Justiça obriga a Prefeitura de Campos dos Goytacazes a incluir e remunerar catadoras

Por João Pedro Urbano para a Defensoria Pública 

Após mais de uma década de descumprimento, no dia 04 de junho de 2025, a Justiça de Campos dos Goytacazes determinou medidas mais rigorosas para que o município inclua os catadores de materiais recicláveis junto aos trabalhadores que atuam na coleta seletiva, conforme sentença transitada em julgado há mais de dez anos. A decisão é resultado de uma Ação Civil Pública movida pela Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro contra o Município e o Fundo Municipal de Meio Ambiente.

Classificada como um processo estrutural — conceito jurídico que reconhece a complexidade e a necessidade de soluções integradas para problemas sociais de longa duração — a demanda judicial teve origem na exclusão dos catadores dos demais profissionais que atuam na cadeia de reciclagem após o fechamento do lixão da Codin em junho de 2012, após quase 30 anos de operação. 

Sem que fossem implementadas políticas de inclusão produtiva, como determina a Política Nacional de Resíduos Sólidos, a sentença impôs ao município o dever de apoiar cooperativas de catadores por meio de apoio às cooperativas de trabalho. Apesar da medida, a obrigação permaneceu sem cumprimento efetivo por anos.

Durante esse período, houve falhas na implementação de apoio às cooperativas como a falta de clareza sobre a obtenção de alvarás e a realização de obras de adequação dos galpões, que foram prometidas pela administração municipal.

Para garantir o cumprimento das determinações, a Justiça fixou multas diárias de R$1.000 por dia de atraso, aplicáveis não apenas ao município, mas também pessoalmente aos Secretários Municipais de Serviços Públicos e de Planejamento Urbano, Mobilidade e Meio Ambiente.   

As cooperativas de Campos são formadas majoritariamente por mulheres e com todas as presidentes ocupadas também por mulheres, a decisão determina que o Município finalmente as remunere por um trabalho que elas prestam há anos na cidade, sem pagamento.  

Sobre a importância do avanço, a Defensora Pública Carolina Hennig, do 1º Núcleo Regional de Tutela Coletiva, ressalta:

— A sentença representa não apenas a efetivação de um direito histórico das catadoras e catadores, mas também um passo fundamental para a justiça social e ambiental no município. O reconhecimento do trabalho dessas mulheres, que há tempos sustentam a coleta seletiva sem apoio adequado, é uma vitória coletiva. Esperamos que a decisão judicial seja cumprida de forma célere, garantindo dignidade, inclusão produtiva e sustentabilidade para toda a cidade. — finaliza a Defensora Pública.


Fonte: Defensoria Pública

Cenas da neve campista: enquanto a cana queima descontrolada, o mercúrio entra nas nossas casas

Em 24 de setembro de 2024 publiquei uma postagem que trazia a informação de que, por causa das queimadas dos campos de cana de açúcar, Campos dos Goytacazes era a principal área de contaminação por mercúrio atmosférico. A relação entre queimadas nos campos de cana é simples e direta: as altas temperaturas que ocorrem nos solos no momento em que uma dada área é queimada libera o mercúrio que está preso ali há décadas em função do uso de agrotóxicos mercuriais, como no caso do DDT. 

As repercussões da presença de mercúrio sobre a saúde humana estão bem documentadas, pois a acumulação desse elemento químico no organismo humano é responsável por sérios distúrbios no sistema neurológico. Não bastasse os impactos do mercúrio, as partículas mais finas são capazes de entrar no sistema  respiratório, o que causa sérios problemas respiratórios em crianças e idosos.

Agora vejamos a imagem abaixo que mostra duas cenas do impacto da fuligem que está chegando em grandes quantidades nas residências dos campistas em função do grande número de queimadas descontroladas que já estão ocorrendo em função do início da safra de 2025 (ver imagem abaixo).

Enquanto no lado “A” se observam partículas maiores que normalmente atormentam quem quer manter o interior das residências e quintais limpos, o lado “B” mostra os impactos da deposição de um material particulado mais fino, justamente aquele que poderá vir a ser inspirado pelas pessoas e que irá disparar os problemas de saúde acima apontados.

Convenhamos que a cena “parada” não é tão impactante e não passa a mensagem em sua totalidade. Pois então vejamos as partículas em movimento, causando uma espécie de nevasca de cinzas, a qual adentra residências e o organismo das pessoas via processo respiratório.

Claramente não é necessário ser um pesquisador para entender o problema que estamos vivenciando  e que neste 2025 parece estar sendo favorecido por uma combinação entre fatores climáticos e demanda por matéria prima. 

