Mais de 11.000 pessoas estão processando a Bayer por causa do risco de câncer associado ao uso do Glifosato

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Por David Meyer para a revista Fortune

A Bayer está agora enfrentando cerca de 11.200  processos judiciais por causa das implicações negativas para a saúde do Roundup e do Ranger Pro, seus herbicidas à base de glifosato.

A gigante alemã revelou a figura na quarta-feira ao anunciar seus resultados para o ano fiscal de 2018. As vendas no ano subiram 13% e o EBITDA antes de itens especiais cresceu 2,8%, mas o lucro líquido do ano caiu mais de três quartos devido a um encargo de prejuízo de US $ 3,8 bilhões e outro encargo de US $ 2,3 bilhões em conexão com a aquisição da Monsanto, fabricante do Roundup.

“Nos últimos anos, temos sistematicamente desenvolvido em uma empresa de ciências da vida, claramente alinhado às megatendências em saúde e agricultura e unidos sob a forte marca guarda-chuva Bayer”, disse o presidente da Bayer, Werner Baumann. “A aquisição na área agrícola nos elevou à posição número um nesse mercado. A integração com a Monsanto teve um excelente começo ”.

As ações da Bayer, que tiveram grandes perdas no ano passado de julgamentos judiciais relacionados ao glifosato, subiram 4,7% no anúncio dos resultados. A empresa está atualmente apelando contra uma decisão que diz que seus produtos da Monsanto são responsáveis pelo câncer do jardineiro Dewayne Johnson. Mais sete casos estão previstos para ir a tribunal este ano – na verdade, um começou esta semana. No final de 2018, a Bayer disse que sabia de 9.300 demandantes. Isso significa um aumento de 20% nas reclamações em apenas três meses. “Temos a ciência do nosso lado e continuaremos a defender vigorosamente esse importante e seguro herbicida para uma agricultura moderna e sustentável”, disse Baumann.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês pela revista Fortune [Aqui!]

Estudo da UENF revela que água consumida em assentamento no Norte Fluminense apresenta contaminação

Coliformes fecais e totais, nitrogênio e, principalmente, altas concentrações de resíduos de agrotóxicos, foram encontrados

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Marcos Pedlowski alerta para o resultado apresentado (Foto: reprodução de Facebook)

Por Cláudia Freitas para o Portal Eu,Rio!

A revista científica Heliyon publicou nesta quinta-feira (7/3) um estudo feito por pesquisadores do Centro de Ciências do Homem, da Universidade Estadual do Norte Fluminense (CCH/UENF), que avalia a qualidade da água consumida por moradores do Assentamento Zumbi dos Palmares, localizado a cerca de 10 km do Centro de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense. Os resultados são alarmantes e revelam que em todos os parâmetros adotados as amostras apresentam índices elevados de contaminação por coliformes fecais e totais, nitrogênio e, principalmente, altas concentrações de resíduos de agrotóxicos, inclusive nitrato, em comparação com os padrões internacionais. Para os cientistas, a água na região deve ser classificada como inadequada para o consumo humano.

A novidade da pesquisa está na metodologia aplicada pelos cientistas da UENF. Eles desenvolveram o trabalho integrando fatores que normalmente não são avaliados e com critérios integrados. Utilizando os parâmetros físico-químicos (PH, condutividade, turbidez), os pesquisadores conseguiram identificar diversificados elementos de contaminação. “O que mais nos preocupa é a constatação de que as amostras são semelhantes às de várias áreas rurais do Brasil, ou seja, o problema deve estar afetando muitas populações, mais do que estamos imaginando”, afirma o professor Marcos Pedlowski, que integra o grupo de estudo.

O conteúdo da pesquisa destaca: “os resultados de nossas análises de poços rasos no assentamento Zumbi dos Palmares mostraram que várias amostras apresentavam valores além dos limites estipulados pela legislação brasileira que regula a qualidade da água utilizada para a água potável. Além disso, também observamos relações significativas entre diferentes variáveis apontando para um processo de contaminação da água causado por fontes provocadas pelo homem”. Para Pedlowski, apesar de não existir limites determinados na legislação brasileira, pelo menos dois dos agrotóxicos analisados estavam com concentrações acima do que é tolerado em outras partes do mundo, como o caso do herbicida Atrazina.

