O Canal Campos-Macaé e os limites da propaganda oficial

Ontem tive minha atenção chamada pela faixa que é mostrada abaixo e que publiciza uma suposta condição de “limpo” e “despoluído” para o histórico canal Campos-Macaé, a qual traz a assinatura da Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes e da concessionária Águas do Paraíba.

canal campos macae

Que os realizadores dessa campanha publicitária me desculpem pela completa incredulidade em relação ao anunciado na faixa em questão. É que até a última vez que passei por cima de uma das pontes que cruzam o canal (também conhecido carinhosamente pelos campistas como Beira Valão), o cheiro insuportável de esgoto ainda se fazia notar de maneira forte e inconfundível.

Assim, ao contrário dos muitos incrédulos que apontaram a cor ecageradamente azul das águas do canal como demonstração de que essa é uma propaganda enganosa, o meu problema é mais olfativo.

Mas, vamos lá, vamos dar uma chance ao imponderável e admitamos por um segundo que o que está posto na faixa é verdadeiro. Restaria ao prefeito Rafael Diniz e ao  superintendente de Águas do Paraíba, Juscélio Azevedo, nos contar como esse milagre será replicado em todos os corpos aquáticos que hoje são poluidos por despejo de esgoto in natura, a começar pelo glorioso Rio Paraíba do Sul. A ver!

Vazamento, ar ou gato? E a difícil arte de reclamar das contas astronômicas da Águas do Paraíba

Venho há algum tempo me deparando com problemas nos serviços prestados pela concessionária Águas do Paraíba, empresa que já me premiou com o abastecimento de conglomerados gigantescos de cianobactérias na água que deveria ser incolor, insípida e inodora. Mas nada me indigna mais do que receber mês após mês contas que simplesmente não refletem o consumo de uma residência habitada boa parte do tempo por eu mesmo e uma gata.

Agora em meio a recessos e férias contava com a possibilidade de que os valores de dezembro a fevereiro voltassem ao que me foi cobrado em julho de 2015. Mas como pode ser observado pela imagem da conta que me foi oferecida pela “Águas do Paraíba”, minhas expectativas foram mais do que infundadas.

aguas do paraiba

Isso mesmo, num período em que a minha residência ficou praticamente fechada fui “premiado” com uma conta de R$ 255,32 divididos de forma salomônica entre fornecimento e tratamento de esgotos (essa é a pior das piadas!).  Isso refletiria o consumo de 23 metros cúbicos de água por 30 dias entre dezembro/15 e janeiro/16, o que é simplesmente pouco possível já que eu estive viajando por 15 dias!

Agora, quais são as possibilidades para que o consumo esteja sendo medido acima de 20 metros cúbicos desde outubro de 2015? As principais possibilidades seriam vazamentos no interior da residência,  a instalação de gatos e algo bem simplório, a leitura de ar pelo hidrômetro como se água fosse.

Aviso que a possibilidade de vazamentos foi negada após a visita de um encanador que eu mesmo contratei para verificar se esse seria a vontade de tamanho consumo. Além disso, restringi ao máximo o consumo para verificar se haveria uma mudança nos valores medidos.  E querem saber a resposta? Nada mudou como mostram os valores colocados em vermelho na imagem acima.

Restam assim as possibilidades de “gato” e de ar sendo medido como água. 

Agora, alguém poderia me perguntar por que não compareci na Águas do Paraíba para registrar uma queixa e solicitar uma inspeção? A explicação é simples: falta-me o tempo necessário para comparecer no setor de atendimento aos consumidores onde diariamente centenas de pessoas sofrem para solicitar os mais variados tipos de serviços.

Entretanto, aproveitando o final das minhas férias  hoje estive na sede da “Águas do Paraíba” para tentar registrar uma queixa. E é óbvio que me deparei com uma sala completamente cheia e uma fila “generosa” na qual esperei até ser ouvido por um gentil funcionário.  O problema é que após ouvir o meu relato, este funcionário me informou que eu não poderia ser atendido porque não havia levado a leitura do hidrômetro do dia de hoje (23/02)!

Entre desapontado e irritado (já que se estava lá para reclamar do nível de consumo, a primeira coisa que uma equipe da empresa irá ter de fazer é ler o hidrômetro!) me retirei do local até que eu possa produzir a tal leitura do dia.