Pois bem, dado que o município não possui mais uma secretaria municipal de Meio Ambiente, o que fazer? Eu diria que está passada a hora de que pare de procrastinar a aplicação da Lei Estadual nº 5.990/2011 que estabeleceu prazos generosos para a erradicação da queimada, com metas específicas para áreas mecanizáveis e não mecanizáveis. A mesma lei também definiu condições para a realização da queimada, como a comunicação prévia ao INEA e limites de distância de áreas urbanas.  Há que se lembrar que esta lei estabeleceu a proibição de atear fogo em áreas a menos de 1.000 metros da sede do município. Contudo, qualquer morador de área periférica sabe que esse limite não é respeitado.

Assim sendo, deixo a palavra com o Ministério Público Estadual, pois das autoridades municipais já se sabe que, incluindo o dublê de vice-prefeito e usineiro, não vão fazer nada para impedir que o fósforo continue cantando livre, leve e solto pelos campos de cana instalados no município.

Dois pesos e duas medidas: como contar meias verdades para dizer uma mentira inteira

Por Douglas Barreto da Mata 

Ao longo de minha carreira policial, em sua maior parte dedicada à investigação, aprendi alguns truques, que somaram um pouco na tarefa de observar pessoas e fatos. Alguns cientistas políticos, sociais e especialistas em marketing conhecem a esperteza, que também é recorrente em alguns depoimentos de investigados. A pessoa conta uma versão do fato, adiciona detalhes e circunstâncias reais, para omitir a verdade no principal. O objetivo, por óbvio, é confundir a percepção do interlocutor, e fazer prevalecer a fraude.

Na mais nova disputa política entre as forças antagônicas do cenário, os Bacellar e os Garotinho, tudo parece o de sempre. Uma briga mesquinha e inútil. Bem, você pode concordar ou não com essa tese. Eu não concordo.

Primeiro, é preciso acabar com essa história de desqualificar a disputa política, por mais chata e repetitiva que ela pareça. A alternativa para a solução de conflitos, quando não é política, é a violência. Ninguém deseja um faroeste cabrunco por votos. Agora, se vamos discutir os objetivos de cada grupo, seus feitos e desfeitos, erros e acertos, isso é outra coisa, e os militantes dos dois grupos DEVEM se dedicar a essa tarefa, e no fim, o eleitor deve decidir. A desqualificação da disputa política serve para jogar todos em uma vala comum, e para igualar atos e consequências dos dois lados, como se todos agissem da mesma maneira. Não. Não agem.

Mais uma vez, goste o leitor ou não de Wladimir Garotinho, colocar o gesto dele, de gravar um vídeo onde expressa que não apoiará o conterrâneo na corrida estadual ao governo do Estado, nunca pode ser comparado com as deliberadas retenções de verbas da saúde, a paralisação de obras em estradas, sobrecarregando a cidade de carretas de 50, 60 toneladas, ou enfim, a interrupção de obras em bairros, deixados como se tivessem sido atingidos por um bombardeio.

Desconsiderar que só restou ao prefeito local a manifestação de sua rejeição ao deputado candidato, e que essa atitude não poderá nunca ser igualada a sonegação de recursos, que servem para atendimentos médicos, cuja ausência pode matar pessoas, é ou má fé ou burrice. Seja lá o que for, o resultado é o mesmo.

De mais de 200 milhões para zero, ou a depender de quem conta, para 14 milhões é um acinte. Tanto que a Justiça decidiu bloquear e transferir 9 milhões para o município desde a conta do Estado. Ou seja, se não houvesse sentido ou verdade na reclamação do prefeito, a Justiça negaria seu pleito. Principalmente, porque a lógica ensina que nenhum prefeito do mundo reclamaria ou abriria confronto com alguém que lhe concedesse recursos.

Quem acompanha a cena recente já ouviu vários agradecimentos do prefeito local ao governador. Sim, mas gratidão não é rendição incondicional, ou submissão. Ensinam os protocolos da boa política que apoio não se consegue por chantagem. Enfim, o que temos é, um candidato a governador, que deve suceder o atual, pós renúncia, pretendente a reeleição que detém e retém recursos que não são favores a cidade de Campos dos Goytacazes, e que são devidos por serviços de saúde prestados em auxílio a diversos municípios vizinhos.

No outro canto, um prefeito e seu discurso, que não bloqueia estrada, não esburaca o bairro, nem deixa paciente sem atendimento. É de bom tom separar e dar a cada um a responsabilidade que cada um tem, caso contrário, estaremos contando meias verdades.

Campos dos Goytacazes tem seu próprio Odorico Paraguaçu?

