El Niño fora da escala: o planeta se prepara para um choque climático, mas quem vai pagar a conta?

Organização Meteorológica Mundial alerta para um fenômeno de intensidade sem precedentes no final de 2026. A combinação entre aquecimento global, eventos extremos e desigualdade social ameaça transformar uma crise climática em uma tragédia humanitária

A notícia publicada nesta sexta-feira (23/10) pela MetSul Meteorologia, com base em informações da agência AFP, deveria estar ocupando as manchetes dos principais veículos de comunicação do planeta. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), o El Niño que se desenvolve no Oceano Pacífico poderá atingir, no final de 2026, uma intensidade nunca antes registrada, com anomalias de temperatura da superfície do mar chegando a impressionantes 3,8°C acima da média. A própria OMM admite que estamos diante de um fenômeno que poderá ultrapassar os limites das séries históricas utilizadas para monitorar esse tipo de evento climático.

É importante esclarecer que esses 3,8°C não representam um aumento da temperatura média de todo o planeta, mas uma anomalia projetada para as águas superficiais de uma região específica do Pacífico Equatorial. Ainda assim, trata-se de um indicador extraordinário da intensidade potencial do fenômeno, capaz de alterar profundamente os padrões de circulação atmosférica e distribuição das chuvas em diferentes continentes.

O aspecto mais preocupante é que esse El Niño excepcional ocorre em um planeta já submetido ao aquecimento global provocado pelas emissões de gases de efeito estufa. Estamos, portanto, diante da sobreposição de dois processos distintos, mas interligados: a variabilidade natural do sistema climático e o aquecimento antropogênico, que amplia os riscos associados a temperaturas extremas, secas e precipitações intensas.

O Brasil diante de um cenário de extremos

Para o Brasil, as perspectivas são particularmente preocupantes. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) já havia divulgado, no início de outubro, uma probabilidade de 95% de que o El Niño atingisse intensidade muito forte entre outubro e dezembro de 2026. As projeções apontam para chuvas acima da média no Sul, com riscos de inundações, enquanto partes das regiões Norte e Nordeste poderão enfrentar redução das precipitações, agravamento das secas e maior ocorrência de incêndios florestais.

Na Amazônia, onde o desmatamento e a degradação florestal já comprometem a capacidade dos ecossistemas de resistir às alterações climáticas, um período prolongado de estiagem poderá produzir consequências especialmente graves. No Sul, a possibilidade de novas enchentes recoloca a questão da vulnerabilidade das cidades e da insuficiência dos investimentos em prevenção e adaptação.

É preciso reconhecer que as projeções sazonais não permitem antecipar com precisão a ocorrência de desastres em municípios específicos. Entretanto, elas oferecem informações suficientes para exigir que os governos abandonem a postura de agir apenas depois que as tragédias já aconteceram.

A crise climática não atinge todos da mesma maneira

Há uma dimensão política e social que não pode ser ignorada. Embora os fenômenos climáticos sejam processos físicos, suas consequências são profundamente condicionadas pela organização da sociedade. Uma chuva extrema não produz os mesmos efeitos em um condomínio de alto padrão e em uma comunidade construída sobre uma planície de inundação sem infraestrutura adequada. Da mesma forma, uma seca prolongada não afeta igualmente grandes empresas agrícolas capitalizadas e pequenos agricultores familiares que dependem diretamente das chuvas para sobreviver.

O alerta da OMM deve ser compreendido também como uma advertência sobre o aprofundamento das desigualdades sociais. Os grupos que menos contribuíram para o aquecimento global frequentemente estão entre aqueles que dispõem de menos recursos para enfrentar suas consequências. Nesse contexto, cortes em políticas sociais, saúde pública, habitação, saneamento e defesa civil não representam apenas escolhas orçamentárias: podem aumentar diretamente a exposição de milhões de pessoas aos desastres climáticos.

A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, destacou que ainda existe uma janela de oportunidade para medidas preventivas. A questão central, entretanto, é saber se os governos estarão dispostos a mobilizar recursos públicos antes que os danos se materializem, em vez de continuar tratando cada catástrofe como uma surpresa inevitável.

O verdadeiro desastre será insistir na ausência de prevenção

O possível El Niño recorde de 2026–2027 deveria servir como um divisor de águas no debate sobre políticas climáticas. Não basta reconhecer que eventos extremos estão se tornando mais perigosos. É necessário fortalecer sistemas de monitoramento, investir em infraestrutura resiliente, proteger populações vulneráveis e enfrentar as atividades econômicas responsáveis pela degradação ambiental e pelas emissões de gases de efeito estufa. 

No Brasil, onde ainda prevalece uma lógica de ocupação territorial marcada pela desigualdade, pela expansão desordenada das cidades e pela destruição de ecossistemas, os riscos associados ao El Niño expõem os limites de um modelo de desenvolvimento que frequentemente trata a proteção ambiental e social como obstáculos ao crescimento econômico.

A ciência está cumprindo seu papel ao produzir alertas cada vez mais precisos. O problema é que conhecimento científico, por si só, não salva vidas quando falta decisão política para transformá-lo em prevenção. Se as previsões da OMM se confirmarem, o final de 2026 poderá entrar para a história como um dos momentos mais extremos já registrados no sistema climático. Mas a dimensão da tragédia humana não será determinada apenas pela temperatura das águas do Pacífico. Ela dependerá também das decisões que os governos tomarem — ou deixarem de tomar — enquanto ainda existe tempo para agir.

E talvez essa seja a principal conclusão: o El Niño é um fenômeno natural, mas transformar seus impactos em catástrofes sociais não é uma fatalidade da natureza. É também resultado de escolhas políticas.

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