Agora me respondam: como é que fica o cidadão mais comum que não se pode dar ao luxo de ficar indo e voltando para mofar na fila de atendimento da Águas do Paraíba? Não seria esta uma estratégia perfeita para nos fazer continuar pagando por ar ou por gatos instalados em nossas casas? 

Será que sou só eu acho que acha um completo absurdo ter que ver 50% do valor de cada conta apontando para o pagamento de esgoto (seja lá isso o que for) e verificar que bem em frente da sede da “Águas do Paraíba” há um canal histórico como o Campos-Macaé totalmente contaminado pelo despejo diário de toneladas de esgoto sem nenhum tipo de tratamento?

Finalmente,  fico me perguntando qual foi o final da Comissão Parlamentar de Inquérito que seria instalada na Câmara de Vereadores para apurar a qualidade dos serviços da “Águas do Paraíba”. Pelo jeito, tomou um tremendo Doril!canal

Só mesmo a floração do ipê para me fazer esquecer o cheiro de podridão que emana do Canal Campos Macaé

Sou um fã de carteirinha do centro histórico de Campos dos Goytacazes, e adoro circular por suas ruas estreitas onde admiro os diferentes tempos geográficos que estão acumulados nos casarões que ali existem. Entretanto, como alguém que fez de Campos a sua morada há quase duas décadas, considero que a floração dos ipês amarelos é o ponto alto para quem anda pelas proximidades do Canal Campos Macaé, como bem demonstra a imagem abaixo.ipês

Aliás, só mesmo a floração dos ipês para compensar, ainda que parcialmente, a terrível experiência olfativa que é ter de enfrentar anos de descaso acumulados sob a forma de esgoto lançado sem tratamento nas águas do histórico canal, que pode ser considerado até hoje uma das obras de engenharia mais arrojadas que foram construídas em solo brasileiro.

E o que mais me espanta, e convenhamos indigna, é que as potentes emissões de metano ocorrem sob os narizes das autoridades municipais e dos dirigentes da concessionária “Águas do Paraíba” cujo endereço principal em nossa cidade é muito próximo ao ipê mostrado acima. Em outras palavras, não é por não se sentir o cheiro de podridão que as medidas necessárias para corrigir o problema não são adotadas.

Enquanto isso, metade da conta cobrada pela Águas do Paraíba aos seus consumidores campistas é justamente, surprise! surprise!, se refere à coleta e tratamento de esgotos.  Ainda bem que ainda temos os ipês amarelos para alegrar a vista e acalmar a alma!

Canal Campos Macaé: por que nossa história continua literalmente afundada na merda?

Hoje passei novamente por cima de uma das pontes que existem no Canal Campos Macaé, e não pude deixar de sentir aquele cheiro característico que o derrame de esgoto in natura causa na atmosfera daquela parte do centro histórico de Campos dos Goytacazes. A olhada para baixo apenas confirmou aquilo que eu e o resto das transeuntes sabe de cor e salteado: o despejo de esgoto sem tratamento continua a todo vapor dentro de um dos principais marcos históricos de nossa bela, mas judiada cidade.

canal

Uma parte da minha inconformidade se deve a um elemento pueril: todo mês recebo uma conta salgada de água da concessionária “Águas do Paraíba” onde o tratamento de esgotos representa 50% do preço que me é cobrado. Assim, seria de imaginar que passada mais de uma década da privatização dos serviços de águas e esgotos em Campos dos Goytacazes, um marco histórico como o Canal Campos Macaé já estivesse livre dessa condição altamente indesejável.

Para os que não são afeitos a entender a importância histórica do Canal Campos-Macaé e de sua singularidade dentro das grandes obras feitas pela mão do homem (escravo nesse caso em particular) posto um mapa que me foi generosamente enviado, onde pode se ver perfeitamente a linha de mais de 100 km de extensão que se inicia no centro de Campos, passa próxima da Lagoa Feia, e termina nas imediações da cidade de Macaé. 

canal mapa

Venhamos e convenhamos, uma obra dessa magnitude não merece ficar afundada na merda. Literalmente!