Cicatrizes da monocultura: Em Rondônia, trabalhadores da soja relatam lesões e abusos em contratada da Cargill

Pelo menos 6 funcionários da Bertolini Ltda, empresa que transporta os grãos da Cargill pelo rio Madeira (RO), relatam problemas de saúde como dedos amputados e perda de visão por conta de acidentes trabalhistas; empresa nega violar legislação trabalhista

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Por Daniel Camargos, de Porto Velho (RO). Fotos: Fernando Martinho | para a Repórter Brasil

Dedos amputados, perda de visão e cirurgias na coluna são algumas das cicatrizes deixadas pela crescente produção de soja no Brasil. Apenas o transporte do grão da Cargill — um dos maiores conglomerados do agronegócio mundial — pelo rio Madeira, em Rondônia, deixa um legado de trabalhadores com lesões graves decorrentes de acidentes trabalhistas e de violações de normas de segurança.

Repórter Brasil ouviu seis funcionários e ex-funcionários da Transportes Bertolini Ltda (TBL), empresa contratada pela Cargill para fazer o transporte da soja pelo rio, que sofreram graves acidentes trabalhistas, na maior parte das vezes após jornadas irregulares de mais de 30 horas sem descanso. Além dos problemas de saúde, os trabalhadores se queixam da exposição à poeira repleta de agrotóxicos do grão e da omissão da empresa. Três deles só conseguiram indenizações após entrarem com ações na Justiça.

Cicatriz da cirurgia de hérnia de disco de James Vasconcelos; mesmo depois da operação, ele segue trabalhando em serviços que exigem esforço da coluna. ‘Se continuar fazendo isso, o problema pode se agravar e até me deixar numa cadeira de rodas’ (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Célio Albuquerque, 56 anos, trabalhava como marinheiro em dois portos de soja movimentando cabos de aço. Ele conta que, após 19 horas seguidas de trabalho, um cabo soltou e atingiu sua cabeça. “Rasgou meu capacete, quebrou meu nariz e acertou meu olho”.

Albuquerque era integrante da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa) e seis meses antes do acidente enviou para a empresa um relatório, com fotos, mostrando que a estrutura que sustentava o cabo estava avariada. Após o acidente, ele relata ter escutado dos responsáveis da TBL e da Cargill que receberia assistência médica. “As duas pularam fora e consegui fazer a cirurgia só depois de uma liminar determinando que as empresas pagassem, mas acabei perdendo a visão do olho direito”.  

Sem condições de voltar ao trabalho, Albuquerque entrou com um pedido de rescisão indireta, alegando na ação outras violações, como o excesso de jornada de trabalho, pois diz que durante a  jornada de 48 horas não tinha o tempo adequado para descanso. Já se passaram cinco anos e ele nunca recebeu qualquer tipo de reparação por parte da TBL. Nesse período, Albuquerque passou a tratar um câncer no intestino e viu uma filha morrer. “Eu acredito que esse meu sofrimento com a empresa e com a Justiça acelerou o problema [de saúde] que ela tinha”, entende o marinheiro, que também vê ligação entre a dor psicológica e o câncer. “Afetou demais meu estado emocional”.

‘É desumano. Pensar que são empresas no patamar dessas duas [TBL e Cargill]. Olha, escravidão não é só chicote’ Francisco Nascimento Barros, ex-funcionário da TBL

Sem receber as verbas trabalhistas e sem poder trabalhar por causa do câncer, que está em estado avançado e já atingiu o fígado, Albuquerque diz também que ficou quatro meses sem receber o auxílio-doença do INSS. Somente depois de a Repórter Brasil pedir explicação sobre os motivos da suspensão para o órgão é que o pagamento voltou a ser feito. “Você trabalha, se esforça a vida toda e quando precisa é abandonado”, reclama. 

Duas hastes e cinco pinos na coluna

O também marinheiro James Vasconcelos segue trabalhando na TBL mesmo depois de uma cirurgia na coluna devido a uma hérnia de disco. Ele diz que a recomendação médica é para que ele evite carregar peso, mas o funcionário segue movimentando os cabos que prendem as balsas de soja, o que exige esforço de todo o corpo. 

“Se continuar fazendo isso, o problema pode se agravar, levar novamente a uma hérnia ou me deixar numa cadeira de rodas”. Antes da cirurgia, a dor era tanta que o marinheiro não conseguia andar. “Depois da cirurgia, fiquei afastado por seis meses e voltei para a mesma função”. Ele teme pedir demissão e não ter condições de saúde para trabalhar em outra empresa. “E se um dia eu não aguentar mais trabalhar? Tenho duas hastes e cinco pinos na coluna”.

Célio Albuquerque perdeu a visão do olho direito após um acidente com um cabo de aço enquanto carregava uma balsa de soja (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Vasconcelos diz que a recomendação médica é para que ele evite carregar peso, mas ele segue movimentando os cabos que prendem as balsas de soja, o que exige esforço de todo o corpo, inclusive da coluna. “Se continuar nisso, o problema pode se agravar e até  me deixar numa cadeira de rodas”. Trabalhando na TBL há 17 anos, ele relata que é comum ocorrerem desvios de função e longas jornadas de trabalho que não respeitam o período de descanso. “Já passei 48h em cima do píer trabalhando o tempo todo”. 

“Eles [os funcionários] sofrem problemas físicos, psicológicos e até mesmo na convivência familiar. São problemas enormes, sem precedentes. Não tem como mensurar”, afirma a advogada trabalhista Caroline França Ferreira Batista, que representa funcionários e ex-funcionários da TBL.

Acidente com nove mortos

Não é a primeira vez que a TBL foi alvo de denúncias de desrespeito às normas trabalhistas. Em novembro do ano passado, a empresa foi condenada pela Justiça a pagar R$ 10 milhões por dano moral coletivo por conta de um acidente em 2017, que deixou  9 mortos. Além da multa, a Justiça determinou que a empresa deve instruir os empregados quanto às precauções para evitar acidentes de trabalho.

“A cadeia da soja é de alto risco e com grande número de acidentes de trabalho”, afirma a procuradora chefe do MPT em Rondônia e no Acre, Camilla Holanda. Um ano depois do acidente, o órgão apertou o cerco e realizou duas forças-tarefa fiscalizando os portos da região Norte. Foram encontradas mais de 100 infrações trabalhistas, que atingiram 14 das 17 empresas que atuam no rio Madeira, sendo a TBL uma delas.

Além de exportar soja, a Cargill produz óleo de cozinha, maionese e molhos em marcas próprias como Liza, Maria, Pomarola, Elefante e Veleiro (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Procurada, a Transportes Bertolini Ltda (TBL) afirmou, por meio de seu gerente jurídico, Fernando Parisotto, que o ambiente de trabalho da empresa “é absolutamente seguro e que são respeitadas rigorosamente todas as normas de medicina e segurança no trabalho, bem como todos os riscos são controlados”. 

Sobre Albuquerque, a empresa  afirmou que o funcionário não teve seus pedidos atendidos pela Justiça trabalhista e que ação ingressada pelo MPT apontando acúmulo de atividades e jornada exaustiva foi considerada improcedente. Com relação à Vasconcelos, Parisotto respondeu que as atividades executadas no ambiente de trabalho são “compatíveis com as condições físicas e psicológicas de cada empregado”. Disse também que Vasconcelos é marinheiro, mas que executa “atividades burocráticas compatíveis com a recomendação médica”.

A Cargill, contratante da TBL, afirmou que eles não são funcionários da empresa e que “realiza monitoramento constante, avaliando todos os fornecedores”. Leia as respostas na íntegra.

Jornada de 48h sem descanso

O comandante da embarcação Simeão Furtado Passos faz relato semelhante. “Peguei três hérnias de disco trabalhando lá”, conta o ex-funcionário da TBL. A escala de trabalho era de 48h por 48h e Passos afirma que não havia como descansar. “Os camarotes não tinham nem ar condicionado e nem ventilador. Mais de 40 graus”, lembra.  Passos diz que chegou a reivindicar melhorias nos alojamentos, pois era comandante, mas ouviu como resposta do gerente que não era possível. 

Aposentado por invalidez, Marcelo Dias sente dores no joelho e na coluna; e também sofreu alergias com a poeira do agrotóxico da soja (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Outro comandante, também ex-funcionário, Francisco Nascimento Barros, classifica a cabine em que trabalhava como insalubre. “É desumano. Escravidão não é só chicote”. Durante a jornada de 48h, Barros relata que precisava estar disponível o tempo todo. 

Além do descumprimento de leis trabalhistas, os trabalhadores da soja no porto são pressionados pela crescente produção do grão nos últimos anos, que em 2021 deve ter alta de 8,5% em relação à safra de 2020, segundo o IBGE. As exportações também seguem em alta, sendo a Cargill a principal exportadora do grão brasileiro.

‘Tenho sequelas para o resto da vida e me arrependo muito de não ter saído do emprego, pois hoje eu estaria inteiro’, Marcelo Inácio Dias, ex-funcionário da TBL aposentado por invalidez

Os portos do rio Madeira transportam, além da soja plantada em Rondônia, parte dos grãos produzidos no Mato Grosso, que cruzam o Amazonas e o Pará por via fluvial até chegar ao Atlântico, para o mercado internacional. 

Quem navega nos rios da região Norte já se habituou a cruzar com as embarcações puxando filas de balsas de soja. Quase 20% da soja produzida no Brasil corre pelos rios da Amazônia. Levantamento do Diálogo Chino mostra que há 100 portos fluviais industriais privados na Amazônia e que estão em andamento projetos de outros 40, com investimentos de centenas de milhões de dólares, em locais de ecossistema sensíveis.  

A balança comercial das exportações brasileiras do agronegócio somou US$ 100,81 bilhões em 2020, um crescimento de 4% na comparação com 2019. A soja foi o setor que mais contribuiu, com US$ 35,2 bilhões. O setor está imune à crise econômica brasileira agravada pela pandemia. “Plantar em real para colher em dólar”, como costumam dizer os sojeiros. 

José Ulhôa toma vários medicamentos para suportar as dores crônicas; ele ficou com os dedos da mão deformados pelo trabalho no carregamento da soja (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

O marinheiro José Cláudio Manoel Uchôa, que está afastado do trabalho na TBL há 3 anos por problemas de saúde, afirma que os trabalhadores costumam ser contemplados na primeira instância judiciária, mas perdem na segunda. 

“Eles [Cargill e TBL] têm um corpo jurídico muito grande e, Deus me perdoe, mas devem ter influência dentro dos tribunais”, afirma, enquanto mostra os dois dedos da mão deformados pelo trabalho. Ele sente dores recorrentes na coluna e teve que fazer uma cirurgia no joelho. “Escorreguei na embarcação e rompi o menisco e o ligamento do joelho”. Quando começou a trabalhar na TBL, Uchôa afirma que não tinha nenhum problema de saúde. “Agora eu não durmo direito, não tenho sono, fico zanzando pelo meio da casa”, diz. Em casa, um pote preto está lotado de remédios, que ele toma várias vezes ao dia para suportar as dores.

“Tenho sequelas para o resto da vida e me arrependo de não ter saído do emprego, pois hoje eu estaria inteiro”, afirma Marcelo Inácio Dias, ex-funcionário da TBL, aposentado por invalidez. Ele ficou com problemas na coluna mesmo após uma cirurgia, sente dores crônicas no ombro, no joelho e ficou com um dedo da mão imobilizado por causa de um acidente movimentando as balsas. Teve problemas também por conta dos agrotóxicos aplicados aos grãos: “Tem veneno demais. Passei muito tempo com coceira no corpo”. 

Dias lamenta que a TBL e a Cargill não paguem os direitos trabalhistas devidos e que os funcionários precisem pedir judicialmente. “Para eles é pouquinho, mas para a gente é muito. Precisamos desse dinheiro para tentar recomeçar a vida e seguir em frente”. 

Célio Albuquerque mostra relatórios que fez quando era integrante da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa). Segundo ele, as empresas ignoraram avisos sobre riscos de acidentes (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)
Simeão Passos afirma que não havia como descansar nas embarcações pois os camarotes não tinham nem nem ventilador e a temperatura chegava a mais de 40 graus (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Durante a jornada de 48h, os funcionários precisavam estar disponível o tempo todo, relata Francisco Nascimento Barros (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)
Remédios, especialmente para dores musculares crônicas, que Uchôa toma ao longo do dia (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

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Esta reportagem foi originalmente publicada pela Repórter Brasil [Aqui!]

Em 2020, principais desmatadores estão vinculados à derrubada de mais de 110.000 hectares do Cerrado

cerrado desmatamento

O bioma Cerrado, uma vasta savana tropical biodiversa no Brasil, está sob a ameaça do desmatamento impulsionado por commodities. A expansão da soja e a pecuária são as causas diretas da perda de floresta no Cerrado. Este relatório apresenta novos dados sobre atores específicos ligados ao desmatamento do Cerrado em 2020, incluindo a exposição quantificada ao risco dos maiores comerciantes de soja, frigoríficos e varejistas. Financiadores com políticas florestais estão expostos a riscos materiais em suas carteiras.

Baixe o PDF aqui: Principais desmatadores do Cerrado vinculados à clareira de mais de 110.000 hectares

Principais conclusões

  • A expansão agrícola é o principal fator para o aumento do desmatamento no Cerrado.O aumento do desmatamento ligado à soja, gado e especulação de terras ameaça interromper os sistemas naturais de água, os padrões climáticos regionais e a produtividade agrícola de longo prazo na região.
  • O desmatamento do Cerrado em 2020 totalizou 734.010 ha, um aumento de 13,2% em relação a 2019. O desmatamento em terras privadas representou 66,7%, enquanto as terras públicas representaram 19,2%. O restante do desmatamento ocorreu em terras sem designação legal.
  • Um total de 207.813 ha de desmatamento do Cerrado em 2020 ocorreu em fazendas que já possuíam áreas de plantio de soja. A CRR estima que 28,3% do desmatamento total do Cerrado estava relacionado à expansão da soja.
  • Mais da metade do desmatamento causado pela soja no Cerrado está relacionado a produtores de soja proeminentesTerras agrícolas pertencentes a produtores locais, imobiliárias e agroindústrias, como SLC Agrícola, Nuveen e JJF Holdings e Participações, registraram 110.333 ha de desmatamento no Cerrado. A maioria dessas empresas tem relações comerciais com a Cargill, Bunge, ADM, Louis Dreyfus Company (LDC) e Cofco.
  • A indústria da carne é outro fator chave do desmatamento e da especulação imobiliária no Cerrado. Os frigoríficos JBS, Marfrig e Minerva estão altamente expostos ao desmatamento do Cerrado em suas cadeias produtivas, principalmente na região do Matopiba. Os varejistas Casino Group, Carrefour e Cencosud são os principais canais de venda de carne bovina, igualmente ligados ao desmatamento no bioma.
  • A escalada do risco de acesso ao mercado, risco de regulamentação, risco de financiamento e risco de reputação pode levar a perdas financeiras significativas para os financiadoresBNP Paribas, Santander, Rabobank, HSBC, AP2, Caisse de Dépôt, Santander, Credit Agricole, Barclays e Credit Suisse têm bilhões de dólares americanos de exposição aos principais desmatadores do Cerrado, o que está em conflito com suas próprias políticas florestais. A regulamentação da UE sobre a devida diligência da cadeia de abastecimento pode desencadear grandes desinvestimentos e / ou engajamento.

