Glifosato encontrado em tecido endometrial: novo estudo amplia as preocupações sobre exposição crônica

Um estudo publicado em 2026 na revista científica Toxicology Reports acrescenta uma peça importante — e preocupante — ao debate sobre os possíveis efeitos do glifosato sobre a saúde humana. Liderado por Márkó Unicsovics e desenvolvido por uma equipe de pesquisadores vinculados principalmente à Semmelweis University e à Hungarian University of Agriculture and Life Sciences, na Hungria, o trabalho investigou algo ainda pouco estudado: a presença de glifosato diretamente no tecido endometrial humano.

O estudo, intitulado Presence of glyphosate in endometrial cancer tissue: A cross-sectional study, foi publicado na Toxicology Reports, periódico científico de acesso aberto publicado pela Elsevier. Além de Unicsovics, assinam o trabalho Apolka Szentirmay, Györgyi Fekécs, Patrik Plank, Zsófia Molnár, György Nagyéri, Katalin Posta, Nándor Ács, Szabolcs Varbíró, Levente Sára e Zsuzsanna Szőke.

Glifosato não apenas no sangue, mas no próprio tecido

Os pesquisadores compararam mulheres com câncer endometrial e pacientes-controle com doenças endometriais benignas, procurando glifosato tanto no sangue quanto no tecido retirado durante procedimentos cirúrgicos. O desenho incluiu 32 pacientes no grupo de câncer analisado e 32 controles, além de subgrupos definidos pelo tipo e grau das alterações encontradas.

O resultado mais interessante talvez não seja simplesmente a detecção do composto. As concentrações de glifosato encontradas no tecido endometrial foram significativamente superiores às encontradas no sangue em todos os grupos analisados. Além disso, quando os pesquisadores separaram os casos segundo a gravidade da doença, as diferenças estatisticamente significativas em relação aos controles ficaram concentradas nas pacientes com câncer endometrial de alto grau.

Esse resultado abre uma questão que merece atenção: substâncias às quais as populações estão ambientalmente expostas podem apresentar comportamentos nos tecidos que não são adequadamente representados apenas por medições sanguíneas.

O problema pode estar também nas misturas

Outro aspecto especialmente interessante do estudo é que os pesquisadores não analisaram o glifosato isoladamente. Eles investigaram também micotoxinas presentes nos mesmos tecidos e encontraram forte correlação positiva entre os níveis endometriais de glifosato e zearalenona (ZEN), uma micotoxina com atividade estrogênica. Também foi observada correlação positiva com fumonisina B1.

Isso coloca em primeiro plano um problema frequentemente secundarizado na avaliação toxicológica: os seres humanos não estão expostos a uma substância de cada vez. Agrotóxicos, seus metabólitos, micotoxinas e inúmeros outros contaminantes ambientais podem chegar simultaneamente ao organismo. Os próprios autores levantam a hipótese de efeitos sinérgicos ou de coamplificação entre compostos capazes de interferir nas vias hormonais.

Um sinal de alerta, não uma demonstração de causalidade

Aqui é importante não fazer o estudo dizer mais do que ele efetivamente demonstra. Trata-se de uma investigação transversal, realizada com número relativamente pequeno de pacientes. O subgrupo no qual apareceu a associação mais forte — câncer endometrial de alto grau — possuía apenas seis mulheres. Os próprios autores ressaltam, portanto, que não é possível saber se a maior presença de glifosato antecedeu o desenvolvimento do tumor ou ocorreu posteriormente.

Em outras palavras, o estudo não demonstra que o glifosato causou câncer endometrial. Ele demonstra algo diferente e suficientemente importante: o composto foi encontrado no tecido endometrial, apresentou concentrações particularmente elevadas nos casos de câncer de alto grau e apareceu associado à presença de outros contaminantes com atividade endócrina. Os próprios pesquisadores classificam esses resultados como preliminares e defendem sua confirmação em amostras maiores e independentes.

A pergunta que permanece

Há um detalhe do artigo que merece correção. Os autores dizem que a Organização Mundial da Saúde teria classificado o glifosato como “provavelmente carcinogênico” no Grupo 2B. Na realidade, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à OMS, classificou o glifosato em 2015 como “provavelmente carcinogênico para humanos”, Grupo 2A. Grupo 2B corresponde a “possivelmente carcinogênico”. A própria IARC mantém essa informação em sua documentação oficial.  Esse lapso não altera os resultados experimentais apresentados no artigo, mas vale registrá-lo para que a informação seja reproduzida corretamente.

O ponto central levantado pelo trabalho de Unicsovics e seus colegas na Toxicology Reports talvez esteja justamente em outro lugar. Se resíduos de um dos agrotóxicos mais utilizados mundialmente podem ser encontrados em tecidos humanos e aparecem associados a outros contaminantes capazes de interferir no sistema endócrino, a discussão sobre limites considerados individualmente “seguros” parece cada vez menos suficiente. Os próprios autores concluem que é necessário investigar exposições crônicas de baixa dose, misturas de contaminantes e possíveis efeitos sinérgicos, além de desenvolver métodos mais sensíveis para medir glifosato no endométrio.

Nesse sentido, talvez a principal contribuição do estudo seja mudar ligeiramente a pergunta. Em vez de perguntar apenas quanto glifosato uma pessoa pode receber sem apresentar toxicidade aguda, torna-se necessário perguntar onde esse composto chega, por quanto tempo permanece, com quais outras substâncias interage e quais podem ser as consequências de uma exposição ambiental contínua ao longo de anos. É nesse terreno que o estudo publicado na Toxicology Reports abre uma nova e importante frente de investigação.

Dossiê reúne uma década de evidências científicas sobre a relação entre agrotóxicos e câncer

Produzido pela Naturaleza de Derechos, documento sistematiza estudos publicados entre 2015 e 2026 e reforça a urgência de rever a regulação dos agrotóxicos diante da exposição ambiental e alimentar das populações 

A organização argentina Naturaleza de Derechos acaba de apresentar o Dossiê de Evidências Científicas 2015-2026 — Agrotóxicos & Câncer, publicação que reúne e sistematiza as evidências produzidas ao longo da última década sobre a relação entre a exposição a agrotóxicos e diferentes processos carcinogênicos.

