Agrotóxicos voltam a intimidar os brasileiros e pacote do veneno pode ser votado a qualquer momento na Câmara

unnamed (42)Trator pulverizador em Barreiras, Bahia / © Victor Moriyama / Greenpeace

São Paulo, 14 de setembro de 2021 – A boiada da vez, o Projeto de Lei 6299/2002 conhecido como “pacote do veneno”, que visa flexibilizar e facilitar a liberação de fabricação e uso de agrotóxicos, pode ser votado no plenário da Câmara dos Deputados a qualquer momento.

De autoria do ex-senador Blairo Maggi, e já aprovado pelo Senado Federal, o projeto foi aprovado na Comissão Especial da Câmara em 2018, sob relatoria do Dep. Luiz Nishimori e pela presidência da Comissão da então Dep. Tereza Cristina (atual Ministra da Agricultura), mesmo sob intensa pressão da sociedade que naquele ano se mobilizou e quase 2 milhões de pessoas e diversas organizações públicas, se posicionaram contra. Na ocasião, mais de 20 órgãos públicos como a Fiocruz, Abrasco, Inca, Ibama e mais de 320 organizações da sociedade civil se manifestaram publicamente contra o pacote.

Agronegócio acima de tudo, agrotóxicos acima de todos!

No executivo, desde o começo do mandato de Bolsonaro, o governo vem ignorando a demanda da sociedade e liberando um número recorde de agrotóxicos, boa parte deles sendo altamente ou extremamente tóxicos e que estão também na lista de substâncias que já não são mais permitidas na União Européia. Já no legislativo, governistas e ruralistas encontram na Câmara, sob comando de Arthur Lira (PP – AL), a porteira aberta para passar mais essa boiada.

“Arthur Lira e os parlamentares ruralistas declararam guerra à sociedade e à natureza! O país, no caos em que se encontra, e os deputados pautando e aprovando projetos que nos prejudicam e colocam em risco nossas crianças e nosso futuro é no mínimo, absurdo. A sociedade não está dividida, ela não quer mais agrotóxicos e clama pela redução do uso dessas substâncias, não pelo aumento indiscriminado como prevê o pacote do veneno. Porém, Lira não quer saber, veneno é a boiada da vez e ele é o chefe da boiada”, afirma a porta-voz da campanha de Agricultura e Alimentação do Greenpeace Brasil, Marina Lacôrte.

Para escancarar a mensagem que os governantes não querem ouvir: “agronegócio acima de tudo, agrotóxicos acima de todos”, um grupo de ativistas nesta quarta-feira,15, irá projetar a mensagem por meio de imagens em prédios, muros e avenidas de Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Maceió, Belo Horizonte e Belém. A ação também será realizada em Lisboa (Portugal), Lviv (Ucrânia) e Berlim (Alemanha).

Dentre os argumentos para justificar a matéria, ruralistas alegam que mais agrotóxicos são necessários para combater a fome em voga, já que sem eles é impossível produzir. Entretanto, o argumento não se sustenta, tendo em vista que o Brasil tem batido recordes de produção de grãos para exportação e tem uma boa parte do PIB ancorado na economia de base agro exportadora, enquanto aproximadamente mais de 125 milhões de brasileiras e brasileiros passam por algum grau de insegurança alimentar em 2021. Além disso, é a agricultura familiar e a agroecologia que têm sido determinantes no combate à fome nesta grave crise enfrentada pelo país. É deste grupo que tem partido ações de solidariedade e distribuição de alimentos às comunidades mais vulneráveis, e não de empresas ou produtores que fazem parte do agronegócio

Se o PL do veneno for aprovado:

• Transfere todo o poder de decisão de aprovação de um novo agrotóxico para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, tornando praticamente consultivas partes fundamentais do processo de avaliação e aprovação, como Ministério do Meio Ambiente e Anvisa, órgãos responsáveis pelos pontos mais importantes em jogo: saúde e meio ambiente;
• Garante o registro de substâncias comprovadamente cancerígenas. Atualmente ingredientes ativos que causam graves danos à saúde (teratogênicos, carcinogênicos, mutagênicos) são totalmente proibidos caso já tenha alguma evidência ou a partir do momento que demonstrem em novos estudos tais propriedades tidas como proibitivas. O pacote do veneno exclui esse texto e em troca diz que qualquer ingrediente pode ser liberado, desde que não apresentem “risco aceitável”, sem se quer definir aceitável;
• Muda o termo “agrotóxico” para “pesticidas” mascarando a nocividade dessas substâncias e não atendendo a realidade brasileira de baixa escolaridade no campo. O termo agrotóxico é amplamente conhecido por quem lida diariamente com essas substâncias e não foi adotado ocasionalmente na construção da Lei 7.802/1989, mas sim para colocar em evidência a toxicidade destas substâncias, representando perda de direito à informação correta;
• O PL também inclui conferir registro temporário sem avaliação para aqueles pesticidas que não forem analisados no prazo estabelecido pela nova Lei.

Tribunal de apelações rejeita oferta da Bayer para anular a perda do julgamento Roundup

Tribunal citou o “desrespeito imprudente” da Bayer/Monsanto pela segurança do consumidor

bayer monsanto

Por Carey Gillam para o USRTK

A proprietária da Monsanto, a Bayer AG, perdeu outra decisão do tribunal de apelações no amplo litígio do US Roundup, continuando a lutar para encontrar uma saída sob o esmagamento de dezenas de milhares de reivindicações alegando que os herbicidas à base de glifosato da Monsanto causam câncer.

Em uma decisão proferida na segunda-feira, o 1º Distrito de Apelação no Tribunal de Apelação da Califórnia rejeitou a oferta da Monsanto para anular a perda do julgamento em um caso apresentado pelos demandantes marido e mulher, Alva e Alberta Pilliod.

“Descobrimos que evidências substanciais apóiam os veredictos do júri”, afirmou o tribunal. “A conduta da Monsanto evidenciou um desrespeito irresponsável pela saúde e segurança da multidão de consumidores desavisados ​​que manteve no escuro. Este não foi um incidente isolado; A conduta da Monsanto envolveu ações repetidas ao longo de um período de muitos anos motivadas pelo desejo de vendas e lucro. ”

O tribunal rejeitou especificamente o argumento de que a lei federal antecipa tais reivindicações, um argumento que a Bayer disse aos investidores que oferece um caminho potencial para sair do litígio. A Bayer disse que espera conseguir que a Suprema Corte dos EUA concorde com seu argumento de preempção.

