Ciências Brasil – Inglaterra: Cartas entre Charles Darwin e Fritz Müller são tema de livro

A publicação da coleção completa da correspondência entre Charles Darwin, autor de A Origem das Espécies, e seu principal colaborador no Brasil, Johann Friedrich Theodor Müller (Fritz Müller), será o destaque das comemorações do aniversário de nascimento do naturalista catarinense, em 31 de março. Após oito anos de intensa pesquisa, a historiadora e escritora Ana Maria Ludwig Moraes lança a obra “Cartas entre Fritz Müller e Charles Darwin”. O material, organizado originalmente pelo Darwin Correspondence Project (DCP), da Biblioteca da Universidade de Cambridge (Inglaterra), reúne 110 cartas, muitas das quais nunca haviam sido traduzidas para o português. O projeto contou com o apoio do Instituto Histórico de Blumenau (IHB) e do Cônsul Honorário do Reino Unido em Santa Catarina, Michael Delaney. 

Riqueza de detalhes e rigor científico

Com 400 páginas, o livro apresenta os textos originais em inglês e suas respectivas traduções. A troca de mensagens entre os dois naturalistas estendeu-se por 17 anos, de 1865 até a morte de Darwin, em 1882.

O prefácio, assinado pela Universidade de Cambridge, ressalta a importância de Müller entre as mais de 15 mil cartas catalogadas pelo projeto britânico em meio século de buscas. A correspondência com o brasileiro é considerada uma das mais ricas para a compreensão do pensamento evolucionista.

Um dos destaques da obra é a comprovação documental do título Príncipe dos Observadores”, como Darwin carinhosamente se referia a Müller. Ana Maria localizou uma carta endereçada ao botânico alemão Ernst Krause, em 1880, conservada na Biblioteca Huntington, na Califórnia (EUA). Cópia dessa carta foi adquirida pelo IHB e doada ao Arquivo Histórico José Ferreira da Silva.

Um inventário da biodiversidade brasileira

Além do valor histórico, o livro funciona como um catálogo científico. A pesquisa identificou cerca de 900 espécies citadas ou descritas nas cartas. Uma equipe de especialistas elaborou um inventário detalhado, dividido em:

  • Fauna marinha: revisão de Harry Boos Júnior;
  • Botânica: revisão de Juliana Paula-Souza;
  • Entomologia e Aracnídeos: revisão de Isabelli Grothe Mees.

“O conteúdo das cartas é uma fonte primária fundamental para o estudo da história da ciência no século XIX. Elas mostram os caminhos, as dificuldades e os avanços que fundamentam o que conhecemos hoje”, explica a autora. Ana Maria ressalta ainda que os dados sobre a Mata Atlântica fornecem elementos preciosos para as ações contemporâneas de preservação do bioma.

Programação de Lançamento

Os lançamentos estão previstos para o mês de março em três universidades, além de eventos promovidos pela Biblioteca Municipal Fritz Müller e pelo IHB.

O início da colaboração entre Fritz e Darwin:

Em 24 de novembro de 1859, Charles Darwin publicava a primeira edição do livro A Origem das Espécies (On the Origin of Species), uma obra que revolucionaria a ciência a partir do pensamento evolucionista e da teoria da seleção natural.

Um exemplar da obra foi recebido por Fritz Müller em 1861. A publicação do pensador inglês impulsionou as investigações de Fritz a partir dos crustáceos coletados na Praia de Fora, em Florianópolis (Desterro à época) resultando no seu primeiro e único livro  Für Darwin (Para Darwin) – em 1864. Historiadores afirmam que Darwin remunerou uma governanta alemã para que lesse a obra, traduzida para o inglês, já que esta estava escrita em alemão, o que teria acontecido na primavera e verão de 1865, no hemisfério norte.

Assim que terminou a leitura do livro, Darwin escreveu a primeira carta a Fritz Müller, datada de agosto de 1865, elogiando seu trabalho e iniciando um rico intercâmbio de informações científicas que durou 17 anos (1865 a 1882). A teoria, agora, tinha evidência sólida, graças às experiências de campo relatadas no livro de Fritz. Por iniciativa de Darwin, a obra foi traduzida para o inglês em 1869, com o título “Fatos e Argumentos para Darwin”. Esta obra, com a aprovação de Darwin, posicionou Fritz Müller como pesquisador no meio científico alemão, muito embora já possuísse um considerável leque de correspondentes. A discussão entre Müller e Darwin sobre os bastidores da publicação, custos e seu impacto nos meios científicos europeus, constam nas cartas e, é curiosa a observação do cientista inglês de que “essas obras de cunho científico” não despertam muito interesse no público leitor da Inglaterra, àquela época.

