Grilagem, desmatamento e roubo das águas no Cerrado

Comunidade Grinalda do Ouro sofre com pacote da devastação imposto por invasores no município de Gilbués (PI), a 830 quilômetros de Teresina

Grilagem: Demora da Justiça em disputa ameaça famílias no PI

Por Bruno Santiago para “Lemonde Diplomatique”

Já imaginou acordar pela manhã, em sua própria casa, onde você vive com sua família, com o barulho de tratores e árvores sendo derrubadas? 

Ao correr para a janela, você percebe máquinas enormes destruindo a mata a poucos metros do seu quintal – o mesmo lugar em que você cresceu e que seus filhos e netos brincam. Aquela árvore que você conhece desde pequena ou pequeno, que abrigou ninhos de passarinhos e da qual você colheu frutos para saciar a fome tantas vezes, já não está mais lá. Foi derrubada por invasores que nunca pisaram naquele território onde sua família vive há gerações, desde o tempo dos bisavós. 

Essa é a realidade vivida neste mês pela Comunidade Tradicional Grinalda do Ouro, no município de Gilbués (PI), a 830 quilômetros de Teresina. 

Desde o início de fevereiro, a comunidade sofre com a ação ilegal de grileiros que estão desmatando a vegetação nativa do território com o uso de tratores de esteira para a produção agrícola e para a construção de piscinões de captação de água para irrigação. Parte das famílias acordou, na última quarta-feira (11/02), com o barulho de árvores sendo derrubadas e das máquinas operando a poucos metros de suas casas. 

Crédito: Coletivo de Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado do Piauí

“Já tem tempo que eles estão desmatando aqui dentro, muita árvore já foi derrubada, mas essa semana foi quase no quintal de casa. Eu tomei um susto com o barulho do trator e corri para ver o que era”, relata uma das moradoras da comunidade que prefere não se identificar por motivos de segurança. 

Uma das lideranças da comunidade, que está gestante, tentou dialogar com os invasores para impedir a destruição, mas não obteve sucesso. “Disseram que só vão parar com uma liminar da justiça”, explica a moradora. 

“Ele me disse que mandava nisso tudo, que se ele quisesse ele derrubava até a nossa roça e que o trator ia passar por cima se eu entrasse na frente”, conta a liderança comunitária, que explicou que esse tipo de intimidação faz parte do diálogo com os funcionários da Fazenda. 

O empreendimento responsável pela ação é a Fazenda Ouro, de Pedro Lustosa do Amaral Hidasi. A empresa possui licença de operação concedida pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SEMARH) do Estado do Piauí para o desmatamento, produção agrícola e outorga para captação subterrânea de água. 

Ilegalidade da ação 

Para a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Coletivo de Comunidades Tradicionais do Cerrado no Piauí e a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, entidades que acompanham o caso, no entanto, a existência da licença ambiental não afasta a ilegalidade da ação. As organizações afirmam que a invasão e o desmatamento ameaçam diretamente a vida de mais de vinte famílias que vivem tradicionalmente no território há gerações e que não foram consultadas ou sequer notificadas sobre a intervenção. 

Em requerimento enviado para o Instituto de Terras do Piauí (Interpi) em outubro de 2025, as entidades afirmam que “as intervenções em curso vêm sendo realizadas com licenças concedidas pela SEMARH sem o preenchimento dos mais básicos requisitos legais, comprometendo gravemente a segurança jurídica, o ecossistema local e o modo de vida tradicional da comunidade”.  

Segundo a argumentação jurídica apresentada pela comunidade e por entidades que acompanham o caso, a autorização ambiental não supre exigências previstas na legislação fundiária estadual. Para as organizações, ao autorizar o desmatamento em área ocupada secularmente e tradicionalmente por mais de vinte famílias, o Estado teria ignorado requisitos legais básicos, colocando em xeque a própria validade do procedimento e ampliando o risco de danos socioambientais irreversíveis. 

“A Lei Estadual nº 7.294/2019 determina que a destinação de terras públicas deve priorizar a regularização de territórios tradicionais. O texto é explícito ao estabelecer que áreas públicas e devolutas ocupadas coletivamente por comunidades tradicionais devem ser destinadas a esses grupos e que, em caso de conflito entre comunidades locais e particulares, o Estado deve priorizar a regularização em favor das comunidades”, explica Mauricio Correia, pesquisador e advogado da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. 

A mesma norma reconhece como povos e comunidades tradicionais aqueles que ocupam e utilizam seus territórios como condição de reprodução cultural, social e econômica – exatamente a situação descrita na Grinalda do Ouro. Ainda assim, segundo a denúncia, não houve mediação do conflito fundiário antes da liberação da atividade. 

Segundo a assessoria jurídica da comunidade, a Fazenda Ouro apresentou a órgãos públicos uma documentação de registro de posse da área datada de cerca de sessenta anos. No entanto, esse documento não consta nos registros oficiais do patrimônio público, o que pode indicar que não haja comprovação de que tenha sido emitido por um órgão competente nem de que a área tenha sido regularmente destacada de terras públicas para uso privado – requisito fundamental para a validade jurídica de títulos fundiários no Brasil. 

Essa ausência de origem pública nos registros suscita em uma contradição com a memória histórica da própria comunidade. A pessoa mais velha viva na Grinalda do Ouro tem mais de 70 anos, e tanto ela quanto seus pais nasceram e viveram naquele território desde sempre – muito antes, portanto, de qualquer suposto título datado de sessenta anos atrás. Esse desencontro entre a presença secular da comunidade e a suposta data de registro da área levanta dúvidas sobre a legitimidade do documento apresentado pela Fazenda. 

“A Lei Complementar nº 244/2019 estabelece critérios objetivos para que o Estado reconheça domínio privado sobre imóveis rurais cuja cadeia dominial não comprove o destaque regular do patrimônio público para o privado. Entre as exigências estão a comprovação de boa-fé, a inexistência de disputa judicial e, de forma expressa, que o imóvel não se sobreponha a territórios tradicionais”, afirma Mauricio. 

Em novembro de 2025, o próprio Interpi publicou despacho favorável à denúncia apresentada pela comunidade. No documento, a Diretoria de Povos e Comunidades Tradicionais reconhece que o processo tramitou sem a devida consideração da sobreposição com o território tradicional da Comunidade Grinalda do Ouro e opinou pela suspensão da Certidão de Regularidade Dominial emitida com base no Decreto nº 23.692/2025. “O despacho aponta que a certidão não levou em conta a área do território tradicional indicado em processo específico, comprometendo sua validade e exigindo reanálise imediata para registro formal da sobreposição existente”, ressalta o advogado. 

Para Correia, a existência de sobreposição e conflito fundiário ativo tornaria incompatível o reconhecimento pleno do domínio particular e, consequentemente, fragilizaria qualquer autorização ou licença baseada nesse título.  

Diante disso, as entidades defendem a intervenção imediata do Interpi para apurar a situação fundiária e evitar que a devastação avance sobre um território cuja regularização deveria, por lei, ser prioridade do próprio Estado. 

Roubo das águas 

Outra ameaça iminente provocada pelos invasores diz respeito à preservação dos rios, nascentes e cachoeiras presentes no território da comunidade e adjacências. Com piscinões sendo construídos às margens da BR 335, dentro do perímetro da comunidade, o objetivo da Fazenda Ouro é a captação de água para irrigação de sua produção agrícola.  

Apesar das irregularidades legais e da fragilidade da situação fundiária do empreendimento, a SEMARH concedeu outorgas para perfuração de poço e captação em níveis subterrâneos e superficiais do curso de água. “O ponto de captação da água, de acordo com a lei, precisa estar dentro da propriedade do fazendeiro, não no território da comunidade, como está acontecendo”, destaca Maurício. 

A captação afeta diretamente as bacias dos Rios Alto Parnaíba e Uruçuí Preto, ambas situadas no Cerrado, que cumprem importante função para a subsistência da comunidade Grinalda do Ouro e de tantos outros territórios de populações ribeirinhas e tradicionais da região, além de abastecer o sistema hídrico de municípios do sul do estado, chegando até Teresina.  