Em outro trecho, os autores enfatizam que as amostras de concentração de nitrato apresentaram valores elevados, em dois casos ultrapassando o limite estabelecido na Portaria 2914/2011 e fora dos padrões recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), para água potável. Os professores acreditam que a contaminação deve estar relacionada à lixiviação dos fertilizantes do solo, pois a maior concentração foi encontrada em períodos de chuva.

“Lembro que o estudo foi feito num assentamento de reforma agrária onde o uso de agrotóxicos não é elevado quando comparado com grandes áreas de monoculturas.  Os assentados são uma espécie de canário das minas de carvão.  Se o problema está se manifestando em áreas de agricultura familiar, imagina o que não está acontecendo em áreas hegemonizadas pela soja e pela cana-de-açúcar”, destaca o professor.

Na conclusão do trabalho, os autores sugerem que a qualidade da água consumida em áreas rurais de países em desenvolvimento tenha como referência outros parâmetros além da base no nível de contaminação biológica, passando a acrescentar, por exemplo, os níveis de nitrogênio associados ao uso de fertilizantes sintéticos e de agrotóxicos.

Pedlowski conta que as amostras de água analisadas foram coletadas em 2014, mesmo ano que o estudo foi finalizado. No entanto, os resultados só foram divulgados nesta quinta (7). Nos cinco últimos anos, outros trabalhos associados foram iniciados, mas ainda estão em andamento. De agosto de 2018 a fevereiro deste ano, Pedlowski esteve no Centro de Ecologia, Evolução e Alteração Ambiental da Universidade de Lisboa, em Portugal, participando de uma pesquisa sobre biorremediação de agrotóxicos. O estudo tem como uma das suas bases a pesquisa realizada pelos profissionais da UENF.

“A contaminação biológica é, talvez, de solução mais fácil. Mas a contaminação causada por fertilizantes sintéticos e agrotóxicos demanda uma mudança de paradigma no processo que é tradicionalmente utilizado para descontaminação de água para consumo humano. No caso dos agrotóxicos, o primeiro passo [em direção a uma bioerremediação] seria adotar padrões mais restritivos para a tolerância de resíduos na água, tal qual tem feito a União Europeia, por exemplo. Outra medida seria obrigar as empresas concessionárias de água e esgoto a aperfeiçoar seus sistemas de tratamento. Do contrário o problema só vai se agravar”, destaca Pedlowski.

O médico Décio Lerner, chefe do setor de Oncologia do Hospital São Vicente de Paulo (RJ), esclarece que esses tipos de agrotóxicos podem causar dano no DNA, elemento que está em todas as células e carrega toda a informação genética do indivíduo. Segundo ele, os agrotóxicos podem funcionar como fator desencadeante do câncer ao provocar esta modificação no DNA. O médico enfatiza também que não há estudos conclusivos sobre qual a quantidade e o tempo de exposição para causar prejuízos ao organismo humano.

Lerner diz ainda que alguns agrotóxicos estão implicados com lesão na medula óssea, órgão que fica dentro dos ossos e é responsável pela produção dos elementos sanguíneos. Nesse caso a “fábrica” do sangue pode simplesmente parar ou funcionar irregularmente, necessitando, assim, de um transplante de medula óssea.


Este artigo foi originalmente publicado pelo Portal Eu,Rio! [Aqui!]

“Brasileiro sofre com problemas crônicos por uso de agrotóxicos”, afirma pesquisadora

No programa Entre Vistas, da TVT, Larissa Bombardi ressaltou os perigos da aplicação intensiva de venenos nas lavouras

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“Mapeei os casos de malformação fetal em SP e é muito assustador. Consegue-se ver no mapa o uso intensivo de agrotóxicos”, diz pesquisadora / Herr stahlhoefer via Wikimedia Commons

Por Redação do jornal Brasil de Fato

Foi exibida nesta quinta-feira (7) na Rede TVT, mais uma edição do programa “Entre Vistas”. Com apresentação de Juca Kfouri. A entrevistada da noite foi Larissa Bombardi. Ela é doutora em geografia pela USP e especialista em agrotóxicos. João Paulo Rodrigues, da Coordenação do MST, e Yamila Goldfarb, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, fizeram comentários.

