Quem controla o futuro de São João da Barra? Porto do Açu, captura institucional e democracia ambiental

Quando o regulado passa a influenciar o regulador: as lições de um estudo internacional para compreender a crescente centralidade do Porto do Açu na governança ambiental de São João da Barra

Um dos maiores desafios da governança ambiental contemporânea não é apenas a degradação dos ecossistemas, mas a crescente capacidade das grandes corporações de influenciar – e, em alguns casos, moldar – as instituições responsáveis por regulá-las. Essa é a principal reflexão desenvolvida por Alex T. Ford e um amplo grupo internacional de pesquisadores no artigo “Corporate Capture Strategies Impacting Human and Ecosystem Health, publicado na revista Environmental Science & Technology Letter. O trabalho sistematiza as principais estratégias utilizadas por corporações para ampliar sua influência sobre governos, agências reguladoras, instituições científicas e espaços de participação social, produzindo impactos diretos sobre a saúde humana e dos ecossistemas.

Embora o artigo apresente uma análise de alcance global, suas conclusões parecem especialmente relevantes para países e regiões onde as instituições estatais são relativamente frágeis, a sociedade civil dispõe de poucos recursos para disputar os processos decisórios e os mecanismos de participação democrática funcionam de maneira limitada ou profundamente assimétrica. Nesses contextos, a captura institucional deixa de ser um fenômeno pontual e passa a constituir um modo de governança, no qual interesses privados acabam ocupando espaços tradicionalmente destinados à defesa do interesse público.

Segundo Ford e seus colaboradores, a captura corporativa não ocorre apenas por meio do lobby tradicional ou do financiamento de campanhas políticas. Ela envolve estratégias muito mais sofisticadas, como a produção de conhecimento técnico, a ocupação de fóruns consultivos, a construção de parcerias com órgãos públicos, o financiamento de pesquisas, a influência sobre processos regulatórios e a apropriação do discurso da sustentabilidade. Em vez de confrontar diretamente o Estado, grandes empresas passam a atuar dentro das próprias estruturas institucionais que deveriam exercer sua fiscalização.

Essa discussão dialoga de maneira particularmente interessante com o que vem ocorrendo em São João da Barra, município profundamente transformado pela implantação do Porto do Açu. Ao longo dos últimos anos, o empreendimento consolidou uma posição econômica dominante, tornando-se um dos principais agentes privados do território. Em paralelo a essa centralidade econômica, observa-se uma ampliação de sua presença em espaços de formulação de políticas públicas, incluindo a ocupação da presidência do Conselho Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e sua participação ativa na elaboração do novo Plano Diretor Municipal.

É importante destacar que não há qualquer impedimento para que representantes do setor produtivo participem desses espaços. Ao contrário, a pluralidade de atores é um princípio importante da governança democrática. O problema surge quando o principal empreendimento econômico do município, dotado de recursos financeiros, jurídicos, técnicos e comunicacionais incomparavelmente superiores aos dos demais segmentos sociais, passa a exercer uma influência desproporcional sobre as instâncias responsáveis por definir justamente as regras que disciplinarão sua própria expansão.

Essa situação produz um evidente conflito estrutural de interesses. O Conselho Municipal de Meio Ambiente deveria funcionar como espaço de controle social, mediação de conflitos e defesa do patrimônio ambiental coletivo. Da mesma forma, o Plano Diretor constitui o principal instrumento de ordenamento territorial, definindo o uso do solo, as áreas de expansão urbana, os espaços destinados à proteção ambiental e as diretrizes para o desenvolvimento futuro do município. Quando o maior interessado nos resultados dessas decisões ocupa posição privilegiada nesses processos, a distinção entre regulador e regulado tende a tornar-se cada vez mais tênue.

O caso torna-se ainda mais significativo quando analisado à luz do conceito de enclave econômico. O Porto do Açu já representa um empreendimento altamente integrado aos fluxos globais do comércio internacional, mas relativamente pouco conectado à dinâmica econômica local. O risco que agora se apresenta é a transformação desse enclave econômico em um enclave institucional, capaz de exercer influência direta sobre a arquitetura da governança ambiental e do planejamento territorial do município.

