Frente Ampla ou Capitulação de Classes? O tempo não para

frente ampla

Os ex-presidentes Lula e Fernando Henrique Cardoso em diálogo sobre as eleições de 2022

Por Carlos Eduardo Rosa Martins*

O problema não é só Bolsonaro, mas também o Parlamento que o sustenta e deu o golpe de 2016. A única possibilidade de recuperarmos a soberania é enfrentando o bloco neoliberal-neofascista que se formou a partir de 2015 e isso só se faz com ampla mobilização popular e ideológica. 

Só com uma campanha ideológica poderemos desafiar a hegemonia liberal no Parlamento, seja pela mudança de sua composição, seja pela formação de uma forte opinião pública que a iniba como em 1988, quando a forte pressão popular nos garantiu uma constituição progressista, mesmo com a presença do Centrão eleito pelo Plano Cruzado. 

Se o principal dirigente do campo progressista se recusa a fazer isso, teremos enormes dificuldades. O basismo do qual o PT nunca se desvencilhou, termina por manter nosso povo em posição submissa mas o papel de um partido de esquerda é o de não se render ao caminho mais fácil e mais curto. 

Lula encontra-se com o ex-presidente José Sarney | Poder360

Os ex-presidentes Lula e José Sarney m diálogo sobre as eleições de 2022

A frente ampla que se pretende construir parece se  resumir a uma capitulação programática para atrair a centro-direita golpista no segundo turno, pois dela sequer fará parte no primeiro, uma vez que PSDB, PSD etc não  abrirão mão de seus candidatos próprios. Tal capitulação programática implica ainda em infiltração nos partidos de esquerda para impedir a construção de alternativas, no velho estilo neoliberal TINA, ou “there is no alternative“. 

É  altamente questionável a necessidade de composição com a centro-direita golpista para vencer as eleições. Alerto que a Terra não vai parar em 2022. Os “aliados” da centro-direita trabalharão para esvaziar e desestabilizar o governo Lula em 1° de janeiro de 2023 e, rendidos, estaremos desarmados para enfrenta-los.  

A esquerda não pode servir apenas para resolver as contradições internas do bloco neoliberal-neofascista. Os primeiros têm  a mesma agenda econômica dos últimos e apenas restrições ao seu modelo político de Estado. A retomada pela esquerda do capitulacionismo  do segundo mandato de Dilma poderá ter graves consequências para a luta real pela hegemonia.

*Carlos Eduardo Martins é doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Programa de Estudos sobre Economia Política Internacional (UFRJ), coordenador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia (LEHC/UFRJ), coordenador do Grupo de Integração e União Sul-Americana do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso).