Agricultura envenenada: nova e ampla pesquisa descobre relação entre o aumento de câncer e o uso intensivo de Glifosato

Estudo mostra que exposição a herbicidas aumenta risco de câncer em 41%.

Evidência científica “apoia ligação” entre exposição a herbicidas com glifosato e aumento do risco de Linfoma Não-Hodgkin

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Garrafas de herbicida Roundup, um produto da Monsanto. Os resultados vêm como os reguladores em vários países consideram limitar o uso de produtos à base de glifosato na agricultura. Foto: Jeff Roberson / AP

Por Carey Gillam para o “The Guardian”

Uma nova e ampla análise científica do potencial causador de câncer de herbicidas à base de glifosato, o mais usado no mundo, descobriu que pessoas com alta exposição a este popular agrotóxico têm um risco 41% maior de desenvolver um tipo de câncer chamado Linfoma Não-Hodgkin.

Os autores afirmam que as evidências “suportam uma ligação convincente” entre exposições a herbicidas à base de glifosato e o aumento do risco de Linfoma Não-Hodgkin (NHL), embora tenham dito que as estimativas específicas de risco numérico devem ser interpretadas com cautela.

As descobertas de cinco cientistas norte-americanos contradizem as garantias de segurança da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) sobre o herbicida e surgem quando reguladores em vários países consideram limitar o uso de produtos à base de glifosato na agricultura. 

A Monsanto e sua proprietária alemã Bayer AG enfrentam mais de 9 mil ações judiciais nos Estados Unidos, trazidas por pessoas que sofrem de NHL, que culpam os herbicidas à base de glifosato da Monsanto por suas doenças. O primeiro demandante a ir a julgamento ganhou um veredito unânime do júri contra a Monsanto em agosto, um veredito que a empresa está apelando. O próximo julgamento, envolvendo um demandante separado, está marcado para começar em 25 de fevereiro, e vários outros julgamentos estão previstos para este ano e para 2020. 

A Monsanto afirma que não há pesquisas científicas legítimas que demonstrem uma associação definitiva entre o glifosato e o NHL ou qualquer tipo de câncer. Representantes da empresa dizem que a constatação da EPA de que o glifosato “não é provável” causar câncer é respaldada por centenas de estudos que não encontram tal conexão. A empresa alega que os cientistas da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), que classificaram o glifosato como um provável carcinógeno humano em 2015, se envolveram em conduta imprópria e não conseguiram dar o peso adequado a vários estudos importantes.

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Garrafas de herbicida Roundup, um produto da Monsanto. Os resultados vêm como os reguladores em vários países consideram limitar o uso de produtos à base de glifosato na agricultura. Foto: Jeff Roberson / AP

Mas a nova análise poderia potencialmente complicar a defesa da Monsanto de seu herbicida mais vendido. Três dos autores do estudo foram escolhidos pela EPA como membros do conselho para um painel científico de 2016 sobre o glifosato. O novo artigo foi publicado pela revista Mutation Research / Reviews em Mutation Research, cujo editor-chefe é o cientista da EPA, David DeMarini.

Os autores do estudo dizem que sua metanálise é distinta de avaliações anteriores. “Este trabalho faz um caso mais forte do que as metanálises anteriores que há evidências de um aumento do risco de NHL devido à exposição ao glifosato”, disse a co-autora Lianne Sheppard, professora do Departamento de Ciências Ambientais e de Saúde Ocupacional da Universidade de Washington. “Do ponto de vista da saúde da população, existem algumas preocupações reais.” 

Sheppard foi um dos consultores científicos da EPA sobre o glifosato e estava entre um grupo desses conselheiros que disse à EPA que não seguiu os protocolos científicos adequados ao determinar que o glifosato não causaria câncer. “Foi errado”, disse Sheppard sobre a avaliação do glifosato da EPA. “Era óbvio que eles não seguiam suas próprias regras. “Existe evidência de que é cancerígeno? A resposta é sim.” 

Um porta-voz da EPA disse: “Estamos revisando o estudo.” A Bayer, que comprou a Monsanto no verão de 2018, não respondeu a um pedido de comentário sobre o estudo. 