Ford e seus coautores alertam que uma das principais consequências das estratégias de captura corporativa é justamente a redução da capacidade crítica das instituições públicas. As decisões deixam de refletir um equilíbrio entre diferentes interesses sociais e passam a ser orientadas por uma visão tecnocrática na qual crescimento econômico, eficiência logística e atração de investimentos aparecem como prioridades incontestáveis, enquanto conflitos ambientais, modos tradicionais de vida, pesca artesanal, agricultura familiar e direitos territoriais tendem a ocupar posições secundárias.

Essa reflexão é particularmente pertinente para São João da Barra, onde pescadores artesanais, agricultores e comunidades tradicionais convivem há anos com processos de desterritorialização, restrições de acesso a áreas tradicionalmente utilizadas e profundas transformações socioambientais decorrentes da expansão do complexo portuário-industrial. A participação direta do empreendimento nos principais espaços de governança ambiental levanta uma questão fundamental para a democracia local: quem está efetivamente definindo o futuro do território?

Talvez essa seja a principal contribuição do artigo de Alex T. Ford e seus colaboradores. Mais do que denunciar estratégias corporativas de influência, os autores lembram que a proteção ambiental depende da existência de instituições públicas independentes, processos decisórios transparentes e mecanismos efetivos de participação social. Quando essas condições se enfraquecem, a governança ambiental corre o risco de deixar de representar o interesse coletivo para tornar-se uma extensão dos interesses econômicos dominantes.

No caso de São João da Barra, essa discussão está longe de ser abstrata. Ela diz respeito ao direito das comunidades locais de participar das decisões sobre seu próprio território e à capacidade do poder público de exercer sua função constitucional de proteger o meio ambiente e promover um desenvolvimento verdadeiramente democrático. Afinal, quando o principal agente econômico passa a ocupar posições centrais na definição das políticas que o regulam, a pergunta que permanece é simples, mas decisiva: estamos diante de um processo de participação plural ou de uma sofisticada forma de captura da governança pública?

Organizações ambientais acionam a justiça contra a captura corporativa do Conselho de Meio Ambiente de São João da Barra

Entidades denunciam captura corporativa de vagas da sociedade civil e pedem suspensão imediata do processo eleitoral do CMMADS

SÃO JOÃO DA BARRA, RJ — Três organizações da sociedade civil ingressaram com um Mandado de Segurança, com pedido de liminar urgente, na Vara Cível da Comarca de São João da Barra/RJ. A ação, movida pelo Movimento Baía Viva, Instituto Visão Social e Associação Regional Núcleo de Vigília Cidadã (ARNVC), visa anular o recente processo eleitoral que definiu os membros do Conselho Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CMMADS) para o biênio 2025/2027.

O processo aponta como autoridades coatoras a Secretária Municipal de Meio Ambiente, Marcela Nogueira Toledo, e a Prefeita do Município, Karla Chagas Maia. Segundo a denúncia apresentada à Justiça, a eleição foi marcada por graves vícios legais que desvirtuaram o princípio da paridade do Conselho e permitiram a apropriação de vagas destinadas à sociedade civil por grandes grupos econômicos e empresariais.

Principais Irregularidades Denunciadas

A petição inicial detalha uma série de manobras administrativas e quebras de protocolo durante a eleição realizada em 18 de dezembro de 2025. Entre os motivos expostos no documento estão:

  • Empresas Ocupando Vagas da Sociedade Civil: O processo eleitoral enquadrou de forma indevida pessoas jurídicas empresariais com fins lucrativos em vagas que deveriam ser exclusivas de organizações não governamentais da sociedade civil. As empresas Porto do Açu Operações S.A. e Reserva Ambiental Fazenda Caruara S.A. concorreram e foram eleitas nessa categoria.
  • Monopólio e Concentração de Poder: As duas empresas eleitas pertencem ao mesmo grupo econômico. A Reserva Caruara S.A. é controlada em 99,30% pela Porto do Açu Operações S.A. Ambas compartilham o mesmo quadro de sócios-administradores. Essa manobra garantiu ao mesmo grupo corporativo a ocupação de duas vagas simultâneas destinadas à sociedade civil, configurando indevida concentração de poder.
  • Conflito de Interesses na Presidência: Agravando a situação, a empresa Reserva Caruara S.A. assumiu a Presidência do Conselho, assumindo o controle da pauta e das deliberações. As entidades alertam para o conflito de interesses ao permitir que empresas potencialmente impactantes ao meio ambiente presidam o órgão responsável por acompanhar e formular políticas ambientais no município.
  • Regras Inventadas e “Votos Fantasmas”: Durante a condução da eleição, a Secretaria de Meio Ambiente criou regras e divisões de categorias que não existem na Lei de criação do CMMADS nem em seu Regimento Interno. A denúncia destaca ainda que a empresa Porto do Açu Operações S.A. sequer constava na lista de presença da eleição, mas participou e foi considerada no resultado final.
  • Ausência de Fórum Qualificado: O Regimento Interno do Conselho exige que a eleição da sociedade civil seja realizada em um Fórum próprio, preferencialmente com palestras de especialistas. No entanto, a eleição ocorreu em uma assembleia ordinária comum, descumprindo o formato técnico e deliberativo exigido.

Pedidos à Justiça

Diante do risco iminente de decisões ambientais serem tomadas sob influência de interesses econômicos, as organizações requerem à Justiça a concessão de medida liminar para suspender imediatamente os efeitos do processo eleitoral e paralisar as reuniões da atual composição do CMMADS.

A ação exige o afastamento imediato das empresas Porto do Açu e Reserva Caruara das vagas da sociedade civil. Por fim, solicita que a Justiça determine a realização de um novo processo eleitoral no prazo de 30 dias, seguindo rigorosamente a legislação municipal e o Regimento Interno do Conselho.

A raposa no comando do galinheiro: a captura corporativa da conservação ambiental

Escondidas sob o discurso da proteção da biodiversidade, grandes empresas avançam sobre territórios de uso comum, convertem a natureza em ativo e desterritorializam comunidades tradicionais

Uma nota publicada no “Portal Portuário” anuncia a criação da Rede Brasileira de Reservas Privadas (RBRP), uma iniciativa que, à primeira vista, se insere em uma agenda amplamente legitimada — a conservação ambiental e o cumprimento de metas globais de biodiversidade. No entanto, em uma rápida leitura crítica encontramos fortes tensões entre essa agenda e os modos de vida de comunidades tradicionais, especialmente quando a proteção ambiental é apropriada por grandes corporações como instrumento de reorganização territorial. 

Desta forma, a criação da rede liderada por empresas como Vale, Suzano e Reservas Votorantim deve ser situada no contexto mais amplo da financeirização da natureza e da crescente centralidade dos chamados “serviços ecossistêmicos”. Nesse quadro, a conservação deixa de ser apenas um imperativo ético ou ecológico e passa a ser também um ativo estratégico, com valor econômico, reputacional e geopolítico. O problema não está necessariamente na conservação em si, mas na forma como ela é territorializada e governada, muitas vezes seguindo a lógica corporativa.

Historicamente, processos de criação de áreas protegidas — inclusive públicas — já foram associados à expulsão ou marginalização de populações locais. O que se observa agora é uma reconfiguração desse fenômeno: a privatização da conservação. Quando grandes empresas passam a gerir extensas áreas “protegidas”, frequentemente em regiões onde há ou houve usos comunitários, abre-se espaço para processos de desterritorialização mais sutis, porém igualmente impactantes. Comunidades que dependem desses territórios para práticas como pesca artesanal, extrativismo ou agricultura de subsistência podem ser excluídas em nome de uma racionalidade ambiental que não reconhece seus modos de vida como compatíveis com a conservação. Coincidentemente ou não, isso é o que assistimos nas disputas envolvendo o acesso e uso dos recursos pesqueiros na Lagoa de Iquipari que foi sutilmente incorporada à fazenda particular que o Grupo EBX comprou para transformar na RPPN Caruara.

