Parecer técnico identifica graves riscos à saúde de centenas de agrotóxicos banidos na Europa e vendidos legalmente no Brasil

Um parecer técnico preparado por dois especialistas que eu considero altamente qualificados nos estudos dos impactos ambientais e sanitários dos agrotóxicos, Sonia Corina Hess e Leonardo Melgarejo, faz um Raio-X detalhado de mais de 200 ingredientes ativos de agrotóxicos (223 na verdade) que estão banidos para uso na Europa, mas que continuam sendo legalmente comercializados no Brasil.

O parecer técnico inclui um quadro descritivo que discrimina o ingridiente ativo, classe de uso, ano de autorização no Brasil, ano de banimento na Europa, toneladas comercializadas em 2023, total de agrotóxicos comercializados, e efeitos sobre a saúde e o ambiente.

Um dos detalhes mais chocantes que aparece nas informações colhidas por Hess e Melgarejo a partir de fontes como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), do Agrofit (um banco de informações sobre os produtos agroquímicos e afins registrados no Ministério da Agricultura) e da União Europeia, é que o Brasil vem constantemente registrando ingredientes ativos logo após, ou a despeito, seu banimento na Europa. Além disso, uma quantidade considerável dos ingredientes ativos autorizados jamais foram registrados pela União Europeia.

O parecer ainda aborda o impacto não avaliado dos chamados adjuvantesque também são perigosos à saúde e m ambiente, mas não são acompanhados pela ANVISA ou considerados durante o processo de liberação dos ingredientes. Em alguns casos, os adjuvantes podem ser tão ou mais tóxicos do que os próprios ingredientes ativos que formam os agrotóxicos, mas não são avaliados por serem considerados inertes.

A informação que deveria ser levada especialmente em atenção se refere à longa lista de doenças associadas a esses ingredientes ativos, seja por contato direto ou indireto. Aí estamos falando de diferentes tipos, desregulação do sistema endócrina, danos celulares, danos ao sistema neurológico, danos renais, autismo e déficit de atenção.

A contaminação por esses produtos atinge ainda os recursos hídricos que, por sua vez, são as fontes de abastecimento das cidades brasileiras. Em outras palavras, e como já foi demonstrado pelas referências científicas anexadas ao parecer técnico, o processo de contaminação é bastante difuso, pois a água servida nas cidades está repleta de resíduos de agrotóxicos, formando uma espécie de poção venenosa que está envenenando os brasileiros de forma ampla, geral, irrestrita e altamente silenciosa.

O parecer assinado por Hess e Melgarejo sugere que “sem prejuízo à medidas direcionadas à proibição de todos aqueles 190 ingredientes ativos banidos dos mercados europeus, se atente para a possibilidade de articulações junto ao MS, FUNAI, MMA e ao MAPA, com vistas à suspensão imediata do uso daqueles produtos” em áreas de reforma agrária, zonas de sacrifício (que são aquelas regiões com indicadores de danos à saúde relacionados ao uso de agrotóxicos, superiores às médias nacionais), zonas de consolidação das práticas de base agroecológica, e em terras indígenas e áreas protegidas.

Uma questão ética que se levanta nas questões levantadas por esse parecer técnico se refere ao fato de que o Brasil continua autorizando ingredientes ativos que são conhecidamente altamente tóxicos e perigosos para a saúde humana, o que é revelado por seu banimento na Europa, sem que haja qualquer tipo de dispositivo que impeça que produtos banidos sejam autorizados no Brasil, algo que deveria ser automático.

Há ainda que se ressaltar que todo o processo de registro de ingredientes ativos se tornou ainda mais maleável e propositalmente rápido após a aprovação do chamado “Pacote do Veneno” pelo Congresso Nacional.  Uma das maiores excrecâncias que constam no pacote é o registro eterno dessas substâncias altamente tóxicas.  E para vantagem de quem? Das empresas multinacionais, principalmente europeias, especializadas em despejar no Brasil aquilo que a Europa baniu.

Quem desejar ler na íntegra o parecer técnico assinado por Sonia Hess e Leonardo Melgarejo, basta clicar [Aqui!].

O câncer de cólon está aumentando entre os jovens – e a ciência aponta alimentos ultraprocessados como um dos principais culpados

Se fumar foi o vilão do câncer do século XX, comer alimentos ultraprocessados ​​pode ser sua contrapartida no século XXI

Uma pessoa mordendo uma fatia de pizza.

Uma pessoa mordendo uma fatia de pizza. Fotografia: Steve Parsons/PA

Por Devi Sridhar para “The Guardian” 

O câncer costumava ser visto como parte do envelhecimento: algo que afetava principalmente pessoas com mais de 60 ou 70 anos. Mas, embora ainda seja verdade que a maioria dos novos diagnósticos de câncer afeta pessoas com mais de 70 anos, o padrão está mudando de forma sutil. Alguns tipos de câncer são cada vez mais encontrados em pessoas mais jovens.

Veja o caso do câncer colorretal (intestino): embora as taxas tenham diminuído em pessoas com mais de 60 anos, os dados mostram um aumento acentuado em muitos países desenvolvidos entre pessoas com menos de 50 anos, no que é chamado de doença de início precoce.

Isso não se deve apenas à triagem mais ampla ou ao melhor diagnóstico, e não é encontrado apenas em um país ou comunidade em particular. O aumento é real e global , passando de aproximadamente 94.700 casos em 1990 para 225.736 em 2019. Um estudo em toda a Europa descobriu que, para aqueles com idade entre 20 e 29 anos , a incidência aumentou 7,9% ao ano entre 2004 e 2016, com as taxas aumentando em 4,9% entre aqueles com idade entre 30 e 39 anos e 1,6% no grupo de 40 a 49 anos aproximadamente no mesmo período. O câncer de cólon não só está aumentando em todas as coortes etárias abaixo de 50 anos, como a taxa de crescimento é maior no grupo mais jovem. A modelagem sugere que o câncer colorretal de início precoce pode dobrar a cada 15 anos na Austrália, Canadá, Reino Unido e EUA.

Na Inglaterra, o programa de rastreamento do câncer de intestino do NHS abrange pessoas de 50 a 74 anos, convidando-as para um exame gratuito a cada dois anos. No entanto, essa faixa etária exclui pessoas mais jovens, que geralmente só são diagnosticadas em estágio avançado, quando o câncer já se espalhou e elas apresentam sintomas.

O que está causando o aumento no número de jovens? Podemos descartar a genética: estima-se que 75% dos casos ocorram em pessoas sem histórico familiar ou predisposição genética conhecida. Cientistas começaram a analisar fatores ambientais associados ao aumento do câncer de cólon desde a década de 1960, com cada geração tendo maior probabilidade de desenvolver câncer do que a anterior.

Um fator continua emergindo como o principal culpado: alimentos ultraprocessados , com uma revisão de 2025 na Nature Reviews Endocrinology destacando as ligações. Esses alimentos, definidos aproximadamente como lanches embalados em fábricas, refeições prontas, cereais açucarados, refrigerantes, carnes processadas e muitos fast foods, agora representam mais da metade da dieta média em países como o Reino Unido e os EUA.

As evidências estão crescendo: um importante estudo publicado no British Medical Journal analisou três grandes coortes nos EUA para examinar a associação de alimentos ultraprocessados ​​com o risco de câncer colorretal. Uma dessas coortes envolveu mais de 46.000 homens, acompanhados por 24 a 28 anos. Em comparação com o grupo que menos consumiu alimentos ultraprocessados, o risco daqueles que mais consumiram de desenvolver câncer colorretal – mesmo considerando nutrição e peso – foi 29% maior. Os autores concluem que mais estudos são necessários para compreender os mecanismos fisiológicos de como exatamente os alimentos ultraprocessados ​​contribuem para o desenvolvimento do câncer.

O interessante é que, embora grande parte da pesquisa tenha associado alimentos ultraprocessados ​​ao aumento da obesidade, que é um importante fator de risco para diversos tipos de câncer, o estudo acima aponta para o aumento do câncer colorretal em pessoas com peso normal . Será que alimentos ultraprocessados ​​podem ser cancerígenos independentemente do índice de massa corporal (IMC) de uma pessoa? Em outras palavras, esses alimentos são prejudiciais à saúde mesmo que você tenha um estilo de vida ativo e esteja em uma faixa de peso saudável?

Dietas ricas em alimentos ultraprocessados ​​têm sido associadas a interrupções na sinalização da insulina, inflamação crônica de baixo grau e alterações no microbioma intestinal, todos mecanismos implicados no desenvolvimento do câncer. O que comemos afeta o crescimento de nossas células, o funcionamento do nosso sistema imunológico e o comportamento das bactérias intestinais – que ajudam a regular a inflamação e a imunidade. Emulsificantes , aditivos adoçantes artificiais comumente encontrados em alimentos ultraprocessados ​​demonstraram, em estudos com animais, promover a inflamação intestinal e o crescimento de tumores. Enquanto isso, a falta de fibras e fitoquímicos protetores (compostos promotores da saúde encontrados em plantas) nesses alimentos pode alterar o microbioma intestinal necessário para o funcionamento ideal do corpo.