Uma declaração da Bayer sobre o glifosato cita a avaliação da EPA e diz que os herbicidas à base de glifosato foram “extensivamente avaliados” e provaram ser uma “ferramenta segura e eficiente de controle de ervas daninhas”. 

Os autores do estudo disseram que sua nova metanálise avaliou todos os estudos em humanos publicados, incluindo um estudo financiado pelo governo atualizado em 2018, conhecido como Agricultural Health Study (AHS). A Monsanto citou o estudo atualizado da AHS como prova de que não há relação entre o glifosato e o NHL. Na condução da nova meta-análise, os pesquisadores disseram que se concentravam no grupo exposto mais alto em cada estudo, porque esses indivíduos estariam mais propensos a ter um risco elevado se, de fato, os herbicidas glifosato causassem NHL.

Olhando apenas para indivíduos com altas exposições do mundo real ao agrotóxico, é menos provável que os fatores de confusão possam distorcer os resultados, disseram os autores. Em essência – se não houver uma conexão verdadeira entre o produto químico e o câncer, mesmo indivíduos altamente expostos não devem desenvolver câncer a taxas significativas.

Além de olhar para os estudos em humanos, os pesquisadores também analisaram outros tipos de estudos sobre o glifosato, incluindo muitos conduzidos em animais. “Juntas, todas as metanálises realizadas até hoje, incluindo a nossa, relatam consistentemente a mesma descoberta importante: a exposição a GBHs (Herbicidas à Base de Glifosato) está associada a um risco aumentado de NHL”, concluíram os cientistas.

David Savitz, professor de epidemiologia na Escola de Saúde Pública da Brown University, disse que o trabalho foi “bem conduzido”, mas carece de “informações fundamentalmente novas”.

 “Eu sugiro que isso sustente a preocupação e a necessidade de avaliação, mas não coloque a questão em um sentido definitivo”, disse Savitz.

Carey Gillam é jornalista e autora e pesquisadora de interesse público do US Right to Know, um grupo de pesquisa da indústria de alimentos sem fins lucrativos.


Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo jornal ‘The Guardian” [Aqui!]

O mistério do glifosato (cancerígena ou não?) mais próximo de ser resolvido

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A Environmental Protection Agency dos EUA (EPA) considera o agrotóxico glifosato como “pouco provável de ser carcinogênico para seres humanos”.  Enquanto isso, a Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer (IARC), uma entidade intergovernamental que faz parte da Organização Mundial da Saúde das Nações da Unidas, classificou o glifosato como “provavelmente carcinogênico para humanos (Grupo 2A)”.  Por um lado, a EPA afirma que não há evidência de que “o glifosato induz mutações in vivo por via oral”, enquanto por outro, a IARC concluiu que há “forte evidência” de que a exposição ao glifosato é genotóxica através de pelo menos dois mecanismos conhecidos por carcinógenos humanos (danos no DNA, estresse oxidativo).  

Intrigado com esta discrepância, ex-professor do Centro de Sustentação da Agricultura e Recursos Naturais da Washington State University, Charles M. Benbrook, decidiu averiguar porque e como a EPA e a IARC chegaram a conclusões tão diferentes sobre um mesmo principio ativo.

Um primeiro aspecto notado por Benbrook no artigo que acaba de ser publicado pela revista “Environmental Sciences Europe” foi que de um total de 52 ensaios de genotoxicidade realizados por registrantes (ou seja os fabricantes de agrotóxicos associados ao glifosato) foram citados pela EPA em sua avaliação de 2016 do glifosato técnico, e outros 52 ensaios apareceram na literatura científica. Destes, um ensaio regulador (2%) e 35 ensaios publicados (67%) relataram evidência positiva de uma resposta genotóxica. No caso de herbicidas formulados à base de glifosato (GBHs), 43 ensaios reguladores foram citados pela EPA, além de 65 ensaios publicados em revistas científicas que utilizam o “peer review” (revisão por pares). Destes, nenhum dos ensaios reguladores e 49 publicados (75%) relataram evidência de uma resposta genotóxica após a exposição a um GBH. Por outro lado, Benbrook apurou que a IARC considerou um total de 118 ensaios de genotoxicidade em seis tabelas principais sobre técnicas de glifosato, GBHs e ácido aminometilfosfônico (AMPA), o principal metabólito do glifosato.  