As 110 cartas em poder da Biblioteca da Universidade de Cambridge (Inglaterra), foram coletadas ao longo de 50 anos pelo Darwin Correspondence Project (DCP), instituição responsável pelo prefácio do livro de Ana Maria Ludwig Moraes, assinado pelos coordenadores do projeto encerrado em 2022, Shelley Innes e Alison Pearn.

Linha do Tempo: A Conexão Darwin-Müller

  • 1859 (24 de novembro): Charles Darwin publica em Londres a primeira edição de A Origem das Espécies.
  • 1861: O naturalista alemão Fritz Müller, vivendo em Santa Catarina, recebe um exemplar da obra e compara a teoria às suas observações de campo no litoral catarinense.
  • 1864: Como resposta e defesa das teses de Darwin, Müller publica na Alemanha o livro Für Darwin (Para Darwin).  
  • 1865 (Junho/Julho): Darwin, que não falava alemão, contrata a governanta de seus filhos para ler e traduzir para ele, a obra de Müller. O conteúdo apresenta evidências biológicas encontradas no Brasil, o que comprova a teoria da seleção natural.
  • 1865 (Agosto): Darwin escreve a primeira carta para Fritz Müller. Inicia-se um intercâmbio científico que transformaria a colaboração em uma amizade intelectual profunda.
  • 1869: Por influência direta de Darwin, o livro de Fritz Müller é traduzido para o inglês como Facts and Arguments for Darwin (Fatos e Argumentos para Darwin). 
  • 1865 – 1882: Durante 17 anos, os dois cientistas trocam informações, amostras e observações. Müller envia dados cruciais sobre crustáceos e a flora da Mata Atlântica que validam a Seleção Natural.
  • 1882 (19 de abril): Morte de Charles Darwin.
  • Século XX/XXI: O Darwin Correspondence Project (Universidade de Cambridge) dedica mais de 50 anos para localizar e catalogar as mais de 15 mil cartas de Darwin ao redor do mundo.
  • 2018 – 2026: A historiadora Ana Maria Ludwig Moraes dedica oito anos à pesquisa, tradução e atualização da nomenclatura científica da totalidade das 110 cartas trocadas entre os dois naturalistas, contando com uma equipe de tradutores, revisores e especialistas nas áreas de botânica, fauna marinha e entomologia, no Brasil e exterior, que resultou em importante inventário das espécies mencionadas nas cartas.  
  • 2026 (Março): Lançamento oficial da obra “Cartas entre Fritz Müller e Charles Darwin”, revelando segredos e detalhes inéditos desse diálogo histórico.

Sobre a autora:

Ana Maria Ludwig Moraes

Historiadora e Pesquisadora Membro do Instituto Histórico de Blumenau (IHB)

Pesquisadora Independente e Colaboradora Institucional: Atuação em projetos de salvaguarda e difusão para instituições tais como Arquivo Histórico José Ferreira da Silva (Blumenau SC), Museu Koenig da Universidade de Bonn (Alemanha), Universidade de São Paulo (USP), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Institutos Federais de SC, Ministério Público de SC.

O legado botânico do colonialismo

Plantas introduzidas pelos europeus mudaram permanentemente a biodiversidade nas suas colônias

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Os europeus carregaram sementes de plantas nas solas de seus sapatos por toda a América do Norte. Foto: xblickwinkel/F.xHeckerx

Por Norbert Suchanek para o “Neues Deutschland”

As potências coloniais da Europa deixaram cicatrizes profundas na África, Ásia, América e Austrália, traçando fronteiras arbitrárias, escravizando milhões de pessoas, exterminando povos indígenas, culturas e línguas nativas. As consequências do colonialismo ainda são visíveis nas regiões afetadas hoje. Isso também se aplica ao mundo vegetal. Da cana de-açúcar às seringueiras ou ao carvalho europeu: as potências coloniais transportaram intencionalmente e não intencionalmente inúmeras espécies de plantas de um continente para outro. Essas mudanças ainda estão presentes e algumas ainda estão ocorrendo. Isso agora foi estabelecido por uma equipe de pesquisa internacional liderada pelos pesquisadores de biodiversidade Bernd Lenzner e Franz Essl da Universidade de Viena.