Expansão da agricultura está causando desmatamento e supressão de vegetação nativa no Cerrado

A vegetação natural do Cerrado brasileiro, a savana com maior biodiversidade do mundo , está ameaçada por altas taxas de desmatamento. sendo convertido em um ritmo rápido.Estendendo-se por mais de 200 milhões de hectares (ha), do tamanho da Alemanha, França, Inglaterra, Itália e Espanha combinados, o Cerrado é uma pastagem arborizada que fornece serviços ambientais essenciais para o mundo. Ele protege a biodiversidade, estabiliza o clima regional e regula as bacias hidrográficas que fornecem 40% da água doce do Brasil. Ele contém 5% de toda a biodiversidade do planeta, com 1.600 espécies de animais e 12.000 espécies de plantas – das quais quase a metade são encontradas apenas no Cerrado. Seus sistemas de raízes profundas atuam como um sumidouro de carbono crítico,estimado para armazenar 13,7 bilhões de toneladas de carbono no subsolo. O Cerrado também é a região agrícola mais produtiva do Brasil, o que tem resultado em desmatamentos e desmatamentos que estão desestabilizando o ecossistema.

A expansão agrícola é o principal fator para o aumento do desmatamento no Cerrado. Desde que as atividades agrícolas se expandiram na década de 1970, 50 por cento do Cerrado foi perdido para terras agrícolas e de pastagem, principalmente para gado, soja, algodão, milho e eucalipto. Apesar de seu papel crítico nos sistemas naturais da Terra, o Cerrado tem pouca proteção do Código Florestal do Brasil. Enquanto o Código Florestal exige que os proprietários privados na Amazônia preservem até 80% de suas propriedades, os proprietários são obrigados a reservar apenas 20-35% da vegetação nativa em todo o Cerrado. Contabilizando as áreas protegidas publicamente, estima-se que menos de 3 por cento do Cerrado está sob proteção legal, em comparação com 46%  da Amazônia. A proteção ambiental é ainda mais enfraquecida pela falta de fiscalização ambiental como resultado da agenda pró-negócios da administração Bolsonaro. Desde que o presidente Jair Bolsonaro foi eleito em 2018, o Ibama, órgão ambiental do Brasil, viu cortes orçamentários significativos e demissão de funcionários importantes. Apesar do aumento do desmatamento, o Ibama emitiu o menor número de multas desde 2019. As multas ambientais são um dos métodos do Ibama para fazer cumprir as leis de conservação. A redução na emissão mostra como a capacidade da agência foi afetada por cortes no orçamento.

Mecanismos voluntários e coalizões intersetoriais estão clamando pela proteção do Cerrado. 

Esses incluem:

  • Manifesto do Cerrado foi lançado em 2017 por organizações da sociedade civil para exigir que os produtores, comerciantes e varejistas de soja eliminem a conversão impulsionada pela soja na região.
  • A Declaração de Apoio (SoS) ao Manifesto do Cerrado é assinada por 160 empresas de bens de consumo e investidores, endossando os objetivos do Manifesto e se comprometendo a conter a perda florestal vinculada à produção agrícola.
  • Seis grandes comerciantes de commodities são membros do Soft Commodities Forum , que apresenta uma metodologia de relatório comum para aumentar a rastreabilidade da cadeia de suprimentos no bioma Cerrado.
  • O Consumer Goods Forum é uma rede do setor composta por mais de 400 empresas que apoiaram o Manifesto do Cerrado e estabeleceram uma Coalizão de Ação Positiva da Floresta para acelerar as cadeias de suprimentos de commodities livres de conversão.
  • De forma mais ampla, a Declaração de Amsterdã e a Declaração de Nova York sobre Florestas são compromissos multilaterais para eliminar o desmatamento da produção de commodities agrícolas, incluindo soja e carne bovina.

Apesar desses compromissos, as cadeias de suprimentos de commodities continuam vinculadas às altas taxas de desmatamento no Cerrado em 2020.

Atores específicos da soja ligados ao desmatamento do Cerrado em 2020

734.010 ha foram desmatados no Cerrado entre agosto de 2019 e julho de 2020 (datas de referência baseadas no cálculo do PRODES de taxas anualizadas), de acordo com o Programa Nacional de Monitoramento de Florestas por Satélite (PRODES) .Essa área, equivalente a 124 vezes o tamanho de Manhattan, representa um aumento de 13,2% em relação a 2019.

Figura 1: Desmatamento do Cerrado em 2020

Fonte: PRODES 2020

O desmatamento em terras privadas representou 489.602 ha, ou 66,7% do desmatamento total do Cerrado em 2020 . O principal hotspot de desmatamento foi a região do Matopiba (Figura 1), composta por municípios nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que detém a maior parte da vegetação nativa remanescente do Cerrado. A expansão do cultivo de safras (incluindo soja) e da pecuária são os principais motores do desmatamento na região do Matopiba. Grandes agronegócios da região exportam seus produtos para mercados internacionais como China e UE. A Figura 2 mostra o contraste entre o desmatamento em terras públicas e privadas no Cerrado.

Figura 2: Desmatamento por designação de terra no bioma Cerrado em 2020

Fonte: Pesquisa de Reação em Cadeia do INPE, INCRA, Funai, Sicar

O desmatamento em terras públicas do Cerrado foi responsável por 19,2% do desmatamento total. Terras públicas que incluem assentamentos rurais, terras indígenas, unidades de conservação naturais e terras federais e estaduais foram responsáveis ​​por 141.186 ha do desmatamento total do Cerrado em 2020. Outros 96.608 ha foram desmatados em terras que estão registradas como privadas e públicas, principalmente de unidades de conservação que permitem o uso sustentável do solo. Essa questão da sobreposição das categorias de posse da terra ocorre em todo o Brasil.

Os 103.212 ha restantes ou 14 por cento do total são desmatamento em terras não designadas no bioma. São terras sem designação legal. O esclarecimento das incertezas na posse da terra pode ajudar a minimizar as taxas de desmatamento em áreas sobrepostas no Cerrado.

Principais participantes da produção de soja apresentam alto risco de desmatamento no Cerrado

O cultivo de soja é o principal fator de desmatamento nas savanas da América do Sul. O bioma Cerrado tem visto um aumento na expansão da soja nos últimos anos, causando a perda de biodiversidade, altas emissões de dióxido de carbono e interrupção dos sistemas hídricos. A produção de soja no Brasil tem aumentado constantemente nos últimos anos. Em 2018/19, o bioma Cerrado respondeu por 40% dos 123 milhões de toneladas métricas (Mt) da produção brasileira de soja.

Em 2020, um total de 207.813 ha de desmatamento ocorreu em fazendas que possuem área de plantio de soja desde 2017 . Esta área representa 28,3 por cento de todo o desmatamento do Cerrado em 2020. Este número (28,3 por cento) é uma estimativa conservadora, dado que os cálculos do desmatamento ocorreram em fazendas com plantações de soja existentes. Os dados não abrangem fazendas que começaram a plantar soja a partir de 2017.

Figura 3: Área plantada de soja no Cerrado em 2017

Fonte: Agrosatelite, INCRA

110.333 ha de desmatamento no Cerrado foram vinculados a produtores de soja de destaque. O desmatamento cai em terras de propriedade de empresas produtoras, imobiliárias e agroindústrias previamente identificadas nos relatórios do CRR . A Figura 4 mostra uma lista das 10 principais empresas e grupos produtores de soja com desmatamento do Cerrado em 2020.

Figura 4: 2020, 10 maiores desmatadores para a produção de soja no Cerrado

Fonte: Pesquisa de Reação em Cadeia, INPE, INCRA

A SLC Agrícola está vinculada ao desmatamento de 10.152 ha do Cerrado em 2020 . A SLC Agrícola é a maior produtora de soja listada no Brasil e, em 2020, uma das maiores desmatadoras da região. Em setembro de 2020, a SLC Agrícola se  comprometeu a conter o desmatamento do Cerrado e transferir a produção apenas para áreas já desmatadas. A empresa disse que esta política entrará em vigor após a conversão de 5.000 ha de vegetação de Cerrado, limite que foi ultrapassado por uma larga margem em 2020.

Os principais clientes da SLC Agrícola são Cargill Agrícola SA (27,6 por cento da receita) e Bunge Alimentos SA (17,9 por cento), de acordo com suas demonstrações financeiras do 3T 2020. Conforme relatado anteriormente pelo CRR, a derrubada da vegetação do Cerrado nas fazendas da SLC Agrícola parece estar de acordo com o Código Florestal do Brasil, mas violando os compromissos de desmatamento zero de seus clientes e de grande parte das indústrias consumidoras de soja a jusante.

Figura 5: Desmatamento da SLC Agrícola em 2020

Obs .: Esquerda: março de 2020 – 5.200 ha desmatados na Fazenda Parceiro, Formosa do Rio Preto, Bahia. À direita: maio de 2020 – 4.667 ha desmatados na Fazenda Palmeira, Tasso Fragoso, Maranhão.

Fonte: SLC Agrícola, imagens de satélite Sentinel 2

Aproximadamente 4.570 ha de desmatamento do Cerrado ocorreram em fazendas mantidas pela Nuveen em 2020. O mapa de terras agrícolas disponível ao público da gestora de ativos global lista 64 propriedades no Brasil, das quais 44 estão no Cerrado. A lista inclui soja e muitas outras culturas cultivadas em suas propriedades. Nuveen adotou uma política de desmatamento zero em 2018 que proíbe a aquisição de terras que tenham sido desmatadas com vegetação nativa. Os dados de desmatamento do Cerrado em 2020 mostram lacunas na implementação dessa política, expondo o gestor de ativos a riscos de reputação.

Os comerciantes de soja enfrentam altos riscos de desmatamento, uma vez que suas cadeias de abastecimento permanecem ligadas ao desmatamento do Cerrado em 2020 . Os maiores comerciantes de soja ADM, Bunge, Cargill, LDC e Cofco operam silos em regiões produtoras de soja do Cerrado com alta exposição ao desmatamento em 2020. A CRR identificou vários fornecedores diretos de comerciantes e relações de compra com grupos produtores de soja no Cerrado. A Figura 6 mostra os diversos níveis de exposição para os principais comerciantes e a quantidade de desmatamento direto vinculado às suas cadeias de abastecimento.

 Figura 6: Exposição ao risco de desmatamento dos principais comerciantes do Cerrado em 2020

Fonte: Pesquisa de Reação em Cadeia, INPE, INCRA. * Incluindo silos de joint venture

Como membros do Soft Commodities Forum (SCF), essas empresas se comprometeram com uma estrutura comum para relatar e monitorar o progresso de cadeias de suprimentos transparentes e rastreáveis ​​para a soja no Cerrado. No entanto, ainda não está claro como as promessas do SCF se relacionam com seus compromissos de excluir a conversão de toda a vegetação nativa do Cerrado e a implementação de mecanismos eficazes de não conformidade. Nenhum dos comerciantes incluídos na análise apóia o Manifesto do Cerrado. As políticas de desmatamento dos comerciantes podem ser insuficientes para mitigar o risco de desmatamento.

Carne e outras causas agrícolas do desmatamento

A especulação fundiária e a pecuária são outros principais motores do desmatamento do Cerrado. Muitas áreas no Cerrado são reivindicadas e depois desmatadas para dar lugar a pastagens. A área desmatada é usada como pastagem para a indústria pecuária e, anos depois, vendida a um preço mais alto aos produtores agrícolas, principalmente para a produção de soja, mas também para outras culturas como milho e algodão. A soja e seus derivados comerciais são ingredientes essenciais para a alimentação do gado, abastecendo a crescente indústria da carne no Brasil e no exterior. A insegurança fundiária no Cerrado aumenta a especulação fundiária e aumenta as taxas de conversão de terras no bioma.

Frigoríficos diretamente ligados ao desmatamento do Cerrado em 2020

A pecuária não é apenas um dos principais motores do desmatamento no bioma Amazônia, mas também contribui para a conversão do Cerrado. A JBS teve a maior exposição ao desmatamento do Cerrado em 2020 entre os três maiores frigoríficos brasileiros. JBS, Marfrig e Minerva têm a maior capacidade de abate entre um grande número de frigoríficos no Brasil. As três empresas dominam a pecuária no país e sua relação com o desmatamento do bioma Cerrado as expõe a altos riscos. Com base em uma pequena amostra de fornecedores diretos que a CRR mapeou anteriormente, houve 1.984 ha de desmatamento em propriedades que abastecem diretamente a JBS. Casos semelhantes vincularam os fornecedores da Marfrig e do Minerva a 531 ha e 328 ha de desmatamento, respectivamente. Isso se baseia em uma pequena amostra de fornecedores do Cerrado. As pegadas reais de desmatamento dos frigoríficos são muito maiores. A CRR informou recentemente que desde 2008, 20.296 ha foram desmatados na amostra da cadeia de suprimentos direta da JBS e 56.421 ha na cadeia de suprimentos indireta. Do desmatamento na cadeia de abastecimento direto da JBS, aproximadamente 71 por cento (14.783 ha) ocorreram no bioma Cerrado, em alguns casos sem as licenças ambientais exigidas. As três empresas assinaram acordos multilaterais de pecuária (G4) e Termos de Conduta Ajustada (TACs) juridicamente vinculativos. No entanto, a implementação do TAC tem lacunas e atrasos significativos e não cobre todos os estados do Cerrado. Atualmente, a maioria dos varejistas monitora seus fornecedores diretos de carne bovina, mas as fazendas indiretas apresentam alto risco de lavagem de gado e vazamento de não signatários do TAC.

Figura 7. Casos JBS, Marfrig e Minerva de desmatamento de fornecedores diretos no Cerrado em 2020

Fonte: Pesquisa de Reação em Cadeia, INPE, INCRA

Varejistas expostos ao desmatamento do Cerrado em 2020

As cadeias de abastecimento de carne do Grupo Casino, Carrefour e Cencosud estão ligadas a pelo menos 2.189 ha de desmatamento do Cerrado em 2020. Os supermercados no Brasil são um canal de distribuição crucial para a carne bovina, e 76% da carne produzida no Brasil é consumida no mercado interno. Entre as cinco maiores redes de supermercados do Brasil, Carrefour Comércio e Indústria, Grupo Pão de Açúcar (GPA) (Grupo Casino como acionista controlador) e Cencosud Brasil respondem por grande parte da carne bovina vendida no Brasil. Para este estudo, CRR rastreada a origem dos produtos amostrados carne vendida no GPA lojas , Carrefour / Atacadão   lojas , e Cencosud owned- supermercados. O estudo estabeleceu elos da cadeia de suprimentos entre supermercados e frigoríficos nos biomas Amazônia e Cerrado. Uma amostra de fornecedores diretos para os frigoríficos identificados foi determinada usando licenças de transporte de animais para calcular a exposição ao desmatamento desses varejistas no Cerrado em 2020. No monitoramento de eventos de desmatamento em 2020, a CRR identificou 1.237 ha de desmatamento do Cerrado vinculado ao Grupo Casino. Da mesma forma, uma amostra representativa de casos relacionou o Cencosud a 605 ha de desmatamento e o Carrefour a 347 ha, todos no Cerrado. Produtos de carne bovina originados de áreas de expansão agrícola ou pontos críticos de desmatamento, como a região do Matopiba (Figura 1), apresentam risco elevado de desmatamento para os varejistas.