Para Altamiran Ribeiro, agente da CPT no Piauí, a captação das águas em comunidades tradicionais é uma prática sistemática do agronegócio da região. “Já aconteceu isso na comunidade de Melancias, também em Gilbués, onde tentaram fechar o rio Uruçuí Preto com uma barragem, mas a comunidade se mobilizou e impediu a ação do empreendimento naquele período”. 

“Grinalda do Ouro é conhecida por ser um paraíso natural, numa região de brejo, pois se encontra entres as nascentes dos rios Uruçuí Preto e Uruçuí Vermelho, além de estar muito próxima da nascente do Rio Parnaíba, que são fundamentais para a vida da comunidade, para o Piauí, e agora estão em risco”, conta o agente da Pastoral.  

Crédito: Coletivo de Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado do Piauí

Vidas envenenadas 

Além do desmatamento, das intimidações e do roubo deliberado das águas do território tradicional, a comunidade sofre, há anos, com o uso abusivo de agrotóxicos nos monocultivos da região, especialmente a soja. 

“A gente sabe que as águas de nossos brejos não estão mais puras, não podemos mais beber, como fazíamos antes. Tem gente que adoeceu, que passou mal, mas tem muitas famílias que não têm alternativa, que só têm aquela água contaminada para beber”, relata uma das moradoras da comunidade. 

Com o avanço do desmatamento e a licença para a produção agrícola, a comunidade sabe que os monocultivos poderão ser produzidos a poucos metros de distância de suas casas, afetando ainda mais a saúde das famílias de Grinalda do Ouro. “Temos crianças, idosos, mulheres grávidas. Como vamos ficar se o veneno for despejado em cima de nossas cabeças?”, enfatiza a liderança comunitária. 

Reivindicações 

A SEMARH foi procurada pela reportagem para se posicionar a respeito das licenças e outorga expedidas, mas alegou que questões fundiárias são de responsabilidade do Interpi. Insistimos com o pedido de posicionamento por se tratar de licenças concedidas pela Secretaria e não por outro órgão, mas até o fechamento da reportagem não obtivemos retorno. 

Em entrevista para a Rádio Jornal Teresina, o secretário de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Piauí, Feliphe Araújo, informou que o governo do estado irá deslocar equipes de fiscalização ao território da Comunidade Grinalda do Ouro para apurar as denúncias e verificar o cumprimento das condicionantes da licença concedida à Fazenda Ouro.  

Enquanto aguardam a atuação dos órgãos estaduais, as famílias da comunidade e as entidades que acompanham o caso reivindicam a suspensão imediata e a anulação permanente das licenças concedidas para o desmatamento na área, além da revisão da situação fundiária e do reconhecimento formal da sobreposição com território tradicional.  

Também cobram a intervenção do Interpi para garantir a regularização do território em favor da comunidade, a paralisação definitiva das atividades que impactam a área e o respeito ao direito à consulta prévia, livre e informada.  

Para as famílias da comunidade, mais do que uma disputa jurídica, trata-se da defesa de suas vidas, de seu território, das águas e da própria permanência das famílias na terra onde vivem há gerações.  

Até o momento da publicação deste texto as máquinas seguem trabalhando na comunidade, derrubando árvores, perfurando a terra e devastando vidas. 

Bruno Santiago é pesquisador e coordenador de comunicação da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.


Fonte: LeMonde Diplomatique

Do Brasil à Grã-Bretanha: o custo oculto da soja e da carne bovina na destruição do Cerrado

Frequentemente negligenciado nos debates globais sobre conservação, o Cerrado brasileiro está sendo rapidamente transformado pela agricultura industrial, com o comércio com o Reino Unido desempenhando um papel direto na perda de sistemas hídricos, biodiversidade e estabilidade climática

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

Com o aumento da demanda global por commodities, o Cerrado brasileiro está desaparecendo em um ritmo alarmante, com consequências que vão muito além da América do Sul. Essa extensa área mista de campos, savanas e florestas desempenha um papel fundamental nos sistemas hídricos e no clima da América do Sul, mas é um dos ecossistemas mais ameaçados do continente

A destruição do Cerrado chega ao Reino Unido através dos alimentos que consumimos, transformando uma crise regional em uma responsabilidade compartilhada com consequências globais.

Uma revisão científica publicada na revista Nature Conservation constatou que mais da metade da vegetação nativa do Cerrado desapareceu, principalmente nas últimas cinco décadas. Isso corresponde a aproximadamente 1.000.000 quilômetros quadrados, uma área maior que a França e a Alemanha juntas, agora substituída por terras agrícolas, pastagens e cidades em expansão.

Frequentemente descrito como o motor hidrológico do Brasil, o Cerrado alimenta oito das doze principais bacias hidrográficas do país. Sua contínua degradação ameaça a segurança hídrica muito além de suas fronteiras, com consequências sentidas em grande parte da América do Sul.

Segundo Cássio Cardoso Pereira, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e principal autor da revisão, os danos ecológicos vão muito além da perda de habitat:

A consequência mais urgente é a ruptura do papel do Cerrado como regulador hídrico continental.

A perda da vegetação nativa reduz a recarga dos aquíferos, seca rios que abastecem importantes bacias hidrográficas na América do Sul e agrava secas e ondas de calor extremas.

Ao mesmo tempo, estamos perdendo biodiversidade única e enormes reservas subterrâneas de carbono, o que torna essa destruição uma ameaça direta tanto para as espécies quanto para a estabilidade climática.

O Cerrado é o segundo maior ecossistema da América do Sul, depois da Amazônia, ocupando 23% da superfície do Brasil.

Os autores da revisão usam o termo “Ecodomínio” para se referir a grandes áreas ecológicas que incluem múltiplos ecossistemas, biomas e ecorregiões. O termo descreve essas regiões como existiam em sua extensão original, independentemente de seu estado atual de conservação.

Soja e carne bovina

A destruição do Cerrado não é impulsionada apenas pelo Brasil; está intimamente ligada à demanda global por soja e carne bovina, commodities que vinculam essa paisagem diretamente ao sistema alimentar e à pegada climática do Reino Unido.

A agricultura industrial é responsável por grande parte dessa perda. Desde o início do monitoramento por satélite em 2001, mais de 326.000 quilômetros quadrados do Cerrado foram desmatados, às vezes em ritmo mais acelerado do que até mesmo na Amazônia.

As plantações de soja e as fazendas de gado dominam hoje grandes áreas que antes abrigavam uma biodiversidade extraordinária. Essas paisagens, em sua maioria monoculturas, dependem de máquinas pesadas, fertilizantes e agrotóxicos, deixando pouco espaço para a recuperação dos ecossistemas.

O estudo destaca a região do MATOPIBA, que abrange os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, como um ponto focal das recentes mudanças no uso da terra, onde a expansão agrícola continua a avançar sobre a vegetação nativa remanescente.

O desmatamento está remodelando o clima do Cerrado: a estação chuvosa agora chega cerca de um mês mais tarde, a precipitação total diminuiu e as temperaturas diurnas subiram aproximadamente 1,5 ° C.

Com a chuva cada vez menos previsível, a agricultura torna-se cada vez mais dependente da irrigação. Isso cria um ciclo vicioso perigoso, acelerando o esgotamento dos recursos hídricos e aprofundando a degradação ecológica em toda a região.

Grande parte do carbono do Cerrado está armazenado no subsolo, aprisionado em raízes que podem atingir mais de 15 metros de profundidade. Essa “floresta invertida” ajuda as plantas a suportarem longos períodos de seca, enquanto silenciosamente reabastece os aquíferos.

Quando a vegetação nativa é desmatada, o carbono armazenado por longos períodos é liberado. Paisagens que antes absorviam emissões se transformam em fontes de gases de efeito estufa, intensificando as pressões climáticas que já afetam a região.

