Corrupção, fraudes e hackers mascaram a origem ilegal da carne na Amazônia

Novo relatório da ‘Repórter Brasil’ mostra como são facilmente adulterados documentos usados pelos frigoríficos para bloquear compras de bois ligados ao desmatamento ou trabalho escravo, abrindo brecha para fraudes envolvendo até mesmo funcionários públicos

amontado gado

Pela Repórter Brasil

Os maiores frigoríficos brasileiros anunciaram planos para garantir que, até o fim da década, não vão comprar um gado sequer de áreas desmatadas. Para isso, JBS, Marfrig e Minerva vêm investindo em ferramentas para monitorar a origem dos bois, incluindo tecnologias inovadoras que, em breve, permitirão o monitoramento ambiental dos seus fornecedores indiretos – ou seja, os pecuaristas que fornecem os animais jovens engordados nas fazendas que negociam diretamente com os frigoríficos.

No entanto, um novo relatório da Repórter Brasil, o Monitor 16 – De Olhos Fechados pro Desmatamento, mostra como há nestes planos um problema de origem que dificulta o cumprimento da meta: o rastreamento total da cadeia produtiva do gado segue baseado em documentos oficiais sujeitos a fraudes frequentes e cuja fragilidade dificulta, no contexto atual, o monitoramento até mesmo dos fornecedores diretos.

As violações vão desde esquemas para burlar os sistemas de controle dos frigoríficos até golpes envolvendo servidores públicos e hackers, que atuam de forma criminosa para apagar dos registros oficiais dados como as multas ambientais de fazendas fornecedoras. 

Alguns dos esquemas ilegais envolvem quadrilhas como a identificada na Operação Tokens, da Polícia Federal, em 2020. Os criminosos falsificavam certificados digitais (tokens) de funcionários do Ibama. Feito isso, acessavam os sistemas eletrônicos do órgão para desembargar, de forma clandestina, áreas interditadas na Amazônia por crimes como desmatamento ilegal.

Esquemas para burlar sistemas de controle dos frigoríficos e golpes envolvendo servidores públicos e hackers são algumas das violações compiladas no relatório ‘Monitor 16 – De Olhos Fechados pro Desmatamento’ (Foto: Daniel Beltrá/Greenpeace)

À época, foram constatados 122 desembargos irregulares em nome de 54 pessoas físicas ou jurídicas. Algo que afeta os sistemas de controle dos principais frigoríficos brasileiros, já que eles são signatários de acordos para não adquirir animais de fazendas com áreas embargadas.

Em 2021, mais uma apuração da Polícia Federal apontou outras formas criminosas para alcançar o mesmo objetivo. Um assessor do então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, estaria pressionando servidores do Ibama para cancelar embargos incidentes em algumas fazendas – incluindo áreas de pastagem. A denúncia do caso levou à exoneração do servidor.

Também no ano passado, a Operação Fake Bois, deflagrada pela Polícia Civil do Acre, revelou outro lado da fragilidade no monitoramento da pecuária: a participação de servidores públicos em esquemas de corrupção para mascarar o trânsito de gado de origem desconhecida.

A fraude ocorria por meio de adulterações nas Guias de Trânsito Animal (GTAs) – documentos obrigatórios para acompanhar o transporte do gado entre fazendas ou para o abate. Segundo as investigações, por anos um ex-servidor inseriu informações falsas no sistema responsável pela emissão destes documentos. Desde 2018, haviam sido detectadas 135 inserções falsas e ao menos 30 fazendas entre as áreas possivelmente beneficiadas.

Outra fiscalização – a Operação Boi Fantasma – foi deflagrada pela Polícia Civil de Rondônia em abril de 2021, identificando esquema semelhante também naquele estado.

Mentiras sem consequências

É justamente por meio de informações das GTAs que os frigoríficos pretendem identificar e monitorar seus fornecedores indiretos. Mas há proprietários que, mesmo sem a ajuda de servidores corruptos, conseguem emitir guias “fictícias” para mascarar a real origem do gado transportado.

Também foram destacadas no relatório as fraudes nas Guias de Trânsito Animal (GTAs), que são documentos obrigatórios para acompanhar o transporte do gado entre fazendas ou para o abate (Foto: João Laet/Repórter Brasil/The Guardian)

Isso ocorre quando uma propriedade com áreas embargadas ou inserida na “lista suja” do trabalho escravo emite a GTA em nome de fazendas “limpas”, que podem ser do mesmo dono, de parentes ou amigos. Dessa forma, usa o documento para acobertar o transporte dos animais criados na área desmatada ilegalmente.

Em 2020, a Repórter Brasil publicou uma investigação na qual foram identificados fortes indícios da prática. Um pecuarista desmatador e foragido da Justiça repassou 143 animais fêmeas para um sítio pertencente a um ex-funcionário seu. Onze minutos depois, segundo os próprios registros de GTAs, esse ex-funcionário transferiu 143 animais, com as mesmas características de sexo e idade, para o abate em um frigorífico da JBS.

Muitas vezes, as adulterações são grosseiras. Um exemplo são propriedades que emitem GTAs indicando a saída de um número alto de animais em um curto período de tempo – muito além do que seria factível, dado o tamanho da fazenda. É um forte indicativo de que o gado transportado teve origem em outros locais. Ou seja, teve a sua real origem “lavada”.

O mapa da mina

As indústrias compradoras de gado checam a existência de desmatamento em áreas fornecedoras através do Cadastro Ambiental Rural (CAR). O CAR é um documento federal onde os fazendeiros indicam os limites de suas propriedades, as áreas de preservação obrigatória e os remanescentes de vegetação nativa.

São inúmeras as fraudes realizadas em seu preenchimento. Por exemplo, muitos pecuaristas falsificam o perímetro de suas fazendas simplesmente removendo da área declarada as partes que foram desmatadas ilegalmente.

Outra prática comum é a “quebra” da propriedade. Nesses casos, uma fazenda é convertida – ao menos no papel – em diversas fazendas menores que fazem fronteira entre si. Caso exista um embargo ou um registro de desmatamento ilegal em alguma delas, basta informar aos frigoríficos o CAR vizinho como a área de origem dos animais vendidos.