Figura 8: Casos de desmatamento do Cerrado em 2020 vinculados às cadeias produtivas de carne do Grupo Casino, Carrefour e Cencosud

Fonte: Chain Reaction Research, Reporter Brasil, INPE, INCRA

As estratégias existentes para eliminar o desmatamento são insuficientes para atender aos compromissos das empresas

As empresas enfrentam vários riscos de negócios decorrentes da exposição contínua ao risco de desmatamento. Em janeiro de 2021, um relatório do CRR agregou riscos físicos e de transição enfrentados por empresas que não conseguem eliminar o desmatamento de suas cadeias de abastecimento. Abaixo está um resumo dos riscos que as empresas que operam no Cerrado enfrentam:

  • Os riscos físicos são mais relevantes para empresas upstream, como a SLC Agrícola. A eliminação da vegetação nativa com a expansão da soja interrompeu os sistemas de água do Brasil. O aumento das secas, o comportamento irregular do rio e as mudanças nos padrões de chuva resultaram em perdas de produtividade e podem levar a uma redução ainda maior da aptidão agrícola das fazendas na região do Cerrado.
  • Os riscos políticos e jurídicos afetam os atores intermediários e posteriores. Na UE, o segundo maior mercado para a soja brasileira, uma proposta em análise visa reduzir a pegada de desmatamento da UE por meio de medidas regulatórias e não regulatórias. Na França, a lei “Devoir de Vigilance” exige que as empresas implementem planos de due diligence que evitem os direitos humanos adversos e impactos ambientais em suas cadeias de abastecimento globais. No Reino Unido e na Alemanha , a legislação para cadeias de suprimentos de commodities livres de desmatamento também está sendo considerada. Em 2020, o Grupo Casino enfrentou riscos legais sob a lei do Dever de Vigilância da França após relatórios do CRR, Envol Vert e Mighty Earth que revelaram evidências de exposição ao risco de desmatamento.
  • O risco de acesso ao mercado tem maior impacto sobre os atores upstream e midstream. No ano passado, houve um aumento no número de empresas excluindo commodities brasileiras das cadeias de abastecimento globais. Uma carta pública de 160 signatários da Declaração de Apoio ao Manifesto do Cerrado exigia que os comerciantes de soja parassem de comprar soja de áreas no Cerrado desmatadas após 2020. Empresas europeias e varejistas franceses também ameaçaram boicotar a soja brasileira. As empresas Nestlé , VF CorpH&M e empresas norueguesas de frutos do mar tomaram medidas para excluir as commodities brasileiras de suas cadeias de abastecimento.
  • O risco de reputação afeta significativamente as empresas downstream e pode evoluir para riscos de financiamento para empresas midstream. Campanhas da sociedade civil e investigações jornalísticas têm como alvo atores de midstream, como Cargill , Carrefour e JBS . Em 2020, a Nordea Asset Management excluiu a JBS de todos os ativos que vende e relatos dizem que os analistas do HSBC “soaram alarmes” sobre os riscos de investir na JBS devido ao desmatamento em sua cadeia de suprimentos. Para as empresas downstream, a CRR concluiu que os eventos de reputação podem impactar o valor de uma empresa em 30 por cento.

Apesar do aumento dos riscos da exposição ao desmatamento, os compromissos e a implementação das principais empresas deixam lacunas que permitem que estejam continuamente vinculadas ao desmatamento.

Figura 9: Respostas variadas ao risco de desmatamento entre setores

Fonte: Chain Reaction Research, sites da empresa

Os compromissos de desmatamento dos produtores de soja têm limites e lacunas de implementação variados, resultando em ligações diretas contínuas com o desmatamento. A SLC Agrícola se   comprometeu a conter o desmatamento do Cerrado até o final de 2020, mas continuou a limpar a vegetação nativa. Da mesma forma, a política de desmatamento zero da Nuveen proíbe compras de terras agrícolas do Cerrado desmatadas de vegetação nativa a partir de maio de 2009, mas evidências de desmatamento ainda são observadas em suas propriedades. Com relação à divulgação, a SLC informa que tem como meta reduções de até 25% em suas emissões de GEE até 2030. Parece que a empresa não está no caminho para cumprir sua meta, com as emissões do Escopo 1 tendendo para cima em grande parte devido às emissões agrícolas. Nuveen realiza auditorias em suas fazendas e relatórios sobre soja certificada. No entanto, tanto a SLC Agrícola quanto a Nuveen não informam sobre o progresso no cumprimento de seus compromissos de desmatamento zero e não divulgam as ações tomadas para resolver os desvios de seus compromissos.

As políticas de sustentabilidade dos comerciantes de soja continuam abrindo espaço para o desmatamento no Cerrado. Como membros do Soft Commodities Forum (SCF), ADM, Bunge, Cargill, LDC e Cofco “se comprometeram a eliminar o desmatamento de suas cadeias de abastecimento”. No entanto, com exceção da Bunge, as políticas de desmatamento dos comerciantes não abordam o desmatamento legal no Cerrado e não têm uma data limite para o desmatamento. O compromisso da Bunge é alcançar “cadeias de valor livres de desmatamento em todo o mundo até 2025”, o que “se estende a áreas onde a conversão de vegetação nativa é legalmente permitida”. Sobre rastreabilidade, o SCF se comprometeu a desenvolver uma estrutura comum para relatar a rastreabilidade da soja, com foco inicial em 25 municípios do Cerrado. Os municípios selecionados representam 44% da vegetação nativa do Cerrado convertida em soja. Em 2020, os comerciantes relataram ter alcançado 100 por cento de rastreabilidade para fazenda para os 25 municípios. A estrutura de relatório do SCF não inclui padrões de divulgação que exigem que as empresas relatem sobre os fornecedores e se os volumes de compra estão em conformidade com as políticas de desmatamento das empresas. A maioria dos comerciantes permaneceu exposta a um aumento incêndios em suas regiões de abastecimento em 2020, com a Bunge e a Cargill tendo o maior risco. Apesar do alto risco de incêndios, os comerciantes não têm uma “política de não queima” que se aplica à sua cadeia de abastecimento de soja, apenas para o óleo de palma.

Os três principais frigoríficos monitoram as cadeias de suprimentos diretas, mas permanecem expostos à alta exposição ao risco de desmatamento em suas cadeias de suprimentos indiretas.As cadeias de abastecimento de gado são extremamente complexas, muitas vezes envolvendo várias transações na criação e produção de gado. Em média, uma única transação com um fornecedor direto inclui compras de 15 fornecedores indiretos. Em 2020, JBS e Marfrig anunciaram compromissos para monitorar suas cadeias de suprimentos indiretas, mas o progresso e a eficácia ainda precisam ser vistos. Além da conformidade dos fornecedores indiretos com as políticas, a qualidade e o cronograma das políticas dos frigoríficos também estão sob escrutínio. Por meio de Termos de Ajuste de Conduta (TACs) juridicamente vinculativos), os frigoríficos JBS, Marfrig e Minerva se comprometeram a não comprar gado de áreas desmatadas ilegalmente, terras indígenas, unidades de conservação ou áreas vinculadas ao trabalho forçado. No entanto, esses acordos são limitados aos estados amazônicos e não se estendem ao Cerrado. Sobre os prazos de compromisso, a Marfrig tem como meta o desmatamento zero em todos os biomas até 2030 (2025 para a Amazônia). Mais recentemente, a JBS se comprometeu a eliminar o desmatamento ilegal em todos os biomas brasileiros até 2030 e atingir o desmatamento zero nas cadeias de abastecimento globais até 2035. Prazos prolongados deixam as empresas expostas a um risco crescente de desmatamento. Junto com os dados apresentados neste relatório, investigações em 2020 revelaram que todos os três frigoríficos continuam vinculados ao desmatamento no Cerrado, com vários casos de desmatamento não autorizado.

As maiores redes de supermercados no Brasil têm compromissos de desmatamento variados, mas a maioria tem escopo limitado e falta divulgaçãoCarrefour e Casino são signatários do Manifesto do Cerrado, e ambos têm compromissos de desmatamento zero e sistemas de georreferenciamento para monitorar fornecedores Tier 1 e Tier 2. No entanto, a implementação da política do Carrefour e as metas de rastreabilidade se aplicam apenas a produtos de carne bovina não processados, deixando produtos de carne processados ​​ou congelados totalmente sem monitoramento. As políticas do GPA e do Cencosud que visam mitigar o risco de desmatamento são limitadas apenas para o bioma Amazônia sem ações para conter o desmatamento no Cerrado. Outros biomas, como a região do Pantanal no Brasil, também não são cobertos pela maioria das políticas de sustentabilidade. Casino e Carrefour foram recentemente associados ao desmatamento no Pantanal. Nenhum dos varejistas tem um cronograma específico para seus compromissos. O prazo de desmatamento zero do Carrefour para 2020 não foi cumprido e ainda não foi divulgada uma nova meta. Ainda não está claro como os varejistas planejam aumentar a transparência indireta da cadeia de suprimentos. Apenas o Carrefour divulga rastreabilidade de fornecedores Tier 2, mas apenas para carne bovina (não de soja) e não divulga o progresso no monitoramento de fornecedores indiretos mais distantes em sua cadeia de suprimentos.

Comerciantes de soja, frigoríficos e varejistas não divulgam como as políticas de desmatamento são atendidas em suas cadeias de abastecimentoEstruturas existentes, como a Estrutura de Commodities Sustentáveis e iniciativas recentes anunciadas pelos frigoríficos JBS e Marfrig, enfatizam a rastreabilidade e o monitoramento do fornecedor. Outras iniciativas de rastreabilidade , como a Good Growth Partnership, apontam que a rastreabilidade não é um fim em si mesma e deve ser usada para permitir o cumprimento dos compromissos das empresas. O aumento do foco na rastreabilidade ignora a divulgação necessária sobre as ações tomadas pelas empresas em todos os setores para suspender fornecedores não conformes e cumprir suas promessas de sustentabilidade.

Os investidores enfrentam riscos financeiros significativos de exposição contínua ao desmatamento

Em vários níveis, investidores e bancos estão envolvidos no financiamento dos principais desmatadores do Cerrado, expondo-os a riscos financeiros materiais.Os financiadores podem ser expostos por meio de empréstimos, obrigações, participações e serviços de subscrição. Esses instrumentos financeiros, que os conectam a proprietários de terras, agricultores, comerciantes, processadores de carne e soja, bem como varejistas de alimentos, podem levar a riscos financeiros. As perdas financeiras potenciais podem ser vinculadas ao risco de acesso ao mercado, risco operacional, risco de ativos perdidos, risco de financiamento e risco de reputação.

Em uma análise recente, a CRR concluiu que 74% da soja e do gado brasileiros são financiados por instituições financeiras locais.De 2013 a 2020, o financiamento dos setores de carne bovina e soja no Brasil totalizou US $ 100 bilhões. O financiamento total é muito maior, mas esses números são ajustados para contabilizar apenas a participação da soja e da pecuária no Brasil. De acordo com a base de dados Florestas e Finanças, os empréstimos totalizaram US $ 82 bilhões, as subscrições US $ 13 bilhões, as ações US $ 5 bilhões e os títulos US $ 1 bilhão. As instituições financeiras estrangeiras forneceram (ajustados) US $ 14,5 bilhões para o setor de carne bovina e US $ 11,2 bilhões para a indústria da soja. Santander, Rabobank, HSBC e JPMorgan Chase, todos com políticas para conter o desmatamento, estão entre os 25 maiores financiadores. políticas para conter o desmatamento estão entre os 25 maiores financiadores.

Figura 10: Total de financiamento identificado por região de origem (em milhões de dólares) – ajustado

Fonte: forestandfinance.org, a região “Europe Other” consiste principalmente no Reino Unido, Noruega e Suíça; ajustadores são aplicados para a exposição específica à carne bovina e soja brasileiras.

Muitas instituições financeiras são signatárias do Manifesto do Cerrado e têm políticas voltadas para conter o desmatamento. As instituições financeiras sediadas na UE ou que investem em empresas da UE com elos da cadeia de abastecimento com o desmatamento enfrentarão uma regulamentação muito mais rígida sobre o desmatamento.O Manifesto do Cerrado pede a suspensão do desmatamento e a perda da vegetação nativa no Cerrado. Atualmente, investidores que representam US $ 6,3 trilhões de investimentos globais assinaram a Declaração de Apoio ao Manifesto do Cerrado, que também foi assinada pelas principais empresas de produtos de consumo rápido, incluindo varejistas. Na Europa, o Regulamento de Divulgação de Finanças Sustentáveis (SFDR), que entrou em vigor em 10 de março de 2021, deve levar a uma maior transparência sobre os riscos de sustentabilidade e questões sobre o financiamento de commodities que levam a danos ambientais. Faz parte do Quadro de Finanças Sustentáveis ​​mais amplo da UE, que é apoiado por um amplo conjunto de regulamentações novas e aprimoradas que serão aplicadas em todo o bloco de 27 países. O SFDR está alinhado com o Plano de Ação de Financiamento Sustentável, que visa promover o investimento sustentável e uma nova taxonomia da UE para criar condições de concorrência equitativas em toda a UE. Com um sistema obrigatório da UE de devida diligência para cadeias de abastecimento , essas regulamentações estão inseridas em um ambiente de Acordo Verde europeu.

No grupo de fazendeiros e proprietários de terras dos principais desmatadores, a SLC Agrícola e a Nuveen são financiadas por instituições financeiras estrangeiras com políticas florestais. A JJF Holding, por sua vez, carece de transparência financeira.A SLC Agrícola tem como principais clientes a Cargill e a Bunge e seus principais negócios são a agropecuária e a agropecuária. A empresa é detida maioritariamente pela SLC Participações SA, com vários investidores europeus com políticas de desmatamento zero detendo participações minoritárias. Nos últimos anos, o Fundo de Pensão do Governo norueguês vendeu sua participação na empresa. No entanto, a APG é o sexto maior acionista externo da SLC Agrícola com uma exposição (ajustada) de US $ 12 milhões. A Forests & Finance mostra que a empresa é financiada principalmente por entidades brasileiras.

Nuveen, gestora de ativos da TIAA, é proprietária de terras no Brasil. A falta de transparência na complexa rede de investimentos da Nuveen pode colocar os investidores nos fundos da Nuveen em conflito com suas políticas de mudança climática, levando a riscos de reputação. Os credores incluem BNP Paribas, Santander, Rabobank e HSBC, e participantes de fundos agrícolas com apólices incluem AP2, Caisse de Dépôt e ABP.