Assim, enquanto a análise da EPA englobou 51 destes 118 ensaios (43%). o IARC analisou outros 81 ensaios explorando outros possíveis mecanismos genotóxicos (principalmente relacionados a hormônios sexuais e estresse oxidativo), dos quais 62 (77%) relataram resultados positivos. Desta forma, a IARC colocou um peso considerável em três estudos positivos de GBH em populações humanas expostas, enquanto a EPA colocou pouco ou nenhum peso nelas.

Benbrook concluiu que a EPA e a IARC chegaram a conclusões diametralmente opostas sobre a genotoxicidade do glifosato por três razões principais: (1) nas tabelas principais compiladas pela EPA e IARC para produzir suas conclusões, a EPA baseou-se principalmente em estudos regulatórios não publicados e com registro, 99% dos quais foram negativos enquanto o IARC se baseou principalmente em estudos revisados  por outros pesquisadores no chamado sistema de “peer review”, dos quais 70% eram positivos (83 de 118).

Além disso, a avaliação da EPA baseou-se amplamente em dados de estudos sobre o glifosato técnico, enquanto a revisão da IARC atribuiu grande peso aos resultados dos ensaios formulados de GBH e AMPA. Finalmente, a avaliação da EPA foi focada em exposições dietéticas típicas da população em geral, assumindo usos legais em alimentos, e não levaram em conta, nem abordaram riscos e exposições ocupacionais geralmente mais altas. Por sua vez, a avaliação da IARC englobou dados de cenários típicos de exposição dietética, ocupacional e elevada.

Em conclusão, Benbrook apontou para a necessidade da realização de mais pesquisas sobre exposições do mundo real aos produtos químicos dentro dos GBHs formulados e o destino biológico e consequências de tais exposições.

Quem desejar ler o artigo de Charles Benbrook na íntegra, basta clicar [Aqui!]

Escândalo na União Européia: especialistas plagiaram documentos da Monsanto para renovar autorização de comercialização e uso do glifosato

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O jornal Diário de Notícias repercutiu hoje uma matéria inicialmente publicada pelo francês Le Monde que revelou que  um relatório encomendado por deputados europeus mais de um ano depois de ter sido renovada a autorização de comercialização na Europa foi praticamente copiado de um dossiê de  produzido pela Monsanto (empresa que comercializa o glifosato) e outras indústrias e que foi entregue às autoridades europeias.

A avaliação do relatório dos “especialistas” contratados pela União Europeia, realizada a pedido de deputados europeus dos Verdes, dos socialistas e do grupo da esquerda unitária, concluiu que 50% do documento oficial foi plagiado e 70% é resultado de cópia.  Segundo o artigo assinado pela jornalista Ana Bela Ferreira, a “análise foi feita pelo especialista em plágio austríaco Stefan Weber e pelo bioquímico Helmut Burstcher, da ONG Global 2000”. A matéria acrescenta ainda que “desde que o documento do BfR foi apresentado que existiam suspeitas que este teria sido escrito pela Task Force Europeia do Glifosato (consórcio de empresas de agrotóxicos)”.

Duas coisas a salientar em relação a esse verdadeiro escândalo. A primeira é que grande parte dos problemas associados à desinformação existente acerca dos malefícios ambientais e à saúde humana causados por agrotóxicos se relacionam à atuação pouco ético de cientistas que se prestam a servir de peões em prol dos interesses das corporações que produzem venenos agrícolas. A segunda é que estas revelações vão tornar ainda mais difícil a situação do Glifosato e, muito provavelmente, implicar em maiores perdas financeiras para a multinacional alemã Bayer que acaba de adquirir a Monsanto.

Enquanto isso no Brasil, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/MS) está mais preocupada em identificar “maus brasileiros” do que atuar para garantir a sustentabilidade ambiental e social da produção agrícola nacional.

Quem desejar o referido relatório que descobriu o plágio em prol do glifosato, basta clicar [Aqui!]