“Há mais coisas entre o céu e a terra que os aviões de carreira”, dizia o Barão de Itararé. No caso de Campos dos Goytacazes, teremos o helicóptero do  governo do estado do Rio de Janeiro, que trará Sua Excelência, o Governador, em exercício, o deputado Rodrigo Bacellar, em visita oficial à sua cidade natal.

Virá Sua Excelência para resolver o problema da Estrada dos Ceramistas, com seu conhecido temperamento, dando comandos inequívocos para colocar o pessoal para trabalhar e dar um fim na bagunça instaurada pela procastinação pura e simples em uma obra tão importante? Ou será que o Excelentíssimo Governador pró-tempore finalmente se reunirá com o Prefeito Wladimir Garotinho e seus auxiliares da área da Saúde, e dirá a eles em voz firme: Vou liberar a verba da saúde que Cláudio Castro bloqueou.

O Excelentíssimo governador em exercício já deve saber, claro, mas não custa lembrar, porque a conta é simples: o governo do estado não está pagando o cofinanciamento de saúde a que Campos dos Goytacazes tem direito por ser um polo regional de saúde.   Evidentemente que, atendendo a pacientes de várias cidades do entorno, todos enviados por órgãos estaduais, não tem como dar conta de tudo sozinho.  O pior é que ao longo do tempo, o cano dado pelo estado não para de crescer. Em 2021 pagaram R$200 milhões, em 2022 pagaram R$140 milhões, em 2023 pagaram 90 milhões, em 2024 o governo do estado só R$ 20 milhões e em 2025 pagaram um tremendo zero, até agora.

A partir de fontes bem informadas, me foi dito que alguns gaiatos na “Rua do Homem Pé” já lançaram o versinho: “Campos dos Goytacazes tem um amigo da onça, o nome dele é Rodrigo”. E nós sabemos que daquela parte do centro histórico de Campos partem coisas que depois que grudam são difíceis de soltar.

A julgar pela viagem de helicóptero, parece que Sua Excelência pretende passar por cima dos problemas do caminho e se esconder lá em uma inauguração de uma casinha de Bombeiros, lá no Farol de São Tomé, onde só a claque de apoio vai ser instada a estar.

E que não se reclame se os mesmos gaiatos da “Rua do Homem Pé” resolverem dizer que todo mundo tem seu dia de Odorico Paraguaçu.

Consequências inescapáveis da chegada do Deserto Verde em Campos dos Goytacazes

Em 2004 fui um dos autores de um capítulo no livro “Conflito social e meio ambiente no estado do Rio de Janeiro” cujo título era “Transgredindo escalas e estabelecendo parcerias inusitadas na luta pela justiça ambiental: o caso da mobilização contra a monocultura de eucalipto no Rio de Janeiro”. O capítulo era essencialmente uma análise das alianças inusitadas ocorridas naquele período para impedir a chegada dos grandes plantios de eucalipto no território campista, tendo unido representantes dos ceramistas, pesquisadores das universidades locais, ambientalistas e dirigentes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).  Na conclusão daquele capítulo, colocamos uma espécie de alerta no sentido de que aquele era um conflito inconcluso e que cedo ou tarde, o espectro do deserto verde iria novamente pairar sobre nossas cabeças.

Eis que agora pouco mais de duas décadas daquela tentativa frustrada de implantar a monocultura de árvores no território de Campos dos Goytacazes, estamos assistindo a uma nova tentativa, agora com o apoio explícito do prefeito Wladimir Garotinho e do seu secretário de Agricultura, Almy Junior.  As informações que me chegam de fontes que conhecem as transações que estão ocorrendo no mercado de terras (a maioria improdutivas) é que milhares de hectares já foram adquiridos por empresários capixabas, e que efetivamente a ideia é transformar o Norte Fluminense em um imenso deserto verde. Assim, ainda que os anúncios bilionários de investimentos sejam irreais, o espectro do deserto verde está realmente mais próximo do que esteve no início do século 21.

Agora, o que não está se mostrando ( e eu irei fazê-lo com a lupa científica nos próximos anos) é que essa tentativa não for tiro com pólvora molhada, o que está se preparando trará amplas consequências sobre o meio ambiente, a saúde humana e até a capacidade de circulação em um BR-101 já sobrecarregada com a falta de duplicação no trecho entre Campos dos Goytacazes (RJ) e Anchieta (ES).

A primeira coisa é que grandes plantios de eucalipto não geram empregos, mas acabam destruindo mais do que criam.  Assim, em uma região que já possui déficit de empregos, a chegada da monocultura de árvores gerará mais desemprego e mais êxodo rural, o que contribuirá para a ampliação das favelas. 

