Leão Rego (Unicamp) pesquisa teoria social e também assina a obra anterior com Pinzani.

Título: Vidas roubadas: sofrimento social e pobreza 
Autores: Alessandro Pinzani, Walquiria Domingues Leão Rego
Número de páginas: 272
Formato: 13,7 x 21 cm
Preço: R$ 69
ISBN: 978-65-5711-292-2

Na cidade do Porto do Açu, 43% dos habitantes dependem do “Bolsa Família” para ter (alguma) renda

Beneficiários do Bolsa Família x Percentual de Habitantes dos municípios de Campos, de Macaé, de Rio das Ostras e de São João da Barra de março de 2023 

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Por José Alves Neto

O gráfico abaixo apresenta os dados dos beneficiários do programa federal de transferência direta e indireta de renda, denominado de Bolsa Família, e o percentual em relação ao número de habitantes dos municípios de Campos, de Macaé, de Rio das Ostras e de São João da Barra, que hoje, fazem parte desse relevante instrumento de inclusão social, segundo a Secretaria Nacional de Renda de Cidadania (SENARC), do mês de março de 2023.

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No caso de Campos, por exemplo, estão no programa 31,60% dos seus 514.643 habitantes.

Em Macaé, os beneficiários chegam a 20,10% de 266.136 habitantes.

E em Rio das Ostras e em São João da Barra, os percentuais, são respectivamente, de 23, 97% de 159.529 habitantes e de 43,02% de 36.731 habitantes.

Diante desses números vergonhosos, observa-se, todavia,  São João da Barra, exibiu no mês de março de 2023, o pior índice. Logo, o município que tem no seu território, um dos maiores investimentos do mundo, o Porto do Açu, que se orgulha de ter investido desde 2014 o total de R$ 20 bilhões, conforme o site (https://portodoacu.com.br/o-porto/). 

É um verdadeiro paradoxo. Em face desse cenário, uma pergunta não quer calar: cadê o desenvolvimento econômico e social do município sanjoanense? 


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Este texto foi inicialmente publicado no “Blog do Zé Alves Neto” [Aqui!].

Bolsa Família x Bolsa Banqueiro: o fosso que separa os ricos dos pobres no Brasil

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Acabo de ouvir uma reportagem dando conta dos múltiplos requisitos que foram postos pelo governo Lula para a concessão da chamada “Bolsa Família” a mais de 20 milhões de famílias pobres. Algumas dessas regras fariam total sentido se não estivéssemos em uma condição totalmente precária em termos não só da geração de empregos, mas também da capacidade limitada de prestação de serviços que deveriam públicos.  A imposição de regras que de cara não serão fáceis de serem cumpridas representa uma negação do direito de milhões de brasileiros a terem um mínimo de condição de melhorarem sua condição de vida.

A coisa fica ainda píor se lembrarmos que o estado brasileiro vem há várias décadas entregando mais da metade do orçamento federa aos bancos na forma do pagamento de juros de uma dívida pública que nunca foi devidamente auditada. Para piorar, os bancos brasileiros, que estão entre os mais lucrativos do planeta, possuem mecanismos de proteção contra perdas que advenham de suas atividades que são verdadeiras “bolsa banqueiro”.

Um exemplo da “Bolsa Banqueiro” foi o repasse de R$ 1,8 bilhão feito pelo Bradesco para a União por causa da decisão da instituição financeira de  repassar seus prejuízos com o imbróglio das Lojas Americanas para a União.  Apenas para ver o tamanho do abusrdo, usando o valor base da Bolsa Família, apenas com esse “repasse” seria possível beneficiar 3 milhões de famílias. 

Por outro lado, se os mesmos “analistas” da mídia corporativa dedicassem o mesmo tipo de viés crítico que dispensam à Bolsa Família à congênere concedida aos banqueiros, eu até acharia que estamos próximos de um debate sério. Mas a verdade está muito longe disso. 

Na prática o que temos é a perpetuação de que os investimentos sociais são gastos inúteis, enquanto que a entrega de grandes nacos do orçamento federal aos bancos seria uma espécie de direito divino.

