Cargill é principal responsável por envio de soja de desmatamento recente ao Reino Unido, diz ONG

Estudo estabelece mais um elo na intrincada cadeia produtiva internacional que destrói Amazônia e Cerrado

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A Cargill, a maior importadora de soja do Reino Unido, está ligada ao desmatamento de 61.260 hectares de florestas na Amazônia brasileira e no Cerrado desde março de 2019. É o que revelam novos dados publicados hoje na ferramenta de monitoramento da Mighty Earth, o Rastreador de Desmatamento de Soja e Gado . Todos os principais supermercados da Grã-Bretanha vendem frango e carne suína alimentados com soja brasileira.

Perguntados sobre suas conexões com a Cargill, os supermercados J. Sainsbury, ASDA, Morrisons e Aldi-UK recusaram-se a confirmar ou negar suas ligações diretas ou indiretas com a comerciante. Entretanto, a Tesco, num gesto de transparência, reconheceu que a Cargill está presente nas cadeias de suprimento de seus fornecedores diretos de frango e publicou um documento delineando a origem da soja utilizada para seus produtos.

Apesar das sucessivas promessas dos principais supermercados da Grã-Bretanha de alcançar o desmatamento zero em sua cadeia de abastecimento até 2020, os varejistas continuam altamente expostos ao desmatamento e ao desmatamento no Brasil, alimentado pela produção de soja.

A Cargill domina o mercado britânico de soja, importando mais de dois terços (70%) dos grãos de soja que entram no Reino Unido diretamente do Brasil. Três quartos (78%) das exportações diretas de soja brasileira para o Reino Unido vêm de regiões ameaçadas do Cerrado, a maior savana tropical do mundo, e da Amazônia, a maior floresta tropical do mundo. 

Quase toda (90%) a soja consumida no Reino Unido é utilizada para alimentar animais de criação, como frangos e porcos, que são depois vendidos nos supermercados britânicos.

“Os consumidores britânicos têm falado alto e claro – eles não querem ser cúmplices na destruição das florestas preciosas do Brasil. Entretanto, os supermercados estão falhando em protegê-los do consumo de carne alimentada com soja destruidora da floresta”, afirma Robin Willoughby, diretor da Mighty Earth do Reino Unido. “Estamos instando os CEOs da Tesco PLC, J.Sainsbury’s, ASDA, Morrisons e Aldi UK a tomar medidas imediatas para deter a destruição do Brasil e abandonar a Cargill”.

De fato, juntamente com a divulgação da pesquisa, a Mighty Earth do Reino Unido está lançando uma campanha nacional para que medidas decisivas sejam tomadas em relação à Cargill.

Levantamento

Todos os meses, a Mighty Earth e a organização de pesquisa Aidenvironment usam alertas de desmatamento via satélite de agências governamentais brasileiras, imagens de propriedade, investigações por uma equipe local e envolvimento com as empresas nomeadas para estabelecer os vínculos entre os comerciantes de soja, processadores de carne bovina e a destruição de florestas no Brasil.

O Mighty Earth’s Soy & Cattle Deforestation Tracker (Rastreador de Desmatamento de Soja e Gado) conecta instâncias de desmatamento em larga escala na Amazônia e no Cerrado a comerciantes de soja e frigoríficos e torna esses vínculos públicos pela primeira vez. Ele não captura todo o desmatamento no Brasil, que é muitas vezes maior.

De acordo com a agência espacial brasileira (INPE), o desmatamento da floresta amazônica no país bateu o recorde dos últimos 12 anos. Na semana passada, o governo brasileiro removeu qualquer medida para combater o desmatamento no plano nacional de ação climática(conhecido como NDC) sob o Acordo de Paris, apesar de o desmatamento ser a principal fonte de emissões de gases de efeito estufa no país. Segundo a Mighty Earth, soja e pecuária bovina são as atividades mais relacionadas à degradação florestal no Brasil.

Investigação revela que redes de supermercados e de fast food do Reino Unido usam frangos associados ao desmatamento no Brasil

Tesco, Lidl, Asda, McDonald’s e Nando’s, todas fontes de frangos alimentados com soja produzida na região do bioma tropical do Cerrado

chicken 1Uma análise recente das terras pertencentes ou usadas por fornecedores de soja no Cerrado desde 2015 encontrou 801 km2 de desmatamento. Fotografia: Jim Wicken / Cortesia da Mighty Earth

Por Jonathan Watts , Andrew Wasley , Alexandra Heal , Alice Ross , Lucy Jordan, Emma Howard e Harry Holmes para o The Guardian

Supermercados e lojas de fast food estão vendendo frango alimentado com soja importada associada a milhares de incêndios florestais e pelo menos 800 quilômetros quadrados de derrubada de árvores no Cerrado brasileiro, revelou uma investigação transfronteiriça conjunta.

Tesco, Lidl, Asda, McDonald’s, Nando’s e outros varejistas de rua, todos compram frango alimentado com soja fornecida pela gigante comercial Cargill, a segunda maior empresa privada dos Estados Unidos. A combinação de proteção mínima para o Cerrado – um sumidouro de carbono e habitat de vida selvagem de importância mundial – com uma cadeia de suprimentos opaca e sistemas de rotulagem confusos, significa que os compradores podem estar inadvertidamente contribuindo para sua destruição.