Colapso ecológico

O Cerrado desempenha um papel central no sistema hídrico brasileiro. Ele dá origem a oito bacias hidrográficas e se situa sobre três imensos aquíferos que armazenam vastas reservas de água doce. A crescente demanda da agricultura industrial, da geração de energia hidrelétrica e da expansão urbana está submetendo esses sistemas a uma pressão implacável.

A extração de água em larga escala, combinada com o uso generalizado de agrotóxicos, está contaminando solos e cursos d’água, além de esgotar as reservas subterrâneas. Os rios estão diminuindo, os ecossistemas estão se desestabilizando e a biodiversidade está declinando à medida que os sistemas hídricos perdem sua resiliência.

O desenvolvimento da energia hidrelétrica acelerou os danos. As barragens fragmentam os rios, interrompem os fluxos naturais e bloqueiam as rotas de migração dos peixes, das quais dependem tanto a vida selvagem quanto as comunidades locais. Com o tempo, essas mudanças estão remodelando fundamentalmente sistemas fluviais inteiros.

O estudo também documenta a extensa degradação causada pelo fogo, que muitas vezes não é contabilizada nos números oficiais de desmatamento. Incêndios naturais no Cerrado são raros, geralmente provocados por raios, mas estima-se que 99% dos incêndios no Brasil sejam causados ​​por atividades humanas ligadas ao desmatamento e à expansão agrícola.

Entre 1985 e 2022, cerca de 40% do Cerrado foi queimado pelo menos uma vez. Quase dois terços dessa área queimaram repetidamente, matando espécies sensíveis ao fogo e favorecendo o crescimento de gramíneas invasoras que aprisionam as paisagens em ciclos de degradação.

O Ecodomínio abriga cerca de 13.000 espécies de plantas, mais de 3.200 vertebrados e dezenas de milhares de invertebrados. Aproximadamente um terço de sua flora é endêmica, ou seja, não é encontrada em nenhum outro lugar da Terra.

No entanto, apenas uma pequena parte do Cerrado está estritamente protegida. Muitas espécies ameaçadas, particularmente plantas e insetos, permanecem mal avaliadas e politicamente negligenciadas. Ecossistemas com menor cobertura arbórea, como os campos, continuam sendo subvalorizados apesar de sua imensa importância ecológica.

Não se trata apenas de proteger espécies ameaçadas. Cerca de 80 povos indígenas vivem em mais de 200 territórios reconhecidos no Cerrado, muitos deles salvaguardando os últimos trechos de vegetação intacta da região.

Por gerações, essas comunidades cuidaram da terra, guiando rios, protegendo a vida selvagem e mantendo as paisagens resilientes. Muitos territórios permanecem apenas parcialmente reconhecidos pela lei, deixando tanto as pessoas quanto os ecossistemas expostos às crescentes pressões da agricultura e do desmatamento.

Rodolfo Salm, ecologista, ativista, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) e um dos autores da revisão, afirma que as lacunas legais atuais têm raízes em uma longa história de desapropriação, agora reforçada por novas leis:

Durante grande parte da história do Cerrado, os povos indígenas foram progressivamente expulsos de seus territórios, primeiro pela pecuária, depois pela produção de grãos em larga escala. Esse processo se acelerou com a mudança da capital do Brasil para Brasília e se intensificou sob a ditadura militar das décadas de 1960 e 70.

Hoje, a recém-aprovada Lei do Marco Temporal , que restringe o direito ao reconhecimento legal de um território indígena às áreas que eram efetivamente ocupadas por povos indígenas na época da Constituição de 1988, combinada com complexas barreiras legais e burocráticas, tornou o reconhecimento de novas terras indígenas no Cerrado praticamente impossível.

Isso representa um duro golpe para a biodiversidade, pois os territórios indígenas estão entre as áreas mais eficazes e confiáveis ​​para a proteção dos ecossistemas.

A participação do Reino Unido no Cerrado

Muitas pessoas no Reino Unido ficariam surpresas ao saber o quão intimamente suas dietas estão ligadas a essa paisagem distante.

A Grã-Bretanha importa milhões de toneladas de soja por ano, a maior parte destinada à alimentação animal. Cerca de 90% é direcionada à pecuária, principalmente aves e suínos, o que liga diretamente a destruição do Cerrado à cadeia de abastecimento de carne.

Somos profundamente dependentes do resto do mundo, importando cerca de 40 a 50% dos nossos alimentos. E grande parte disso provém de regiões que também estão sendo duramente atingidas pelos impactos climáticos de que temos falado, disse o Professor Paul Behrens na Reunião Informativa Nacional de Emergência em Londres, em novembro passado.

Investigações da ONG Mighty Earth mostram que os principais comerciantes globais que abastecem os mercados do Reino Unido e da Europa continuam a obter soja de áreas ligadas à destruição do Cerrado, apesar dos repetidos compromissos públicos com a sustentabilidade.

A Mighty Earth também alertou que as regras de due diligence pouco rigorosas do Reino Unido podem transformar a Grã-Bretanha em um depósito de soja e carne bovina ligadas ao desmatamento, à medida que as empresas desviam o fornecimento de alto risco de mercados mais rigorosamente regulamentados.

Apesar das promessas do governo, as importações britânicas de soja e carne bovina continuam a impulsionar a destruição do Cerrado por meio das cadeias de suprimento de ração animal.

Philip Fearnside, professor pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e um dos autores da revisão, explica por que os compromissos voluntários e os códigos de sustentabilidade não atingiram seus objetivos, destacando os impactos indiretos negligenciados da produção de commodities:

A maior parte da expansão da soja na Amazônia e no Cerrado ocorre não por meio do desmatamento direto, mas pela conversão de pastagens de gado em plantações de soja. Essa transformação geralmente resulta da venda de terras por pecuaristas para plantadores de soja, em vez da conversão deles próprios para o cultivo da soja.

Como as terras adequadas para o cultivo de soja têm preços elevados, os pecuaristas frequentemente usam o dinheiro para comprar extensões muito maiores e mais baratas de floresta tropical no interior da Amazônia, o que indiretamente impulsiona ainda mais o desmatamento. Esses impactos indiretos escaparam, em grande parte, de todos os sistemas de monitoramento e certificação existentes.

O Reino Unido pode estabelecer regras juridicamente vinculativas para empresas fornecedoras de produtos como a soja, exigindo que elas prestem contas dos impactos ambientais diretos e indiretos. Ao monitorar esses efeitos combinados, o Reino Unido poderia evitar o fornecimento de soja associada ao desmatamento generalizado tanto no Cerrado quanto na Amazônia.

O Regulamento de Produtos Florestais de Risco do Reino Unido (UKFRC, na sigla em inglês), previsto na Lei Ambiental de 2021, ainda não entrou em vigor. E como a lei visa apenas o desmatamento ilegal, vastas áreas de terra que foram legalmente convertidas, mas que ainda assim estão destruindo habitats únicos, permanecem desprotegidas.

Grande parte desses danos permanece invisível. A soja necessária para a alimentação animal é uma “pegada fantasma”, invisível nos rótulos, mas muito real em termos climáticos e ecológicos.

Pereira afirma que os responsáveis ​​pela destruição do Cerrado são bem conhecidos e, em grande parte, tolerados:

A rápida destruição do Cerrado é impulsionada principalmente pela expansão do agronegócio, especialmente o cultivo de soja e a pecuária, facilitada por políticas permissivas de uso da terra e fiscalização deficiente.

Diferentemente da Amazônia, a maior parte do desmatamento no Cerrado ainda é legalmente permitida, o que protege corporações e cadeias de suprimentos da fiscalização. A responsabilização internacional falhou porque as estruturas globais de clima e biodiversidade negligenciam amplamente os campos e savanas, tratando-os como paisagens descartáveis ​​em vez de ecossistemas críticos.

Um aviso e uma escolha

Segundo o relatório da Nature Conservation, o Cerrado está sendo levado ao colapso.