Em segundo lugar, plantios de eucalipto demandam um grande uso de agrotóxicos, principalmente no combate às formigas que encontram nas mudas um amplo pasto. Com isso, viveremos a ampliação do uso de substâncias químicas altamente tóxicas, o que deverá causar mais adoecimento nos trabalhadores e espalhar a contaminação via os corpos hídricos. Como vivemos em um município que já possui um sistema de saúde sobrecarregado por doenças oriundas da monocultura de cana, a perspectiva é que nos próximos anos e décadas assistamos a uma piora do quadro de saúde, sem que haja a devida cobertura  de serviços de saúde.

O que são desertos verdes? | Super

Em terceiro lugar,  monoculturas de árvore em escala industrial, principalmente em ciclos de plantio/colheita altamente velozes, há um aumento na demanda hídrica.  Em especial, o eucalipto demanda muita água para cumprir um processo de crescimento rápido que possa gerar a matéria prima para a produção de celulose que certamente é o alvo da expansão do deserto verde em terras campistas.  Com isso, como já vivemos em uma região em que o fornecimento de água é altamente pressionado, o futuro se desenha como bastante desafiador.

Em quarto lugar, há que se mencionar que certamente o principal comprador das árvores plantadas em Campos dos Goytacazes e municípios vizinhos será a Suzano Papel cuja planta estabelecida em Aracruz (ES) precisa de mais de matéria prima para operar nos níveis de competição que seus acionistas demandam. Com isso, a via de transporte preferencial terá de ser a BR-101, visto que inexiste outra forma de acesso viável, tanto para Aracruz como para as unidades portuárias existentes ou em construção na região.  Com isso, imaginemos o que vai acontecer quando a produção dos eucaliptais começar a ser transportada pela via realmente existente, a BR-101.

'Agora tudo é eucalipto': trabalhadoras rurais denunciam danos ambientais  causados pela Suzano – Brasil de Fato

Um quinto e importante aspecto se refere às pressões sociais em prol da reforma agrária.  A transformação de Campos dos Goytacazes em um deserto verde é também uma forma de impedir que a reforma agrária prospere.  Os últimos anos têm mostrado que uma retomada das ações do MST e de outros movimentos sociais em prol da utilização do grande estoque de terras improdutivas em assentamentos de reforma agrária.  Ao transformar terras improdutivas em mais um deserto verde, as oligarquias agrárias que ainda dominam a política municipal e regional procuram se prevenir contra o “mau exemplo” da agricultura familiar e da produção de alimentos saudáveis.  Por mais contraditório que possa ser, vender as terras por preços aquém do que se poderia obter do governo federal via desapropriações faz sentido, pois a ordem social existente se baseia justamente na desigualdade de acesso à terra, nos campos e nas cidades.

Por isso tudo é que não se pode ignorar os esforços de implantação do deserto verde em Campos dos Goytacazes. É que aqui está se dando mais um capítulo que coloca de frente um para o outro, modelos de sociedade e de desenvolvimento econômico e social.   E uma última nota: como não comemos celulose nem casca de eucalipto,  não deve ser difícil de se estender a urgência da tomada de posição por parte daqueles que não querem ver o deserto verde instalado em Campos dos Goytacazes.

Campos dos Goytacazes aparece como nono pior município médio em ranking nacional de progresso social. Quem se surpreende?

Na ultima quarta-feira (28/05), o Imazon publicou a segunda edição do Índice de Progresso Social (IPS) analisa 5.570 municípios com base em indicadores sociais e ambientais, oferecendo um retrato multidimensional do desenvolvimento no Brasil, mas acabei não divulgando porque queria mais tempo para analisar o material.

Em seu site, o Imazon informa que neste caso, Progresso Social foi definido por um grupo de especialistas acadêmicos e sintetizado pelo SPI como “a capacidade da sociedade em satisfazer as necessidades humanas básicas, estabelecer as estruturas que garantam qualidade de vida aos cidadãos e dar oportunidades para que todos os indivíduos possam atingir seu potencial máximo”. Ainda segundo o Imazon, a “partir desse conceito, o IPS Brasil 2025 é formulado com base em 57 indicadores divididos em três dimensões: Necessidades Humanas Básicas; Fundamentos do Bem-Estar e Oportunidades”.

Pois bem, é aí que a porca torce o rabo para o município de Campos dos Goytacazes que, no grupamento relativo a cidades com mais de 500 mil, aparece no nada honroso posto de nono pior entre todos seus congêneres brasileiros (ver imagem abaixo).