A JJF Holding é uma empresa privada que carece de transparência. Nenhum empréstimo foi encontrado . O risco financeiro pode ser identificado para investidores da Bunge e financiadores da ALZ Grãos e Cargill, que mantêm relações comerciais com a JJF Holding. O corte dos laços comerciais com a JJF Holding protegeria o valor (reputação) para os financiadores desses comerciantes de soja.

Dos comerciantes de soja, ADM, Bunge, Cargill, LDC / Amaggi e Cofco são os atores mais vinculados ao desmatamento no Cerrado. Esses comerciantes são financiados por investidores internacionais. Os acionistas das entidades listadas ADM e Bunge enfrentam riscos financeiros. A exposição da Bunge no Piauí, região onde é líder dominante no mercado, totaliza 1% de seus ativos globais. Embora o risco financeiro de ativos retidos seja baixo, a Bunge enfrenta um alto risco de acesso ao mercado. Esse risco é significativo para o mercado da UE e para os FMCGs que são membros do CGF e assinaram o Manifesto do Cerrado, possivelmente afetando o valor de mercado da Bunge em mais de 20% . ADM é o quinto maior comerciante de soja na região de Matopiba, no BrasilEmbora sua exposição à área de alto risco de produção de soja do Matopiba seja limitada a 1,5 por cento, os riscos de desmatamento do Cerrado podem impactar até 30 por cento de seu valor patrimonial.

Financiadores europeus de títulos e empréstimos bancários para comerciantes de soja de propriedade privada Cargill e LDC enfrentam riscos de reputação e de regulamentação também, seguindo o SFDR. A ligação da Cargill com o desmatamento do Cerrado pode prejudicar seu relacionamento com os membros do CGF, o que pode levar a risco de 6% a 15% do faturamento da Cargill.

No grupo dos frigoríficos, JBS, Minerva e Marfrig estão mais ligados ao desmatamento do Cerrado. São financiados por investidores brasileiros e também estrangeiros.Os investidores europeus já financiaram mais de US $ 10 bilhões para os três maiores frigoríficos brasileiros. Parte de seus negócios pode estar ligada ao Cerrado. A Figura 11 consiste em números não ajustados e se baseia no financiamento de todas as empresas do grupo global. Como os investidores europeus contribuem com 24-32% do financiamento para essas três empresas, eles têm alavancagem para se engajar. Agora que o SFDR foi instalado pela UE, espera-se que o engajamento aumente. Além disso, o custo de capital para os frigoríficos pode aumentar, impactando sua avaliação. Essa avaliação também será impactada pelo risco de acesso ao mercado para JBS, Minerva e Marfrig para a Europa. Respectivamente, 1,4%, 4,6% e 1,8% das receitas globais das três empresas são geradas na Europa. A maioria dos principais financiadores europeus (Barclays, Rabobank, Santander e BNP Paribas) têm políticas de desmatamento zero para a carne bovina ou são muito expressivos (HSBC) têm políticas florestais.

Figura 11: Financiamento Identificado para JBS, Minerva e JBS e exposição a financiadores europeus (milhões de dólares)

Fonte: Chain Reaction Research, Thomson-Eikon, Bloomberg; dados de 3 de junho de 2020; nenhum ajustador foi aplicado.

No varejo de alimentos, Casino Group, Carrefour e Cencosud são líderes na distribuição de carne bovina no mercado brasileiro local. O acesso a financiadores europeus provavelmente se tornará mais difícil. Para todas as empresas, o mercado brasileiro é parte relevante de suas vendas e rentabilidade. A ligação com o desmatamento pode ter impacto sobre suas vendas em vários mercados locais (receita em risco). Além disso, o Grupo Casino e o Carrefour dependem fortemente de financiamento de instituições sediadas na UE. Gestores de ativos e bancos que se adaptam aos requisitos do SFDR da UE podem impactar o custo de financiamento e avaliações de empresas com ligações com o desmatamento no Cerrado e na Amazônia. 

Em 2020, 60% do financiamento identificado do Grupo Casino se originou de investidores europeus. Se os investidores europeus exigirem um aumento de 25 pontos-base no rendimento, as despesas extras serão iguais a 9% do lucro antes dos impostos do Grupo Casino.

Figura 12: Financiadores identificados do Grupo Casino, GPA e empresas relacionadas (milhões de dólares)

Fontes: Chain Reaction Research, Refinitiv, Bloomberg

Um impacto muito maior viria do risco de perda de valor da reputação. A escalada dos riscos, caso nenhuma ação fosse tomada, poderia ser de tamanho significativo, totalizando 83% do valor patrimonial do Grupo Casino naquela época em 2020.

Figura 13: Resumo dos impactos financeiros em vários cenários

Fonte: Chain Reaction Research

fecho

Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pela Chain Reaction Research  [Aqui!].

Bancos brasileiros são os principais financiadores do desmatamento na Amazônia e no Cerrado

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Os setores de carne bovina e soja têm sido dois dos principais motores do desmatamento nos biomas Amazônia e Cerrado nos últimos anos. As instituições financeiras com exposição a esses setores podem estar inadvertidamente contribuindo para as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade. Conforme as partes interessadas globais reagem a essas ameaças, as instituições financeiras podem ficar cada vez mais expostas aos riscos financeiros. Este relatório, usando dados de Florestas e Finanças , mostra quem está financiando esses dois setores.

Baixe o PDF aqui: Bancos nacionais financiam 74% da carne bovina e soja brasileira

Principais conclusões:

  • Os financiamentos fornecidos aos setores de carne bovina e soja no Brasil totalizaram US $ 100 bilhões de 2013 a abril de 2020 . De acordo com a base de dados do Forests & Finance, foram fornecidos a estes setores US $ 82 bilhões em empréstimos e US $ 13 bilhões em underwritings, bem como US $ 5 bilhões em ações e US $ 1 bilhão em títulos.
  • 74 por cento do financiamento total identificado originou-se de instituições financeiras brasileiras. Eles forneceram US $ 66,2 bilhões em empréstimos e US $ 5,4 bilhões em subscrição. Eles também detêm US $ 3,0 bilhões em ações e US $ 3,0 milhões em obrigações. O Banco do Brasil foi de longe o maior financiamento (US $ 42,4 bilhões).
  • As instituições financeiras estrangeiras contribuíram com US $ 14,5 bilhões para o setor de carne bovina e US $ 11,2 bilhões para a indústria da soja. Santander, Rabobank, HSBC e JPMorgan Chase estão entre os 25 maiores financiadores.
  • Esses quatro bancos têm políticas de desmatamento enquanto financiam empresas de soja e carne que têm sido repetidamente associadas ao desmatamento em suas cadeias de abastecimento. Sua principal exposição é para os três grandes frigoríficos do Brasil, JBS, Marfrig e Minerva, junto com o trader de soja Cargill.
  • O elemento-chave na cadeia de financiamento é o Sistema Nacional de Crédito Rural do Brasil. Gerenciado pelo Banco Central do Brasil, o sistema canalizou empréstimos para setores agrícolas, principalmente carne bovina e soja, constituindo 91 por cento de todos os empréstimos identificados nesta pesquisa. Devido a exigências legais, cerca de dois terços do financiamento vêm de depósitos em bancos brasileiros, enquanto as taxas de juros de aproximadamente 75% do crédito são subsidiadas.
  • Os investidores europeus têm influência para se engajar no desmatamento. Uma vez que o Sistema de Crédito Rural não oferece um mecanismo eficaz para promover a agricultura sustentável, uma maior atenção da UE e do BCE sobre o risco de desmatamento pode fazer com que os financiadores europeus fiquem mais alertas sobre a reputação e o risco de investimento.

Setores de carne bovina e soja são os dois principais motores do desmatamento no Brasil

Nos últimos anos, a pecuária no bioma Amazônia e o cultivo da soja em direção ao Cerrado têm sido os principais motores do desmatamento no Brasil.Como mostrou o relatório da Chain Reaction Research de agosto de 2020 sobre a cadeia de abastecimento da carne bovina brasileira, a expansão do setor (Figura 1) é impulsionada pelo aumento da demanda nos mercados de exportação em meio a mudanças políticas, legislativas e de fiscalização favoráveis. A pecuária é responsável pelo desmatamento em grande escala, estimado em 80% do desmatamento em todos os países com cobertura florestal amazônica. Outra motivação para a criação de gado é a conversão da terra subjacente, que pode ser usada para diferentes commodities. A pecuária é uma operação de baixo custo que impede que as florestas voltem a crescer.

O forte aumento na área de cultivo de soja (Figura 2) é impulsionado por seu papel como uma importante fonte de proteína de alta qualidade e facilmente digerível para a pecuária, bem como uma fonte de óleo vegetal. O farelo de soja representou cerca de 70 por cento da produção mundial de farelo de sementes oleaginosas para a indústria pecuária em 2019/20.

Dados anuais do INPE mostram que após oito anos de queda, a taxa de desmatamento na Amazônia Legal voltou a aumentar em 2013, e atingiu 11,1 mil km 2 por ano em 2020, a maior taxa anual desde 2008. No Bioma Cerrado, estimativa de desmatamento para 2019 foi de 6,5 mil km 2 .

Figura 1: Tamanho do rebanho bovino Brasil

Fonte: USDA

Figura 2: Área de cultivo de soja no Brasil

Fonte: USDA

Os setores de carne bovina e soja do Brasil receberam US$ 100 bilhões em financiamento

Em uma base regional, as instituições financeiras sul-americanas fornecem 74% do financiamento total desde 2013 que foi identificado por Forests & Finance. UE27 e América do Norte seguem com 11 por cento e 6 por cento, respectivamente. Embora o tipo de financiamento da UE27 esteja concentrado em empréstimos (81%), os bancos e investidores norte-americanos estão igualmente ativos em todas as formas categorizadas neste relatório. Financiadores do Leste Asiático e outros países europeus forneceram fundos relativamente pequenos, mas ainda consideráveis, enquanto o Leste Asiático estava mais focado no setor de soja e a Europa (ex-UE27) mais focada em carne bovina.

Figura : Financiamento total identificado por região de origem (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org, a região “Europe Other” consiste principalmente no Reino Unido, Noruega e Suíça

Empréstimos como o tipo dominante de financiamento

Os empréstimos representaram 81 por cento do financiamento total identificado por Florestas e Finanças. A Forests & Finance identificou US $ 81,6 bilhões em empréstimos, que se destacou como a fonte de financiamento mais importante para os dois setores. Underwritings de US $ 13,2 bilhões foram a segunda maior fonte de financiamento. No entanto, envolveram mais investimentos estrangeiros devido à natureza mais internacional das emissões de ações e obrigações. As participações em ações e títulos eram relativamente pequenas.

Figura 4 : Financiamento total identificado por tipo (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org, Empréstimos e subscrição constituem o tipo de fluxo de financiamento, enquanto as participações em ações e títulos são categorizadas como participações. 95% do financiamento é na forma de fluxos, o que representa todos os empréstimos e underwriting identificados entre 2013 e abril de 2020 em uma base cumulativa. O tipo de financiamento de holding reflete os registros mais recentes disponíveis em abril de 2020.

Figura 5 : Mapa de empréstimos e subscrição fornecidos aos setores brasileiros de carne bovina e soja pelos bancos

Fonte: forestandfinance.org, NRCS: National Rural Credit System, em USD

Figura 6 : Mapa de participação e títulos nos setores brasileiros de carne bovina e soja por investidores

Fonte: forestandfinance.org, em USD

Banco do Brasil é o maior financiador da carne bovina e soja brasileira

Os bancos brasileiros forneceram a maior parte do financiamento total para os setores de carne bovina e soja, respondendo por 81% do total. Doze dos 25 maiores financiadores listados na Figura 7 são bancos brasileiros. O Banco do Brasil, controlado pelo governo (59% de propriedade de órgãos federais do Brasil), está no topo da lista por uma margem muito ampla. O Banco do Brasil destinou US $ 42,4 bilhões aos setores de carne bovina e soja entre 2013 e abril de 2020 (42,3% do total), principalmente na forma de empréstimos, mas também por meio de subscrição, títulos e participações acionárias.

No total, os 25 maiores financiadores responderam por 90% do financiamento identificado fornecido aos dois setores, sendo US $ 60,5 bilhões para carne bovina e US $ 29,5 bilhões para soja. As instituições financeiras de fora do Brasil com exposição considerável são o Santander da Espanha com US $ 5,1 bilhões, o Rabobank da Holanda com US $ 3,0 bilhões, o HSBC do Reino Unido com US $ 2,5 bilhões e o JPMorgan Chase dos Estados Unidos com US $ 0,9 bilhão.

Figura 7 : 25 principais financiadores (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org, visto em outubro de 2020, * John Deere Bank é o braço de financiamento de leasing da empresa de equipamentos agrícolas

Instituições estrangeiras com compromissos ambientais

Todas as instituições financeiras estrangeiras identificadas com exposição significativa têm relações de financiamento com pelo menos uma das empresas na Figura 8, que é uma seleção de empresas com ligações ao desmatamento mencionadas anteriormente por Chain Reaction Research ( JBS , Marfrig , Minerva , Cargill , Bunge ). Mesmo assim, as instituições financeiras mantiveram-se ativas no relacionamento com essas empresas, com base nos dados de financiamento mais recentes.

Figura 8 : Exposição de instituições estrangeiras selecionadas a empresas de risco florestal (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org, (L): Empréstimos, (U): Underwriting, (S): Participação, * Sistema Nacional de Crédito Rural, o valor em dólares das exposições mostrado na tabela foi ajustado para apresentar as proporções relativas à carne bovina e soja Atividades. Os valores originais são maiores para toda a empresa.

A lista a seguir mostra as políticas ambientais das instituições financeiras listadas na Figura 8 e nas Avaliações de Políticas do Banco de Florestas e Finanças (consulte o Apêndice 1):

  • Santander: “ Desmatamento líquido zero até 2020” – Soft Commodities Compact
  • Rabobank: “ Desmatamento líquido zero até 2020” (ver fonte ) – Soft Commodities Compact
    • A política do banco foi avaliada como “Política forte do setor de risco florestal ” e obteve uma pontuação de 39 de 50 na Avaliação de Políticas do Banco de Florestas e Finanças.
  • HSBC: De acordo com o documento de Política de Commodities Agrícolas do banco nos setores de Soja, Pecuária e Rubberwood, “o HSBC não fornecerá conscientemente serviços financeiros a clientes de alto risco envolvidos diretamente ou com fornecedores envolvidos em desmatamento, ou seja: a conversão de áreas (geralmente florestas) necessárias para proteger HCVs; a conversão de florestas tropicais primárias; ou apuramento por queima. ”
    • A política do banco foi avaliada como “ Boa política do setor de risco florestal com algumas lacunas ” e obteve uma pontuação de 30 de 50 na Avaliação de Políticas do Banco de Florestas e Finanças.
  • JP Morgan Chase: “ Desmatamento líquido zero até 2020” (ver fonte ) – Soft Commodities Compact
    • A política do banco foi avaliada como “ Política do setor de risco florestal justa com lacunas ” e obteve 28 de 50 na Avaliação de Políticas do Banco de Florestas e Finanças.
  • Bank of America: De acordo com o documento da Estrutura de Política de Risco Social e Ambiental do banco sob lista proibida, “o Bank of America não se envolverá conscientemente em atividades ilegais, incluindo extração ilegal de madeira ou fogo não controlado – incluindo transações em que um cliente se envolva em extração ilegal de madeira uso do fogo para limpar terras florestais. ”

Esse grupo de financiadores, dominado por instituições financeiras europeias, fornece 14% do financiamento total para empresas brasileiras de soja e carne bovina. Eles podem enfrentar risco de reputação devido às suas políticas de desmatamento e mudanças na regulamentação (europeia) sobre o desmatamento e a devida diligência nas cadeias de abastecimento.