Demorou décadas, mas agora aceitamos que o tabaco causa câncer de pulmão e que o álcool aumenta o risco de câncer de mama e de fígado. A próxima década poderá testemunhar a inclusão de alimentos ultraprocessados ​​como um fator de risco fundamental para o câncer colorretal, especialmente em adultos jovens. Não estou escrevendo isto para assustá-lo. É sim para refletir sobre pesquisas recentes, realizadas em estudos rigorosos e de longo prazo. O que comemos importa mais do que você imagina.

Se fumar foi o vilão do câncer no século XX, consumir alimentos ultraprocessados ​​pode ser seu equivalente no século XXI. A ciência ainda não está consolidada, mas está se desenvolvendo rapidamente. Costuma-se dizer que comida é remédio. E, como estamos aprendendo cada vez mais, comida é prevenção. Nesse sentido, um estudo de 2025 descobriu que consumir iogurte regularmente pode reduzir o risco de desenvolver câncer de cólon, um subtipo do câncer colorretal. Então, se há uma lição a tirar desta leitura: coma mais iogurte e menos alimentos ultraprocessados.

A professora Devi Sridhar é presidente de saúde pública global na Universidade de Edimburgo


Fonte: The Guardian

Novo relatório mostra onde produtos químicos cancerígenos estão poluindo a água de mais de 200 milhões de pessoas nos EUA

What you need to know about toxic 'forever chemicals'

Por Carey Gillam para “The New Lede” 

Mais de 200 milhões de pessoas correm o risco de beber água da torneira contaminada com produtos químicos que causam câncer, danos ao fígado, defeitos congênitos e outros danos reprodutivos, de acordo com uma pesquisa divulgada na quarta-feira que inclui um mapa interativo de pontos críticos de alto risco.

O mapa, desenvolvido pelo Environmental Working Group (EWG), concentra-se no arsênio, no cromo-6 e no nitrato — todos cientificamente conhecidos por causar câncer e outros problemas de saúde.

Nitratos, comumente gerados pelo uso de fertilizantes em terras agrícolas, não só causam câncer, como também impactam negativamente os níveis de oxigênio no sangue de bebês. Bebês que consomem nitratos na água potável podem sofrer da chamada “síndrome do bebê azul”. Além disso, pesquisas mostram que gestantes expostas a nitratos na água potável correm riscos de partos problemáticos, incluindo baixo peso ao nascer e parto prematuro.

Dos três produtos químicos examinados no relatório, o nitrato é o que mais afeta a água da torneira. O EWG afirmou que o nitrato está afetando a água da torneira de cerca de 263 milhões de americanos em 49 estados atendidos por 26.644 sistemas de água. A água potável contaminada com nitrato tem sido um problema grave para muitos estados agrícolas, particularmente o estado de Iowa, principal produtor de milho, nos últimos anos, e pesquisadores temem que isso esteja elevando as taxas de câncer .

Iowa tem a  segunda maior taxa  de câncer dos EUA e se tornou um dos dois únicos estados dos EUA onde a incidência de câncer está aumentando. Leucemia, assim como cânceres de pâncreas, mama, estômago, rim, tireoide e útero, estão entre os diferentes tipos de câncer em ascensão em Iowa,  de acordo com o Instituto Nacional do Câncer. Nitratos têm sido rotineiramente encontrados em níveis acima dos 10 miligramas por litro estabelecidos pelos órgãos reguladores federais como padrão de segurança. E os níveis de nitrato neste verão em Iowa estavam tão acima dos padrões federais que a concessionária que atende 600.000 pessoas na capital do estado, Des Moines, e arredores, restringiu o uso de água  porque não conseguiu eliminar os altos níveis com segurança.

Muitos cientistas consideram o atual valor de referência da EPA de 10 miligramas por litro como alto demais para ser verdadeiramente protetor. O EWG afirmou que esse padrão não protege totalmente contra o risco de câncer ou danos ao feto em desenvolvimento. A diretriz de saúde do EWG é de 0,14 ppm, o que, segundo ele, reduziria o risco de câncer para um em um milhão.

(O mapa do EWG ilustra a prevalência de contaminação concomitante da água potável.)

Também preocupante é a contaminação generalizada da água da torneira com cromo-6, também conhecido como cromo hexavalente. Pesquisadores do EWG afirmaram que ele contamina a água da torneira de cerca de 260 milhões de pessoas atendidas por 7.538 concessionárias de serviços públicos, principalmente no Arizona e na Califórnia. Mesmo níveis baixos desse contaminante aumentam o risco de problemas reprodutivos, danos ao fígado e câncer de estômago.

O cromo-6 é a forma tóxica do metal cromo e é gerado principalmente por processos industriais. Algumas formas de cromo ocorrem naturalmente no meio ambiente, no solo e nas rochas, mas são menos tóxicas.

O filme “Erin Brockovich”, de 2000 , trouxe o cromo-6 à atenção do público, com foco na história de uma empresa de serviços públicos da Califórnia que envenenou as águas subterrâneas da região com cromo-6, causando doenças em famílias. A Califórnia vem tomando medidas nos últimos anos tanto para regulamentar o metal pesado quanto para reduzir seu uso, estabelecendo um nível máximo de contaminante de 10 microgramas por litro. O EWG afirma que o máximo permitido deve ser 0,02 partes por bilhão (ppb).

A pesquisa de mapeamento também inclui dados que indicam que o arsênio contamina a água que abastece cerca de 134 milhões de pessoas em 50 estados por meio de 12.945 concessionárias de serviços públicos. O arsênio também ocorre naturalmente no meio ambiente, mas é altamente tóxico em sua forma inorgânica. o arsênio está associado a doenças cardiovasculares e diabetes, danos ao desenvolvimento cognitivo infantil e aumento de mortes entre jovens adultos.

O limite de arsênio para água potável da EPA é de 10 ppb, embora o EWG diga que uma diretriz melhor é 0,004 ppb.

Os dados usados ​​para produzir o mapa foram reportados pelas concessionárias aos órgãos reguladores estaduais e coletados pelo EWG. Baseiam-se em dados enviados até 2023 e refletem uma média de três anos, afirmou Sydney Evans, analista científico sênior do EWG.

Evans afirmou que os dados são mais uma evidência de que as concessionárias precisam instalar sistemas de filtragem de água, como os de troca iônica, que podem reduzir efetivamente esses e outros contaminantes nocivos da água. Um estudo publicado recentemente mostra que o uso de filtragem especializada para reduzir as concentrações de cromo6 e arsênio na água potável pode prevenir cerca de 50.000 casos de câncer.


Fonte: The New Lede

Glifosato e Câncer: Um Caso Clássico de “Fabricação de Dúvidas”

Uma lata de herbicida glifosato, na casa de um fazendeiro em Ouzouer-sous-Bellegarde (Loiret), em 2017. 

Por  Stéphane Foucart para o Le Monde 

A recente publicação de um estudo que indica um risco aumentado de vários tumores em ratos de laboratório expostos ao glifosato gerou inúmeros comentários nas redes sociais e na imprensa, com o objetivo de minimizar ou denegrir essa pesquisa.

Esses resultados, publicados em 10 de junho na revista Environmental Health, apenas confirmam as conclusões da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), que estimou em 2015 que os estudos disponíveis na época forneciam “evidências suficientes” da carcinogenicidade do glifosato em animais.

Os ataques a este estudo, liderados pelo Instituto Ramazzini em Bolonha, Itália, oferecem um exemplo exemplar da manipulação da “fabricação de dúvidas”, uma retórica que visa minar a confiança nos resultados científicos, frequentemente usada para atrasar ou combater decisões regulatórias.

“O periódico é desconhecido, então o estudo é falho.”

Eric Billy, pesquisador de imuno-oncologia, foi um dos maiores críticos do estudo do Instituto Ramazzini (que, na verdade, foi um estudo internacional com autores de todo o mundo, não apenas do Instituto Ramazzini), que ele considerou “falho”. Em uma série de mensagens publicadas em 14 de junho em suas contas X e Bluesky, que receberam inúmeros retuítes, este funcionário da empresa farmacêutica Novartis primeiro acusou seus autores de terem “escolhido um periódico mais brando para evitar críticas”, explicando que ele esperava ler este artigo nos periódicos “Nature, Science ou Cell”, que ele acredita serem de maior qualidade.

Por que é irrelevante

A Environmental Health, publicada pelo grupo SpringerNature, é, na verdade, uma das revistas mais influentes em sua área. Sua taxa de citação a coloca em 32º lugar entre 687 revistas indexadas que abrangem as áreas de saúde pública, saúde ambiental ou saúde ocupacional, de acordo com o ranking de 2024 da editora científica Elsevier. Revistas de prestígio como Nature ou Science geralmente não publicam testes como o realizado pelo Instituto Ramazzini.