Em maio de 2019, um júri concedeu aos Pilliods mais de US $ 2 bilhões em danos punitivos e compensatórios depois que os advogados do casal argumentaram que ambos desenvolveram linfoma não-Hodgkin causado por muitos anos de uso de produtos Roundup.

O juiz reduziu o valor da sentença para US$ 87 milhões.

Ao apelar da perda, a Monsanto argumentou não apenas que as alegações de Pilliod foram antecipadas pela lei federal, mas também que as conclusões do júri sobre causalidade eram falhas, o tribunal não deveria ter admitido certas evidências e que “o veredicto é produto de má conduta do advogado . ” A Monsanto também queria que as indenizações por danos fossem reduzidas ainda mais.

Tribunal bate dura na Bayer/Monsanto

Na decisão do tribunal de apelações, o tribunal não alterou a sentença e disse que a Monsanto não havia demonstrado que a lei federal previa reivindicações como as feitas pelos Pilliods. O tribunal também disse que havia evidências substanciais de que a Monsanto agiu com “desrespeito deliberado e consciente pela segurança dos outros”, apoiando a concessão de indenizações punitivas.

A evidência mostrou que a Monsanto “falhou em conduzir estudos adequados sobre o glifosato e o Roundup, impedindo assim, ou distorcendo a investigação científica sobre o glifosato e o Roundup”, disse o tribunal.

O tribunal também castigou a Monsanto por não apresentar com precisão “todas as evidências registradas” ao fazer seu recurso: “Mas, em vez de declarar de forma justa todas as evidências relevantes, a Monsanto fez uma apresentação desequilibrada que se baseia principalmente nas evidências a seu favor. Este tipo de apresentação pode funcionar para um júri, mas não funcionará para o Tribunal de Recurso. ”

O tribunal acrescentou: “O julgamento descrito no relatório de abertura da Monsanto tem pouca semelhança com o julgamento refletido no registro.”

“Resumindo, as evidências mostram a intransigente relutância da Monsanto em informar o público sobre os perigos cancerígenos de um produto que disponibilizou abundantemente em lojas de ferragens e jardinagem em todo o país”, disse o tribunal.

Outro julgamento está em andamento 

O julgamento de Pilliod foi o terceiro contra a Monsanto. No primeiro julgamento, um júri unânime concedeu ao demandante Dewayne Johnson US $ 289 milhões o autor do  segundo julgamento recebeu US $ 80 milhões.

O quarto julgamento começou na semana passada. Um júri de sete homens e cinco mulheres na segunda-feira estava ouvindo depoimentos no caso Donnetta Stephens v. Monsanto no Tribunal Superior do Condado de San Bernardino, na Califórnia. O cientista aposentado do governo dos Estados Unidos, Christopher Portier, que foi perito dos demandantes em julgamentos anteriores do Roundup, testemunhou longamente na segunda-feira, reiterando o testemunho anterior de que há evidências científicas claras mostrando que o glifosato e as formulações à base de glifosato, como o Roundup, podem causar câncer.

A Bayer, que comprou a Monsanto em 2018, resolveu vários outros casos que estavam programados para ir a julgamento nos últimos dois anos. E em 2020, a empresa disse que pagaria cerca de US $ 11 bilhões para resolver cerca de 100.000 reivindicações de câncer Roundup existentes. No final do mês passado, a Bayer disse que reservaria outros US $ 4,5 bilhões para a responsabilidade de litígios do Roundup.

A Bayer também anunciou recentemente que deixará de vender o Roundup e outros herbicidas feitos com o ingrediente ativo glifosato para consumidores residenciais norte-americanos até 2023. Mas a empresa continua a vender os produtos para uso por agricultores e aplicadores comerciais.

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pela US Right to Know (USRTK) [Aqui!  ].

“Pacote do Veneno” pode ser votado esta semana; mobilizações virtuais contrárias estão marcadas no Brasil todo

Foto_Leandro Molina

O chamado “Pacote do Veneno” (Projeto de Lei 6299/02) pode voltar a tramitar nesta semana no plenário da Câmara dos Deputados. O PL pretende flexibilizar ainda mais o uso de agrotóxicos no país. O avanço desta pauta se soma ao cenário preocupante em que mais de 2 mil agrotóxicos já foram liberados nos últimos quatro anos, um recorde negativo para a saúde humana e o meio ambiente.

De acordo com o deputado federal Elvino Bohn Gass (RS), líder da bancada do PT na Câmara dos Deputados, o projeto está pronto e pode ser votado a qualquer momento. “O apetite ruralista por pesticidas é insaciável. Não bastasse a postura frouxa de Bolsonaro, que já liberou centenas de produtos danosos à saúde e ao meio ambiente, a bancada ruralista está empenhada em aprovar o que eles chamam de “marco legal dos agrotóxicos” mas que, na verdade, é o PL do Veneno. Porque a intenção é legalizar, de vez, ritos flexíveis para novos agrotóxicos. É nessa boiada que eles pretendem fazer passar produtos que a lei atual proíbe porque há unanimidade científica em torno dos riscos que representam”, afirma.

Em contraposição ao PL 6299, parlamentares e dezenas de entidades integrantes da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida propõem a aprovação do PL 6.670/2016, que cria a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNARA). “Queremos tornar o Brasil um dos maiores produtores de alimentos saudáveis no planeta. Não podemos permitir que, também no campo, o negacionismo deste governo cause doenças e mortes”, completa Elvino Bohn Gass.

Mobilização da sociedade

Como parte das reações contra o Pacote do Veneno, na última semana 38 organizações e movimentos que compõem a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida enviaram uma Carta ao presidente da Câmara Federal, Arthur Lira, e aos líderes de bancadas e blocos no Congresso Federal, com argumentos contra o Pacote do Veneno e a favor da PNARA.
A Campanha também propõe que entidades, movimentos e bancadas também protocolem esse documento nos endereços de e-mail dos deputados e deputadas.
Para ampliar a mobilização, entidades e movimentos sociais farão seminários regionais virtuais, a partir desta semana. As ações estão previstas para ocorrer sempre às 18h e transmitidas pelas redes da Campanha, com o seguinte calendário:  
18/08 – Sul
25/08 – Centro-oeste
01/09 – Nordeste
08/09 – Norte
15/09 – Sudeste

“Nossa expectativa é de que as iniciativas regionais se enraízem nos estados, e incentivem o conhecimento e a defesa de políticas públicas de promoção à agroecologia e produção orgânica. A sociedade é contra esta enxurrada de veneno na produção de alimento”, garante Mirele Gonçalves, integrante da Campanha.  