Especialistas contratados pela UE copiaram relatórios da Monsanto

Autores do relatório de avaliação dos riscos e que deram mais cinco anos de autorização para o uso do glifosato copiaram 70% da informação que estava no relatório feito pela própria produtora do herbicida

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O Roundup é a forma mais popular de comercialização do glifosato © REUTERS/Benoit Tessier/File Photo

Por Ana Bela Ferreira para o Diário de Notícias [1]

O Relatório Europeu de Avalliação dos riscos do glifosato – herbicida suspeito de poder causar cancro (i.e., câncer) – e que permitiu a renovação da autorização por cinco anos de utilização na União Europeia foi quase totalmente copiado de informações prestadas pela própria própria indústria que comercializa o produto.

A conclusão foi esta terça-feira revelada num relatório encomendado por deputados europeus mais de um ano depois de ter sido renovada a autorização de comercialização na Europa e noticiado pelo Le Monde . Um grupo de peritos alemães (do Bundesinstitut für Risikobewertung – BfR) foi mandatado pela União Europeia (UE) para avaliar os riscos do uso do glifosato, mas as 4000 páginas que produziu são afinal resultado de cópia e plágio do dossier de homologação produzido pela Monsanto (empresa que comercializa o glifosato) e outras indústrias e entregue às autoridades europeias.

Uma avaliação a esse relatório, pedido por deputados europeus dos Verdes, dos socialistas e do grupo da esquerda unitária, conclui que 50% do documento oficial foi plagiado e 70% é resultado de cópia. A análise foi feita pelo especialista em plágio austríaco Stefan Weber e pelo bioquímico Helmut Burstcher, da ONG Global 2000. Desde que o documento do BfR foi apresentado que existiam suspeitas que este teria sido escrito pela Task Force Europeia do Glifosato (consórcio de empresas de pesticidas).

Os autores usaram software WCopyfind para comparar os dois relatórios – o da indústria e o do BfR – e descobriram que “o plágio incidiu exclusivamente nos capítulos que tratam da avaliação de estudos publicados sobre riscos para a saúde relacionados com o glifosato”. O plágio é o ato de cópia maligna, o que inclui páginas inteiras, que descrevem o resultado dos estudos e avaliam a sua relevância e confiabilidade.

Entre outras coisas, cada uma das 58 avaliações chamadas Klimisch de estudos publicados no relatório de avaliação do BfR foram copiadas dos pedidos de aprovação e são apresentadas como avaliações das autoridades.

No capítulo sobre os estudos da indústria o método utilizado foi o da cópia e aparece numa percentagem ainda maior (81,4%). Ou seja, reprodução entre aspas. Neste capítulo, até a descrição do BfR sobre a abordagem para avaliar os estudos publicados foi plagiada a partir do relatório do consórcio de indústrias.

Foi este estudo encomendado ao instituto alemão que serviu de base à decisão da autoridade europeia de segurança alimentar (EFSA) e os peritos dos estados-membros decidiram que o glifosato não podia ser associado diretamente ao risco de cancro. Em março de 2015, a Organização Mundial da Saúde classificou como “provavelmente cancerígeno” o glifosato.

Em setembro de 2017, a Global 2000 já tinha revelado que três sub-capítulos do relatório tinham sido largamente copiados. Em novembro desse mesmo ano, a Comissão Europeia aprovava por mais cinco anos a utilização do glifosato.


Artigo publicado originalmente pelo Diário de Notícias [Aqui!]

Agrotóxico mais usado no mundo está ajudando a exterminar abelhas

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(FOTO: CREATIVE COMMONS / ROSTICHEAP)

Por REDAÇÃO GALILEU

Quando se fala em agrotóxico, na maior parte do tempo estamos tratando de glifosato, o herbicida mais usado no Brasil e no Mundo. Utilizado em 90% das lavouras de soja, alvo de diversas polêmicas e contestações de médicos à ambientalistas, mas fundamental para o agronegócio, está associado à morte das abelhas.

O N-(fosfonometil)glicina, princípio ativo do Roundup da Monsanto e mais uma centena de produtos agrícolas, age ao ser absorvido pela folha das plantas de crescimento rápido, também conhecidos como mato, e inibe a ação de enzimas que possibilitam sua existência.

Por não dependerem dessa enzima, o produto não afeta aos animais. Pelo menos é isso que se pensava. Um novo estudo realizado por pesquisadores da Universidade do Texas, nos EUA, mostra que o mesmo não acontece com microrganismos, muitos dos quais dependem a existência de animais, como as abelhas.

