Os riscos do Roundup podem ir bem além do câncer

A evidência do perigo deste herbicida barato para as funções biológicas e o meio ambiente continua aumentando. Por que os reguladores dos EUA não estão ouvindo?

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O Glifosato vale mesmo a pena? Foto: Daniel Acker / Bloomberg

Por Mark Buchanan* para a Bloomberg

A grande fabricante produtos químicos Bayer AG ainda está tentando se reequilibrar depois que um júri na Califórnia concedeu US $ 2 bilhões em danos a duas pessoas que dizem ter contraído câncer após anos de uso do Roundup, um popular herbicida fabricado pela Monsanto. A Bayer provavelmente não vai pagar esses US $ 2 bilhões. Mas mais de 10 mil novos casos estão pendentes, preocupando os investidores da Bayer, bem como os agricultores que dependem do produto que apresentado como sendo um herbicida barato e eficaz.

Câncer é apenas uma parte da história. Estudos realizados na última década sugerem que o Glifosato – o ingrediente ativo do Roundup – polui as fontes de água, fica no solo por muito mais tempo do que se suspeitava anteriormente e rotineiramente contamina o suprimento de alimentos para seres humanos. Tanto nos EUA como na Europa, os limites supostamente seguros para a ingestão humana são baseados em ciência há muito ultrapassada. A pesquisa também aponta para sérias consequências adversas para o meio ambiente, e há indicações de que o Glifosato pode causar doenças em mamíferos, mesmo várias gerações removidas da exposição inicial.

O Glifosato não é tão seguro quanto os fabricantes gostariam que acreditássemos, e a redução acentuada de seu uso provavelmente está muito atrasada.

A Monsanto patenteou o Glifosato no início dos anos de 1970, e rapidamente ele se tornou o produto químico de primeira escolha para o controle de ervas daninhas na forma  comercial conhecida como Roundup, que agora representa mais de 70% do uso de agrotóxicos globalmente. Executivos da Monsanto incentivaram a disseminação do Roundup ao projetar sementes geneticamente modificadas para o milho e outras culturas que são tolerantes ao Glifosato.

Fabricantes de Glifosato – que agora incluem muitas empresas em todo o mundo, pois a patente da Monsanto expirou em 2000 – há muito tempo argumentam que o Glifosato é completamente seguro para seres humanos, animais e, na verdade, para toda a vida não vegetal. O Glifosato age inibindo um caminho bioquímico que as plantas precisam para crescer, e os animais não compartilham esse caminho, o que é superficialmente reconfortante. Mas isso significa apenas que o Glifosato não deve matar animais de fome, como acontece com as plantas.  Mas produtos químicos podem exercer efeitos sobre os organismos de várias maneiras.

Interpretar a evidência para o câncer não é fácil, porque painéis diferentes chegaram a conclusões contrastantes usando procedimentos diferentes. Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), parte da Organização Mundial de Saúde, concluiu que o Glifosato é provavelmente cancerígeno. Mas tanto a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) quanto a Autoridade Europeia de Segurança de Alimentos (EFSA) se recusaram a fazer o mesmo. Tanto a EPA quanto a EFSA contaram com informações fornecidas por pesquisadores ligados à indústria e consideraram os estudos fornecidos pela indústria que não foram revisados ​​por pares ou tornados públicos. O IARC se baseou exclusivamente em pesquisas revisadas por pares e publicamente disponíveis.

Uma equipe internacional de biólogos revisou os estudos do IARC e da EFSA, concluindo que o da agência europeia era significativamente defeituoso e se afastava das práticas padrão para a avaliação de riscos.

Há muitas outras razões para se preocupar com o Glifosato.  Em 2016, um grupo independente de biólogos tentou esclarecer o que realmente sabemos sobre o produto químico. O artigo que eles produziram nos leva a uma leitura sombria. Os pesquisadores observaram que os estudos da década anterior encontraram traços significativos de herbicidas à base de Glifosato na água potável e subterrânea, provavelmente expondo rotineiramente milhões de pessoas em todo o planeta à esta substância química. Estudos de toxicidade em roedores descobriram que o Glifosato pode danificar o fígado e os rins, mesmo em doses geralmente consideradas seguras para humanos. Porcos jovens alimentados com soja contaminada com resíduos de herbicida Glifosato exibiram malformações congênitas, não muito diferentes dos defeitos congênitos observados em pessoas que vivem em regiões agrícolas próximas e com uso intensivo de Glifosato.