Outra forma de participar da mobilização é por meio do abaixo-assinado pela aprovação da PNARA. Mais de 1,7 milhões de pessoas já aderiram ao manifesto.
Como subsídio para entender o Pacote do Veneno e também o seu contraponto, a PNARA, entidades produziram o Dossiê Contra o Pacote do Veneno e em Defesa da Vida, lançado no início de julho. O material também contribui como ferramenta de estudo e divulgação dos riscos em torno do PL 6299.

As iniciativas dão continuidade à “Mobilização Nacional Contra os Agrotóxicos e Pela Vida”, realizada entre 15 de junho e 5 de julho, por frentes parlamentares e movimentos sociais. A série de encontros aconteceu de forma virtual semanalmente, com contribuições científicas e das famílias agricultoras e organizações sociais que constroem a agroecologia nos territórios, para ampliar o diálogo com a população brasileira sobre os impactos dos agrotóxicos para a saúde humana e do ambiente.

O que propõem o Pacote do Veneno
Confira as principais mudanças, caso o PL fosse aprovado:
– “Agrotóxico” passará a se chamar “pesticida”, na tentativa de mascarar e encobrir a nocividade amplamente conhecida destas substâncias;
– A avaliação de novos agrotóxicos deixará de considerar os impactos à saúde e ao meio ambiente, e ficará sujeita apenas ao Ministério da Agricultura e aos interesses econômicos do agronegócio;
– Será admitida a possibilidade de registro de substâncias comprovadamente cancerígenas! E serão estabelecidos níveis aceitáveis para isto, embora não existam níveis seguros para substâncias que se demonstrem cancerígenas;
– A regulação específica sobre propaganda de agrotóxicos irá acabar;
– Será permitida a venda de alguns agrotóxicos sem receituário agronômico e de forma preventiva, favorecendo ainda mais o uso indiscriminado;
– Estados e municípios enfrentarão dificuldades para ter medidas mais restritivas, embora estas esferas tenham o dever proteger seu patrimônio natural.

O que propõem o PNARA

– Visa uma redução gradual do uso de agrotóxicos e estimula a transição orgânica e agroecológica;
– Propõe reavaliação periódica de registro das substâncias mais ágil e a cada 3 anos (hoje o registro é eterno e um processo de reavaliação leva anos, nos deixando expostos a agrotóxicos altamente tóxicos e que deveriam ser retirados de circulação); 
– Proíbe qualquer forma de aplicação próximo a áreas de proteção ambiental, de recursos hídricos, de produção orgânica e agroecológica, de moradia e de escolas. O que deveria já estar em prática;
– Redução contínua e gradual da aplicação de veneno por aeronaves.

Novo estudo encontra correlação entre exposição a agrotóxicos e tumores no sistema nervoso central em crianças

“As intervenções políticas para reduzir a exposição a agrotóxicos em indivíduos que residem perto de campos agrícolas devem ser consideradas para proteger a saúde das crianças”.

crianças agrotoxicos

Um novo estudo, o primeiro de seu tipo, encontrou evidências diretas que ligam a exposição a agrotóxicos a tumores do sistema nervoso central na infância. O estudo, que foi publicado na Environmental Research, foi usado “para estimar os efeitos de um grande número de agrotóxicos específicos em relação aos subtipos de tumor do Sistema Nervoso Central (SNC) ”.

A pesquisa examinou dados do Registro de Câncer da Califórnia em relação a certos tipos de casos de câncer em crianças nascidas entre 1998 e 2011, que viviam em áreas rurais, e descobriu que a exposição a agrotóxicos, tais como: Clortalonil, Bromacil, Tiofanato-Metila, Triforina, Cresoxim-Metila, Propiconazol, Dimetoato e Linuron, aumentou o risco de tumores no SNC.

“As intervenções políticas para reduzir a exposição a agrotóxicos em indivíduos que residem perto de campos agrícolas devem ser consideradas para proteger a saúde das crianças”, disse Beate Ritz, coautora e professora de epidemiologia da Fielding School of Public Health da UCLA.

O estudo identificou 667 casos de tumores do sistema nervoso central na infância e 123.158 controles e “comparou esses casos com dados do sistema de Relatórios de Uso de Agrotóxicos (PUR) do Departamento de Regulamentação de Agrotóxicos da Califórnia (CDPR) para identificar se os produtos químicos classificados como possíveis carcinógenos pelo Meio Ambiente dos EUA A Agência de Proteção (EPA) foi pulverizada a 2,5 milhas de suas casas no nascimento ”, relatou EcoWatch. Os pesquisadores determinaram que alguns dos agrotóxicos estudados tinham um risco aumentado de tumor em até 2,5 vezes.

O estudo também revelou que “além dos efeitos negativos dos agrotóxicos sobre a saúde dos trabalhadores, há um grande número de mulheres grávidas e crianças que vivem adjacentes aos campos tratados que também podem sofrer efeitos prejudiciais à saúde”, disse o autor e epidemiologista do Samuel Oschin do Comprehensive Cancer Institute no Cedars-Sinai Medical Center em Los Angeles.

“Nossos resultados sugerem que a exposição a agrotóxicos específicos pode explicar melhor os resultados de estudos anteriores que relataram relações entre tipos de agrotóxicos mais amplos e tumores no SNC”, disse Julia Heck,  também coautora do estudo.”

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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pelo “Nation of Change” [Aqui!  ] .

Agrotóxicos no ar: estudo francês identifica 32 substâncias identificadas como “prioritárias” para controle

Os resultados da primeira campanha nacional realizada na França para medir a presença de agrotóxicos na atmosfera mostram a presença de glifosato e até produtos proibidos.

pulverizaçãoO Glifosato é pulverizado em um campo de milho no noroeste da França, em 11 de maio de 2018. JEAN-FRANCOIS MONIER / AFP

Por Stéphane Mandard para o Le Monde

Os agrotóxicos não são encontrados apenas na água ou nos alimentos, mas também poluem o ar que respiramos. Porém, se houver limites a serem excedidos em água e alimentos, eles não estarão sujeitos à supervisão regulatória no ar e, tampouco, a padrões de avaliação. Para avaliar melhor a exposição da população francesa e, finalmente, definir uma estratégia nacional de monitoramento de pesticidas na atmosfera, a Agência Nacional de Segurança Sanitária (ANSES), o Instituto Nacional de Meio Ambiente e Riscos Industriais ( Ineris) e a rede de Associações Aprovadas de Monitoramento da Qualidade do Ar (AASQA), federadas pela Atmo France, uniram forças para liderar a primeira Campanha Nacional de Pesticidas Exploratórios Nacionais (CNEP).