Uma alternativa para, de fato, acabar com a venda de gado ligado ao desmatamento seria rastrear os animais com chips, de forma semelhante à já realizada em outros países; mas o setor trata essa tecnologia como uma possibilidade distante (Foto: Verena Glass/Repórter Brasil)

Por ser autodeclarado, o CAR precisaria, segundo a lei, passar pela validação das secretarias de meio ambiente estaduais, que devem fiscalizar a veracidade das informações incluídas. Mas esse processo está muito longe de ser concluído. Muitos dos CARs de áreas fornecedoras de gado sequer foram analisados pelas autoridades.

Horizonte nebuloso

Organizações da sociedade civil defendem a necessidade de avançar na transparência dos dados públicos – especialmente os CARs e as GTAs – para inibir as fraudes através do maior controle social da atividade agropecuária. Mas o governo federal e diversos governos estaduais resistem a isso.

As GTAs, por exemplo, são tratadas como documentos sigilosos, embora desde 2015 o Ministério Público Federal recomende que elas sejam de acesso público. O órgão já chegou a ingressar com uma ação judicial para obrigar a publicação das guias, mas sem resultados até o momento.

Outra alternativa seria rastrear individualmente os animais com chips, de forma semelhante à já realizada em outros países. Mas a adoção da tecnologia ainda é tratada como uma possibilidade distante pela indústria e por observadores externos.

Em 2021, um projeto de lei federal chegou a ser proposto na Câmara dos Deputados para exigir o uso de identificação eletrônica em animais criados em pastagens. A proposta, no entanto, já foi arquivada.


Leia o relatório completo aqui, disponível também em inglês.

compass black

Este texto foi originalmente publicado pela “Repórter Brasil [Aqui!].

Mercado Europeu não quer mais consumir carne do desmatamento

O boicote é resultado da ligação direta de frigoríficos do Brasil com violações ambientais e registro de propriedade irregular

unnamed (41)Sobrevoo do Greenpeace Brasil em 2020 em fazenda na Amazônia © Christian Braga / Greenpeace

Manaus, 16 de dezembro de 2021 – Varejistas da União Europeia anunciaram nesta quarta-feira (15) que deixarão de comprar carne bovina do Brasil pela relação direta com o desmatamento na Amazônia. O boicote aponta que o mercado internacional não quer mais consumir produtos ligados com a destruição das florestas. Segundo um levantamento feito pelo Greenpeace Brasil, grandes frigoríficos do país, como JBS e Frigol, compraram gado de forma direta ou indireta, de fazendas com desmatamento ilegal localizadas em áreas públicas federais e suspeitas de grilagem.

“O sinal está mais do que claro, não há mais espaço para desmatamento na Amazônia. A COP-26 evidenciou que a crise climática é uma realidade e que para contê-la será necessária a união de diversos esforços em diferentes países. Se por um lado os frigoríficos se omitem em tomar as decisões necessárias para frear práticas ilegais na sua cadeia de custódia, por outro, parlamentares europeus, varejistas e consumidores mostram a importância de seu papel e iniciam um movimento de basta. Basta de desmatamento na Amazônia. Esperamos que em um futuro muito próximo esse tipo de atitude seja seguido pelo mercado interno brasileiro”, afirma André Freitas, gerente da campanha de Amazônia do Greenpeace Brasil.

O levantamento ainda aponta que a apropriação ilegal de terra pode aumentar na Amazônia e elevar o desmatamento em curso caso sejam aprovados pelo Senado alguns dos projetos de Lei conhecidos como PL da Grilagem (PL 2633/2020 e PL 510/2021) e PL do Licenciamento Ambiental (PL 2159/2021), conhecido como o PL da Boiada. Esta é a terceira manifestação europeia – em menos de duas semanas -, contra o desmatamento na Amazônia.

No início de novembro, a eurodeputada Anna Cavazzini, vice-Presidente da Delegação do Parlamento Europeu para as Relações com o Brasil, enviou uma carta endereçada ao presidente do senado Rodrigo Pacheco, e também para os senadores Jaques Wagner e Acir Gurgacz, manifestando a sua preocupação com a possibilidade de aprovação dos PLs. Além disso, no início desta semana, foi a vez de 31 membros do parlamento dinamarquês de, cinco diferentes, partidos enviarem uma carta novamente ao presidente do Senado brasileiro manifestando preocupação com a disparada do desmatamento e das emissões de gases na atmosfera.

Castigo veio a cavalo: supermercados europeus param de vender carne bovina do Brasil por relação com desmatamento

desmatamento

Por Reuters

SÃO PAULO/AMSTERDÃ (Reuters) – Seis redes europeias de supermercados, incluindo duas de propriedade da empresa holandesa Ahold Delhaize e uma subsidiária do Carrefour, disseram nesta quarta-feira que não venderão mais uma parte ou todos os derivados de carne bovina do Brasil devido a laços com o desmatamento da floresta amazônica.

Os compromissos vão do anúncio da rede de supermercados Lidl Netherlands, que se comprometeu a parar de vender toda a carne bovina originária da América do Sul a partir de 2022, a decisões mais direcionadas de suspender a venda de certos produtos de carne.

Muitos dos produtos afetados são da JBS (JBSS3), a maior processadora de carne do mundo.

Os boicotes são uma reação a uma investigação da entidade Repórter Brasil, que alegou que a JBS utilizou carne de vacas de pastos em áreas desmatadas ilegalmente, em um esquema conhecido como “lavagem de gado”.

O esquema ocorre quando o gado criado em um lote de terra desmatado ilegalmente é vendido a uma fazenda legítima antes da venda para um abatedouro para ocultar sua origem.

A JBS disse à Reuters que tem tolerância zero com o desmatamento ilegal e que descartou mais de 14 mil fornecedores por não se adequarem às suas políticas. A empresa disse que o monitoramento de fornecedores indiretos –aqueles que antecedem o vendedor final para o abatedouro– é um desafio para todo o setor, mas que a JBS instituirá um sistema capaz de fazê-lo até 2025.

A processadora de carne disse que o levantamento da Repórter Brasil mencionou somente cinco de 77 mil de seus fornecedores diretos e que estes fornecedores se adequavam às suas políticas na ocasião da compra.

O desmatamento da Amazônia brasileira, a maior floresta tropical do mundo, tem disparado desde que o presidente Jair Bolsonaro tomou posse em 2019 e revogou medidas de proteção ambientais. Ele defende mais agricultura e mineração na região, inclusive em reservas indígenas.