O estudo aponta ainda para muitas outras descobertas preocupantes, desde o impacto disruptivo do Glifosato na sinalização hormonal em mamíferos até o modo como este produto químico se liga a metais como zinco, cobalto e manganês, reduzindo o suprimento desses micronutrientes cruciais para pessoas, culturas e outras plantas e para a vida selvagem. A maioria desses efeitos provavelmente não seria detectada pelas diretrizes tradicionais de testes de toxicologia atualmente favorecidas pelos reguladores de agrotóxicos.

Em abril, um estudo diferente encontrou outro efeito preocupante: o Glifosato pode interromper as funções biológicas por gerações. Um dos tópicos mais quentes da biologia nos últimos anos tem sido a epigenética – o estudo de como os descendentes herda não apenas os genes de seus pais, mas também certos padrões de atividade química escritos nesses genes por outras moléculas sinalizadoras. Isto oferece um meio pelo qual os fatores ambientais que afetam um organismo durante sua vida podem ser transmitidos aos seus descendentes. Em experimentos com ratos alimentados com Glifosato, Michael Skinner, da Washington State University, e seus colegas descobriram que os efeitos malignos do tratamento não apareciam no organismo comendo Glifosato, ou mesmo em sua prole, mas nas duas gerações seguintes de descendentes. Esses ratos, sem nunca serem expostos ao Glifosato, mostraram, no entanto, uma tendência proeminente em relação à doença da próstata, obesidade, doença renal, doença dos ovários e anormalidades de nascimento.

O Glifosato claramente não é um herbicida benigno que não justifica preocupação, deixando de lado inclusive sua ligação com o câncer. O Glifosato pode estar causando muitas outras perturbações graves à biologia humana e a organismos e plantas no meio ambiente, atualmente invisíveis aos atuais sistemas regulatórios desatualizados. Já é hora de nossos reguladores atualizarem sua ciência.

*Mark Buchanan, físico e escritor científico, é o autor do livro “Previsão: o que a física, a meteorologia e as ciências naturais podem nos ensinar sobre economia”.

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pela Bloomberg [Aqui!].

Agrotóxicos e seus impactos sobre a saúde e o meio ambiente – Entrevista ao Programa “Faixa Livre”

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Concedi hoje uma entrevista ao jornalista Paulo Passarinho que é o âncora do “Programa Faixa Livre” que é levado ar pela Rádio Bandeirantes 1360 AM a partir da cidade do Rio de Janeiro.

Abaixo posto a resenha produzida pelos editoria do “Faixa do Livre”, bem como o arquivo contendo a íntegra das respostas dadas a Paulo Passarinho.

Pedlowski alerta a alta de casos de câncer provocados por agrotóxicos

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O atendimento aos interesses daqueles que patrocinaram sua eleição à Presidência tem levado Jair Bolsonaro a promover um verdadeiro genocídio silencioso no país: o governo autorizou, em pouco menos de cinco meses, a utilização de 197 novos agrotóxicos pelos grandes proprietários de terra.

Esta é a maior taxa de aprovação de uso de fitossanitários na história. O panorama já tem levado a um aumento alarmante de casos de câncer em algumas regiões do país, onde o agronegócio tem predominância, como no Mato Grosso e no Rio Grande do Sul.

A iniciativa criminosa do Governo Federal preocupa o professor de Ecologia e Recursos Naturais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) Marcos Pedlowski, que fez questão de citar alguns dos agrotóxicos mais perigosos e que tiveram sua utilização liberada pelo ex-capitão do Exército.

“É um problema ambiental, mas eu diria, principalmente hoje, de saúde coletiva. Temos substâncias reconhecidamente causadoras de câncer, uma delas, que foi aprovada com algumas variações, é o acetato, e outra bastante problemática, que é uma das mais consumidas no mundo, é o glifosato. Temos um produto, o Fipronil, proibido na União Europeia, só pode ser usado em casos raríssimos nos Estados Unidos e é conhecido como exterminador de abelhas”, citou.

Não bastasse a contaminação dos alimentos pelo veneno usado por produtores rurais para conter pragas, os agrotóxicos vêm alcançando o principal bem natural para subsistências das espécies no planeta.

“O problema dos agrotóxicos mais recentes é que eles não ficam tanto no solo, vão direto para a água. Essa capacidade de passar diretamente para o lençol freático e não contaminar o solo tem uma consequência muito ruim. Foi feita uma pesquisa recente com dados fornecidos pelas próprias concessionárias de tratamento de água no Brasil que comprovou que pelo menos um quarto dos municípios brasileiros estão servindo 27 agrotóxicos na torneira da população brasileira”, alertou o professor da UENF.