Os resultados foram divulgados quinta-feira, 2 de julho. No total, 75 substâncias diferentes foram identificadas, 32 das quais são consideradas “prioritárias” pela ANSES devido aos seus efeitos potencialmente cancerígenos ou de agirem como desreguladores endócrinos. Entre os produtos mais frequentemente encontrados estão o Glifosato, Folpel (mais conhecido como “fungicida da videira”) e o Lindano, um inseticida que é proibido na União Europeia desde 1998.

As amostras foram coletadas entre junho de 2018 e junho de 2019 em 50 locais espalhados por todo o território francês (França metropolitana, departamentos e regiões ultramarinas) e levando em consideração os diferentes tipos de áreas residenciais (50% dos locais) áreas urbanas-periurbanas e 50% rurais) e produção agrícola: lavouras de campo (26%), viticultura (18%), arboricultura (20%), jardinagem de mercado (10%), pecuária (6%). A grande maioria dos sensores foi, no entanto, colocada a mais de 150-200 metros do primeiro lote, o que exclui os residentes de propriedades agrícolas, os primeiros expostos, desta fotografia. Outro estudo realizado com a Public Health France, chamado PestiRiv, tem como objetivo avaliar a exposição de moradores de áreas vitícolas.

“Avalie rapidamente a situação do Lindano”

Cerca de 100.000 dados foram analisados. A partir dessa base, a ANSES estabeleceu “uma primeira interpretação da saúde” , que não pretende ser uma avaliação de risco. Essa análise não “destaca, à luz do conhecimento atual, um forte problema de saúde associado à exposição da população em geral pelo ar externo, fonte externa de emissão de proximidade” , deseja tranquilizar desde o início a agência. Uma afirmação que faz seus parceiros tossirem. A ANSES, no entanto, identifica trinta e duas substâncias prioritárias para as quais “investigações aprofundadas são necessárias” . Desses trinta e dois agrotóxicos, nove são proibidos. Para a ANSES, a prioridade é “avalie rapidamente a situação do Lindano”. A agência considera esse inseticida como “uma das substâncias mais perigosas (com efeitos cancerígenos e / ou reprotóxicos e / ou endócrinos)” . Apesar de proibido na agricultura desde 1998 (e em preparações contra piolhos ou pulgas desde 2006), o Lindano é a substância mais comumente encontrada: foi detectada em 80% das amostras (incluindo 98% na França continental).

Para a ANSES, é agora uma questão de identificar os motivos da persistência do Lindano no ambiente e, em seguida, estimar as exposições cumulativas pelas diferentes rotas (respiratórias, alimentares, cutâneas) e meios de exposição (fora do ar e do ar). interior…). A agência afirma que continuará “trabalho semelhante” para as outras oito substâncias proibidas (epoxiconazol, fenarimol, iprodiona, linuron, pentaclorofenol, clorotalonil, clorpirifós-etil e oxadiazon).

“A ANSES está abrindo portas “, comenta um especialista familiarizado com o assunto. É fácil lidar com produtos já proibidos, mas e todos os outros que ainda são amplamente utilizados? “ . Uma pergunta que se aplica principalmente ao glifosato. Listado como provável agente cancerígeno, o herbicida produzido pela Bayer, muito difamado atualmente, é a terceira substância mais comumente encontrada (56% das amostras). É uma das nove substâncias “frequentemente quantificadas”, ou seja, identificadas em pelo menos 20% das amostras, de acordo com a classificação adotada pela Ineris. Entre esses nove agrotóxicos, o glifosato é o que apresenta as menores concentrações médias anuais (0,04 ng / m 3 ) quando os outros são maiores que 0,12 ng / m3 . Mas eles são dificilmente mais fracos do que o lindane (0,06 ng / m 3 ).

“Acelere na supervisão regulatória sustentável”

E o Folpel? Utilizado contra o oídio, o “fungicida da videira” é classificado como cancerígeno, mutagênico e provavelmente reprotóxico pela Organização Mundial da Saúde. De todas as substâncias medidas na França continental, o Folpel é o agrotóxico com os mais altos níveis de concentração (1,03 ng / m 3 em média por ano), atrás do Prosulfocarbe (2,61 ng / m 3 ), um herbicida .

E as médias anuais nacionais dão uma indicação que pode ser enganosa. Escondem diferenças locais e variações sazonais significativas. Assim, a concentração média anual de folpel atinge 3 ng / m 3 , na zona vinícola. Concentrações que podem exceder 100 ng / m 3 semanalmente durante os períodos de tratamento da videira entre junho e setembro. Encontramos os mesmos picos com Prosulfocarbe e culturas de campo de outubro a dezembro e de abril a junho.

Isso não impede, para a ANSES, que  ainda seja necessário um trabalho adicional de especialização” para todas essas outras substâncias “prioritárias” . “Em algum momento, ainda teremos que acelerar o monitoramento regulatório de longo prazo de agrotóxicos no ar com valores de referência de saúde “, impaciente Emmanuelle Drab-Sommesous, diretora da Atmo Grand-Est e representante de pesticidas da Atmo- França. Medimos há vinte anos. “

Sem esperar, as associações de monitoramento da qualidade do ar recomendam a multiplicação dos locais de medição para produzir “informações locais,
confiáveis ​​e representativas”,
 essenciais em um contexto às vezes tenso; o estabelecimento de uma plataforma nacional para o registro de produtos fitofarmacêuticos para centralizar tanto a compra de agrotóxicos quanto seu uso, ou a inclusão do controle de agrotóxicos presentes ar nas políticas de saúde ambiental.

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Este artigo foi escrito originalmente em francês e publicado pelo jornal Le Monde [Aqui!].

Glifosato deixa de ser considerado “extremamente tóxico” após mudança da Anvisa

Levantamento inédito mostra que 93 produtos com glifosato tiveram classificação reduzida pelo governo Bolsonaro – ao mesmo tempo que o cerco ao pesticida se fecha no mundo

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Pedro Grigori | Agência Pública/Repórter Brasil

O cenário mundial não está favorável aos fabricantes de glifosato. O herbicida enfrenta vetos em países europeus e mais de 18 mil ações nos tribunais nos Estados Unidos que relacionam o seu uso a doenças como o câncer.

Mas, no Brasil, o agrotóxico mais vendido no mundo não só teve a licença de comercialização renovada como também, oficialmente, tornou-se menos perigoso aos olhos do governo brasileiro.