No final do século XV, as principais potências europeias começaram a estabelecer colônias em outros continentes e dividiram amplamente o mundo entre si. Até hoje, esses limites são reconhecíveis do ponto de vista dos botânicos. Os cientistas estudaram a flora exótica introduzida em 1.183 áreas de ex-colônias da Grã-Bretanha, Espanha, Portugal e Holanda, abrangendo um total de 19.250 espécies e cultivares de plantas.

As regiões outrora ocupadas pelo mesmo poder colonial europeu ainda são botanicamente mais semelhantes hoje do que outras regiões não dominadas pelo mesmo poder. E quanto mais as regiões foram ocupadas por uma potência colonial, mais parecidas são, segundo pesquisa publicada na revista Nature Ecology and Evolution . “Políticas comerciais restritivas garantiram que as plantas fossem comercializadas principalmente entre regiões ocupadas pelo mesmo poder”, explica o diretor de pesquisa Lenzner: “Como resultado, as floras das regiões que estavam sob o mesmo poder colonial tornaram-se mais semelhantes em comparação com outras áreas. “

Além disso, as regiões que desempenharam papéis econômicos ou estratégicos particularmente importantes durante o colonialismo mostram uma semelhança ainda maior na composição de espécies entre si, em comparação com áreas menos influentes. Exemplos disso são os antigos centros comerciais, como as regiões do arquipélago indo-malaio, que foram cruciais para o comércio internacional de especiarias, ou ilhas como os Açores ou Santa Helena, ambas importantes escalas em longas viagens transoceânicas. O estudo também constata que os britânicos mudaram mais a biodiversidade em suas colônias e os holandeses menos.

De arqueófitos a neófitos

Há milhares de anos, as pessoas levam consigo parte da flora de sua terra natal em suas viagens ou a trocam com outros povos, contribuindo assim para sua disseminação para além de seu habitat natural. Os cientistas se referem a essas plantas alienígenas como “arqueófitas”. No entanto, com a primeira travessia do Atlântico do genovês Cristóvão Colombo em 1492 e o início da era dos impérios coloniais, a transferência global de plantas estrangeiras se multiplicou em proporções sem precedentes. Espécies introduzidas a partir desse momento, consciente ou inconscientemente, por humanos em áreas onde não ocorrem naturalmente são chamadas de neófitas .

As novas potências coloniais européias inicialmente introduziram culturas nos novos domínios, principalmente por razões econômicas, a fim de garantir a sobrevivência dos colonos e promover o desenvolvimento de assentamentos. “Mas as plantas também foram retiradas por razões estéticas e nostálgicas”, escrevem os cientistas em seu estudo. Em particular, muitas espécies foram comercializadas dentro e fora das regiões colonizadas para alimentação, forragem e horticultura, com o resultado de que a flora exótica se estabeleceu nessas regiões ao longo do tempo.

Por exemplo, os colonos holandeses não só trouxeram vinhas do sul da Europa para a África do Sul, mas também o carvalho europeu. As árvores deveriam fornecer a matéria-prima para os barris de madeira necessários para amadurecer o vinho sul-africano e para a construção de casas. Mas tecnicamente o projeto acabou sendo um fracasso. Devido às condições subtropicais, a qualidade da madeira de carvalho não era boa o suficiente.

No entanto, muitos dos chamados neófitos também vieram para as colônias como “caronas”. O “chute do homem branco” é um exemplo disso. É assim que os indígenas da América do Norte chamavam a planta importada da Europa, cujas sementes grudavam na sola dos sapatos dos colonos e que, no verdadeiro sentido da palavra, se espalhavam passo a passo com as caminhadas dos colonos pelos EUA e o »Oeste Selvagem«.

O intercâmbio mundial de espécies vegetais intensificou-se então no século XIX e início do século XX com o crescimento do número de jardins botânicos e das chamadas sociedades de aclimatação. Organizados em uma rede global, plantas e animais foram assim importados, propagados e disseminados por razões científicas, econômicas e estéticas. No auge do Império Britânico havia mais de 50 sociedades de aclimatação e 100 jardins botânicos, sendo um dos mais famosos o Kew Gardens, em Londres.

“Nossos resultados destacam o legado contínuo da atividade humana, que se reflete na semelhança na composição e homogeneização de suas floras”, concluem os pesquisadores.

“É notável”, diz Franz Essl, autor sênior do estudo, “que ainda possams encontrar tais legados várias décadas, às vezes até séculos, após o colapso dos impérios coloniais europeus. Isso mostra que precisamos ser muito cuidadosos e conscientes sobre as espécies de plantas que transportamos ao redor do mundo, pois elas provavelmente terão impactos duradouros na biodiversidade e nos meios de subsistência humanos no futuro”.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].