O locutor e ativista Chris Packham disse que as revelações mostram que os consumidores precisam receber mais informações sobre seus alimentos. “A maioria das pessoas ficaria incrédula quando pensasse que está comprando um pedaço de frango no Tesco’s que foi alimentado com uma plantação responsável por uma das maiores destruições de floresta tropical nos últimos tempos”, disse ele.

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Supermercados e lojas de fast food do Reino Unido estão vendendo frango alimentado com soja associada ao desmatamento no Cerrado brasileiro

“Precisamos acordar para o fato de que o que compramos nos supermercados do Reino Unido, as implicações dessa compra podem ser amplamente e enormemente prejudiciais, e este é um excelente exemplo disso.”

O Reino Unido abate pelo menos um bilhão de galinhas por ano , o equivalente a 15 aves para cada pessoa no país. Muitos são engordados com grãos de soja importados para o Reino Unido pela Cargill, que compra dos agricultores do Cerrado, uma savana tropical lenhosa que cobre uma área igual à Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália e Espanha juntas.

A análise dos dados de transporte mostra que a Cargill importou 1,5 milhão de toneladas de soja brasileira para o Reino Unido nos seis anos até agosto de 2020. Números de exportação em nível de bioma, compilados pelo órgão de vigilância da cadeia de abastecimento Trase, indicam que quase metade das exportações brasileiras da Cargill para o O Reino Unido é do Cerrado.

Entre os carregamentos mais recentes estavam 66.000 toneladas de grãos de soja que desembarcaram nas docas de Liverpool em agosto em um navio-tanque alugado pela Cargill, o BBG Dream. Esse foi o foco de uma investigação colaborativa do Bureau of Investigative Journalism, do Greenpeace Unearthed, do ITV News e do Guardian.

O porão do navio havia sido carregado no terminal portuário de Cotegipe, em Salvador, Brasil , com grãos vindos da região do Cerrado Matopiba, incluindo alguns de Formosa do Rio Preto, a comunidade mais desmatada do Cerrado. Além da Cargill, os fornecedores incluíam a Bunge (maior exportadora de soja do Brasil) e a ADM (outra grande produtora de alimentos nos Estados Unidos).

chicken 3A Cargill importou 1,5 milhão de toneladas de soja brasileira para o Reino Unido nos seis anos até agosto de 2020. Fotografia: Victor Moriyama / Greenpeace

Depois de cruzar o Atlântico, todo o carregamento foi descarregado na planta de esmagamento de soja Seaforth da Cargill em Liverpool, de acordo com registros marítimos e de embarque. A investigação rastreou a forma como o grão esmagado ali é então transportado de caminhão para moinhos em Hereford e Banbury, onde é misturado com trigo e outros ingredientes para produzir ração para gado. De lá, segue para as granjas contratadas da Avara.

Avara é uma joint venture entre a Cargill e a Faccenda Foods. Ele engorda as aves, que são abatidas, processadas e embaladas para distribuição à Tesco, Asda, Lidl, Nando’s, McDonald’s e outros varejistas. Avara prospera em relativa obscuridade. “Você pode não ter ouvido falar de nós, mas há uma boa chance de ter gostado de nossos produtos”, diz o site da empresa .

Então, de onde exatamente vem essa soja? O fornecedor da Avara, a Cargill, compra soja de muitos fornecedores no Cerrado, pelo menos nove dos quais estiveram envolvidos em desmatamentos recentes. A análise da consultoria Aidenvironment dos terrenos pertencentes ou usados ​​por essas empresas desde 2015 encontrou 801 km2 de desmatamento – uma área equivalente a 16 manhattans. Também detectou 12.397 incêndios registrados.

Vídeo sobre como o frango britânico está ligado ao desmatamento e incêndios no Brasil por Sian Butcher e Georgie Johnson para Unearthed

Ainda no mês passado, imagens de drones realizadas em Formosa do Rio Preto mostraram grandes incêndios queimando na Fazenda Parceiro, fazenda administrada pela SLC Agrícola, fornecedora da Cargill. Dados de satélite mostram que os incêndios queimaram 65 km2 da fazenda. Mais de 210 km2 foram limpos nas terras da SLC Agrícola nos últimos cinco anos, de acordo com a análise da Aidenvironment. A Cargill disse que não quebrou regras, nem suas próprias políticas, ao comprar produtos da fazenda em questão e deixou claro que não se abastece de terras desmatadas ilegalmente. A SLC Agrícola foi procurada para comentar, mas não quis se pronunciar.

Apesar dessa destruição, os produtos dessas áreas podem ser rotulados como legais e sustentáveis ​​no Brasil. Isso destaca as deficiências de um sistema de comércio internacional que depende de padrões locais, que muitas vezes são influenciados por fazendeiros focados no lucro econômico de curto prazo, ao invés do bem global de longo prazo, que incorporaria o valor dos sistemas de água, sumidouros de carbono e vida selvagem habitats.

chicken 4Os agricultores podem cortar e queimar legalmente uma proporção maior de árvores na savana do Cerrado em comparação com sua vizinha, a Amazônia. Fotografia: Jim Wicken / Cortesia da Mighty Earth

O governo brasileiro tem relaxado constantemente os controles sobre o desmatamento – e às vezes o encoraja tacitamente – ao longo da última década, principalmente com o relaxamento do Código Florestal em 2012.

