Brasil pode estar vivendo uma epidemia silenciosa de intoxicação por agrotóxicos

Novo estudo estima mais de 400 milhões de intoxicações agudas por ano no mundo e acende o alerta em um país que consome grandes volumes de agrotóxicos, inclusive substâncias proibidas na União Europeia

Um novo estudo publicado nesta quarta-feira (2) na revista científica Frontiers in Public Health oferece números que deveriam produzir um sério debate sobre os custos humanos do modelo agrícola contemporâneo. No artigo intitulado Worldwide unintentional acute pesticide poisonings: reassessing the occupational and non-occupational burden, Wolfgang Boedeker, Meriel Watts, Peter Clausing e Emily Marquez estimam que ocorram atualmente entre 402 milhões e 433 milhões de casos de intoxicação aguda não intencional por agrotóxicos todos os anos no mundo, acompanhados por aproximadamente 11 mil mortes. Mais impressionante ainda é a estimativa de que cerca de 46% da população mundial envolvida na agricultura seja intoxicada por agrotóxicos a cada ano.

O trabalho de Boedeker e seus colegas merece atenção não apenas pela magnitude dos números apresentados, mas também pelo esforço realizado para ampliar e atualizar a base empírica utilizada para estimar a dimensão mundial das intoxicações. Os autores analisaram informações referentes a 139 países, combinando 214 trabalhos científicos publicados entre 2006 e 2023 com dados da base de mortalidade da Organização Mundial da Saúde. O estudo também incorporou uma análise de sensibilidade destinada a avaliar como diferenças metodológicas entre os trabalhos poderiam afetar as estimativas globais. Mesmo quando os autores adotaram critérios mais restritivos, o resultado continuou impressionante: o número anual estimado permaneceu acima de 400 milhões de intoxicações.

Há outro elemento particularmente importante nesse trabalho. Entre 1990 e 2023, o consumo mundial de agrotóxicos praticamente dobrou, passando de aproximadamente 1,8 milhão para 3,8 milhões de toneladas anuais. Entretanto, essa expansão foi profundamente desigual. Enquanto o consumo caiu cerca de 5% na Europa, aumentou aproximadamente 210% nas Américas e 185% na África. A geografia mundial da exposição aos agrotóxicos está, portanto, se deslocando justamente em direção às regiões onde frequentemente são mais frágeis os mecanismos de fiscalização ambiental, vigilância epidemiológica, proteção aos trabalhadores rurais e controle da comercialização das substâncias mais perigosas.

E o Brasil no meio dessa tempestade química?

É justamente nesse ponto que o estudo publicado na Frontiers in Public Health deveria acender todas as luzes vermelhas no Brasil. O país ocupa posição central no mercado mundial de agrotóxicos e apresenta níveis extraordinariamente elevados de consumo. Dados reunidos em outro estudo publicado em 2025 indicaram que somente em 2021 foram aplicadas aproximadamente 719,5 mil toneladas de agrotóxicos nas áreas agrícolas brasileiras, quantidade equivalente ao consumo conjunto dos Estados Unidos e da China naquele ano. A aplicação média brasileira chegou a cerca de 10,9 quilos por hectare, contra 2,85 kg/ha nos Estados Unidos e 1,9 kg/ha na China.

Os dados oficiais do Ibama mostram que essa dependência química continua extraordinariamente elevada. Somente o glifosato e seus sais responderam por aproximadamente 231,9 mil toneladas comercializadas em 2024. O mancozebe alcançou 75,1 mil toneladas, enquanto substâncias como 2,4-D, acefato e glufosinato continuam figurando entre os ingredientes ativos mais comercializados no território brasileiro.

Mas o problema brasileiro não está apenas na quantidade utilizada. Está também na qualidade toxicológica das substâncias que permanecem autorizadas.

Levantamentos recentes indicam que sete dos dez ingredientes ativos mais vendidos no Brasil são proibidos na União Europeia, entre eles mancozebe, 2,4-D, acefato, clorotalonil, atrazina, S-metolacloro e dibrometo de diquate. Isso significa que substâncias consideradas perigosas demais para serem utilizadas em sistemas agrícolas europeus continuam sendo despejadas em grandes quantidades sobre lavouras brasileiras.

A discrepância regulatória é ainda maior quando se observa o conjunto das substâncias autorizadas. Em março de 2025, dos 369 ingredientes ativos químicos autorizados para utilização no Brasil, 234 — ou 63,4% — não estavam autorizados na União Europeia. Além disso, entre 2019 e 2024, centenas de novos produtos contendo princípios ativos não autorizados no mercado europeu continuaram recebendo registro brasileiro.