O mérito do trabalho está justamente em reunir diferentes linhas de investigação que, consideradas em conjunto, permitem observar a dimensão do problema. O dossiê incorpora estudos epidemiológicos em seres humanos, estudos de coorte e de caso-controle, bioensaios experimentais e pesquisas sobre genotoxicidade, alterações epigenéticas, estresse oxidativo, imunotoxicidade e biomarcadores, além de trabalhos sobre os efeitos da exposição simultânea a diferentes substâncias.

É preciso tratar esse debate sem eufemismos. Quando se fala em câncer, está em questão um dos mais graves problemas de saúde pública. E quando as evidências científicas apontam para substâncias associadas a processos carcinogênicos presentes no ambiente, na água, nos territórios onde as pessoas vivem e nos alimentos que consomem, o problema deixa de ser apenas ambiental ou ocupacional para envolver diretamente a saúde coletiva e a segurança alimentar.

Segundo a sistematização apresentada no dossiê, a literatura científica aponta associações entre a exposição a determinados agrotóxicos e diferentes tipos de câncer, incluindo neoplasias hematológicas, câncer colorretal, câncer de mama, câncer de tireoide e tumores do sistema nervoso central. Ao mesmo tempo, estudos experimentais e mecanísticos vêm identificando processos biológicos relacionados à carcinogênese, ampliando a compreensão sobre as diferentes maneiras pelas quais essas substâncias podem produzir danos celulares.

Outro aspecto importante destacado pela publicação é que a exposição humana não ocorre de maneira isolada. Na vida real, as pessoas entram em contato com diferentes princípios ativos, formulações comerciais, metabólitos e coformulantes, por múltiplas vias e muitas vezes simultaneamente. Por isso, pesquisas mais recentes têm avançado na avaliação das misturas e de cenários de exposição mais próximos daqueles efetivamente experimentados pelas populações.

A questão ganha ainda maior relevância quando se considera a alimentação. O dossiê dedica um capítulo específico à exposição alimentar, relacionando as evidências científicas sobre câncer aos resultados de El Plato Fumigado 2024, também produzido pela Naturaleza de Derechos a partir de dados oficiais de monitoramento de resíduos do Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentar da Argentina (SENASA).

Os resultados de El Plato Fumigado 2024 tornam o problema bastante concreto: substâncias que despertam preocupação científica por seus possíveis efeitos sobre a saúde também aparecem como resíduos em alimentos comercializados e consumidos pela população argentina. Portanto, não estamos diante apenas de uma discussão abstrata sobre toxicologia, mas de uma questão diretamente relacionada ao funcionamento cotidiano do sistema alimentar.

Nesse contexto, o novo dossiê reforça a necessidade de uma reavaliação regulatória abrangente e periódica dos agrotóxicos pelo SENASA, incorporando as evidências científicas mais recentes. Essa revisão deveria considerar não apenas os princípios ativos isoladamente, mas também as formulações comerciais, metabólitos, coformulantes, misturas e as diferentes vias pelas quais ocorre a exposição humana.

A discussão ultrapassa o caso argentino. Para um país como o Brasil, que possui extensas áreas agrícolas submetidas ao uso intensivo de agrotóxicos, as questões levantadas pela Naturaleza de Derechos deveriam receber atenção especial. Afinal, os possíveis impactos não se restringem aos trabalhadores que aplicam essas substâncias, alcançando também populações rurais, comunidades próximas às áreas agrícolas, recursos hídricos potencialmente contaminados e consumidores expostos por meio dos alimentos.

O Dossiê de Evidências Científicas 2015-2026 — Agrotóxicos & Câncer oferece, assim, uma contribuição importante para um debate que não pode continuar sendo tratado como secundário. Quando diferentes linhas de investigação acumulam evidências sobre possíveis relações entre determinadas exposições e processos carcinogênicos, a prevenção precisa ocupar posição central nas políticas de saúde pública e nos sistemas regulatórios.

A verdade é que esperar que todas as dúvidas científicas desapareçam antes de adotar medidas preventivas, significa de forma objetiva, transferir para a população os riscos decorrentes da incerteza. Quando a exposição ocorre pelo ambiente, pela água, pelo trabalho e pelos alimentos, cabe aos órgãos reguladores acompanhar o avanço do conhecimento científico e adotar medidas capazes de proteger efetivamente a saúde humana.

A mensagem que emerge do trabalho produzido pela Naturaleza de Derechos é clara: diante do acúmulo de evidências científicas e da exposição cotidiana das populações, a prevenção não pode ser tratada como uma alternativa facultativa. Ela deve constituir uma obrigação sanitária e regulatória, na qual a proteção da saúde humana prevaleça sobre os interesses econômicos associados à manutenção do uso de substâncias sobre as quais pesam evidências relevantes de risco.

Pesquisadores de câncer da Harvard University tem artigo despublicado por duplicação de imagens

Por Retraction Watch

Um grupo de pesquisadores do Brigham and Women’s Hospital e da Harvard Medical School, em Boston, perdeu um artigo científico por duplicação de imagens após uma investigação conjunta das duas instituições. 

O artigo , publicado em setembro de 2019 no Journal of Experimental Medicine , descreveu um tratamento para tumores causados ​​por uma doença chamada esclerose tuberosa. Vários dos 12 autores do artigo são afiliados à divisão de Medicina Pulmonar e de Cuidados Intensivos do Brigham and Women’s Hospital. O autor correspondente, David Kwiatkowski, é oncologista no Brigham and Women’s Hospital e no Dana-Farber Cancer Institute, e professor na Harvard Medical School. 

A pesquisa foi parcialmente financiada por duas bolsas do Departamento de Defesa dos EUA e uma bolsa dos Institutos Nacionais de Saúde, esta última concedida a Kwiatkowski. 

De acordo com o comunicado de retratação (despublicação) de 12 de junho , os autores solicitaram a retratação após uma investigação conjunta do Brigham and Women’s Hospital e da Harvard Medical School. Quatro imagens no artigo “foram consideradas não confiáveis ​​devido à duplicação de imagens”, diz o comunicado, e os dados em uma das figuras “não representam com precisão os dados de origem”.

“Os autores perderam a confiança nos dados e acreditam que a atitude mais responsável é retratar o artigo”, segundo o comunicado. 

Kristin Bittinger, diretora de integridade do corpo docente e de pesquisa da Faculdade de Medicina de Harvard, recusou nosso pedido de informações sobre a investigação. 