Bombardi é autora do Atlas “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia”, que detalha a extensão do uso e os problemas causados pelos produtos que a bancada ruralista chama de “defensivos agrícolas” dentro do país. Ela iniciou sua intervenção citando exemplos de alimentos importantes na dieta da população que estão altamente contaminados pelos agrotóxicos.

“O Brasil é extremamente permissivo no que diz respeito aos resíduos de agrotóxicos que nós permitimos nos alimentos e na água potável. A gente permite um resíduo do inseticida malationa no feijão quatrocentas vezes maior do que o permitido na União Europeia. Na soja, a gente permite o resíduo de glifosato duzentas vezes maior do que na União Europeia. Isso significa que se uma criança de vinte quilos ingerir cem gramas de soja por dia, ela terá extrapolado em 20% o que seu corpo pode tolerar de glifosato. Na água potável nós toleramos um resíduo de glifosato cinco mil vezes maior do que na União Europeia.

Segundo ela, do ponto de vista da saúde, o brasileiro tem problemas crônicos associados a essa exposição. “Não é só o câncer, temos problemas hormonais severos. Uma médica fez um mestrado na Chapada do Apodi e identificou puberdade precoce associada a agrotóxicos: bebês com dois anos com seios e pêlos pubianos. Eu mapeei os casos de malformação fetal no estado de São Paulo, e é muito assustador, porque a gente consegue enxergar no mapa, o uso intensivo de agrotóxicos”, diz.

Confira abaixo alguns trechos selecionados da entrevista e do debate:

Juca Kforui: Larissa, você apresenta a diferença do que é permitido aqui para o que não é permitido na União Europeia, mas boa parte desses tóxicos todos não é produzida por multinacionais com sede na União Europeia?

Larissa Bombardi: Esse é o maior exemplo da contradição. A gente tem 6 grandes empresas que controlam 70% do comércio de agrotóxicos do mundo, e uma parte delas tem sede na União Europeia. A realidade até 2018 é que as empresas estadounidenses e europeias controlam 70% do mercado de agrotóxicos e muitas dessas substâncias são proibidas nos seus territórios de origem.

Eu quando vejo anúncios do agronegócio pujante, que faz do Brasil líder em uma série de itens, e vejo os aviões passando e pulverizando os campos, fico orgulhoso da nossa tecnologia. Aí fico sabendo, por quem entende do assunto, que isso é proibido na União Europeia há mais de uma década. Para onde vamos, como mudar esse estado de coisas?

João Paulo: Em nossa leitura só é possível segurar isso se o consumidor participar desse debate. Ele compreender do ponto de vista da saúde pública e da sua saúde, o que está por trás dessa maquinaria envenenada chamada agronegócio. Você imagina a riqueza que é a população brasileira. Na Feira Nacional da Reforma Agrária do MST nós trouxemos 1600 produtos das mais diferentes áreas. Por que o Agronegócio quer padronizar a produção? Porque eles querem enfiar goela abaixo que os brasileiros tem que comer quatro produtos: milho, soja, arroz e trigo — e com veneno.

O fato da produção orgânica ser menor leva necessariamente ao produto orgânico ser mais caro?

Larissa Lombardi: Tem essa relação direta, por conta da oferta e da procura. Enquanto o orgânico é raro, é mais caro. E não porque é mais caro de ser produzido.

João Paulo: O custo de produção não é muito mais alto, a diferença é pequena. O que é alta é a especulação do agricultor que produz até chegar [no mercado]. É muito difícil você chegar em um supermercado da periferia e encontrar uma gôndola de orgânicos, você vai achar nas grandes redes, e lá eles organizam o preço.

O programa na íntegra pode ser conferido abaixo:

 


Esta reportagem foi originalmente publicada pelo jornal Brasil de Fato [Aqui!]

Agricultura envenenada: nova e ampla pesquisa descobre relação entre o aumento de câncer e o uso intensivo de Glifosato

Estudo mostra que exposição a herbicidas aumenta risco de câncer em 41%.