O próprio Ibama reconhece problemas graves com determinadas substâncias ainda utilizadas no país. Em dezembro de 2025, o órgão iniciou a reavaliação ambiental do metomil e do tiodicarbe, classificados como altamente tóxicos ao ambiente, altamente transportáveis e persistentes e altamente tóxicos para abelhas e pequenos crustáceos aquáticos. O metomil já havia sido banido em cerca de 50 países, mas sua comercialização brasileira vinha crescendo.

Uma epidemia química que dificilmente aparece nas estatísticas

O estudo de Boedeker, Watts, Clausing e Marquez oferece ainda uma chave fundamental para compreender o que provavelmente acontece no Brasil: os sistemas oficiais registram apenas uma fração das intoxicações realmente existentes.

Os autores mostram que muitos trabalhadores intoxicados não procuram atendimento médico, enquanto outros recebem diagnósticos que não identificam corretamente a exposição aos agrotóxicos. Entre as razões para a subnotificação estão dificuldades de acesso aos serviços de saúde, sintomas confundidos com outras doenças, falta de treinamento dos profissionais para reconhecer intoxicações, investigação inadequada dos episódios e fragmentação das bases de dados. Há estudos internacionais sugerindo que sistemas convencionais de vigilância podem subestimar dramaticamente a quantidade real de intoxicações ocupacionais.

Essa observação é particularmente relevante para o Brasil, onde o próprio artigo utiliza diferentes estudos nacionais sobre intoxicações e exposição ocupacional e apresenta uma estimativa de 26% de prevalência anual de intoxicação aguda não fatal entre a população agrícola/ocupacional brasileira, embora os próprios autores ressaltem que estimativas nacionais possuem graus diferentes de incerteza e não devem ser interpretadas como levantamentos epidemiológicos completos de cada país.

Por isso, talvez seja necessário começar a discutir seriamente a possibilidade de que esteja ocorrendo no Brasil aquilo que poderíamos denominar de epidemia química silenciosa. Não se trata de utilizar a palavra epidemia como recurso retórico, mas de chamar atenção para uma exposição populacional disseminada, repetitiva e estruturalmente produzida por determinado modelo de agricultura. Diferentemente das epidemias infecciosas, entretanto, não existe aqui um vírus ou uma bactéria facilmente identificável. Existem centenas de substâncias químicas circulando simultaneamente pelo ambiente e alcançando trabalhadores, comunidades rurais e, por diferentes vias, parcelas muito maiores da população.

E há uma diferença adicional. O artigo da Frontiers in Public Health trata essencialmente das intoxicações agudas, isto é, dos efeitos que aparecem em período relativamente curto após a exposição. Ele não pretende contabilizar toda a carga de doenças decorrente da exposição crônica aos agrotóxicos. Os próprios autores defendem novos estudos longitudinais capazes de investigar esses efeitos de longo prazo. Portanto, os 402 a 433 milhões de casos estimados anualmente representam apenas uma dimensão do problema.

É justamente aí que a noção de epidemia química ganha ainda mais relevância. A exposição brasileira não ocorre apenas durante a aplicação dos produtos. Os agrotóxicos podem alcançar trabalhadores diretamente envolvidos no preparo e pulverização, famílias residentes próximas às áreas agrícolas e ambientes contaminados por deriva, além de água e alimentos. Um estudo apresentado por pesquisadores da Fiocruz encontrou, em amostras brasileiras de água analisadas em 2024, resíduos de sete agrotóxicos proibidos na União Europeia, entre eles atrazina, metolacloro, fipronil e flutriafol.

Quando o veneno proibido lá continua permitido aqui

Existe ainda uma dimensão política que não pode ser ignorada. O contraste entre a regulação europeia e brasileira demonstra que a exposição aos agrotóxicos não resulta apenas de decisões individuais tomadas pelos agricultores. Ela é produzida também por escolhas regulatórias e econômicas.

Quando determinadas substâncias são consideradas perigosas demais para permanecer no mercado europeu, mas continuam sendo comercializadas e utilizadas em larga escala no Brasil, estabelece-se uma espécie de geografia internacional desigual do risco químico. Os riscos que sociedades com maior capacidade regulatória decidiram reduzir continuam sendo socialmente tolerados em países transformados simultaneamente em grandes produtores de commodities e grandes mercados consumidores de agrotóxicos.