Em 2021, o desmatamento atingiu uma alta de 15 anos. A maior parte das terras devastadas é usada para a criação de gado.

Entre outros compromissos dos mercados europeus, a Albert Heijn, subsidiária da Ahold Delhaize, que é a maior rede de supermercados da Holanda, suspenderá totalmente a compra de carne bovina do Brasil.

Um porta-voz da Albert Heijn disse à Reuters que atualmente a empresa só vende alguns produtos de origem brasileira por semana.

A francesa Auchan também deixará de oferecer produtos de carne ligados à JBS em suas prateleiras. Os supermercados Carrefour e Delhaize da Bélgica não venderão mais a marca de carne seca Jack Link’s.

JBS e Jack Link’s têm um empreendimento conjunto. A Jack Link’s não respondeu a um pedido de comentário.

A britânica Sainsbury’s disse que não obterá mais a carne bovina que vende com sua própria marca do Brasil, mas que 90% de sua carne bovina já é fornecida pelo Reino Unido e pela Irlanda.

blue compass

Este texto foi publicado inicialmente pela InfoMoney [Aqui!   ].

Agronegócio em xeque: carne bovina brasileira sofre ampliação de banimento depois da descoberta de casos do Mal da Vaca Louca

carnes

Uma crise silenciosa está se expandindo sem muita cobertura da mídia corporativa após a descoberta de casos de Mal da Vaca Louca em frigoríficos de Minas Gerais e Mato Grosso. É que após a proibição de importação de carne brasileira por China e Arábia Saudita, agora mais quatro países resolveram banir importações brasileiras (Rússia, Indonésia, Irã e Egito).  O problema aqui é estes países representam uma parte substancial do montante total de compras de carne bovina feitas no Brasil, a começar pela China que é o nosso principal importador.

Mas é preciso lembrar que quando ainda era deputada federal em 2018, mas já anunciada como futura ministra da Agricultura,  Tereza Cristina (DEM/MS) anunciou a intenção, que depois seria levada a cabo, de afrouxar a fiscalização diária do governo federal em frigoríficos, sob a alegação (esfarrapada, diga-se de passagem) de que as regras então  vigentes não permitiam ampliar a produção aos finais de semana, porque os fiscais do governo não trabalhavam sábado e domingo, nem podiam receber horas extras.

A conversa anunciada e defendida com unhas e dentes pelos donos de frigoríficos é de que seria possível adotar regras de “autocontrole” que deixariam sob as responsabilidades dos abatedores as principais medidas para fiscalizar a sanidade dos animais sendo abatidos em suas unidades industriais. 

É importante frisar que já em 22 de dezembro de 2018, publiquei uma nota neste blog indicando a minha opinião de que a proposta do autocontrole nada mais era do que uma senha para “chutar o balde” no controle da produção de carne e do desmatamento. Eu, aliás, também afirmei que os anúncios de Tereza Cristina já tinham acendido todas as luzes de alerta em muitos países que adquirem produtos de origem animal que são produzidos pelo Brasil.  Agora passados quase  três anos daquela postagem, o que se vê é a confirmação de tudo o que escrevi. 

Mas o que está acontecendo era previsível, por que se permitiu o afrouxamento de regras que agora resultam no banimento da carne brasileira? É que claramente falou mais alto a disposição do lucro a qualquer custo, mesmo que isso colocasse em risco a saúde da indústria de carne brasileira, provavelmente por causa da aposta furada de que nossos compradores mais latem do que mordem quando se trata de impor suas regras sanitárias. Agora se vê que o caso não é bem esse.

Finalmente, se esse banimento se mantiver ou até mesmo for ampliado, o consumidor brasileiro pode ter até um alívio no preço interno. Mas esse barateamento poderá sair caro se as regras de fiscalização dentro dos frigoríficos não forem recolocadas nos níveis que garantam que não estamos comendo carne fora dos padrões internacionais.

Diminuição da chuva causada pelo desmatamento na Amazônia pode levar a quase US$200 bilhões em perdas para pecuaristas e sojeiros

deforestation_2074483b

As indústrias de carne bovina e soja na região sul da Amazônia brasileira correm o risco de quase US $ 200 bilhões de perdas de produtividade devido ao desmatamento na Amazônia, de acordo com um novo estudo científico . O estudo, publicado na Nature Communications em maio de 2021, examinou a relação entre o desmatamento e as chuvas. Também avaliou o impacto dos cenários de política de desmatamento sobre as receitas agrícolas, descobrindo que a perda de floresta em áreas de fronteira no norte da Amazônia pode resultar em reduções alarmantes de chuvas no sul da Amazônia. O sul da Amazônia é uma região agrícola altamente desenvolvida que responde pela maior parte das áreas de cultivo e pastagens no Brasil. A maior parte da produção agrícola na área é alimentada pela chuva.

Em um cenário de “governança ambiental fraca”, os cientistas projetam perdas de receita associadas à produtividade de US$5,6 bilhões para o cultivo da soja e US $ 180,8 bilhões para a produção de carne bovina. De acordo com os autores, “o Brasil pode ter ultrapassado um limite no qual mais desmatamento na Amazônia se traduz em dano econômico direto”. Conclui que a atual trajetória de expansão para áreas florestadas coloca em risco a produtividade agrícola de todo o país. Em entrevista à Thomson Reuters, um coautor do estudo, Argemiro Teixeira, disse que a proteção florestal pode apoiar o setor agrícola do Brasil. “[É] possível e necessário melhorar a indústria preservando o meio ambiente”, afirmou.

O estudo quantificou o risco financeiro em um dos mais prementes riscos físicos crônicos de desmatamento para os setores de commodities agrícolas. Conforme descrito em janeiro 2021 da CRR papel em seu quadro TCFD alinhado para avaliar os riscos de desmatamento, perda de floresta é a maior risco de mudanças climáticas da agricultura. Com as altas taxas atuais de desmatamento do Brasil e o papel substancial do país nos mercados globais de commodities leves, as mudanças no padrão de chuvas podem ter um efeito cascata nos sistemas globais de alimentos.