Alguém poderá desdenhar do valor atribuído a Campos dos Goytacazes no IPS Brasil 2025, mas a leitura do relatório completo ajuda a entender como é que fomos colocados nesta posição pouco lustrosa.  Basta ver como se calcula os valores de diferentes componentes que compõe o IPS para notar quem a despeito de inevitáveis distorções que qualquer cálculo desta natureza, os números não estão mentindo.

Além disso, por mais distorção que possa haver, conheço algumas das cidades colocadas entre as melhores e já vivenciei diferenças notáveis na condição de vida dos mais pobres que são aqueles que mais sofrem quando necessidade básicas não são resolvidas ou, quando o são, as soluções oferecidas são precárias, como é o caso de Campos dos Goytacazes.

Aliás, é preciso dizer que o mundo dourado (que no caso é feito de muita pirita) que o prefeito Wladimir Garotinho nos presenteia em suas entrevistas não é problema de uma ou duas administrações municipais, mas sim de um longo processo histórico de criação de desigualdades. Mas é lamentável notar que em qualquer índice minimamente sério que se organize, a posição de Campos dos Goytacazes é sempre entre os piores. 

E essa posição se mantém apesar dos bilhões de reais que foram aportados nos cofres municipais desde a promulgação da Lei do Petróleo em 1998 na forma de royalties ou participação especial.  O fato inegável é que boa parte desse dinheiro foi utilizado para reforçar e até aprofundar as desigualdades históricas que colocam de um lado uma minoria de privilegiados e de outro uma maioria que é deixada na pobreza absoluta.

Pelo menos com esse relatório, aqueles que quiserem fazer um debate minimamente sério sobre os desafios em que estamos atolados vão poder ter um instrumento para se orientar, deixando de lado as fanfarronices que cercam as manifestações dos diferentes grupos que se engalfinham para controlar os cofres municipais.

Wladimir Garotinho está sob fogo cerrado mais por suas qualidades do que por seus defeitos: Reloaded

Um raro momento de paz…

Por Douglas Barreto da Mata

Aproveitando o mote cinematográfico, tão em voga atualmente, vamos estender nosso raciocínio expresso no primeiro texto, em uma continuação, tão ao gosto das franquias de Hollywood.

Um dos eventos que deu ignição aos ataques da oposição local, que age por comando de Rodrigo Bacellar, presidente da Alerj/governador, foi a suposta crise de financiamento da saúde local, onde foi colocada para conhecimento do público uma dívida de 100 milhões de reais com os hospitais filantrópicos.

Apesar dessa dívida e desse valor nunca terem sido corroborados por nenhum documento, o que, como já dissemos, causa estranheza que a alegação tenha ido tão longe, há outras questões que permanecem obscuras, e impedem o cidadão e a cidadã de fazerem um correto julgamento da questão.

Já foi dito e repetido que o Sistema Único da Saúde (SUS) é um sistema de gestão entre União, Estados e Municípios, com repartição de atribuições, sejam elas complementares, subsidiárias ou concorrentes.

Há obrigações, principalmente de natureza orçamentária, partindo da lógica que em nossa federação, apesar da vida econômica acontecer nas cidades, os tributos, ou a maior parte deles, são recolhidos (sobem), para Estados e União, e depois são redistribuídos para as cidades.

Nesse contexto, a saúde é, em todas as cidades, e em todos os estados, exceto o Distrito Federal, paga com repasses da União, dos Estados e com parte das receitas próprias das cidades.

Quase sempre é assim. Deveria ser assim.  Tomamos o exemplo de cidades diferentes, com poucos habitantes, como Miguel Pereira, uma cidade média como Campos dos Goytacazes, e São Gonçalo, com mais habitantes. Olhemos também aquelas que são pólos regionais, ou seja, aquelas que atendem cidades vizinhas e circunvizinhas.

No Estado do Rio de Janeiro este é o montante por habitante que o governador manda pagar, por exemplo, para estas três cidades:

Miguel Pereira

R$ 857 por habitante (não é polo regional de saúde) 

São Gonçalo

R$ 265 por habitante (não é polo regional de saúde) 

Campos dos Goytacazes

R$ 126 por habitante (sendo polo regional de saúde)

Em Campos dos Goytacazes, esses valores, além de subestimados, não são repassados há muito tempo.  O estado do Rio de Janeiro reteve os repasses obrigatórios a cidade desde 2023, pelo que dizem. Porém, o governo do Estado e a secretaria estadual de saúde continuam a enviar pacientes de todas as cidades para Campos dos Goytacazes, através do seu sistema de regulação de vagas, porque a cidade é pólo regional.