Fornecer financiamento para setores de risco florestal, neste caso carne bovina e soja, especialmente para JBS, Marfrig, Minerva e Cargill e Bunge, (uma seleção de empresas vinculadas ao desmatamento mencionadas pelo CRR) pode expor os bancos a riscos financeiros e de reputação por meio desmatamento. Em particular, os financiadores da Europa podem enfrentar risco de reputação devido ao foco crescente em cadeias de abastecimento sem desmatamento pelas regulamentações europeias .

Empréstimos são a maior fonte de financiamento, tendo o sistema de crédito rural como principal canal

Noventa e um por cento dos empréstimos foram concedidos por meio do Sistema Nacional de Crédito Rural, onde o destinatário final e o prazo de vencimento dos recursos não são divulgadosA lista dos 25 maiores provedores de empréstimo (ver Figura 9) cobre 95 por cento de todos os empréstimos originados entre 2013 e abril de 2020. Enquanto os bancos brasileiros ocupam a maior parte da lista com o Banco do Brasil na liderança, a maioria desses empréstimos locais são facilitada através de um sistema de financiamento chamado sistema Nacional de crédito Rural (sistema Nacional de crédito Rural) As informações do Banco Central do Brasil, que também administra o sistema de crédito, sugerem que o financiamento do programa se baseia principalmente em regras. Por exemplo, inclui exigências de reserva legal para depósitos à vista e de poupança rural em bancos brasileiros. Além disso, as taxas de juros para a maior parte do crédito que o sistema oferece são subsidiadas. Informações mais detalhadas sobre como os dados são incorporados ao banco de dados Florestas e Finanças estão incluídas no Quadro 1 abaixo.

Figura 9 : 25 principais provedores de empréstimos (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org 

Sistema Nacional de Crédito Rural do Brasil

A análise do Sistema Nacional de Crédito Rural com base nos dados do Banco Central do Brasil revela que a maior parte do crédito rural concedido tem como destino os setores de carne bovina e soja. Embora o total de empréstimos em aberto concedidos por meio do programa tenha crescido de R $ 272 bilhões (US $ 82 bilhões) em maio de 2017 para R $ 320 bilhões (US $ 59 bilhões) em maio de 2020, o valor em US $ diminuiu devido a uma forte desvalorização da moeda local. O valor total do empréstimo pendente no programa correspondeu, em média, a 9,5% dos empréstimos em todo o sistema bancário brasileiro nos últimos quatro anos. O nível de originação anual de crédito implica cerca de 20 meses de maturidade média dos créditos do sistema.

Figura 10 : Sistema Nacional de Crédito Rural no Brasil (em bilhões de dólares)

Fonte: Banco Central do Brasil

Figura 11 : Sistema Nacional de Crédito Rural por tipo de beneficiário e subsídio

Fonte: Banco Central do Brasil

Em média, 75% dos empréstimos concedidos pelo Sistema Nacional de Crédito Rural entre junho de 2017 e junho de 2020 foram subsidiados com taxas de juros inferiores às do mercado. Embora as pequenas propriedades familiares recebam taxas de juros mais baixas com mais subsídios (ver Figura 11), elas receberam apenas cerca de 13% do total de empréstimos. As taxas de juros anuais subsidiadas foram 30% mais baixas em comparação com as taxas definidas livremente (não subsidiadas) para as propriedades não familiares e 55% mais baixas para as propriedades familiares. 

Figura 12 : Taxas médias anuais de juros do Sistema Nacional de Crédito Rural no Brasil

Fonte: Banco Central do Brasil

O efeito do Sistema Nacional de Crédito Rural no desmatamento

A pesquisa de impacto do Sistema Nacional de Crédito Rural aponta para uma mudança na política de crédito do sistema em 2008. A aprovação do crédito rural subsidiado na Amazônia está condicionada à comprovação do cumprimento da regulamentação ambiental. Principalmente por meio de uma redução nos volumes de crédito (principalmente em municípios onde a pecuária é a principal atividade econômica), o desmatamento no bioma Amazônia entre 2009 e 2011 foi 60% menor do que teria sido sem restrições de crédito.

Em sua nota de política para 2020 , o Banco Mundial afirmou que um pequeno número de grandes fazendas recebe a maior parte do financiamento rural, enquanto 85% de todos os fazendeiros no Brasil não têm acesso ao crédito. Além disso, a maior parte do crédito rural é para financiamento do tipo capital de giro de curto prazo, com financiamento de investimento de prazo mais longo limitado. Assim, a probabilidade de o crédito rural afetar positivamente os investimentos em agricultura sustentável é considerada baixa.

Figura 13 : Empréstimos por região (em milhões de dólares)

Figura 14 : Empréstimos * (milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org. * A diferença nos fluxos de empréstimos entre os diferentes números do relatório decorre dos ajustes do setor em dados de Florestas e Finanças (ver anexo 1), bem como da exclusão de alguns dos financiadores do Sistema Nacional de Crédito Rural (ver caixa 1)

Subscrição

A subscrição cumulativa de emissões de ações e títulos entre 2013 e abril de 2020 totaliza US $ 13,2 bilhões. Desse total, 77% são destinados às emissões de títulos dos três grandes frigoríficos – JBS, Marfrig e Minerva. Uma vez que quase todas essas emissões de títulos foram denominadas em dólares americanos, as instituições financeiras internacionais tiveram uma participação elevada, subscrevendo 60 por cento do tamanho total dos negócios, significativamente maior em comparação com sua contribuição em empréstimos.

Figura 15 : 25 maiores subscritores (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org

Desenvolvimento histórico

O total de subscrição identificado caiu para US $ 334 milhões em 2015, principalmente por causa da seca. Isso foi seguido por um ano de expansão, com negócios atingindo US $ 3,2 bilhões.

Figura 16 : Subscrição Regional (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org

Participação

Os dados de participação são mais diversificados devido ao envolvimento de fundos de ações globais, especificamente na forma de ETFs. Quando a participação de 21,3 por cento do BNDES (Banco de Desenvolvimento do Brasil) (no valor de US $ 2,1 bilhões, ajustado para a participação das operações de carne bovina da JBS) na JBS é excluída como uma exceção, os investidores norte-americanos têm o maior percentual de 49 por cento contra 33 por cento para América do Sul. O BNDES desinvestiu da Marfrig no final do 1T2020, vendendo sua participação de 30% na empresa (no valor de cerca de US $ 500 milhões). O BNDES afirmou que pretende desinvestir também da JBS, mas a venda ainda não se concretizou.

Figura 17: Participação regional (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org, ajustado pela participação do BNDES na JBS

Figura 18 : 25 principais acionistas (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org

Bondholding

Bondholding é a menor área de financiamento identificado recebido pelos setores de carne bovina e soja no Brasil, com apenas US $ 663 milhões, totalizando apenas 0,7 por cento do financiamento total identificado. Os investidores locais da região da América do Sul praticamente não têm participações nos títulos, enquanto a América do Norte (58%) e a UE27 (29%) têm a maior exposição.

Figura 19 : Obrigações regionais (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org

Figura 20 : 25 principais detentores de títulos (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org

Financiadores europeus em posição de se envolver com soja e carne bovina

Ao financiar 12% do financiamento total da carne bovina e soja no Brasil, os investidores e bancos europeus têm o potencial de contribuir para a redução do desmatamento nas cadeias de abastecimento da carne bovina e da soja. Quando o JPMorgan Chase e o Bank of America estão incluídos, 14% do financiamento é feito por meio de instituições financeiras com políticas de desmatamento.

Grande parte do financiamento dos setores brasileiros de soja e carne bovina flui por meio de crédito rural de bancos brasileiros, que atualmente têm impacto mínimo na agricultura sustentável. No entanto, os financiadores europeus enfrentam risco de reputação devido ao desenvolvimento de regulamentos da UE sobre o desmatamento nas cadeias de abastecimento. Além disso, o Banco Central Europeu (BCE) dá um peso cada vez maior aos riscos de mudança climática, desmatamento e biodiversidade. Todos os financiadores enfrentam riscos de investimento, pois as empresas que financiam podem ser confrontadas com um acúmulo de risco de acesso ao mercado, risco de regulamentação e risco de financiamento. As participações no capital também podem perder valor devido ao risco de reputação.

Como os bancos e investidores europeus também são financiados por seus próprios investidores, essas instituições financeiras também estão em posição de evitar a repetição das perdas causadas pelo financiamento da indústria de combustíveis fósseis, que também está ligada às mudanças climáticas.

Apêndice 1: Florestas e finanças

Objetivo, escopo, metodologia e parceiros da Forests & Finance, resumidos no site:

Forestsandfinance.org visa destacar o papel que as finanças desempenham na viabilização do desmatamento tropical. É o resultado de extensas pesquisas e investigações por uma coalizão de organizações de campanha e pesquisa, incluindo Rainforest Action Network, TuK INDONESIA, Profundo, Amazon Watch, Repórter Brasil e BankTrack. O banco de dados Forests & Finance avalia os serviços financeiros recebidos por mais de 300 empresas e mais de 16.000 empresas de risco florestal de pequena escala que receberam financiamento que estão diretamente envolvidas na carne bovina, óleo de palma, celulose e papel, borracha, soja e madeira tropical (“ setor de risco florestal ”) cadeias de suprimento e cujas operações impactam as florestas tropicais naturais no Sudeste Asiático, Brasil, bem como na África Central e Ocidental. Nem todas as empresas selecionadas para o banco de dados estão envolvidas em operações prejudiciais. Contudo, todos estão envolvidos em operações de grande escala em regiões de florestas tropicais que apresentam alto risco de causar desmatamento e impactos sociais associados. As instituições financeiras que fazem negócios com essas empresas estão, portanto, altamente expostas aos riscos de desmatamento.

Os bancos de dados financeiros Refinitiv (anteriormente conhecido como Thomson EIKON), Bloomberg IJGlobal, TradeFinanceAnalytics, arquivos de registro de empresas, bem como relatórios de empresas disponíveis publicamente, foram usados ​​para identificar empréstimos corporativos, crédito e facilidades de subscrição fornecidas às empresas selecionadas no período 2013-2020 (Abril). Os investimentos em títulos e ações das empresas selecionadas foram identificados por meio da Refinitiv e da Bloomberg na data de depósito mais recente disponível em abril de 2020. Essas bases de dados financeiras fornecem acesso a dados de mercado em tempo real, notícias, dados fundamentais, análises, ferramentas de negociação e mensagens. O portal Transparência do BNDES e o portal do Banco Central do Brasil foram usados ​​para identificar fluxos financeiros adicionais para empresas de risco florestal no Brasil. Esta pesquisa fornece um conjunto de dados de nível de negócio de relacionamentos específicos entre empresas selecionadas e qualquer instituição financeira vinculada. Das mais de 300 empresas pesquisadas, apenas 230 empresas tinham financiamentos identificáveis ​​onde o financiador, o valor do financiamento e a data de início eram conhecidos dentro do período de estudo.

As empresas com atividades comerciais fora do setor de risco florestal registraram valores reduzidos para apresentar com mais precisão a proporção do financiamento que pode ser razoavelmente atribuída às operações do setor de risco florestal da empresa selecionada. Quando as informações financeiras disponíveis não especificavam a finalidade do investimento ou da divisão de recebimento dentro do grupo da empresa-mãe, os fatores de redução foram calculados individualmente pela comparação das atividades do setor de risco florestal de uma empresa em relação às atividades totais do grupo-mãe. Ajustadores adicionais foram calculados para empresas que operam em várias geografias dentro do escopo desta pesquisa.

Os bancos comerciais identificados neste estudo foram avaliados para determinar a força de quaisquer políticas publicamente disponíveis relevantes para a tomada de decisão de investimento no setor de risco de floresta tropical e, subsequentemente, pontuados de acordo com uma série de critérios que incorporam padrões ambientais, sociais e de governança. Cada um dos principais bancos recebeu uma pontuação sobre o escopo de suas políticas e seus padrões ambientais e sociais. A Metodologia de Avaliação de Políticas do Forests & Finance Bank é baseada no Fair Finance Guide (FFG) com foco no setor de risco florestal.

Os dados e avaliações apresentados neste site não foram fornecidos ou autorizados por nenhuma das instituições financeiras ou clientes em causa. Embora todas as tentativas tenham sido feitas para pesquisar e apresentar dados e avaliações de forma precisa e objetiva, é difícil garantir a precisão total. Isso se deve principalmente à falta de consistência e transparência na maneira como as instituições financeiras e clientes do setor de risco florestal registram as principais informações financeiras e empresariais. Onde houve ambigüidade nas informações de origem dos serviços financeiros, os autores deste site agiram com cautela, resultando em uma provável subestimação dos verdadeiros montantes de financiamento envolvidos. Os autores estão empenhados em corrigir quaisquer erros identificados na primeira oportunidade.

Visite o site para mais informações e para usar o banco de dados.

Apêndice 2: Principais destinatários de financiamento identificados por Florestas e Finanças

Figura 21 : 25 maiores destinatários de financiamento (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org

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Esta reportagem foi inicialmente escrita em inglês e publicada pela Chain Reaction Research [Aqui! ] .

Dossiê revela série de violações socioambientais das operações da Hidrovias do Brasil no Pará

Documento publicado pelo Inesc, elaborado com base em denúncias de moradores, revela que a empresa não cumpre com as medidas para mitigar os impactos negativos de suas operações na região de Itaituba. Hidrovias tem dentre seus principais investidores a IFC, braço de investimentos do Banco Mundial para o setor privado.

Estação de transbordo e carregamento de barcaças - HBSA - Estrutural Zortea

Enquanto a soja passa: impactos da empresa Hidrovias do Brasil em Itaituba – revela que a empresa de logística Hidrovias do Brasil tem descumprido sistematicamente uma série de medidas que deveriam ser adotadas para mitigação dos impactos negativos de suas operações na região de Itaituba, no Pará, que se transformou nos últimos anos em um importante centro de transporte da cadeia global de fornecimento de commodities ao ligar a rodovia BR-163 com o Rio Tapajós, é que conclui um estudo divulgado pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) publicado nesta terça-feira , 23/02.

