Desmatamento para instalação de monoculturas está causando o colapso dos estoques de carbono na transição Amazônia-Cerrado

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Pouco dias depois da mídia corporativa dar destaque à publicação assinada pelos pesquisadores Carlos Nobre e Thomas Lovejoy sobre a iminente aproximação de um limiar de colapso para a floresta amazônica, recebi um artigo que deveria também receber a devida atenção, pois as descobertas que o mesmo traz adicionam ainda mais luz sobre os intrincados processos disparados pelo processo de desmatamento para a implantação de monoculturas nos estoques de carbono dos solos.

O trabalho intitulado “Collapse of ecosystem carbon stocks due to forest conversion to soybean plantations at the Amazon-Cerrado transition” (ou em português “Colapso dos estoques ecossistêmicos de carbono devido à conversão de florestas em monoculturas na transição Amazônia-Cerrado) foi publicado pela revista “Forest Ecology and Management” e tem como autora principal a professora Isabelle Bonini do campus da Universidade Estadual do Mato Grosso no município de Xavantina (ver imagem abaixo).

estoques carbono

A principal descoberta do estudo tem a ver com a produção de estimativas para as perdas de pelo menos um terço do estoque de carbono existentes nos solos após a implantação das monoculturas, fossem elas compostas por culturas temporárias (soja, por exemplo) ou permanentes (plantios de árvores).  Também encontradas diminuições significativas nos sistemas de raízes finas, inclusive nas monoculturas de árvores. Mais importante ainda foi a diminuição do estoque de carbono na biomassa acima do solo.  Esta perda foi associada à remoção anual da soja, a qual remove  anualmente quantidades significativas de carbono deste compartimento.

Como resultado desse processo de conversão de florestas em monoculturas, os autores do estudo detectaram grandes perdas na biodiversidade e a perda de importantes funções cumpridas pelos ecossistemas que estão sendo impactados pelo desmatamento. Mas mais importante ainda foram as estimativas obtidas para a emissão de carbono para a atmosfera, resultados esses que poderão aperfeiçoar a acurácia e a precisão dos modelos climáticos existentes.

Enquanto isso, o Supremo Tribunal Federal analisa os trechos mais polêmicos do chamado Código Florestal, mantendo intactos alguns elementos para os quais a comunidade científica já ofereceu evidências suficientes para a sua proibição.  Em suma, como prova mais este trabalho, a facilitação do processo de destruição dos biomas amazônicos e do Cerrado não está se dando por falta de conhecimento científico, mas sim pela decisão de ignorar o que a ciência já produziu,  apenas para que o processo de agricultura destrutiva adotada pelo latifúndio agroexportador continue avançando impune.

 

 

A seca no sudeste brasileiro e o desmatamento na Amazônia e no cerrado

O meteorologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Antonio Nobre, está causando furor internacional com seu alerta de que o desmatamento na bacia Amazônica é responsável pela falta de chuvas que castiga atualmente partes do Brasil (Aqui! e Aqui!). A tese de Nobre, a qual ele defende já faz algum tempo e tem bases científicas que é a da “savanização da Amazônia”, estipula, entre outras coisas, que o desmatamento diminui a taxa de umidade que chega ao centro sul do Brasil e contribui para a ocorrência de chuvas.

Como venho estudando as mudanças da cobertura vegetal na Amazônia há mais de duas décadas, acredito que Nobre está parcialmente correto e, na prática, não está afirmando nada que a ciência já não tenha prognosticado. A novidade real é que Nobre está colocando em xeque a versão idílica que foi propagada nos últimos três governos, com a ajuda preciosa de “cientistas amigos”, de que o problema do desmatamento estaria controlado na parte brasileira da Amazônia.  O fato é que não está, e as ações estruturantes no âmbito do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) acabaram contribuindo para o aumento da remoção da cobertura vegetal a partir de projetos hidrelétricos, ferrovias e estradas.

Essa separação entre programas de fortalecimento da infra-estrutura e a proteção ambiental foi iniciada de forma mais objetiva no primeiro mandato do ex-presidente Lula, sob a batuta do “ecologismo de resultados” de Marina da Silva, e ganhou aceleração após a entrada de Carlos Minc e Izabella Teixeira no comando do Ministério do Meio Ambiente. Esses dois passaram de uma versão mais pragmática para outra de concessão escancarada de licenças ambientais e de falta de controle sobre os diferentes agentes que causam o aumento da perda da floresta amazônica.

Agora com as declarações de Nobre é provável que ele caia em desgraça dentro do governo Dilma Rousseff, onde ocupou cargos importantes. Por outro lado, é provável que a pressão (cínica é preciso dizer) dos países ricos para que o Brasil faça alguma coisa para conter o processo de desmatamento, visto que as repercussões climáticas da perda da floresta amazônica ultrapassam os limites nacionais, impactando até parte do hemisfério norte. É esse aumento da pressão que talvez, eu disse talvez, causem algum tipo de tratamento sério do problema. Do contrário, a soma de projetos do PAC com a ação descontrolada do agronegócio vão causar ainda mais perda de floresta nativa na Amazônia.

Um problema que parece ter sido esquecido por Antonio Nobre, ou omitido pela imprensa, é que outros biomas importantes estão sendo alvo do avanço do desmatamento, principalmente o cerrado e a caatinga. Esses dois biomas são igualmente importantes para a regulação climática e para o equilíbrio hídrico, mas são convenientemente tratados como secundários, coisa que não são. E aqui, novamente, há que se lembrar dos diversos projetos do governo federal que contribuem para a perda de áreas desses biomas, e que são apresentados sob a capa protetora do “desenvolvimento econômico”. 

Finalmente, a seriedade da questão deveria ser objeto de uma discussão prática e responsável por parte das autoridades federais que seguram boa parte da estrutura logística que poderia ser usada para começar a atacar o problema. Contudo, com os anúncios de que Kátia Abreu, dublê de latifundiária e senadora, poderá ser a próxima ministra da Agricultura não me deixa muito otimista sobre a capacidade do governo Dilma mudar o seu curso de comportamento. A reação se vier terá que vir da sociedade brasileira e dos movimentos sociais organizados. Ai é que mora a chave do problema: quem é que vai ousar atacar a esfinge?