“Vários estudos de toxicidade confiáveis e de alta qualidade, como o que você compartilha conosco, são publicados em periódicos especializados”, explica Meagan Phelan, porta-voz das publicações da Science. “Embora sejam elementos essenciais da avaliação de substâncias, esses testes não são considerados avanços conceituais e, como tal, a Science geralmente não os publica.”

“Animais expostos vivem tanto quanto os outros”

O estudo de Ramazzini não revelou nenhuma diferença significativa na mortalidade entre ratos expostos ao glifosato e ratos de controle não expostos. Este ponto foi destacado pelo Sr. Billy para colocar as conclusões do estudo em perspectiva. E acertou em cheio: foi posteriormente relatado no Le Figaro, que o considerou a “primeira lição” deste trabalho.

Por que é mais complicado

O fato de o estudo não ter revelado diferenças significativas nas taxas de sobrevivência entre os dois grupos não foi apresentado pelos pesquisadores de Ramazzini como um resultado em si. Seu protocolo foi, na verdade, projetado para detectar o potencial carcinogênico de um produto, não seu efeito na sobrevivência dos animais: todos eles foram sacrificados dois terços de suas vidas, com 104 semanas de idade. Agora, é fácil entender que, se fumantes humanos fossem comparados a não fumantes, as diferenças de mortalidade seriam pequenas se todos os indivíduos fossem eutanasiados aos 50 anos.

Na realidade, a ausência de diferença na mortalidade entre grupos de animais ao longo do teste é principalmente uma garantia da qualidade do estudo, por razões estatísticas. Um animal que morre prematuramente terá sido exposto por menos tempo à substância testada, e a probabilidade de desenvolvimento de tumores em seu grupo será, portanto, reduzida. Seu peso estatístico na análise será, portanto, diferente. Uma alta taxa de sobrevivência em cada grupo, tanto tratado quanto controle, garante a “manutenção do poder estatístico” do experimento, de acordo com os guias de boas práticas em toxicologia (mantidos pela OCDE).

“A linhagem de roedor escolhida não é apropriada.”

Vários comentaristas também criticaram a escolha da chamada linhagem de ratos “Sprague-Dawley” pelos pesquisadores do Instituto Ramazzini. Eric Billy argumenta que o uso desse tipo de rato “já foi fortemente criticado pela comunidade científica devido à frequência anormalmente alta de lesões tumorais espontâneas em comparação com outras linhagens de roedores”, lembrando que essa linhagem foi usada por Gilles-Eric Séralini em seu famoso e controverso estudo sobre OGM.

Por que está incorreto

Na realidade, as altas taxas de tumores espontâneos observadas na cepa “Sprague-Dawley” afetam apenas certos locais (tumores da glândula mamária, hipófise, etc., encontrados em taxas comparáveis nos grupos tratado e controle). Além disso, os pesquisadores têm à disposição uma vasta literatura para levar em consideração as características específicas dessa cepa.

A cepa “Sprague-Dawley” não só não é problemática em si, como também é a mais amplamente utilizada. Em 2024, pesquisadores mostraram que mais de 55% dos 263 estudos de carcinogenicidade de ingredientes ativos conduzidos nos últimos anos em ratos utilizaram essa cepa. A carcinogenicidade do Ruxolitinibe, um fármaco comercializado pela Novartis, foi, por exemplo, testada nessa cepa. Quanto ao estudo do Dr. Séralini (publicado em 2012, antes de ser retratado e republicado), a escolha da cepa não estava, por si só, entre as críticas feitas. Conforme resumido por especialistas da IARC em 2015, foi todo o protocolo implementado que foi criticado.

“As doses testadas são irrealistas”

Assim como várias outras vozes críticas, Eric Billy se surpreende com as altas doses de glifosato às quais os ratos foram expostos no estudo do Instituto Ramazzini, afirmando que “mesmo a menor dose testada excede em muito a exposição humana [dietética] real” e que “as outras duas doses são, portanto, cem e mil vezes maiores do que essa exposição humana”. O mesmo argumento e o mesmo número são usados em Le Figaro.

Por que é irrelevante

Este argumento é frequentemente levantado para questionar a relevância dos resultados de estudos com animais. No entanto, milhões de humanos expostos por décadas não podem ser comparados a cem ratos expostos por 24 meses. O objetivo desses testes é caracterizar o potencial carcinogênico das substâncias, não avaliar os riscos enfrentados pela população em níveis reais de exposição (às vezes muito superiores à exposição alimentar, para pessoas que vivem perto de fazendas, trabalhadores rurais, etc.).

De fato, o glifosato já foi associado a um risco aumentado de certos linfomas em agricultores em quatro meta-análises e um estudo combinado — os mais altos níveis de evidência em epidemiologia. Estudos em animais nos permitem interpretar esses resultados, sugerindo que essas associações são indicativas de um nexo causal. E mesmo que demos crédito ao argumento da “dose muito alta”, a objeção permanece infundada.

O estudo Ramazzini de fato examinou os efeitos do glifosato em doses consideravelmente menores do que todos os estudos semelhantes anteriores. Nos sete estudos selecionados pelas autoridades europeias durante sua última avaliação da molécula herbicida, as doses mais baixas testadas foram de 12 a 420 vezes maiores do que no estudo Ramazzini, e as exposições mais altas foram de 10 a 33 vezes maiores.

“A via de exposição não é adequada.”

No estudo de Ramazzini, os animais foram expostos ao glifosato através da água potável, não da comida. O Sr. Billy sustenta que isso é inadequado, argumentando que os humanos têm maior probabilidade de serem expostos através da comida.

Por que é irrelevante

Entre os estudos com glifosato em animais submetidos às autoridades sanitárias ou avaliados pelo IARC, nenhum foi considerado inadmissível por ter optado por uma via de exposição semelhante. Além disso, a água potável é considerada aceitável para avaliar “alimentos ou produtos químicos ambientais, incluindo pesticidas”, assim como a dieta, de acordo com o Guia de Boas Práticas nº 451 da OCDE.

Essa falsa controvérsia é um argumento clássico. Em 1953, o primeiro trabalho do Instituto Sloan Kettering sobre o potencial carcinogênico do tabaco envolveu a observação do desenvolvimento de tumores na pele raspada de roedores após a aplicação de extratos de alcatrão de cigarro. A American Tobacco Company criticou o uso, pelos cientistas, de uma “alta concentração de extratos de fumaça — totalmente diferente da fumaça que uma pessoa inala de um cigarro”, afirmando que “todos os cientistas concordam que não há relação conhecida entre câncer de pele em camundongos e câncer de pulmão em humanos”.

Assim como os pesquisadores de Ramazzini, os do Instituto Sloan Kettering não buscavam imitar exatamente a exposição humana ao agente testado (ninguém espalha alcatrão de cigarro no próprio corpo), mas testar seu potencial cancerígeno.

“O número de animais é insuficiente”

Em seu tópico crítico, Eric Billy faz um cálculo estimando que, para alcançar maior robustez estatística, os pesquisadores de Ramazzini deveriam ter usado pelo menos três vezes mais ratos, ou 160 a 220 indivíduos por grupo.

Por que isto está incorreto

Tais requisitos são fantasiosos. Nenhum estudo de toxicidade crônica ou carcinogenicidade do glifosato realizado em ratos jamais incluiu tantos animais. Todos os estudos semelhantes aos de Ramazzini incluíram cerca de 50 ratos por grupo. E por um bom motivo: este é o limite recomendado pelo documento de orientação da OCDE.

“Neste caso, é completamente ridículo exigir mais animais por grupo”, afirma o bioestatístico americano Christopher Portier, ex-diretor do Programa Nacional de Toxicologia dos EUA, cujo trabalho é uma autoridade no assunto. Segundo este especialista, testemunha especializada dos autores em vários julgamentos em andamento nos Estados Unidos, os pesquisadores de Ramazzini “conseguiram demonstrar uma tendência estatisticamente significativa de aumento de certos tumores nos animais tratados, embora houvesse apenas 50 por grupo. Por que o experimento seria repetido com mais animais para obter maior poder estatístico?”

Na realidade, é quando um efeito estatisticamente significativo não é encontrado que se pode argumentar que o número de animais é muito pequeno e que pode ser útil aumentar o poder estatístico. “A única desvantagem de ter 50 ratos por grupo, em vez de 160 ou 220, é ‘perder’ um efeito, certamente não ver um efeito que não existe”, conclui o Sr. Portier.

Este artigo se beneficiou de discussões com pesquisadores do Instituto Ramazzini e de revisão crítica por três pesquisadores (INRAE e INSERM) envolvidos em trabalhos de toxicologia envolvendo estudos em animais.

O que é a “fabricação da dúvida”?