Não por acaso, a literatura científica já descreve há décadas o problema do duplo padrão internacional, no qual produtos proibidos ou severamente restringidos nos países industrializados continuam sendo exportados para países como o Brasil.

O novo estudo publicado na Frontiers in Public Health demonstra que as consequências desse modelo estão longe de ser marginais. Estamos falando potencialmente de centenas de milhões de intoxicações anuais e de uma população agrícola mundial na qual quase metade dos trabalhadores pode sofrer pelo menos um episódio de intoxicação aguda por ano. Os próprios autores concluem que as evidências disponíveis já são mais do que suficientes para justificar ações imediatas e defendem a implementação da recomendação da FAO para a eliminação progressiva dos chamados Highly Hazardous Pesticides (HHPs), os agrotóxicos altamente perigosos.

Para o Brasil, essa recomendação deveria ser particularmente urgente. Um país que utiliza quantidades gigantescas de agrotóxicos, mantém autorizadas centenas de substâncias não permitidas na União Europeia e apresenta reconhecidos problemas de subnotificação das intoxicações não deveria continuar tratando os efeitos sanitários desse modelo como simples externalidades inevitáveis da produção agrícola.

A pergunta que precisa ser feita é relativamente simples: quanto da extraordinária produtividade do agronegócio brasileiro está sendo obtida mediante a transferência de custos ambientais e sanitários para trabalhadores rurais, comunidades agrícolas e para o Sistema Único de Saúde?

Os números apresentados por Wolfgang Boedeker, Meriel Watts, Peter Clausing e Emily Marquez sugerem que essa conta pode ser muito maior do que mostram as estatísticas oficiais. E talvez o problema mais grave seja justamente este: enquanto o agronegócio e o governantes celebram recordes de safras e exportações, podemos estar convivendo com uma epidemia química cuja verdadeira dimensão sequer conseguimos medir.

O artigo Worldwide unintentional acute pesticide poisonings: reassessing the occupational and non-occupational burden, de Wolfgang Boedeker, Meriel Watts, Peter Clausing e Emily Marquez, foi publicado em 2 de setembro de 2026 na revista científica Frontiers in Public Health, na seção Occupational Health and Safety.

Leia o artigo original na Frontiers in Public Health

Vendemos em segredo, como drogas’: apetite do Brasil por carne de tubarão coloca espécie em risco

Um dos maiores consumidores em um mercado global avaliado em R$ 14 bilhões, o comércio de peixes baratos no país sul-americano está crescendo. Mas conservacionistas preocupados dizem que a maioria das pessoas não percebe que está comendo tubarão

Um funcionário carrega um tubarão-azul para o armazenamento refrigerado no Miami Pescado, Cananéia.

Um tubarão azul é levado para um frigorífico em Cananéia, um porto pesqueiro no estado de São Paulo. Embora se reproduzam lentamente, pelo menos 80 milhões de tubarões são mortos por ano no mundo

Por Constance Malleret no estado de São Paulo para o “The Guardian”, Fotografias: Avener Prado

O céu azul brilhante e as águas calmas do estuário escondem as condições adversas do mar, e não há sinal de atividade entre os coloridos barcos de pesca atracados no porto de Cananéia, uma pacata cidade de pescadores a 257 quilômetros ao sul de São Paulo.

No cais, no entanto, uma entrega de peixe congelado do Uruguai acaba de chegar e alguns homens com botas brancas estão ocupados descarregando paletes de espécimes decapitados rotulados como Galeorhinus galeus – tubarão-escola.

Esses peixes cinzentos e magros serão mantidos em uma câmara fria em prateleiras já abarrotadas até o teto com carcaças de tubarões-azuis, todos aguardando processamento e distribuição para cidades do interior.

“Por que trabalhamos com tubarão?”, diz Helgo Muller, 53, o gerente da empresa. “Porque as pessoas gostam; é uma proteína boa e barata. Não dá lucros absurdos, mas é decente o suficiente.”

O tubarão representa apenas uma pequena fração dos negócios da empresa, mas eles processam cerca de 10 toneladas por mês, diz ele, a maioria tubarão-azul importado de países como Costa Rica, Uruguai, China e Espanha.