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Isso é particularmente verdadeiro no Cerrado, o segundo maior bioma do Brasil, que está sendo sacrificado para aumentar as exportações, manter baixos os preços globais dos alimentos e reduzir o impacto sobre seu vizinho, a Amazônia. Os agricultores podem cortar e queimar legalmente uma proporção maior de árvores nesta savana em comparação com a Amazônia examinada internacionalmente .

Muitos biólogos acreditam que essa política é míope. As árvores, arbustos e solo do Cerrado armazenam o equivalente a 13,7 bilhões de toneladas de dióxido de carbono – significativamente mais do que as emissões anuais da China. É a origem de tantos rios que é conhecida como “o berço das águas” e abriga 1.600 espécies de pássaros, répteis e mamíferos (incluindo onças, tatus e tamanduás) e 10.000 tipos de plantas, muitas não vistas em nenhum outro lugar do mundo.

chicken 6Lobo-guará, que vive principalmente nas regiões do Cerrado e Chaco e é considerado quase ameaçado. Fotografia: Nando Bomfim

Os cientistas dizem que será difícil – senão impossível – salvar a Amazônia sem conservar o Cerrado. Mas este último sofreu o dobro do desmatamento, embora tenha metade do tamanho. Entre 50% e 80% do bioma original foi substituído por fazendas de gado e fazendas de soja, tornando esta fronteira do agronegócio que se expande mais rapidamente e uma das áreas da natureza que mais encolhe.

Independentemente de o Brasil considerar legal ou não a soja dessa área, muitos consumidores não querem comprar produtos associados ao desmatamento.

chicken 7O Reino Unido abate um bilhão de frangos por ano, muitos dos quais são engordados com ração à base de soja. Fotografia: John Eveson / FLPA / REX / Shutterstock

O Reino Unido importa 700.000 toneladas de grãos de soja in natura a cada ano, muitos do Cerrado. Também compra quase três vezes essa quantidade de ração de soja processada, a maioria da Argentina. O impacto ambiental varia enormemente de país para país. Mas os compradores não têm como saber se seu peito de frango ou hambúrguer contribuíram para o problema do Cerrado porque os rótulos fornecem informações insuficientes sobre as origens, as safras de fontes sustentáveis ​​e desmatadas podem ser misturadas e muitas empresas dependem de compensações.

As empresas envolvidas dizem que estão trabalhando para reduzir o impacto ambiental de suas ofertas, mas o progresso varia.

O McDonald’s e o Nando’s cobrem os volumes de soja que usam para ração de galinhas com “certificações” de sustentabilidade, que incluem a compra de “créditos” – semelhantes à compensação de carbono. Os créditos apoiam os agricultores que produzem de forma sustentável, mas a soja real na cadeia de abastecimento não é necessariamente desses produtores e pode vir de fazendas desmatadas.

O McDonald’s disse que visa eliminar o desmatamento de suas cadeias de abastecimento globais até 2030. Um porta-voz disse: “Estamos orgulhosos do progresso que fizemos, mas reconhecemos que há mais a fazer e continuaremos a trabalhar duro para progredir em direção ao nosso metas.”

A Nando’s não forneceu uma data-alvo para eliminar completamente o desmatamento de sua cadeia de abastecimento, mas disse que estava procurando alternativas à soja. “Reconhecemos que há mais trabalho a fazer e é por isso que também estamos investindo em pesquisas visando alternativas de alimentação mais sustentáveis ​​e esperamos poder compartilhar os resultados o mais rápido possível.”

chicken 8Várias empresas apoiam um novo acordo para impedir o desmatamento para o plantio de soja no Cerrado, mas a oposição a esta posição no Brasil significa que nenhuma ação foi tomada. Fotografia: Peter Caton

Asda e Lidl disseram que estavam trabalhando para comprar apenas soja sustentável “certificada fisicamente” até 2025, mas isso pode significar coisas diferentes. Asda entende que significa soja “segregada” livre de desmatamento – o que significa que o produto real em sua cadeia de abastecimento deve ser sustentável para atingir seu objetivo – mas Lidl esclareceu que estava incluindo um esquema em que grãos sustentáveis ​​podem ser misturados com produtos do desmatamento fazendas. Lidl disse que é atualmente o maior comprador de créditos para compensar sua pegada de soja.

A Tesco disse que estabeleceu para si mesma uma meta “líder do setor” para que sua soja venha de “áreas” comprovadamente livres de desmatamento até 2025. “Deve-se parar de fazer fogueiras para limpar terras para plantações”, disse um porta-voz. “Desempenhamos um papel de liderança ao reunir a indústria e o governo para proteger o Cerrado, incluindo o compromisso de £ 10 milhões para proteger a biodiversidade da região. Precisamos de nossos fornecedores, indústria, ONGs e governos para trabalhar conosco para acabar com o desmatamento e proteger nosso ambiente natural. ”

A Avara, joint venture da Cargill, disse que está na vanguarda dos compradores de soja no Reino Unido, cobrindo todas as suas compras de soja com certificação e trabalhando para alcançar uma transparência muito maior na cadeia de abastecimento. “Saudamos a proposta de legislação do governo do Reino Unido que visa o desmatamento ilegal, pois está alinhada com esses objetivos e é um primeiro passo importante.” A Avara faz parte da Declaração de Apoio ao Manifesto do Cerrado e faz parte do grupo gestor dessa iniciativa.