Clã Bolsonaro e o Bolsa Família: como a família do presidente mudou de discurso em troca de votos

Presidente que determinou aumento no Auxílio Brasil pouco antes das eleições, já defendeu que assistencialismo seria compra de votos

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Por Lucas Maia para a Agência Tatu

O presidente da República Jair Bolsonaro (PL) discursou na cidade de Garanhuns, em Pernambuco, no dia 17 de setembro, para lembrar que o programa Bolsa Família já não existe e defender o Auxílio Brasil, lançado por seu governo durante a pandemia da Covid-19 e que foi ampliado dois meses antes das eleições gerais no Brasil.

No entanto, a relação de Jair Bolsonaro e seus filhos políticos com os programas sociais de transferência de renda nem sempre foi positiva. Os dados, analisados pela Agência Tatu, foram extraídos das redes sociais do Clã Bolsonaro (formado por Jair, Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro) pela plataforma METAMEMO e apontam a mudança nos discursos.

Ataques ao Bolsa Família 

O primeiro dos 216 registros de menção ao programa social identificados pela plataforma  METAMEMO nas redes sociais ocorreu em 2014, quando Jair Bolsonaro utilizou uma reportagem do jornal Estado de S. Paulo para criticar o governo do PT. Na postagem, o então deputado federal vinculava o Bolsa Família a supostos ‘kit gay’ e ‘bolsa crack’.

“Kit-gay, bolsa família, auxílio-reclusão, bolsa crack… o eleitorado do PT cresce e o trabalhador de verdade é taxado e tachado”, publicou Bolsonaro, junto a uma reportagem que falava de um programa paulista para fornecer tratamento a usuários de drogas.

Até 2017, a família presidencial seguiu tecendo críticas ao programa. Em março de 2014, Carlos Bolsonaro, hoje conhecido por ser o estrategista digital da família, dava publicidade a sua atuação como vereador na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. “O único a votar contra a criação do Bolsa Família municipal”, afirmou.

O comentário mais ideológico a respeito do programa apareceu em maio daquele mesmo ano, quando Jair afirmou que um dos principais propósitos seria a compra de votos.

“São inúmeros os absurdos que envolvem esse programa social, a começar por seus principais propósitos: a compra do voto, o controle dos mais fracos e o disfarce do alto índice de desemprego. Uma prova dessa estratégia foi o aumento de 10% no Bolsa Família anunciado recentemente por Dilma Rousseff, tentando claramente reverter sua queda nas principais pesquisas de intenção de voto para presidente”, declarou na época.

Em 2017, o discurso a respeito do Bolsa Família começou a mudar. Mas, antes disso, Bolsonaro e seus filhos políticos ainda fizeram outras declarações negativas a respeito do programa, como quando houve a desfiliação de Jair do Partido Progressista, legenda em que permaneceu 11 anos.

“Durante a convenção nacional do Partido Progressista solicitei minha desfiliação sem perda do mandato. O Brasil é muito mais que “Bolsa Família e Pronatec”, temas preponderantes dos candidatos por ocasião das eleições de 2014. Pretendo estar em um partido onde, de acordo com a vontade de vocês, poderei disputar ou colaborar com propostas que verdadeiramente possam fazer do Brasil um país reconhecido no cenário mundial”, disse.

Modulação do discurso 

A partir de 2017, o discurso do clã Bolsonaro começa pouco a pouco a ser modulado para reduzir os ataques ao programa assistencial. “A crítica não é para o Bolsa Família, a crítica é para as fraudes, pois o programa se tornou eleitoreiro”, diz Eduardo Bolsonaro na primeira postagem da família Bolsonaro naquele ano.

As poucas menções ao programa seguem menos críticas até junho de 2018, quando Eduardo Bolsonaro republica um vídeo do apresentador alagoano Sikêra Jr. “[…]se dá Bolsa Família, que é uma prévia de compra de voto antecipadamente, todo mundo sabe disso. Se você for no Nordeste, ninguém quer emprego, quer Bolsa Família. A compra de votos sempre existiu, mas agora é oficial”, argumenta o apresentador durante entrevista à Jovem Pan.

Os dados da plataforma METAMEMO mostram que entre abril de 2015 e outubro de 2018 todas as menções ao Bolsa Família foram feitas pelos filhos de Jair. O então presidenciável usa as suas redes para voltar a falar do programa apenas em 9 de outubro de 2018, dois dias após o primeiro turno das eleições. “O PT é o partido da demagogia! Manteremos o Bolsa Família e combateremos as fraudes para possibilitar o aumento para quem realmente precisa, como dito várias vezes”, afirmou.