Isso porque, após a reclassificação de toxicidade aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), 93 produtos formulados à base de glifosato tiveram a classificação de toxicidade reduzida, segundo um levantamento inédito realizado pela Agência Pública e Repórter Brasil com base na publicação no Diário Oficial.

Antes, 24 produtos à base do herbicida eram considerados “Extremamente Tóxico”. Agora não há nenhum produto enquadrado na categoria máxima de toxicidade.

O levantamento mostrou ainda que três produtos se mantiveram na mesma classe toxicológica.

“Esse alerta vai sair da embalagem do glifosato, um produto que pode corroer a córnea. A embalagem agora será igual a de qualquer produto de uso doméstico. Estamos seguindo contra todos os alertas que o mundo está abrindo para o glifosato”, afirma Luiz Cláudio Meirelles, pesquisador da Fiocruz.

A portaria que diminuiu a classificação toxicológica dos produtos à base de glifosato foi publicada em julho deste ano. Agora, só receberá o alerta máximo os pesticidas que causarem morte ao serem ingeridos ou entrarem em contato com os olhos ou pele. Especialistas acreditam que as mudanças vão afetar mais aqueles que manuseiam os produtos, porque o símbolo de perigo, a caveira, passará a ser usado apenas no rótulo de produtos que causem a morte ao serem ingeridos ou entrar em contato com olhos e pele. Os demais agrotóxicos terão apenas um símbolo de atenção.

Veja as mudanças na tabela:

glifosato 2

No Brasil e no mundo

Há mais de 40 anos no mercado mundial, o glifosato é líder de vendas no Brasil e no mundo.

No Brasil, existem hoje 102 produtos técnicos, duas pré-misturas e 123 produtos formulados à base do ingrediente ativo glifosato. São usados para o controle de mais de 150 plantas infestantes em variados cultivos – de soja e café até feijão, maçã e uva. Em 2017, 173 mil toneladas de glifosato foram vendidas no Brasil, segundo o Ibama.

Porém, estudos acenderam o alerta sobre a segurança, correlacionando o uso do pesticida com o aparecimento de doenças como depressão, autismo, infertilidade, Alzheimer, Parkinson e câncer em diversas partes do corpo. Em 2015, após análise de diversos estudos a Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer (Iarc) da Organização Mundial de Saúde concluiu que o glifosato era “provavelmente cancerígeno” para humanos.

Em fevereiro deste ano, a Anvisa concluiu a reavaliação do glifosato, que durou 11 anos, e entendeu que o produto não se enquadra nos critérios proibitivos previstos na legislação brasileiras: não é classificado como mutagênico, carcinogênico, tóxico para a reprodução e teratogênico (que causa malformação fetal).

“A principal conclusão da reavaliação é que o glifosato apresenta maior risco para os trabalhadores que atuam em lavouras e para as pessoas que vivem próximas a estas áreas”, informou a agência.

Agora, não há previsão de uma nova avaliação por parte do governo, já que a legislação não estipula um novo prazo, diferentemente do que acontece na União Europeia e nos Estados Unidos.

Gerente-geral de toxicidade agência regulatória na época do começo da ação, Luiz Cláudio Meirelles conta que o produto entrou em reavaliação devido às suspeitas de doenças crônicas, como câncer e autismo. “Uma das maiores preocupações eram os efeitos crônicos, aqueles que apareceriam anos depois, após a pessoa ter exposição contínua ao produto”, explica

Hoje, Luiz Cláudio entende que o caminho a ser tomado deveria ser o da proibição. “Hoje a situação do glifosato é um caminho sem volta. Tudo que começa a ser apontado como problemático na saúde e no meio ambiente, a ciência guia para uma condenação”, explica.

O glifosato é defendido pela Bayer, dona da Monsanto. A reportagem questionou a empresa sobre a reavaliação da Anvisa, a queda na classe toxicológica, os processos nos Estados Unidos e o banimento na Europa. No entanto, a Bayer limitou-se em comentar os dois últimos pontos. Por nota, a empresa informou que se solidariza com os demandantes e suas famílias, mas que “o glifosato não foi a causa de suas doenças”.

“Há um extenso trabalho de pesquisas sobre o glifosato e os herbicidas à base do mesmo, incluindo mais de 800 estudos analisados pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), por agências europeias e outros reguladores no momento do registro dessa molécula. Todas as agências regulatórias que analisaram estes estudos chegaram à mesma conclusão: produtos à base de glifosato são seguros quando usados conforme as instruções”, disse em nota.

Confira na íntegra os questionamentos e a nota divulgada pela Bayer.

Segundo Ricardo Carmona, professor de Produção Vegetal na Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Brasília (UnB), ainda não há no mercado um herbicida capaz de substituir o glifosato. “Se o glifosato fosse proibido, não teríamos outro herbicida de ação tão ampla que sozinho pudesse substituí-lo. Teríamos que aplicar pelo menos dois, para controlar tipos diferentes de ervas daninhas, que possivelmente seriam mais tóxicos, e aumentaria o uso dos agrotóxicos e causaria consequências a saúde e ao meio ambiente”, diz.

glifosato 3O herbicida Roundup é feito à base de glifosato. Nos Estados Unidos, trabalhador exposto ao produto desenvolveu câncer

Cerco ao glifosato pelo mundo

Nos estados Unidos, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) avaliou, em 2017, que o glifosato é “provavelmente não cancerígeno para humanos”. No entanto, a Justiça americana tem decidido de maneira oposta.

A Bayer — dona da Monsanto, primeira empresa a vender agrotóxicos à base de glifosato — responde a mais de 18 mil ações contra o glifosato, sendo que 5 mil dessas foram registradas apenas em abril deste ano.

Em agosto e 2018 a Monsanto perdeu uma ação na Júri da Califórnia e foi condenada a pagar US$ 289 milhões ao jardineiro Dewayne Johnson. A vítima enfrenta um linfoma. Segundo a defesa, ele teria desenvolvido a doença por utilizar nos jardins de uma escola na Califórnia os herbicidas Roundup e RangerPro, feito à base de glifosato.

Em março deste ano, o Júri Federal de São Francisco entendeu que a exposição ao glifosato foi um fator significativo para que o aposentado Edwin Hardeman desenvolvesse câncer, e determinou que a Bayer pague mais de R$ 80 milhões em indenização a vítima. Edwin enfrenta um linfoma não-Hodgkin, um tipo de câncer que tem origem nas células do sistema linfático. Durante 20 anos ele utilizou o herbicida Roundup, à base de glifosato,em sua propriedade. O produto é da empresa Bayer/Monsanto.