McDonald’s, Nando’s e os três supermercados citados expressaram publicamente seu apoio a um novo acordo, semelhante à moratória na Amazônia, para impedir o desmatamento para soja no Cerrado, mas a oposição no Brasil significou que nada se materializou.

chicken 9Um protesto do Greenpeace em frente à sede da Tesco, apresentando um vídeo da líder indígena Sônia Guajajara falando sobre os incêndios devastadores na Amazônia. Fotografia: Chris J Ratcliffe / Greenpeace

A Cargill – um dos atores mais importantes na cadeia de abastecimento – disse publicamente que se opõe a uma moratória do Cerrado. Na época, anunciou US $ 30 milhões (£ 22,6 milhões) em esforços de financiamento para lidar com o desmatamento, mas não especificou onde isso seria gasto. O Guardian perguntou à Cargill por que ela havia rejeitado uma moratória, mas a empresa não fez comentários sobre o assunto.

No entanto, expressou seu compromisso com uma cadeia de suprimentos sem desmatamento e com o apoio aos agricultores que trabalham de forma sustentável. Dizia: “A Cargill estima que 95,68% dos nossos volumes de soja no Brasil para a safra 2018-19 foram livres de desmatamento e conversão.” A empresa continua expandindo seu programa de certificação no Brasil e no Paraguai, mas aposta no ordenamento jurídico brasileiro. “A Cargill – junto com nossa indústria, agricultores, governos locais e clientes – é responsável pela transformação da cadeia de abastecimento de alimentos e estamos interagindo com as partes interessadas todos os dias para fazer progresso”, disse o documento. “O desmatamento naquele bioma é, na maioria das vezes, crime pela legislação brasileira. Deve ser tratado dessa forma. ”

A investigação mostra, porém, que não basta tratá-la como uma questão brasileira.

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Esta reportagem foi originalmente escrita em inglês e publicada pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Brasil, o pária, começa a sentir os efeitos econômicos do desmatamento na Amazônia

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Como sempre lembro, venho alertando desde 2016 que o desmantelamento da governança e dos mecanismos de comando e controle na área ambiental iriam cedo ou tarde colocar o Brasil em uma posição de pária ambiental global.  Com o advento do governo Bolsonaro, o desmantelamento foi acelerado sob a máxima do “passar a boiada” que foi revelada ao mundo quando foi divulgada a gravação da reunião ministerial do dia 22 de abril.

Pois bem, hoje o jornalista Lauro Jardim noticiou que o presidente do braço brasileiro da multinacional Cargill teria informado ao vice-presidente Hamilton Mourão que a soja brasileira está sob crescente rejeição no mercado mundial (ver imagem abaixo).

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Essa rejeição, que já não era pequena, deve aumentado outro tanto após a publicação do artigo publicado na revista Science onde se revelou que pelo menos 20% da soja exportada para a União Europeia são provenientes de áreas desmatadas ilegalmente.

Há que se lembrar que a soja não apenas é a cultura agrícola que ocupa mais área no Brasil, mas como é a principal âncora das exportações agrícolas brasileiras. Se essa tendência de rejeição informada pelo presidente da Cargill se confirmar, as perdas econômicas serão consideráveis.

iloveamazoniaLetreiro colocado em praça da cidade holandesa de Amsterdã questiona avanço do desmatamento na Amazônia

Mas há que se dizer que as notícias de rejeição à soja brasileira não são novas. Este blog já informou recentemente sobre a punição imposta à própria Cargill pela Intrafish, gigante noruega na produção de salmão em cativeiro, por não conseguir impedir que soja produzida em áreas desmatadas ilegalmente entrassem em sua cadeia de suprimentos.

Entretanto, em um claro desafio às sinalizações que estão vindo dos compradores, o governo Bolsonaro nada fez para impedir o avanço do desmatamento na Amazônia, o que está causando um avanço significativo nas taxas de desmatamento. Aliás, as coisas vão piorar significativamente quando as grandes queimadas de 2020 começarem, levantando grossas colunas de fumaça que inevitavelmente chamarão a atenção da mídia internacional.  Aí sim é que a coisa vai ficar crítica, pois o caminho do Brasil para a condição de pária ambiental global vai ficar ainda mais evidente.

 

Gigante norueguesa da área de produção de salmão em cativeiro pune Cargill por ligações com desmatamento na Amazônia

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Em uma matéria assinada pela jornalista Rachel Mutter no site especializado “Intrafish“, a gigante do setor da produção de salmão em cativeiro, a norueguesa Grieg Seafood informou que excluiu uma subsidiária da multinacional estadunidense Cargill de sua lista de fornecedores por supostas ligações com o desmatamento ilegal no cerrado e na Amazônia brasileiros.

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A matéria informa ainda que a decisão está vinculada aos R$ 558 milhões em títulos verdes (green bonds) recém-captados pela Grieg Seafood. Trata-se de títulos emitidos para financiar projetos sustentáveis e voltados à mitigação do processo de mudanças climáticas. Com a medida, a Cargill Aqua Nutrition ficou excluída das fornecedoras para compras com esses papéis, usados para financiar a compra de rações inovadoras que melhorem o bem-estar e a saúde dos peixes.

Em declaração à Rachel Mutter, a gerente de comunicação global da Grieg Seafood, afirmou que “O desmatamento precisa parar porque estamos em uma crise climática e porque precisamos proteger a biodiversidade.”