Fearnside alerta que a destruição contínua do Cerrado não é apenas uma crise regional, mas um risco global, que acelera as alterações climáticas e prejudica os sistemas hídricos, a biodiversidade e as comunidades que deles dependem:

A perda do Cerrado contribui diretamente para o aquecimento global e para a interrupção do ciclo da água, assim como o desmatamento da Amazônia. Juntos, esses processos destroem a biodiversidade e as sociedades humanas que dependem da vegetação nativa.

As práticas atuais estão levando o clima global a pontos de inflexão que, se ultrapassados, seriam devastadores não apenas para o Brasil, mas para o mundo. Evitar esse desfecho exige mais do que apenas proteger as florestas: significa acabar com o desmatamento do Cerrado e da Amazônia e interromper rapidamente o uso de combustíveis fósseis.

Para o Reino Unido, o Cerrado não é um problema distante. Seu destino está diretamente ligado às nossas importações, dietas e escolhas diárias. A responsabilidade climática começa muito antes da linha costeira, em nossas cozinhas, em nossos pratos e por meio das escolhas que fazemos todos os dias.

Imagem em destaque: O primeiro-ministro Sir Keir Starmer (à esquerda) reunindo-se com o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, para um encontro bilateral em Nova York, antes de seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas. Alamy/Leon Neal


Fonte: Your Voiz

Crise hídrica espalha efeitos pelo Brasil: combinação de desmatamento e mudanças climáticas agrava problema

Bacias hidrográficas do Sudeste e do Centro-Oeste seguem no vermelho, e a recomendação do Cemaden é que a gestão dos reservatórios ao longo do ano seja feita considerando o pior cenário de seca possível

Agravada pelo desmatamento e pelas mudanças climáticas, crise hídrica  espalha efeitos pelo país

Reservatório Paulo de Paiva Castro, que faz parte do Sistema Cantareira: ele regula o fluxo de água que, no fim da linha, abastece a Grande São Paulo — Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo/07/10/2025

Por Ana Lucia Azevedo para “O GLOBO”

Choveu, mas não resolveu. A água que caiu nos últimos dias, no maior volume da estação chuvosa iniciada em outubro, trouxe alívio temporário para o calor e provocou transtornos, mas não tirou do nível crítico os rios dos quais depende a maior parte da população do Brasil. As bacias hidrográficas do Sudeste e do Centro-Oeste seguem no vermelho, e a recomendação do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) é que a gestão dos reservatórios ao longo do ano seja feita considerando o pior cenário de seca possível.

— Não choverá o bastante para recuperar reservatórios, sobretudo no Sudeste. A estação seca começa em março e irá até outubro, quando as chuvas deveriam voltar. A situação está crítica e pode piorar. Será preciso planejar muito bem — destaca o meteorologista Marcelo Seluchi, coordenador de operações do Cemaden.

A crise não brotou de hora para outra. É fruto de anos seguidos de pouca precipitação e menor umidade. Esses problemas, por sua vez, decorrem de mudanças climáticas e, em especial, do desmatamento, frisam cientistas. Menos cobertura vegetal, menos evaporação e, consequentemente, menos vapor d’água e umidade no ar para fazer chover.

As florestas e a vegetação nativa de Cerrado também captam e fixam a água no subsolo, formando nascentes e evitando a erosão que assoreia rios. A evaporação de uma área de pastagem é, em média, de quatro a cinco vezes menor do que à de uma com cobertura vegetal nativa (o valor varia com o bioma), já indicaram estudos.

Sem chuva nas cabeceiras

Temporais como o da noite de domingo no Rio de Janeiro podem alagar a cidade e até interromper um Fla-Flu, mas não têm impacto na recuperação de reservatórios. Primeiro, porque são pontuais. Além disso, localizados — segue sem chover nas cabeceiras. E o nível dos lençóis freáticos está tão baixo que os rios absorvem a chuva como se fossem ralos.

A crise afeta quase todo o Brasil, enfatiza Adriana Cuartas, especialista em recursos hídricos e também do Cemaden. Sudeste e Centro-Oeste estão em pior situação. Exceções são o Sul, parte da Amazônia e o Rio São Francisco até a Hidroelétrica de Três Marias (MG), beneficiado por chuvas mais intensas nas cabeceiras.

Chama a atenção a situação ruim da Bacia do Rio Grande (MG/SP), na qual o reservatório de Furnas está um pouco acima de 30%. Panorama também bastante crítico para as bacias do Sistema Cantareira (Piracicaba, Capivari e Jundiaí) e do Rio Paraíba do Sul. Todas estão em condição de seca excepcional, e volumes em torno de 21% para o Cantareira e 34% para o reservatório do Jaguary, que faz a interligação com o Cantareira.

O esperado seriam aproximadamente 70%, no mínimo 60%, para essa época do ano. No Centro-Oeste, as bacias do Tocantins e do Araguaia passaram janeiro em situação de seca extrema. Já as bacias do Sudeste começaram a ficar críticas lá em 2014, diz Cuartas:

— A situação é ruim e com tendência de piora. A conta de luz vai continuar cara, e o risco de problemas no abastecimento, presente. A energia até pode ser trazida do Norte, mas a água, não. As pessoas olham a chuva, cidades alagadas, e pensam que está resolvido. Mas estamos longe disso, com chuva abaixo da média, muito irregulares e localizadas.

O Sistema Cantareira exemplifica a consequência de chover pouco e no lugar “errado”. Ele abastece São Paulo, mas as cabeceiras de suas três bacias ficam em Minas Gerais. A capital paulista penou com uma semana de enchentes, mas nas nascentes dos rios formadores do sistema a seca imperou.

No Brasil tem chovido não só pouco e no lugar errado, mas literalmente no molhado. Uma pesquisa de Cuartas com outros cientistas brasileiros e estrangeiros, publicada em 2025 na revista “Frontiers of environmental sciences”, revela que neste século as chuvas estão reduzindo nos continentes e crescendo nos oceanos.

Secas mais longas

Ninguém se atreve a dizer como será a próxima estação chuvosa, que começa em outubro. A atual já é considerada perdida. Fenômenos como El Niño e La Niña não influenciam o regime de chuvas do Sudeste e do Centro-Oeste. A estação das chuvas termina em março e não há previsão de que haverá precipitação razoável. E, ainda que caísse muita água, o que é altamente improvável, não seria possível recuperar o cenário.

Marcus Suassuna, hidrólogo do Serviço Geológico do Brasil (SGB), explica que grandes reservatórios levam de dois a três anos, em média, para se recuperar após períodos de escassez. Ele ressalta ainda a situação ruim de bacias naturais, como no Rio Paraguai, que dá vida ao Pantanal.

Nas últimas seis décadas, ano a ano chove menos no Brasil, à exceção do Sul, pontua Seluchi. E, nos últimos 40 anos, a estação chuvosa encurtou 25 dias no Sudeste e no Centro-Oeste, mostrou outro estudo do Cemaden. Isso quer dizer que a estação seca também está quase um mês maior.

Mesmo a chuva da semana passada, associada a uma Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), despejou bem menos água do que o esperado. Segundo Seluchi, possivelmente, os modelos de previsão do tempo superestimaram o volume de precipitação previsto porque não consideraram a umidade tão baixa:

— Isso tem relação com mudanças climáticas, mas também com desmatamento. O Brasil tem desmatado cumulativamente Mata Atlântica e Cerrado, onde estão as cabeceiras dos principais rios do Centro-Sul. Com isso, as nascentes secam, os lençóis freáticos não são repostos.

Uma pesquisa apoiada pelo Movimento Viva a Água, lançado pela Fundação Grupo Boticário, evidenciou o impacto do desmatamento nas reservas de água. Cientistas compararam o comportamento de microbacias do Alto Iguaçu, na Região Metropolitana de Curitiba (PR), sob situação de seca severa. Naquelas com mais de 50% de floresta preservada, a redução de volume d’água de rios não passava de 10%. Já nas desmatadas a diminuição chegava a 50%.

— Manter a cobertura vegetação e restaurar áreas desmatadas é uma medida de adaptação à mudança climática crucial no Brasil e precisa do envolvimento de toda a sociedade — salienta Guilherme Karam, gerente de Economia da Biodiversidade da fundação.