Essa foi a primeira vez que Jair Bolsonaro disse em suas redes sociais que fortaleceria o programa.

De acordo com o cientista político Ranulfo Paranhos, professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), defender a manutenção e até a ampliação do programa foi uma decisão puramente eleitoral.

“Essa mudança no discurso, que se percebe a partir de 2017, com efeitos em 2018 e que se repete agora em 2022, está diretamente relacionada à estratégia de campanha. Não tem como um candidato à vaga de presidente da república sustentar um discurso contrário ao auxílio aos mais necessitados”, explica.

Ainda segundo Paranhos, esta modulação no discurso está diretamente relacionada à intenção de conquistar votos de uma parcela relevante do eleitorado brasileiro.

Assistência social como estratégia eleitoral

Durante a campanha para o segundo turno das eleições de 2018, a família Bolsonaro inicia uma nova promessa: o 13º do Bolsa Família. O argumento mais presente nas postagens é de que existiriam fraudes no programa e o encerramento dessas fraudes permitiria o pagamento de uma parcela extra do benefício. Esse discurso persiste até a aprovação e início dos pagamentos da parcela adicional.

A partir de então, se tornam muito mais frequentes as comparações com os governos petistas e se inicia uma disputa tanto do número de beneficiários, quanto dos valores destinados ao programa em cada governo. Estes comparativos só se tornam mais fortes com a pandemia do coronavírus.

A partir do aumento de gastos com assistência social, a família Bolsonaro começa a propagandear o aumento nos valores e número de beneficiários tanto do Bolsa Família quanto de outros programas sociais, o que se intensifica ainda mais com a criação do Auxílio Brasil. Com isso, em março de 2022, Jair Bolsonaro fez uma publicação em sua conta no Instagram onde defende os programas de assistência social de seu governo.

“Graças ao maior programa assistencial que o mundo já viu, milhões de brasileiros não passaram fome. R$ 355 bilhões pagos diretamente a mais de 68 milhões de pessoas; Se considerarmos que cada pagamento beneficiou ao menos mais uma pessoa, podemos dizer que mais da metade dos brasileiros foram beneficiados pelo auxílio; Em 2020, o valor disponibilizado foi equivalente a 15 anos de bolsa família”, afirma a publicação do presidente, o que gerou, inclusive, diversas manifestações contrárias de seus seguidores na plataforma.

Para o cientista político Ranulfo Paranhos, a modulação do discurso se dá em um contexto onde o presidente da república sabe que a única forma de tentar conquistar votos do estrato social mais pobre da população brasileira é apoiando programas de transferência de renda. “Mesmo modulando o discurso e garantindo que o programa seja mantido e até aumentando o valor, ele não tem conseguido conquistar a parcela do voto desse eleitorado”, pondera.

Ainda de acordo com Ranulfo, estudos estatísticos revelam uma correlação entre votos para governos petistas e regiões com maior número de beneficiários de programas sociais. Pesquisas eleitorais mais recentes revelam, no entanto, que o aumento do Auxílio Brasil por Bolsonaro não se reflete em votos para o candidato a reeleição.

“Na prática, as pessoas reconhecem a política pública e votam naquele que criou a política pública. Nesse caso o PT vai levar a maioria dos votos. E ainda que o presidente chame isso de compra de votos, esse não é o caso”, conclui.

O outro lado

A Secretaria de Comunicação da Presidência da República foi procurada para comentar as postagens, mas até o fechamento desta reportagem não houve qualquer resposta. O espaço segue aberto.


Licença Creative Commons
Esta reportagem só foi possível graças a uma microbolsa oferecida pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.


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Este texto foi inicialmente publicado pela Agência Tatu [Aqui!].

A extinção do “Bolsa Família” sinaliza uma nova etapa na guerra aos pobres no Brasil

bolsa familiaGoverno Bolsonaro extingue “Bolsa Família” e deixa milhões de brasileiros passando fome e sem alternativas à vista

Em meio a mais um caso aparente de caos organizado, o governo Bolsonaro deixou morrer o “Bolsa Família“, sem que haja ainda um programa que permita a entrega de recursos para milhões de brasileiros que hoje passam fome.  Essa extinção por morte desassistida se soma a outras ações do governo Bolsonaro, como o virtual esvaziamento do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)  que tem contribuído para viabilizar a entrega de alimentos produzidos pela agricultura familiar em escolas públicas. Assim, para avançar as políticas ultraneoliberais que alimentam os lucros fabulosos e crescentes dos bancos, está evidente que o governo Bolsonaro decidiu exterminar todas as políticas sociais que, de alguma forma, serviram nos últimos 20 anos para aliviar a pobreza e a fome no Brasil.