Esse ponto é crucial: muitas comunidades tradicionais são, historicamente, agentes de conservação dado que seus sistemas de uso comum (baseados em regras consuetudinárias e conhecimentos locais) frequentemente garantem a manutenção da biodiversidade. No entanto, a lógica corporativa tende a deslegitimar esses saberes, substituindo-os por modelos técnicos e gerenciais que privilegiam métricas, certificações e padrões internacionais. Assim, o que se apresenta como “proteção da natureza” pode, na prática, significar a substituição de um regime de uso coletivo por um regime de controle privado.

Além disso, há uma dimensão política importante. Empresas com histórico de impactos socioambientais significativos passam a ocupar um lugar de protagonismo na governança ambiental. Isso na prática funciona como estratégia de “greenwashing”, e também como mecanismo de reconfiguração de poder: ao se posicionarem como guardiãs da biodiversidade, essas corporações ampliam sua legitimidade pública e sua capacidade de influenciar políticas ambientais. A governança “colaborativa” mencionada no texto pode, nesse sentido, mascarar assimetrias profundas entre atores corporativos e comunidades locais.

Outro elemento relevante é a articulação com agendas globais, como o Marco Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal. Embora essas metas sejam importantes, sua implementação pode reforçar dinâmicas de cima para baixo, em que compromissos internacionais são traduzidos em intervenções territoriais sem a devida participação das populações afetadas. A padronização de práticas de conservação em escala global tende a ignorar especificidades locais, favorecendo soluções que são mais facilmente mensuráveis e reportáveis — algo que se alinha bem com a lógica corporativa, mas nem sempre com a justiça socioambiental.

Portanto, a iniciativa da criação da RBRP deve ser analisada a partir de uma tensão central: entre conservação e justiça territorial. A proteção ambiental não é neutra; ela envolve disputas sobre quem decide, quem se beneficia e quem arca com os custos. Quando a conservação é apropriada por grandes empresas, sem mecanismos robustos de participação e reconhecimento dos direitos das comunidades tradicionais, há o risco de que ela se torne mais um vetor de expropriação.

Uma abordagem mais equilibrada exigiria, no mínimo, o reconhecimento dos territórios de uso comum, a garantia de consulta prévia, livre e informada, e a incorporação efetiva dos conhecimentos tradicionais na gestão ambiental. Sem isso, iniciativas como a RBRP podem acabar reforçando uma lógica em que a natureza é protegida, mas à custa da exclusão daqueles que historicamente a preservaram.

Em última instância, há um risco evidente — e difícil de ignorar — de que estejamos diante de uma situação em que a “raposa passa a tomar conta do galinheiro”. Quando corporações com histórico de forte impacto ambiental e territorial assumem o protagonismo na definição, gestão e legitimação de áreas de conservação, cria-se um cenário de potencial conflito de interesses estrutural. A mesma racionalidade que orienta a expansão de empreendimentos extrativos ou monoculturas em larga escala passa a moldar os critérios de proteção ambiental, o que pode resultar em formas seletivas e estratégicas de conservação — aquelas que não confrontam, e por vezes até compensam, os danos gerados em outros territórios. Nesse arranjo, a conservação corre o risco de deixar de ser um fim em si mesma e tornar-se um instrumento de gestão de imagem, compensação ambiental e controle territorial, frequentemente à revelia — ou em detrimento — das comunidades que historicamente cuidaram desses espaços.