Essa desdobramento na Noruega não chega a ser surpreendente, na medida em que ainda em 2018, a organização não-governamental Norway Rainforest Foundation publicou um relatório intitulado “Salmon on soy beans — Deforestation and land conflict in Brazil” (Salmão em soja – Desmatamento e conflito de terras no Brasil) onde uma série de denúncias são feitas sobre a produção de soja em áreas recentemente desmatadas na Amazônia brasileira.

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Como de lá para cá, sob a batuta do improbo Ricardo Salles, o Brasil literalmente soltou a boiada para dentro das florestas amazônicas, não deveria surpreender ninguém que ações concretas estejam sendo tomadas não apenas contra quem desmata, mas também contra as empresas multinacionais que controlam o mercado global de grãos, a começar pela Cargill.

O interessante é que ontem (01/07) recebi uma nota da assessoria de comunicação da Cargill não apenas dando conta dos esforços da empresa para controlar a origem dos seus produtos, mas também para “transformar sua cadeia de suprimentos para ser livre de desmatamento, protegendo a vegetação nativa além das florestas“. Ao que tudo indica, a Cargill já está tentando responder às crescentes críticas vindas até de grandes clientes de que não está fazendo o suficiente para impedir que haja um avanço do desmatamento em todas as regiões em que adquire seus grãos, a começar pela Amazônia.  Agora, com essa decisão da Grieg Seafood, é provável que a Cargill seja obrigada a ser ainda mais diligente do que diz estar sendo.

E nessa confusão toda como fica o Brasil que se prepara para presenciar uma estação de incêndios amazônicos maior do que os que aconteceram em 2019? Eu repetiria apenas o meu prognóstico de que cedo ou tarde (talvez mais cedo do que tarde), o nosso país será alvo de um intenso bloqueio econômico, pois, como mostra um relatório recém liberado pela própria Cargill, a destruição das florestas tropicais não é necessariamente sinônimo de mais negócios. Aliás, muito pelo contrário, conservação dos biomas tropicais está cada vez mais se tornando uma espécie de mantra corporativo. 

E se o governo Bolsonaro acha que vai enganar o resto do mundo sobre o que está de fato sendo permitido na Amazônia, melhor pensar de novo.

Pesquisa aponta frigoríficos e produtores de soja com maior risco de serem associados a queimadas

Commodities agrícolas foram as grandes responsáveis por incêndios na Amazônia, segundo estudo que cruza dados da Nasa com cadeias de suprimentos das empresas

The Companies Behind the Burning of the Amazon

por Marcelo Coppola*

Em agosto do ano passado, imagens dos incêndios na Amazônia atraíram a atenção do mundo todo. Chefes de governo, organizações multilaterais, ambientalistas e celebridades manifestaram preocupação com o futuro da maior floresta tropical do planeta. “A Amazônia precisa ser protegida”, disse António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU). “Nossa guerra contra a natureza precisa acabar”, tuitou a ativista Greta Thunberg.

unnamed (13)Os 10 principais estados brasileiros com alertas de incêndio durante os meses da estação de incêndio em 2019. Fonte: Alertas de incêndio da NASA VIIRS

O tamanho real do desastre ambiental só foi conhecido em janeiro, quando o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apresentou um balanço final dos incêndios que atingiram a floresta. Em 12 meses, ocorreram 89 mil focos de incêndio na região, um aumento de 30% em relação a 2018. Um crescimento preocupante, apesar de o número ter ficado abaixo da série histórica (109 mil).

No auge da crise, o presidente Jair Bolsonaro lançou suspeita sobre ONGs que atuam na região. E o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) culpou a temporada mais seca, quando, na verdade, choveu mais do que no ano anterior. Pesquisadores do bioma atribuem os incêndios, porém, a outros fatores.

A especulação fundiária é hoje um dos grandes vilões da floresta amazônica. Trata-se de um negócio de alta rentabilidade que envolve a invasão de terras públicas, a derrubada e retirada das árvores mais valiosas e depois, por meio de correntes presas a tratores, a derrubada da vegetação mais baixa. Passadas algumas semanas, período necessário para a secagem do material destruído, basta pôr fogo ao que antes era uma floresta. É hora então de espalhar as sementes para criar o pasto, à espera do comprador.

“É dinheiro fácil. O invasor de terra pública que gasta R﹩ 1 mil para derrubar e colocar fogo em um hectare consegue vender o mesmo hectare por até R﹩ 2,7 mil”, afirma Raoni Rajão, pesquisador da Amazônia e professor do Departamento de Engenharia de Produção da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). As queimadas costumam ser feitas no período mais seco da Amazônia, entre julho e outubro.

A floresta não queima apenas por conta da grilagem de terras. Para ampliar o pasto, muitos produtores põem fogo em áreas contíguas às suas propriedades ou destroem a mata existente dentro de suas próprias fazendas. O Código Florestal estabelece que, nos imóveis localizados na Amazônia Legal, 80% da mata nativa deve ser preservada. Há ainda as queimadas feitas por agricultores, indígenas e povos tradicionais com o propósito de renovar o pasto ou a área de cultivo, uma prática que tem impacto bem menor sobre o bioma, mas que pode sair do controle e provocar destruição em grandes áreas.

Levantamento realizado pelo MapBiomas — iniciativa que reúne universidades, organizações sociais e empresas de tecnologia – revela a dimensão das práticas criminosas citadas acima. De acordo com o estudo, realizado a partir do cruzamento de imagens de satélites com o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e outros bancos de dados oficiais, 99% do desmatamento realizado no Brasil no ano passado foi ilegal. Dos 12 mil quilômetros quadrados de vegetação nativa destruída, a maior parte está localizada no Cerrado e na Amazônia.