“Aqui no estado do Rio de Janeiro, a maioria dos municípios analisados tem esses agrotóxicos. Estamos bebendo resíduos de agrotóxicos em grandes quantidades, dependendo da cidade. No Mato Grosso, o grupo do professor Wanderlei Pignati está encontrando até na água da chuva. O que temos com essa situação é que estamos bebendo água contaminada, respirando e comendo agrotóxicos em muitas regiões”, prosseguiu Pedlowski.

A China, um dos principais produtores de fitossanitários do mundo, tem o Brasil como um de seus maiores mercados, já que os Estados Unidos e a União Europeia proibiram a boa parte dos agrotóxicos exportados pelo país asiático.

Indo no caminho inverso do governo Bolsonaro, um país que tem tomado medidas efetivas contra a proliferação de veneno industrial no solo é um dos aliados chineses no mundo, o que pode atingir nossa balança comercial.

“Em 31 de janeiro, os serviços de vigilância sanitária da Rússia emitiram um comunicado ao governo brasileiro dizendo que se o Brasil não tomasse cuidado para diminuir o conteúdo de glifosato na soja exportada, eles suspenderiam a aquisição de soja brasileira. O problema é que a Rússia tolera três vezes mais resíduos do que a União Europeia”, avaliou.

Ouça a entrevista de Marcos Pedlowski:

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Este artigo foi originalmente publicado no site oficial do Programa “Faixa Livre” [Aqui!]

“Brasil é um inferno de agrotóxicos na Terra”

Bayer, agrotóxicos, câncer e padrões duplos de comportamento

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Acionista crítico leva a Bayer a prestar contas na assembleia geral anual da empresa

O presidente-executivo da Bayer, Werner Baumann, perdeu recentemente um voto crucial de confiança, com os investidores questionando sua forma de lidar com o acordo de US$ 63 bilhões da Monsanto e a onda de ações judiciais dos EUA que se seguiram. No que Bloomberg chamou de “um desenvolvimento impressionante para a companhia alemã de medicamentos e produtos químicos”, cerca de 55% dos acionistas votaram contra a absolvição de Baumann e outros gerentes de responsabilidade por suas ações na tomada da Monsanto que ocorreu no ano passado.

A votação colocou em dúvida o futuro de Baumann e provocou uma sessão imediata do conselho de supervisão. Enquanto o conselho supervisor ignorou a votação sem precedentes, os investidores não estão satisfeitos com a decisão dos diretores de apoiar Baumann e sua estratégia.

Embora grande parte da agitação dos investidores incida, sem dúvida, no passivo financeiro, fortes preocupações estão sendo levantadas sobre a ética da Bayer. Na reunião geral anual da Bayer, Christian Russau, da organização guarda-chuva, os Acionistas Críticos, fez um discurso no qual lançou um ataque contundente à empresa por seus “duplos padrões”. Segundo Russau, a Bayer vende pesticidas no Brasil que são proibidos na UE.

Russau realizou duas investigações, uma em 2016 e uma segunda em 2019.

Ele descobriu que 8 substâncias ativas de pesticidas foram vendidas pela Bayer no Brasil em 2016 e não estão autorizadas a nível da UE:

  • Carbendazim
  • Ciclanilida
  • Dissulfotam
  • Etiprona
  • Ethoxysulfuron
  • Ioxinil
  • Thidiazurom
  • Tiodicarbe

Mas em 2019, o número aumentou para 12:

  • Carbendazim
  • Ciclanilida
  • Etiprona
  • Ethoxysulfuron
  • Fenamidona
  • Indaziflam
  • Ioxinil
  • Oxadiazona
  • Propinebe
  • Thidiazurom
  • Tiodicarbe
  • Tirame

Russau comentou: “Este é um aumento de 50%”.

Russau observou que em 1988, o então CEO da Bayer Hermann J. Strenger se recusou a estabelecer padrões duplos. Ele disse: “Fazemos as mesmas exigências de nossos investimentos no Brasil ou na Índia, nos EUA ou no Japão, como [na Alemanha]”.

No entanto, 31 anos depois, Russau disse que a Bayer ainda vende no Brasil alguns herbicidas, inseticidas e fungicidas com ingredientes ativos que são proibidos na Europa. Por isso, está operando de acordo com um padrão duplo. Russau acusou o CEO da Bayer, Werner Baumann, de cumplicidade com esse duplo padrão, em uma “continuidade histórica indescritível”.

Por que o Brasil?