As partes interessadas em todas as cadeias de abastecimento de carne bovina e soja são as que correm maior risco. Os produtores agrícolas serão os mais diretamente afetados pelas perdas de produtividade quantificadas neste estudo. Mas a oferta reduzida e os preços flutuantes também podem afetar as empresas mais abaixo na cadeia de abastecimento. Por exemplo, os preços do gado no Brasil já aumentaram 60 por cento no último ano. Isso resultou na paralisação temporária da produção nos frigoríficos para ajustar a oferta à demanda , com supostas consequências financeiras para os frigoríficos do Brasil. A redução da produtividade do gado, desencadeada por desmatamento futuro, pode exacerbar muito esses impactos.

Da mesma forma, as instituições financeiras com participações nesses setores enfrentam maior exposição ao risco e podem ter que mitigar os riscos climáticos físicos decorrentes do desmatamento. Empresas como o UBS, que recentemente formou uma joint venture com o Banco do Brasil com foco no agronegócio, afirmam que “é possível lidar com o agronegócio brasileiro sem se envolver em problemas ambientais”. No entanto, qualquer cliente UBS localizado no sul da Amazônia brasileira pode enfrentar tais problemas ambientais, mesmo sem estar diretamente envolvido no desmatamento da floresta.

O risco físico de mudanças no padrão de chuvas aumenta os riscos de transição decorrentes da mudança global em direção a uma economia de baixo carbono. Os setores de carne bovina e soja do Brasil enfrentam uma série de riscos de transição:

  • Os avanços tecnológicos permitem que fontes alternativas de proteína vegetal, como hambúrgueres vegetarianos, concorram com o preço da carne bovina ;
  • A preferência do consumidor por opções vegetarianas está crescendo no Brasil , China , UE e em outros lugares;
  • Empresas downstream, incluindo Nestlé , H&M , VF Corporation , Grieg Seafood , Bremnes Seafood Gårdsand , excluíram o Brasil ou fornecedores brasileiros específicos de suas compras em resposta a preocupações com o desmatamento.
  • Os investidores têm pressionado por políticas corporativas de desmatamento zero mais rigorosas, arquivando resoluções dos acionistas (por exemplo, na Bunge , JP Morgan e Procter & Gamble), emitindo cartas públicas e iniciando processos de engajamento colaborativo .
  • Os estados estão colocando requisitos de due diligence de desmatamento mais rigorosos para suas empresas domiciliadas (por exemplo , França , Alemanha e Reino Unido) ou estão endurecendo as restrições de importação de mercado (por exemplo, União Europeia). Nos Estados Unidos, os esforços diplomáticos do presidente Biden podem ser complementados pela expansão da Lei Lacey para incluir a proibição da importação de commodities cultivadas em terras desmatadas ilegalmente. Os Estados Unidos também podem exigir que as empresas informem sobre o desmatamento em sua cadeia de suprimentos ou banir as importações relacionadas ao desmatamento.

Apesar dessas tendências notáveis, os riscos de transição relacionados ao desmatamento até agora não impactaram os resultados das principais empresas nas cadeias de abastecimento de carne bovina e soja. O lucro líquido, os preços das ações e as margens de lucro dos principais frigoríficos e comerciantes de soja no Brasil não viram mudanças significativas. Ao contrário do setor de óleo de palma, as evidências da materialidade financeira dos riscos de desmatamento permanecem teóricas nas indústrias de carne e soja. Apesar de tais perdas financeiras não se materializarem no curto prazo, impactos climáticos e naturais sobre a produtividade agrícola são esperados nos próximos anos.

fecho

Este texto foi escrito originalmente em inglês e foi publicado pela Chain Reaction Research [Aqui!].

Desmatamento causado por carne e soja dobrou no Brasil em um ano, diz Mighty Earth

ONG internacional inicia uma campanha para que as redes de supermercados da Europa cortem vínculos com empresas envolvidas na destruição da Amazônia e do Cerrado

me
Um monitoramento feito pela ONG Mighty Earth e divulgado nesta sexta-feira (30/04) mostra que o desmatamento atrelado à cadeia de fornecimento das principais empresas de soja e carne bovina do Brasil dobrou entre abril de 2020 e março de 2021 (260 mil hectares) ante o período anterior, entre março de 2019 e abril de 2020 (128 mil hectares).

Ao mesmo tempo, a esmagadora maioria dos consumidores de Alemanha, França, Holanda e Reino Unido acha que os supermercados não devem fazer negócios com as empresas que estão impulsionando a destruição das florestas no Brasil, revela uma nova pesquisa do Instituto YouGov realizada a pedido da ONG Mighty Earth e também divulgada hoje.

A Mighty Earth está usando essas duas informações em uma nova campanha que pede expressamente que as redes varejistas da europa parem de fazer negócios com empresas ligadas ao desmatamento no Brasil. Todos os anos, entre junho e setembro, os maiores comerciantes mundiais de soja unem forças com os maiores produtores de soja do Brasil para negociar contratos de compra para o próximo ano. A campanha tem o objetivo claro de influenciar as negociações sobre requisitos contratuais, como cláusulas que impedem a compra de soja cultivada em terras desmatadas após o prazo de 2020.

O monitoramento da Mighty Earth começou em março de 2019 e mostra que os dois maiores importadores europeus de soja, Bunge e Cargill, são os comerciantes com pior desempenho ambiental. A Cargill está ligada a mais de 66 mil hectares de desmatamento, uma área seis vezes maior do que a de Paris, enquanto a Bunge está ligada a quase 60 mil hectares de desmatamento.

Apesar desta espiral de desmatamento, houve apenas um caso em que uma das empresas citadas cortou laços com um fornecedor envolvido no desmatado, dos 235 casos registrados e reportados pelo Mighty Earth em seu monitoramento.

“A destruição das florestas no Brasil, impulsionada pela carne de supermercado, está piorando a cada ano. Isto está acelerando a mudança climática e dizimando a pátria da onça-pintada”, diz Martin Caldwell, Diretor da Mighty Earth na Alemanha.

Mercados: Alemanha e França

A pesquisa do Instituto YouGov entre os consumidores alemães indicou que 87% quer que os supermercados parem de fazer negócios com fornecedores que impulsionam o desmatamento no Brasil. Esse percentual é maior (89%) entre os clientes da EDEKA, o maior grupo de supermercados da Alemanha, com 24% de participação no mercado e mais de 4300 lojas. A empresa promove fortemente suas credenciais de sustentabilidade e estreou recentemente uma campanha publicitária sobre o tema na TV e nas redes sociais.