Na Europa, o debate ocorre no sentido de retirar o glifosato do mercado. Em julho deste ano, o Parlamento da Áustria baniu o uso de glifosato no país, o tornando o primeiro membro da União Europeia a tomar a medida.

Em 2017, o presidente da França, Emmanuel Macron, prometeu proibir o glifosato no país até o fim de 2020. Porém, no começo deste ano, afirmou que não seria possível banir o produto do mercado dentro do prazo estipulado. Até o momento o herbicida já está fora de 20 municípios franceses devido a leis municipais.

Na Alemanha, o governo se comprometeu a retirar o glifosato do mercado até 31 de dezembro de 2023, como parte de um programa de proteção de insetos lançado neste ano.

Ações no Brasil Em agosto deste ano, o Ministério Público do Trabalho (MPT-MT), Ministério Público Federal (MPF-MT) e o Ministério Público Estadual (MP-MT) do Mato Grosso iniciaram uma ação civil pública para proibir a utilização de qualquer agrotóxico à base de glifosato no estado. O Mato Grosso é o maior exportador de soja do Brasil, com mais de 16,2 milhões de toneladas apenas entre janeiro e julho deste ano. As culturas do grão são as que mais usam herbicidas à base de glifosato. Segundo o MPT, a ação tem como enfoque defender a saúde dos produtores rurais e o direito à vida. Os promotores justificam que as condições climáticas do Mato Grosso não são adequadas à bula de alguns dos principais produtos à base de glifosato, que tem como especificações, por exemplo, que a aplicação seja feita com a umidade relativa do ar mínima de 55% e com temperatura máxima de 28Cº, condições que não coincidem com o clima do estado em grande parte do ano. A próxima audiência da ação está marcada para 13 de novembro.

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Esta reportagem foi inicialmente publicada no site Por Detrás do Alimento [Aqui!].

Os riscos do Roundup podem ir bem além do câncer

A evidência do perigo deste herbicida barato para as funções biológicas e o meio ambiente continua aumentando. Por que os reguladores dos EUA não estão ouvindo?

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O Glifosato vale mesmo a pena? Foto: Daniel Acker / Bloomberg

Por Mark Buchanan* para a Bloomberg

A grande fabricante produtos químicos Bayer AG ainda está tentando se reequilibrar depois que um júri na Califórnia concedeu US $ 2 bilhões em danos a duas pessoas que dizem ter contraído câncer após anos de uso do Roundup, um popular herbicida fabricado pela Monsanto. A Bayer provavelmente não vai pagar esses US $ 2 bilhões. Mas mais de 10 mil novos casos estão pendentes, preocupando os investidores da Bayer, bem como os agricultores que dependem do produto que apresentado como sendo um herbicida barato e eficaz.

Câncer é apenas uma parte da história. Estudos realizados na última década sugerem que o Glifosato – o ingrediente ativo do Roundup – polui as fontes de água, fica no solo por muito mais tempo do que se suspeitava anteriormente e rotineiramente contamina o suprimento de alimentos para seres humanos. Tanto nos EUA como na Europa, os limites supostamente seguros para a ingestão humana são baseados em ciência há muito ultrapassada. A pesquisa também aponta para sérias consequências adversas para o meio ambiente, e há indicações de que o Glifosato pode causar doenças em mamíferos, mesmo várias gerações removidas da exposição inicial.

O Glifosato não é tão seguro quanto os fabricantes gostariam que acreditássemos, e a redução acentuada de seu uso provavelmente está muito atrasada.

A Monsanto patenteou o Glifosato no início dos anos de 1970, e rapidamente ele se tornou o produto químico de primeira escolha para o controle de ervas daninhas na forma  comercial conhecida como Roundup, que agora representa mais de 70% do uso de agrotóxicos globalmente. Executivos da Monsanto incentivaram a disseminação do Roundup ao projetar sementes geneticamente modificadas para o milho e outras culturas que são tolerantes ao Glifosato.

Fabricantes de Glifosato – que agora incluem muitas empresas em todo o mundo, pois a patente da Monsanto expirou em 2000 – há muito tempo argumentam que o Glifosato é completamente seguro para seres humanos, animais e, na verdade, para toda a vida não vegetal. O Glifosato age inibindo um caminho bioquímico que as plantas precisam para crescer, e os animais não compartilham esse caminho, o que é superficialmente reconfortante. Mas isso significa apenas que o Glifosato não deve matar animais de fome, como acontece com as plantas.  Mas produtos químicos podem exercer efeitos sobre os organismos de várias maneiras.

Interpretar a evidência para o câncer não é fácil, porque painéis diferentes chegaram a conclusões contrastantes usando procedimentos diferentes. Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), parte da Organização Mundial de Saúde, concluiu que o Glifosato é provavelmente cancerígeno. Mas tanto a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) quanto a Autoridade Europeia de Segurança de Alimentos (EFSA) se recusaram a fazer o mesmo. Tanto a EPA quanto a EFSA contaram com informações fornecidas por pesquisadores ligados à indústria e consideraram os estudos fornecidos pela indústria que não foram revisados ​​por pares ou tornados públicos. O IARC se baseou exclusivamente em pesquisas revisadas por pares e publicamente disponíveis.

Uma equipe internacional de biólogos revisou os estudos do IARC e da EFSA, concluindo que o da agência europeia era significativamente defeituoso e se afastava das práticas padrão para a avaliação de riscos.

Há muitas outras razões para se preocupar com o Glifosato.  Em 2016, um grupo independente de biólogos tentou esclarecer o que realmente sabemos sobre o produto químico. O artigo que eles produziram nos leva a uma leitura sombria. Os pesquisadores observaram que os estudos da década anterior encontraram traços significativos de herbicidas à base de Glifosato na água potável e subterrânea, provavelmente expondo rotineiramente milhões de pessoas em todo o planeta à esta substância química. Estudos de toxicidade em roedores descobriram que o Glifosato pode danificar o fígado e os rins, mesmo em doses geralmente consideradas seguras para humanos. Porcos jovens alimentados com soja contaminada com resíduos de herbicida Glifosato exibiram malformações congênitas, não muito diferentes dos defeitos congênitos observados em pessoas que vivem em regiões agrícolas próximas e com uso intensivo de Glifosato.

O estudo aponta ainda para muitas outras descobertas preocupantes, desde o impacto disruptivo do Glifosato na sinalização hormonal em mamíferos até o modo como este produto químico se liga a metais como zinco, cobalto e manganês, reduzindo o suprimento desses micronutrientes cruciais para pessoas, culturas e outras plantas e para a vida selvagem. A maioria desses efeitos provavelmente não seria detectada pelas diretrizes tradicionais de testes de toxicologia atualmente favorecidas pelos reguladores de agrotóxicos.