Um homem segura três pequenos tubarões de cerca de 40 cm de comprimento

Tubarão é vendido em mercado de peixes em Peruíbe, no interior de São Paulo

Comunidades ao longo dos 4.600 milhas (7.400 km) da costa brasileira sempre comeram tubarões. “Faz parte da nossa tradição”, diz Lucas Gabriel Jesus Silva, um jovem de 27 anos cujo avô se mudou para a área na década de 1960 para pescar tubarões por suas barbatanas.

No entanto, o apetite generalizado por carne de tubarão que a empresa de Muller ajuda a alimentar agora está preocupando cientistas e ambientalistas, que se preocupam com a pressão insustentável sobre várias espécies.

A demanda fez do Brasil o maior importador e um dos maiores consumidores de carne de tubarão em um mercado global avaliado em cerca de R$ 14 bilhões,

“Os tubarões são muito vulneráveis ​​à superexploração, pois não se reproduzem com tanta frequência ou com tantos filhotes quanto os peixes ósseos”, explica o professor Aaron MacNeil, da Universidade Dalhousie, no Canadá.

Pesquisa publicada em abril apontou que 83% das espécies de tubarões e raias comercializadas no Brasil estavam ameaçadas, segundo classificação da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Durante anos, os esforços de conservação se concentraram no comércio de barbatanas com a Ásia e na prática bárbara de “finning” – remover as barbatanas de um tubarão e devolver o animal ferido e indefeso, muitas vezes ainda vivo, ao mar. Mas pesquisas do início deste ano sugerem que as restrições ao finning não reduziram a mortalidade de tubarões, com pelo menos 80 milhões de tubarões ainda sendo mortos anualmente.

Barcos de pesca ancorados em cais em um pequeno porto com uma encosta verde ao fundo
A zona portuária de Cananéia, onde a pesca e o consumo de tubarões são uma tradição de longa data

“A carne foi meio que deixada de lado”, diz MacNeil, que está pesquisando o comércio global de carne de tubarão . “Só agora estamos percebendo o quão grande é o comércio. Seu valor certamente excedeu o das barbatanas .” A pressão sobre os tubarões por comida aumentou paralelamente ao declínio nas capturas de outros peixes, diz ele.

Tradicionalmente, os brasileiros comiam tubarão na moqueca , um ensopado de frutos do mar dos estados da Bahia e Espírito Santo. E muitos moradores de Cananéia lembram como seus parentes mais velhos usavam caldo de cabeça de tubarão e cartilagem como remédios caseiros.

Mas agora, vendido em filés ou bifes, o tubarão foi absorvido pela dieta dos brasileiros por ser mais barato que outros peixes brancos, sem espinhas e fácil de cozinhar. Agora aparece em cantinas de escolas e hospitais.

O fato de poucos brasileiros perceberem que estão comendo tubarão provavelmente ajudou a torná-lo onipresente. Enquanto os povos costeiros com uma tradição de comer tubarão reconhecem as diferenças sutis na textura e no sabor entre as espécies de tubarão, para a maioria dos brasileiros é apenas cação – um termo genérico sob o qual tanto a carne de tubarão quanto a de arraia são vendidas.

“Os brasileiros são muito mal informados – eles não sabem que cação é tubarão e, mesmo quando sabem, muitas vezes não sabem que esses animais correm risco de extinção”, diz Nathalie Gil, presidente da Sea Shepherd Brasil, uma organização de conservação marinha.

Em Cananéia, os moradores brincam: “É cação quando você come, e tubarão quando ele te come”. Mas os ativistas dizem que a rotulagem genérica impede decisões informadas por parte dos consumidores, e isso pode até afetar sua saúde devido às altas concentrações de poluentes perigosos nesses predadores de topo.

“Se soubessem, talvez não comessem”, diz Ana Barbosa Martins, pesquisadora da Universidade Dalhousie. 

 
Pessoas em uma galeria tirando fotos de um tubarão muito grande e mal empalhado que parece feito de papel machê

Um tubarão branco de 5 metros de comprimento capturado em Cananéia em 1992 é preservado no museu da cidade

A lei brasileira não permite a pesca de tubarões, mas eles podem ser capturados como captura acidental com poucas restrições. A frota de atum do país frequentemente captura quantidades maiores de tubarão do que de atum. “Teoricamente, está tudo dentro dos limites da lei. Mas é uma forma de pesca completamente desregulamentada”, diz Martins.

A captura e venda de espécies protegidas é proibida. Se forem capturadas, elas devem ser devolvidas ao mar, mesmo mortas – o que geralmente é o caso, dizem os pescadores.