Por que o foco no Brasil? Russau disse: “Porque o Brasil está no centro do interesse de crescimento da Bayer”. Dirigindo-se diretamente a Baumann, ele acrescentou que o CEO da Bayer disse na reunião geral anual de 2018 que o interesse da Bayer em adquirir a Monsanto seria no setor de sementes e no crescimento desse setor: “Este tipo de semente é geralmente geneticamente modificado, e é isso que Se essas três variáveis- sementes geneticamente modificadas, venenos agrícolas e crescimento – forem reunidas, somente um denominador comum pode ser encontrado em todo o mundo: o Brasil. Essa é a triste realidade, porque o crescimento nas áreas de sementes geneticamente modificadas e os venenos agrícolas já atingiram seus limites nos EUA, os processos contra a Monsanto atestam isso. “

Na Europa, Russau disse que a resistência pública é grande demais para que o crescimento seja esperado aqui. Na Índia, mais e mais estados estão declarando-se “livres de agrotóxicos” e a China está mostrando preocupação com a contaminação por agrotóxicos; “Então só o Brasil permanece. E há uma razão para isso.”

Russau comentou “notícias alarmantes do Brasil”: o novo governo brasileiro do presidente Jair Bolsonaro, com a ministra da agricultura e lobista agroquímica Tereza Cristina, que o maior e mais respeitado diário do Brasil apelidou de “Musa do Veneno”, lançou outros venenos agrícolas altamente tóxicos que são proibidos em outros lugares. Como cientista conhecida do instituto estadual de pesquisa para questões de saúde, a FIOCRUZ disse recentemente: “O Brasil se tornará um paraíso para os venenos agrícolas”.

Russau disse temer que empresas como a Bayer continue a participar, talvez mais do que nunca, na venda e distribuição de venenos agrícolas altamente tóxicos no Brasil. Como uma tática de sobrevivência diante da aquisição multibilionária da Monsanto, a Bayer irá crescer a qualquer preço. Qualquer veneno que possa ser vendido será vendido.

Brasil: Um “inferno de agrotóxicos na Terra”

Russau chamou o Brasil de um “inferno de agrotóxicos na Terra”, pelas seguintes razões:

* O Brasil é o líder mundial no uso de agrotóxicos – e a província de soja transgênica de Mato Grosso detém o recorde mundial: se a quantidade total de venenos agrícolas liberados no Brasil por ano é medida em termos de população per capita, então chega-se ao aterrorizante montante de 7,3 litros por cidadão brasileiro. Mas isso é “apenas” a média nacional. O líder brasileiro na pulverização de agrotóxicos é o estado de Mato Grosso, onde 13,3% (140 milhões de litros) de todos os venenos agrícolas usados no Brasil foram pulverizados anualmente entre 2005 a 2012, segundo os últimos cálculos do Instituto Estadual de Agricultura. Segurança do Mato Grosso (Indea).

* Observando uma dessas comunidades de “boom” – Sapezal, no estado do Mato Grosso, em 2012, nove milhões de litros de venenos agrícolas foram usados apenas no município de Sapezal. Estes são os últimos dados disponíveis da Indea. Se você contar a quantidade de agrotóxicos usados em todo o Brasil, chegamos aos 7.3 litros acima mencionados por pessoa. Em Sapezal, no entanto, esse valor é 52 vezes maior: 393 litros por pessoa, se tomarmos como base a população de 2016.

* Um estudo da Universidade Federal do Mato Grosso encontrou em um estudo que havia 1.442 casos de câncer gástrico, esofágico e pancreático em 13 municípios (644.746 habitantes segundo o último censo de 2015), nos quais soja, milho e algodão foram cultivados entre 1992 e 2014. Em comparação, nos 13 municípios comparáveis (219.801 habitantes segundo o último censo de 2015), onde o turismo predominou em vez da agricultura, o número de casos de câncer foi de apenas 53. Isso resulta em uma taxa de câncer de 223,65 por 100.000 habitantes predominantemente municípios agrícolas, enquanto que em municípios predominantemente turísticos, há uma taxa de câncer de 24,11 por 100.000 habitantes. Assim, em municípios onde os pesticidas são fortemente pulverizados, a taxa de câncer é estatisticamente maior por um fator de 8.

Em conclusão, Russau perguntou ao CEO da Bayer, Baumann: Quanto remédio anticâncer (volume e vendas) sua empresa farmacêutica enviou para o estado do Mato Grosso em 2016 e 2017?

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Este artigo foi originalmente publicado pela GMWatch [Aqui!]

Mais de 11.000 pessoas estão processando a Bayer por causa do risco de câncer associado ao uso do Glifosato

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Por David Meyer para a revista Fortune

A Bayer está agora enfrentando cerca de 11.200  processos judiciais por causa das implicações negativas para a saúde do Roundup e do Ranger Pro, seus herbicidas à base de glifosato.

