Pesquisa revela que o aquecimento global provocado pelas atividades humanas responde por aproximadamente dois terços das mortes associadas ao calor no verão europeu de 2026. Os resultados reforçam alertas já publicados no Blog do Pedlowski sobre a mortalidade invisível e a falta de preparação do Brasil para enfrentar temperaturas extremas
Uma pesquisa divulgada nesta sexta-feira (23/10) pela London School of Hygiene & Tropical Medicine (LSHTM), em parceria com o Imperial College London, apresenta números que deveriam provocar uma reação imediata dos governos de todo o planeta. Durante o verão europeu de 2026, mais de 50 mil pessoas teriam morrido em consequência do calor extremo em áreas urbanas, sendo que aproximadamente dois terços dessas mortes foram atribuídos ao aquecimento global provocado pelas atividades humanas. Estamos falando de mais de 33 mil mortes que, segundo as estimativas científicas, não teriam ocorrido nas mesmas condições em um planeta sem o aquecimento causado pela humanidade.
O estudo, publicado na revista científica Nature Health, analisou 854 áreas urbanas distribuídas por 30 países europeus, abrangendo aproximadamente 40% da população desses países. O resultado é particularmente perturbador porque o verão de 2026 apresentou a maior mortalidade estimada relacionada ao calor desde 2000, superando amplamente os registros estimados para os verões de 2003 e 2022, quando aproximadamente 28 mil e 29 mil pessoas, respectivamente, morreram em consequência das temperaturas elevadas nas mesmas áreas analisadas.
Esses números não representam uma contagem direta de atestados de óbito, mas estimativas epidemiológicas construídas a partir da relação entre temperatura e mortalidade. Ainda assim, revelam uma realidade que se torna cada vez mais difícil de esconder: o aquecimento global deixou de ser uma ameaça projetada para as próximas décadas e já constitui um fator concreto de adoecimento e morte em larga escala.
A mortalidade invisível que já havíamos apontado
Os resultados europeus confirmam uma preocupação apresentada no Blog do Pedlowski em 4 de setembro, no texto intitulado “O calor mata mais do que mostram as estatísticas — e o Brasil precisa se preparar para o El Niño de 2026–2027″.
Naquela ocasião, destaquei uma investigação da National Public Radio (NPR), realizada em parceria com pesquisadores da Boston University, indicando que as mortes relacionadas ao calor nos Estados Unidos poderiam ser aproximadamente cinco vezes superiores aos números oficialmente registrados. O problema é que o calor frequentemente atua como fator desencadeador ou agravante de doenças cardiovasculares, respiratórias e renais, sem aparecer nas declarações de óbito.
A nova pesquisa europeia reforça essa constatação. Ao recorrer a modelos epidemiológicos, os pesquisadores conseguem identificar uma parcela da mortalidade que permanece escondida nas estatísticas convencionais. É justamente essa invisibilidade que permite que governos continuem tratando ondas de calor como simples desconfortos meteorológicos, quando deveriam reconhecê-las como emergências de saúde pública.
Há aqui uma manifestação daquilo que o pesquisador Rob Nixon denominou violência lenta: processos de destruição que não necessariamente produzem imagens espetaculares, mas que acumulam vítimas de maneira progressiva, frequentemente longe da atenção da mídia e das prioridades dos governos.
O calor não escolhe suas vítimas de maneira socialmente neutra
Outro aspecto importante do estudo europeu é que a mortalidade não ficou restrita às regiões tradicionalmente mais quentes. Países do norte e do oeste europeu, historicamente acostumados a verões mais amenos, também registraram impactos expressivos. Somente nas 135 áreas urbanas analisadas no Reino Unido, os pesquisadores estimaram aproximadamente 4.500 mortes relacionadas ao calor.
Embora os idosos tenham sido os mais atingidos, aproximadamente 6 mil mortes estimadas ocorreram entre pessoas com menos de 65 anos. Isso demonstra que a exposição ao calor extremo não constitui um problema exclusivo do envelhecimento populacional. Entretanto, existe uma dimensão que precisa ser incorporada à interpretação desses resultados: a capacidade de escapar do calor depende profundamente das condições materiais de existência.
Uma pessoa que vive em uma residência bem ventilada, arborizada e climatizada enfrenta riscos muito diferentes daqueles suportados por trabalhadores obrigados a permanecer ao ar livre ou por famílias que habitam casas pequenas, com coberturas que absorvem e retêm calor, em bairros com pouca vegetação.
Portanto, embora o aquecimento global afete o conjunto da sociedade, suas consequências são profundamente desiguais. A crise climática também é uma crise de classe, porque a exposição aos seus efeitos e a capacidade de proteção são distribuídas de maneira desigual.