Pecuária e soja

Um estudo recente realizado pela Chain Reaction Research (CRR) , uma coalizão de consultorias ambientais europeias e americanas, ajuda a entender um pouco mais os interesses por trás dos incêndios ocorridos no ano passado na Amazônia. Os pesquisadores cruzaram imagens dos incêndios, feitas por satélites da Nasa, com a localização dos maiores frigoríficos da região, como JBS e Marfrig, e grandes silos de soja, controlados por gigantes como Bunge e Cargill.

O sistema de monitoramento da agência espacial americana detectou 417 mil focos de fogo nas “zonas potenciais de compra” da JBS e da Marfrig de julho a outubro do ano passado, um número que representa 42% de todos os incêndios ocorridos no Brasil no período – foram 981 mil, segundo a Nasa. Os focos de incêndios no entorno das duas empresas representam quase a metade (47%) do total detectado (885 mil) nas proximidades dos dez maiores frigoríficos da região.

Alerta VIIRS no Brasil (em cima) e número de alertas por mês (embaixo). Fonte: dados de incêndio da NASA VIIRS, imagens de satélite do Google

As zonas potenciais de compra dos matadouros foram estabelecidas pelo Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) em 2017, a partir de entrevistas feitas com 157 frigoríficos da Amazônia Legal. Entre outras informações, essas empresas revelaram a distância máxima que percorrem para comprar os animais para abate. Os frigoríficos maiores uma distância máxima de 360 km a partir de suas instalações. Os menores, que têm certificados para atuar apenas dentro do Estado, compram gado a uma distância máxima de 153 km.

No caso da soja, a Chain Reaction Research estabeleceu um raio de 25 km a partir dos silos das maiores empresas do setor como área de sua cadeia de suprimentos. O levantamento indicou que as queimadas ocorridas no entorno da Bunge e da Cargill (39,9 mil) superaram a soma dos focos de incêndio registrados nas proximidades dos outros oito maiores traders do setor.

O levantamento não faz nenhuma acusação a esses conglomerados. “O objetivo foi mostrar a ocorrência de uma enorme quantidade de incêndios nas proximidades dessas empresas, o que não implica o envolvimento direto delas com essas práticas. Mas faz com que tenham de resolver as suspeitas que recaem sobre sua cadeia de suprimentos”, diz Marco Túlio Garcia, pesquisador da Aidenviroment e um dos autores do estudo, que analisou também os incêndios na Indonésia, onde as suspeitas recaem sobre a produção de óleo de palma.

“O desmatamento na Amazônia, causa principal dos incêndios, traz riscos a essas empresas. Nos últimos anos, os grandes investidores internacionais colocaram essas questões no centro de sua pauta. Elas não estão mais restritas a debates entre ambientalistas”, completa Tim Steinweg, coordenador de pesquisa da Chain Reaction Research. Um exemplo dessa preocupação do mercado global foi dado em dezembro último pela Nestlé, quando suspendeu suas compras de soja da Cargill, por suspeita de que o produto tenha origem em áreas desmatadas da Amazônia.

unnamed (9)Desmatamento de janeiro a julho de 2019 e alertas de incêndio em agosto de 2019 – área agrícola do Estado da Amazônia, Brasil. Fonte: dados da NASA VIIRS, alertas Deter e imagens de satélite do Google

Reportagem recente do jornal The Guardian revelou que bancos e outras instituições financeiras britânicas investiram nos últimos anos mais de US﹩ 2 bilhões nas principais empresas brasileiras de carne que atuam na Amazônia. Por conta do desmatamento, estudam reconsiderar seu apoio se essas companhias não mostrarem progressos no rastreamento de seus fornecedores. Gigantes do setor de alimentos manifestam a mesma preocupação. Em dezembro, a Nestlé suspendeu suas compras de soja da Cargill, por suspeita de que o produto tenha origem em áreas desmatadas da floresta.

Estudiosos avaliam que o setor de pecuária traz hoje mais riscos para a Amazônia do que a indústria da soja, que hoje ameaça mais o Cerrado. A imagem dos produtores do grão melhorou a partir do pacto, batizado de “moratória da soja”, firmado em 2006 com entidades ambientalistas, pelo qual se comprometeram a não comprar a commodity de áreas desmatadas no bioma. O acordo contou depois com o apoio do governo federal.

O setor pecuário carrega irregularidades dos mais variados tipos. Entre elas, animais que nascem em áreas desmatadas, muitas vezes embargadas pelo Ibama, e que são vendidos para pequenos e médios produtores. Depois da engorda, são comprados legalmente pelos grandes frigoríficos. Os sistemas de controle não conseguem pegar o vício de origem. “É uma cadeia muito complexa. Não existe um sistema que permita rastrear cada animal desde o início, e os frigoríficos não parecem interessados em implantar um monitoramento desse tipo”, lamenta Ritaumaria Pereira, diretora executiva do Imazon. “Há um ditado na região que traduz essa triste realidade. Boi não morre de velho na Amazônia. Sempre vai ter alguém para comprá-lo, independentemente de onde venha”, afirma a engenheira agrônoma.