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Durante a alta safra da soja, cerca de 1500 caminhões transitam diariamente em Miritituba, distrito de Itaituba, onde vivem 15 mil pessoas. O território é peça fundamental na reestruturação da Amazônia brasileira como caminho para a exportação de grãos do Mato Grosso para o Atlântico, com destino para a China, União Europeia e outros países. Atualmente, pelo menos 41 novos portos estão planejados ou em construção para os principais rios da região.

Na região, já foram construídos diversos empreendimentos, como hidrelétricas, hidrovias, garimpos e minas. Desde 2013, pelo menos 10 portos industriais – a maioria ligados ao agronegócio – foram construídos ao redor da cidade de Itaituba. Em Miritituba existem cinco Estações de Transbordo de Carga (ETC), instalações portuárias privadas que escoam os grãos pelos rios Tapajós e Amazonas até os portos Pará e do Amapá. O dossiê analisa os efeitos dos portos na região, com foco na empresa de logística Hidrovias do Brasil (HDB).

A instituição tem entre seus acionistas a Corporação Financeira Internacional (International Finance Corporation – IFC), braço de investimentos do Banco Mundial para o setor privado. A IFC, que é um banco multilateral de desenvolvimento, exigiu que a Hidrovias do Brasil, para receber o investimento, cumprisse com os Padrões de Desempenho sobre Sustentabilidade Socioambiental (PDs), um conjunto de medidas necessárias para impedir, diminuir ou mitigar os efeitos socioambientais negativos da sua atuação na região. 

No entanto, o dossiê do Inesc evidencia que a política socioambiental, aparentemente rigorosa da IFC, não está sendo cumprida pela Hidrovias do Brasil. O relatório produzido por meio de denúncias de moradores de Itaituba e Miritituba, representantes de movimentos sociais, lideranças indígenas, entre outros, analisa detalhadamente cada meta de sustentabilidade que deveria estar sendo executada pela Hidrovias do Brasil e aponta falhas na vistoria da instituição financeira investidora. 

“A Hidrovias do Brasil foi financiada por um banco que tem uma política socioambiental, à princípio, robusta, que envolve um monitoramento da empresa para ter certeza que, se estão previstos impactos negativos, deverão ser mitigados ou compensados. Existem instâncias que podemos apelar ao banco, para que monitore a empresa e faça estas políticas de fato serem cumpridas. Portanto, este dossiê é um primeiro passo para que a IFC retome o monitoramento da Hidrovias do Brasil e a faça cumprir a política socioambiental da própria instituição”, afirma Livi Gerbase, assessora política do Inesc e autora do estudo.

Um exemplo é a construção do desvio para que os caminhões contornem Miritituba ao invés de cortá-la, obra prometida pela Hidrovias do Brasil ao Banco e que não saiu do papel. Para além do trânsito e do aumento do número de acidentes, os 1500 caminhões geram poluição no ar e deixam parte da soja espalhada por toda a cidade, causando graves danos à saúde da população e interferência na fauna e na flora local. Um morador de Miritituba resume a sensação de viver entre o tráfego intenso: “aqui a gente disputa com as carretas, e o menor é quem tem que correr”. 

O aumento dos índices de violência, comércio ilegal de drogas e prostituição, trazidos com a multidão de caminhoneiros que chega diariamente, são outros impactos sofridos pela população local e ainda pouco mapeados pelos órgãos competentes. 

Moradores de Miritituba revelam, ainda, outras violações da parte da Hidrovias do Brasil e outras empresas portuárias na região, como a proibição da pesca em lugares tradicionalmente acessados pelos pescadores devido a utilização de cordões de isolamento como medidas de segurança por cinco portos instalados lado a lado. Além disso, pescadores também denunciam que a soja que cai nos rios, ao serem transportadas pelas barcaças, está sendo encontrada na barriga dos peixes. 

Indígenas do povo Munduruku também sofrem com as operações da Hidrovias na região que alegou, em seu relatório à IFC, não haver comunidades indígenas e tradicionais afetadas pela construção da sua ETC. A realidade é outra. Duas aldeias urbanas nas margens do Tapajós convivem diariamente com os portos e seus efeitos: Praia do Índio e Praia do Mangue. Para os Munduruku, porém, toda a população indígena do Médio Tapajós sente os efeitos do projeto, pois os impactos se espalham pela rede de parentesco que liga essas comunidades, afetando outros territórios indígenas da região, que possui 868 habitantes indígenas, de acordo com dados oficiais em 2019. Apesar disso, não houve consulta prévia, livre e informada aos povos indígenas, tanto da Hidrovias do Brasil quanto dos outros portos instalados na região, uma clara violação da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, um acordo do qual o Brasil é signatário. 

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Por fim, outra reclamação grave dos moradores é quanto à participação dos mesmos nos espaços de diálogos com a empresa. Eles relatam que reuniões acontecem em caráter meramente formal com os impactados, onde eles não são de fato ouvidos. “Ouvir a população é só com audiência pública de carta marcada. Na verdade, da população eles só querem a assinatura na ata ali, e o projeto todo já está sendo pronto e  implementado”, explica Josenaldo Luna de Castro, membro do Conselho Gestor de Fiscalização dos Empreendimentos e Investimentos no Distrito de Miritituba (CONGEFIMI). O conselho foi criado em 2018 para ser uma ferramenta de monitoramento da atuação de empresas como a Hidrovias do Brasil na região. 

Enquanto viola os direitos da população local e comunidades tradicionais, a Hidrovias do Brasil, com o sucesso de seus investimentos na Amazônia, completou em 2020 uma oferta pública inicial (IPO) de ações, arrecadando 600 milhões de dólares. Conforme reportagem publicada pelo site Mongabay, em novembro do ano passado, em um prospecto fornecido no seu IPO, a Hidrovias do Brasil descreveu seu porto de Itaituba, que não teve consulta dos Munduruku, como um ativo chave da empresa. A empresa também advertiu aos investidores que as regulamentações ambientais poderiam restringir severamente sua capacidade de fazer negócios e que suas operações logísticas poderiam “resultar em danos ao meio ambiente e a comunidades indígenas e quilombolas, cuja extensão e custos de reparação não são possíveis de estimar”.

Política ambiental brasileira causa exclusão da Cargill, Bunge e ADM de fundos do Danske Bank

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Responsável por € 237 bilhões ( cerca de R$1,5 trilhão), o Danske Bank excluiu de dois de seus fundos as gigantes Cargill, Bunge e ADM, que operam no comércio de commodities agrícolas, em especial soja. A causa é o acelerado desmatamento de áreas florestadas na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal.

“Apesar dos compromissos das empresas [com políticas de proteção ambiental], a taxa anual de desmatamento das florestas tropicais da Amazônia continua em um ritmo alarmante”, afirmou Erik Eliasson, o diretor de investimento sustentável do Danske Bank, ao jornal Folha de S.Paulo.

A decisão foi baseada em dados de iniciativas de monitoramento de cadeias de commodities feitos pela ONG americana Mighty Earth, da pesquisa Chain Reaction, da iniciativa Trase. Os estudos estão em curso desde 2018 e apontam que  mais de 36 mil alertas de incêndio foram registrados nas proximidades dos silos da Cargill, Bunge e ADM em 2020 no Brasil. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) – que são rechaçados pelo governo – apontam que em novembro de 2020 o desmatamento atingiu seu nível mais alto desde 2008.

“Até que haja uma agenda política mais forte e planos de ação e compromissos concretos para proteger as florestas tropicais, as empresas que compram na região provavelmente estarão expostas e contribuindo para o desmatamento das florestas, independentemente de quão fortes práticas de manejo possam ter. Por sua vez, essas empresas podem ser afetadas por graves riscos de reputação e diminuição da demanda do consumidor”, concluiu Eliasson à Folha.

Cargill, ADM e Bunge alegaram respeitar a lei, que adotam voluntariamente a moratória da soja, que tenta conter o cultivo em áreas desmatadas recentemente, além de se valerem de políticas de monitoramento da cadeia e transparência. Com atuação em mais de 70 países, as três empresas somaram faturamento bruto conjunto de quase US$ 220 bilhões em 2019.

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo site especializado “Money Report” [Aqui!].

Cargill é principal responsável por envio de soja de desmatamento recente ao Reino Unido, diz ONG

Estudo estabelece mais um elo na intrincada cadeia produtiva internacional que destrói Amazônia e Cerrado

climate tracker

A Cargill, a maior importadora de soja do Reino Unido, está ligada ao desmatamento de 61.260 hectares de florestas na Amazônia brasileira e no Cerrado desde março de 2019. É o que revelam novos dados publicados hoje na ferramenta de monitoramento da Mighty Earth, o Rastreador de Desmatamento de Soja e Gado . Todos os principais supermercados da Grã-Bretanha vendem frango e carne suína alimentados com soja brasileira.

Perguntados sobre suas conexões com a Cargill, os supermercados J. Sainsbury, ASDA, Morrisons e Aldi-UK recusaram-se a confirmar ou negar suas ligações diretas ou indiretas com a comerciante. Entretanto, a Tesco, num gesto de transparência, reconheceu que a Cargill está presente nas cadeias de suprimento de seus fornecedores diretos de frango e publicou um documento delineando a origem da soja utilizada para seus produtos.

Apesar das sucessivas promessas dos principais supermercados da Grã-Bretanha de alcançar o desmatamento zero em sua cadeia de abastecimento até 2020, os varejistas continuam altamente expostos ao desmatamento e ao desmatamento no Brasil, alimentado pela produção de soja.

A Cargill domina o mercado britânico de soja, importando mais de dois terços (70%) dos grãos de soja que entram no Reino Unido diretamente do Brasil. Três quartos (78%) das exportações diretas de soja brasileira para o Reino Unido vêm de regiões ameaçadas do Cerrado, a maior savana tropical do mundo, e da Amazônia, a maior floresta tropical do mundo. 

Quase toda (90%) a soja consumida no Reino Unido é utilizada para alimentar animais de criação, como frangos e porcos, que são depois vendidos nos supermercados britânicos.

“Os consumidores britânicos têm falado alto e claro – eles não querem ser cúmplices na destruição das florestas preciosas do Brasil. Entretanto, os supermercados estão falhando em protegê-los do consumo de carne alimentada com soja destruidora da floresta”, afirma Robin Willoughby, diretor da Mighty Earth do Reino Unido. “Estamos instando os CEOs da Tesco PLC, J.Sainsbury’s, ASDA, Morrisons e Aldi UK a tomar medidas imediatas para deter a destruição do Brasil e abandonar a Cargill”.

De fato, juntamente com a divulgação da pesquisa, a Mighty Earth do Reino Unido está lançando uma campanha nacional para que medidas decisivas sejam tomadas em relação à Cargill.

Levantamento

Todos os meses, a Mighty Earth e a organização de pesquisa Aidenvironment usam alertas de desmatamento via satélite de agências governamentais brasileiras, imagens de propriedade, investigações por uma equipe local e envolvimento com as empresas nomeadas para estabelecer os vínculos entre os comerciantes de soja, processadores de carne bovina e a destruição de florestas no Brasil.

O Mighty Earth’s Soy & Cattle Deforestation Tracker (Rastreador de Desmatamento de Soja e Gado) conecta instâncias de desmatamento em larga escala na Amazônia e no Cerrado a comerciantes de soja e frigoríficos e torna esses vínculos públicos pela primeira vez. Ele não captura todo o desmatamento no Brasil, que é muitas vezes maior.

De acordo com a agência espacial brasileira (INPE), o desmatamento da floresta amazônica no país bateu o recorde dos últimos 12 anos. Na semana passada, o governo brasileiro removeu qualquer medida para combater o desmatamento no plano nacional de ação climática(conhecido como NDC) sob o Acordo de Paris, apesar de o desmatamento ser a principal fonte de emissões de gases de efeito estufa no país. Segundo a Mighty Earth, soja e pecuária bovina são as atividades mais relacionadas à degradação florestal no Brasil.

Investigação revela que redes de supermercados e de fast food do Reino Unido usam frangos associados ao desmatamento no Brasil

Tesco, Lidl, Asda, McDonald’s e Nando’s, todas fontes de frangos alimentados com soja produzida na região do bioma tropical do Cerrado

chicken 1Uma análise recente das terras pertencentes ou usadas por fornecedores de soja no Cerrado desde 2015 encontrou 801 km2 de desmatamento. Fotografia: Jim Wicken / Cortesia da Mighty Earth

Por Jonathan Watts , Andrew Wasley , Alexandra Heal , Alice Ross , Lucy Jordan, Emma Howard e Harry Holmes para o The Guardian

Supermercados e lojas de fast food estão vendendo frango alimentado com soja importada associada a milhares de incêndios florestais e pelo menos 800 quilômetros quadrados de derrubada de árvores no Cerrado brasileiro, revelou uma investigação transfronteiriça conjunta.

Tesco, Lidl, Asda, McDonald’s, Nando’s e outros varejistas de rua, todos compram frango alimentado com soja fornecida pela gigante comercial Cargill, a segunda maior empresa privada dos Estados Unidos. A combinação de proteção mínima para o Cerrado – um sumidouro de carbono e habitat de vida selvagem de importância mundial – com uma cadeia de suprimentos opaca e sistemas de rotulagem confusos, significa que os compradores podem estar inadvertidamente contribuindo para sua destruição.

O locutor e ativista Chris Packham disse que as revelações mostram que os consumidores precisam receber mais informações sobre seus alimentos. “A maioria das pessoas ficaria incrédula quando pensasse que está comprando um pedaço de frango no Tesco’s que foi alimentado com uma plantação responsável por uma das maiores destruições de floresta tropical nos últimos tempos”, disse ele.

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Supermercados e lojas de fast food do Reino Unido estão vendendo frango alimentado com soja associada ao desmatamento no Cerrado brasileiro

“Precisamos acordar para o fato de que o que compramos nos supermercados do Reino Unido, as implicações dessa compra podem ser amplamente e enormemente prejudiciais, e este é um excelente exemplo disso.”

O Reino Unido abate pelo menos um bilhão de galinhas por ano , o equivalente a 15 aves para cada pessoa no país. Muitos são engordados com grãos de soja importados para o Reino Unido pela Cargill, que compra dos agricultores do Cerrado, uma savana tropical lenhosa que cobre uma área igual à Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália e Espanha juntas.

A análise dos dados de transporte mostra que a Cargill importou 1,5 milhão de toneladas de soja brasileira para o Reino Unido nos seis anos até agosto de 2020. Números de exportação em nível de bioma, compilados pelo órgão de vigilância da cadeia de abastecimento Trase, indicam que quase metade das exportações brasileiras da Cargill para o O Reino Unido é do Cerrado.

Entre os carregamentos mais recentes estavam 66.000 toneladas de grãos de soja que desembarcaram nas docas de Liverpool em agosto em um navio-tanque alugado pela Cargill, o BBG Dream. Esse foi o foco de uma investigação colaborativa do Bureau of Investigative Journalism, do Greenpeace Unearthed, do ITV News e do Guardian.