E o Brasil, que se prepara para enfrentar um El Niño excepcional?
A divulgação desses resultados ocorre em um momento especialmente preocupante para o Brasil. Em setembro, publiquei no Blog do Pedlowski o texto “El Niño, 13 mil mortes e o silêncio da política brasileira diante da crise climática”, discutindo projeções internacionais que colocavam o Brasil entre os países potencialmente mais afetados pela mortalidade adicional associada ao calor durante o atual episódio de El Niño.
Mais recentemente, em 23 de outubro, voltei ao tema no texto “El Niño fora da escala: o planeta se prepara para um choque climático, mas quem vai pagar a conta?“.
O ponto central dessas análises é que o El Niño não atua isoladamente. Seus efeitos se manifestam sobre um planeta já aquecido pela emissão acumulada de gases de efeito estufa, principalmente aqueles associados à queima de combustíveis fósseis. Isso significa que alterações naturais da circulação atmosférica e oceânica podem produzir consequências mais severas em um sistema climático cuja temperatura média já foi significativamente elevada.
É importante observar que as projeções de mortalidade para o Brasil não constituem previsões de óbitos inevitáveis. São estimativas condicionadas a cenários climáticos e modelos de exposição. Mas justamente por isso deveriam servir para orientar políticas preventivas, e não para justificar a inação. O que ocorreu na Europa durante o verão de 2026 oferece uma demonstração contundente de que mesmo sociedades com sistemas de saúde relativamente estruturados estão encontrando dificuldades para proteger suas populações contra temperaturas extremas. Se isso acontece no continente europeu, quais serão as consequências em um país marcado por profundas desigualdades habitacionais, precarização do trabalho e insuficiência de infraestrutura urbana?
Quando o calor chega às cidades brasileiras, a desigualdade amplia seus efeitos
Em cidades como Campos dos Goytacazes, onde o aumento das temperaturas se combina com a redução da cobertura vegetal em determinadas áreas, a impermeabilização do solo e a expansão de espaços construídos pouco adaptados às condições climáticas, os riscos não podem ser tratados como abstrações.
É necessário perguntar quantas escolas públicas possuem condições adequadas de ventilação, quantas unidades de saúde estão preparadas para atender a um aumento de casos associados ao estresse térmico e quantos trabalhadores precisam permanecer expostos ao sol durante os períodos mais quentes do dia. A ausência de respostas para essas perguntas demonstra que a vulnerabilidade climática não decorre apenas das condições atmosféricas. Ela também resulta de decisões políticas sobre planejamento urbano, habitação, serviços públicos e proteção social.
Nesse sentido, os resultados europeus deveriam funcionar como um alerta para prefeitos, governadores e autoridades federais. Não basta emitir comunicados recomendando hidratação e evitar exposição ao sol. É preciso estabelecer sistemas de vigilância epidemiológica, protocolos de proteção para trabalhadores, planos de contingência para escolas e hospitais e investimentos em arborização, sombreamento e infraestrutura urbana. Também será necessário enfrentar a questão estrutural que alimenta a crise: a continuidade de um modelo econômico fortemente dependente de combustíveis fósseis, cuja expansão frequentemente é apresentada como sinônimo de desenvolvimento, mesmo quando seus custos ambientais e sanitários são transferidos para a população.
A crise climática já tem um custo humano. A questão é quem continuará pagando
O aspecto mais inquietante da pesquisa divulgada pela LSHTM talvez seja sua demonstração de que aproximadamente dois terços das mortes estimadas durante o verão europeu de 2026 estão associados ao aquecimento provocado pelas atividades humanas. Trata-se de uma evidência científica de que decisões econômicas e políticas tomadas ao longo de décadas possuem consequências diretas sobre a sobrevivência das populações.
Não estamos diante de uma fatalidade natural inevitável. Estamos diante de riscos agravados por um modelo de desenvolvimento que continua elevando as emissões de gases de efeito estufa, ao mesmo tempo em que os investimentos necessários à proteção das populações permanecem insuficientes.
A Europa acaba de oferecer mais uma demonstração de que o calor extremo pode matar dezenas de milhares de pessoas em poucos meses. O Brasil, por sua vez, aproxima-se de um verão potencialmente agravado por um El Niño de intensidade excepcional. A pergunta que precisa ser feita não é apenas quantos recordes de temperatura serão quebrados, mas quantas vidas poderiam ser preservadas caso os governos tratassem a emergência climática com a seriedade que ela exige.
Afinal, quando mais de 50 mil pessoas morrem em um único verão europeu em decorrência do calor, continuar tratando a crise climática como um problema secundário deixa de ser apenas um erro de avaliação. Passa a ser uma escolha política cujas consequências podem ser medidas em vidas humanas.