Publicado essa semana no Proceedings of National Academy of Sciences, o artigo explica que, assim como em nós, a saúde das abelhas depende de um ecossistema de bactérias que vive em seu trato digestivo. O glifosato mata algumas dessas bactérias, causando um desequilíbrio que reduz a capacidade do inseto combater infecções.

“Diretrizes atuais consideram que as abelhas não são prejudicadas pelo herbicida”, disse Erick Motta, estudante de pós-graduação que liderou a pesquisa, juntamente com a professora Nancy Moran. “Nosso estudo mostra que isso não é verdade”.

Para chegar à conclusão, os pesquisadores expuseram as abelhas a níveis normalmente encontrados em plantações e jardins (é grande a chance do jardineiro perto da sua casa usar esse agrotóxico). Pintaram suas costas para que pudessem reconhecê-las e liberaram para seguir sua vida normal.

Abelhas marcadas para morrer. (Foto: Universidade do Texas)

Abelhas marcadas para morrer (FOTO: UNIVERSIDADE DO TEXAS)

Recapturadas três dias depois, eles observaram que o herbicida reduziu significativamente a microbiota intestinal saudável. Das oito espécies dominantes de bactérias saudáveis ​​nas abelhas expostas, quatro foram consideradas menos abundantes. A espécie mais atingida, Snodgrassella alvi, ajuda as abelhas a processarem alimentos e a se defenderem contra patógenos.

Mais tarde, ao expor as abelhas a um patógeno oportunista (Serratia marcescens), morreram com mais frequência que as abelhas sem glifosato. Cerca de metade das abelhas com um microbioma saudável ainda estavam vivas oito dias após a exposição ao patógeno, enquanto apenas cerca de um décimo dos insetos cujos microbiomas haviam sido alterados pela exposição ao herbicida ainda estavam vivas.

“Estudos em humanos, abelhas e outros animais mostraram que o microbioma intestinal é uma comunidade estável que resiste à infecção por invasores oportunistas”, disse Moran. “Então, se você interromper a comunidade normal e estável, estará mais suscetível a essa invasão de patógenos”.

A descoberta entra para uma longa lista de polêmicas que envolvem o agrotóxico mais popular do mundo. “Não é a única coisa que causa todas essas mortes de abelhas, mas é definitivamente algo que as pessoas deveriam se preocupar porque o glifosato é usado em todos os lugares”, disse Motta.

São várias a críticas sobre o sistema da Monsanto, que vão da dependência e endividamento de pequenos produtores, desenvolvimento de plantas resistentes à substância, ao extermínio da biodiversidade. É considerado potencialmente cancerígeno pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Apesar da Monsanto (e sua nova controladora Bayer) atestar a segurança do produto com 40 anos de uso no mercado, em agosto a justiça dos Estados Unidos a sentenciou a pagar US$ 289 (cerca de R$ 1,1 bilhão) ao jardineiro Dewayne Johnson que alega ter contraído câncer devido ao uso do Roundup e do RangerPro, um glifosato de segunda linha da Monsanto.

No Brasil, a juíza substituta Luciana Raquel Tolentino de Moura acatou, no dia 3 de agosto, o pedido do Ministério Público Federal, sob a alegação de demora na reavaliação toxicológica do glifosato, e proibiu o uso em todo o País. A ordem para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária era priorizar a reavaliação até o dia 31 de dezembro.

Um dos principais principais interessados no assunto é o ministro da agricultura Blairo Maggi. Um dos maiores produtores de soja do Brasil, ele afirmou que a decisão impediria o plantio de 95% da área de soja, milho e algodão, as três maiores culturas anuais do País. “É muito importante dizer: não há saída sem o glifosato; ou não planta, ou faz desobediência da ordem judicial”, disse Maggi.

No dia 3 de setembro, o presidente em exercício do Tribunal Regional Federal da Primeira Região (TRF-1), desembargador Kássio Marques, derrubou a liminar. Uma de suas alegações foi que “nada justifica a suspensão dos registros dos produtos” sem a “análise dos graves impactos que tal medida trará à economia do país”.