Mas enquanto avança sua guerra contra os pobres, Jair Bolsonaro arranja um tempo para ser ignorado na cúpula do G-20 onde vem passando por situações embaraçosas, pois está sendo evitado por quase todo os líderes presentes. Mas nem isso parece ser um problema para o presidente brasileiro que vem aproveitando a agenda sem compromissos para praticar seu turismo de rua em Roma, como se no Brasil não houvessem milhões de pessoas passando fome (ver imagem de passeio de Jair Bolsonaro pelas ruas de Roma).

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A questão que merece ser refletida não é nem a posição de Jair Bolsonaro acerca dos pobres e da necessidade de manter uma estrutura de amortecimento para a crise social que as políticas de seu (des) governo agravaram. Bolsonaro e seu governo são, digamos, incorrigíveis. O problema maior são as elites econômicas que se comportam como se não houvesse nada de ruim ocorrendo sob o “Sol de parador”, pois está claro que se depender dos banqueiros e latifundiários, Jair Bolsonaro não só continuará presidindo o Brasil, mas como haverá cobrança para que aprofunde sua guerra contra os pobres.

Um elemento que também merece reflexão é sobre a posição dos partidos ditos de esquerda que nas suas administrações em estados e municípios não estão se comportando de forma muito diferente do governo federal. Isso revela que mesmo que Jair Bolsonaro seja derrotado eleitoralmente em 2022, haverá necessidade de se organizar a classe trabalhadora para enfrentar a devastação social e ambiental que suas políticas estão criando.  Em outras palavras, não se pode ter qualquer ilusão que a simples vitória eleitoral vai nos tirar do atoleiro em que fomos colocados pela dupla Bolsonaro e Guedes.

Ao olhar para ruas cada vez mais cheias de brasileiros desempregados e passando fome, a certeza que fica é que o caminho de saída não se fará pela via das urnas.

Os invisíveis: 38 milhões ficarão sem assistência com o fim do auxílio emergencial

  • Pesquisa da FGV descreve grupo de trabalhadores “invisíveis” que recebe auxílio emergencial
  • Renda usual de 74% desses trabalhadores não excede R$1.254 mensais.
  • Com auxílio emergencial, ganho médio dos trabalhadores invisíveis foi de 38%

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Por bori

Um contingente de 38 milhões de trabalhadores brasileiros que recebeu o auxílio emergencial do governo federal durante a pandemia não está inscrito no Cadastro Único do governo federal e, por isso, não receberá os benefícios do Bolsa Família quando o auxílio emergencial for extinto. Chamados recentemente de “invisíveis” pelo ministro Paulo Guedes, eles representam 61% dos trabalhadores que receberam auxílio emergencial. Mais da metade desses trabalhadores desempenham atividades informais (64%) e têm um baixo nível de qualificação com, no máximo, ensino fundamental (55%), fatores que os tornam vulneráveis às intempéries do cenário econômico. A análise, de pesquisadores do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira (FGVcemif) da Fundação Getulio Vargas, está em relatório publicado na terça (6).

Para explorar a questão dos trabalhadores “invisíveis” e entender como um futuro cenário de ausência de mecanismos de transferência de renda e de falta de recuperação econômica poderia afetá-los, os pesquisadores trabalharam com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Covid-19 de trabalhadores que receberam o auxílio emergencial. Além de descrever as características dos “invisíveis” — que receberam o auxílio, mas não recebem o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) –, os pesquisadores estimaram os efeitos do auxílio emergencial sobre a renda desses trabalhadores e atualizaram estimativas de pesquisas anteriores de efeitos sobre renda de todos os trabalhadores. O governo federal ainda não detalhou como vai inserir esses trabalhadores no programa social Renda Cidadã, anunciado na semana passada (28).

O ganho médio de renda dos trabalhadores “invisíveis” foi semelhante ao ganho de outros tipos de trabalhadores. Dentre os invisíveis, os trabalhadores informais são os que obtêm maior ganho percentual de renda com o auxílio emergencial. No caso das mulheres, o ganho de renda comparado à renda usual anterior à pandemia chega a 52%. Nos homens, o ganho é de 37% comparado à renda anterior. 