A crise deste ano também insere-se em um cenário global. A ONU declarou oficialmente esta semana que o planeta está em falência hídrica, com 75% da Humanidade vivendo em países classificados como criticamente inseguros e metade tendo que enfrentar pelo menos um mês por ano de escassez severa.


FONTE: O GLOBO

Nova análise revela a extensão do desmatamento ilegal no Brasil

O Instituto Centro de Vida e a Trase publicaram um novo conjunto de dados sobre licenças de desmatamento que pode ajudar empresas, reguladores e instituições financeiras a gerenciar os riscos de desmatamento nas cadeias de suprimentos

A plantação de soja contrastava com o Cerrado brasileiro.Plantação de soja no Cerrado brasileiro.

Por Osvaldo Pereira, Vinícius Silgueiro e Ana Valdiones para a “Trase” 

As regras do mercado global estão agora a intensificar o foco na conformidade legal, juntamente com cadeias de abastecimento livres de desmatamento. Apesar dos atrasos na sua implementação, o Regulamento da UE sobre o Desmatamento levou muitas empresas a investir em sistemas de due diligence para cumprir a sua proibição de produtos cultivados ou produzidos ilegalmente em terras desmatadas. Entretanto, a China, a maior compradora de soja e carne bovina brasileiras, iniciou projetos-piloto de importações livres de desmatamento e conversão , o que aponta para uma crescente procura por cadeias de abastecimento com garantia de legalidade.

No Brasil, os biomas Amazônia e Cerrado estão ameaçados pela expansão das commodities agrícolas. Embora o Código Florestal Brasileiro forneça o arcabouço legal para o uso da terra, a verificação do cumprimento em larga escala continua sendo um desafio. Uma evidência inicial de conformidade é a Autorização para Supressão de Vegetação (ASV) , emitida por órgãos ambientais para permitir a remoção e conversão de vegetação nativa. No entanto, apesar dos esforços recentes para aumentar a transparência e integrar dados, as informações sobre essas autorizações são frequentemente descentralizadas e de difícil acesso, criando uma lacuna significativa de dados. Sem dados transparentes e consolidados sobre as ASVs, é difícil para compradores e órgãos reguladores saberem se uma área específica de desmatamento foi autorizada ou não.

Para suprir essa lacuna de dados, o Instituto Centro de Vida (ICV) publicou um banco de dados sistemático de autorizações para desmatamento de vegetação nativa no Brasil. Essa iniciativa consolida dados disponíveis publicamente sobre autorizações para desmatamento de vegetação nativa, tornando as informações mais acessíveis para avaliar o cumprimento da legislação em regiões impactadas pelo desmatamento no Brasil.

Nova análise revela evidências de descumprimento

A Trase está trabalhando com o ICV para usar esse novo banco de dados e esclarecer ainda mais como os mercados consumidores estão expostos ao desmatamento não autorizado por meio das importações de carne bovina e soja do Brasil. Na primeira etapa deste projeto, comparamos dados oficiais de desmatamento por satélite do PRODES para o período de 2009 a 2024 com as ASVs válidas, a fim de estimar a extensão do desmatamento recente ocorrido sem autorização na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal.

Os resultados mostram uma significativa falta de autorizações públicas para a conversão de vegetação nativa. Tanto na Amazônia quanto no Cerrado, o desmatamento totalizou 26,4 milhões de hectares (Mha) entre 2009 e 2024. Desse total, 22,8 Mha (86%) não possuíam autorizações emitidas para o desmatamento de vegetação nativa, enquanto apenas 3,6 Mha (14%) coincidiam com áreas de uso comum da vegetação nativa. Isso sugere que a maior parte do desmatamento nesses biomas ocorreu sem uma licença registrada e divulgada publicamente (ver nota de isenção de responsabilidade no final).

No Brasil, a maior parte do desmatamento ocorre sem autorização.
Percentual de desmatamento sem Autorização para Supressão da Vegetação (ASV), 2009–2024. Os dados incluem apenas os biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.

Na Amazônia, as evidências de desmatamento irregular são impressionantes. O desmatamento totalizou 11,7 milhões de hectares entre 2009 e 2024, sendo que 11,2 milhões de hectares (96%) ocorreram sem um Sistema de Vigilância de Manejo (SVM). Além disso, o desmatamento irregular apresenta alta concentração geográfica. Apenas cinco municípios foram responsáveis ​​por 20% de todo o desmatamento sem SVM. Três municípios, Altamira, São Félix do Xingu e Porto Velho, responderam por 13% do total de desmatamento irregular.

No Cerrado, o desmatamento total atingiu 14,7 milhões de hectares no período de 2009 a 2024. Embora a proporção de desmatamento não autorizado seja menor do que na Amazônia, a área absoluta é elevada. Constatamos que 11,7 milhões de hectares (78%) do desmatamento ocorreram sem um Acordo de Vigilância de Manejo (AVM), enquanto apenas 3,2 milhões de hectares (22%) foram abrangidos por um AVM. O desmatamento sem AVM é menos concentrado no Cerrado em comparação com a Amazônia. Nossa análise mostra que 29 municípios foram responsáveis ​​por 20% da área total desmatada sem AVM.

Fiscalização menos eficaz no Cerrado

O banco de dados do ICV também inclui informações sobre Áreas Embargadas – sanções emitidas por agências ambientais federais e estaduais que servem como um indicador adicional de infrações ambientais. Comparamos os dados oficiais de desmatamento por satélite do PRODES para o período de 2009 a 2024 com as Áreas Embargadas para fornecer uma camada extra de evidências de descumprimento.

Grande parte do desmatamento na Amazônia está associada a áreas embargadas.
Percentual de desmatamento associado a áreas embargadas, 2009–2024. Os dados incluem apenas os biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.

A análise mostra que 46% de todo o desmatamento na Amazônia coincide com áreas embargadas, o que significa que quase metade do desmatamento não autorizado foi sinalizado por agentes federais.

Em contraste, apenas 8% do desmatamento no Cerrado coincide com áreas sob embargo. Essa discrepância sugere que, embora o descumprimento seja generalizado em ambos os biomas, a fiscalização é muito mais ativa na Amazônia do que no Cerrado.

A fiscalização é mais ativa na Amazônia do que no Cerrado.
Desmatamento por bioma em 2009–2024 e abrangência da Autorização para Supressão da Vegetação (ASV) e Áreas Embargadas. Os dados incluem apenas os biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.

Gestão de riscos nas cadeias de abastecimento de soja e carne bovina

Na próxima etapa deste projeto, liderado pelo Centro de Inteligência Territorial da Universidade Federal de Minas Gerais, focaremos na produção de soja e carne bovina nos biomas Cerrado, Amazônia e Pantanal, avaliando o cumprimento do Código Florestal e identificando casos ligados ao desmatamento irregular, utilizando dados de Áreas de Vegetação Sustentável (AVS) e Áreas Embargadas.

Esses dados permitirão que as empresas a jusante na cadeia de suprimentos que utilizam soja e carne bovina em seus produtos priorizem a devida diligência e a avaliação de riscos, identificando os municípios com as maiores taxas de desmatamento não autorizado. Para os governos produtores e consumidores, isso fornece um roteiro para direcionar recursos de fiscalização e monitoramento onde são mais necessários. Dados transparentes sobre a legalidade são essenciais para fortalecer a responsabilização e apoiar a transição para cadeias de suprimentos legais e livres de desmatamento.

Aviso: Apesar da sólida estrutura legal brasileira que rege a transparência das informações ambientais, existem limitações quanto à completude, formato e acessibilidade dos dados sobre Áreas de Conservação Ambiental (ACAs) e Áreas Embargadas. Consequentemente, deve-se ter cautela no uso e na interpretação dos resultados desta análise. Informações detalhadas sobre a metodologia desta análise podem ser encontradas aqui .