O porão do navio havia sido carregado no terminal portuário de Cotegipe, em Salvador, Brasil , com grãos vindos da região do Cerrado Matopiba, incluindo alguns de Formosa do Rio Preto, a comunidade mais desmatada do Cerrado. Além da Cargill, os fornecedores incluíam a Bunge (maior exportadora de soja do Brasil) e a ADM (outra grande produtora de alimentos nos Estados Unidos).

chicken 3A Cargill importou 1,5 milhão de toneladas de soja brasileira para o Reino Unido nos seis anos até agosto de 2020. Fotografia: Victor Moriyama / Greenpeace

Depois de cruzar o Atlântico, todo o carregamento foi descarregado na planta de esmagamento de soja Seaforth da Cargill em Liverpool, de acordo com registros marítimos e de embarque. A investigação rastreou a forma como o grão esmagado ali é então transportado de caminhão para moinhos em Hereford e Banbury, onde é misturado com trigo e outros ingredientes para produzir ração para gado. De lá, segue para as granjas contratadas da Avara.

Avara é uma joint venture entre a Cargill e a Faccenda Foods. Ele engorda as aves, que são abatidas, processadas e embaladas para distribuição à Tesco, Asda, Lidl, Nando’s, McDonald’s e outros varejistas. Avara prospera em relativa obscuridade. “Você pode não ter ouvido falar de nós, mas há uma boa chance de ter gostado de nossos produtos”, diz o site da empresa .

Então, de onde exatamente vem essa soja? O fornecedor da Avara, a Cargill, compra soja de muitos fornecedores no Cerrado, pelo menos nove dos quais estiveram envolvidos em desmatamentos recentes. A análise da consultoria Aidenvironment dos terrenos pertencentes ou usados ​​por essas empresas desde 2015 encontrou 801 km2 de desmatamento – uma área equivalente a 16 manhattans. Também detectou 12.397 incêndios registrados.

Vídeo sobre como o frango britânico está ligado ao desmatamento e incêndios no Brasil por Sian Butcher e Georgie Johnson para Unearthed

Ainda no mês passado, imagens de drones realizadas em Formosa do Rio Preto mostraram grandes incêndios queimando na Fazenda Parceiro, fazenda administrada pela SLC Agrícola, fornecedora da Cargill. Dados de satélite mostram que os incêndios queimaram 65 km2 da fazenda. Mais de 210 km2 foram limpos nas terras da SLC Agrícola nos últimos cinco anos, de acordo com a análise da Aidenvironment. A Cargill disse que não quebrou regras, nem suas próprias políticas, ao comprar produtos da fazenda em questão e deixou claro que não se abastece de terras desmatadas ilegalmente. A SLC Agrícola foi procurada para comentar, mas não quis se pronunciar.

Apesar dessa destruição, os produtos dessas áreas podem ser rotulados como legais e sustentáveis ​​no Brasil. Isso destaca as deficiências de um sistema de comércio internacional que depende de padrões locais, que muitas vezes são influenciados por fazendeiros focados no lucro econômico de curto prazo, ao invés do bem global de longo prazo, que incorporaria o valor dos sistemas de água, sumidouros de carbono e vida selvagem habitats.

chicken 4Os agricultores podem cortar e queimar legalmente uma proporção maior de árvores na savana do Cerrado em comparação com sua vizinha, a Amazônia. Fotografia: Jim Wicken / Cortesia da Mighty Earth

O governo brasileiro tem relaxado constantemente os controles sobre o desmatamento – e às vezes o encoraja tacitamente – ao longo da última década, principalmente com o relaxamento do Código Florestal em 2012.

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Isso é particularmente verdadeiro no Cerrado, o segundo maior bioma do Brasil, que está sendo sacrificado para aumentar as exportações, manter baixos os preços globais dos alimentos e reduzir o impacto sobre seu vizinho, a Amazônia. Os agricultores podem cortar e queimar legalmente uma proporção maior de árvores nesta savana em comparação com a Amazônia examinada internacionalmente .

Muitos biólogos acreditam que essa política é míope. As árvores, arbustos e solo do Cerrado armazenam o equivalente a 13,7 bilhões de toneladas de dióxido de carbono – significativamente mais do que as emissões anuais da China. É a origem de tantos rios que é conhecida como “o berço das águas” e abriga 1.600 espécies de pássaros, répteis e mamíferos (incluindo onças, tatus e tamanduás) e 10.000 tipos de plantas, muitas não vistas em nenhum outro lugar do mundo.

chicken 6Lobo-guará, que vive principalmente nas regiões do Cerrado e Chaco e é considerado quase ameaçado. Fotografia: Nando Bomfim

Os cientistas dizem que será difícil – senão impossível – salvar a Amazônia sem conservar o Cerrado. Mas este último sofreu o dobro do desmatamento, embora tenha metade do tamanho. Entre 50% e 80% do bioma original foi substituído por fazendas de gado e fazendas de soja, tornando esta fronteira do agronegócio que se expande mais rapidamente e uma das áreas da natureza que mais encolhe.

Independentemente de o Brasil considerar legal ou não a soja dessa área, muitos consumidores não querem comprar produtos associados ao desmatamento.

chicken 7O Reino Unido abate um bilhão de frangos por ano, muitos dos quais são engordados com ração à base de soja. Fotografia: John Eveson / FLPA / REX / Shutterstock

O Reino Unido importa 700.000 toneladas de grãos de soja in natura a cada ano, muitos do Cerrado. Também compra quase três vezes essa quantidade de ração de soja processada, a maioria da Argentina. O impacto ambiental varia enormemente de país para país. Mas os compradores não têm como saber se seu peito de frango ou hambúrguer contribuíram para o problema do Cerrado porque os rótulos fornecem informações insuficientes sobre as origens, as safras de fontes sustentáveis ​​e desmatadas podem ser misturadas e muitas empresas dependem de compensações.

As empresas envolvidas dizem que estão trabalhando para reduzir o impacto ambiental de suas ofertas, mas o progresso varia.

O McDonald’s e o Nando’s cobrem os volumes de soja que usam para ração de galinhas com “certificações” de sustentabilidade, que incluem a compra de “créditos” – semelhantes à compensação de carbono. Os créditos apoiam os agricultores que produzem de forma sustentável, mas a soja real na cadeia de abastecimento não é necessariamente desses produtores e pode vir de fazendas desmatadas.

O McDonald’s disse que visa eliminar o desmatamento de suas cadeias de abastecimento globais até 2030. Um porta-voz disse: “Estamos orgulhosos do progresso que fizemos, mas reconhecemos que há mais a fazer e continuaremos a trabalhar duro para progredir em direção ao nosso metas.”

A Nando’s não forneceu uma data-alvo para eliminar completamente o desmatamento de sua cadeia de abastecimento, mas disse que estava procurando alternativas à soja. “Reconhecemos que há mais trabalho a fazer e é por isso que também estamos investindo em pesquisas visando alternativas de alimentação mais sustentáveis ​​e esperamos poder compartilhar os resultados o mais rápido possível.”

chicken 8Várias empresas apoiam um novo acordo para impedir o desmatamento para o plantio de soja no Cerrado, mas a oposição a esta posição no Brasil significa que nenhuma ação foi tomada. Fotografia: Peter Caton

Asda e Lidl disseram que estavam trabalhando para comprar apenas soja sustentável “certificada fisicamente” até 2025, mas isso pode significar coisas diferentes. Asda entende que significa soja “segregada” livre de desmatamento – o que significa que o produto real em sua cadeia de abastecimento deve ser sustentável para atingir seu objetivo – mas Lidl esclareceu que estava incluindo um esquema em que grãos sustentáveis ​​podem ser misturados com produtos do desmatamento fazendas. Lidl disse que é atualmente o maior comprador de créditos para compensar sua pegada de soja.

A Tesco disse que estabeleceu para si mesma uma meta “líder do setor” para que sua soja venha de “áreas” comprovadamente livres de desmatamento até 2025. “Deve-se parar de fazer fogueiras para limpar terras para plantações”, disse um porta-voz. “Desempenhamos um papel de liderança ao reunir a indústria e o governo para proteger o Cerrado, incluindo o compromisso de £ 10 milhões para proteger a biodiversidade da região. Precisamos de nossos fornecedores, indústria, ONGs e governos para trabalhar conosco para acabar com o desmatamento e proteger nosso ambiente natural. ”

A Avara, joint venture da Cargill, disse que está na vanguarda dos compradores de soja no Reino Unido, cobrindo todas as suas compras de soja com certificação e trabalhando para alcançar uma transparência muito maior na cadeia de abastecimento. “Saudamos a proposta de legislação do governo do Reino Unido que visa o desmatamento ilegal, pois está alinhada com esses objetivos e é um primeiro passo importante.” A Avara faz parte da Declaração de Apoio ao Manifesto do Cerrado e faz parte do grupo gestor dessa iniciativa.

McDonald’s, Nando’s e os três supermercados citados expressaram publicamente seu apoio a um novo acordo, semelhante à moratória na Amazônia, para impedir o desmatamento para soja no Cerrado, mas a oposição no Brasil significou que nada se materializou.

chicken 9Um protesto do Greenpeace em frente à sede da Tesco, apresentando um vídeo da líder indígena Sônia Guajajara falando sobre os incêndios devastadores na Amazônia. Fotografia: Chris J Ratcliffe / Greenpeace

A Cargill – um dos atores mais importantes na cadeia de abastecimento – disse publicamente que se opõe a uma moratória do Cerrado. Na época, anunciou US $ 30 milhões (£ 22,6 milhões) em esforços de financiamento para lidar com o desmatamento, mas não especificou onde isso seria gasto. O Guardian perguntou à Cargill por que ela havia rejeitado uma moratória, mas a empresa não fez comentários sobre o assunto.

No entanto, expressou seu compromisso com uma cadeia de suprimentos sem desmatamento e com o apoio aos agricultores que trabalham de forma sustentável. Dizia: “A Cargill estima que 95,68% dos nossos volumes de soja no Brasil para a safra 2018-19 foram livres de desmatamento e conversão.” A empresa continua expandindo seu programa de certificação no Brasil e no Paraguai, mas aposta no ordenamento jurídico brasileiro. “A Cargill – junto com nossa indústria, agricultores, governos locais e clientes – é responsável pela transformação da cadeia de abastecimento de alimentos e estamos interagindo com as partes interessadas todos os dias para fazer progresso”, disse o documento. “O desmatamento naquele bioma é, na maioria das vezes, crime pela legislação brasileira. Deve ser tratado dessa forma. ”

A investigação mostra, porém, que não basta tratá-la como uma questão brasileira.

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Esta reportagem foi originalmente escrita em inglês e publicada pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Brasil, o pária, começa a sentir os efeitos econômicos do desmatamento na Amazônia

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Como sempre lembro, venho alertando desde 2016 que o desmantelamento da governança e dos mecanismos de comando e controle na área ambiental iriam cedo ou tarde colocar o Brasil em uma posição de pária ambiental global.  Com o advento do governo Bolsonaro, o desmantelamento foi acelerado sob a máxima do “passar a boiada” que foi revelada ao mundo quando foi divulgada a gravação da reunião ministerial do dia 22 de abril.

Pois bem, hoje o jornalista Lauro Jardim noticiou que o presidente do braço brasileiro da multinacional Cargill teria informado ao vice-presidente Hamilton Mourão que a soja brasileira está sob crescente rejeição no mercado mundial (ver imagem abaixo).

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Essa rejeição, que já não era pequena, deve aumentado outro tanto após a publicação do artigo publicado na revista Science onde se revelou que pelo menos 20% da soja exportada para a União Europeia são provenientes de áreas desmatadas ilegalmente.

Há que se lembrar que a soja não apenas é a cultura agrícola que ocupa mais área no Brasil, mas como é a principal âncora das exportações agrícolas brasileiras. Se essa tendência de rejeição informada pelo presidente da Cargill se confirmar, as perdas econômicas serão consideráveis.

iloveamazoniaLetreiro colocado em praça da cidade holandesa de Amsterdã questiona avanço do desmatamento na Amazônia

Mas há que se dizer que as notícias de rejeição à soja brasileira não são novas. Este blog já informou recentemente sobre a punição imposta à própria Cargill pela Intrafish, gigante noruega na produção de salmão em cativeiro, por não conseguir impedir que soja produzida em áreas desmatadas ilegalmente entrassem em sua cadeia de suprimentos.

Entretanto, em um claro desafio às sinalizações que estão vindo dos compradores, o governo Bolsonaro nada fez para impedir o avanço do desmatamento na Amazônia, o que está causando um avanço significativo nas taxas de desmatamento. Aliás, as coisas vão piorar significativamente quando as grandes queimadas de 2020 começarem, levantando grossas colunas de fumaça que inevitavelmente chamarão a atenção da mídia internacional.  Aí sim é que a coisa vai ficar crítica, pois o caminho do Brasil para a condição de pária ambiental global vai ficar ainda mais evidente.

 

Gigante norueguesa da área de produção de salmão em cativeiro pune Cargill por ligações com desmatamento na Amazônia

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Em uma matéria assinada pela jornalista Rachel Mutter no site especializado “Intrafish“, a gigante do setor da produção de salmão em cativeiro, a norueguesa Grieg Seafood informou que excluiu uma subsidiária da multinacional estadunidense Cargill de sua lista de fornecedores por supostas ligações com o desmatamento ilegal no cerrado e na Amazônia brasileiros.

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A matéria informa ainda que a decisão está vinculada aos R$ 558 milhões em títulos verdes (green bonds) recém-captados pela Grieg Seafood. Trata-se de títulos emitidos para financiar projetos sustentáveis e voltados à mitigação do processo de mudanças climáticas. Com a medida, a Cargill Aqua Nutrition ficou excluída das fornecedoras para compras com esses papéis, usados para financiar a compra de rações inovadoras que melhorem o bem-estar e a saúde dos peixes.

Em declaração à Rachel Mutter, a gerente de comunicação global da Grieg Seafood, afirmou que “O desmatamento precisa parar porque estamos em uma crise climática e porque precisamos proteger a biodiversidade.”

Essa desdobramento na Noruega não chega a ser surpreendente, na medida em que ainda em 2018, a organização não-governamental Norway Rainforest Foundation publicou um relatório intitulado “Salmon on soy beans — Deforestation and land conflict in Brazil” (Salmão em soja – Desmatamento e conflito de terras no Brasil) onde uma série de denúncias são feitas sobre a produção de soja em áreas recentemente desmatadas na Amazônia brasileira.

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Como de lá para cá, sob a batuta do improbo Ricardo Salles, o Brasil literalmente soltou a boiada para dentro das florestas amazônicas, não deveria surpreender ninguém que ações concretas estejam sendo tomadas não apenas contra quem desmata, mas também contra as empresas multinacionais que controlam o mercado global de grãos, a começar pela Cargill.