Como os historiadores científicos Naomi Oreskes (Universidade de Harvard) e Erik Conway (NASA) mostraram em um livro histórico (Merchants of Doubt, 2012), a “fabricação da dúvida” foi desenvolvida na década de 1950 pelas empresas de tabaco para negar ou relativizar os efeitos dos cigarros.

Essa retórica vira a ciência contra si mesma, distorcendo as ferramentas intelectuais que estão no cerne das abordagens dos cientistas (dúvida metódica, exigências de rigor, desconfiança em afirmações percebidas como espetaculares, etc.). Portanto, é muito eficaz contra membros das comunidades científica e médica que não trabalham diretamente com os temas em questão, bem como contra públicos apegados à racionalidade e à defesa de valores científicos, ou mesmo jornalistas que às vezes repetem esses argumentos circulantes sem pensar duas vezes.

Uma técnica de propaganda altamente eficaz, a “fabricação de dúvidas” às vezes exige longas explicações para ser desmascarada, especialmente porque às vezes mistura críticas legítimas com outras baseadas em inverdades, interpretações errôneas ou simplesmente considerações errôneas. Constitui uma caixa de ferramentas constantemente utilizada há décadas por diversos setores industriais que desejam proteger suas atividades de qualquer regulamentação sanitária ou ambiental.


Fonte: Le Monde

Risco de câncer dobra para aplicadores de agrotóxicos que usaram carbaril, segundo estudo

Por Brian Bienkowski para o “The New Lede” 

Aplicadores de pesticidas na Carolina do Norte e em Iowa que pulverizaram o inseticida carbaril com frequência durante suas carreiras têm maior risco de desenvolver câncer de estômago, esôfago, língua e próstata, de acordo com uma nova pesquisa liderada pelo Instituto Nacional do Câncer (NCI) dos EUA. 

A pesquisa é a primeira a relacionar o agrotóxico ao câncer de estômago, mas se baseia em muitos estudos anteriores que constataram que o carbaril — frequentemente comercializado sob a marca Sevin — aumenta o risco de vários outros tipos de câncer. O produto químico é usado para matar pulgões e outros insetos em diversas culturas agrícolas, bem como insetos como formigas, pulgas e carrapatos em gramados e jardins domésticos. 

“Esta é a maior e mais abrangente avaliação prospectiva do carbaril e do risco de câncer até o momento”, escreveram os autores.

Os pesquisadores utilizaram dados do Estudo de Saúde Agrícola , financiado pelo governo dos EUA, sobre o uso de agrotóxicos por agricultores e outros aplicadores licenciados em Iowa e Carolina do Norte. Os dados incluem o uso autorrelatado de pesticidas de 1993 a 1997 e de 1999 a 2005.

“Esta é a maior e mais abrangente avaliação prospectiva do risco de carbaril e câncer até o momento.” – Autores do estudo

A autora sênior do estudo, Laura Beane Freeman, pesquisadora sênior do NCI, disse que os pesquisadores não apenas analisaram quantos dias os aplicadores relataram pulverizar o carbaril, mas também fatores que podem afetar a exposição, como quais equipamentos de proteção individual eles usaram ou não e como aplicaram o agrotóxico.

Os pesquisadores também analisaram os registros estaduais de câncer em 2014 para a Carolina do Norte e em 2017 para Iowa. 

Os aplicadores que relataram a maior quantidade de dias aplicando carbaril e exposição intensa tiveram cerca de duas vezes mais chances de desenvolver câncer de estômago em comparação com aqueles que relataram nunca ter aplicado. O grupo com maior exposição também apresentou uma incidência 52% maior de câncer de esôfago e 91% maior de câncer de língua em comparação com aqueles que relataram nunca ter aplicado carbaril, concluiu o estudo. 

O grupo de maior exposição teve uma incidência 56% maior de câncer de próstata para exposições que ocorreram mais de 30 anos antes do câncer ser diagnosticado. 

É “trágico que permitamos que produtos como esse sejam registrados para uso e os mantenhamos no mercado apesar das crescentes evidências de danos à saúde”, disse Alexis Luckey, diretora executiva da Toxic Free NC, que defende a reforma dos pesticidas no estado há quase quatro décadas.

“Aplicadores de pesticidas e trabalhadores rurais nos campos… pagam o preço mais alto neste sistema falho”, disse Luckey.

Agrotóxicos e câncer 

Numerosos estudos associaram o carbaril a vários tipos de câncer. E uma ficha de dados de segurança regulatória de 2021 para o produto químico, fabricado e vendido há anos pela Bayer sob a marca Sevin , alerta que o produto é “suspeito de causar câncer”. 

O novo estudo se soma às crescentes evidências de que muitos produtos químicos agrícolas comumente usados ​​estão deixando as pessoas doentes. Em uma análise nacional realizada no ano passado , pesquisadores descobriram que a exposição a pesticidas pode rivalizar com o tabagismo em termos de risco de câncer. 

“Esses resultados não são surpreendentes”, disse Luckey. 

No mês passado, pesquisadores começaram a conduzir sessões de “escuta” em Iowa como parte de um novo projeto para investigar possíveis causas ambientais para o que alguns chamam de “crise” de câncer no estado, que tem a maior taxa de câncer do país e é apenas um dos dois estados dos EUA onde o câncer está aumentando. 

“Aplicadores de agrotóxicos e trabalhadores rurais nos campos pagam o preço mais alto neste sistema falho.” – Alexis Luckey, Toxic Free NC

Freeman afirmou que mais estudos são necessários para entender melhor como o carbaril pode causar câncer. No entanto, foi demonstrado que o inseticida reage com nitrato e nitritos — ambos os quais as pessoas podem consumir em alimentos e água, especialmente em áreas com forte atividade agrícola — para formar compostos cancerígenos. Alguns estudos sugerem que o carbaril também pode danificar o DNA e os cromossomos, o que pode levar ao câncer.

Brandon Herring, porta-voz do Departamento de Agricultura e Serviços ao Consumidor da Carolina do Norte, disse que a agência não revisou o estudo, mas que ele “serve como um lembrete das diretrizes de segurança estabelecidas, como taxas e métodos de aplicação, que constam no rótulo de cada pesticida. Incentivamos as pessoas a seguirem essas diretrizes”. 

A regulação do carbaril 

Existem 61 agrotóxicos registrados no mercado dos EUA que contêm carbaril, de acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos EUA. Embora o inseticida ainda seja amplamente utilizado nos EUA, a Europa proibiu todos os seus usos em 2007 devido a preocupações com o câncer. 

Os pesquisadores do estudo atual estimaram que cerca de 317.000 kg de carbaril são aplicados anualmente em plantações agrícolas nos EUA. Freeman afirmou que cerca de 900.000 kg são aplicados anualmente perto de edifícios, gramados, pastos e estradas. 

Não são apenas os humanos que podem estar em risco: a EPA está mudando os rótulos dos produtos com carbaril depois que o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA descobriu que ele “provavelmente colocaria em risco 78 espécies listadas e modificaria adversamente 14 habitats críticos quando usado conforme registrado atualmente”. 

A nova rotulagem, prevista para ser concluída até o final do ano, foi projetada para reduzir o escoamento e a deriva, e alertará os aplicadores sobre áreas restritas e sensíveis. 

A Drexel Chemical Company e a Tessenderlo Kerley, Inc., duas empresas agrícolas que produzem produtos de carbaril, não retornaram pedidos de comentários sobre o novo estudo.

Foto em destaque: Funcionário do Serviço Florestal dos EUA pulverizando carbaril. (Crédito: USFS ) 


Fonte: The New Lede

Diquat pode danificar órgãos e bactérias intestinais, mostra nova pesquisa

O diquat é proibido no Reino Unido, na UE, na China e em outros países. Os EUA (e o Brasil) têm resistido aos apelos para regulá-lo

Agrisel® Diquat | Agrisel USA, Inc

“Outros países proibiram o diquat, mas nos EUA ainda estamos travando as batalhas que a Europa venceu há 20 anos. 

Por Tom Perkins para o “The Guardian”

O herbicida Diquat, usado para substituir o glifosato no Roundup e outros produtos herbicidas pode matar bactérias intestinais e danificar órgãos de várias maneiras, mostra uma nova pesquisa .

O ingrediente, diquat, é amplamente utilizado nos EUA como herbicida em vinhedos e pomares, e é cada vez mais pulverizado em outros lugares do país, com o uso de substâncias herbicidas controversas, como glifosato e paraquat,

Mas os novos dados sugerem que o diquat é mais tóxico que o glifosato, e a substância é proibida devido aos seus riscos no Reino Unido, na UE, na China e em muitos outros países. Ainda assim, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) resistiu aos apelos por uma proibição, e as fórmulas do Roundup com o ingrediente chegaram às prateleiras no ano passado.

“Do ponto de vista da saúde humana, esse produto é bem mais nocivo que o glifosato, então estamos presenciando uma substituição lamentável, e a estrutura regulatória ineficaz está permitindo isso”, disse Nathan Donley, diretor científico do Centro para a Diversidade Biológica, que defende regulamentações mais rigorosas para pesticidas, mas não participou da nova pesquisa. “Substituição lamentável” é um termo científico usado para descrever a substituição de uma substância tóxica em um produto de consumo por um ingrediente que também é tóxico.