Evidência científica “apoia ligação” entre exposição a herbicidas com glifosato e aumento do risco de Linfoma Não-Hodgkin

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Garrafas de herbicida Roundup, um produto da Monsanto. Os resultados vêm como os reguladores em vários países consideram limitar o uso de produtos à base de glifosato na agricultura. Foto: Jeff Roberson / AP

Por Carey Gillam para o “The Guardian”

Uma nova e ampla análise científica do potencial causador de câncer de herbicidas à base de glifosato, o mais usado no mundo, descobriu que pessoas com alta exposição a este popular agrotóxico têm um risco 41% maior de desenvolver um tipo de câncer chamado Linfoma Não-Hodgkin.

Os autores afirmam que as evidências “suportam uma ligação convincente” entre exposições a herbicidas à base de glifosato e o aumento do risco de Linfoma Não-Hodgkin (NHL), embora tenham dito que as estimativas específicas de risco numérico devem ser interpretadas com cautela.

As descobertas de cinco cientistas norte-americanos contradizem as garantias de segurança da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) sobre o herbicida e surgem quando reguladores em vários países consideram limitar o uso de produtos à base de glifosato na agricultura. 

A Monsanto e sua proprietária alemã Bayer AG enfrentam mais de 9 mil ações judiciais nos Estados Unidos, trazidas por pessoas que sofrem de NHL, que culpam os herbicidas à base de glifosato da Monsanto por suas doenças. O primeiro demandante a ir a julgamento ganhou um veredito unânime do júri contra a Monsanto em agosto, um veredito que a empresa está apelando. O próximo julgamento, envolvendo um demandante separado, está marcado para começar em 25 de fevereiro, e vários outros julgamentos estão previstos para este ano e para 2020. 

A Monsanto afirma que não há pesquisas científicas legítimas que demonstrem uma associação definitiva entre o glifosato e o NHL ou qualquer tipo de câncer. Representantes da empresa dizem que a constatação da EPA de que o glifosato “não é provável” causar câncer é respaldada por centenas de estudos que não encontram tal conexão. A empresa alega que os cientistas da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), que classificaram o glifosato como um provável carcinógeno humano em 2015, se envolveram em conduta imprópria e não conseguiram dar o peso adequado a vários estudos importantes.

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Garrafas de herbicida Roundup, um produto da Monsanto. Os resultados vêm como os reguladores em vários países consideram limitar o uso de produtos à base de glifosato na agricultura. Foto: Jeff Roberson / AP

Mas a nova análise poderia potencialmente complicar a defesa da Monsanto de seu herbicida mais vendido. Três dos autores do estudo foram escolhidos pela EPA como membros do conselho para um painel científico de 2016 sobre o glifosato. O novo artigo foi publicado pela revista Mutation Research / Reviews em Mutation Research, cujo editor-chefe é o cientista da EPA, David DeMarini.

Os autores do estudo dizem que sua metanálise é distinta de avaliações anteriores. “Este trabalho faz um caso mais forte do que as metanálises anteriores que há evidências de um aumento do risco de NHL devido à exposição ao glifosato”, disse a co-autora Lianne Sheppard, professora do Departamento de Ciências Ambientais e de Saúde Ocupacional da Universidade de Washington. “Do ponto de vista da saúde da população, existem algumas preocupações reais.” 

Sheppard foi um dos consultores científicos da EPA sobre o glifosato e estava entre um grupo desses conselheiros que disse à EPA que não seguiu os protocolos científicos adequados ao determinar que o glifosato não causaria câncer. “Foi errado”, disse Sheppard sobre a avaliação do glifosato da EPA. “Era óbvio que eles não seguiam suas próprias regras. “Existe evidência de que é cancerígeno? A resposta é sim.” 

Um porta-voz da EPA disse: “Estamos revisando o estudo.” A Bayer, que comprou a Monsanto no verão de 2018, não respondeu a um pedido de comentário sobre o estudo. 

Uma declaração da Bayer sobre o glifosato cita a avaliação da EPA e diz que os herbicidas à base de glifosato foram “extensivamente avaliados” e provaram ser uma “ferramenta segura e eficiente de controle de ervas daninhas”. 