O Estado usa o sistema de saúde campista, e não paga.  O mais grave é que Campos dos Goytacazes é um dos únicos municípios do Brasil que completa os valores que o SUS paga aos entes particulares pelos atendimentos, e mesmo assim, o governo do Estado, o presidente da Alerj continuam a manter a cidade sufocada.

Eu ainda não consegui enxergar a razão da cidade de Campos dos Goytacazes não ter acionado o governo do Estado na justiça, inclusive para bloquear os valores devidos ao município na conta do estado. O prefeito Wladimir Garotinho tem levado a fama de ingrato, mesmo tendo permanecido na espera todo esse tempo.

Quem sabe essa crise fabricada para tentar fazer com que ele beijasse a mão do presidente da Alerj não foi a gota d’água?

Campos, voltando a ser uma cidade que produz cinema?

TRÊS ATOS COM AMIGAS E AMIGOS

Lançamento do filme “Três Atos” da cinesta campista Carolina de Cássia ocorreu no Teatro de Bolso no dia 13 de maio de 2025

Acabo de assistir um simpático vídeo que tem o prefeito Wladimir Garotinho com “garoto propaganda” de um festival internacional de cinema que deverá ocorrer este ano em Campos dos Goytacazes no segundo semestre de 2025.  O prefeito, que de bobo não tem nada, aproveita a deixa para vender o seu peixe de que o município (certamente sob seu comando sábio) está diversificando a sua economia que se encaminha para um inevitável pós-petróleo.

Pois bem, apesar de não ser um cinéfilo, convivo cotidianamente com alguém que é.  E, até por isso, sou testemunha do problema que é fazer algo básico aqui em Campos dos Goytacazes: sair de casa para assistir um filme em uma sala de cinema. A ´cidade tem hoje no máximo dois espaços para que se assista produções comerciais e outros poucos espaços para que se tenha acesso a produções alternativas, sendo o Cine Darcy da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, um desses poucos espaços. Em outras palavras, até assistir cinema é difícil em Campos, que dirá produzir.

E aí que me vem à cabeça perguntar ao prefeito, quanto é que ele pretende investir (ou seu vice que ocupará a sua cadeira em um futuro não muito distante) para que Campos dos Goytacazes “volte a produzir cinema”.  É que até onde eu sei, essa peça de propaganda deve ser a primeira vez em que o prefeito sequer vislumbra saber que aqui há algum tipo de potencial produtivo para cinema.

Eu que tenho como amiga a cineasta e documentarista campista Carolina de Cássia que vem produzindo peças super sensíveis sobre a realidade local, sei que ela o faz por obstinação e senso criativa, mas nunca por apoio do governo local.  Aliás, a sua última produção, o “Três Atos”  que foi apresentado recentemente no Teatro de Bolso, eu lamentavelmente não pude assistir por causa de tarefas familiares que ocorriam no horário em que o mesmo foi lançado (ver abaixo).

Assim, se é verdade que o prefeito ou o seu eventual sucessor tem algum compromisso com a produção local, não basta apoiar um congresso que virá e irá ao sabor dos ventos que sopram nesta planície. Há que se ter investimento (muito investimento mesmo) para que a peça de propaganda não seja apenas um folha espalhada por um vento sudeste em dia de entrada de frente fria.

Wladimir está sob fogo cerrado, mais por suas qualidades do que por seus defeitos

Por Douglas Barreto da Mata 

“Onde todos vêem coincidências, eu vejo consequências…”

Essa frase aí em cima é dita por uma personagem de nome Merovingian, de um filme bem famoso, A Matrix.   É auto explicativa. Não há acaso, há relação de causa e efeito. Concordo. 

Olhando a situação do prefeito Wladimir Garotinho pelas mídias e redes sociais temos a impressão de que o mundo desaba sobre Campos dos Goytacazes. Problemas? Muitos, e nem o prefeito ou qualquer outro integrante de sua administração escondem as dificuldades orçamentárias atuais e as iminentes.

A imagem do prefeito “caixeiro viajante” já foi incorporada no imaginário político local, com as frequentes idas de Wladimir Garotinho a Brasília em busca de emendas e leis, como a do semiárido, que tragam algum recurso ou que viabilizem determinadas atividades econômicas. 

Concordando ou não (eu, por exemplo, não sou entusiasta dos subsídios e facilidades para o setor sucroalcooleiro), o fato é que o alcaide não hesita em pedir mais e mais verbas para a cidade. 

Ele só não bateu mais a porta do governo do Estado, como me disseram em segredo alguns integrantes da administração, porque depois que o palácio Guanabara virou comitê de campanha do presidente da Alerj, ninguém mais tem recursos do Estado se não hipotecar apoio ao presidente da Alerj.