“Já é hora de a EDEKA ouvir seus clientes e abandonar as empresas de pior desempenho que estão provocando a destruição das florestas brasileiras – JBS, Cargill e Bunge”, afirma Caldwell. “A hora de impulsionar a mudança no Brasil é agora.”

Na França, o resultado é semelhante: 89% dos clientes do Carrefour no país querem que a rede deixe de comprar produtos com origem no desmatamento praticado no Brasil. No ano passado, o Carrefour liderou uma campanha voluntária neste setor que resultou em todos os grandes supermercados franceses se comprometendo a utilizar somente soja sem desmatamento em suas cadeias de abastecimento. Após seis meses, o Carrefour não fez nenhum progresso significativo na redução de suas ligações com os comerciantes de soja de pior desempenho Cargill e Bunge, e está falhando em conduzir mudanças reais no terreno, afirma a Mighty Earth.

Já a EDEKA assumiu fortes compromissos para remover o desmatamento em todas as suas cadeias de abastecimento, mas em seu relatório de 2019 , a empresa alemã admite que houve pouco progresso para melhorar a sustentabilidade de suas cadeias de abastecimento de carne e soja. Apesar disso, a varejista alemã, ainda não excluiu os comerciantes de soja de pior desempenho, que são a Cargill e a Bunge.

“Os consumidores estão preocupados, pois não suportam mais o gosto residual do desmatamento e a extinção de espécies ameaçadas que a carne comprada nas lojas do grupo Carrefour deixa”, afirma Fatah Sadaoui, Campaigner da ONG SumOfUs. “Em resumo, o que esperamos do Carrefour é menos conversa e mais ação.”

China e Rússia fazem queixas de agrotóxico e coronavírus em carne e soja exportadas pelo Brasil

Nos telegramas, as duas embaixadas disseram que os órgãos de fiscalização da Rússia e da China pediram providência ao MAPA

Soya Plantation in the Amazon
Plantação de soja na Amazônia

Por Raquel Lopes / FolhaPress

As embaixadas do Brasil na China e na Rússia reportaram, em telegramas ao Itamaraty, problemas em alimentos brasileiros exportados. Segundo diplomatas, autoridades nos dois países cobram soluções e há até queixa por “falta de controle” em relação aos produtos brasileiros.

Moscou, por exemplo, alertou para o índice de agrotóxico acima do limite permitido. Só em 2020, a reclamação envolveu mais de 300 mil toneladas de soja.

A missão em Pequim, por outro lado, relatou ao menos seis registros de presença do novo coronavírus em embalagens de carne e de pescado.

Nos telegramas, as duas embaixadas disseram que os órgãos de fiscalização da Rússia e da China pediram providência ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

A Folha teve acesso a 350 páginas das correspondências enviadas ao Ministério das Relações Exteriores. Os documentos foram obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).

Segundo dados do Comex Stat, um sistema do governo para consultas e extração de dados do comércio exterior brasileiro, a soja correspondeu a 25% da exportação brasileira para a Rússia em 2020.

Em um dos telegramas de janeiro, a embaixada do Brasil em Moscou cita que o Serviço Federal de Vigilância Veterinária e Fitossanitária da Rússia está preocupado com casos repetidos de detecção de glifosato acima do tolerado.

O documento pontuou que o país está endurecendo o controle sobre a presença da substância em produtos de grãos tanto no mercado interno quanto nas operações de exportação e importação.

A justificativa usada pelo país seria por causa do alto grau de toxicidade do glifosato para humanos e animais, confirmado por estudos da  Organização Mundial de Saúde (OMS).

Como funciona a permissão de agrotóxicos no Brasil

No Brasil, esse tipo de agrotóxico é permitido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O telegrama assinado pelo embaixador na Rússia, Tovar da Silva Nunes, citou que a agência reguladora russa tem informado repetidamente ao MAPA sobre o fornecimento ao país de soja com níveis acima do permitido desde 2019.

“O lado russo chamou a atenção dos colegas brasileiros para a necessidade de tomar medidas corretivas o quanto antes”, escreveu o diplomata.

Nunes acrescentou ainda que o desrespeito aos limites do agrotóxico corresponde a uma violação aos requisitos do regulamento técnico da União Aduaneira sobre a segurança dos grãos.

Segundo consta do telegrama, os resultados de verificação de segurança de grãos importados pela Rússia constataram, em parte da soja exportada no ano passado, teor de glifosato até 14,2 vezes superior ao máximo de 0,15 mg/kg previsto nas exigências do regulamento técnico da união aduaneira.

“O que aponta para a falta de controle estatal adequado por parte das autoridades competentes do Brasil. Nesse sentido, Rosselkhoznadzor [a vigilência russa] disse em comunicado que se reserva o direito de impor uma proibição temporária à importação dos produtos em questão do Brasil”, escreveu Nunes.

A Folha já publicou reportagem sobre o risco de o governo da Rússia adotar restrições temporárias à importação de soja caso não fosse reduzida a quantidade de pesticidas nos grãos importados do Brasil.
Já os telegramas da embaixada em Pequim citaram a detecção do coronavírus em produtos exportados ao país asiático no ano passado.

Em uma das correspondências, de novembro, o embaixador Paulo Estivallet de Mesquita relatou que a aduana da China suspendeu um estabelecimento brasileiro exportador de pescado.

A medida foi tomada em razão da não apresentação de medidas corretivas após os produtos apresentarem resultado positivo para o vírus causador da COVID-19.

“Na comunicação, a aduana chinesa afirma esperar que o Mapa atribua importância à identificação do novo coronavírus em produtos exportados pelo Brasil para a China e às não conformidades encontradas na auditoria por videoconferência”, escreveu Mesquita.

De acordo com ele, o órgão “solicita, ademais, que as autoridades brasileiras adotem medidas para investigar a causa da contaminação, requeiram a adoção de medidas corretivas pelo estabelecimento e notifiquem as referidas correções ao lado chinês, a fim de garantir a segurança dos pescados exportados para este mercado”.

Também em novembro, Mesquita informou que a imprensa chinesa intensificava as notícias que associavam o surgimento de novos casos de COVID-19em portos e aeroportos do país a contato com produtos importados.