Os autores do estudo disseram que sua nova metanálise avaliou todos os estudos em humanos publicados, incluindo um estudo financiado pelo governo atualizado em 2018, conhecido como Agricultural Health Study (AHS). A Monsanto citou o estudo atualizado da AHS como prova de que não há relação entre o glifosato e o NHL. Na condução da nova meta-análise, os pesquisadores disseram que se concentravam no grupo exposto mais alto em cada estudo, porque esses indivíduos estariam mais propensos a ter um risco elevado se, de fato, os herbicidas glifosato causassem NHL.

Olhando apenas para indivíduos com altas exposições do mundo real ao agrotóxico, é menos provável que os fatores de confusão possam distorcer os resultados, disseram os autores. Em essência – se não houver uma conexão verdadeira entre o produto químico e o câncer, mesmo indivíduos altamente expostos não devem desenvolver câncer a taxas significativas.

Além de olhar para os estudos em humanos, os pesquisadores também analisaram outros tipos de estudos sobre o glifosato, incluindo muitos conduzidos em animais. “Juntas, todas as metanálises realizadas até hoje, incluindo a nossa, relatam consistentemente a mesma descoberta importante: a exposição a GBHs (Herbicidas à Base de Glifosato) está associada a um risco aumentado de NHL”, concluíram os cientistas.

David Savitz, professor de epidemiologia na Escola de Saúde Pública da Brown University, disse que o trabalho foi “bem conduzido”, mas carece de “informações fundamentalmente novas”.

 “Eu sugiro que isso sustente a preocupação e a necessidade de avaliação, mas não coloque a questão em um sentido definitivo”, disse Savitz.

Carey Gillam é jornalista e autora e pesquisadora de interesse público do US Right to Know, um grupo de pesquisa da indústria de alimentos sem fins lucrativos.


Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo jornal ‘The Guardian” [Aqui!]

O mistério do glifosato (cancerígena ou não?) mais próximo de ser resolvido

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A Environmental Protection Agency dos EUA (EPA) considera o agrotóxico glifosato como “pouco provável de ser carcinogênico para seres humanos”.  Enquanto isso, a Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer (IARC), uma entidade intergovernamental que faz parte da Organização Mundial da Saúde das Nações da Unidas, classificou o glifosato como “provavelmente carcinogênico para humanos (Grupo 2A)”.  Por um lado, a EPA afirma que não há evidência de que “o glifosato induz mutações in vivo por via oral”, enquanto por outro, a IARC concluiu que há “forte evidência” de que a exposição ao glifosato é genotóxica através de pelo menos dois mecanismos conhecidos por carcinógenos humanos (danos no DNA, estresse oxidativo).  

Intrigado com esta discrepância, ex-professor do Centro de Sustentação da Agricultura e Recursos Naturais da Washington State University, Charles M. Benbrook, decidiu averiguar porque e como a EPA e a IARC chegaram a conclusões tão diferentes sobre um mesmo principio ativo.

Um primeiro aspecto notado por Benbrook no artigo que acaba de ser publicado pela revista “Environmental Sciences Europe” foi que de um total de 52 ensaios de genotoxicidade realizados por registrantes (ou seja os fabricantes de agrotóxicos associados ao glifosato) foram citados pela EPA em sua avaliação de 2016 do glifosato técnico, e outros 52 ensaios apareceram na literatura científica. Destes, um ensaio regulador (2%) e 35 ensaios publicados (67%) relataram evidência positiva de uma resposta genotóxica. No caso de herbicidas formulados à base de glifosato (GBHs), 43 ensaios reguladores foram citados pela EPA, além de 65 ensaios publicados em revistas científicas que utilizam o “peer review” (revisão por pares). Destes, nenhum dos ensaios reguladores e 49 publicados (75%) relataram evidência de uma resposta genotóxica após a exposição a um GBH. Por outro lado, Benbrook apurou que a IARC considerou um total de 118 ensaios de genotoxicidade em seis tabelas principais sobre técnicas de glifosato, GBHs e ácido aminometilfosfônico (AMPA), o principal metabólito do glifosato.  

