Levantamento da Agência Tatu mostra que infrações contra a flora concentram 94% do valor das multas aplicadas aos candidatos identificados
Um levantamento da Agência Tatu feito em parceria com o Intercept Brasil, e que foi realizado a partir do cruzamento dos autos de infração do Ibama com o cadastro de candidaturas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para as eleições de 2026, traz uma informação que deveria merecer atenção dos eleitores: 49 candidatos, distribuídos por 15 partidos, acumulam 78 autos de infração ambiental válidos, que somam R$ 15,7 milhões em multas.
Há uma ressalva indispensável. Como destaca a própria Agência Tatu, um auto de infração é uma autuação administrativa e não equivale necessariamente a uma condenação definitiva, pois pode haver recursos em andamento. Além disso, três autos cancelados ou substituídos foram excluídos dos totais apresentados.
Feita essa ressalva, os números são eloquentes. Das sete categorias identificadas, as infrações contra a flora representam 53 dos 78 autos e concentram R$ 14,7 milhões, nada menos que 94% do valor total das multas.
A dimensão territorial também impressiona. Dos 78 autos válidos, 54 informam a área diretamente atingida. Somados, eles chegam a 4.445 hectares, dos quais 2.557 hectares estão na Amazônia e 1.278 no Cerrado. Em um único auto, a área atingida alcança 652,7 hectares.
A distribuição partidária mostra concentração, mas também revela que o problema atravessa diferentes legendas. O PL lidera, com 22 autos e R$ 6,2 milhões em multas atribuídas aos candidatos identificados, seguido pelo Podemos, com R$ 2,6 milhões, Republicanos, com R$ 1,7 milhão, MDB, com R$ 1,5 milhão, e PSDB, com R$ 1,1 milhão. No conjunto, entretanto, aparecem candidatos de 15 partidos, incluindo siglas da direita, do centro e da esquerda.
O maior valor individual está associado a Ulisses Vieira dos Santos, candidato do PL a deputado estadual no Maranhão, com R$ 3,265 milhões em multa e um auto envolvendo 652,7 hectares em Buriticupu. Em seguida aparece Daniel Barbosa Santos, candidato do Podemos ao governo do Pará, com R$ 1,4 milhão e uma ocorrência envolvendo 279,8 hectares em Tomé-Açu.
Mas o aspecto mais relevante do levantamento não está apenas nos valores ou no número de hectares atingidos. Está no fato de que pessoas que foram objeto da fiscalização ambiental agora disputam cargos que lhes poderão dar poder para interferir nas próprias políticas de proteção ambiental.
Deputados e senadores votam regras sobre licenciamento ambiental, Código Florestal, mineração, regularização fundiária e agrotóxicos, além dos orçamentos destinados ao Ibama e a outros órgãos de fiscalização. Governadores e deputados estaduais também possuem influência direta sobre políticas ambientais e estruturas estaduais de licenciamento e fiscalização.
A pergunta que os dados da Agência Tatu colocam diante do eleitor é, portanto, bastante simples: como candidatos que já entraram em conflito administrativo com a legislação ambiental se comportarão quando tiverem poder para modificar as regras e as instituições encarregadas de fazê-la cumprir?
Isso não significa transformar autuação administrativa em condenação antecipada, mas reconhecer que o histórico ambiental de quem disputa uma eleição é informação de evidente interesse público. Se o eleitor tem direito de conhecer patrimônio, profissão e antecedentes de um candidato, deveria igualmente conhecer sua relação com a legislação ambiental.
E talvez seja justamente aí que esteja a maior importância do levantamento da Agência Tatu. Em um país no qual Amazônia e Cerrado continuam submetidos à enorme pressão econômica pela apropriação de terras e recursos naturais, a disputa eleitoral também define quem terá poder para escrever as regras que determinam o futuro das florestas brasileiras.
Nesse sentido, a passagem da motosserra para a urna pode ser muito mais curta do que imaginamos.