“Qualquer preocupação que nos seja apresentada é analisada minuciosamente, de acordo com nossas políticas institucionais e regulamentos aplicáveis”, disse ela. 

Os autores alertaram o Journal of Experimental Medicine sobre a investigação institucional, disse-nos Rory Williams, diretor de comunicação da Rockefeller University Press, editora da revista. Ele afirmou que não podia divulgar informações sobre a investigação, de acordo com as políticas da editora. 

O artigo foi citado 21 vezes, de acordo com o Web of Science da Clarivate. 

Esta é a primeira retratação de qualquer um dos autores, de acordo com nosso banco de dados. Sete outros artigos de Kwiatkowski foram sinalizados no PubPeer . O comentário mais recente, feito em fevereiro , sinaliza imagens em um artigo de 2014 publicado na PLOS One como “muito mais semelhantes do que o esperado”. 

Em 2020, alguns comentaristas apontaram semelhanças entre três imagens de um artigo de 2002 do qual Kwiatkowski era coautor. Os autores publicaram uma correção em 2021, explicando que repetiram experimentos relacionados a duas das imagens, pois não tinham acesso aos dados de 18 anos atrás. Pouco depois, um comentarista respondeu no PubPeer que a correção “não aborda as imagens muito semelhantes” na terceira figura.

Kwiatkowski recusou nosso pedido de comentário sobre a duplicação de imagens no artigo agora retratado e se algum de seus outros artigos estava sendo investigado.  

Outros coautores incluem Elizabeth Henske , diretora do Centro de Pesquisa e Assistência Clínica da LAM e codiretora do Centro de Genética Pulmonar, ambos no Brigham and Women’s Hospital, e John Asara , diretor de Espectrometria de Massa no Beth Israel Deaconess Medical Center em Boston. Ambos também são professores da Faculdade de Medicina de Harvard. Nenhum deles respondeu ao nosso pedido de comentário. 

Um artigo de 2014 no Journal of Experimental Medicine, coescrito por Kwiatkowski e Henske, contém comentários no PubPeer que apontam semelhanças entre diversas imagens presentes no artigo. Williams não respondeu à nossa pergunta sobre se a revista também estava investigando esse artigo. 


Fonte: Retraction Watch

A Bayer está no banco dos réus. Quem julga a Revolução Verde?

A denúncia relatada por Ana Carolina Bortoleto revela que, por trás de uma corporação específica, existe um modelo agrícola inteiro baseado na socialização dos danos ambientais e sanitários e na privatização dos lucros

O artigo “Denúncia contra Bayer expõe falhas globais na responsabilização por agrotóxicos”, publicado no Le Monde Diplomatique Brasil e assinado por Jaqueline Pereira de Andrade e Daisy Carolina Tavares Ribeiro, oferece uma oportunidade valiosa para refletirmos sobre um problema que vai muito além de uma única empresa. O caso envolvendo a Bayer não deve ser interpretado como uma tentativa de exonerar a multinacional alemã de suas responsabilidades. Ao contrário, ele evidencia tanto o papel desempenhado pelas grandes corporações químicas na consolidação da agricultura dependente de agrotóxicos quanto os limites dos mecanismos institucionais atualmente existentes para controlá-las e responsabilizá-las pelos danos que seus produtos podem causar.

A Bayer ocupa hoje uma posição central no mercado global de insumos agrícolas, especialmente após a aquisição da Monsanto, em 2018. Com essa operação, herdou não apenas ativos estratégicos, mas também uma extensa lista de controvérsias relacionadas ao glifosato e a outros produtos amplamente utilizados na agricultura industrial. A permanência de disputas judiciais em diferentes países demonstra que as dúvidas sobre os impactos sanitários e ambientais desses produtos continuam longe de serem resolvidas. Mais do que isso, revela como a produção do conhecimento científico nessa área ocorre em um ambiente permeado por conflitos de interesse, pressões econômicas e disputas políticas.

Entretanto, limitar a discussão à Bayer seria insuficiente. O verdadeiro problema está no modelo agrícola construído a partir da Revolução Verde. Ao longo das últimas décadas, a produção agrícola passou a depender de um pacote tecnológico baseado na mecanização intensiva, em sementes padronizadas, fertilizantes sintéticos e uso crescente de agrotóxicos. Esse modelo permitiu elevar a produtividade de diversas culturas, mas também gerou uma dependência estrutural de substâncias químicas cujos efeitos cumulativos sobre a saúde humana e os ecossistemas continuam sendo progressivamente revelados pela literatura científica.

É justamente nesse ponto que o caso relatado por Ana Carolina Bortoleto ganha relevância. Mesmo quando surgem evidências científicas consistentes, denúncias bem fundamentadas e mobilização social, os mecanismos de responsabilização frequentemente se mostram lentos, fragmentados e insuficientes diante do poder econômico das corporações transnacionais. Não por acaso, as disputas envolvendo agrotóxicos costumam se arrastar por décadas, enquanto os produtos seguem sendo comercializados e utilizados em larga escala.

O problema torna-se ainda mais complexo porque os impactos dos agrotóxicos raramente se manifestam de forma imediata ou facilmente rastreável. Casos de câncer, distúrbios neurológicos, alterações endócrinas, contaminação de recursos hídricos e perda de biodiversidade costumam resultar de exposições prolongadas e múltiplas. Essa característica favorece estratégias empresariais voltadas a semear dúvidas, contestar evidências e postergar medidas regulatórias, reproduzindo um padrão já observado anteriormente nas indústrias do tabaco, do amianto e dos combustíveis fósseis.

A consequência é que os sistemas de regulação acabam operando em permanente desvantagem. Enquanto as corporações dispõem de recursos financeiros praticamente ilimitados para influenciar pesquisas, contratar especialistas, financiar lobby e sustentar longas batalhas judiciais, os órgãos públicos frequentemente enfrentam restrições orçamentárias, limitações técnicas e pressões políticas. O resultado é um quadro em que a velocidade da expansão dos mercados de agrotóxicos supera em muito a capacidade dos Estados de avaliar, monitorar e controlar seus impactos.

Por isso, o caso da Bayer deve ser entendido como a expressão de uma crise mais profunda. O que está em questão não é apenas a conduta de uma empresa específica, mas a fragilidade dos instrumentos públicos destinados a proteger a saúde coletiva e o meio ambiente diante de um modelo agrícola que continua socializando seus custos e privatizando seus lucros. Enquanto essa assimetria persistir, denúncias como a relatada pelo Le Monde Diplomatique Brasil continuarão surgindo, revelando não apenas os problemas de uma corporação, mas os limites de um sistema regulatório incapaz de acompanhar a escala e a complexidade dos riscos produzidos pela agricultura química contemporânea.