Assim, enquanto a análise da EPA englobou 51 destes 118 ensaios (43%). o IARC analisou outros 81 ensaios explorando outros possíveis mecanismos genotóxicos (principalmente relacionados a hormônios sexuais e estresse oxidativo), dos quais 62 (77%) relataram resultados positivos. Desta forma, a IARC colocou um peso considerável em três estudos positivos de GBH em populações humanas expostas, enquanto a EPA colocou pouco ou nenhum peso nelas.

Benbrook concluiu que a EPA e a IARC chegaram a conclusões diametralmente opostas sobre a genotoxicidade do glifosato por três razões principais: (1) nas tabelas principais compiladas pela EPA e IARC para produzir suas conclusões, a EPA baseou-se principalmente em estudos regulatórios não publicados e com registro, 99% dos quais foram negativos enquanto o IARC se baseou principalmente em estudos revisados  por outros pesquisadores no chamado sistema de “peer review”, dos quais 70% eram positivos (83 de 118).

Além disso, a avaliação da EPA baseou-se amplamente em dados de estudos sobre o glifosato técnico, enquanto a revisão da IARC atribuiu grande peso aos resultados dos ensaios formulados de GBH e AMPA. Finalmente, a avaliação da EPA foi focada em exposições dietéticas típicas da população em geral, assumindo usos legais em alimentos, e não levaram em conta, nem abordaram riscos e exposições ocupacionais geralmente mais altas. Por sua vez, a avaliação da IARC englobou dados de cenários típicos de exposição dietética, ocupacional e elevada.

Em conclusão, Benbrook apontou para a necessidade da realização de mais pesquisas sobre exposições do mundo real aos produtos químicos dentro dos GBHs formulados e o destino biológico e consequências de tais exposições.

Quem desejar ler o artigo de Charles Benbrook na íntegra, basta clicar [Aqui!]

Escândalo na União Européia: especialistas plagiaram documentos da Monsanto para renovar autorização de comercialização e uso do glifosato

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O jornal Diário de Notícias repercutiu hoje uma matéria inicialmente publicada pelo francês Le Monde que revelou que  um relatório encomendado por deputados europeus mais de um ano depois de ter sido renovada a autorização de comercialização na Europa foi praticamente copiado de um dossiê de  produzido pela Monsanto (empresa que comercializa o glifosato) e outras indústrias e que foi entregue às autoridades europeias.

A avaliação do relatório dos “especialistas” contratados pela União Europeia, realizada a pedido de deputados europeus dos Verdes, dos socialistas e do grupo da esquerda unitária, concluiu que 50% do documento oficial foi plagiado e 70% é resultado de cópia.  Segundo o artigo assinado pela jornalista Ana Bela Ferreira, a “análise foi feita pelo especialista em plágio austríaco Stefan Weber e pelo bioquímico Helmut Burstcher, da ONG Global 2000”. A matéria acrescenta ainda que “desde que o documento do BfR foi apresentado que existiam suspeitas que este teria sido escrito pela Task Force Europeia do Glifosato (consórcio de empresas de agrotóxicos)”.

Duas coisas a salientar em relação a esse verdadeiro escândalo. A primeira é que grande parte dos problemas associados à desinformação existente acerca dos malefícios ambientais e à saúde humana causados por agrotóxicos se relacionam à atuação pouco ético de cientistas que se prestam a servir de peões em prol dos interesses das corporações que produzem venenos agrícolas. A segunda é que estas revelações vão tornar ainda mais difícil a situação do Glifosato e, muito provavelmente, implicar em maiores perdas financeiras para a multinacional alemã Bayer que acaba de adquirir a Monsanto.

Enquanto isso no Brasil, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/MS) está mais preocupada em identificar “maus brasileiros” do que atuar para garantir a sustentabilidade ambiental e social da produção agrícola nacional.

Quem desejar o referido relatório que descobriu o plágio em prol do glifosato, basta clicar [Aqui!]

Especialistas contratados pela UE copiaram relatórios da Monsanto

Autores do relatório de avaliação dos riscos e que deram mais cinco anos de autorização para o uso do glifosato copiaram 70% da informação que estava no relatório feito pela própria produtora do herbicida

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O Roundup é a forma mais popular de comercialização do glifosato © REUTERS/Benoit Tessier/File Photo

Por Ana Bela Ferreira para o Diário de Notícias [1]

O Relatório Europeu de Avalliação dos riscos do glifosato – herbicida suspeito de poder causar cancro (i.e., câncer) – e que permitiu a renovação da autorização por cinco anos de utilização na União Europeia foi quase totalmente copiado de informações prestadas pela própria própria indústria que comercializa o produto.