Fonte: Trase

Representação do Cerrado em modelo global aprimora previsões sobre o impacto de incêndios

incêndios no cerradoAvanço na representação do Cerrado contribui para planos de restauração, manejo sustentável e adaptação climática

Bori - Soluções para um conhecimento cieníftico acessível

O Cerrado, segundo maior bioma da América do Sul e um dos mais ameaçados do planeta, ganhou um retrato mais fiel nos modelos climáticos e ecológicos utilizados internacionalmente. Pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) e do Potsdam Institute for Climate Impact Research (Alemanha) desenvolveram um novo tipo funcional de planta, chamado Tropical Broadleaved Savanna Tree (TrBS). Essa representação virtual de uma árvore típica do Cerrado aprimora simulações sobre o impacto do fogo e de outros cenários climáticos na vegetação de savana. 

Publicado em 6 de janeiro na revista Biogeosciences, o trabalho considera características marcantes da vegetação do Cerrado, como as raízes profundas, que podem ultrapassar os 15 metros, e a casca mais espessa. Esses traços, definidos com base em dados de campo e extensa revisão da literatura, conferem às plantas uma notável resiliência ao fogo e à seca — e explicam a estrutura típica da “floresta de cabeça-para-baixo”, com grande parte da biomassa concentrada no subsolo.

Os resultados das simulações mostram que o novo modelo melhora a representação das dinâmicas ecológicas, do ciclo de carbono e das interações entre clima e vegetação. Além disso, passou a refletir com mais precisão a sazonalidade e a extensão das queimadas. A iniciativa foi conduzida por Jéssica Schüler, doutoranda em ecologia pela UnB, com colaboração de Mercedes Bustamante, professora titular da UnB, sua orientadora.

De acordo com Bustamante, a motivação para desenvolver um modelo específico para o Cerrado veio de uma lacuna histórica nos modelos globais. “Apesar da importância das savanas para o ciclo do carbono e da biodiversidade mundial, elas ainda são sub-representadas nas grandes ferramentas de modelagem”, conta. “O Cerrado é um hotspot ameaçado e compreender como ele responde às pressões ambientais é essencial para prever cenários futuros e apoiar a conservação”, afirma a pesquisadora.

Ao reunir informações de campo em larga escala, o modelo ganhou maior capacidade de representar a dinâmica natural da vegetação e a resposta das plantas a fatores ambientais críticos. A profundidade das raízes, por exemplo, se mostrou determinante não apenas para melhorar as simulações no Brasil, mas também em testes globais — sinalizando que estruturas subterrâneas têm papel essencial na organização de savanas em diferentes continentes.

Embora o estudo não tenha incluído simulações específicas sobre os efeitos das mudanças climáticas na frequência ou intensidade das queimadas, ele estabelece a base para que essa análise seja realizada nas próximas etapas. Com o avanço obtido, já estão sendo desenvolvidos modelos que combinam o TrBS com ferramentas mais detalhadas, o que permitirá avaliar a variação de atributos funcionais das plantas e sua resposta a eventos extremos, como seca prolongada e incêndios severos.

Além da relevância científica, modelos mais realistas permitem prever como a vegetação responde ao desmatamento, às mudanças no uso do solo e às pressões climáticas, auxiliando na formulação de planos de restauração, manejo sustentável e adaptação climática. “Compreender a resposta da vegetação a diferentes pressões ambientais nos ajuda a desenhar políticas públicas mais sólidas e alinhadas à realidade brasileira”, destaca Bustamante.

A pesquisa teve financiamento do CNPq, CAPES, INCT–Mudança do Clima e da Conservation International Foundation, além de apoio da União Europeia pelo programa Horizon 2020. A nova fase do estudo já está em andamento, com foco em expandir o entendimento sobre como mudanças climáticas e pressões humanas podem moldar o futuro do Cerrado.


Fonte: Agência Bori

Comunidades tradicionais denunciam destruição causada pelo agronegócio no Cerrado do Piauí

O Coletivo de Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado no Piauí denunciou violações de direitos por empresas do agronegócio e demanda medidas urgentes por parte dos órgãos públicos

A Secretaria do Meio Ambiente do Piauí concedeu licença para o agronegócio se apropriar da água no brejo da comunidade Grinalda do Ouro. Esse é um ataque direto aos territórios tradicionais e significa a morte dos rios no Cerrado.

Na mesma região, a empresa do agronegócio Insolo destruiu a estrada de acesso às comunidades rurais no município de Santa Filomena. Essas comunidades tradicionais habitam a região há gerações e sofrem violência por parte do agronegócio. 

Apoie as comunidades

Escreva para os órgãos estaduais abaixo para apoiar os direitos das comunidades tradicionais do Cerrado e denunciar a destruição do agronegócio:

Ministério Público do Piauí

Defensoria Pública do Piauí

Instituto de Terras do Piauí

Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos

As comunidades demandam ações urgentes do Estado para a proteção de suas vidas e do seu território.

Estudo mostra relação entre exportações de carne bovina brasileira e desmatamento

O Trase mapeia as cadeias globais de suprimentos de commodities agrícolas, fornecendo insights sobre como os mercados consumidores estão vinculados ao desmatamento e outros impactos ambientais por meio de suas importações. Este guia explicativo sobre a carne bovina brasileira apresenta os resultados da nossa análise dos dados mais recentes de 2021, 2022 e 2023  

Desmatamento da carne bovina brasileira

Área desmatada dentro da Floresta Nacional do Jamaxin em Novo Progresso, Pará (Foto: Bernardo Camara/((o))eco)

Por Osvaldo Pereira e Paula Bernasconi para “Trase”

O Brasil é o segundo maior produtor e exportador mundial de carne bovina. Em 2023, produziu 12,9 milhões de toneladas (Mt) de carne bovina, representando cerca de 20% das exportações globais . O setor de carne bovina do Brasil é um dos principais contribuintes para a economia do país, sendo responsável por 8,4% do Produto Interno Bruto (PIB) e cerca de 8,9 milhões de empregos em 2024. A criação de gado ocorre em todas as regiões do Brasil, mas a capacidade e a produção dos frigoríficos estão concentradas nas regiões Centro-Oeste e Norte do país.

A produção de gado bovino concentra-se nas regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil.
Mapa da produção de gado bovino (toneladas de peso de carcaça) no Brasil por município em 2023.

Desmatamento e produção de carne bovina

A análise da Trase mostra que o desmatamento e a conversão anual de vegetação nativa associados à expansão de pastagens aumentaram de 5,5 milhões de hectares (Mha) em 2020 para 7,5 Mha em 2023, um aumento de mais de 36% em quatro anos. A produção de carne bovina aumentou 15% no mesmo período, aproximadamente metade da taxa de aumento do desmatamento e da conversão. Juntos, esses números implicam uma maior intensidade de desmatamento (hectares de desmatamento por 1.000 toneladas de produção) em 2023 do que em 2020, especialmente na Amazônia. Por exemplo, em 2020, 893 ha de vegetação nativa foram convertidos para cada 1.000 toneladas de gado produzido. Esse número aumentou para 1.300 ha em 2023, um aumento de 50% na intensidade de desmatamento em menos de 10 anos.

O desmatamento por tonelada de produção de gado aumentou, especialmente na região amazônica brasileira.
Intensidade anual de desmatamento (hectares de desmatamento por mil toneladas de produção) no Brasil e seus principais biomas produtores de gado.

Uma grande proporção do desmatamento e da conversão de pastagens ocorreu na Amazônia. Entre 2018-20 e 2021-23, o desmatamento médio anual no bioma aumentou 54% (300.000 ha). O desmatamento no Pantanal também aumentou, embora partindo de uma base mais baixa, enquanto o Cerrado diminuiu ligeiramente. Desde 2017, o desmatamento brasileiro para a pecuária tem se deslocado acentuadamente para a Amazônia (62% da participação nacional em 2023 contra 40% em 2017). Pontos críticos recentes de desmatamento concentram-se ao longo das rodovias BR-163 e Transamazônica (sudoeste do Pará, norte do Mato Grosso, Rondônia).