A gigante alemã revelou a figura na quarta-feira ao anunciar seus resultados para o ano fiscal de 2018. As vendas no ano subiram 13% e o EBITDA antes de itens especiais cresceu 2,8%, mas o lucro líquido do ano caiu mais de três quartos devido a um encargo de prejuízo de US $ 3,8 bilhões e outro encargo de US $ 2,3 bilhões em conexão com a aquisição da Monsanto, fabricante do Roundup.

“Nos últimos anos, temos sistematicamente desenvolvido em uma empresa de ciências da vida, claramente alinhado às megatendências em saúde e agricultura e unidos sob a forte marca guarda-chuva Bayer”, disse o presidente da Bayer, Werner Baumann. “A aquisição na área agrícola nos elevou à posição número um nesse mercado. A integração com a Monsanto teve um excelente começo ”.

As ações da Bayer, que tiveram grandes perdas no ano passado de julgamentos judiciais relacionados ao glifosato, subiram 4,7% no anúncio dos resultados. A empresa está atualmente apelando contra uma decisão que diz que seus produtos da Monsanto são responsáveis pelo câncer do jardineiro Dewayne Johnson. Mais sete casos estão previstos para ir a tribunal este ano – na verdade, um começou esta semana. No final de 2018, a Bayer disse que sabia de 9.300 demandantes. Isso significa um aumento de 20% nas reclamações em apenas três meses. “Temos a ciência do nosso lado e continuaremos a defender vigorosamente esse importante e seguro herbicida para uma agricultura moderna e sustentável”, disse Baumann.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês pela revista Fortune [Aqui!]

Estudo da UENF revela que água consumida em assentamento no Norte Fluminense apresenta contaminação

Coliformes fecais e totais, nitrogênio e, principalmente, altas concentrações de resíduos de agrotóxicos, foram encontrados

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Marcos Pedlowski alerta para o resultado apresentado (Foto: reprodução de Facebook)

Por Cláudia Freitas para o Portal Eu,Rio!

A revista científica Heliyon publicou nesta quinta-feira (7/3) um estudo feito por pesquisadores do Centro de Ciências do Homem, da Universidade Estadual do Norte Fluminense (CCH/UENF), que avalia a qualidade da água consumida por moradores do Assentamento Zumbi dos Palmares, localizado a cerca de 10 km do Centro de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense. Os resultados são alarmantes e revelam que em todos os parâmetros adotados as amostras apresentam índices elevados de contaminação por coliformes fecais e totais, nitrogênio e, principalmente, altas concentrações de resíduos de agrotóxicos, inclusive nitrato, em comparação com os padrões internacionais. Para os cientistas, a água na região deve ser classificada como inadequada para o consumo humano.

A novidade da pesquisa está na metodologia aplicada pelos cientistas da UENF. Eles desenvolveram o trabalho integrando fatores que normalmente não são avaliados e com critérios integrados. Utilizando os parâmetros físico-químicos (PH, condutividade, turbidez), os pesquisadores conseguiram identificar diversificados elementos de contaminação. “O que mais nos preocupa é a constatação de que as amostras são semelhantes às de várias áreas rurais do Brasil, ou seja, o problema deve estar afetando muitas populações, mais do que estamos imaginando”, afirma o professor Marcos Pedlowski, que integra o grupo de estudo.

O conteúdo da pesquisa destaca: “os resultados de nossas análises de poços rasos no assentamento Zumbi dos Palmares mostraram que várias amostras apresentavam valores além dos limites estipulados pela legislação brasileira que regula a qualidade da água utilizada para a água potável. Além disso, também observamos relações significativas entre diferentes variáveis apontando para um processo de contaminação da água causado por fontes provocadas pelo homem”. Para Pedlowski, apesar de não existir limites determinados na legislação brasileira, pelo menos dois dos agrotóxicos analisados estavam com concentrações acima do que é tolerado em outras partes do mundo, como o caso do herbicida Atrazina.

Em outro trecho, os autores enfatizam que as amostras de concentração de nitrato apresentaram valores elevados, em dois casos ultrapassando o limite estabelecido na Portaria 2914/2011 e fora dos padrões recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), para água potável. Os professores acreditam que a contaminação deve estar relacionada à lixiviação dos fertilizantes do solo, pois a maior concentração foi encontrada em períodos de chuva.