Procurador-Geral do Texas está investigando a Bayer e a PepsiCo por contaminação de produtos alimentícios por glifosato

Por Sustainable Pulse 

O procurador-geral do Texas, Ken Paxton, anunciou uma investigação abrangente para combater o grave problema dos resíduos de glifosato nos alimentos, que, segundo seu gabinete, “coloca a saúde dos americanos e das crianças em risco”.

Este anúncio surge após o gabinete do Procurador-Geral Ken Paxton ter emitido Mandados de Investigação Civil (“CIDs”) a importantes fabricantes de agrotóxicos e alimentos, incluindo a Bayer e a PepsiCo.

O glifosato é o principal ingrediente do herbicida Roundup. É um herbicida amplamente utilizado em culturas geneticamente modificadas. Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer determinou que o glifosato é um provável carcinógeno humano. Desde então, extensas pesquisas em humanos e animais demonstraram que o glifosato contribui para disfunções endócrinas, infertilidade, doenças renais e doenças autoimunes, além de suas propriedades cancerígenas.

Mais de 250 milhões de libras de glifosato são pulverizadas nos Estados Unidos a cada ano. Pesquisas constataram que mais de 70% dos adultos americanos apresentam traços detectáveis ​​de glifosato em seus corpos, em comparação com apenas 12% em 1993.

Os cientistas atribuem grande parte desse aumento drástico ao uso generalizado do glifosato como dessecante. A dessecação é a prática de aplicar herbicidas como o Roundup nas plantações pouco antes da colheita, para que sequem uniformemente. Essa prática contribui com mais de 90% do glifosato encontrado nos alimentos, principalmente em produtos alimentícios que contêm aveia, trigo, girassol e leguminosas.

Embora a EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) proíba o uso de glifosato como dessecante em aveia nos Estados Unidos, o uso não autorizado ocorre e grandes empresas alimentícias também obtêm seus ingredientes de países estrangeiros onde essa prática é amplamente difundida.

A aveia é um alimento comum em cereais, barras de cereais e biscoitos, o que torna as crianças particularmente vulneráveis ​​aos malefícios do glifosato. De fato, estudos mostram que certos produtos alimentícios comercializados para crianças estão entre os mais contaminados por glifosato nos Estados Unidos. Outros produtos são comercializados como “saudáveis” quando os fabricantes sabem que estão contaminados com níveis perigosamente altos de glifosato. Pesquisas indicam ainda que crianças entre um e dois anos de idade têm a maior exposição alimentar ao glifosato em comparação com qualquer outra faixa etária.

“Se alguma empresa estiver usando brechas na legislação para envenenar nossas crianças com glifosato, nós descobriremos e buscaremos justiça”, disse Paxton.

“Meu gabinete também está investigando se as principais empresas alimentícias estão cumprindo a lei do Texas e se os consumidores, especialmente os pais, foram enganados sobre os benefícios para a saúde de produtos alimentícios comuns comercializados para suas famílias. Nenhuma corporação está acima da lei e nenhuma ação ilegal ficará impune”, concluiu ele.


Fonte: Sustainable Pulse

Ativistas se mobilizam pela proibição do uso do glifosato no Reino Unido

Ativistas pedem a proibição do uso do herbicida glifosato na época da colheita

Guy Singh-Watson, de Riverford: “O uso de glifosato em nosso sistema alimentar é um veneno à vista de todos.” Atribuições de mídia de Jas Lehal / PA Wire

Por Josie Clarke para “The Ecologist”

Ativistas estão pedindo ao governo britânico que proíba a pulverização de glifosato nas plantações durante a colheita, após estudos que o associam ao câncer e outras doenças.

O glifosato – conhecido por ser o ingrediente ativo do produto Roundup – é usado por alguns agricultores para combater ervas daninhas, mas também é frequentemente pulverizado nas plantações para secá-las na época da colheita.

A Soil Association alertou que isso deixou resíduos em alimentos como pão, cereais matinais e cerveja, com quase metade das amostras de colheitas testadas na Grã-Bretanha, incluindo trigo, cevada e aveia, contendo a substância química.

Herbicidas

O uso de glifosato como agente de secagem pré-colheita foi proibido na UE em 2023, e ativistas estão pedindo ao governo que faça o mesmo.

Em dezembro, o Farmers Weekly noticiou que a renovação da licença do glifosato na Grã-Bretanha estava entrando em uma “fase crítica”, com a Agência Executiva de Saúde e Segurança (HSE, na sigla em inglês) prestes a lançar uma grande consulta pública antes da decisão final de aprovação ainda este ano.

A consulta permitirá que agricultores, a indústria e organizações agrícolas comentem o extenso dossiê científico apresentado pelo Grupo de Renovação do Glifosato (GRG, na sigla em inglês), uma coalizão que inclui a Bayer, a Syngenta, a Nufarm e outras cinco empresas que buscam a renovação do princípio ativo.

O glifosato continua aprovado para uso na Grã-Bretanha até 15 de dezembro de 2026, após os ministros terem prorrogado sua autorização para dar tempo aos órgãos reguladores de analisarem novos dados.

A revista Farmers Weekly afirmou que as organizações agrícolas estavam se preparando para defender o acesso contínuo a herbicidas à base de glifosato – inclusive como dessecante pré-colheita, ou absorvedor de umidade – em cereais e colza, o que, segundo elas, é essencial para a segurança alimentar, as metas climáticas e a viabilidade das fazendas.

Pulverizado

O glifosato foi classificado como provável carcinógeno pela Organização Mundial da Saúde em 2015 e, em março deste ano, um grupo de cientistas internacionais se reuniu para analisar novas pesquisas publicadas na última década.

A declaração de especialistas emitida após o Simpósio sobre Glifosato em Seattle afirmou que o glifosato e os herbicidas à base de glifosato (GBHs) prejudicam a saúde humana e podem causar câncer.

O comunicado acrescentou: “As evidências de que o glifosato e os herbicidas à base de glifosato prejudicam a saúde humana nos níveis de uso atuais são agora tão fortes que não se justificam mais atrasos na regulamentação do glifosato.”