FONTE: https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Meio-Ambiente/noticia/2018/09/agrotoxico-mais-usado-no-mundo-esta-ajudando-exterminar-abelhas.html?utm_campaign=agricultura&utm_content=77735133&utm_medium=social&utm_source=facebook

Uma hecatombe química paira sobre o Brasil. Governo Temer quer liberar agrotóxicos cancerígenos e teratogênicos

O Brasil faz alguns anos é o campeão mundial no uso de agrotóxicos, tendo ultrapassado nesse rumo ao topo os Estados Unidos da América. Em artigo do qual fui co-autor na revista “Crop Protection” mostramos que aqui mesmo em Campos dos Goytacazes, agricultores estavam utilizando agrotóxicos que estavam banidos em outras parte do mundo, inclusive na China (Aqui!)

Eis que agora o Ministério da Agricultura sob o comando do dublê de latifundiário e senador Blairo Maggi quer afrouxar a já frouxa legislação brasileira para ampliar o uso de agrotóxicos com potencial para causar câncer, má formação de fetos e mutações celulares.

Se esta medida provisório for realmente editada,  as áreas agrícolas brasileiras serão transformadas de vez em campos da morte com o objetivo único de aumentar os ganhos do latifúndio agro-exportador.

A questão é a seguinte: vamos aceitar passivos a mais este brutal ataque à nossa condição de vida?

MP pode afrouxar regras para agrotóxicos

Lígia Formenti

O governo prepara uma medida provisória para afrouxar as regras de registro de agrotóxicos no País. O texto, redigido pelo Ministério da Agricultura com a colaboração do setor produtivo, cria uma brecha para o uso de defensivos que hoje seriam classificados como cancerígenos, teratogênicos (com risco de má-formação nos fetos) ou com capacidade de provocar mutações celulares. Atualmente, qualquer produto que preencha alguma dessas características é proibido de ser lançado no Brasil.

A mudança seria possível graças à inclusão da expressão “nas condições recomendadas para uso” no texto da lei atual, de número 7.802, de 1989. Essa incorporação, prevista na MP, permitiria liberar produtos considerados nocivos à saúde em testes de laboratório, desde que algumas condições fossem atendidas para reduzir os riscos desses efeitos. Entre essas condições estão o uso de equipamentos de proteção individual durante a aplicação do agrotóxico ou de pulverizadores protegidos com cabines com pressão negativa.

“O Brasil segue a filosofia do perigo. O ideal é que passássemos a adotar o gerenciamento de risco”, afirmou o diretor da Associação dos Produtores de Soja do Brasil (Aprosoja Brasil), Fabricio Rosa. Para ele, o novo texto proporcionaria um avanço no setor. “O risco de toxicidade não é equivalente ao do que ocorre no laboratório”, defende.

A diretora executiva do Sindicato Nacional da Indústria de Produto para Defesa Vegetal (Sindiveg), Sílvia Fagnani, tem avaliação semelhante. Ela afirma que as regras atuais são excessivamente rígidas. “O fogo, por si só, é perigoso. Mas a fogueira, onde o risco está controlado, pode ajudar a aquecer quem está próximo. A avaliação de risco segue a mesma filosofia”, comparou. Ela argumenta que resultados de testes em laboratórios, feitos com animais, não podem ser usados como parâmetro de risco para o que ocorre com seres humanos, no campo.

Segurança

Embora recebida com entusiasmo pelo agronegócio, a proposta enfrenta resistências dentro do próprio governo. Em nota técnica, integrantes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) foram contrários à mudança. “A edição da MP poderá gerar insegurança na população quanto à exposição de pessoas e recursos naturais a substâncias preocupantes e, também, quanto à contaminação de produtos agrícolas”, informa o texto.

Em documento de três páginas, a instituição argumenta que a avaliação de riscos de agrotóxicos é um tema relevante, mas que sua aplicação requer uma estrutura ainda não disponível no País. “Neste momento é uma medida prematura, precipitada e que, na prática, poderá não vir a ser atendida, especialmente em se tratando das fases mais avançadas de avaliação, que envolvam a realização de estudos de maior complexidade”, diz a nota.