Ao falar especificamente do Brasil, citou ao menos cinco vezes em que a mídia tratou da detecção do coronavírus em produtos importados da cadeia de frio. Os casos ocorreram nas províncias de Hubei, Shanxi e Shandong.

“A mídia chinesa continua a insistir na narrativa de que alimentos importados da cadeia de frio apresentam alto risco de transmissão da COVID-19, chegando mesmo a insinuar que o primeiro caso da epidemia, em Wuhan, teria origem em produtos vindos de outros países”, escreveu o embaixador.

O MAPA afirmou, por meio de nota, que rotineiramente são tratados temas similares na relação comercial entre países. “Os dois pontos citados já foram analisados e continuamente são monitorados entre o Brasil e os governos da China e Rússia. O fluxo comercial desses países com o Brasil permanece fluído, sem interrupção”, afirmou.

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) disse, em nota, que desenvolveu protocolo com o Hospital Israelita Albert Einstein, que rege os cuidados adotados pelas empresas do setor, assim como a legislação brasileira.

“Ambos protegem a saúde dos colaboradores e preservam a inocuidade dos alimentos produzidos para o mercado interno e internacional.”

A entidade disse ainda que organizações técnico-científicas relacionadas à saúde humana e à produção de alimentos realizaram pesquisas que constataram que o risco de transmissão de COVID-19 por embalagens é praticamente nulo.

fecho

Este texto foi originalmente publicado pelo Diário do Nordeste [Aqui!].

Desigualdades na cadeia da carne comprometem política de desmatamento zero na Amazônia

DESMATAMENTO1

  • Uma década depois da assinatura de acordos para banir o desmatamento da cadeia do gado, a pecuária segue sendo a maior responsável pelo desaparecimento da floresta na Amazônia.
  • Pesquisa revela disparidades entre frigoríficos, produtores e fiscalização que dificultam cumprimento dos acordos e permitem persistência de ilegalidades.
  • Dos 160 frigoríficos da Amazônia, somente 100 assinaram algum pacto. Auditorias que checam conformidade de compras são feitas apenas em 56 unidades.
  • Entre criadores, diferença é sócio-econômica: os grandes têm recursos para ampliar produtividade sem abrir novas áreas de pasto e conhecimento de tecnologias disponíveis. Já os pequenos sequer contam com registro formal de terras e são invisíveis para a fiscalização.
Por Naira Hofmeister para a Mongabay Brasil

De um lado, frigoríficos monitorados e auditados para cumprirem critérios de compras com zero desmatamento; de outro, abatedouros irregulares que não ligam para as regras. Fazendas com área e recursos para ampliar a produtividade sem derrubar árvores convivem com pequenas propriedades que não têm sequer registro no Cadastro Ambiental Rural (CAR) – e para as quais a única opção de maximizar lucros é abrir novas áreas de pasto na selva. Do mesmo modo, criadores antenados e com laços sociais que reforçam a decisão de produzir gado sem desmatar concorrem com fazendeiros isolados, sem acesso a estradas e longe de qualquer estímulo para atender ao compromisso ambiental.

A desigualdade, chaga brasileira que está por trás de estatísticas preocupantes do país, também explica o desmatamento na Amazônia – ou, pelo menos, ilustra a dificuldade de se fazer cumprir a política de desmatamento zero imposta a frigoríficos em 2009 pelo Ministério Público Federal por meio de um acordo setorial chamado Compromisso Público da Pecuária (CPP).

“Uma década depois, a implantação dos acordos da cadeia da carne ainda é incompleta e as dúvidas sobre como diminuir o papel da pecuária no desmatamento permanecem”, observam as quatro autoras de um estudo publicado em setembro de 2020 no periódico Tropical Conservation Science.

Não é novidade que parte dos compromissos incluídos nos pactos ficaram pelo caminho nessa década. O Greenpeace abandonou a mesa do CPP em 2017 ao identificar a falta de apetite das empresas em cumprir a meta do desmatamento zero. Em 2019, o procurador federal Daniel Azeredo assegurou que, apesar das auditorias do MPF terem concluído que mais de 90% das compras dos frigoríficos cumpriam parâmetros mínimos exigidos, nenhuma companhia operante na Amazônia poderi“dizer que não tem gado vindo de desmatamento em sua atividade produtiva”.

No ano passado, foi a vez de os maiores processadores de proteína animal do Brasil, JBS e Marfrig, admitirem publicamente que falharam. Eles conseguiram implementar um monitoramento rigoroso sobre seus fornecedores diretos, mas a fiscalização não avançou para os elos anteriores da cadeia – um problema que adquire grandes dimensões em um setor em que um animal pode passar por uma dezena de fazendas antes daquela que finalmente vai mandá-lo para o abate.

Mas o levantamento que originou o artigo, liderado pela engenheira agrônoma brasileira Ritaumaria Pereira, oferece uma novidade nesse panorama já conhecido: o testemunho de 131 criadores de gado e gerentes de sete frigoríficos da região sudeste do Pará, que falaram sem rodeios sobre problemas e demandas do setor. “Pesquiso a cadeia da carne desde 2005, e pela primeira vez consegui entrar em todos frigoríficos; ninguém bateu a porta na minha cara, todos queriam falar. Naquele momento, estavam muito abertos”, comemora Pereira.

O trabalho abrangeu dez municípios do sudeste do Pará, uma região entre São Félix do Xingu e Marabá onde estão concentrados 30% do rebanho bovino do Estado e 10% de todas as cabeças de gado da Amazônia. O Pará é o pioneiro na assinatura de Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) entre frigoríficos e o MPF, um instrumento que se expandiu na última década para quase todos os estados da Amazônia Legal – embora com diferenças significativas de efetividade entre eles.

A pesquisa foi realizada entre os anos de 2013 e 2014, mas as autoras assinalam que os dados “descrevem desafios estruturais que continuam a ser enfrentados pelos fazendeiros”, assim como estratégias que eles “continuam a usar para evitar o cumprimento dos acordos”.

MAPA

Ilegalidades cruzam divisas 

Contando com a colaboração dos entrevistados, as pesquisadoras ouviram depoimentos “francos sobre como é fácil evitar as exigências” dos acordos enganando a fiscalização e promovendo a chamada “lavagem de gado” – troca de animais de uma fazenda irregular para outra legalizada – ou simplesmente vendendo para frigoríficos que não fazem parte dos pactos firmados por MPF e Greenpeace. A prática é tão comum que a promotoria do Mato Grosso precisou enquadrar nos seus TACs plantas de abate no vizinho Tocantins, onde o MPF ainda não atua com o mesmo rigor, segundo Ritaumaria Pereira.