Acredita-se também que o diquat seja uma neurotoxina, cancerígeno e esteja ligado à doença de Parkinson. Uma análise de dados da EPA realizada em outubro pela organização sem fins lucrativos Amigos da Terra descobriu que ele é cerca de 200 vezes mais tóxico que o glifosato em termos de exposição crônica.

A Bayer, fabricante do Roundup, enfrentou quase 175.000 processos judiciais alegando que os usuários do produto foram prejudicados. A Bayer, que comprou a Monsanto em 2018, reformulou o Roundup depois que a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer classificou o glifosato como um possível carcinógeno.

A nova revisão da literatura científica concentra-se, em parte, nas múltiplas maneiras pelas quais o diquat danifica órgãos e bactérias intestinais, incluindo a redução do nível de proteínas que são peças-chave do revestimento intestinal. Esse enfraquecimento pode permitir que toxinas e patógenos passem do estômago para a corrente sanguínea, desencadeando inflamação nos intestinos e em todo o corpo. Ao mesmo tempo, o diquat pode inibir a produção de bactérias benéficas que mantêm o revestimento intestinal.

Danos ao revestimento também inibem a absorção de nutrientes e o metabolismo energético, disseram os autores.

A pesquisa analisa ainda mais detalhadamente como a substância prejudica os rins, os pulmões e o fígado. O diquat “causa danos estruturais e funcionais irreversíveis aos rins”, pois pode destruir as membranas das células renais e interferir nos sinais celulares. Os efeitos no fígado são semelhantes, e o ingrediente causa a produção de proteínas que inflamam o órgão.

Enquanto isso, parece atacar os pulmões, desencadeando uma inflamação que danifica o tecido do órgão. De forma mais ampla, a inflamação causada pelo diquat pode causar a síndrome da disfunção de múltiplos órgãos, um cenário em que os sistemas orgânicos começam a falhar.

Os autores observam que muitos dos estudos são com roedores e que mais pesquisas sobre exposição de baixo e longo prazo são necessárias. A Bayer não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.

Apesar dos riscos em meio ao aumento do uso de diquat, a EPA não está revisando o produto químico, e até mesmo organizações sem fins lucrativos que pressionam por regulamentações mais rigorosas de pesticidas têm concentrado sua atenção em outras áreas.

Donley disse que isso se deve, em parte, ao fato de as regulamentações de agrotóxicos nos EUA serem tão frágeis que os defensores estão envolvidos em batalhas por ingredientes como glifosato, paraquate e clorpirifós – substâncias proibidas em outros lugares, mas ainda amplamente utilizadas aqui. O diquate é “ofuscado” por esses ingredientes.

“Outros países proibiram o diquat, mas nos EUA ainda estamos travando as batalhas que a Europa venceu há 20 anos”, disse Donley. “Isso ainda não chegou ao radar da maioria dos grupos, e isso realmente diz muito sobre o triste e lamentável estado dos pesticidas nos EUA.”

Alguns defensores acusaram a EPA de ser controlada pela indústria, e Donley disse que as leis de pesticidas dos EUA eram tão fracas que era difícil para a agência proibir ingredientes, mesmo que existisse a vontade da agência. Por exemplo, a agência proibiu o clorpirifós em 2022, mas um tribunal anulou a decisão após a indústria entrar com uma ação judicial.

Além disso, o escritório de pesticidas da EPA parece ter uma filosofia que afirma que pesticidas tóxicos são um “mal necessário”, disse Donley.

“Quando você aborda uma questão dessa perspectiva, há um limite para o que você pode fazer”, disse ele.


Fonte: The Guardian

Coformulantes: a caixa preta da toxicidade dos agrotóxicos

Por PAN Europe

No dia 11 de junho, participamos de uma audiência no Tribunal Geral da UE, em Luxemburgo, questionando a falta de testes de coformulantes em produtos pesticidas. Iniciamos este processo judicial em 2023. Os coformulantes representam a maioria dos ingredientes de agrotóxicos comerciais, enquanto geralmente apenas um ingrediente ativo é avaliado quanto à sua toxicidade para humanos, incluindo sua carcinogenicidade ou propriedades de desregulação endócrina. Os coformulantes são atualmente muito mal monitorados e regulamentados. 

De acordo com o regulamento da UE sobre agrotóxicos (reg. 1107/2009/CE), coformulantes são substâncias que não são ingredientes ativos e que se destinam a aumentar a “eficácia” dos agrotóxicos. Na realidade, a maioria dos coformulantes são detergentes potentes (chamados surfactantes/agentes umectantes/agentes antiespumantes, etc.) que aumentam a toxicidade do ingrediente ativo para a praga alvo, mas também, naturalmente, para humanos e outros organismos. O regulamento sobre agrotóxicos esclarece que o nível de proteção da saúde humana e do meio ambiente contra coformulantes deve ser o mesmo que para os ingredientes ativos dos pesticidas. No entanto, este não é o caso.

Evidências científicas mostram que os coformulantes podem aumentar em milhares de vezes a toxicidade do ingrediente ativo para as células humanas. De fato, os surfactantes ajudam as substâncias agrotóxicos a penetrar no coração das nossas células e danificá-las. Inúmeros coformulantes também são prejudiciais por si só: alguns são derivados de petróleo com propriedades desreguladoras endócrinas, mutagênicas ou cancerígenas, outros matam abelhas e outros insetos, peixes, salamandras e sapos.

Nova regulamentação sem força

Em 2023, a Comissão Europeia publicou um novo regulamento sobre as regras detalhadas para identificar coformulantes inaceitáveis ​​(reg. 2023/574/CE). A proposta da Comissão não melhorou verdadeiramente a situação, uma vez que não foram solicitados à indústria dados de toxicidade obrigatórios para avaliar adequadamente estas substâncias. No âmbito da consulta pública, a PAN Europe partilhou o seu documento de posição (1) e criticou este regulamento vazio. A PAN Europe considerou que as regras propostas não estavam em conformidade com o elevado nível de proteção previsto no regulamento relativo aos agrotóxicos . Por outro lado, a CropLifeEU, a organização que representa a indústria dos pesticidas, aplaudiu este regulamento. (2)

Martin Dermine, diretor executivo da PAN Europe, afirmou: ” Alguns coformulantes são substâncias altamente tóxicas, como carcinógenos ou desreguladores endócrinos. Outros comprovadamente dizimam abelhas. A Comissão solicita aos Estados-Membros que avaliem sua toxicidade sem receber quaisquer dados de toxicidade. Isso não faz sentido: é como pedir a alguém para fazer um bolo sem fornecer os ingredientes necessários. “

Após a publicação do “regulamento dos coformulantes”, a PAN Europe decidiu recorrer ao Tribunal da UE para contestar esta legislação ineficaz. A PAN Europe contesta três questões neste regulamento. Em primeiro lugar, o facto de não ser exigida qualquer exigência de dados à indústria de agrotóxicos para que os Estados-Membros possam realizar o seu trabalho e avaliar a toxicidade dos coformulantes para a saúde e o ambiente. 

Em segundo lugar, a PAN Europe contesta o fato de que, com este regulamento, a Comissão Europeia coloca o ônus da avaliação dos coformulantes sobre os Estados-Membros. O regulamento prevê que os 27 Estados-Membros sejam obrigados a realizar uma avaliação de risco dos milhares de coformulantes no mercado. Realizar o mesmo trabalho 27 vezes levará a diferentes interpretações e conclusões e paralisará a tomada de decisões. A PAN Europe solicita que a avaliação seja realizada em nível da UE pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA), que possui mais experiência e meios para realizar o trabalho. A PAN Europe também solicita que o regulamento dos coformulantes contenha a obrigação de os Estados-Membros tomarem uma decisão formal na avaliação de risco: com o regulamento atual, eles são obrigados a realizar uma avaliação de risco dos coformulantes, sem dados, como mencionado anteriormente, e sem a obrigação de concluir positiva ou negativamente. Este ponto é importante para aumentar a responsabilização das autoridades reguladoras. 

Em terceiro lugar, a PAN Europe contesta o fato de que, ao colocar o ônus sobre os ombros dos Estados-Membros, a Comissão se abstrai da sua obrigação legal de regulamentar os coformulantes, como previsto no regulamento dos pesticidas, e transfere esta prerrogativa apenas para os Estados-Membros.

O caso opõe a PAN Europe à Comissão Europeia, com a intervenção da CropLifeEU em apoio à Comissão e sua regulamentação de coformulantes pró-indústria.