Em abril, um estudo diferente encontrou outro efeito preocupante: o Glifosato pode interromper as funções biológicas por gerações. Um dos tópicos mais quentes da biologia nos últimos anos tem sido a epigenética – o estudo de como os descendentes herda não apenas os genes de seus pais, mas também certos padrões de atividade química escritos nesses genes por outras moléculas sinalizadoras. Isto oferece um meio pelo qual os fatores ambientais que afetam um organismo durante sua vida podem ser transmitidos aos seus descendentes. Em experimentos com ratos alimentados com Glifosato, Michael Skinner, da Washington State University, e seus colegas descobriram que os efeitos malignos do tratamento não apareciam no organismo comendo Glifosato, ou mesmo em sua prole, mas nas duas gerações seguintes de descendentes. Esses ratos, sem nunca serem expostos ao Glifosato, mostraram, no entanto, uma tendência proeminente em relação à doença da próstata, obesidade, doença renal, doença dos ovários e anormalidades de nascimento.

O Glifosato claramente não é um herbicida benigno que não justifica preocupação, deixando de lado inclusive sua ligação com o câncer. O Glifosato pode estar causando muitas outras perturbações graves à biologia humana e a organismos e plantas no meio ambiente, atualmente invisíveis aos atuais sistemas regulatórios desatualizados. Já é hora de nossos reguladores atualizarem sua ciência.

*Mark Buchanan, físico e escritor científico, é o autor do livro “Previsão: o que a física, a meteorologia e as ciências naturais podem nos ensinar sobre economia”.

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pela Bloomberg [Aqui!].

Agrotóxicos e seus impactos sobre a saúde e o meio ambiente – Entrevista ao Programa “Faixa Livre”

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Concedi hoje uma entrevista ao jornalista Paulo Passarinho que é o âncora do “Programa Faixa Livre” que é levado ar pela Rádio Bandeirantes 1360 AM a partir da cidade do Rio de Janeiro.

Abaixo posto a resenha produzida pelos editoria do “Faixa do Livre”, bem como o arquivo contendo a íntegra das respostas dadas a Paulo Passarinho.

Pedlowski alerta a alta de casos de câncer provocados por agrotóxicos

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O atendimento aos interesses daqueles que patrocinaram sua eleição à Presidência tem levado Jair Bolsonaro a promover um verdadeiro genocídio silencioso no país: o governo autorizou, em pouco menos de cinco meses, a utilização de 197 novos agrotóxicos pelos grandes proprietários de terra.

Esta é a maior taxa de aprovação de uso de fitossanitários na história. O panorama já tem levado a um aumento alarmante de casos de câncer em algumas regiões do país, onde o agronegócio tem predominância, como no Mato Grosso e no Rio Grande do Sul.

A iniciativa criminosa do Governo Federal preocupa o professor de Ecologia e Recursos Naturais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) Marcos Pedlowski, que fez questão de citar alguns dos agrotóxicos mais perigosos e que tiveram sua utilização liberada pelo ex-capitão do Exército.

“É um problema ambiental, mas eu diria, principalmente hoje, de saúde coletiva. Temos substâncias reconhecidamente causadoras de câncer, uma delas, que foi aprovada com algumas variações, é o acetato, e outra bastante problemática, que é uma das mais consumidas no mundo, é o glifosato. Temos um produto, o Fipronil, proibido na União Europeia, só pode ser usado em casos raríssimos nos Estados Unidos e é conhecido como exterminador de abelhas”, citou.

Não bastasse a contaminação dos alimentos pelo veneno usado por produtores rurais para conter pragas, os agrotóxicos vêm alcançando o principal bem natural para subsistências das espécies no planeta.

“O problema dos agrotóxicos mais recentes é que eles não ficam tanto no solo, vão direto para a água. Essa capacidade de passar diretamente para o lençol freático e não contaminar o solo tem uma consequência muito ruim. Foi feita uma pesquisa recente com dados fornecidos pelas próprias concessionárias de tratamento de água no Brasil que comprovou que pelo menos um quarto dos municípios brasileiros estão servindo 27 agrotóxicos na torneira da população brasileira”, alertou o professor da UENF.

“Aqui no estado do Rio de Janeiro, a maioria dos municípios analisados tem esses agrotóxicos. Estamos bebendo resíduos de agrotóxicos em grandes quantidades, dependendo da cidade. No Mato Grosso, o grupo do professor Wanderlei Pignati está encontrando até na água da chuva. O que temos com essa situação é que estamos bebendo água contaminada, respirando e comendo agrotóxicos em muitas regiões”, prosseguiu Pedlowski.

A China, um dos principais produtores de fitossanitários do mundo, tem o Brasil como um de seus maiores mercados, já que os Estados Unidos e a União Europeia proibiram a boa parte dos agrotóxicos exportados pelo país asiático.

Indo no caminho inverso do governo Bolsonaro, um país que tem tomado medidas efetivas contra a proliferação de veneno industrial no solo é um dos aliados chineses no mundo, o que pode atingir nossa balança comercial.

“Em 31 de janeiro, os serviços de vigilância sanitária da Rússia emitiram um comunicado ao governo brasileiro dizendo que se o Brasil não tomasse cuidado para diminuir o conteúdo de glifosato na soja exportada, eles suspenderiam a aquisição de soja brasileira. O problema é que a Rússia tolera três vezes mais resíduos do que a União Europeia”, avaliou.

Ouça a entrevista de Marcos Pedlowski:

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Este artigo foi originalmente publicado no site oficial do Programa “Faixa Livre” [Aqui!]

“Brasil é um inferno de agrotóxicos na Terra”

Bayer, agrotóxicos, câncer e padrões duplos de comportamento

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Acionista crítico leva a Bayer a prestar contas na assembleia geral anual da empresa

O presidente-executivo da Bayer, Werner Baumann, perdeu recentemente um voto crucial de confiança, com os investidores questionando sua forma de lidar com o acordo de US$ 63 bilhões da Monsanto e a onda de ações judiciais dos EUA que se seguiram. No que Bloomberg chamou de “um desenvolvimento impressionante para a companhia alemã de medicamentos e produtos químicos”, cerca de 55% dos acionistas votaram contra a absolvição de Baumann e outros gerentes de responsabilidade por suas ações na tomada da Monsanto que ocorreu no ano passado.

A votação colocou em dúvida o futuro de Baumann e provocou uma sessão imediata do conselho de supervisão. Enquanto o conselho supervisor ignorou a votação sem precedentes, os investidores não estão satisfeitos com a decisão dos diretores de apoiar Baumann e sua estratégia.