Um criador admitiu à pesquisadora que “muitos animais deixam o Pará sem a Guia de Trânsito Animal para serem lavados em outros estados. Os municípios do sudoeste enviam gado para o Mato Grosso, e os do sul fornecem para Tocantins e Goiás”.

Roraima e Amapá não tem nenhum frigorífico sob monitoramento do MPF, embora o Compromisso Público da Pecuária seja aplicado a todo o território da Amazônia, mas apenas para as três maiores indústrias: JBS, Minerva e Marfrig.

Dados do projeto Boi na Linha – uma parceria da ONG Imaflora com o MPF para facilitar o acompanhamento dos resultados dos TACs – mostram essa disparidade. Em 2016, foram mapeadas 160 plantas frigoríficas na Amazônia, mas até hoje apenas 100 assinaram o compromisso de exigir conformidade ambiental de seus fornecedores.

Cobertura do TAC da Carne na Amazônia Legal

Pouco mais de 60% das plantas de abate na região são monitoradas pelo Ministério Público Federal

FRIGOS

Fonte: Imaflora

Dessas, somente 56 são alvo regular de auditorias que checam a conformidade dos abates com o firmado nos pactos setoriais. Isso quer dizer que há frigoríficos que são cobrados publicamente em maior grau que outros – e ainda que há uma quantidade significativa de empresas que sequer estão no raio de atenção das autoridades. “Quando colocamos no mapa, vemos que é uma concorrência muito desleal. Dez anos após o lançamento dos acordos, deveríamos ter todos os frigoríficos alinhados”, aponta Pereira.

Exigência de auditoria para comprovar cumprimento dos TACs

Apenas 56 dos 100 frigoríficos monitorados pelo MPF se submetem à checagem de conformidade.

AUDITA

Fonte: Boi na Linha – Imaflora

As empresas signatárias dos acordos precisam criar sistemas internos de monitoramento de suas compras e podem responder na Justiça se houver problemas. “Mas o frigorífico que não assinou acordo nenhum paga a mesma coisa pelo gado do produtor, o que incentiva esse criador a não buscar se adequar aos parâmetros do desmatamento zero”, lamenta a pesquisadora.

A floresta não está mais lá

A diversidade de perfis dos produtores é outro entrave para a efetividade dos acordos de desmatamento zero na Amazônia. Na pesquisa de Ritaumaria Pereira, ela encontrou propriedades que variavam de 29 hectares a 57 mil hectares – uma diferença que reflete as oportunidades que esses criadores terão em seus negócios.

Os fornecedores indiretos, que estão fora do radar de monitoramento implementado até agora, possuem fazendas menores e são o elo mais frágil da cadeia. Quase 70% não têm registro oficial no Cadastro Ambiental Rural – uma formalidade autodeclaratória que é, digamos assim, o ponto zero da política agrária do país. “Fornecedores indiretos disseram que não se registraram porque vendem apenas bezerros ou animais para a engorda em fazendas de intermediários, e essas ações não exigiam que eles tivessem CAR”, assinalam as pesquisadoras.

Sem um número de CAR, o fornecedor se torna invisível para as autoridades de fiscalização, mas também perde qualquer oportunidade de estímulo produtivo, como acesso a crédito ou iniciativas de fomento – torna-se quase impossível modificar seu status socioeconômico. 

Perfil de propriedades fornecedoras da cadeia da pecuária do Sudeste do Pará

AREAS

Fonte: Pereira et al. (2020) • Dados do estudo coletados entre 2013 e 2014.

Segundo a pesquisa, fazendas com acesso a tecnologia e a informações sobre as melhores práticas agrícolas tinham produtividade sete vezes superior a outras onde esse conhecimento e acesso não estava disponível. Por isso, 76% dos entrevistados queriam investir na recuperação de pastagens, mas esbarravam no alto custo e no difícil acesso à tecnologia: enquanto investir em técnicas de melhoramento de pastagem de um hectare custava em média US$ 752 em 2009, derrubar essa mesma área de floresta podia ser feito por pouco mais de US$ 400.

Todos os que conseguiram dar esse pasto eram fornecedores diretos na amostra de Pereira. “O pequeno não tem essa condição, até porque ele não tem terra mesmo para fazer lavoura ou melhorar o pasto rotando áreas. E aí ele fica refém da escassez, de um sistema de baixa produtividade”, lamenta Pereira.

O que é, sim, padrão entre grandes e pequenos, diretos e indiretos é a ausência de cobertura florestal original. Mais de 95% dos entrevistados admitiu manter uma área de Reserva Legal menor do que a exigida pela lei. Nas fazendas pesquisadas, a floresta remanescente não chegava a 20% da área – um flagrante desrespeito ao Código Florestal Brasileiro, que determina a preservação de 80% da cobertura vegetal no bioma Amazônia.

Propriedade real x propriedade legal no sudeste do Pará

Área média das propriedades é de 2.423 ha. Lei brasileira prevê reserva legal na Amazônia com 80% de área de florestas preservadas.

LEGAL

Fonte: Pereira et al. (2020) • Dados do estudo coletados entre 2013 e 2014.

Por isso quando, no ano passado, os grandes frigoríficos anunciaram novas metas para que toda sua cadeia esteja adequada à política de desmatamento zero na Amazônia, houve uma mistura de frustração e reconhecimento. Os planos são adequar gradativamente fornecedores indiretos no período entre 2025 e 2030. “Os grandes frigoríficos têm mostrado que vão fazer investimentos, é uma luz no fim do túnel. O que é difícil de aceitar é que talvez demore ainda muito tempo: mais dez anos, é isso mesmo?”, se insurge Ritaumaria Pereira, cobrando avanços mais velozes e em direções variadas para que o desmatamento zero possa finalmente ser uma realidade.

Imagem do banner: Fazenda de gado em Novo Progresso, Pará. Foto: Felipe

fecho

Este artigo foi originalmente pela Mongabay Brasil [Aqui!].