“Lembro que o estudo foi feito num assentamento de reforma agrária onde o uso de agrotóxicos não é elevado quando comparado com grandes áreas de monoculturas.  Os assentados são uma espécie de canário das minas de carvão.  Se o problema está se manifestando em áreas de agricultura familiar, imagina o que não está acontecendo em áreas hegemonizadas pela soja e pela cana-de-açúcar”, destaca o professor.

Na conclusão do trabalho, os autores sugerem que a qualidade da água consumida em áreas rurais de países em desenvolvimento tenha como referência outros parâmetros além da base no nível de contaminação biológica, passando a acrescentar, por exemplo, os níveis de nitrogênio associados ao uso de fertilizantes sintéticos e de agrotóxicos.

Pedlowski conta que as amostras de água analisadas foram coletadas em 2014, mesmo ano que o estudo foi finalizado. No entanto, os resultados só foram divulgados nesta quinta (7). Nos cinco últimos anos, outros trabalhos associados foram iniciados, mas ainda estão em andamento. De agosto de 2018 a fevereiro deste ano, Pedlowski esteve no Centro de Ecologia, Evolução e Alteração Ambiental da Universidade de Lisboa, em Portugal, participando de uma pesquisa sobre biorremediação de agrotóxicos. O estudo tem como uma das suas bases a pesquisa realizada pelos profissionais da UENF.

“A contaminação biológica é, talvez, de solução mais fácil. Mas a contaminação causada por fertilizantes sintéticos e agrotóxicos demanda uma mudança de paradigma no processo que é tradicionalmente utilizado para descontaminação de água para consumo humano. No caso dos agrotóxicos, o primeiro passo [em direção a uma bioerremediação] seria adotar padrões mais restritivos para a tolerância de resíduos na água, tal qual tem feito a União Europeia, por exemplo. Outra medida seria obrigar as empresas concessionárias de água e esgoto a aperfeiçoar seus sistemas de tratamento. Do contrário o problema só vai se agravar”, destaca Pedlowski.

O médico Décio Lerner, chefe do setor de Oncologia do Hospital São Vicente de Paulo (RJ), esclarece que esses tipos de agrotóxicos podem causar dano no DNA, elemento que está em todas as células e carrega toda a informação genética do indivíduo. Segundo ele, os agrotóxicos podem funcionar como fator desencadeante do câncer ao provocar esta modificação no DNA. O médico enfatiza também que não há estudos conclusivos sobre qual a quantidade e o tempo de exposição para causar prejuízos ao organismo humano.

Lerner diz ainda que alguns agrotóxicos estão implicados com lesão na medula óssea, órgão que fica dentro dos ossos e é responsável pela produção dos elementos sanguíneos. Nesse caso a “fábrica” do sangue pode simplesmente parar ou funcionar irregularmente, necessitando, assim, de um transplante de medula óssea.


Este artigo foi originalmente publicado pelo Portal Eu,Rio! [Aqui!]

“Brasileiro sofre com problemas crônicos por uso de agrotóxicos”, afirma pesquisadora

No programa Entre Vistas, da TVT, Larissa Bombardi ressaltou os perigos da aplicação intensiva de venenos nas lavouras

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“Mapeei os casos de malformação fetal em SP e é muito assustador. Consegue-se ver no mapa o uso intensivo de agrotóxicos”, diz pesquisadora / Herr stahlhoefer via Wikimedia Commons

Por Redação do jornal Brasil de Fato

Foi exibida nesta quinta-feira (7) na Rede TVT, mais uma edição do programa “Entre Vistas”. Com apresentação de Juca Kfouri. A entrevistada da noite foi Larissa Bombardi. Ela é doutora em geografia pela USP e especialista em agrotóxicos. João Paulo Rodrigues, da Coordenação do MST, e Yamila Goldfarb, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, fizeram comentários.

Bombardi é autora do Atlas “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia”, que detalha a extensão do uso e os problemas causados pelos produtos que a bancada ruralista chama de “defensivos agrícolas” dentro do país. Ela iniciou sua intervenção citando exemplos de alimentos importantes na dieta da população que estão altamente contaminados pelos agrotóxicos.

“O Brasil é extremamente permissivo no que diz respeito aos resíduos de agrotóxicos que nós permitimos nos alimentos e na água potável. A gente permite um resíduo do inseticida malationa no feijão quatrocentas vezes maior do que o permitido na União Europeia. Na soja, a gente permite o resíduo de glifosato duzentas vezes maior do que na União Europeia. Isso significa que se uma criança de vinte quilos ingerir cem gramas de soja por dia, ela terá extrapolado em 20% o que seu corpo pode tolerar de glifosato. Na água potável nós toleramos um resíduo de glifosato cinco mil vezes maior do que na União Europeia.