Em uma carta aberta, a Soil Association, a Nature Friendly Farming Network, o Greenpeace, a Riverford, a The Wildlife Trusts e outros grupos ambientais e de saúde apelaram ao Governo para que aproveite a oportunidade para acabar com a dessecação pré-colheita no Reino Unido.

Se implementada, essa medida poderia impedir a pulverização anual de glifosato em plantações que abrangem até 780.000 hectares – uma área cinco vezes maior que Londres –, segundo estimativas da Soil Association.

Alimentos

A organização beneficente também lançou uma petição, e os ativistas estão pedindo apoio urgente aos agricultores para garantir que seus negócios “possam continuar prosperando” enquanto mudam suas práticas, juntamente com pesquisas sobre alternativas.

Ninguém quer uma substância química associada ao câncer em seus sanduíches ou cereais matinais.

Cathy Cliff, coordenadora de campanhas da Soil Association, disse: “Ninguém quer um produto químico associado ao câncer em seus sanduíches ou cereais matinais.”

“O Reino Unido já está ficando para trás em relação à Europa, que adota uma postura muito mais rigorosa em relação aos pesticidas que representam um risco para a saúde humana.

“O governo deve agir para proteger a saúde pública, impedindo que esse produto químico tóxico seja pulverizado em nossos alimentos durante a colheita.

“Muitos agricultores já estão reduzindo o uso de pesticidas nocivos, e o Governo precisa se esforçar mais para apoiar esses esforços.

“Nosso governo precisa fazer a coisa certa e remover o glifosato de nossos alimentos, ao mesmo tempo que apoia os agricultores na busca por alternativas que protejam a natureza e a saúde pública.”

Saúde

A Dra. May van Schalkwyk, do Centro de Prevenção do Suicídio por Pesticidas e da Unidade de Políticas Globais de Saúde da Universidade de Edimburgo, afirmou: “Há um crescente conjunto de evidências independentes sobre os danos causados ​​à saúde das pessoas e ao meio ambiente pelos pesticidas à base de glifosato.

“Já passou da hora de o governo tomar medidas.”

Guy Singh-Watson, fundador da empresa de cestas de vegetais orgânicos Riverford, disse: “O uso de glifosato em nosso sistema alimentar é um veneno à vista de todos.

“Pulverizar as plantações com um produto químico classificado como ‘provavelmente cancerígeno’, muitas vezes poucos dias antes da colheita, cria uma rota direta do campo para o prato que deveria preocupar a todos nós.”

“Esta não é apenas uma questão de saúde pública, mas também uma questão agrícola.

Integrado

“Muitos agricultores estão presos ao uso desses produtos químicos por um sistema que lhes deixa poucas alternativas comercialmente viáveis.

“O governo tem a responsabilidade de garantir que nossos alimentos sejam produzidos sem comprometer a saúde das pessoas ou do planeta.

“A proibição do glifosato como dessecante pré-colheita é um primeiro passo sensato, e os agricultores devem ser apoiados na transição para uma economia menos dependente de produtos químicos.”

Um porta-voz do governo trabalhista afirmou: “O glifosato está sujeito a regulamentação rigorosa na Grã-Bretanha. Nosso Plano Nacional de Ação para Pesticidas no Reino Unido apoia as iniciativas de agricultores, produtores e outros gestores de terras para minimizar o uso de pesticidas e aumentar o manejo integrado de pragas.”

Este autor

Josie Clarke é correspondente de assuntos do consumidor da Press Association. 


Fonte: The Ecologist

Glifosato: ciência em disputa, exposição massiva e os limites da regulação

Entre evidências emergentes e disputas institucionais, o herbicida mais usado do mundo desafia os paradigmas da saúde pública contemporânea

O glifosato tornou-se, nas últimas décadas, um símbolo paradigmático das contradições do modelo agroindustrial contemporâneo. Herbicida mais utilizado no mundo, sua trajetória acompanha a expansão de monoculturas intensivas e o avanço dos organismos geneticamente modificados tolerantes a herbicidas. Mas, à medida que seu uso se intensificou, também se acumularam evidências científicas que apontam para riscos relevantes à saúde humana e ao ambiente — evidências estas que permanecem no centro de uma disputa persistente entre indústria, agências reguladoras e comunidade científica.

Desde sua introdução comercial nos anos 1970 e, sobretudo, após a difusão das culturas “Roundup Ready” nos anos 1990, o glifosato passou de insumo agrícola a contaminante ambiental onipresente. Estudos indicam aumentos expressivos na exposição humana, com detecção frequente em amostras biológicas e alimentos. Esse cenário sugere não apenas um problema ocupacional, restrito a trabalhadores rurais, mas uma exposição difusa, crônica e de baixa dose, característica das sociedades contemporâneas altamente químicas.

A controvérsia central reside na avaliação de seus efeitos à saúde. Enquanto empresas e parte das agências reguladoras sustentam a segurança do produto quando utilizado conforme as recomendações, um corpo crescente de literatura independente aponta para associações com câncer, doenças hepáticas e renais, disfunções endócrinas, alterações reprodutivas e impactos neurológicos. A classificação do glifosato como “provavelmente carcinogênico para humanos” por uma agência internacional de referência marcou um ponto de inflexão nesse debate, ao reconhecer a consistência de evidências experimentais e epidemiológicas, ainda que não conclusivas.

Mais recentemente, estudos têm ampliado a preocupação ao demonstrar efeitos em baixas doses — níveis considerados “seguros” pelos parâmetros regulatórios atuais. Pesquisas toxicológicas e epidemiológicas indicam alterações genéticas, epigenéticas e hormonais, além de impactos no microbioma intestinal e possíveis efeitos intergeracionais. Esse conjunto de achados desafia um dos pilares da toxicologia clássica — a ideia de que “a dose faz o veneno” — ao sugerir que exposições prolongadas e combinadas podem produzir efeitos complexos e cumulativos.

Outro aspecto central da controvérsia diz respeito à própria produção do conhecimento científico. Documentos internos tornados públicos em processos judiciais, assim como análises independentes, revelaram práticas de influência corporativa sobre a literatura científica e sobre processos regulatórios. Estudos financiados pela indústria, frequentemente utilizados por agências governamentais, foram criticados por falhas metodológicas, falta de transparência e inadequação aos padrões científicos contemporâneos. Esse cenário levanta questões estruturais sobre conflitos de interesse e a captura regulatória em áreas de alta complexidade técnica.