A maior parte do desmatamento tende a se concentrar em um número relativamente pequeno de municípios. Apenas 61 municípios no Brasil foram responsáveis ​​por 50% do desmatamento para pastagem de gado em 2023. Juntos, esses municípios são responsáveis ​​por apenas 11% da produção de gado naquele ano. Apenas quatro municípios, Altamira (Pará), Porto Velho (Rondônia), São Félix do Xingu (Pará) e Lábrea (Amazonas), foram responsáveis ​​por 12% do desmatamento e conversão de pastagens no Brasil em 2023. Isso sugere que concentrar ações em pontos críticos poderia reduzir significativamente o desmatamento e a conversão, com impacto relativamente baixo na produção de gado.

Os dados da Trase utilizados nesta análise abrangem o período de 2020 a 2023. Dados de monitoramento por satélite de 2024 do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (PRODES) mostram que o desmatamento caiu 31% na Amazônia e 26% no Cerrado. A redução é atribuída às medidas de controle da perda florestal adotadas pelo governo federal desde 2023, em contraste com a política de enfraquecimento da proteção florestal do governo anterior. Esses resultados serão registrados em futuras atualizações dos dados da Trase.

Principais focos de aumento do desmatamento vinculados à produção de carne bovina no Brasil
Taxa de variação anual (%) do desmatamento e conversão para pastagem (2015–2023) nos municípios que responderam por 95% da produção de carne bovina em 2023. Quanto maior o valor, maior o aumento do desmatamento recente.

Mercados e comerciantes

Embora cerca de 70% da carne bovina brasileira seja consumida internamente, a participação das exportações cresceu na última década. A China é o principal mercado exportador da carne bovina brasileira, respondendo por 59% em 2023, seguida pelos Estados Unidos (8%) e pela União Europeia (5%). A China também é o mercado exportador com maior exposição ao desmatamento, aumentando de 124.000 ha em 2015 para 564.000 ha em 2023.

As importações de carne bovina brasileira pelos EUA têm aumentado de forma constante desde 2019 devido ao aumento da demanda. Os volumes aumentaram de 74.500 (2015) para 264.000 toneladas (2023), e a exposição associada ao desmatamento aumentou de 1.700 ha para 52.900 ha.

A participação da UE nas exportações de carne bovina do Brasil caiu nos últimos anos para 3% em 2023. Sua exposição média ao desmatamento entre 2015 e 2023 foi de cerca de 28.000 ha por ano, com uma participação média global de 5%. Em termos absolutos, a exposição da UE ao desmatamento foi de 25.000 ha em 2015 e 27.000 ha em 2023.

As importações chinesas de carne bovina brasileira apresentam a maior exposição ao desmatamento
Participação global anual (%) da exposição ao desmatamento (2015-2023) dos cinco maiores importadores de carne bovina brasileira em 2023.

As três maiores tradings, JBS, Marfrig e Minerva, aumentaram suas exportações em cerca de 43% entre 2015 e 2023, enquanto sua exposição combinada ao desmatamento aumentou 44%. Juntas, elas representam 67% das exportações em 2023 e 54% da exposição ao desmatamento e conversão. De acordo com seus próprios relatórios, as exportações representam 24%, 39% e 57% da carne bovina fornecida pela JBS , Marfrig e Minerva , respectivamente. O volume restante foi consumido internamente. Os resultados mostram que essas três tradings de carne bovina têm considerável influência na redução do desmatamento associado às exportações de carne bovina.

A participação da JBS na exposição total ao desmatamento caiu de mais de 37% em 2015 para 29% em 2023. A participação da Minerva permaneceu praticamente estável no período, enquanto a da Marfrig aumentou de 10% para 12%. Embora sua participação coletiva na exposição tenha diminuído, a exposição absoluta atribuída a esses traders ainda aumentou, refletindo a expansão geral das exportações, especialmente para a China.

JBS é a empresa mais exposta ao desmatamento devido às suas exportações de carne bovina brasileira
Participação global anual (%) de exposição ao desmatamento (2015-2023) das três maiores empresas exportadoras de carne bovina brasileira em 2023.

Compromissos da empresa com desmatamento e conversão zero (ZDCs)

As ZDCs no setor bovino compreendem o Compromisso Público da Pecuária firmado pelos maiores frigoríficos que operam na Amazônia, também conhecido como acordo G4, e o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para carne bovina, que abrange outros frigoríficos na Amazônia. Segundo ambos os acordos, os frigoríficos não podem comprar gado de fazendas com desmatamento na Amazônia após 2009. No entanto, enquanto o acordo G4 compromete as empresas a prevenir qualquer desmatamento, o TAC exige apenas a prevenção do desmatamento ilegal. Há também um número crescente de compromissos corporativos individuais abrangendo o Cerrado e outros estados da Amazônia onde os TACs não estão disponíveis, como Maranhão e Tocantins.

A partir de 2015, a cobertura das ZDCs expandiu-se substancialmente. Em 2015, a maior parte da carne bovina (70%; 1,42 Mt) não foi produzida e exportada sob qualquer compromisso, enquanto o TAC cobriu 25% (0,51 Mt) e o G4, 4% (0,09 Mt) dos volumes de carne bovina. Em 2023, ocorreu o oposto: cerca de 70% da carne bovina foi coberta pelas ZDCs, com os compromissos das empresas aumentando para 40% (1,26 Mt) e o TAC para 29% (0,91 Mt).

Os compromissos de desmatamento zero aumentaram para cobrir a maior parte das exportações de carne bovina brasileira.
Volume de carne bovina exportada por empresas com ou sem compromissos de desmatamento zero e conversão, 2015–2022.

Emissões de gases de efeito estufa

As emissões brutas de gases de efeito estufa associadas às exportações de carne bovina brasileira aumentaram na última década de 168 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente em 2015 para 380 Mt CO₂-eq em 2023 – um aumento de cerca de 46%.

A maior parte das emissões provém do desmatamento e da conversão na Amazônia. Em 2023, a Amazônia foi responsável por 73% do desmatamento relacionado a pastagens no Brasil (138 Mt CO₂-eq), enquanto o Cerrado contribuiu com 22% (41 Mt CO₂-eq) e o Pantanal com 3,6% (6,7 Mt CO₂e). As emissões do Cerrado permaneceram praticamente estáveis ​​entre 2015 e 2023, enquanto as emissões do Pantanal praticamente dobraram a partir de uma pequena base em 2015 (2,8 Mt CO₂-eq).

As três maiores comerciantes de carne bovina, JBS, Marfrig e Minerva, têm a maior exposição a emissões. Juntas, elas respondem por 52% das emissões em 2023 (JBS 28%, Minerva 13%, Marfrig 11%). As tendências variam ao longo do tempo: as emissões da JBS são cerca de 10% menores entre 2015 e 2023, a Minerva caiu 13%, enquanto a Marfrig se mantém estável em 10% ao longo dos anos. Embora a participação combinada das três grandes permaneça substancial, essas mudanças sugerem que parte do crescimento das emissões desde 2015 foi contabilizado por outros exportadores. A maioria dos novos contribuintes está no estado do Pará, onde comerciantes como Mercurio Alimentos e Frigol, juntas, responderam por 12% das emissões atribuídas exportadas em 2023, em comparação com apenas 6% em 2015.

JBS, Minerva e Marfrig respondem pela maior parcela das emissões de gases de efeito estufa provenientes da comercialização de carne bovina brasileira.
Participação da empresa nas emissões brutas de gases de efeito estufa (2015-2023) das cinco maiores comercializadoras de carne bovina brasileira em 2023 (inclui apenas a comercializadora conhecida).

Os autores agradecem aos pesquisadores e cientistas de dados que contribuíram para esta análise: Harry Biddle, Florian Gollnow, Nicolás Martín, Carina Mueller e Jailson Soares.