Segundo ela, do ponto de vista da saúde, o brasileiro tem problemas crônicos associados a essa exposição. “Não é só o câncer, temos problemas hormonais severos. Uma médica fez um mestrado na Chapada do Apodi e identificou puberdade precoce associada a agrotóxicos: bebês com dois anos com seios e pêlos pubianos. Eu mapeei os casos de malformação fetal no estado de São Paulo, e é muito assustador, porque a gente consegue enxergar no mapa, o uso intensivo de agrotóxicos”, diz.

Confira abaixo alguns trechos selecionados da entrevista e do debate:

Juca Kforui: Larissa, você apresenta a diferença do que é permitido aqui para o que não é permitido na União Europeia, mas boa parte desses tóxicos todos não é produzida por multinacionais com sede na União Europeia?

Larissa Bombardi: Esse é o maior exemplo da contradição. A gente tem 6 grandes empresas que controlam 70% do comércio de agrotóxicos do mundo, e uma parte delas tem sede na União Europeia. A realidade até 2018 é que as empresas estadounidenses e europeias controlam 70% do mercado de agrotóxicos e muitas dessas substâncias são proibidas nos seus territórios de origem.

Eu quando vejo anúncios do agronegócio pujante, que faz do Brasil líder em uma série de itens, e vejo os aviões passando e pulverizando os campos, fico orgulhoso da nossa tecnologia. Aí fico sabendo, por quem entende do assunto, que isso é proibido na União Europeia há mais de uma década. Para onde vamos, como mudar esse estado de coisas?

João Paulo: Em nossa leitura só é possível segurar isso se o consumidor participar desse debate. Ele compreender do ponto de vista da saúde pública e da sua saúde, o que está por trás dessa maquinaria envenenada chamada agronegócio. Você imagina a riqueza que é a população brasileira. Na Feira Nacional da Reforma Agrária do MST nós trouxemos 1600 produtos das mais diferentes áreas. Por que o Agronegócio quer padronizar a produção? Porque eles querem enfiar goela abaixo que os brasileiros tem que comer quatro produtos: milho, soja, arroz e trigo — e com veneno.

O fato da produção orgânica ser menor leva necessariamente ao produto orgânico ser mais caro?

Larissa Lombardi: Tem essa relação direta, por conta da oferta e da procura. Enquanto o orgânico é raro, é mais caro. E não porque é mais caro de ser produzido.

João Paulo: O custo de produção não é muito mais alto, a diferença é pequena. O que é alta é a especulação do agricultor que produz até chegar [no mercado]. É muito difícil você chegar em um supermercado da periferia e encontrar uma gôndola de orgânicos, você vai achar nas grandes redes, e lá eles organizam o preço.

O programa na íntegra pode ser conferido abaixo:

 


Esta reportagem foi originalmente publicada pelo jornal Brasil de Fato [Aqui!]

Agricultura envenenada: nova e ampla pesquisa descobre relação entre o aumento de câncer e o uso intensivo de Glifosato

Estudo mostra que exposição a herbicidas aumenta risco de câncer em 41%.

Evidência científica “apoia ligação” entre exposição a herbicidas com glifosato e aumento do risco de Linfoma Não-Hodgkin

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Garrafas de herbicida Roundup, um produto da Monsanto. Os resultados vêm como os reguladores em vários países consideram limitar o uso de produtos à base de glifosato na agricultura. Foto: Jeff Roberson / AP

Por Carey Gillam para o “The Guardian”

Uma nova e ampla análise científica do potencial causador de câncer de herbicidas à base de glifosato, o mais usado no mundo, descobriu que pessoas com alta exposição a este popular agrotóxico têm um risco 41% maior de desenvolver um tipo de câncer chamado Linfoma Não-Hodgkin.

Os autores afirmam que as evidências “suportam uma ligação convincente” entre exposições a herbicidas à base de glifosato e o aumento do risco de Linfoma Não-Hodgkin (NHL), embora tenham dito que as estimativas específicas de risco numérico devem ser interpretadas com cautela.

As descobertas de cinco cientistas norte-americanos contradizem as garantias de segurança da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) sobre o herbicida e surgem quando reguladores em vários países consideram limitar o uso de produtos à base de glifosato na agricultura. 