A divergência entre avaliações científicas e decisões regulatórias também evidencia limites institucionais. Enquanto algumas agências continuam a afirmar a segurança do glifosato, decisões judiciais e revisões independentes têm questionado essas conclusões, apontando para lacunas nos processos de avaliação de risco. A própria noção de “uso seguro” torna-se problemática quando considerada à luz de exposições ambientais difusas, múltiplas vias de contato e populações vulneráveis, como gestantes e crianças.

Do ponto de vista político-econômico, o caso do glifosato revela a profunda interdependência entre agricultura industrial, mercados globais de commodities e regimes regulatórios nacionais. A dificuldade de restringir ou banir o produto não decorre apenas de incertezas científicas, mas também de sua centralidade nos sistemas produtivos contemporâneos. Nesse sentido, a controvérsia sobre o glifosato não é apenas um debate técnico, mas uma disputa sobre modelos de desenvolvimento, segurança alimentar e sustentabilidade.

Diante desse quadro, cresce entre cientistas e profissionais de saúde a defesa do princípio da precaução. Essa abordagem propõe que, na presença de evidências plausíveis de risco — ainda que não definitivas —, medidas de proteção devem ser adotadas para reduzir a exposição da população. Trata-se de uma inversão importante na lógica regulatória: em vez de exigir prova absoluta de dano, reconhece-se a necessidade de agir diante da incerteza, sobretudo quando os potenciais impactos são amplos e duradouros.

O caso do glifosato, portanto, ultrapassa o debate sobre um único herbicida. Ele expõe as tensões entre ciência, economia e política em um mundo marcado pela dependência de substâncias químicas em larga escala. Mais do que uma controvérsia isolada, trata-se de um laboratório contemporâneo das limitações dos sistemas de regulação frente à complexidade dos riscos ambientais e sanitários do século XXI.


Texto adaptado com base em publicação feita pelo site “U.S. Right to Know” [Aqui! ].

Entre moléculas e doenças: estuda revela o efeito oculto das misturas de agrotóxicos

Misturas de agrotóxicos expõem limites da regulação e revelam conexões ocultas com o câncer 

Um estudo recente publicado na revista Nature Health — “Mapeamento da relação entre misturas de agrotóxicos e risco de câncer em escala nacional por meio da exposômica espacial”, de Jorge Honles e colaboradores (2026)— propõe uma mudança profunda na forma como compreendemos a relação entre exposição ambiental e câncer. Em vez de analisar substâncias isoladas, como tradicionalmente faz a toxicologia, os autores adotam uma abordagem integrativa e inovadora para investigar os efeitos de misturas de agrotóxicos em condições reais de exposição. Ao combinar modelagem ambiental de alta resolução, inferência bayesiana e dados epidemiológicos abrangentes, o estudo identifica uma associação espacial consistente entre áreas com maior exposição ambiental a agrotóxicos e maior incidência de câncer no Peru, desafiando pressupostos consolidados sobre a não carcinogenicidade dessas substâncias quando avaliadas individualmente.

O ponto de partida do trabalho é um problema conhecido, mas ainda insuficientemente enfrentado: seres humanos não são expostos a compostos químicos de forma isolada, mas sim a combinações complexas que interagem entre si e com o organismo ao longo do tempo. A toxicologia clássica, ao focar em um ingrediente ativo por vez, tende a subestimar os efeitos emergentes dessas misturas, que podem apresentar comportamentos não lineares e sinérgicos. No estudo, foram considerados 31 ingredientes ativos amplamente utilizados na agricultura peruana — nenhum deles classificado como carcinogênico direto para humanos. Ainda assim, quando modelados em conjunto, revelaram padrões espaciais robustos de associação com a incidência de câncer, sugerindo que o risco pode emergir precisamente da combinação dessas substâncias, e não de sua ação isolada.

A sofisticação metodológica do estudo permite avançar significativamente na caracterização desse risco. Os autores desenvolveram um modelo ambiental baseado em processos que simula o transporte, a degradação e a dispersão dos agrotóxicos no ambiente ao longo de seis anos, integrando variáveis como solo, clima e topografia em uma grade espacial de alta resolução. Esse modelo foi então conectado a dados de mais de 150 mil casos de câncer registrados no país, possibilitando a identificação de aglomerados espaciais de incidência elevada. O uso de inferência bayesiana permitiu estimar riscos relativos com base na exposição ambiental modelada, revelando centenas de pontos críticos onde a associação entre agrotóxicos e câncer é estatisticamente significativa.

Mas o estudo vai além da correlação espacial ao incorporar uma dimensão biológica inovadora: a estratificação dos cânceres segundo sua linhagem de desenvolvimento celular. Em vez de agrupar tumores apenas por órgão afetado, os autores os classificam com base em sua origem embrionária, o que permite identificar vulnerabilidades compartilhadas entre diferentes tipos de tecido. Essa abordagem revelou padrões específicos de suscetibilidade que seriam invisíveis em classificações tradicionais, sugerindo que certos programas celulares podem ser particularmente sensíveis à exposição ambiental a agrotóxicos.

Um dos achados mais impactantes emerge da análise molecular de tecidos hepáticos em regiões de alta exposição. O fígado, por sua função central no metabolismo de substâncias químicas, atua como um verdadeiro sentinela biológico. Os pesquisadores identificaram uma assinatura transcriptômica específica associada à exposição a agrotóxicos, caracterizada não por danos diretos ao DNA, mas por perturbações em circuitos regulatórios que mantêm a identidade celular. Trata-se de um mecanismo de carcinogênese não genotóxico, no qual a célula não é “quebrada”, mas progressivamente desorganizada, entrando em um estado instável que pode, sob determinadas condições, evoluir para transformação maligna. Esse processo parece ocorrer de forma precoce, antes mesmo do surgimento de tumores, o que levanta preocupações adicionais sobre exposições crônicas e de longo prazo.

Esses achados são particularmente relevantes no contexto das desigualdades socioambientais. O estudo mostra que os riscos mais elevados estão concentrados em áreas rurais sob intensa pressão agrícola, frequentemente habitadas por populações indígenas e camponesas. Nessas regiões, a exposição a agrotóxicos se combina com outros fatores estruturais, como acesso limitado à saúde e condições socioeconômicas adversas, produzindo um cenário de vulnerabilidade ampliada. Assim, o mapa do risco ambiental também se revela um mapa da desigualdade, evidenciando que os impactos da contaminação não são distribuídos de forma equitativa.