De São João da Barra ao Brasil: a denúncia sobre a captura do CMMADS pelo Porto do Açu ganha escala nacional

Empresas teriam ocupado cadeiras destinadas à sociedade civil no Conselho Municipal de Meio Ambiente, levantando questionamentos sobre conflito de interesses

Porto do Açu

Por Redação Fórum 

Uma carta aberta divulgada por entidades da sociedade civil levanta questionamentos sobre a composição e a condução de conselhos ambientais no país, a partir de um caso ocorrido em São João da Barra, no Rio de Janeiro – região estratégica para o setor de óleo, gás e transição energética.

A denúncia cita a participação do Porto do Açu Operações S.A. e de sua subsidiária, Reserva Ambiental Fazenda Caruara S.A., que passaram a ocupar assentos no colegiado. Para as entidades, o fato de ambas integrarem o mesmo grupo econômico levanta dúvidas sobre a pluralidade de representação – princípio central de conselhos participativos.

Outro ponto destacado é a eleição da Reserva Caruara S.A. para a presidência do conselho, em janeiro de 2026. Os autores da carta apontam possível conflito de interesses, uma vez que o colegiado tem entre suas atribuições a fiscalização e o acompanhamento de atividades com impacto ambiental – incluindo empreendimentos ligados ao próprio grupo empresarial.

O caso ocorre em um momento em que o Brasil discute a ampliação de projetos energéticos e industriais, especialmente em regiões costeiras, o que aumenta a importância de mecanismos de controle social independentes e representativos.

As entidades defendem a anulação do processo eleitoral realizado em 18 de dezembro de 2025, o afastamento da atual presidência e a realização de novas eleições, restritas a organizações da sociedade civil, conforme previsto nas normas do conselho.

Procuradas, as instituições citadas não se manifestaram até o fechamento deste texto. O espaço segue aberto para posicionamento.


Fonte: Fórum

A captura corporativa minou o progresso na COP30

A COP30 foi alvo de críticas consideráveis, inclusive por sua falha em abordar de forma significativa os perigos que a crise climática representa para a saúde

COP30 agronegócio

Manifestantes denunciaram a contaminação do Cerrado por agrotóxicos na entrada da Agrizone da COP30. Mais de 70% dos agrotóxicos utilizados no Brasil são usados ​​no Cerrado, muitos dos quais são proibidos na Europa. Foto: Oliver Kornblihtt / Mídia NINJA 

Por Ana Vračar para “People´s Dispatch” 

A COP30 deste ano foi alvo de consideráveis ​​críticas, inclusive por sua falha em abordar de forma significativa os perigos que a crise climática representa para a saúde. Ao mesmo tempo, grandes corporações do agronegócio – que desempenham um papel central na deterioração da saúde e do meio ambiente – estiveram presentes no fórum. Muitos ativistas e comunidades indígenas soaram o alarme, especialmente considerando que essas empresas continuam a ameaçar a saúde e os meios de subsistência das pessoas por meio da apropriação de terras, do uso de pesticidas e da comercialização de alimentos ultraprocessados.

Juntamente com as novas tentativas dos governos do Norte Global de evitar assumir a responsabilidade financeira pelas suas contribuições para a crise climática, as preocupações com a participação e a captura corporativa deixaram muitos observadores com a impressão de que a COP30 ficou muito aquém do necessário. A esperança em Belém residia, em vez disso, nas iniciativas populares.

UPF e gigantes do agronegócio na COP

Repórteres do projeto de mídia brasileiro O Joio e o Trigo documentaram a influência exercida pelo agronegócio durante a preparação e a implementação da COP30. Eles observaram que alguns documentos-chave, que pretendiam delinear uma visão de agricultura mais sustentável, foram, na realidade, fortemente influenciados por atores da indústria. Um dos documentos, por exemplo, propôs que o modelo agroindustrial atual é capaz de acabar com a fome no mundo sem prejudicar as comunidades ou o planeta. Essas afirmações, argumentam os repórteres, são profundamente enganosas, principalmente porque ignoram os perigos mais urgentes decorrentes da agricultura industrial.