O Ibama observa que os resultados de testes de avaliação de risco feitos em outros países não podem ser simplesmente considerados como aplicáveis no Brasil. Os riscos do produto, acrescenta a instituição, têm de ser avaliados nas espécies locais e sob condições encontradas no País. O texto lembra ainda que a simples recomendação de uso do produto não garante, por si, a redução de riscos. Para isso é preciso que sejam cumpridas à risca. Algo que não há como ser garantido, sobretudo diante das deficiências na fiscalização.

Entre as críticas de integrantes do Ibama à medida provisória que deve alterar o registro de agrotóxicos está a previsão de supressão de uma regra que prevê que somente podem ser registrados no Brasil produtos que tenham ação tóxica comprovadamente igual ou menor do que os existentes atualmente.

Analistas da área de saúde ouvidos pela reportagem têm avaliação semelhante. Eles argumentam que a regra atual serve como incentivo para que a indústria redobre seus esforços em lançar produtos mais seguros tanto para saúde quanto para o meio ambiente.

Ibama e Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) integram, com o Ministério da Agricultura, o Comitê Técnico de Assessoramento, encarregado de avaliar os critérios para o uso de agrotóxicos no País. Cabe à Anvisa analisar se o produto é seguro à saúde. O Ibama, por sua vez, procura mensurar o impacto do uso do agrotóxico no meio ambiente.

“Não são apenas critérios econômicos que devem ser avaliados. Há outros pontos importantes, como segurança, que têm de ser levados em consideração”, afirma um analista de saúde.

A redação do texto foi apresentada no comitê há menos de três meses. Nem Anvisa nem Ibama participaram da elaboração do documento. Procurada, a Anvisa não se manifestou. A diretora executiva do Sindiveg, Sílvia Fagnani, disse que o sindicato participou das discussões para a preparação do texto. O Ministério da Agricultura afirmou apenas que a MP está em avaliação. O Ministério da Saúde disse desconhecer o tema. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

 FONTE: http://atarde.uol.com.br/economia/noticias/1855193-mp-pode-afrouxar-regras-para-agrotoxicos

Agrotóxicos deixam rastro de câncer e morte pelo interior de São Paulo

Estado consome 4% da produção mundial e índices de doenças e mortes bem acima das médias estaduais

Redação/Rede Brasil Atual
Agrotóxicos usados na monocultura da cana em SP elevam índices de adoecimento entre os agricultores e toda a população - Créditos: Arquivo Portal Brasil
Agrotóxicos usados na monocultura da cana em SP elevam índices de adoecimento entre os agricultores e toda a população / Arquivo Portal Brasil

Cidades médias e pequenas do interior do estado de São Paulo, localizadas em meio a grandes extensões de terra com monocultura da cana e banana, entre outras, apresentam taxas de incidência de malformações congênitas e diversos tipos de câncer acima da média estadual.

Em Ribeirão Corrente, na região de Franca, o índice de malformações é 26 casos para grupos de 100 mil nascidos vivos – mais de três vezes maior que a do estado, que é de 8.2. Em Sandovalina, na região do Pontal do Paranapanema, onde há ocupação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o índice é 21. Na cidade de São Paulo, totalmente urbanizada, a taxa é de 9.5.

“Em Franca, uma mulher que engravida tem 50% a mais de chances de ter um filho com malformação do que uma moradora de Cubatão, por exemplo. E nem precisa ser agricultura. Está comprovado por estudos que em 70% dos casos de malformação congênita as causas são ambientais”, diz o defensor público Marcelo Novaes, da Defensoria Pública do Estado de São Paulo em Santo André, no ABC Paulista.

A incidência de câncer também é alta na zona rural. Em Bento de Abreu, na região de Araçatuba, há 18 óbitos por câncer cerebral para cada 100 mil habitantes. A taxa estadual é 6.6. “Essas cidades pequenas são fronteira entre o urbano e rural. Você sai da igreja matriz e já está numa plantação de cana, onde há pulverização aérea ou por tratores”, diz o defensor.

Ainda segundo ele, as taxa de mortes causadas por câncer de fígado é de 6.94 por 100 mil pessoas no estado, de 7.43 na capital paulista e de 20 em Turmalina, na região de São José do Rio Preto. Quase três vezes mais. “Sãocidades pequenas, com menos de 20 mil habitantes. Temos uma tragédia no interior paulista. As pessoas estão morrendo pelo veneno. Se antes se fazia excursão para o Paraguai, para compra de muamba, ou para Aparecida, para rezar na catedral, hoje se faz aos centros oncológicos”, compara.