Questões críticas para o PAN Europa em audiência judicial

Na audiência perante o Tribunal Geral, os três juízes fizeram perguntas às partes envolvidas. Muitas perguntas foram dirigidas ao nosso advogado, Professor Antoine Bailleux, que ilustrou as consequências para a saúde e o meio ambiente da não regulamentação dessas substâncias tóxicas que se espalham sem controle em nossos alimentos e no meio ambiente. A falta de regulamentação pode ser juridicamente mais complicada para os juízes do que a aplicação incorreta da regulamentação. Veremos em alguns meses como as perguntas se traduzirão em uma sentença neste caso.

Notas: 

(1)  Comentários de: Pesticide Action Network Europe – 18 de novembro de 2022

(2)  Feedback de: CropLife Europe – 14 de novembro de 2022


Fonte: Pan Europe

União Europeia estuda retirar aprovação do glifosato devido a novo estudo chocante sobre câncer

Por Sustainable Pulse

Um porta-voz da Comissão Europeia confirmou que o executivo da União Europeia (UE) declarou que a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) e a Agência Europeia dos Produtos Químicos (ECHA) serão formalmente encarregadas de avaliar se as descobertas revisadas por pares de um novo estudo internacional mostrando que o glifosato causa seis dos tipos mais comuns de câncer afetam a atual avaliação de risco do glifosato.

“Se a ECHA ou a EFSA confirmarem que o glifosato não atende mais aos critérios de aprovação ou que as condições de aprovação devem ser alteradas, a Comissão agirá imediatamente para alterar ou retirar a aprovação”, declarou o porta-voz da  Comissão Europeia na sexta-feira.

Enquanto isso, a organização de agricultores holandeses LTO solicitou uma avaliação rápida do novo estudo internacional. Se as conclusões forem confirmadas, a LTO afirmou que a aprovação do produto “deve ser retirada imediatamente”,  segundo a Trouw, citando a organização. O glifosato é amplamente utilizado por agricultores holandeses tanto na indústria alimentícia quanto na de flores.

A LTO afirmou ser essencial que os órgãos de segurança nacionais e europeus, incluindo a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) e o Conselho Holandês para a Autorização de Produtos Fitofarmacêuticos e Biocidas (CTGB), avaliem o estudo “como prioridade máxima”. O CTGB afirma que examinará os resultados e a metodologia do estudo e reportará suas conclusões ao Ministério da Agricultura dentro de algumas semanas.

O estudo abrangente de carcinogenicidade, que causou essa reação da Comissão Europeia e de grupos agrícolas em toda a UE, envolveu cientistas da Europa e dos EUA e descobriu que baixas doses do controverso herbicida causam vários tipos de câncer em ratos.

Neste estudo de longo prazo,  publicado na revista de alto impacto Environmental Health, o glifosato isoladamente e duas formulações comerciais à base de glifosato, Roundup BioFlow (MON 52276), usado na UE, e Ranger Pro (EPA 524-517), usado nos EUA, foram administrados a ratos via água potável, desde a vida pré-natal, nas doses de 0,5, 5 e 50 mg/kg de peso corporal/dia, durante 2 anos. Essas doses são atualmente consideradas seguras pelas agências reguladoras e correspondem à Ingestão Diária Aceitável (IDA) da UE e ao Nível de Efeito Adverso Não Observado (NOAEL) da UE para o glifosato.

Em todos os três grupos de tratamento, foram observadas incidências aumentadas de tumores benignos e malignos em múltiplos sítios anatômicos em comparação aos controles. Esses tumores surgiram em tecidos hemolinforreticulares (leucemia), pele, fígado, tireoide, sistema nervoso, ovário, glândula mamária, glândulas suprarrenais, rim, bexiga urinária, osso, pâncreas endócrino, útero e baço (hemangiossarcoma). Incidências aumentadas ocorreram em ambos os sexos. A maioria desses tumores envolveu tumores raros em ratos Sprague Dawley (incidência de base < 1%), com 40% das mortes por leucemia nos grupos tratados ocorrendo no início da vida, e um aumento nas mortes precoces também foi observado para outros tumores sólidos.

“Observamos início precoce e mortalidade precoce em diversos tipos de cânceres malignos raros, incluindo leucemia e tumores de fígado, ovário e sistema nervoso. Notavelmente, aproximadamente metade das mortes por leucemia observadas nos grupos de tratamento com glifosato e GBHs ocorreram em menos de um ano de idade, comparável à idade em humanos com menos de 35-40 anos. Em contraste, nenhum caso de leucemia foi observado no primeiro ano de idade em mais de 1.600 controles históricos do Sprague Dawley em estudos de carcinogenicidade conduzidos pelo Instituto Ramazzini e pelo Programa Nacional de Toxicologia (NTP)”, afirmou o Dr. Daniele Mandrioli, Diretor do Centro de Pesquisa em Câncer Cesare Maltoni do Instituto Ramazzini e Pesquisador Principal do estudo.

O Estudo Global multi-institucional sobre Glifosato está sendo liderado pelo Centro de Pesquisa do Câncer Cesare Maltoni do Instituto Ramazzini, na Itália, e envolve cientistas do Boston College, da George Mason University, do King’s College London, da Icahn School of Medicine no Mount Sinai, do Centro Científico de Mônaco, da Universidade de Bolonha, do Instituto de Biologia Agrícola e Biotecnologia do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália, do Instituto Nacional de Saúde da Itália e do Comitê Nacional de Segurança Alimentar do Ministério da Saúde da Itália.

O Centro de Pesquisa do Câncer Cesare Maltoni do Instituto Ramazzini, com mais de 200 compostos estudados em mais de 50 anos, é o maior programa de bioensaios da UE: cloreto de vinila, amianto, benzeno e radiofrequências estão entre os agentes cancerígenos investigados em seu laboratório. Mais recentemente, o Centro de Pesquisa do Câncer Cesare Maltoni do Instituto Ramazzini também  publicou  um relatório revisado por pares em colaboração com o Instituto Nacional de Ciências da Saúde Ambiental dos EUA (NIEHS) sobre os efeitos toxicológicos da nicotina.

Esses novos resultados fornecem evidências robustas que corroboram a conclusão da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), de 2015, de que há “evidências suficientes da carcinogenicidade do glifosato em animais experimentais”. Além disso, os dados do estudo são consistentes com as evidências epidemiológicas sobre a carcinogenicidade do glifosato e de herbicidas à base de glifosato.

“Nossas descobertas reforçam a classificação do glifosato pelo IARC como um provável carcinógeno humano e são consistentes com estudos experimentais em animais, bem como avaliações correlacionais e de peso de evidência em humanos que relataram associações entre a exposição ao glifosato e certos tipos de câncer, particularmente malignidades hematológicas”, disse a Dra. Melissa Perry, coautora do estudo e epidemiologista ambiental da Faculdade de Saúde Pública da Universidade George Mason.

O Estudo Global do Glifosato é o estudo toxicológico mais abrangente já realizado sobre glifosato e herbicidas à base de glifosato. Seu objetivo é fornecer dados vitais para órgãos reguladores governamentais, formuladores de políticas e o público em geral. O estudo examina os impactos do glifosato e dos herbicidas à base de glifosato na carcinogenicidade, toxicidade neurodesenvolvimental, efeitos multigeracionais, toxicidade orgânica, desregulação endócrina e toxicidade no desenvolvimento pré-natal.

Este estudo robusto, baseado em um protocolo que abrange o desenvolvimento pré e pós-natal, atende à necessidade de evidências científicas sólidas sobre a toxicologia do glifosato. Os resultados destacam o potencial tumorigênico do glifosato e de produtos à base de glifosato em doses consideradas “seguras”. Essas novas evidências precisam ser cuidadosamente analisadas pelas autoridades regulatórias em todo o mundo, acrescentou o Dr. Alberto Mantovani, coautor do estudo e membro do Comitê Nacional de Segurança Alimentar da Itália (CNSA).

As descobertas do GGS sobre a toxicidade do glifosato para o microbioma, que foram revisadas por pares e  publicadas  no final de 2022 e apresentadas ao Parlamento Europeu em 2023, também mostraram efeitos adversos em doses atualmente consideradas seguras na UE (0,5 mg/kg pc/dia, equivalente à Ingestão Diária Aceitável da UE).

O GGS também  publicou anteriormente  um estudo piloto que demonstrou toxicidade endócrina e reprodutiva em ratos com doses de glifosato atualmente consideradas seguras pelas agências reguladoras dos EUA (1,75 mg/kg de peso corporal/dia). Essas descobertas foram  posteriormente confirmadas  em uma população humana de mães e recém-nascidos expostos ao glifosato durante a gestação.

O próximo passo no GGS será o braço de neurotoxicidade, que é vital para entender qualquer papel que o glifosato e os herbicidas à base de glifosato possam desempenhar no aumento de doenças e distúrbios neurológicos.

“Os resultados deste estudo cuidadosamente conduzido, e especialmente a observação de que a exposição pré-natal de ratos bebês ao glifosato durante a gravidez aumenta a incidência e a mortalidade por leucemia precoce, são um poderoso lembrete da grande vulnerabilidade de bebês humanos a produtos químicos tóxicos e um forte motivo para eliminar o glifosato da produção de alimentos consumidos por mulheres grávidas e seus filhos”, concluiu o Dr. Philip Landrigan, coautor do estudo e diretor do Programa de Saúde Pública Global e Bem Comum do Boston College.