O interessante é que ontem (01/07) recebi uma nota da assessoria de comunicação da Cargill não apenas dando conta dos esforços da empresa para controlar a origem dos seus produtos, mas também para “transformar sua cadeia de suprimentos para ser livre de desmatamento, protegendo a vegetação nativa além das florestas“. Ao que tudo indica, a Cargill já está tentando responder às crescentes críticas vindas até de grandes clientes de que não está fazendo o suficiente para impedir que haja um avanço do desmatamento em todas as regiões em que adquire seus grãos, a começar pela Amazônia.  Agora, com essa decisão da Grieg Seafood, é provável que a Cargill seja obrigada a ser ainda mais diligente do que diz estar sendo.

E nessa confusão toda como fica o Brasil que se prepara para presenciar uma estação de incêndios amazônicos maior do que os que aconteceram em 2019? Eu repetiria apenas o meu prognóstico de que cedo ou tarde (talvez mais cedo do que tarde), o nosso país será alvo de um intenso bloqueio econômico, pois, como mostra um relatório recém liberado pela própria Cargill, a destruição das florestas tropicais não é necessariamente sinônimo de mais negócios. Aliás, muito pelo contrário, conservação dos biomas tropicais está cada vez mais se tornando uma espécie de mantra corporativo. 

E se o governo Bolsonaro acha que vai enganar o resto do mundo sobre o que está de fato sendo permitido na Amazônia, melhor pensar de novo.

Pesquisa aponta frigoríficos e produtores de soja com maior risco de serem associados a queimadas

Commodities agrícolas foram as grandes responsáveis por incêndios na Amazônia, segundo estudo que cruza dados da Nasa com cadeias de suprimentos das empresas

The Companies Behind the Burning of the Amazon

por Marcelo Coppola*

Em agosto do ano passado, imagens dos incêndios na Amazônia atraíram a atenção do mundo todo. Chefes de governo, organizações multilaterais, ambientalistas e celebridades manifestaram preocupação com o futuro da maior floresta tropical do planeta. “A Amazônia precisa ser protegida”, disse António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU). “Nossa guerra contra a natureza precisa acabar”, tuitou a ativista Greta Thunberg.

unnamed (13)Os 10 principais estados brasileiros com alertas de incêndio durante os meses da estação de incêndio em 2019. Fonte: Alertas de incêndio da NASA VIIRS

O tamanho real do desastre ambiental só foi conhecido em janeiro, quando o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apresentou um balanço final dos incêndios que atingiram a floresta. Em 12 meses, ocorreram 89 mil focos de incêndio na região, um aumento de 30% em relação a 2018. Um crescimento preocupante, apesar de o número ter ficado abaixo da série histórica (109 mil).

No auge da crise, o presidente Jair Bolsonaro lançou suspeita sobre ONGs que atuam na região. E o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) culpou a temporada mais seca, quando, na verdade, choveu mais do que no ano anterior. Pesquisadores do bioma atribuem os incêndios, porém, a outros fatores.

A especulação fundiária é hoje um dos grandes vilões da floresta amazônica. Trata-se de um negócio de alta rentabilidade que envolve a invasão de terras públicas, a derrubada e retirada das árvores mais valiosas e depois, por meio de correntes presas a tratores, a derrubada da vegetação mais baixa. Passadas algumas semanas, período necessário para a secagem do material destruído, basta pôr fogo ao que antes era uma floresta. É hora então de espalhar as sementes para criar o pasto, à espera do comprador.

“É dinheiro fácil. O invasor de terra pública que gasta R﹩ 1 mil para derrubar e colocar fogo em um hectare consegue vender o mesmo hectare por até R﹩ 2,7 mil”, afirma Raoni Rajão, pesquisador da Amazônia e professor do Departamento de Engenharia de Produção da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). As queimadas costumam ser feitas no período mais seco da Amazônia, entre julho e outubro.

A floresta não queima apenas por conta da grilagem de terras. Para ampliar o pasto, muitos produtores põem fogo em áreas contíguas às suas propriedades ou destroem a mata existente dentro de suas próprias fazendas. O Código Florestal estabelece que, nos imóveis localizados na Amazônia Legal, 80% da mata nativa deve ser preservada. Há ainda as queimadas feitas por agricultores, indígenas e povos tradicionais com o propósito de renovar o pasto ou a área de cultivo, uma prática que tem impacto bem menor sobre o bioma, mas que pode sair do controle e provocar destruição em grandes áreas.

Levantamento realizado pelo MapBiomas — iniciativa que reúne universidades, organizações sociais e empresas de tecnologia – revela a dimensão das práticas criminosas citadas acima. De acordo com o estudo, realizado a partir do cruzamento de imagens de satélites com o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e outros bancos de dados oficiais, 99% do desmatamento realizado no Brasil no ano passado foi ilegal. Dos 12 mil quilômetros quadrados de vegetação nativa destruída, a maior parte está localizada no Cerrado e na Amazônia.

Pecuária e soja

Um estudo recente realizado pela Chain Reaction Research (CRR) , uma coalizão de consultorias ambientais europeias e americanas, ajuda a entender um pouco mais os interesses por trás dos incêndios ocorridos no ano passado na Amazônia. Os pesquisadores cruzaram imagens dos incêndios, feitas por satélites da Nasa, com a localização dos maiores frigoríficos da região, como JBS e Marfrig, e grandes silos de soja, controlados por gigantes como Bunge e Cargill.

O sistema de monitoramento da agência espacial americana detectou 417 mil focos de fogo nas “zonas potenciais de compra” da JBS e da Marfrig de julho a outubro do ano passado, um número que representa 42% de todos os incêndios ocorridos no Brasil no período – foram 981 mil, segundo a Nasa. Os focos de incêndios no entorno das duas empresas representam quase a metade (47%) do total detectado (885 mil) nas proximidades dos dez maiores frigoríficos da região.

Alerta VIIRS no Brasil (em cima) e número de alertas por mês (embaixo). Fonte: dados de incêndio da NASA VIIRS, imagens de satélite do Google

As zonas potenciais de compra dos matadouros foram estabelecidas pelo Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) em 2017, a partir de entrevistas feitas com 157 frigoríficos da Amazônia Legal. Entre outras informações, essas empresas revelaram a distância máxima que percorrem para comprar os animais para abate. Os frigoríficos maiores uma distância máxima de 360 km a partir de suas instalações. Os menores, que têm certificados para atuar apenas dentro do Estado, compram gado a uma distância máxima de 153 km.

No caso da soja, a Chain Reaction Research estabeleceu um raio de 25 km a partir dos silos das maiores empresas do setor como área de sua cadeia de suprimentos. O levantamento indicou que as queimadas ocorridas no entorno da Bunge e da Cargill (39,9 mil) superaram a soma dos focos de incêndio registrados nas proximidades dos outros oito maiores traders do setor.

O levantamento não faz nenhuma acusação a esses conglomerados. “O objetivo foi mostrar a ocorrência de uma enorme quantidade de incêndios nas proximidades dessas empresas, o que não implica o envolvimento direto delas com essas práticas. Mas faz com que tenham de resolver as suspeitas que recaem sobre sua cadeia de suprimentos”, diz Marco Túlio Garcia, pesquisador da Aidenviroment e um dos autores do estudo, que analisou também os incêndios na Indonésia, onde as suspeitas recaem sobre a produção de óleo de palma.

“O desmatamento na Amazônia, causa principal dos incêndios, traz riscos a essas empresas. Nos últimos anos, os grandes investidores internacionais colocaram essas questões no centro de sua pauta. Elas não estão mais restritas a debates entre ambientalistas”, completa Tim Steinweg, coordenador de pesquisa da Chain Reaction Research. Um exemplo dessa preocupação do mercado global foi dado em dezembro último pela Nestlé, quando suspendeu suas compras de soja da Cargill, por suspeita de que o produto tenha origem em áreas desmatadas da Amazônia.

unnamed (9)Desmatamento de janeiro a julho de 2019 e alertas de incêndio em agosto de 2019 – área agrícola do Estado da Amazônia, Brasil. Fonte: dados da NASA VIIRS, alertas Deter e imagens de satélite do Google

Reportagem recente do jornal The Guardian revelou que bancos e outras instituições financeiras britânicas investiram nos últimos anos mais de US﹩ 2 bilhões nas principais empresas brasileiras de carne que atuam na Amazônia. Por conta do desmatamento, estudam reconsiderar seu apoio se essas companhias não mostrarem progressos no rastreamento de seus fornecedores. Gigantes do setor de alimentos manifestam a mesma preocupação. Em dezembro, a Nestlé suspendeu suas compras de soja da Cargill, por suspeita de que o produto tenha origem em áreas desmatadas da floresta.

Estudiosos avaliam que o setor de pecuária traz hoje mais riscos para a Amazônia do que a indústria da soja, que hoje ameaça mais o Cerrado. A imagem dos produtores do grão melhorou a partir do pacto, batizado de “moratória da soja”, firmado em 2006 com entidades ambientalistas, pelo qual se comprometeram a não comprar a commodity de áreas desmatadas no bioma. O acordo contou depois com o apoio do governo federal.

O setor pecuário carrega irregularidades dos mais variados tipos. Entre elas, animais que nascem em áreas desmatadas, muitas vezes embargadas pelo Ibama, e que são vendidos para pequenos e médios produtores. Depois da engorda, são comprados legalmente pelos grandes frigoríficos. Os sistemas de controle não conseguem pegar o vício de origem. “É uma cadeia muito complexa. Não existe um sistema que permita rastrear cada animal desde o início, e os frigoríficos não parecem interessados em implantar um monitoramento desse tipo”, lamenta Ritaumaria Pereira, diretora executiva do Imazon. “Há um ditado na região que traduz essa triste realidade. Boi não morre de velho na Amazônia. Sempre vai ter alguém para comprá-lo, independentemente de onde venha”, afirma a engenheira agrônoma.

Menos floresta, menos chuva

Para muitos especialistas, falta visão estratégica ao governo brasileiro e aos produtores rurais em relação à Amazônia, o principal ativo ambiental do país. Paulo Moutinho, pesquisador sênior do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), lembra que a floresta funciona como uma espécie de bomba de vapor d’água que, transportado por meio dos chamados rios voadores, irriga o Centro-Oeste e o Centro-Sul do Brasil. A destruição coloca em risco esse sistema de irrigação. “Ao desmatar, é como se fizéssemos um furo nesse regador, que garante o sucesso de boa parte da produção agrícola brasileira.” De acordo com estudo da Agência Nacional de Águas (ANA) e do IBGE, 92,5% da água consumida pela agricultura brasileira vêm das chuvas. Apenas 7,5% são de sistemas de irrigação.

Os riscos à floresta amazônica são reais, de acordo os cientistas. O bioma já perdeu cerca de 17% (dados de 2017) de sua vegetação nativa. Se esse percentual superar 20%/25%, corre grande risco de entrar em um processo de savanização, segundo estudo publicado há dois anos pelo pesquisador brasileiro Carlos Nobre e pelo americano Thomas Lovejoy. Na década anterior, os mesmos pesquisadores falavam que o tipping point (ponto sem volta) aconteceria quando fossem atingidos os 40% de destruição. Refizeram os cálculos em razão da aliança mortal entre desmatamento, incêndios e mudança climática.

Especialistas ouvidos pela reportagem acreditam que não é preciso destruir nenhum hectare a mais para aumentar a produção agropecuária. Bastaria aproveitar os 12 milhões de hectares que foram desmatados e abandonados na Amazônia, áreas que poderiam ser recuperadas. “Você tem muitas áreas que estão abertas e, com incentivo adequado, poderiam ser exploradas”, afirma Paulo Moutinho, do IPAM. Ritaumaria Pereira, do Imazon, concorda: “Além da regeneração dessas áreas, precisamos de políticas públicas para incentivar o aumento da produtividade da pecuária, que hoje é muito baixa, cerca de um animal por hectare”.

O que dizem as empresas

Em nota, a JBS reclama do fato de não ter sido procurada pelos pesquisadores da Chain Reaction Research. A empresa questiona os critérios técnicos do estudo e diz adotar uma abordagem de tolerância zero em relação ao desmatamento em toda a sua cadeia de fornecimento. “Todos as fazendas fornecedoras de gado da JBS na região amazônica são monitoradas por meio de imagens de satélite e dados georreferenciados da propriedade. Portanto, fornecedores que utilizaram fogo para desmatar a floresta serão detectados pelo sistema de monitoramento da Companhia e bloqueados para compra de gado.”

unnamed (12)Alertas de incêndio dentro da zona potencial de compra da JBS em Alta Floresta, Mato Grosso, 2019. Fonte: imagens de satélite do Google, IMAZON, dados de incêndio da NASA VIIRS

A Marfrig afirmou que adota “uma rígida política de compra de animais, bem como um protocolo com critérios e procedimentos que são pré-requisitos para a homologação de fornecedores”. A empresa diz manter uma plataforma que monitora, por meio de um sistema de georreferenciamento e geomonitoramento socioambientais, todos os seus fornecedores. A ferramenta cruza os dados georreferenciados e documentos das fazendas com informações públicas oficiais para identificar potenciais não conformidades, “coibindo que a matéria-prima seja oriunda de fazendas que produzam carne em áreas de desmatamento ou embargadas, sobrepostas a unidades de conservação ou terras indígenas, ou mesmo que utilizem ‘trabalho escravo”’.

A Bunge disse que está comprometida com uma cadeia de suprimentos livre de desmatamento e que condena qualquer uso do fogo para o desflorestamento. “A empresa mantém rigoroso controle sobre critérios socioambientais em suas operações em todo o Brasil. As ações incluem verificações diárias às listas públicas de não conformidades do Ibama e do Ministério do Trabalho e Emprego, além da checagem de outros requisitos legais, e bloqueio imediato de qualquer negociação comercial, em caso de desconformidade”. De acordo com a nota, “a empresa também é signatária da Moratória da Soja, compromisso reconhecido mundialmente que proíbe a compra de soja cultivada em áreas desmatadas após 2008 na Amazônia, e do Protocolo Verde de Grãos do Pará, uma iniciativa conjunta com o Ministério Público Federal (MPF), que estabelece critérios para transações comerciais com foco em evitar a comercialização de grãos oriundos de áreas ilegalmente desmatadas”.

A Cargill afirmou que está comprometida com a proteção das florestas e da vegetação nativa de maneiras que sejam economicamente viáveis para os agricultores. “O desmatamento ilegal e incêndios deliberados na Amazônia são inaceitáveis ​​e, juntamente com outras empresas do setor, continuaremos a fazer parcerias com comunidades locais, agricultores, governos, ONGs e nossos clientes para encontrarmos soluções que preservem esse importante ecossistema”, afirma a nota da Cargill. “Fazemos parte da Moratória da Soja na Amazônia desde 2006, quando assinamos um acordo voluntário com organizações industriais e ambientais de não comprar soja de terras que foram desmatadas após 2008 neste bioma. Esse esforço contribuiu para o declínio de 80% no desmatamento na Amazônia na última década e foi estendido indefinidamente em 2016.”

* Marcelo Coppola é jornalista e foi editor na revista Época. Trabalhou também no jornal Folha de S. Paulo e na revista Veja.