Menos floresta, menos chuva

Para muitos especialistas, falta visão estratégica ao governo brasileiro e aos produtores rurais em relação à Amazônia, o principal ativo ambiental do país. Paulo Moutinho, pesquisador sênior do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), lembra que a floresta funciona como uma espécie de bomba de vapor d’água que, transportado por meio dos chamados rios voadores, irriga o Centro-Oeste e o Centro-Sul do Brasil. A destruição coloca em risco esse sistema de irrigação. “Ao desmatar, é como se fizéssemos um furo nesse regador, que garante o sucesso de boa parte da produção agrícola brasileira.” De acordo com estudo da Agência Nacional de Águas (ANA) e do IBGE, 92,5% da água consumida pela agricultura brasileira vêm das chuvas. Apenas 7,5% são de sistemas de irrigação.

Os riscos à floresta amazônica são reais, de acordo os cientistas. O bioma já perdeu cerca de 17% (dados de 2017) de sua vegetação nativa. Se esse percentual superar 20%/25%, corre grande risco de entrar em um processo de savanização, segundo estudo publicado há dois anos pelo pesquisador brasileiro Carlos Nobre e pelo americano Thomas Lovejoy. Na década anterior, os mesmos pesquisadores falavam que o tipping point (ponto sem volta) aconteceria quando fossem atingidos os 40% de destruição. Refizeram os cálculos em razão da aliança mortal entre desmatamento, incêndios e mudança climática.

Especialistas ouvidos pela reportagem acreditam que não é preciso destruir nenhum hectare a mais para aumentar a produção agropecuária. Bastaria aproveitar os 12 milhões de hectares que foram desmatados e abandonados na Amazônia, áreas que poderiam ser recuperadas. “Você tem muitas áreas que estão abertas e, com incentivo adequado, poderiam ser exploradas”, afirma Paulo Moutinho, do IPAM. Ritaumaria Pereira, do Imazon, concorda: “Além da regeneração dessas áreas, precisamos de políticas públicas para incentivar o aumento da produtividade da pecuária, que hoje é muito baixa, cerca de um animal por hectare”.

O que dizem as empresas

Em nota, a JBS reclama do fato de não ter sido procurada pelos pesquisadores da Chain Reaction Research. A empresa questiona os critérios técnicos do estudo e diz adotar uma abordagem de tolerância zero em relação ao desmatamento em toda a sua cadeia de fornecimento. “Todos as fazendas fornecedoras de gado da JBS na região amazônica são monitoradas por meio de imagens de satélite e dados georreferenciados da propriedade. Portanto, fornecedores que utilizaram fogo para desmatar a floresta serão detectados pelo sistema de monitoramento da Companhia e bloqueados para compra de gado.”

unnamed (12)Alertas de incêndio dentro da zona potencial de compra da JBS em Alta Floresta, Mato Grosso, 2019. Fonte: imagens de satélite do Google, IMAZON, dados de incêndio da NASA VIIRS

A Marfrig afirmou que adota “uma rígida política de compra de animais, bem como um protocolo com critérios e procedimentos que são pré-requisitos para a homologação de fornecedores”. A empresa diz manter uma plataforma que monitora, por meio de um sistema de georreferenciamento e geomonitoramento socioambientais, todos os seus fornecedores. A ferramenta cruza os dados georreferenciados e documentos das fazendas com informações públicas oficiais para identificar potenciais não conformidades, “coibindo que a matéria-prima seja oriunda de fazendas que produzam carne em áreas de desmatamento ou embargadas, sobrepostas a unidades de conservação ou terras indígenas, ou mesmo que utilizem ‘trabalho escravo”’.

A Bunge disse que está comprometida com uma cadeia de suprimentos livre de desmatamento e que condena qualquer uso do fogo para o desflorestamento. “A empresa mantém rigoroso controle sobre critérios socioambientais em suas operações em todo o Brasil. As ações incluem verificações diárias às listas públicas de não conformidades do Ibama e do Ministério do Trabalho e Emprego, além da checagem de outros requisitos legais, e bloqueio imediato de qualquer negociação comercial, em caso de desconformidade”. De acordo com a nota, “a empresa também é signatária da Moratória da Soja, compromisso reconhecido mundialmente que proíbe a compra de soja cultivada em áreas desmatadas após 2008 na Amazônia, e do Protocolo Verde de Grãos do Pará, uma iniciativa conjunta com o Ministério Público Federal (MPF), que estabelece critérios para transações comerciais com foco em evitar a comercialização de grãos oriundos de áreas ilegalmente desmatadas”.

A Cargill afirmou que está comprometida com a proteção das florestas e da vegetação nativa de maneiras que sejam economicamente viáveis para os agricultores. “O desmatamento ilegal e incêndios deliberados na Amazônia são inaceitáveis ​​e, juntamente com outras empresas do setor, continuaremos a fazer parcerias com comunidades locais, agricultores, governos, ONGs e nossos clientes para encontrarmos soluções que preservem esse importante ecossistema”, afirma a nota da Cargill. “Fazemos parte da Moratória da Soja na Amazônia desde 2006, quando assinamos um acordo voluntário com organizações industriais e ambientais de não comprar soja de terras que foram desmatadas após 2008 neste bioma. Esse esforço contribuiu para o declínio de 80% no desmatamento na Amazônia na última década e foi estendido indefinidamente em 2016.”

* Marcelo Coppola é jornalista e foi editor na revista Época. Trabalhou também no jornal Folha de S. Paulo e na revista Veja.