Apesar de estarem fora do radar do Cadastro Único e, consequentemente, não poderem acessar o principal programa de transferência de renda do governo, a maioria destes trabalhadores (74%) ganha em torno de R$1.254,00 mensais, o que os coloca em uma posição de vulnerabilidade. “O fato de não serem pobres o suficiente os torna inelegíveis para o Bolsa Família, enquanto outros não atendem aos critérios de elegibilidade do Benefício de Prestação Continuada, destinado a pessoas com deficiência ou aposentados. Também temos falhas de implementação do programa e falta de recursos para expansão que causam essa situação de invisibilidade dessas pessoas”, explica o pesquisador Lauro Gonzalez, autor do estudo.

Para Lauro, o auxílio emergencial escancarou a precariedade de parcela relevante do mercado de trabalho no Brasil e mostra a insuficiência do Bolsa Família como programa de transferência de renda social. “Há um contingente de milhões que, embora não recebam o Bolsa Família ou o BPC, possuem fluxos de renda baixos e variáveis, geralmente oriundos de atividades inseridas na economia do ‘bico’”, diz. Para sair desta situação, segundo ele, “é preciso repensar as políticas de transferência de renda e formular programas que levem em consideração as características da baixa renda e suas formas de inserção no mercado de trabalho”.

Fonte: Agência Bori

Mesmo com profunda crise social e econômica, desmanche das políticas sociais deve continuar em Campos dos Goytacazes

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Apesar da péssima repercussão causada pelo fechamento do Restaurante Popular, do aumento de 100% no valor da passagem de ônibus, e da suspensão do programa Cheque Cidadão, ainda não foi sacia a volúpia da administração do prefeito Rafael Diniz (PPS) de desmantelar o pouco de assistência social aos mais pobres no município de Campos dos Goytacazes.

É que acabo de receber de uma fonte que considero idônea a informação de que o programa “Cheque Cidadão”, ora suspenso, deverá ser substituído por outro programa que será denominado de “Cartão Cooperação”. Na sua nova roupagem, o “Cartão Cooperação” será vedado a cidadãos pobres que já sejam detentores do programa federal conhecido como “Bolsa Família”.  

Se isto de fato se concretizar, a vedação dos detentores do “Cartão Cooperação” ao benefício do Bolsa Família poderá representar um duro golpe a famílias mais pobres que dependem hoje da combinação destes dois programas, cuja soma máxima chega a R$ 395,00.

Interessante notar que este encolhimento nos programas sociais municipais ocorrerá em meio a uma profunda crise econômica no plano nacional, e que localmente tem se traduzido não só no aumento na população de rua, mas principalmente nos níveis de violência, especialmente nas áreas mais pobres do município de Campos dos Goytacazes.

Enquanto isso, e a despeito do discurso oficial,  inúmeras evidências no sentido do aumento das nomeações para cargos comissionados, incluindo parentes diretos de vereadores que fazem parte da base de sustentação do prefeito Rafael Diniz na Câmara de Vereadores.

Como já afirmei anteriormente, essa regressão no fornecimento de apoio aos segmentos mais pobres da população não apenas é extremamente insensível, como também tem todo o potencial para gerar situações de profundos conflitos sociais. Se isso realmente acontecer, não será suficiente culpar uma suposta “herança maldita” herdada do governo da ex-prefeita Rosinha Garotinho. É que na idade das redes sociais, não há como esconder ou sequer maquiar a profunda distância que existe entre programa de campanha e ação de governo.  Simples assim.

 

E agora coxinhas? IBGE mostra que crescimento da população é menor entre os beneficiários da Bolsa Família!

Queda de natalidade é maior entre beneficiários do Bolsa Família, diz IBGE

 Carlos Madeiro,  Do UOL, em Messias (AL)

 

Beto Macário/UOL

Maria Eliane, 35, mora em Messias (a 48 km de Maceió), em Alagoas, tem três filhos e acredita que, nos dias de hoje, é muito

Maria Eliane, 35, mora em Messias (a 48 km de Maceió), em Alagoas, tem três filhos e acredita que, nos dias de hoje, é muito.