A conclusão foi esta terça-feira revelada num relatório encomendado por deputados europeus mais de um ano depois de ter sido renovada a autorização de comercialização na Europa e noticiado pelo Le Monde . Um grupo de peritos alemães (do Bundesinstitut für Risikobewertung – BfR) foi mandatado pela União Europeia (UE) para avaliar os riscos do uso do glifosato, mas as 4000 páginas que produziu são afinal resultado de cópia e plágio do dossier de homologação produzido pela Monsanto (empresa que comercializa o glifosato) e outras indústrias e entregue às autoridades europeias.

Uma avaliação a esse relatório, pedido por deputados europeus dos Verdes, dos socialistas e do grupo da esquerda unitária, conclui que 50% do documento oficial foi plagiado e 70% é resultado de cópia. A análise foi feita pelo especialista em plágio austríaco Stefan Weber e pelo bioquímico Helmut Burstcher, da ONG Global 2000. Desde que o documento do BfR foi apresentado que existiam suspeitas que este teria sido escrito pela Task Force Europeia do Glifosato (consórcio de empresas de pesticidas).

Os autores usaram software WCopyfind para comparar os dois relatórios – o da indústria e o do BfR – e descobriram que “o plágio incidiu exclusivamente nos capítulos que tratam da avaliação de estudos publicados sobre riscos para a saúde relacionados com o glifosato”. O plágio é o ato de cópia maligna, o que inclui páginas inteiras, que descrevem o resultado dos estudos e avaliam a sua relevância e confiabilidade.

Entre outras coisas, cada uma das 58 avaliações chamadas Klimisch de estudos publicados no relatório de avaliação do BfR foram copiadas dos pedidos de aprovação e são apresentadas como avaliações das autoridades.

No capítulo sobre os estudos da indústria o método utilizado foi o da cópia e aparece numa percentagem ainda maior (81,4%). Ou seja, reprodução entre aspas. Neste capítulo, até a descrição do BfR sobre a abordagem para avaliar os estudos publicados foi plagiada a partir do relatório do consórcio de indústrias.

Foi este estudo encomendado ao instituto alemão que serviu de base à decisão da autoridade europeia de segurança alimentar (EFSA) e os peritos dos estados-membros decidiram que o glifosato não podia ser associado diretamente ao risco de cancro. Em março de 2015, a Organização Mundial da Saúde classificou como “provavelmente cancerígeno” o glifosato.

Em setembro de 2017, a Global 2000 já tinha revelado que três sub-capítulos do relatório tinham sido largamente copiados. Em novembro desse mesmo ano, a Comissão Europeia aprovava por mais cinco anos a utilização do glifosato.


Artigo publicado originalmente pelo Diário de Notícias [Aqui!]

Agrotóxico mais usado no mundo está ajudando a exterminar abelhas

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(FOTO: CREATIVE COMMONS / ROSTICHEAP)

Por REDAÇÃO GALILEU

Quando se fala em agrotóxico, na maior parte do tempo estamos tratando de glifosato, o herbicida mais usado no Brasil e no Mundo. Utilizado em 90% das lavouras de soja, alvo de diversas polêmicas e contestações de médicos à ambientalistas, mas fundamental para o agronegócio, está associado à morte das abelhas.

O N-(fosfonometil)glicina, princípio ativo do Roundup da Monsanto e mais uma centena de produtos agrícolas, age ao ser absorvido pela folha das plantas de crescimento rápido, também conhecidos como mato, e inibe a ação de enzimas que possibilitam sua existência.

Por não dependerem dessa enzima, o produto não afeta aos animais. Pelo menos é isso que se pensava. Um novo estudo realizado por pesquisadores da Universidade do Texas, nos EUA, mostra que o mesmo não acontece com microrganismos, muitos dos quais dependem a existência de animais, como as abelhas.