Nestlé suspende compra de soja oriunda de desmatamentos na Amazônia

cargillNestlé suspendeu a aquisição de soja vendida pela Cargill como demonstração de que está comprometida com o combate ao desmatamento na Amazônia

A soja brasileira começou o ano sob o aviso da Federação Russa de que suas compras seriam suspensas caso o latifúndio agro-exportador não diminuísse o nível de resíduos do agrotóxico glifosato. Agora, nos estertores de 2019, o “The Wall Street Journal” (TWSJ) informa através de um artigo assinado pelo jornalista Jacob Bunge que a Nestlé informou à Cargill, corporação que controla parte significativa das exportações brasileiras de soja, que irá suspender as aquisições da principal commodity agrícola brasileira de áreas desmatadas na Amazônia.

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O artigo do TWSJ lembra que outras corporações multinacionais estão colocando obstáculos na compra de outras commodities brasileiras por causa da origem da produção em áreas desmatadas na Amazônia. Um dos casos mais expressivos foi o da Hennes&Mauritz que suspendeu a compra de couro brasileiro em julho até que os exportadores brasileiros demonstrem que seus produtos não são oriundos de áreas desmatadas na Amazônia.

É interessante notar que a Nestlé está sendo agora obrigada a adquirir soja produzida pelos EUA para substituir a produção oriunda da Amazônia, em que pese os custos mais elevados da produção estadunidense. Este fato demonstra que mesmo grandes corporações que possuem alta capilaridade e clara dominância no comércio mundial de alimentos estão optando por se afastar da produção brasileira por causa das questões sócio-ambientais que estão associadas ao avanço da franja de desmatamento para o interior de áreas até agora intocadas da Amazônia brasileira.

A importância e o peso econômico da Nestlé deverá gerar uma pressão adicional não apenas sobre outros grandes compradores da soja brasileira, mas de fornecedores que também são altamente dominantes na circulação de commodities agrícolas como é o caso da própria Cargill que está sendo alvo da Nestlé neste momento.

É importante notar que essa decisão da Nestlé foi ignorada pela mídia corporativa brasileira que continua “passando o pano” para a destruição acelerada dos biomas amazônicos que está sendo promovida pelo governo Bolsonaro e pelos governos estaduais dos estados da região. Entretanto, os barões do agronegócio (que até assinam o TWSJ) sabem  que terão de agir para não sofrerem um grande boicote já em 2020. Nesse sentido, apesar de todos os problemas que cercam a Nestlé, há que se reconhecer a importância de sua decisão.  Que o exemplo frutifique rapidamente em 2020!

New York Times faz matéria sobre retomada de altos níveis de desmatamento na Amazônia

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O jornal estadunidense “The New York Times” acaba de publicar uma matéria assinada por Hiroko Tabuchi e Claire Rigby com um daqueles títulos que prendem logo a atenção do leitor “Amazon deforestatio, once tamed, comes roaring back“, ou em bom português “Desmatamento na Amazônia, uma vez domesticada, está de volta rugindo” (Aqui!).

Além de muito bem produzida, com direito a vídeos e fotografias mostrando como está se dando o processo de avanço do desmatamento na Amazônia brasileira e boliviana, a matéria também dá um raro mergulho no papel desempenhado por gigantes como a Cargill que têm suas múltiplas influências mostradas.  Um dado que considero significativo e que teria sido oferecido pela próprio Cargill ao New York times seria o fato de que a empresa controla 20% da produção da soja produzida na faixa territórial conhecida como Matopiba (e que cobre áreas de estados como Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia). Esse nível de verticalização da produção também estaria sendo praticado na Amazonia boliviana, onde as taxas de desmatamento alcançam níveis igualmente preocupantes.

Se olharmos para o caso brasileiro e o papel da soja no avanço do desmatamento é sempre bom lembrar que, por anos, ficou-se na expectativa de que acordos de cavalheiros do tipo da “Moratória da soja” iriam resolver o problema. O que está matéria do New York Times deixa evidente é que essas expectativas podem ter sido grosseiramente superestimadas.  Aliás, para ler mais sobre o papel da monocultura da soja no avanço do desmatamento na Amazônia, sugiro a leitura do artigo do qual fui co-autor na “Acta Amazônica” (Aqui!).

Um aspecto nada negligenciável na questão da adoção de quaisquer medidas que controlem a explosividade das taxas de desmatamento, ao menos no Brasil, é o elemento político e o poder dos latifundiários da soja. É que com a presença de um representante na chefia do Ministério da Agricultura, o dublê de senador e latifundiário Blairo Maggi (PP/MT), e de um ministro do Meio Ambiente sem poder nenhum, o nada emblemático deputado Zequinha Sarney (PV/MA), todos sabemos para onde ir pender a ação do governo “de facto” de Michel Temer.

Resta esperar que também na mídia corporativa brasileira haja um mínimo de interesse de cobrir o que está acontecendo na Amazônia. E eu digo isso por simples esperança de que apareça algum tipo de preocupação com os efeitos desastrosos que o desmatamento na Amazônia já está trazendo sobre questões fundamentais como, por exemplo, o ciclo de chuvas no centro do sul do Brasil. Para entender melhor isso, sugiro a leitura do artigo assinado por Jeffrey Q. Chambers e Paulo Artaxo e que foi publicado na revista  Nature (sessão News and Views). Talvez aí comecemos todos a entender a dimensão do problema antes que seja tarde demais (Aqui!).

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