Embora grande parte da agitação dos investidores incida, sem dúvida, no passivo financeiro, fortes preocupações estão sendo levantadas sobre a ética da Bayer. Na reunião geral anual da Bayer, Christian Russau, da organização guarda-chuva, os Acionistas Críticos, fez um discurso no qual lançou um ataque contundente à empresa por seus “duplos padrões”. Segundo Russau, a Bayer vende pesticidas no Brasil que são proibidos na UE.

Russau realizou duas investigações, uma em 2016 e uma segunda em 2019.

Ele descobriu que 8 substâncias ativas de pesticidas foram vendidas pela Bayer no Brasil em 2016 e não estão autorizadas a nível da UE:

  • Carbendazim
  • Ciclanilida
  • Dissulfotam
  • Etiprona
  • Ethoxysulfuron
  • Ioxinil
  • Thidiazurom
  • Tiodicarbe

Mas em 2019, o número aumentou para 12:

  • Carbendazim
  • Ciclanilida
  • Etiprona
  • Ethoxysulfuron
  • Fenamidona
  • Indaziflam
  • Ioxinil
  • Oxadiazona
  • Propinebe
  • Thidiazurom
  • Tiodicarbe
  • Tirame

Russau comentou: “Este é um aumento de 50%”.

Russau observou que em 1988, o então CEO da Bayer Hermann J. Strenger se recusou a estabelecer padrões duplos. Ele disse: “Fazemos as mesmas exigências de nossos investimentos no Brasil ou na Índia, nos EUA ou no Japão, como [na Alemanha]”.

No entanto, 31 anos depois, Russau disse que a Bayer ainda vende no Brasil alguns herbicidas, inseticidas e fungicidas com ingredientes ativos que são proibidos na Europa. Por isso, está operando de acordo com um padrão duplo. Russau acusou o CEO da Bayer, Werner Baumann, de cumplicidade com esse duplo padrão, em uma “continuidade histórica indescritível”.

Por que o Brasil?

Por que o foco no Brasil? Russau disse: “Porque o Brasil está no centro do interesse de crescimento da Bayer”. Dirigindo-se diretamente a Baumann, ele acrescentou que o CEO da Bayer disse na reunião geral anual de 2018 que o interesse da Bayer em adquirir a Monsanto seria no setor de sementes e no crescimento desse setor: “Este tipo de semente é geralmente geneticamente modificado, e é isso que Se essas três variáveis- sementes geneticamente modificadas, venenos agrícolas e crescimento – forem reunidas, somente um denominador comum pode ser encontrado em todo o mundo: o Brasil. Essa é a triste realidade, porque o crescimento nas áreas de sementes geneticamente modificadas e os venenos agrícolas já atingiram seus limites nos EUA, os processos contra a Monsanto atestam isso. “

Na Europa, Russau disse que a resistência pública é grande demais para que o crescimento seja esperado aqui. Na Índia, mais e mais estados estão declarando-se “livres de agrotóxicos” e a China está mostrando preocupação com a contaminação por agrotóxicos; “Então só o Brasil permanece. E há uma razão para isso.”

Russau comentou “notícias alarmantes do Brasil”: o novo governo brasileiro do presidente Jair Bolsonaro, com a ministra da agricultura e lobista agroquímica Tereza Cristina, que o maior e mais respeitado diário do Brasil apelidou de “Musa do Veneno”, lançou outros venenos agrícolas altamente tóxicos que são proibidos em outros lugares. Como cientista conhecida do instituto estadual de pesquisa para questões de saúde, a FIOCRUZ disse recentemente: “O Brasil se tornará um paraíso para os venenos agrícolas”.

Russau disse temer que empresas como a Bayer continue a participar, talvez mais do que nunca, na venda e distribuição de venenos agrícolas altamente tóxicos no Brasil. Como uma tática de sobrevivência diante da aquisição multibilionária da Monsanto, a Bayer irá crescer a qualquer preço. Qualquer veneno que possa ser vendido será vendido.

Brasil: Um “inferno de agrotóxicos na Terra”

Russau chamou o Brasil de um “inferno de agrotóxicos na Terra”, pelas seguintes razões:

* O Brasil é o líder mundial no uso de agrotóxicos – e a província de soja transgênica de Mato Grosso detém o recorde mundial: se a quantidade total de venenos agrícolas liberados no Brasil por ano é medida em termos de população per capita, então chega-se ao aterrorizante montante de 7,3 litros por cidadão brasileiro. Mas isso é “apenas” a média nacional. O líder brasileiro na pulverização de agrotóxicos é o estado de Mato Grosso, onde 13,3% (140 milhões de litros) de todos os venenos agrícolas usados no Brasil foram pulverizados anualmente entre 2005 a 2012, segundo os últimos cálculos do Instituto Estadual de Agricultura. Segurança do Mato Grosso (Indea).

* Observando uma dessas comunidades de “boom” – Sapezal, no estado do Mato Grosso, em 2012, nove milhões de litros de venenos agrícolas foram usados apenas no município de Sapezal. Estes são os últimos dados disponíveis da Indea. Se você contar a quantidade de agrotóxicos usados em todo o Brasil, chegamos aos 7.3 litros acima mencionados por pessoa. Em Sapezal, no entanto, esse valor é 52 vezes maior: 393 litros por pessoa, se tomarmos como base a população de 2016.

* Um estudo da Universidade Federal do Mato Grosso encontrou em um estudo que havia 1.442 casos de câncer gástrico, esofágico e pancreático em 13 municípios (644.746 habitantes segundo o último censo de 2015), nos quais soja, milho e algodão foram cultivados entre 1992 e 2014. Em comparação, nos 13 municípios comparáveis (219.801 habitantes segundo o último censo de 2015), onde o turismo predominou em vez da agricultura, o número de casos de câncer foi de apenas 53. Isso resulta em uma taxa de câncer de 223,65 por 100.000 habitantes predominantemente municípios agrícolas, enquanto que em municípios predominantemente turísticos, há uma taxa de câncer de 24,11 por 100.000 habitantes. Assim, em municípios onde os pesticidas são fortemente pulverizados, a taxa de câncer é estatisticamente maior por um fator de 8.

Em conclusão, Russau perguntou ao CEO da Bayer, Baumann: Quanto remédio anticâncer (volume e vendas) sua empresa farmacêutica enviou para o estado do Mato Grosso em 2016 e 2017?

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Este artigo foi originalmente publicado pela GMWatch [Aqui!]