As implicações políticas e regulatórias desse trabalho são profundas. Ao demonstrar que misturas de agrotóxicos podem estar associadas ao risco de câncer mesmo quando seus componentes individuais são considerados seguros, o estudo expõe limitações importantes nos modelos atuais de avaliação de risco. A regulação baseada em substâncias isoladas pode ser insuficiente para capturar os efeitos reais das exposições ambientais, especialmente em contextos de uso intensivo e contínuo. Além disso, a influência de fatores climáticos, como eventos associados ao El Niño, sugere que mudanças ambientais globais podem intensificar ainda mais esses riscos no futuro.

Embora os autores reconheçam limitações — como a ausência de medidas individuais diretas de exposição — a convergência entre evidências geoespaciais, epidemiológicas e moleculares confere robustez aos resultados. Mais do que estabelecer uma causalidade definitiva, o estudo constrói um argumento consistente e biologicamente plausível de que a exposição a misturas de agrotóxicos pode desempenhar um papel relevante na gênese do câncer em contextos reais.

Em última instância, o trabalho aponta para a necessidade de um novo paradigma na ciência da saúde ambiental. Ao integrar diferentes escalas — do território ao tecido, do ambiente à célula — ele redefine o exposoma como uma ferramenta concreta para compreender como múltiplas exposições moldam o risco de doença. Em um mundo marcado pela intensificação agrícola e pelas pressões ambientais crescentes, essa abordagem não apenas amplia nosso entendimento científico, mas também impõe uma questão urgente: estamos preparados para enfrentar riscos que não são visíveis, isoláveis ou simples — mas profundamente entrelaçados com a forma como produzimos, vivemos e ocupamos o espaço?

A EPA ignorou pedido para endurecer as restrições ao Glifosato, alega ação judicial

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Por Shannon Kelleher para “The New Lede”  

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) está colocando a saúde pública em risco ao continuar permitindo que os agricultores pulverizem glifosato, um herbicida associado ao câncer, diretamente sobre a aveia antes da colheita, uma prática que geralmente resulta em resíduos do agrotóxicos em alimentos populares feitos com aveia, de acordo com um novo processo judicial.

O processo , apresentado em 20 de abril pelo Environmental Working Group (EWG), pede ao Tribunal de Apelações dos EUA para o Circuito do Distrito de Columbia que obrigue a EPA a responder a uma petição de 2018 que solicita à EPA a proibição do uso de glifosato para secar plantações antes da colheita e a redução do nível de resíduos de glifosato permitido na aveia de 30 partes por milhão (ppm) para apenas 0,1 ppm. A EPA nunca respondeu à petição, que foi apresentada pelo EWG e um grupo de empresas alimentícias e supermercados.

O processo judicial centra-se no atual “limite máximo de resíduos” (LMR) da EPA para o glifosato na aveia, que é amplamente consumida por crianças em cereais, biscoitos e outros produtos, e alega que os limites não protegem adequadamente a saúde das crianças.

Testes realizados pelo EWG e outras entidades encontraram resíduos de glifosato em diversos alimentos populares, incluindo cereais e snacks à base de aveia, concluindo que a aveia é uma das principais fontes de exposição ao glifosato para bebês e crianças pequenas.

“A EPA tem o claro dever legal de agir em relação a esta petição, e simplesmente se recusou a fazê-lo”, disse Caroline Leary, conselheira jurídica da EWG, em um comunicado .

“Esse tipo de atraso tem consequências reais para as famílias que dependem da agência para garantir que as crianças não sejam expostas a resíduos tóxicos de produtos químicos agrícolas, como o glifosato”, disse Leary.

“Esse tipo de atraso tem consequências reais para as famílias que dependem da agência para garantir que as crianças não sejam expostas a resíduos tóxicos de agrotóxicos, como o glifosato.” — Caroline Leary, EWG

Os limites máximos de resíduos (LMRs, na sigla em inglês), também conhecidos como níveis de tolerância, para o glifosato em culturas alimentares têm sido alvo de controvérsia há muito tempo. Enquanto o LMR para aveia era de 0,1 ppm em 1993, ele foi elevado para 20 ppm em 1997 e novamente para 30 ppm em 2008. Os LMRs da EPA frequentemente permitem que mais resíduos de glifosato permaneçam nos alimentos nos EUA do que em muitos outros países , incluindo os da União Europeia.

Em 2013, a EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) emitiu uma nova regulamentação que elevou os níveis de glifosato em oleaginosas, incluindo linhaça, gergelim e soja, de 20 ppm para 40 ppm, além de aumentar drasticamente os níveis permitidos em batata-doce e cenoura. A EPA aumentou os níveis de tolerância em resposta a pedidos da Monsanto .

A EPA está reavaliando o registro do glifosato sob a Lei Federal de Inseticidas, Fungicidas e Rodenticidas (FIFRA), após ter revogado uma decisão provisória de registro em setembro de 2022. A expectativa é que a agência emita uma decisão final sobre a revisão do registro ainda este ano.

Na página da agência sobre glifosato , a EPA afirma que a presença de resíduos detectáveis ​​de agrotóxicos em alimentos não significa que esses resíduos estejam presentes em níveis inseguros.

“Devido ao seu uso generalizado, traços de resíduos de glifosato podem ser encontrados em diversas frutas frescas, vegetais, cereais e outros produtos alimentícios e bebidas. No entanto, esses traços não representam motivo de preocupação para o consumidor”, afirma a EPA em seu site.

Em sua petição de 2019, o EWG escreveu que a EPA “rejeitou indevidamente” muitos estudos científicos que ligaram o glifosato ao câncer, uma medida que “permitiu a aprovação contínua de níveis de tolerância cada vez mais altos de glifosato como resíduo em alimentos comuns”.

O processo da EWG surge no momento em que a Monsanto, fabricante do Roundup, um herbicida popular que tem o glifosato como ingrediente ativo, se prepara para uma batalha judicial em 27 de abril na Suprema Corte , na qual o tribunal deverá determinar se a lei federal prevalece sobre as exigências estaduais de rotulagem para produtos que possam prejudicar os consumidores.

