Artigo publicado na revista Environmental Science & Policy mostra que a grilagem funciona como uma engrenagem organizada que conecta especulação fundiária, desmatamento, violência e captura do Estado, transformando a floresta em ativo financeiro
O artigo “Forms of land grabbing in the Amazon: From land deals to illegal land appropriation“, assinado por Rayane Pacheco, Natalia Valdivieso Kastner e Amy Penfield e publicado na revista Environmental Science & Policy (Elsevier, 2026), oferece uma das sínteses mais abrangentes já produzidas sobre um dos principais motores da devastação amazônica: a apropriação privada de terras públicas, popularmente conhecida como grilagem.
Mais do que uma revisão bibliográfica, o trabalho demonstra que a disputa pela terra na Amazônia não pode ser reduzida à simples expansão da fronteira agrícola ou a conflitos fundiários isolados. Trata-se de um sistema complexo de acumulação de riqueza baseado na privatização ilegal de bens públicos, na expulsão de populações tradicionais e na transformação da floresta em ativo financeiro.
Um dos maiores méritos do artigo é mostrar que o conceito de land grabbing (“apropriação de terras”) precisa ser ampliado para abarcar diferentes modalidades de controle territorial. As autoras identificam duas grandes categorias: os land deals, que envolvem grandes aquisições ou concessões de terras por governos e corporações, e os land seizures ou encroachments, que correspondem à ocupação e apropriação ilegal de terras públicas ou privadas por grupos privados.
Essa distinção é particularmente importante para compreender a realidade brasileira. Enquanto boa parte da literatura internacional associa o land grabbing à compra de grandes extensões por investidores estrangeiros, na Amazônia o fenômeno assume predominantemente a forma da grilagem de terras públicas, realizada por agentes nacionais ligados ao agronegócio, à mineração, à exploração madeireira e à especulação fundiária.
Os dados reunidos pelas autoras são eloquentes. A revisão analisou 219 publicações produzidas entre 1982 e 2026 e constatou que 83% dos estudos concentram-se no Brasil. Entre eles, 44,5% tratam especificamente da apropriação ou ocupação ilegal de terras, sendo a forma mais recorrente a privatização de áreas públicas por atores privados.
O artigo desmonta ainda um dos mitos mais difundidos sobre a ocupação da Amazônia: o de que a destruição da floresta seria resultado da ação espontânea de pequenos agricultores ou posseiros. Pelo contrário, as autoras mostram que a grilagem moderna funciona como uma verdadeira cadeia empresarial.
Existe uma divisão organizada de funções. Há financiadores que aportam capital, gestores responsáveis pela falsificação documental e pela coordenação das operações, pistoleiros encarregados da expulsão violenta de moradores e comunidades tradicionais, “laranjas” utilizados para registrar propriedades fictícias e colaboradores instalados dentro do próprio aparelho estatal, incluindo cartórios, órgãos públicos e agentes políticos.
Essa descrição aproxima-se muito do conceito de máfia da terra, utilizado por diversos pesquisadores brasileiros e estrangeiros e citado pelas autoras. Não se trata de criminalidade difusa, mas de uma estrutura organizada que conecta interesses econômicos, violência privada e fragilidades institucionais.
Outro aspecto extremamente relevante é a descrição da sequência operacional da grilagem. Primeiro ocorre a ocupação da área pública. Em seguida vem a extração seletiva de madeira de alto valor comercial. Depois realiza-se a derrubada e a queima da floresta, convertendo-a em pastagem. A presença de gado, por sua vez, funciona como demonstração de “uso produtivo” da terra, aumentando seu valor de mercado e fortalecendo futuras reivindicações de regularização fundiária. Finalmente, a área é registrada, subdividida e revendida para grandes empreendimentos agropecuários ou investidores. Essa sequência revela uma constatação incômoda: o desmatamento não é um efeito colateral da ocupação territorial; ele é parte integrante da estratégia de apropriação da terra.
Nesse sentido, o artigo dialoga diretamente com uma vasta literatura brasileira que identifica a especulação fundiária como um dos principais motores da devastação amazônica. Derrubar a floresta significa produzir uma “benfeitoria” que valoriza economicamente o imóvel e aumenta suas chances de futura regularização.
As autoras também oferecem uma análise particularmente interessante sobre o Cadastro Ambiental Rural (CAR). Criado originalmente como instrumento de monitoramento ambiental, o sistema passou a ser utilizado por grileiros como uma espécie de comprovação informal de posse.
Por ser um cadastro autodeclaratório, o CAR permite que ocupantes ilegais registrem áreas públicas em seu nome, criando uma aparência de legalidade que posteriormente pode servir como argumento para obtenção de títulos definitivos ou acesso a crédito rural. O resultado é um paradoxo institucional: um mecanismo concebido para proteger a floresta acaba sendo apropriado como ferramenta de expansão da grilagem.
O texto também destaca como mudanças legislativas, anistias sucessivas e discursos políticos favoráveis à flexibilização ambiental contribuem para alimentar expectativas de impunidade. Quando invasões passadas são posteriormente regularizadas, cria-se um incentivo permanente para novas ocupações ilegais.
Talvez a principal contribuição do artigo seja demonstrar que a grilagem não pode ser interpretada apenas como um problema fundiário ou ambiental. Ela representa um mecanismo de acumulação de capital baseado na privatização de patrimônio público, articulando especulação imobiliária, expansão do agronegócio, exploração madeireira, mineração, lavagem de dinheiro e violência contra povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos agricultores.
As recomendações apresentadas pelas autoras são claras: destinar imediatamente as florestas públicas ainda não designadas para unidades de conservação ou territórios indígenas; fortalecer os sistemas de regularização fundiária sem premiar ocupações ilegais; integrar cadastros ambientais e registros de propriedade; interromper sucessivas mudanças legais que enfraquecem a proteção territorial; e investigar os esquemas financeiros que sustentam a grilagem e a lavagem de dinheiro.
O trabalho de Pacheco, Kastner e Penfield é particularmente oportuno porque evidencia que a Amazônia continua sendo tratada como uma fronteira aberta para a acumulação privada, onde o patrimônio coletivo é convertido em riqueza particular por meio da violência, da fraude documental e da captura das instituições públicas.
No fim das contas, a grilagem não é apenas uma disputa pela terra. É uma disputa pelo futuro da Amazônia. Enquanto a apropriação privada de terras públicas permanecer sendo um negócio altamente lucrativo e politicamente tolerado, o avanço do desmatamento continuará sendo menos um problema ambiental do que uma consequência previsível de um modelo de desenvolvimento baseado na mercantilização da floresta e na expulsão daqueles que historicamente a preservaram.