É nessa toada que volto ao título. 

O aparente “inferno astral” da administração, com servidores, donos de hospitais, permissionários de transporte complementar (Van) e etc berrando para ganharem mais um pouco não é coincidência, é consequência.

Tudo indica um esforço concentrado de sabotagem e pressão política para dobrar o prefeito em direção ao “Castelo da Guanabara”, onde se pratica aos amigos tudo, aos adversários, a lei (do cão).

Nesse momento em que o prefeito é cortejado por Eduardo Paes parece estranho que movimentos sincronizados se levantem contra o prefeito.  Há de se pensar, se tudo estivesse tão ruim, quem ia insistir em ter o prefeito como parceiro de chapa? Pois é.

Por exemplo, essa série de eventos tem como um de seus destaques as intermináveis obras da Rodovia dos Ceramistas, que empurram o tráfego pesado de carretas para dentro da cidade.  Digo e repito, eu nunca vi, em toda a minha vida, uma obra de recuperação de pavimento sem a possibilidade de pare-e-siga.  Mas, faço a ressalva para os limites de meu conhecimento empírico frente a engenharia contratada pelo DER/RJ.

Servidores têm todo direito a reivindicações salariais, mas quem olhasse os gatos pingados em frente a prefeitura não pode deixar de pensar que foi uma “manifestação encomendada”, algo feito para fazer conteúdo para redes sociais.  Quem faz uma reivindicação com 20, 40 pessoas em nome de 30 mil servidores? 

Ao mesmo tempo, temos os hospitais privados de Campos dos Goytacazes batendo tambor.  Mais de 1 bilhão em 4 anos!  Reclamam valores de 100 milhões, que uns dizem que não há documentos, outros dizem que foi ajuizada.  Funcionários amigos da saúde me dizem que a dívida real, que remonta a gestão Rafael Diniz seria de cerca de 40 milhões, e segue sendo discutida na justiça.  Sendo ou não verdadeiras as versões, então que se resolva na justiça.  Agora, parece muito estranho que uma cidade pague 1 bilhão de reais ou mais em quatro anos, e se negue a pagar ou negociar 100 milhões.

Cadê o bom senso da mídia?  A questão que não foi perguntada é :  o prefeito e seu secretário de saúde, o presidente da FMS têm direito a mudar a gestão do atendimento e contratualização?  Claro, eles foram eleitos para isso, e se eles entenderem que deverá diminuir ou acabar a contratualização de hospitais privados, é direito deles, desde que se ofereça alternativa.

E mais, eles têm o dever de informar as irregularidades do setor, como a cobrança duplicada de consultas e procedimentos (cobra do paciente “social” e cobra do SUS), caso constatem tais desvios de conduta.  Há fundadas suspeitas de que administradores dos hospitais não resistiriam a um exame detalhado de seu patrimônio, que contrasta com a penúria das instituições.  Essas instituições, diga-se, não podem ser confundidas com os seus péssimos administradores.

Quem vai julgar é o eleitor.  Enfim, tudo indica que as raposas da terra estão a dizer que as uvas estão verdes.  Querem abater o prefeito porque parecem ter escolhido um lado na corrida eleitoral de 2026.  Wladimir está sob ataque por suas qualidades, e não pelos defeitos.

Suderj informa: não vai ter “répi endi” na terra dos Goytacazes

Douglas Barreto da Mata

Dias desses assisti uma reportagem-propaganda do grupo Globo, em um de seus noticiosos. Na oportunidade, o grupo de mídia promovia o seu acervo cinematográfico, no caso concreto, o lançamento do Auto da Compadecida 2 (horrível, por sinal, um desserviço à memória de Suassuna, e da própria maravilhosa representação do primeiro filme).

A matéria tecia loas ao “poder transformador” do cinema, e mostrava cidades-locações, como Pacatuba e Cabaceiras. Pacatuba, no Ceará, foi o cenário das sequências de Cine Roliúdi 1 e 2, dentre outros, enquanto a paraibana Cabaceiras foi locação do Auto da Compadecida, quando recebeu o nome fictício de Taperoá. Deu tristeza e vergonha alheia. A tentativa da empresa de mídia Globo, e sua subsidiária cinematográfica, a Globo filmes, em descrever supostos benefícios e legados para o “desenvolvimento” daquelas cidades foi constrangedor. Porém, não se poderia esperar nada diferente, afinal, é da Globo que falamos.

O que dá desespero mesmo, não é assistir aquela pobre gente se pendurando em retalhos e memórias de uma grandeza que nunca houve, ou disputando nacos de um brilho que nunca existiu, a não ser pela convivência figurante e fugaz com uma indústria (do entretenimento) tão exógena quanto uma nave alienígena.