A Monsanto e sua proprietária alemã Bayer AG enfrentam mais de 9 mil ações judiciais nos Estados Unidos, trazidas por pessoas que sofrem de NHL, que culpam os herbicidas à base de glifosato da Monsanto por suas doenças. O primeiro demandante a ir a julgamento ganhou um veredito unânime do júri contra a Monsanto em agosto, um veredito que a empresa está apelando. O próximo julgamento, envolvendo um demandante separado, está marcado para começar em 25 de fevereiro, e vários outros julgamentos estão previstos para este ano e para 2020. 

A Monsanto afirma que não há pesquisas científicas legítimas que demonstrem uma associação definitiva entre o glifosato e o NHL ou qualquer tipo de câncer. Representantes da empresa dizem que a constatação da EPA de que o glifosato “não é provável” causar câncer é respaldada por centenas de estudos que não encontram tal conexão. A empresa alega que os cientistas da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), que classificaram o glifosato como um provável carcinógeno humano em 2015, se envolveram em conduta imprópria e não conseguiram dar o peso adequado a vários estudos importantes.

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Garrafas de herbicida Roundup, um produto da Monsanto. Os resultados vêm como os reguladores em vários países consideram limitar o uso de produtos à base de glifosato na agricultura. Foto: Jeff Roberson / AP

Mas a nova análise poderia potencialmente complicar a defesa da Monsanto de seu herbicida mais vendido. Três dos autores do estudo foram escolhidos pela EPA como membros do conselho para um painel científico de 2016 sobre o glifosato. O novo artigo foi publicado pela revista Mutation Research / Reviews em Mutation Research, cujo editor-chefe é o cientista da EPA, David DeMarini.

Os autores do estudo dizem que sua metanálise é distinta de avaliações anteriores. “Este trabalho faz um caso mais forte do que as metanálises anteriores que há evidências de um aumento do risco de NHL devido à exposição ao glifosato”, disse a co-autora Lianne Sheppard, professora do Departamento de Ciências Ambientais e de Saúde Ocupacional da Universidade de Washington. “Do ponto de vista da saúde da população, existem algumas preocupações reais.” 

Sheppard foi um dos consultores científicos da EPA sobre o glifosato e estava entre um grupo desses conselheiros que disse à EPA que não seguiu os protocolos científicos adequados ao determinar que o glifosato não causaria câncer. “Foi errado”, disse Sheppard sobre a avaliação do glifosato da EPA. “Era óbvio que eles não seguiam suas próprias regras. “Existe evidência de que é cancerígeno? A resposta é sim.” 

Um porta-voz da EPA disse: “Estamos revisando o estudo.” A Bayer, que comprou a Monsanto no verão de 2018, não respondeu a um pedido de comentário sobre o estudo. 

Uma declaração da Bayer sobre o glifosato cita a avaliação da EPA e diz que os herbicidas à base de glifosato foram “extensivamente avaliados” e provaram ser uma “ferramenta segura e eficiente de controle de ervas daninhas”. 

Os autores do estudo disseram que sua nova metanálise avaliou todos os estudos em humanos publicados, incluindo um estudo financiado pelo governo atualizado em 2018, conhecido como Agricultural Health Study (AHS). A Monsanto citou o estudo atualizado da AHS como prova de que não há relação entre o glifosato e o NHL. Na condução da nova meta-análise, os pesquisadores disseram que se concentravam no grupo exposto mais alto em cada estudo, porque esses indivíduos estariam mais propensos a ter um risco elevado se, de fato, os herbicidas glifosato causassem NHL.

Olhando apenas para indivíduos com altas exposições do mundo real ao agrotóxico, é menos provável que os fatores de confusão possam distorcer os resultados, disseram os autores. Em essência – se não houver uma conexão verdadeira entre o produto químico e o câncer, mesmo indivíduos altamente expostos não devem desenvolver câncer a taxas significativas.

Além de olhar para os estudos em humanos, os pesquisadores também analisaram outros tipos de estudos sobre o glifosato, incluindo muitos conduzidos em animais. “Juntas, todas as metanálises realizadas até hoje, incluindo a nossa, relatam consistentemente a mesma descoberta importante: a exposição a GBHs (Herbicidas à Base de Glifosato) está associada a um risco aumentado de NHL”, concluíram os cientistas.

David Savitz, professor de epidemiologia na Escola de Saúde Pública da Brown University, disse que o trabalho foi “bem conduzido”, mas carece de “informações fundamentalmente novas”.

 “Eu sugiro que isso sustente a preocupação e a necessidade de avaliação, mas não coloque a questão em um sentido definitivo”, disse Savitz.

Carey Gillam é jornalista e autora e pesquisadora de interesse público do US Right to Know, um grupo de pesquisa da indústria de alimentos sem fins lucrativos.


Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo jornal ‘The Guardian” [Aqui!]