Explore e baixe os dados da carne bovina brasileira em trase.earth

Para referenciar o conjunto de dados, utilize a citação: zu Ermgassen, EKHJ, Suavet, C., Biddle, H., Su, N., Prada Moro, Y., Ribeiro, V., Carvalho, T., & Lathuilliere, M. (2025). Cadeia de suprimentos de carne bovina do Brasil 2010–2017 e 2019–2023 (Versão 2.2) [Conjunto de dados]. Trase. https://doi.org/10.48650/AYAA-HH56

Uma explicação detalhada da metodologia da Trase está disponível em: Trase. (2025). Mapa da cadeia de suprimentos da carne bovina brasileira SEI-PCS v2.2: Fontes de dados e métodos. Trase. https://doi.org/10.48650/CP2S-SP59

Para consultar este artigo, utilize a citação: Pereira, O., & Bernasconi, P. (2025). Exportações brasileiras de carne bovina e desmatamento. Trase. https://doi.org/10.48650/6VK3-2S18


Fonte: Trase

Boom do eucalipto no Cerrado brasileiro seca nascentes e expulsa pequenos produtores

Por Shanna Hanbury para o “Mongabay”

Um boom de plantação de eucalipto no Cerrado brasileiro está secando terras e nascentes de água, dificultando a agricultura de subsistência, disseram autoridades locais e agricultores à Mongabay.

Adilso Cruz, um fazendeiro de 46 anos do assentamento Alecrim, no Mato Grosso do Sul, relata que a escassez de água começou por volta de 2013, coincidindo com o crescimento das plantações de eucalipto na região, e piorou desde então.

“Os riachos que costumavam funcionar o ano todo começaram a fluir menos, secando e depois levando muito tempo para encher novamente”, diz Cruz. “A grama está sofrendo porque a água está desaparecendo da camada superficial do solo.”

“Eu tinha 70 cabeças de gado. Agora tenho 42, e vou precisar vender mais”, acrescenta. À medida que fazendeiros vendiam suas terras para plantações de eucalipto, também vendiam seus rebanhos, fazendo com que o preço do gado despencasse. “Eu estimo uma queda de cerca de 45% na renda”, relata Cruz.

Um estudo liderado por Valticinez Santiago, vice-secretário de Meio Ambiente de Selvíria, um município com alta produção de eucalipto, descobriu que as nascentes localizadas a 50 metros das plantações, o mínimo legal, secaram ou foram severamente degradadas. Santiago relatou à Mongabay que eles usaram imagens de satélite para mapear 400 nascentes cercadas por fazendas de eucalipto e agora recomendam expandir a zona de amortecimento para 500 metros, para proteger melhor as fontes de água.

A extensão das fazendas de eucalipto no Mato Grosso do Sul quadruplicou em 15 anos, passando de pouco mais de 375 mil hectares em 2010 para 1,6 milhão de hectares em maio de 2025.

Mapa: Andrés Alegría/Mongabay.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou uma lei em maio de 2024 que elimina a necessidade de licenças ambientais para o eucalipto. Na prática, relata Santiago à Mongabay, as autoridades não podem mais acessar terras privadas para avaliar os impactos ambientais sem um mandado, o que é difícil de obter sem evidências no local.

Cerca de 90% das fazendas são de propriedade de grandes bancos de investimento.

Empresas como Apple, Meta e Microsoft investiram milhões em eucalipto para compensar suas emissões de carbono. No entanto, críticos dizem que o eucalipto não é eficaz no sequestro de carbono, pois as árvores são colhidas a cada seis anos e transformadas em celulose para papelão e papel higiênico, o que significa que qualquer carbono armazenado é facilmente liberado na atmosfera.

Cruz conta que cerca de metade das famílias já deixou seu assentamento. Os que restam estão lutando para sobreviver e muitas vezes precisam de trabalho extra com as empresas de eucalipto.

“Muitas pessoas aqui acabam fornecendo mão de obra para as mesmas pessoas que estão tirando sua capacidade de produzir alimentos e ter liberdade financeira”, diz Cruz. “Esta terra era algo pelo qual lutamos. Foi um sonho. Mas muitos estão vendo esse sonho desmoronar e se sentem forçados a se resignar”.

Imagem do banner: Vista aérea de toras de eucalipto. Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil


Fonte: MongaBay

PL da Devastação: entrevista no SBT News sobre a aprovação do fim do licenciamento ambiental no Brasil

Na tarde desta 5a. feira (17/7) concedi uma entrevista no programa Poder Expresso do SBT News de Brasília sobre os impactos mais graves que decorrerão da aprovação do PL da Devastação na madrugada de hoje pela Câmara de Deputados (ver vídeo abaixo).

Além de reforçar os problemas mais óbvios que decorrerão da implementação da nova legislação sobre a proteção do ambiente no Brasil, reforcei a necessidade de que o presidente Lula vete integralmente o PL da Devastação.  Também abordei a importância da mobilização popular para fazer com que o presidente Lula faça o que tem de ser feito que vetar integralmente essa legislação esdrúxula.

Latifúndio é responsável pela perda de 27% da vazão de água dos rios no Cerrado, aponta relatório

No mesmo período, o latifúndio consolidou uma nova fronteira agrícola no Cerrado, com aumento de áreas destinadas ao plantio de soja
Rios do Cerrado perderam 27% das águas. Foto: Divulgação/André Dib/Ambiental Media
Por Redação de AND 

A vazão de água dos rios do Cerrado brasileiro caiu em 27% desde a década de 1970, segundo o relatório Cerrado: O Elo Sagrado das Águas do Brasil, publicado pela Ambiental Media no dia 23 de junho. Sendo este um bioma com forte atuação do latifúndio com uma fronteira agrícola em atividade, os dados são reveladores quanto à atuação lesiva do “agronegócio” sob o meio natural.

O relatório levanta dados a partir de 51 anos de informações coletadas em relatórios da Agência Nacional da Água (ANA). Entre outros dados alarmantes, destaca-se o que se refere ao desmatamento: entre 1985 e 2022, o desmatamento no Cerrado para o cultivo da soja passou de 65,3 mil hectares para 211,5 mil hectares, um aumento de 300% da área desmatada. Este cenário impacta o regime de chuvas, dado que as florestas desempenham papel chave na ciclagem da água através da evapotranspiração: nos anos de 1970, a evapotranspiração era de 117,87 mm, entre 2012 e 2021, o número saltou para 131,63 mm, números que dizem respeito à perda de água para a atmosfera.

O resultado desses números aponta uma redução drástica no regime de chuvas: na divisa entre o Maranhão e o Piauí, houve uma redução de 38% da pluviosidade. Na bacia do Rio São Francisco, houve uma diminuição de 20% da pluviosidade, sendo um dos fatores que ocasionaram a queda de 50% da vazão do rio. O Rio São Francisco, particularmente, abastece um total de 507 municípios entre o Nordeste e o Centro-Oeste brasileiro, e a diminuição da sua vazão representa uma ameaça para milhões de camponeses que habitam o semiárido

Matopiba: O latifúndio contra o meio natural

Não é à toa que os dados mostram o aprofundamento de uma crise hídrica no Cerrado a partir dos anos de 1970: foi neste período de tempo que se consolidou neste bioma a mais recente fronteira agrícola do Brasil, o chamado Matopiba – região de divisa entre os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que concentrou um crescimento de 7,023% da área destinada ao plantio de commodities, principalmente soja. 

O latifúndio que atua no Matopiba dispõe de uma grande quantidade de incentivos estatais e tecnologias. O Cerrado concentra 80% de todos os pivôs centrais de irrigação de toda a América Latina (sistemas de irrigação utilizados para o cultivo da soja). Enquanto o latifúndio dispõe de licenças para o uso da água, concedidas pelo Estado, os camponeses da região são acometidos pela crise hídrica.

Em 2017, camponeses da cidade de Correntina, no Oeste baiano, região integrante do Matopiba, protestaram contra o latifúndio Igarashi, que monopolizava as outorgas de uso da água e era responsável pela redução do nível das águas do Rio Arrojado, que abastece as terras dos camponeses pobres da região. As instalações de irrigação do latifúndio foram destruídas pela fúria das massas. A crise hídrica se mostra, portanto, um ponto sensível da luta pela terra, e seu aprofundamento é de total responsabilidade do latifúndio.


Fonte: A Nova Democracia