Os documentos legais que apoiam a Monsanto, empresa pertencente ao conglomerado alemão Bayer, sugerem que os EUA podem enfrentar uma “devastação” agrícola e outras dificuldades caso o tribunal decida contra a empresa, enquanto os documentos contrários alertam que apoiar a Monsanto pode isentar as empresas de responsabilidade, privando os consumidores do direito de processá-las caso adoeçam gravemente após a exposição a produtos químicos perigosos.

O glifosato é usado nos EUA desde a década de 1970 e atualmente é o herbicida mais utilizado no mundo. Em um “simpósio sobre glifosato” realizado em Seattle no mês passado, cientistas de todo o mundo se reuniram para instar os órgãos reguladores dos EUA e da Europa a fortalecerem as regulamentações sobre o glifosato. Os pesquisadores examinaram estudos conduzidos na última década, concluindo que as evidências que demonstram que os herbicidas à base de glifosato podem prejudicar a saúde humana “são agora tão robustas que nenhum atraso adicional na regulamentação do glifosato pode ser justificado”.

Um grupo internacional de pesquisa sobre câncer determinou, há mais de uma década, que a substância química é “provavelmente” cancerígena para seres humanos.

Em dezembro, um artigo publicado no ano 2000, que havia sido usado como principal argumento da Monsanto na alegação de que o glifosato não causa câncer, foi retratado , com o editor da revista citando “sérias preocupações éticas”.

Imagem em destaque: Providence Doucet / Unsplash


Fonte: The New Lede

Novo estudo avança conhecimento da ciência ao relacionar a exposição a agrotóxicos ao câncer

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Por Carey Gillam para “The New Lede”

Um novo estudo sobre a exposição a agrotóxicos no Peru revela uma associação mecânica entre a exposição e o câncer, e demonstra como “misturas complexas de agrotóxicos” podem contribuir para o desenvolvimento de câncer em pessoas, mesmo em níveis de exposição atualmente considerados seguros.

Os autores do estudo, publicado na Nature Health , afirmaram que as descobertas questionam as abordagens toxicológicas clássicas, baseadas na avaliação de substâncias isoladas e no estabelecimento de limites de segurança, e demonstram a importância de se analisar os impactos de misturas de múltiplos agrotóxicos.

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) e outras agências reguladoras ao redor do mundo normalmente avaliam os agrotóxicos individualmente e não em combinação, uma prática que tem sido alvo de críticas.

“Há muito tempo presumimos que os riscos dos pesticidas são avaliados individualmente, mas, na realidade, as pessoas estão constantemente expostas a misturas complexas em seu ambiente cotidiano — e nossas descobertas sugerem que essa realidade negligenciada pode ser um componente importante do risco de câncer”, disse o coautor do estudo, Stephane Bertani, diretor de pesquisa em biologia molecular do Instituto Francês de Pesquisa Científica Internacional (IRD).

Além do IRD, a equipe de pesquisa incluiu cientistas do Instituto Pasteur e do Instituto Nacional de Doenças Neoplásicas (INEN).

A equipe afirmou que seu estudo é o primeiro a destacar os mecanismos biológicos pelos quais a exposição a agrotóxicos pode contribuir para o desenvolvimento de certos tipos de câncer.

Os pesquisadores se concentraram no Peru, combinando dados ambientais com informações sobre mais de 150.000 pessoas diagnosticadas com câncer entre 2007 e 2020, contidas em registros nacionais de câncer, e análises biológicas.

O estudo envolveu o mapeamento das áreas do Peru mais expostas à contaminação por agrotóxicos entre 2014 e 2019. Os autores afirmaram ter descoberto que certos tumores, mesmo aqueles que afetam diferentes órgãos, compartilham vulnerabilidades biológicas comuns ligadas à sua origem celular, que podem ser enfraquecidas pela exposição a agrotóxicos.

“Análises moleculares realizadas em tecido hepático, um órgão fundamental no processamento de substâncias químicas e considerado um indicador de exposição ambiental, mostram que os agrotóxicos interferem nos mecanismos que mantêm a identidade celular e o funcionamento normal”, afirma um comunicado de imprensa que acompanha o novo estudo.

“Essas alterações biológicas surgem antes do desenvolvimento do câncer, sugerindo efeitos precoces, cumulativos e silenciosos. Elas podem tornar os tecidos mais vulneráveis ​​a outros fatores, como infecções, inflamações ou fatores ambientais”, afirma o comunicado à imprensa.

Bruce Lanphear, professor de ciências da saúde na Universidade Simon Fraser, afirmou que o estudo representa um passo na “direção certa” em termos de análise de misturas de agrotóxicos, exposições no mundo real e plausibilidade biológica, mas “não chega a demonstrar que os agrotóxicos são a causa dos padrões de câncer observados”.

“O próximo passo é simples, embora não seja fácil: medir a que as pessoas estão realmente expostas e acompanhá-las ao longo do tempo”, disse Lanphear. “Isso significa combinar o biomonitoramento com estudos de coorte ou de caso-controle, levando em consideração outros fatores de risco importantes e relacionando as exposições individuais a alterações biológicas precoces e doenças.”

O estudo incluiu informações sobre a exposição a 31 agrotóxicos diferentes, incluindo atrazina, glifosato e 2,4-D – todos herbicidas de uso comum; bem como clorpirifós, imidaclopride e permetrina – inseticidas de uso comum. Ao todo, 19 inseticidas, 7 fungicidas e 5 herbicidas fizeram parte do estudo. Nenhum deles é atualmente classificado pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer como carcinogênico, embora vários sejam classificados como provavelmente ou possivelmente carcinogênicos.

Nos Estados Unidos, dezenas de milhares de pessoas processaram a Monsanto, fabricante do glifosato, e sua proprietária, a Bayer, alegando que a exposição a produtos à base de glifosato causou o desenvolvimento de câncer. A Suprema Corte dos EUA deve analisar, no final de abril, um recurso da Bayer no qual a empresa argumenta que não deve ser responsabilizada por não alertar sobre os riscos de câncer, caso a Agência de Proteção Ambiental (EPA) não tenha exigido tais advertências.

Análises realizadas por dois grupos de saúde pública sem fins lucrativos constataram, no entanto, que a EPA tem um histórico de não exigir avisos sobre o risco de câncer em agrotóxicos, mesmo quando a própria agência determina que os ingredientes de um produto são cancerígenos.

Imagem em destaque por Dibakar Roy  no  Unsplash.


Fonte: The New Lede