Já se foi o tempo em que as famílias mais pobres eram sinônimo de filhos e mais filhos. Entre 2003 e 2013, segundo a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o número de filhos de até 14 anos caiu 10,7% no Brasil. No recorte das famílias 20% mais pobres do país, a queda foi de 15,7%. É justamente esse estrato social que inclui os quase 15 milhões de beneficiários do Bolsa Família.

A redução é ainda mais significativa no Nordeste, onde está mais da metade dos beneficiários do programa do governo federal. As famílias 20% mais pobres da região registraram queda de 26,4% no número de filhos –maior redução entre todos os estratos de renda e região.

Em 2013, as mães brasileiras tinham, em média, 1,6 filho até 14 anos. Entre aquelas 20% mais pobres do Nordeste, a média foi de dois filhos –quando era de 2,5 no início do século.

O recorte da Pnad foi divulgado pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, que acredita que os números põem fim ao argumento de que as pessoas mais pobres engravidam para receber valores maiores do Bolsa Família.

“Quem diz isso não pensa quanto custa ter um filho. É óbvio que este valor não paga o leite da criança e as despesas que virão depois. O preconceito parte do princípio de que o que move as pessoas para a maternidade ou a paternidade é apenas uma motivação financeira”, afirmou a ministra Tereza Campello. Segundo o ministério, o valor médio do benefício é de R$ 167 mensais. Para chegar ao valor final, o cálculo leva em conta diversos fatores, como análise se a família está em extrema pobreza, quantidade de filhos e se mulher é gestante.

Menos filhos no Nordeste

Maria Benedita, 30, mora em Messias (a 48 km de Maceió), em Alagoas, e com dois filhos está na média nordestina. Para evitar surpresas, fez uma laqueadura. “Para que ter muito filho? Pobre não é para ter tanto menino não”, diz a beneficiária do Bolsa Família, sendo apoiada pela mãe. “Antigamente, todo mundo tinha trabalho, não faltava emprego. Hoje, os jovens estudam, mas não têm emprego, estão todos de cara pra cima sem ter o que fazer”, disse Cícera da Silva, 55.

Maria Eliane, 35, também mora em Messias e recebe o benefício. Com três filhos, ela explica que o terceiro veio por um motivo especial. “Era para ser só dois, mas, como queríamos um casal e nasceram duas meninas, resolvemos ter o terceiro”, disse.

Para perceber na prática que o tamanho da família diminuiu no Nordeste, basta conversar com pessoas idosas. Aos 83 anos, o pai de Maria Elaine, o aposentado José Fernando Melo, conta que teve 18 filhos e perdeu as contas de quantos netos tem. “Deve ser uns 30”, brinca. “Naquele tempo, morava em uma fazenda lá em Murici. Era fácil criar criança: deixava solta e tava tudo certo. Hoje é muito trabalho.”

Mas, mesmo em tempos de redução familiar, há quem renegue os métodos anticoncepcionais. Aos 34 anos, Fernanda da Silva esperou ter cinco filhos para fazer a laqueadura. “Nunca usei nenhum anticoncepcional. Os meninos vieram conforme Deus mandava. Não vejo problema em ter muitos meninos”, afirmou. “Eu até gosto.”

Fenômeno “recente” e “complexo”

Para o professor de economia popular da Universidade Federal de Alagoas Cícero Péricles Carvalho, a queda no número de filhos das famílias nordestinas mais pobres é um fenômeno complexo e recente.

Ele aponta a urbanização –75% da população já está nas cidades–, o maior acesso à informação com a chegada da energia elétrica e a entrada da mulher pobre no mercado de trabalho como fatores que explicam os números e o maior acesso a métodos anticoncepcionais.

“Nas zonas urbanas, existem maiores possibilidades na área educacional, de saúde e de acesso a outras políticas públicas. A energia trouxe a televisão, que chega a 96% dos lares nordestinos. Também é importante lembrar o colchão social que representa a combinação Previdência Social e Bolsa Família com 18 milhões de famílias”, explicou.

O professor também vê influência financeira no planejamento familiar das famílias mais pobres. “Existe uma prioridade do pagamento do Bolsa Família às mulheres, que são chefes da família, o que dá maior grau de autonomia ao mundo feminino, assim como melhora sua autoestima. E isso tudo –renda, educação, trabalho, acesso à saúde pública, mais informação– influencia decisivamente na queda do número de filhos por família”, afirmou.

FONTE: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/04/01/queda-de-natalidade-e-maior-entre-beneficiarios-do-bolsa-familia-diz-ibge.htm