Novaes se baseia no Observatório de Saúde Ambiental, uma plataforma de dados completos sobre utilização de agrotóxicos no estado, os tipos, as regiões, as culturas onde são empregados, bem como grupos populacionais afetados por doenças reconhecidamente desencadeadas pela exposição a esses produtos. O site interativo, que permite a criação de mapas em que é possível visualizar a distribuição das informações sobre o território paulista, foi desenvolvido por professores da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.

“O mapa mostra o rastro de câncer em cidades em torno da via Anhanguera afora. Basta checar”, aponta Novaes, destacando que a Secretaria Estadual de Saúde, porém, nega todas essas evidências.

Conforme ressaltou ainda, o problema das pequenas cidades de São Paulo se repete no Mato Grosso, Goiás, Tocantins, Paraná e outros estados com grandes áreas onde o agronegócio se instalou. Por isso, conforme acredita, agrotóxicos não deve ser tema limitado aos ambientalistas, e sim de conselhos tutelares, de defesa dos direitos da pessoa com deficiência, das mulheres e de toda a sociedade. “Precisamos fazer uma análise conjuntural desse projeto assassino que está em gestão em nosso país”, alerta.

Sistema excludente

Para Marcelo Novaes, a realidade dos agrotóxicos constitui a espinha dorsal de um “sistema excludente e prospectório da vida e da natureza”. E o avanço de projetos nocivos como o PL do Veneno, o PL 3.200/15, ocorre numa perspectiva não de mudanças, mas de retrocessos. “No arcabouço jurídico, há o direito dos códigos que conversa com os poderosos e o direito da prática que oprime os oprimidos, ou seja, a população. A engenharia disso é o ilegal que para os poderoso passa a ser legal”, diz.

“É por isso que são autorizados o corte de árvores centenárias, num prejuízo ambiental irreversível, sem um plano de manejo. É por isso que a mineradora Samarco matou um rio, as praias e continua com todo o vazamento; que há falta água em São Paulo enquanto a Sabesp paga dividendos aos acionistas, que o Código Florestal tão discutido com a sociedade está sendo esculachado aqui em São Paulo, fora a privatização de áreas florestais, que permite a extração de madeira. E a população se vê diante da ameaça crescente dos agrotóxicos”, aponta.

“O ilegal passa a ser legal e há apropriação do bem público pelo privado num processo de mudança das regras do jogo em pleno jogo. É como se, num jogo de xadrez, o cavalo passasse a ser movimentado como se fosse um bispo, uma torre. A gente vai ter de encarar isso.”

Marcelo Novaes participou da audiência pública promovida ontem (12), em São Paulo, pelo mandato do deputado federal Nilto Tatto (PT-SP). O parlamentar integra a comissão especial da Câmara que analisa o PL 3.200/2015.

FONTE: https://www.brasildefato.com.br/2016/08/13/agrotoxicos-deixam-rastro-de-malformacoes-cancer-e-morte-pelo-interior-de-sao-paulo/

OMS deverá declarar que linguiças e outras comidas processadas como carcinogênicas

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) estaria para liberar um relatório onde linguiças, bacon e outras comidas processadas seriam classificadas na mesma categoria do álcool, cigarros e amianto, qual seja, de serem causadoras de diferentes tipos de câncer. Pelo menos é isso o que acaba de publicar o jornal inglês The Independent (Aqui!).

Apesar da associação entre carnes processadas e câncer não ser necessariamente recente, a decisão da OMS de colocá-las como potencialmente carcinogênicas deverá ter um amplo impacto sobre uma parcela considerável dos consumidores deste tipo de alimento.

A boa notícia é que a OMS deverá continuar considerando que o consumo de carne não é essencialmente proibitivo, mas basicamente a forma e a quantidade em que isto ocorre.

A desgraça disso tudo é que em países como o Brasil nem se pode falar da substituição saudável de carnes por vegetais tal é o nível de contaminação que está sendo causada pelo alto nível de agrotóxicos em nossa agricultura. Aí é uma questão de escolher a forma pela qual alguém quer se contaminar.