Fonte: Sustainable Pulse

Novo estudo reforça evidências de que o Glifosato pode causar câncer

Por Carey Gillam para o “The New Lede”

Um novo estudo de longo prazo com animais sobre o herbicida amplamente utilizado glifosato encontrou novas evidências de que o herbicida, introduzido pela Monsanto na década de 1970, causa vários tipos de câncer e pode fazê-lo em doses consideradas seguras pelos reguladores.

Os resultados do estudo de dois anos, publicado em 10 de junho na revista Environmental Health, contribuem para o debate global em andamento sobre a segurança do agrotóxico, comumente usado por agricultores para matar ervas daninhas em campos e pastagens. O produto químico também é amplamente utilizado no controle de ervas daninhas em campos de golfe, parques e playgrounds, e no manejo florestal.

“Nosso estudo fornece evidências científicas sólidas e independentes da carcinogenicidade do glifosato e de herbicidas à base de glifosato”, afirmou Daniele Mandrioli, diretor do Centro de Pesquisa do Câncer Cesare Maltoni do Instituto Ramazzini, na Itália. Mandrioli é o pesquisador principal do estudo.

Pesando a ciência

A Bayer, sediada na Alemanha, que comprou a Monsanto em 2018 e herdou a marca Roundup à base de glifosato e outros herbicidas à base de glifosato, está atualmente envolvida em um litígio nos Estados Unidos movido por dezenas de milhares de pessoas que alegam que a exposição aos herbicidas à base de glifosato da empresa fez com que desenvolvessem linfoma não Hodgkin, um tipo de câncer no sangue.

Um julgamento está em andamento no Missouri, não muito longe da antiga sede da Monsanto. A empresa já pagou bilhões de dólares em acordos e indenizações, e o novo estudo surge no momento em que a Bayer alerta que, se não conseguir pôr fim ao litígio, poderá encerrar suas operações de glifosato nos EUA e, possivelmente, levar seus negócios da Monsanto à falência.

Assim como a Monsanto sempre fez, a Bayer sustenta que seus herbicidas à base de glifosato não são cancerígenos e diz que o peso da pesquisa científica respalda essa posição.

Mas muitos estudos encontraram conexões com o câncer e, em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer da Organização Mundial da Saúde classificou o glifosato como um provável carcinógeno humano.

Outros estudos encontraram uma série de efeitos nocivos da exposição ao glifosato. Um estudo de 2022, por exemplo, descobriu que o glifosato pode ter efeitos neurotóxicos em doses inferiores aos níveis considerados seguros pelas agências reguladoras. E um estudo de 2023 relacionou a exposição infantil ao glifosato à inflamação hepática e a distúrbios metabólicos.

No mês passado, uma revisão de 15 anos de estudos publicados confirmou que a exposição humana aos herbicidas de glifosato foi associada a vários resultados adversos à saúde, que incluem não apenas câncer, problemas hepáticos e metabólicos, mas também efeitos no sistema reprodutivo e endócrino e perturbação do microbioma, entre outros.

Nem a Bayer nem a organização da indústria agroquímica CropLife America responderam a um pedido de comentário.

Dosagem de água potável

No novo estudo realizado na Itália, os pesquisadores analisaram os impactos do glifosato isoladamente, bem como os impactos de dois tipos de formulações comerciais à base de glifosato, usadas na Europa e nos Estados Unidos. Eles administraram os herbicidas a ratos via água potável, desde a vida pré-natal, nas doses de 0,5, 5 e 50 mg/kg de peso corporal por dia, durante dois anos, e os compararam a grupos de controle que não receberam as doses do agrotóxico. Mais de 1.000 ratos participaram do estudo.

A ingestão diária aceitável de glifosato pela União Europeia é de 0,5 mg/kg de peso corporal/dia, e o “nível de efeito adverso não observado” (NOAEL) da UE é de 50 mg/kg de peso corporal/dia. Nos três grupos tratados, observou-se aumento na incidência de tumores benignos e malignos em múltiplos tecidos, em comparação com ratos de um grupo controle que não recebeu nenhum  agrotóxico. Os pesquisadores afirmaram que os resultados do estudo indicam que os herbicidas à base de glifosato podem causar uma série de cânceres, incluindo leucemia.

“Nossos resultados indicam que, embora o glifosato sozinho seja capaz de causar uma série de tumores benignos e malignos, os coformulantes [de herbicidas à base de glifosato] podem aumentar a carcinogenicidade do glifosato, particularmente no caso de leucemia”, afirma o estudo.

A maioria dos tumores que se desenvolveram é considerada rara em ratos Sprague Dawley, o tipo utilizado no estudo, disseram os cientistas. Eles observaram que cerca de 40% das mortes por leucemia observadas nos grupos tratados ocorreram no início da vida dos animais, embora um aumento nas mortes precoces também tenha sido observado em conexão com outros tipos de tumores. Estudos de longo prazo em ratos são comumente usados ​​para prever se uma substância é cancerígena para humanos. Ligações com amianto, benzeno e muitas outras substâncias ao câncer foram detectadas pela primeira vez em estudos com roedores.

A pesquisa faz parte de um “Estudo Global de Glifosato” liderado pelo Centro de Pesquisa do Câncer Cesare Maltoni do Instituto Ramazzini na Itália e envolve cientistas do Boston College, da George Mason University, do King’s College London, da Icahn School of Medicine no Mount Sinai, do Centro Científico de Mônaco, da Universidade de Bolonha, do Instituto de Biologia Agrícola e Biotecnologia do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália, do Instituto Nacional de Saúde da Itália e do Comitê Nacional de Segurança Alimentar do Ministério da Saúde da Itália.

Em 2022, o grupo publicou  descobertas anteriores mostrando efeitos adversos do glifosato em doses atualmente consideradas seguras.

“As descobertas deste estudo cuidadosamente conduzido, e especialmente a observação de que a exposição pré-natal de ratos bebês ao glifosato durante a gravidez aumenta a incidência e a mortalidade por leucemia precoce, são um poderoso lembrete da grande vulnerabilidade de bebês humanos a produtos químicos tóxicos”, disse Philip Landrigan, que participou do estudo e dirige o Programa de Saúde Pública Global e o Bem Comum no Boston College, em um comunicado.


Fonte: The New Lede

Coração do algodão no Brasil pulsa sob efeito de agrotóxicos

País se tornou maior exportador das plumas brancas. No Mato Grosso, indígenas relatam os efeitos dos venenos. Rastreabilidade da cadeia é desafio

Coração do algodão no Brasil pulsa sob efeito de agrotóxicos – DW –  15/05/2025

O cultivo de algodão é o segundo que mais consome agrotóxicos por hectare no Brasil, atrás apenas do tabaco, elevando risco de contaminaçãoFoto: jensotte/Pond5/IMAGO 

Por Heloísa Traiano para a Deutsche Welle Brasil

No cerrado mato-grossense, os povos indígenas no município de Sapezal ainda se lembram de quando eram abundantes as águas e as roças. Mas hoje eles contam que o caju do mato, o pequi e as plantas medicinais diminuíram. Chegaram novas pragas às plantações. Vários tipos de abelhas sumiram e, com elas, a diversidade de méis.

Os rios viraram cemitérios de ovos de peixe, e quem bebe arrisca sentir dor de barriga ou diarreia. As aldeias relatam que a piracema, época da reprodução natural dos peixes, sofre quando se pulverizam os agrotóxicos nas crescentes lavouras de algodão ao redor da terra indígena. E afirmam que os abortos espontâneos aumentaram entre as mulheres.

A região da Bacia do Juruena é o coração da ascendente produção brasileira de algodão. As plumas brancas são a segunda commodity que mais consome agrotóxicos por hectare de lavoura no Brasil, atrás apenas do tabaco. Substâncias tóxicas viajam longas distâncias pelos ventos, e a alta concentração exacerba os riscos de intoxicação humana e contaminação de ecossistemas.

“A gente vê vários aviões passando. Eu observo agora que, quando plantamos, as plantas não ficam legais, porque acabam sendo afetadas,” diz Cleide Terena, presidente da associação de mulheres da Terra Indígena Tirecatinga, lar de nove povos indígenas. “A gente deixou de tomar água do rio e passou a comprar da cidade, por medo de beber água envenenada.”

Produto global, efeito local

No município do Sapezal, onde vivem os indígenas que relataram à organização Operação Amazônia Nativa (Opan) sua percepção dos efeitos dos pesticidas, o consumo de agrotóxicos dividido pelo número de habitantes é de 364 litros por ano, e em dois municípios algodoeiros vizinhos ultrapassa os 600 litros anuais, segundo cálculo pesquisadores da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). No Brasil, essa conta dá cerca de 7 litros anuais.