JBS estende imunidade aos desmatadores para alimentar sua cadeia de suprimentos até pelo menos 2035 em um ‘compromisso global’ surreal

“Seu novo anúncio não poderia deixar mais claro: a JBS continuará a fomentar o desmatamento na Amazônia por pelo menos mais 14 anos, e alimentará a crise climática bem depois disso.”

jbs

Por Katie Nelson para o Greenpeace

Londres, Inglaterra –  Em resposta ao anúncio da JBS de planejar enfrentar o desmatamento ilegal até 2030, eliminar o desmatamento até 2035 e atingir emissões líquidas zero até 2040, Daniela Montalto, ativista florestal e alimentar do Greenpeace no Reino Unido, disse:

“Por suas margens de lucro, a JBS continua sacrificando o clima, a biodiversidade e o cumprimento da legislação. Seu novo anúncio não poderia deixar mais claro: a JBS continuará a fomentar o desmatamento na Amazônia e além por pelo menos mais 14 anos, e alimentará a crise climática bem depois disso. Neste ponto, as instituições financeiras e compradores que continuam a negociar ou investir na JBS estarão zombando de quaisquer compromissos de sustentabilidade. Além do mais, eles serão conscientemente cúmplices em alimentar a catástrofe ambiental que ameaça nosso planeta. ”

A declaração da empresa não se compromete a atacar a fonte fundamental de sua pegada de carbono – a produção de carne. O anúncio é um grande retrocesso em relação à promessa feita originalmente em 2009 de entregar desmatamento zero em toda a base de abastecimento da Amazônia até 2011, demonstrada por total transparência. O anúncio atual aborda apenas o desmatamento ilegal no Brasil até 2030, e qualquer desmatamento não antes de 2035. A proibição do uso deliberado do fogo, legal ou não, não é mencionada.

Mesmo em meio ao caos e turbulência econômica causados ​​pela pandemia global COVID-19, e como a agenda anti-ambiental do presidente Bolsonaro continua a causar estragos na Amazônia, [2] as exportações de carne bovina do Brasil estabeleceram um novo recorde histórico em 2020 .

No início deste mês, o Greenpeace International publicou uma investigação expondo o maior processador de carne do mundo JBS e seus principais concorrentes Marfrig e Minerva abatidos bovinos comprados de fazendeiros ligados aos incêndios de 2020que destruíram um terço do maior pântano interior do mundo na região do Pantanal. 

page_1_thumb_large

“Com a estação seca de 2021 e provavelmente uma nova crise de incêndios se aproximando rapidamente, a JBS está quase distribuindo os fósforos. Ao continuar lucrando com a destruição, está efetivamente prejudicando os esforços globais para impedir o colapso da Amazônia e de outros biomas. O setor industrial de carne bovina é um passivo. Países importadores, financistas e compradores de carne como McDonald’s, Burger King ou os grupos franceses Carrefour e Casino devem acabar com sua cumplicidade nesta catástrofe que se desenrola. Fechar o mercado para destruidores de florestas não é suficiente – é hora de eliminar a carne industrial ”, disse Montalto.

Governos, finanças e empresas de consumo devem mudar de carnes industriais e fechar mercados para empresas que contribuem para a destruição de florestas e ecossistemas e a transição para um sistema alimentar que não seja uma força motriz de desmatamento, mudança climática e risco futuro de pandemia.

Notas:

[1] Declaração JBS completa: https://www.3blmedia.com/News/JBS-Makes-Global-Commitment-Achieve-Net-Zero-Greenhouse-Gas-Emissions-2040

[2] O chamado ‘pacote de destruição’ atualmente em pauta no Congresso Nacional Brasileiro e ordenado pelo gabinete do presidente Bolsonaro, é composto por propostas legislativas sobre os seguintes temas: mineração em terras indígenas (Projeto de Lei nº 191/2020, proposto pela Câmara dos Representantes); licenciamento ambiental (Projeto de Lei nº 3.729 / 2004 e aditivos, em tramitação na Câmara dos Deputados, e Projeto de Lei do Senado nº 168/2018); e regularização fundiária (Projeto de Lei nº 2.633 / 2020 da Câmara dos Deputados e Projeto de Lei nº 510/2021 do Senado Federal). A sociedade civil brasileira assinou carta contrária às iniciativas. A carta publicada em março de 2021 está disponível aqui: https://www.greenpeace.org.br/hubfs/carta_Nao_Ao_Atropelo_do_Processo_Legislativo_ingles.pdf

fecho

Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo Greenpeace [Aqui!].

BNP Paribas anuncia que vai parar de financiar que produzem ou compram carne em áreas desmatadas na Amazônia após 2008

Image result for bnp paribas deforestation amazon

Por  Sudip Kar-Gupta e Matthieu Protard; Edição de Kirsten Donovan para a Reuters

PARIS, 15 de fevereiro (Reuters) – O maior banco francês, o BNP Paribas, afirmou nesta segunda-feira que não financiará mais clientes que produzem ou compram carne bovina ou soja de terras na Amazônia desmatadas ou convertidas depois de 2008.

O BNP, que traçou uma política de combate ao desmatamento na Amazônia e no Cerrado, também disse que incentivaria seus clientes a não produzir ou comprar carne ou soja do Cerrado em terras desmatadas ou convertidas após 1º de janeiro de 2020.

O banco, o maior credor cotado da França, disse que só fornecerá produtos ou serviços financeiros a empresas – produtores, condicionadores de carne e comerciantes – que adotem uma estratégia de atingir o desmatamento zero em suas cadeias de produção e fornecimento até 2025, o mais tardar.

“As instituições financeiras expostas ao setor agrícola no Brasil devem contribuir para esse combate ao desmatamento”, disse o BNP Paribas em nota.

Bancos europeus como o Credit Suisse, o banco holandês ING e o BNP Paribas se comprometeram no mês passado a interromper o financiamento do comércio de petróleo bruto do Equador após pressão de ativistas que visam proteger a floresta amazônica.

Líderes indígenas que lutam para impedir a exploração de petróleo em seu território disseram que o papel dos bancos os tornou cúmplices em derramamentos de óleo, violações de direitos à terra e destruição da floresta tropical pela indústria petrolífera do Equador. 

(Reportagem de Sudip Kar-Gupta e Matthieu Protard; Edição de Kirsten Donovan)

fecho

Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pela agência Reuters [Aqui!]