Publicado essa semana no Proceedings of National Academy of Sciences, o artigo explica que, assim como em nós, a saúde das abelhas depende de um ecossistema de bactérias que vive em seu trato digestivo. O glifosato mata algumas dessas bactérias, causando um desequilíbrio que reduz a capacidade do inseto combater infecções.

“Diretrizes atuais consideram que as abelhas não são prejudicadas pelo herbicida”, disse Erick Motta, estudante de pós-graduação que liderou a pesquisa, juntamente com a professora Nancy Moran. “Nosso estudo mostra que isso não é verdade”.

Para chegar à conclusão, os pesquisadores expuseram as abelhas a níveis normalmente encontrados em plantações e jardins (é grande a chance do jardineiro perto da sua casa usar esse agrotóxico). Pintaram suas costas para que pudessem reconhecê-las e liberaram para seguir sua vida normal.

Abelhas marcadas para morrer. (Foto: Universidade do Texas)

Abelhas marcadas para morrer (FOTO: UNIVERSIDADE DO TEXAS)

Recapturadas três dias depois, eles observaram que o herbicida reduziu significativamente a microbiota intestinal saudável. Das oito espécies dominantes de bactérias saudáveis ​​nas abelhas expostas, quatro foram consideradas menos abundantes. A espécie mais atingida, Snodgrassella alvi, ajuda as abelhas a processarem alimentos e a se defenderem contra patógenos.

Mais tarde, ao expor as abelhas a um patógeno oportunista (Serratia marcescens), morreram com mais frequência que as abelhas sem glifosato. Cerca de metade das abelhas com um microbioma saudável ainda estavam vivas oito dias após a exposição ao patógeno, enquanto apenas cerca de um décimo dos insetos cujos microbiomas haviam sido alterados pela exposição ao herbicida ainda estavam vivas.

“Estudos em humanos, abelhas e outros animais mostraram que o microbioma intestinal é uma comunidade estável que resiste à infecção por invasores oportunistas”, disse Moran. “Então, se você interromper a comunidade normal e estável, estará mais suscetível a essa invasão de patógenos”.

A descoberta entra para uma longa lista de polêmicas que envolvem o agrotóxico mais popular do mundo. “Não é a única coisa que causa todas essas mortes de abelhas, mas é definitivamente algo que as pessoas deveriam se preocupar porque o glifosato é usado em todos os lugares”, disse Motta.

São várias a críticas sobre o sistema da Monsanto, que vão da dependência e endividamento de pequenos produtores, desenvolvimento de plantas resistentes à substância, ao extermínio da biodiversidade. É considerado potencialmente cancerígeno pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Apesar da Monsanto (e sua nova controladora Bayer) atestar a segurança do produto com 40 anos de uso no mercado, em agosto a justiça dos Estados Unidos a sentenciou a pagar US$ 289 (cerca de R$ 1,1 bilhão) ao jardineiro Dewayne Johnson que alega ter contraído câncer devido ao uso do Roundup e do RangerPro, um glifosato de segunda linha da Monsanto.

No Brasil, a juíza substituta Luciana Raquel Tolentino de Moura acatou, no dia 3 de agosto, o pedido do Ministério Público Federal, sob a alegação de demora na reavaliação toxicológica do glifosato, e proibiu o uso em todo o País. A ordem para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária era priorizar a reavaliação até o dia 31 de dezembro.

Um dos principais principais interessados no assunto é o ministro da agricultura Blairo Maggi. Um dos maiores produtores de soja do Brasil, ele afirmou que a decisão impediria o plantio de 95% da área de soja, milho e algodão, as três maiores culturas anuais do País. “É muito importante dizer: não há saída sem o glifosato; ou não planta, ou faz desobediência da ordem judicial”, disse Maggi.

No dia 3 de setembro, o presidente em exercício do Tribunal Regional Federal da Primeira Região (TRF-1), desembargador Kássio Marques, derrubou a liminar. Uma de suas alegações foi que “nada justifica a suspensão dos registros dos produtos” sem a “análise dos graves impactos que tal medida trará à economia do país”.

FONTE: https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Meio-Ambiente/noticia/2018/09/agrotoxico-mais-usado-no-mundo-esta-ajudando-exterminar-abelhas.html?utm_campaign=agricultura&utm_content=77735133&utm_medium=social&utm_source=facebook