Essa regra é difícil de aplicar. Silva, o pescador de Cananéia, lembra como os tubarões-tigre-da-areia (conhecidos localmente como mangona ) foram capturados impunemente muito depois de se tornarem uma das primeiras espécies a serem listadas como ameaçadas de extinção em 2004. “ A mangona era facilmente vendida no centro de distribuição. Foi só em 2017, eu acho, que os caras foram multados e então isso parou”, diz Silva. Ele alega que os pescadores não sabiam que ela era protegida.

A identificação errônea, seja acidental ou deliberada, é frequente em desembarques e importações nacionais. Santos identificou um espécime na remessa uruguaia visto pelo Guardian como um tubarão-liso-de-nariz-estreito, em vez do tubarão-escola listado no rótulo (ambas as espécies são consideradas criticamente ameaçadas no Brasil, mas sua importação é permitida).

Martins acredita que o monitoramento efetivo depende de autoridades se comunicarem melhor e colaborarem com comunidades pesqueiras, que frequentemente se ressentem de restrições que consideram irracionais. Isso ficou evidente nas opiniões de pescadores locais ao longo da costa de São Paulo. 

Uma mulher de meia-idade, de shorts jeans e botas de borracha brancas, caminha ao longo das bordas de um barco de pesca, com colinas verdes ao fundo
Lucia Rissato, pescadora de Peruíbe, vem de uma família de pescadores. Ela sempre vendeu tubarão para seus clientes

“Pescadores não lançam suas redes para capturar tubarões especificamente, mas às vezes um tubarão-martelo [protegido] aparece. O que você pode fazer?”, diz Lucia Rissato, que administra uma barraca de peixes em Peruíbe, uma cidade litorânea a cerca de 75 milhas ao norte de Cananéia.

Silva ecoa uma visão amplamente difundida em sua comunidade. “Um pescador tem que fazer seu trabalho”, ele diz. “A proibição vem com boas intenções, mas não impede [tubarões] de serem pegos em redes que são colocadas para a corvina do Atlântico, para a pescada.” Ele começou a ir para o mar aos 12 anos e acredita que as populações de tubarões não diminuíram “tanto quanto as pessoas dizem”, outra opinião amplamente difundida em Cananéia.

No ano passado, o governo adicionou cinco novas espécies à sua lista de espécies ameaçadas, incluindo o tubarão-mako, que é popular entre os consumidores. Rissato reclama que não pode mais vender nenhum tubarão capturado localmente, pois não está claro o que é permitido.

 
Uma mulher branca mais velha está sentada à mesa da cozinha

Ana Alinda Alves, que seleciona peixes no porto de Cananéia, diz: ‘Autoridades tratam pescadores como bandidos’

“Temos que vender em segredo, como drogas”, diz a mulher de 48 anos, que naquele dia tinha na geladeira um carregamento de cação-de-bico-fino — espécie permitida, mas que ela exibia tão furtivamente como se fossem contrabando.

Ana Alinda Alves, de 65 anos, separa peixes no cais de Cananéia e tem cinco filhos que pescam. “As autoridades tratam os pescadores como bandidos”, ela suspira. “O pescador vai para o mar, pega um cação e não consegue nem levar para casa para alimentar a família. Ele não roubou nada. Ele foi pescar, ele foi trabalhar.”

Em meio aos esforços globais para melhorar a proteção dos tubarões, o Brasil está tomando medidas. Um projeto de lei apresentado ao congresso no ano passado exigiria que o cação fosse rotulado como tubarão (ou raia) em todas as etapas da cadeia de produção, bem como a identificação das espécies. Outro projeto de lei propõe proibir a compra de tubarão em licitações públicas. E, pela primeira vez, o governo introduziu cotas para tubarão-azul capturado pelos atuneiros palangreiros do Brasil.

Mas essas provisões só podem ir até certo ponto, especialmente porque não afetam as importações. Conservacionistas como Gil argumentam que a opinião pública sobre esses animais ecologicamente vitais precisa mudar.

“Eles pegariam uma baleia que foi pega na rede e a serviriam para sua família? Não, porque é ilegal, mas também porque há respeito pelas baleias”, ela diz. 

Um tubarão-liso-de-nariz-estreito em um balcão de aço em uma peixaria com facas na parede atrás
Um tubarão-liso-de-nariz-estreito entre uma remessa do Uruguai rotulada como tubarão-escola. A identificação errônea, acidental ou deliberada, é frequente

Fonte: The Guardian