Uma das omissões mais flagrantes nesse contexto foi o impacto do uso de agrotóxicos no setor agrícola brasileiro. “Se os agrotóxicos são ignorados, os danos que causam também são ignorados; esse silêncio é ensurdecedor em um momento em que as evidências de comunidades prejudicadas pela exposição a agrotóxicos e a crescente suspeita sobre sua ligação com o aumento das taxas de câncer se acumulam rapidamente”, alertou o jornal O Joio eo Trigo .

Empresas com histórico comprovado de comprometimento da saúde humana e planetária marcaram presença na COP30. Bayer e Nestlé, por exemplo, montaram estandes chamativos. Aparentemente, a Nestlé atraiu visitantes oferecendo café e chocolate quente gratuitos. Isso coincidiu quase perfeitamente com a publicação de uma nova série na revista The Lancet , que apontou a empresa como uma das principais integrantes das redes globais da indústria alimentícia que trabalham para sabotar as regulamentações de saúde pública destinadas a mitigar as consequências do consumo de alimentos ultraprocessados. A pegada ambiental da produção desses alimentos, por si só, já seria motivo suficiente para encarar essa participação corporativa com ceticismo; no entanto, empresas semelhantes ainda conseguem se posicionar como participantes legítimos no debate sobre mudanças climáticas.

Uma visão radicalmente diferente surgiu das dezenas de milhares de pessoas que participaram de eventos e marchas alternativas fora dos espaços oficiais da COP30. Muitos, incluindo ativistas do Movimento Popular pela Saúde (PHM), reuniram-se por meio da Cúpula dos Povos . A declaração do encontro identifica atores como as grandes empresas alimentícias como os principais responsáveis ​​pela crise climática. “As corporações transnacionais, em conluio com governos do Norte Global, estão no centro do poder no sistema capitalista, racista e patriarcal, sendo os atores que mais causam e se beneficiam das múltiplas crises que enfrentamos”, afirma o documento.

Ativistas argumentam que uma mudança genuína no enfrentamento da crise climática só pode ser alcançada colocando os movimentos populares no centro das atenções. “Se hoje, aqui em Belém do Pará, a política internacional, o meio ambiente e as mudanças climáticas estão em debate, aqueles que são mais afetados por essas mudanças climáticas devem estar na linha de frente”, disse a fisioterapeuta e parlamentar Vivi Reis à Outra Saúde .

“Já está claro que, na prática, as COPs tiveram pouca influência na luta contra as mudanças climáticas e que as verdadeiras respostas e alternativas são construídas por quem está no terreno”, disse Reis.

Ao contrário das corporações, cujas chamadas soluções se baseiam em combustíveis fósseis, devastação de terras e extrativismo, os movimentos populares estão promovendo modelos enraizados na justiça social e no conhecimento ancestral . “Os povos produzem alimentos saudáveis ​​para alimentar o povo, a fim de eliminar a fome no mundo, com base na cooperação e no acesso a técnicas e tecnologias sob controle popular”, afirma a declaração da Cúpula dos Povos. “Este é um exemplo de uma solução real para enfrentar a crise climática”, acrescenta, enfatizando a necessidade de reforma agrária popular e agroecologia.

A declaração também menciona conexões entre outras tendências em curso no Norte Global, nomeadamente o militarismo, e a crise climática, enfatizando novamente que uma transição significativa deve ser abrangente e abordar todas as fontes de injustiça. “Exigimos o fim das guerras, exigimos a desmilitarização”, afirma o texto. “Que todos os recursos financeiros alocados às guerras e à indústria bélica sejam redirecionados para a transformação deste mundo. [Exigimos] que os gastos militares sejam direcionados para a reparação e recuperação das regiões afetadas por desastres climáticos.”

O Boletim Informativo de Saúde Popular é uma publicação quinzenal do Movimento Popular de Saúde e do jornal People’s Dispatch . Para ler mais artigos e assinar o Boletim Informativo de Saúde Popular, clique aqui .


Fonte: People´s Dispatch