“Os agrotóxicos usados no algodão são potencialmente mais tóxicos à saúde e ao ambiente. Além disso, são utilizados volumes elevados por hectare, e geralmente por pulverização aérea ou terrestre. Portanto, as comunidades em torno estão expostas a riscos maiores de adoecimento”, afirma Marcia Montanari, professora do Instituto de Saúde Coletiva da universidade.

No ano passado, o Brasil foi pela primeira vez o maior exportador de algodão do mundo, e é o terceiro produtor global. Cerca de 70% do algodão brasileiro vai para o mercado externo, e a estimativa é que o país produza 9 milhões de toneladas na safra 2024/2025, das quais 6,2 milhões do Mato Grosso.

Reduzir o uso de agrotóxicos com “vacinas para plantas”?

Num marco zero da cadeia produtiva global, Sapezal tem a maior área algodoeira do estado e está entre os campeões do consumo de agrotóxicos no Brasil. Desde 2017, ano com os dados mais antigos disponíveis no site do Instituto de Defesa Agropecuária do Mato Grosso (Indea), o município ganhou o equivalente a 60 mil campos de futebol em plantações declaradas de algodão.

“Antes, quando a gente passava (pelos arredores da TI Tirecatinga) tinha árvores. Hoje está tudo derrubado, e só tem plantio”, continua Cleide, que viveu seus 42 anos na aldeia Serra Azul. “Só tem mato dentro do território mesmo.”

Quase sempre, o algodão é alternado com produções de soja e milho ou cercado por essas lavouras, que também estão entre as maiores consumidoras de agrotóxicos no Brasil. Cada hectare algodoeiro (ou campo de futebol) consome em média 28 litros de agrotóxicos ao ano, em comparação a 17 para a soja e 7 para o milho.

O uso exacerbado se explica pela alta suscetibilidade do algodão a pragas, inflada pela monocultura intensiva que caracteriza a produção massiva de commodities para exportação. No Brasil, o grande inimigo é o bicudo do algodoeiro, que historicamente devasta plantações e hoje registra um período de surto, tendo atingido em 2024 a maior incidência para o Mato Grosso em 12 anos.

Substâncias proibidas no Brasil

Os mais vulneráveis aos efeitos dos agrotóxicos são os trabalhadores rurais e as comunidades indígenas, que entram em contato direto com os agrotóxicos ou vivem em ecossistemas envenenados ao longo de anos. Segundo Montanari, mesmo baixas quantidades de resíduos tóxicos podem gerar danos reprodutivos, oncológicos, neurológicos e psiquiátricos em casos de exposição prolongada.

Na Bacia do Juruena, os indígenas encontram até as embalagens de agrotóxicos vazias nos rios, segundo os relatos reunidos pela Opan entre 2020 e 2021. À mesma época, oito de nove amostras de plantas medicinais e frutas, colhidas na Terra Indígena Tirecatinga e analisadas no âmbito de um projeto entre a UFMT e a Opan, tinham resíduos de onze agrotóxicos.

Brasilien Baumwollfeld

Brasil é o maior exportador de algodão, com mais de dois terços da produção nacional saindo do Mato Grosso e rodando por cadeias globaisFoto: EVARISTO SA/AFP

“A soberania alimentar e o modelo de sociedade do povo indígena são também afetados”, diz a indigenista Adriana Werneck Regina, co-pesquisadora do projeto. Ela há três décadas registra os relatos de indígenas sobre os impactos do agronegócio na região.

Os cientistas ainda encontraram amostras de algodão, material hospitalar, ataduras, gases, fraldas, absorventes íntimos, tecido de algodão cru e coadores de café contaminados por 28 tipos de agrotóxicos. Dezessete são proibidos na União Europeia (UE), e dois no Brasil – o carbofurano e o carbendazim, associados aos riscos de câncer, problemas neurológicos e má formação de fetos.

Entre 2019 e 2024, houve quase 1,5 mil intoxicações registradas no estado pelo Ministério da Saúde, das quais 45% por agrotóxicos de uso agrícola – entre elas, 3% ligadas à lavoura de algodão.

No entanto, especialistas avaliam que há grande subnotificação dos efeitos adversos à saúde, para a qual contribuem o medo de represálias, legislações frouxas e falta de controle sobre pulverizações aéreas.

“Há grande insuficiência na fiscalização”, diz o procurador Gabriel Martins, do Ministério Público Federal no Mato Grosso (MPF-MT), que recebeu os dados de intoxicações fornecidos pelo Ministério da Saúde. “Vemos uma preocupação quase nula dos produtores e muito baixa da União, do governo estadual e dos municípios, que querem mais produção.”

Soluções da lavoura à vitrine

Outra deficiência está na rastreabilidade de uma cadeia produtiva global e fragmentada. O algodão brasileiro encontra seus principais mercados em China, Vietnã, Bangladesh, Turquia e Paquistão, onde se confeccionam tecidos para lojas de moda no mundo todo, desde o fast fashion até lojas de luxo.

São necessários maiores esforços por varejistas e iniciativas de certificação de produtores algodoeiros, segundo especialistas em sustentabilidade, para rastrear e evitar o uso de substâncias nocivas na ponta inicial da jornada da commodity, mapear riscos a trabalhadores nas lavouras e garantir maior transparência com o consumidor.

“O algodão sustentável é aquele plantado sem uso de veneno e junto com alimentos, o que garante a segurança alimentar de quem planta algodão”, diz Yamê Reis, coordenadora de Design de Moda no Instituto Europeu de Design no Rio de Janeiro, que faz parte da campanha Moda Sem Veneno. “Precisamos de política pública, incentivo fiscal para pequenos produtores e restringir a importação de agrotóxicos.”

Para os defensores da moda sustentável, as soluções para o setor passam ainda pela disseminação entre os consumidores da importância do consumo consciente, o maior uso de fibras recicladas na indústria têxtil e o fortalecimento da agroecologia, que privilegia pequenos produtores e perspectivas de proteção ao meio ambiente.

“Ao contrário da agricultura convencional, algodão agroecológico significa usar fertilizantes orgânicos, não usar inseticidas e fungicidas, diminuir operações mecanizadas e rotacionar culturas”, diz Larissa Roviezzo, consultora em economia circular e sustentabilidade. “Existe uma ideia de que a agricultura familiar é pequena e não pode ser produzida em larga escala, mas isso não é verdade.”

Discussão internacional

Hoje, 82% da produção brasileira é de algodão certificado pela organização Better Cotton Initiative (BCI). O selo é internacionalmente reconhecido por supostamente identificar, para varejistas e consumidores, a produção em conformidade com 28 critérios econômicos, sociais e ambientais.

No Brasil, principal origem do algodão licenciado pela organização, a BCI elabora seu selo com base na certificação Algodão Brasileiro Responsável (ABR), da Associação Brasileira de Produtores de Algodão (Abrapa), e inclui alguns critérios adicionais próprios.

Essa metodologia é alvo de críticos dentro e fora do Brasil, que reclamam da falta de auditoria externa contratada pela BCI e advogam por maior controle quanto ao uso de agrotóxicos.

Em entrevista à DW, a BCI afirmou que o algodão por ela certificado não pode ser chamado de “sustentável”. “O que a gente acredita é que a sustentabilidade não é um destino a que se chega, é algo que a gente almeja”, disse Álvaro Moreira, gerente sênior de parcerias e programas de grandes fazendas. Ele reconhece que o uso de pesticidas segue muito alto no Brasil e é o principal desafio para o setor.

Dentre os critérios da BCI para pesticidas, estão a não utilização de agrotóxicos listados como altamente perigosos e a existência de um plano dos produtores para eliminar até 2028 substâncias definidas como carcinogênicas, mutagênicas ou tóxicas para a reprodução.

Mas, desde 2023, a BCI tem um procedimento para produtores solicitarem o uso, por até três anos, de pesticidas de alto risco ao meio ambiente e à saúde humana. Esse mecanismo vale no Brasil e pode ser pedido na ausência de “alternativas viáveis”, desde que o produtor apresente um plano para a descontinuação gradual.

Em abril do ano passado, a produção de algodão com o selo da BCI foi associada a abusos de direitos à terra e ambientais na Bahia por uma investigação da organização Earthsight. Nos meses seguintes, a BCI relatou que revisões independentes não detectaram infração dos seus parâmetros nas fazendas citadas e que colocou em prática um plano de ação para endereçar desafios na região.

A BCI diz que a certificação também se baseia em dados disponibilizados por produtores e autodeclarações dos pesticidas usados. Por sua vez, a Abrapa afirmou em nota que fazendas certificadas passam por auditorias de terceira parte anualmente e que tem investido em maior rastreabilidade da cadeia produtiva, inclusive com um projeto-piloto que permite ao consumidor acessar com um QR Code as informações sobre as etapas percorridas pelo algodão.


Fonte: Deutsche Welle Brasil