Não ficou nada em Cabaceiras ou Pacatuba, além de adereços que servem a uma subsistência de sub sub sub celebridades dos pobres (ainda mais pobres), que um dia foram tocados (de longe) pelo sonho de desenvolvimento de alguma atividade econômica que os livrasse daquela pobreza endêmica.  É mais ou menos o enredo e roteiro que estão a contar na planície goytacá, ou na “Campos dos Goytacazes, cidade de cinema”.

Eu nem vou mencionar a cafonice provinciana intelectual da classe média e certa parte da elite local, sempre ávidas por auto reconhecimento de virtudes culturais e civilizatórios que nunca cultivaram, não porque não falem “javanês”, mas pela conhecida selvageria das suas relações sócio-econômicas, que nos rendeu o título de uma das cidades mais conservadoras do país, terra da TFP, ou das usinas onde queimaram corpos de presos políticos da ditadura de 1964.

Não vamos perder tempo com isso, e de certa forma, vai ser divertido ver o “vendedor de monotrilho” destruindo o que resta de auto estima desse pessoal (ver episódio dos Simpsons, temporada 4, episódio 12, onde um forasteiro “engana” os moradores de Springfield, com promessa de grandeza, com a instalação de uma traquitana).

Vamos falar de história e seus contingentes. O cinema, como atividade econômica e, claro, como um produto histórico, não brota do chão ou é um “triunfo da vontade”(ver Mein Kampf, de Adolf,  sim aquele mesmo).

Não é um ato de abnegados e iluminados desbravadores, que chegam com miçangas e espelhos cinematográficos para a troca “civilizatória” com os bugres da terra, que por encanto começarão a prosperar com essa relação e seu legado. Bem, no caso dos índios e portugueses não deu muito certo.

Todo processo histórico de formação de uma atividade econômica, ainda que vinculada ao campo “cultural” ou do entretenimento, requer uma série de condições materiais específicas e próprias, ao mesmo tempo que obedece regras gerais, dinâmicas as quais chamamos de relações desenvolvimento dialético, para então se estabelecerem, com mais ou menos vigor, como um fenômeno perene. Sendo mais amplo ainda, é justamente esse o entrave que nos condenou ao nosso subdesenvolvimento como país. O entrave da história.

Há vários teóricos e teorias disponíveis sobre isso, e com mais ou menos acerto, todas as que merecem respeito concordam que não há espaço para voluntarismo, apesar de reconhecerem que é o agir humano que transforma a realidade, ao passo que é transformado por ela.

A ideia de que um festival de cinema vá dotar a cidade da condição e capacidade de receber algum tipo de reconhecimento ou atração de investimentos, para permitir a comunidade local ocupar-se nesse ramo econômico, desencadeando a virtuosa cadeia produtiva de emprego e renda, além do inestimado e incalculável patrimônio imaterial que o cinema proporciona, é uma tolice que, se não for tolice, é uma tentativa de levar que nos resta de pau-brasil, em troca de algumas plumas e bijuterias.

Não nego que seja atraente esse “sonho de grandeza”, a gente quase quer acreditar nessa chance de sermos “alguém”, sem cumprirmos os requisitos necessários, as danadas das condições materiais históricas.

Queremos o milagre, como não?  Não queríamos que o Senhor X, o Barão de SJB, o messias do porto, e agora arauto da supercana e ex presidiário, Eike Batista tivesse nos libertado de nossa pobreza? Claro que sim. Não queríamos uma Brigitte Bardot a fazer aqui o que fez no vilarejo de pescadores, não por coincidência, meca da elite caipira do chuvisco? Sim, queremos. Não queremos que o quiprocopolla do cinema da Uenf não transforme essa terra árida em um oásis de planos sequências de felicidade e prosperidade pela arte? Óbvio. Mas eu sinto dizer: não é desta vez, e não é com esse tipo de “santo”. E nem com santo algum.

O porto deu no que deu, gente desterrada de suas casas e ancestralidades, terra salgada e erodida no Açu, e muita pobreza, eis que SJB ainda ostenta índices criminosos de desenvolvimento humano.

Búzios virou lugar de argentino classe média baixa mal educada, um enclave de mega especulação imobiliária e desastre ambiental, onde os pescadores continuam em condições ainda piores, já que perderam as belezas naturais, e não conseguem acompanhar os preços inflados dos bens e serviços oferecidos ao turista.

O que será então de nossa cidade do cinema? Não, não vai haver “répi endi” na terra dos Goytacazes.